Suínos
Especialistas apontam como garantir que a hiperprolificidade se traduza em produtividade real no campo
Com leitegadas cada vez mais numerosas e leitões mais leves, o desafio de transformar o potencial genético em desempenho produtivo sustentável tem mobilizado as principais empresas de genética suína no país.

Com leitegadas cada vez mais numerosas e leitões mais leves, o desafio de transformar o potencial genético em desempenho produtivo sustentável tem mobilizado as principais empresas de genética suína no país. A busca por soluções que aliem prolificidade, viabilidade e desempenho será o ponto central do painel Hiperprolificidade: como a genética está trabalhando para que o potencial genético aconteça no campo, um dos destaques da programação técnica do 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), que acontece nesta semana em Chapecó (SC).
Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, representantes das principais empresas de genética suína no Brasil detalharam os principais entraves e as estratégias adotadas para transformar os avanços obtidos com a seleção de fêmeas hiperprolíficas em maior número de leitões desmamados, com saúde, viabilidade e uniformidade. Durante o painel, os especialistas também vão apresentar como suas genéticas vêm trabalhando para garantir que as porcas mais produtivas também entreguem leitegadas de qualidade, sustentando essa eficiência ao longo de toda a cadeia de produção.

Médica-veterinária Amanda Pimenta Siqueira, e gerente de Serviços Técnicos da Agroceres PIC: “A plena expressão do potencial das fêmeas exige uma atuação integrada entre genética, manejo, nutrição e ambiente” – Foto: Divulgação/Agroceres PIC
Para a médica-veterinária, doutora em Ciência Animal e gerente de Serviços Técnicos da Agroceres PIC, Amanda Pimenta Siqueira, os avanços genéticos têm gerado fêmeas mais produtivas e leitões mais vigorosos. “Essa evolução decorre do foco de seleção em características como prolificidade, peso ao nascimento e habilidade materna, elementos-chave para impulsionar produtividade, eficiência e rentabilidade”, enaltece.
Segundo dados do Benchmarking de Reprodução da empresa, em 10 anos a média de leitões nascidos totais por fêmea passou de 14,32 em 2015 para 16,73 em 2025; no mesmo período, o número de desmamados por fêmea ao ano aumentou de 30,94 para 35,39. Em granjas de alto desempenho, já se ultrapassam os 18 leitões por parto e 36 desmamados ao ano. “Todo esse progresso, no entanto, traz consigo novos desafios. A plena expressão do potencial das fêmeas exige uma atuação integrada entre genética, manejo, nutrição e ambiente”, afirma Amanda.
Segundo ela, a matriz hiperprolífica precisa ser tratada com um olhar mais individualizado. “É indispensável oferecer uma alimentação balanceada, água de boa qualidade, ambiência adequada, instalações compatíveis e equipes capacitadas para esse novo perfil de animal. A genética entrega, mas o resultado depende da eficiência do sistema como um todo”, salienta.
Atenção redobrada ao parto e colostro
Com foco no melhoramento genético realizado de forma balanceada, o zootecnista Marcos Lopes, doutor em Melhoramento Genético Animal e pesquisador do Centro de Pesquisa da Topigs Norsvin, na Holanda, destaca que se a seleção é feita com equilíbrio, não focando apenas em prolificidade, mas também em características complementares, o trabalho com fêmeas hiperprolíficas se torna mais previsível e manejável.
Para ele, a principal mudança está na forma de encarar esse novo animal. “A porca de hoje não é mais aquela que desmamava 20 a 25 leitões ao ano. Ela exige um programa nutricional específico e um ambiente preparado. É preciso abandonar a ideia de que o manejo tradicional serve para essa nova realidade. Desde o pré-parto até a ingestão do colostro, tudo precisa ser planejado. É nesse início de vida que se define boa parte do sucesso do leitão nas fases seguintes”, enfatiza.
Resultados x complexidade da produção
O médico-veterinário Geraldo Shukuri, diretor técnico da DanBred Brasil, lembra que, ao ultrapassar a média de 16 a 16,5 leitões nascidos vivos por parto, os desafios naturalmente se intensificam. Mas ele vê isso como oportunidade. “Com leitegadas volumosas, questões como uniformidade e vigor ao nascimento, habilidade materna e capacidade de produção leiteira da matriz se tornam ainda mais críticas. É aí que o trabalho conjunto entre genética e ambiente se torna indispensável”, ressalta.
Shukuri ressalta que avanços em nutrição, ambiência e sanidade têm sido fundamentais para melhorar o aproveitamento dos leitões. “O campo tem respondido bem. A troca de informações entre as áreas de manejo, nutrição e sanidade tem permitido ganhos consistentes, com mais quilos produzidos por matriz por ano e menor custo de produção”, afirma, acrescentando: “O desafio é dinâmico e o ajuste contínuo.”
Da prolificidade à hiperprolificidade
Para o médico-veterinário Thomas Bierhals, mestre em Reprodução Suína, diretor técnico e membro do Conselho de Administração da DNA South America, o cenário atual exige uma nova forma de mensurar o sucesso da genética. “Há 20 anos, tínhamos médias de 10 leitões nascidos vivos. Hoje, a média nacional já ultrapassou 14. Mas a partir de certo ponto, o benefício econômico de cada leitão adicional passou a cair, especialmente porque outras variáveis se tornaram limitantes”, explica.
Entre essas variáveis, Bierhals menciona a mão de obra especializada e a estrutura física das maternidades, duas exigências que nem sempre evoluíram na mesma velocidade do melhoramento genético. “Nasceu, mas não desmamou. Esse é o ponto crítico. Por isso, programas de seleção genética mais avançados começaram a ajustar os critérios. O conceito de hiperprolificidade expandida surge nesse contexto: trata-se de garantir o máximo de suínos abatidos com valor cheio, ao menor custo possível”, resume.
Genética em busca de equilíbrio

Médico-veterinário Geraldo Shukuri, diretor técnico DanBred Brasil: “O melhoramento genético tem mostrado que alguns paradigmas podem ser reavaliados e que o equilíbrio entre quantidade e qualidade é possível” – Foto: Divulgação/DanBred Brasil
A transformação da suinocultura passa pela busca incessante por equilíbrio entre o número de leitões nascidos e a sua viabilidade até o desmame. Se antes o foco principal era aumentar prolificidade, hoje os programas genéticos evoluíram para integrar, cada vez mais, critérios de qualidade, robustez e habilidade materna. A boa notícia é que esse equilíbrio já está em curso, segundo os especialistas ouvidos com exclusividade por O Presente Rural.
A doutora em Ciência Animal explica que, embora o índice de seleção da PIC sempre tenha valorizado o número total de nascidos, com ganhos médios recentes de 0,35 leitões por parto, o objetivo atual vai além da quantidade. “Desde a introdução da genômica, em 2012, intensificamos a seleção para características como peso ao nascimento e sobrevivência pré-desmame. Houve ganho médio de 260 gramas por leitão ao nascer e a taxa de leitões abaixo de 900 gramas caiu para 6%”, detalha Amanda, ressaltando que com isso nasceram leitegadas mais uniformes, com maior chance de sobrevivência e melhor desempenho nas fases subsequentes.
Na mesma direção, Shukuri destaca que a busca por esse equilíbrio é constante e vem se materializando com solidez. A DanBred Brasil incorporou, já em 2004, a característica LV5 (leitões vivos ao quinto dia), com o objetivo de aumentar nascidos e reduzir mortalidade na maternidade. “Durante anos, essa foi a característica de maior peso em nosso índice genético. A partir de 2022, intensificamos ainda mais a seleção para características de vigor e resistência dos leitões, que hoje representam 62% do peso do índice”, expõe o médico-veterinário.
O programa também introduziu a característica “ganho de peso da leitegada”, com foco na capacidade de amamentação e habilidade materna da matriz. “A evolução tem ocorrido de forma simultânea entre quantidade e qualidade, e esse equilíbrio já é possível no campo”, ressalta.
Esse alinhamento entre múltiplos objetivos genéticos também está no centro da estratégia da Topigs Norsvin. De acordo com o doutor em Melhoramento Genético Animal, o segredo está na seleção balanceada. “Incluir várias características nos objetivos de seleção pode tornar os avanços mais lentos, mas certamente mais sustentáveis. Trabalhamos para ampliar o tamanho da leitegada mantendo o peso médio ao nascimento, com alta uniformidade e excelente habilidade materna”, diz, enaltecendo que o resultado desse enfoque integrado é medido em produtividade real: “Hoje conseguimos desmamar mais de 300 kg de leitões fêmea ao ano por matriz”, afirma Lopes.
Já Bierhals, reforça que o equilíbrio está sendo construído com base em inovação e ciência. O programa da DNA South America passou a incorporar características como sobrevivência dos leitões, associação entre peso ao nascer e LV5, redução de defeitos genéticos (como hérnias e criptorquidismo), além de eficiência alimentar, tanto no pós-desmame quanto na fase lactacional, para garantir mais leite e menor necessidade de mães de leite. “A fêmea de hoje precisa produzir mais e melhor, por conta própria”, menciona.
Outro diferencial apontado por Bierhals é o uso de ferramentas tecnológicas como o software Matesel, que cruza informações sobre variabilidade genética, resistência a doenças e características produtivas. “É uma seleção baseada em matemática e ciência, não apenas na observação humana. Isso permite ganhos em múltiplas frentes simultaneamente”, evidencia.
Amanda também destaca o papel crescente dos dados de campo para retroalimentar os programas genéticos. “Desde 2018, o GNxBred Materno avalia mais de 200 mil fêmeas ao ano em granjas comerciais. Esses dados são incorporados ao programa de seleção, promovendo avanços consistentes sob condições reais de produção”, comenta.
Quando o campo precisa acompanhar o ritmo da genética

Médico-veterinário Thomas Bierhals, mestre em Reprodução Suína, diretor técnico e membro do Conselho de Administração da DNA South America: “A verdadeira expressão da hiperprolificidade expandida, aquela que se estende até o abate, só acontece com genética de qualidade aliada a campo bem estruturado” – Foto: Divulgação/DNA South America
Se o avanço genético aponta o caminho, é no campo que ele precisa se concretizar. Com fêmeas mais exigentes e leitegadas mais numerosas, a hiperprolificidade impõe uma nova rotina de cuidados e ajustes nas granjas, do tipo de dieta ao perfil da mão de obra. Nesse cenário, o diálogo entre genética, manejo, nutrição e ambiência se torna fundamental para que o potencial registrado nos índices se converta, de fato, em produtividade e retorno econômico.
Amanda ressalta que é a genética quem tradicionalmente lidera a transformação produtiva da suinocultura. “Ela aponta as tendências, induz a evolução e puxa as demais áreas – manejo, nutrição, gestão e ambiência – a novos patamares”, afirma.
Segundo a doutora em Ciência Animal, estudos da equipe técnica da Agroceres PIC projetam, para os próximos 10 anos, indicadores de desempenho ainda mais ambiciosos: 304,3 kg de leitão desmamado por matriz/ano, 19,1 leitões por leitegada e até 47 por fêmea/ano. Mas ela faz um alerta: “Nada disso se sustenta sem o suporte técnico adequado. A fêmea moderna exige dietas específicas, ambiência controlada, água de qualidade e mão de obra qualificada. É uma sinergia que precisa funcionar para que o que está no índice genético não se perca na prática”, evidencia Amanda.
Shukuri reforça essa necessidade de integração. “A genética precisa interagir com todas as áreas técnicas da cadeia. É um trabalho feito a várias mãos, em que a troca de informações entre pesquisadores, consultores e granjeiros permite ajustar os manejos e consolidar as práticas que realmente fazem o potencial genético se expressar no campo”, afirma.
Segundo o médico-veterinário, essa conexão entre pesquisa, campo e indústria tem gerado soluções práticas e uma perspectiva otimista de desempenho nas granjas brasileiras. “A interação técnica e a troca de informações com todos os elos da cadeia geram soluções personalizadas para cada realidade de produção”, reforça.
Lopes compartilha desta mesma opinião, enfatizando que o sucesso do sistema passa pela colaboração entre todas as áreas que atuam na suinocultura. “Genética, nutrição, sanidade e manejo têm um objetivo comum: o sucesso do produtor. E isso só é possível com diálogo. Eventos como o SBSS têm esse papel estratégico, compartilhar bons exemplos e integrar experiências entre diferentes elos da cadeia”, observa.
Já Bierhals, alerta para o risco de supervalorizar as melhorias de ambiente como únicas responsáveis pela performance. “Ganhos ambientais são importantes, mas são temporários. Quando o lote vai embora, o ganho vai junto. Já os ganhos genéticos são permanentes, uma vez incorporados, seguem com a população”, argumenta.
Para ele, o papel da genética vai além da seleção: está também em orientar, com base em dados concretos, o que cada sistema pode ajustar para extrair o máximo da fêmea hiperprolífica. “Chamamos isso de interação genótipo-ambiente. A genética observa os resultados nos mais diversos sistemas e ambientes e, a partir disso, indica quais condições favorecem a expressão do potencial dos animais”, detalha, emendando: “Isso inclui, por exemplo, alertas sobre aumento da duração gestacional com leitegadas maiores ou recomendações sobre o espaço físico necessário na maternidade.”
Além disso, Bierhals aponta que a seleção vem se concentrando cada vez mais em características robustas, que facilitam o manejo e reduzem a dependência de intervenção humana: resistência a doenças, maior peso ao nascer, menor incidência de defeitos congênitos, habilidade materna superior e eficiência alimentar por meio de maior consumo e conversão. “A verdadeira expressão da hiperprolificidade expandida, aquela que se estende até o abate, só acontece com genética de qualidade aliada a campo bem estruturado”, reforça.
Potencial genético pede estrutura e preparo

Zootecnista Marcos Lopes, doutor em Melhoramento Genético Animal e pesquisador no Centro de Pesquisa da Topigs Norsvin, na Holanda: “A suinocultura que queremos construir precisa manter o foco em eficiência, mas também em sustentabilidade. A genética pode e deve ser a força propulsora dessas transformações, sempre em sintonia com o campo, com responsabilidade e com os limites naturais da biologia” – Foto: Divulgação/Topigs Norsvin
A convergência entre genética e práticas de manejo não é mais uma opção, mas uma exigência da suinocultura atual. A fêmea hiperprolífica de hoje é mais produtiva, mas também mais exigente, e isso demanda um novo olhar sobre todo o sistema produtivo. “As práticas que funcionavam no passado já não dão conta de explorar todo o potencial das fêmeas de genótipo moderno”, frisa Amanda, destacando que para que o desempenho expresso nos índices genéticos se concretize no campo, é preciso adequar estrutura de granja, qualidade de ambiência, formulação das dietas, oferta de água, conforto térmico e, principalmente, capacitação das equipes. Só assim o potencial se transforma em resultados consistentes.
Na visão de Shukuri, a hiperprolificidade já não está mais vinculada, como antes, a leitegadas menos uniformes ou com baixa sobrevivência. “O melhoramento genético tem mostrado que alguns paradigmas podem ser reavaliados e que o equilíbrio entre quantidade e qualidade é possível. Os animais de hoje produzem mais, sobrevivem mais, desempenham melhor e certamente ainda haverá muitos avanços adiante”, aponta.
Mas essa evolução precisa andar lado a lado com responsabilidade e sustentabilidade. “Leitegadas numerosas acompanhadas de altas taxas de mortalidade pré-desmame ou de mortalidade de fêmeas não podem mais ser aceitáveis”, alerta Lopes.
De acordo com ele, matrizes com boa habilidade materna, alto número de tetos funcionais e produção de leite suficiente para seus próprios leitões são cada vez mais indispensáveis. O uso excessivo de mães de leite e práticas que extrapolam os limites biológicos das fêmeas colocam em risco a longevidade, o bem-estar e a eficiência do sistema. “Já atingimos esses limites biológicos? Acredito que não, e talvez nem os atinjamos algum dia, mas é fundamental que avancemos com responsabilidade”, afirma.
A genética, por sua vez, não atua isoladamente. Como destaca o mestre em Reprodução Suína, os ganhos genéticos são estáveis e permanentes, ao contrário dos ganhos obtidos apenas via manejo, nutrição ou ambiência, que se encerram ao fim de cada lote. Mas para que esses avanços genéticos se concretizem, é preciso reconhecer a importância da interação genótipo-ambiente. “É comum que as empresas de genética colaborem com técnicos, trazendo impressões e resultados observados em diferentes realidades. Assim, é possível identificar quais condições permitem aos animais expressarem seu melhor potencial”, explica Bierhals.

Ele lembra que essa interação se dá de diversas formas: por meio da geração de orientações técnicas atualizadas, do foco em características mais robustas, como resistência a doenças, maior peso ao nascer, menor taxa de defeitos congênitos, melhor habilidade materna e maior consumo alimentar, e da promoção de ajustes finos conforme as novas demandas produtivas. “O verdadeiro ganho vem da sinergia entre genética de qualidade e condições de campo adequadas, permitindo explorar ao máximo o valor econômico da hiperprolificidade expandida até o abate”, admite.
E se o presente já mostra saltos impressionantes de desempenho, com mais de 19 leitões por leitegada e mais de 47 leitões desmamados por matriz ao ano, o futuro exigirá ainda mais. “A suinocultura que queremos construir precisa manter o foco em eficiência, mas também em sustentabilidade. A genética pode e deve ser a força propulsora dessas transformações, sempre em sintonia com o campo, com responsabilidade e com os limites naturais da biologia”, enfatiza Lopes.
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Suínos
Produção de carne suína avança e reforça novo ciclo de expansão no setor
Crescimento no volume abatido e o aumento no peso médio das carcaças indicam consolidação da oferta, mesmo diante da pressão recente sobre os preços pagos ao produtor.

O IBGE publicou, no último dia 12, dados preliminares de abate do quarto trimestre de 2025, confirmando o crescimento da produção das três proteínas no ano passado em relação a 2024. No abate de suínos, com aumento de 3,39% em cabeças e 4,46% em toneladas de carcaças (tabela 1) no acumulado do ano de 2025, fica evidente a retomada do crescimento da produção de forma consistente. Mesmo em um ano em que um dos destaques foi o incremento significativo do peso médio das carcaças (93,07kg contra 92,11kg de 2024), chama a atenção, no mês dezembro/25, o menor peso do período (90,23kg), indicando haver relativa baixa retenção de animais nas granjas na virada do ano.

Tabela 1. Abate brasileiro MENSAL de suínos, 2024 e 2025, em cabeças e toneladas de carcaças (total e peso médio em kg) e diferença em relação ao mesmo mês anterior. *Dados de julho a setembro de 2024 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE.
Esta presumida baixa retenção de animais nas granjas no mês de dezembro/25 não resultou em sustentação dos preços pagos ao produtor no início de 2026. Outros fatores, como a queda sazonal da demanda interna e de exportação, típica de início de ano, e os estoques remanescentes de 2025 resultaram em queda dos preços das carcaças e do animal vivo em todas as praças do Brasil (gráficos 1 e 2), o que parece ter se agravado com o “efeito manada”, quando muitos produtores tentam antecipar as vendas para fugir de preços mais baixos, mas, com maior oferta, acabam acelerando a queda das cotações. Além disso, a carne de frango também apresentou queda expressiva nas cotações desde a virada do ano, o que acaba reduzindo a competitividade da carne suína no varejo (gráfico 3).

Gráfico 1. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, mensal, nos últimos 12 meses. Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 2. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, mensal, de março/25 a 18 de fevereiro de 2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 3. Cotação média mensal do FRANGO RESFRIADO em São Paulo (SP), em R$/kg de carcaça, nos últimos seis meses. Média de fevereiro até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA
No último boletim, de janeiro/26, já havíamos demonstrado o crescimento expressivo das exportações de carne suína in natura no ano de 2025, com incremento de quase 12% em relação a 2024. Conforme a tabela 2, a seguir, as três proteínas tiveram, em 2025, crescimento na produção, exportação e disponibilidade interna.

Tabela 2. Produção brasileira, exportação (in natura) e disponibilidade interna mensal, em toneladas de carcaças, das três proteínas de janeiro a dezembro de 2025 e diferença do total acumulado em relação a 2024 *Dados de produção de outubro a dezembro de 2025 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE e da Secex.
A propósito das exportações de carne suína, o ano de 2026 começou bem, com o mês de janeiro/26 totalizando mais de 100 mil toneladas de carne suína in natura embarcada, um crescimento de 14,2% em relação a janeiro de 2025, com aumento expressivo dos embarques para Filipinas e Japão e China confirmando sua trajetória de queda (tabela 3).

Tabela 3. Principais destinos da carne suína brasileira in natura exportada em janeiro de 2026, comparado com janeiro de 2025. Ordem dos países estabelecida sobre volumes de 2026. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
Sobre a carne bovina, que dentre as 3 proteínas teve no ano passado o maior crescimento percentual de produção e exportação, o que se observou ao longo do ano de 2025 foi uma relativa estabilidade nas cotações do boi gordo (gráfico 4).

Gráfico 4. Indicador mensal do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 2 anos, com destaque para a maior cotação do período (até o momento) que foi em novembro/24 Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA
Porém, a tão esperada virada do ciclo pecuário, com redução de abate e alta do preço deve ocorrer em 2026 e já mostra sinais no gradativo aumento das cotações do boi gordo nas últimas semanas (gráfico 5), quando a arroba subiu mais de 20 reais em poucos dias.

Gráfico 5. Indicador DIÁRIO do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 30 dias úteis (até 18/02/26). Fonte: CEPEA
Para 2026 o mercado de carne bovina será um importante fator de equilíbrio, justamente porque é a única proteína que deve ter retração na produção, reduzindo a oferta no mercado doméstico e, consequentemente, determinando preços maiores que no ano passado, o que deve contribuir para sustentar os preços da carne suína. Entretanto, existe um alerta para as exportações de carne bovina que têm a China como destino de mais da metade dos embarques e que estabeleceu, para 2026, uma cota de 1,1 milhão de toneladas que, quando ultrapassada, terá uma sobretaxa de 55%, inviabilizando as exportações para aquele mercado que comprou em torno de 1,7 milhão de toneladas no ano passado. Esta situação pode determinar uma redução das exportações de carne bovina brasileira e, consequentemente, uma maior oferta no mercado doméstico a partir da metade do ano. Alguns analistas também apontam esta alta momentânea da cotação do boi gordo justamente por causa desta cota estabelecida pela China, o que fez com que os frigoríficos exportadores antecipassem o abate para aproveitá-la antes que se esgote.
Sobre a rentabilidade da suinocultura, mesmo com o milho e o farelo de soja com preços relativamente estáveis, fica evidente uma queda na relação de troca do suíno com estes insumos (gráfico 6), obviamente agravada pelo recuo significativo das cotações do suíno. Mesmo antes de acabar fevereiro já é possível afirmar que a relação de troca caiu pelo quinto mês consecutivo. Este quadro, na maioria dos casos, ainda não determina prejuízo na atividade, mas acende uma luz de alerta no setor.

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO : MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de janeiro/24 a fevereiro/26. Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de fevereiro de 2026 até dia 18/02/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que o movimento de baixa das cotações do suíno vivo e das carcaças dá sinais de que está no fim, com preços estabilizando em meados de fevereiro. “É fato que a suinocultura brasileira retomou o crescimento da produção e o aumento das exportações já não é suficiente para enxugar o mercado. A concorrência com as outras carnes se tornam um fator muito importante neste contexto, sendo que o mercado de carne bovina, com a esperada virada de ciclo pecuário, pode ser o fiel da balança para sustentar os preços do suíno em patamar que permita manter margens financeiras positivas, mesmo com maior oferta de carne suína no mercado doméstico ao longo de 2026”, conclui.
Suínos
ACCS alerta para insegurança jurídica mesmo com retomada nos preços da suinocultura
Mercado de suínos dá sinais de recuperação com exportações aquecidas, mas a Associação Catarinense de Criadores de Suínos cobra segurança no campo e critica entraves trabalhistas e o chamado custo Brasil.

O cenário para a suinocultura brasileira desenha-se com otimismo nas granjas, impulsionado pelo reequilíbrio de preços e recordes de exportação previstos para este ano. No entanto, fora da porteira, o setor produtivo acende um forte sinal de alerta para os desafios políticos, trabalhistas e de segurança jurídica no campo. A avaliação é do presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, que traçou um panorama detalhado sobre as projeções de mercado e os entraves que o agronegócio enfrenta atualmente.
Retomada de preços e exportações em alta

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi: “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”
O ano começou com a tradicional oscilação de preços, mas a perspectiva de estabilização já é uma realidade. Segundo o presidente da ACCS, a queda registrada na primeira quinzena de janeiro está sendo superada pela reação das bolsas do setor. “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”, projeta Losivanio.
A expectativa de alta nos valores pagos ao produtor é sustentada por uma combinação de fatores: a menor oferta de suínos no mercado, a manutenção do peso normal de abate e o ritmo acelerado das exportações, que em fevereiro devem ultrapassar a marca de 100 mil toneladas.
Outro elemento que protegeu a margem do suinocultor independente durante a recente baixa foi a queda no preço do milho. Além disso, não houve um crescimento desordenado da produção nos últimos dois anos. O principal freio para novas expansões foi a taxa de juros, já que, segundo o dirigente da ACCS, iniciar um projeto robusto na suinocultura hoje exige um investimento mínimo de R$ 10 milhões, tornando a captação de recursos cara e, muitas vezes, inviável.
O ciclo da carne bovina e a sanidade
O bom momento da carne suína também encontra respaldo no ciclo da pecuária de corte. Com as exportações de carne bovina batendo recordes e o volume de abates superando o de nascimentos de bezerros, a recuperação da oferta de bovinos será lenta — um ciclo que leva cerca de quatro anos. Essa dinâmica mantém a carne suína em um patamar competitivo e altamente atrativo.
Apesar dos ventos comerciais favoráveis, a ACCS reforça que o dever de casa sanitário é inegociável para garantir a estabilidade do setor. “Nós temos que olhar muito a questão da biosseguridade, da sanidade, para que a gente não seja acometido por alguma intempérie de doença, como aconteceu em vários países, e que a gente possa perder esses mercados importantes”, alerta.
Preocupações políticas e a escala 6×1
Se o mercado responde bem, o ambiente regulatório gera apreensão. Losivanio classifica como “populismo” a possibilidade de o governo intervir limitando as exportações de carne bovina para forçar a queda dos preços no mercado interno, especialmente em um ano eleitoral. Para ele, a solução real seria fomentar o poder de compra e a renda da população, e não proibir embarques.
No campo trabalhista, a proposta de alteração da jornada para a escala 6×1, reduzindo de 44 para 36 horas semanais — é vista com grande preocupação. A dinâmica do agronegócio não se adequa a expedientes engessados, e o peso da carga tributária sobre a folha de pagamento já asfixia quem produz. “A gente vê que o vilão não é o empresário, e sim é o sócio que nós temos, que é o governo”, pontua o presidente.
Ele contrasta a situação brasileira com a de países vizinhos: enquanto a Argentina avança no Congresso com propostas de jornadas de até 12 horas diárias e o Paraguai atrai indústrias brasileiras oferecendo redução de impostos, logística eficiente e segurança jurídica, o Brasil onera cada vez mais o empreendedor com mudanças legislativas constantes.
Insegurança jurídica e a defesa do produtor
O alerta final da entidade recai sobre a insegurança no campo. O aumento da criminalidade e as tensões envolvendo áreas indígenas estão impactando diretamente quem produz. Produtores com histórico de gerações em suas terras e documentação legal estão perdendo acesso ao crédito rural e correndo o risco de perderem suas propriedades. “Nós estamos à beira de um caos muito forte”, desabafa.
Para Losivanio, falta ao poder público uma visão estratégica que valorize o agronegócio, setor que levou o Brasil ao posto de maior exportador de proteína animal do mundo, mesmo operando sob as legislações ambientais mais rigorosas do planeta. “Para dar emprego, nós temos que dar segurança para o nosso empreendedor, para que ele possa continuar acreditando e fazendo esse país crescer”, finaliza o presidente, pedindo uma mudança urgente de postura e de entendimento para garantir o futuro da produção nacional.
Suínos
Demanda interna e exportações reforçam perspectiva de alta para o suíno vivo
Diversificação de mercados e consumo aquecido no pós-férias impulsionam mercado, enquanto produção e custo da ração exigem atenção no médio prazo.

Com a melhora sazonal da demanda interna e um cenário externo considerado favorável, os preços do suíno vivo devem apresentar reação nas próximas semanas. A expectativa é de recuperação no curto prazo, após o fim do período de férias escolares e do Carnaval.
De acordo com dados da Consultoria Agro Itaú BBA, a diferença de preços entre as proteínas também pode contribuir para esse movimento. A carne bovina segue em patamar mais elevado em relação à suína, o que tende a favorecer o consumo da carne de porco no mercado interno.
No comércio exterior, a diversificação de destinos observada desde o ano passado ajuda a reduzir a dependência de mercados específicos. Apesar disso, chama atenção o aumento da participação das Filipinas entre os principais compradores. Ainda assim, o cenário das exportações é considerado positivo e deve continuar colaborando para o equilíbrio da oferta e da demanda.
Para o médio prazo, dois fatores exigem monitoramento: o ritmo de crescimento da produção e os custos com ração.
No caso da produção, a tendência é de continuidade na expansão do envio de animais para abate, movimento sustentado pelas boas margens registradas na suinocultura nos últimos dois anos e pela demanda externa aquecida. Eventuais problemas no fluxo de embarques, embora não sejam o cenário principal, poderiam pressionar o mercado interno, elevando a oferta doméstica e impactando os preços, já que a produção não pode ser ajustada rapidamente no curto prazo.
Em relação aos custos, o cenário também é considerado favorável, mas com pontos de atenção. A previsão de clima positivo para o milho safrinha nos próximos dois meses indica potencial para boa produção. No entanto, parte relevante da área ainda precisa ser semeada, e não há definição sobre quanto ficará dentro da janela ideal de plantio, fator decisivo para o desempenho produtivo.



