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Avicultura Redução de consumo hídrico e energético

Especialista em performance industrial ensina otimizar água e energia em plantas frigoríficas

Existem problemas estruturais nos chillers que podem ocasionar graves complicações para o processo. Eles são causados, geralmente, por erros de montagem ou falha na operação e podem sobrecarregar o sistema e posteriormente danificar sua estrutura.

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Arquivo/OP Rural

Diante da estiagem e da crise hídrica dela decorrente, em algumas regiões do Brasil, especialmente no Sul e Sudeste, e da importância em usar recursos naturais com responsabilidade, o uso da água, indispensável para a produção de proteína animal e principal matéria-prima para produção de energia elétrica no país, tornou-se ainda mais importante sua utilização responsável e consciente.

A água é um recurso de extrema importância para todos os processos de abate. Estima-se que sejam necessários 30 litros de água para processar a carne de uma ave abatida. Por sua vez, em 2021 os frigoríficos brasileiros abateram 1,54 bilhão de aves, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

O tema “otimização da utilização de água e energia no abatedouro – chillers, calhas, lavagem de carcaça e geração de frio e calor” foi abordado pelo especialista de performance industrial da JBS/Seara, Wellitton Ferrari de Souza, durante o Simpósio de Atualização em Avicultura, organizado pela Fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícolas (Facta).

Lavagem de carcaça

Souza cita primeiramente os três pontos que envolvem o processo de lavagem de carcaça. O primeiro é o chuveiro inicial, que consiste na remoção de resíduos do processo de escaldagem e depenagem. O segundo passo na lavagem é o sistema de alta pressão (HPS). Nessa fase acontece a remoção de conteúdo gastrointestinal visível, interno e externo, exceto contaminação biliar. O HPS pode ser utilizado como alternativa na prática de refile nas linhas de inspeção, mediante testes de validação.

O último ponto é o chuveiro final, etapa que antecede o pré-resfriamento. Nessa fase da lavagem das carcaças acontece a retirada de resíduos dos processos de evisceração, e atua como forma de redução da carga microbiológica na entrada do sistema de resfriamento (chiller).

Segundo o especialista de performance industrial da JBS/Seara, Wellitton Ferrari de Souza, um ponto importante de otimização é a redução ao máximo os ‘cotovelos’ com 45° ou menos em todas as tubulações de água, ar e/ou transporte de gelo: “Quanto menos ‘cotovelos’, menor será o esforço do sistema como um todo”

De acordo com Souza, é necessário ter atenção redobrada em alguns itens específicos durante a lavagem das carcaças, entre eles, destaque para a manutenção do equipamento, especialmente em relação ao desentupimento dos bicos, e os ajustes precisam ser em formato de leque para aumentar a área de contato e direcionados para pontos estratégicos da carcaça, detalhe que auxilia na economia de água. “É importante ainda uma pressão adequada, a vazão precisa seguir a legislação e a uniformidade de carcaça também é relevante, tendo em vista o direcionamento dos bicos”, ressalta.

Chiller

Usados para reduzir a temperatura das carcaças, melhorando a consistência da carne para os processos seguintes, os chillers auxiliam na garantia do shelf-life e na absorção de água, conforme os parâmetros legais.

As principais vantagens em se utilizar os chillers é a maior velocidade de resfriamento, a menor área de utilização da planta, comparado a outras tecnologias, e o fato do processo possuir parâmetros estabelecidos.

No entanto, segundo Souza, uma das desvantagens do sistema é o elevado dispêndio de água. “Sabemos que o consumo é elevadíssimo”, comenta. Outro ponto de negativo e que merece atenção é o maior risco de proliferação microbiana. “Se dentro do chiller tiver desvios de temperatura e vazão pode sim aumentar essa carga microbiana”, salienta Souza.

De acordo com ele, para obter maior efetividade na troca térmica, a água gelada deve sempre seguir no sentido contrário à carcaça para que essa troca ocorra de uma forma mais adequada e rápida. Dessa maneira é possível economizar nas utilidades, pois mudar a água de estado demanda um alto custo, ressalta Souza. “Quanto maior for nossa efetividade e economia ao longo desse processo, menos recursos serão despendidos para fazer a troca térmica”, salienta.

Souza aponta quatro tipos de chillers usados pelos frigoríficos: O Jet Bird com intragril nível alto, com área de utilização de cerca de 70% e muito usado em outros países; o Intragril  nível alto com 45% de área e  maior fluxo de água entre as pás; o chiller nível alto, também com cerca de 45% de área usada para resfriamento, pouco usado na indústria brasileira e por último o chiller de nível médio  utilizado por grande parte das indústrias de processamento de carne de frango no Brasil. Equipamento esse usa de 30% a 35% de sua área para fazer o resfriamento das carcaças. “Precisamos considerar que é uma área pequena, então temos que ser muito precisos com relação a injeção de água e gelo”, ressalta.

Pontos de atenção

Além das temperaturas de escaldagem, é preciso ter cuidado com outros pontos de atenção ao longo do processo a fim de otimizar o uso de água e de energia elétrica utilizada na planta.

Souza destaca o cálculo de gelo na renovação de água; a verificação de vazamentos de água, ar comprimido e gelo; o sentido da água de renovação, que deve ser constante e contra a corrente; a ausência de condensação e/ou goteiras no sistema e as pás helicoidais devem estar limpas, não permitindo o retorno de carcaças. “O excesso de gelo na saída do chiller significa ineficiência energética, portanto, precisa ser evitado. Essas medidas ajudam a baixar o consumo de energia”, afirma Souza.

Outro quesito importante diz respeito a utilização do gelo em chillers convencionais. O produto deve sempre seguir o mesmo fluxo da água e ter espessura de 3 a 5 milímetros para que ocorra a troca térmica adequada. “Transformar água em gelo demanda muita energia e custa caro, portanto, temos que utilizar de forma eficiente e inteligente esse recurso”, afirma Souza.

Problemas estruturais

Existem problemas estruturais nos chillers que podem ocasionar graves complicações para o processo. Eles são causados, geralmente, por erros de montagem ou falha na operação e podem sobrecarregar o sistema e posteriormente danificar sua estrutura.

Essas falhas podem causar desvios de absorção (dispersão), quebra de carcaça, problemas de temperatura e o elevado consumo de gelo e/ou má utilização do gelo, provocando a baixa eficiência energética.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse gratuitamente a edição digital Avicultura – Corte & Postura.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Novos conceitos do uso de fibras nas dietas de aves

Fibra de alta insolubilidade normaliza o fluxo da digesta com menos cólicas e enterites, menor antiperistaltismo do intestino inferior, excretas mais secas, com menor proliferação de insetos, melhor ambiente com menos problemas respiratórios e menos enteropatogenias.

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Arquivo/OP Rural

Ao longo do desenvolvimento da produção de carne de frangos de corte e ovos de poedeiras comerciais, sempre houve a necessidade de avançar nos conhecimentos referentes a nutrição dessas aves para acompanhar todo o trabalho de genética e melhoramento dos índices de produção para se conseguir o melhor desempenho zootécnico.

Dessa forma, as dietas dessas aves, ficaram cada vez mais densas em nutrientes de alta digestibilidade, para atender as altas demandas de nutrientes para a manutenção da produção. Por outro lado, foram negligenciados os problemas que essas dietas altamente concentradas, com baixos teores de fibra acarretaram na fisiologia digestiva dessas aves. A ausência de ingredientes com características insolúveis para compor todo o bolo alimentar tem causado vários problemas nos processos digestivos e absortivos com perda da eficiência nutricional das rações.

A partir dessas constatações, houve a necessidade de aprofundar os estudos sobre fibras para as rações, com resultados interessantes. Ao longo dos últimos anos, nutricionalmente, a fibra bruta das rações era considerada como  fator antinutricional e que afetava de forma negativa o desempenho das aves.

Por outro lado, baseado nos problemas fisiológicos do trato digestório, houve uma corrida de estudos com uma verdadeira tempestade de novas ideias que já mostram outra ótica do uso de novas fibras com características que atendem às necessidades de todo o processo digestivo e absortivo, com reduções dos problemas ligados a digestão e absorção dos nutrientes, com efeitos interessantes na saúde intestinal, assunto que tem sido altamente discutido, dada a sua importância em todo o processo.

Os componentes das fibras insolúveis bem como as solúveis tem efeitos diretos no processo digestivo e absortivo, com modificações importantes na morfologia intestinal, no desenvolvimento de órgãos e principalmente na modulação de todo o microbioma intestinal, que exerce o maior efeito em toda a saúde do intestino.

Os resultados do uso da fibra irá  depender de uma série de fatores, como os teores da fração insolúvel e solúvel, dos níveis de inclusão nas rações, das características físicas da fibra como tamanho de partículas e da contribuição na ação das enzimas digestivas e da sua participação no peristaltismo progressivo do intestine melhorando a ação das camadas musculares circulares e longitudinais, auxiliando a associação substratos/enzimas e sucos intestinais resultando em melhorias gerais de todo o processo digestivo e absortivo do trato digestório.

A fibra insolúvel, devido suas propriedades de insolubilidade em água, permanece por maior tempo na moela dos frangos, permitindo assim, uma taxa de passagem que promove maior contato da digesta com as enzimas, favorecendo a digestibilidade de todos nutrientes e em especial dos aminoácidos, cálcio e fósforo presentes na dieta.

Essas fibras insolúveis não formam gel e sua fermentação é limitada, agem aumentando a população de bactérias benéficas reduzindo as patogênicas, principalmente Clostridium, Salmonelas e E. coli. Portanto, uma fonte de fibra com maior teor de insolubilidade favorece todo o conjunto do processo digestivo permitindo o melhor desempenho zootécnico.

Fibra solúvel

A fibra solúvel tem grande capacidade de absorver água e de formar gel no trato gastrointestinal, aumentando sua viscosidade, diminuindo a área de contato das enzimas, prejudicando a absorção de nutrientes presente na dieta. Esse tipo de fibra exerce interferência sobre a taxa de passagem, o que acarreta também em menor absorção dos nutrientes essenciais para o desenvolvimento do animal.

Ao nível fisiológico, o melhor desenvolvimento de toda morfologia intestinal, com vilosidades mais bem formadas e de maior tamanho, possibilitando maior área de digestão e absorção, associado a modulação da microbiota favorável, permite resultados interessantes que devem ser levado em conta ao usar a fibra como componente essencial nas rações de frangos de corte e poedeiras comerciais.

Varias pesquisas foram e estão sendo desenvolvidas comprovando todos esses efeitos benéficos desse ingrediente que tem alta importância em toda a nutrição e alimentação das aves. Incrementos na digestão e absorção de aminoácidos e minerais de forma geral, tem contribuído significativamente no fornecimentos dos nutrientes essenciais responsáveis pelo bom desempenho das aves de corte e postura.

Além desses efeitos fisiológicos e nutricionais nas aves, tem sido observado ao nível de fábrica, redução significativa de finos e aumento significativo no PDI das rações peletizadas. Esses efeitos são traduzidos em maior uniformidade de peso nas criações de frangos de corte, com reduções significativas das diferenças no desempenho entre as aves no início do comedouro comparadas com as aves de final de linha dos comedouros. Quanto maior teor de finos e menor PDI, maiores as diferenças no desempenho.

Para o uso correto das fontes de fibra da ração é fundamental conhecer a sua composição e seus impactos na nutrição das aves que tem o objetivo principal, a transformação de recursos alimentares de menor valor em alimentos de alto valor biológico para o consume humano.

Finalizando, a fibra de alta insolubilidade normaliza o fluxo da digesta com menos cólicas e enterites, menor antiperistaltismo do intestino inferior, excretas mais secas, com menor proliferação de insetos, melhor ambiente com menos problemas respiratórios e menos enteropatogenias. No conjunto, os benefícios são muitos ao nível orgânico e de ambiente favorecendo o bem-estar das aves, configurando sem dúvida, a melhor saudabilidade geral nas criações desses animais.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse gratuitamente a edição digital Avicultura – Corte & Postura.

Fonte: Por Antônio Gilberto Bertechini, pesquisador no CNPq e professor titular na Universidade Federal de Lavras; e Andressa Carla de Carvalho, doutirando na ULFA e coordenadora técnica nacional de Nutrição Animal.
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Avicultura

Eliminar só as moscas adultas não controla infestações nas granjas

Plano integrado inclui a eliminação de larvas para garantir bem-estar animal e mais sanidade nas granjas de aves de todo o Brasil.

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Foto: Arquivo/OP Rural

A presença de insetos incomoda em qualquer lugar. Seja na área urbana em restaurantes, hospitais ou mercados, seja na área rural em fazendas ou granjas, a infestação por moscas atrapalha e preocupa os responsáveis pelo local. Entretanto, além do estresse que gera, a transmissão de doenças é a grande preocupação quando pensamos no controle da infestação desses insetos.

Por sua anatomia, as moscas possuem características no modo de se alimentar que contribuem para a transmissão e carreamento de doenças entre os locais de infestação. Sua alimentação ocorre, de forma geral, em locais com alta carga de matéria orgânica em decomposição. As moscas são atraídas para esses locais através de órgãos do olfato em suas antenas e pousam no momento da alimentação. Já aqui temos o primeiro ponto crítico! Se o local do pouso estiver contaminado com algum microrganismo (vírus, bactérias, helmintos ou protozoário), eles podem ficar aderidos às patas, cerdas do corpo ou na saliva e, dessa forma, a contaminação será levada até o próximo local.

Outro ponto crítico está relacionado com a forma de alimentação desse inseto. As moscas possuem aparelho bucal do tipo lambedor-sugador e para ingestão do alimento, regurgitam sobre o local da alimentação. Assim, as enzimas presentes na saliva começam a digestão do alimento fora do corpo da mosca. Uma vez iniciada a digestão, o alimento passa a ter forma pastosa que facilita sua sucção para dentro do trato digestório da mosca. Após se alimentar, as moscas defecam no local, pois seu trato digestório é pequeno para armazenar uma grande quantidade de alimento. Somando todos esses fatores, o risco de termos uma contaminação trazida por moscas é grande!

E nosso inimigo não se trata apenas das moscas adultas em voo, pois elas representam somente 20% da população total das moscas em um determinado local. Os 80% restantes estão em fases jovens desse inseto na forma de ovo, larva ou pupa que não são tão visíveis.

 

Características reprodutivas

A espécie mais importante é a Musca domestica, ou mosca doméstica, que além de ser muito adaptada ao ambiente é bastante incômoda e pode transmitir mais de uma centena de doenças para o homem ou animais. Uma única mosca adulta é capaz de fazer a oviposição de 75 a 170 ovos por postura e após 30 horas já está apta a se reproduzir novamente. Sendo assim, sabendo ovos 40% larvas 30% pupas 10% adultos 20% que uma mosca vive em média 30 dias, durante toda sua vida podem ser gerados de 1.800 a 4.080 ovos por somente uma mosca.

Depois de depositados, os ovos eclodem no primeiro estágio larval em 24 horas. A fase larval passa por outros dois estágios e dura no total, em média, de 5 a 8 dias. No inverno essa fase pode se estender por várias semanas, pois altas umidades e temperatura favorecem o desenvolvimento e, portanto, locais quentes e úmidos apresentam ciclos mais rápidos.

Ao final do desenvolvimento larval, as larvas buscam um local fora da matéria orgânica onde estavam e se transformam em pupas, quando a camada externa endurece e ocorre a metamorfose para mosca adulta. Esse processo acontece em 4 a 5 dias e, diferente das larvas, as pupas não se alimentam. Essa característica dificulta o controle de mosca nessa fase de vida.

Controle 

Portanto, as únicas fases para realização do controle integrado são quando as moscas estão na forma larval e moscas adultas. As larvas, no primeiro estágio, medem cerca de 2 mm de comprimento e no terceiro, de 10 a 14 mm. Elas, geralmente, ficam agrupadas, são vermiformes, esbranquiçadas, movimentam-se muito, podendo se deslocar por até 50 metros, não gostam de luz e alimentam-se ativamente.

Já as moscas adultas são ativas durante o dia, podendo voar cerca de 1 a 3 km durante um dia todo, porém a noite elas repousam principalmente em superfícies cilíndricas como arames, fios ou barbantes. Essa particularidade é importante no controle desse inseto, pois permite que sejam feitas armadilhas com cordões embebidos em inseticidas, por exemplo.

Sendo assim, o combate às moscas deve ser feito de forma integrada, ou seja, através de medidas de saneamento ambiental que visem minimizar as condições de criatórios desse inseto, como o acondicionamento correto do lixo e descarte de resíduos, armazenamento correto dos alimentos, em sacos bem fechados ou com tampa, manutenção do ambiente sempre limpo e livre de matéria orgânica ou com acúmulo de água.

Além das medidas de manejo ambiental, deve-se atuar de forma mecânica e química para o controle integrado das moscas. Utilizar telamento ou instalação de cortina de ar nas janelas, a fim de restringir o acesso desses insetos em locais críticos, além de utilizar ferramentas de captura dos insetos adultos como as armadilhas, luminosas ou não, é bastante importante.

Já o controle químico deve passar pela redução da população de adultos e pelo tratamento preventivo das fases jovens através de produtos que têm ação em larvas. É extremamente importante quebrar o ciclo de vida das moscas quando queremos um controle efetivo da infestação desses insetos.

Não basta agir apenas na presença da fase adulta, que é também importante, mas a médio e longo prazo queremos diminuir a população total das moscas. O manejo do controle de pragas é, portanto, essencial e deve acontecer de forma constante e monitorada. Para isso, é necessário realizar a avaliação local e, muitas vezes, utilizar mais de uma ferramenta a fim de blindar o local da forma mais efetiva possível. O controle de moscas é difícil e estratégico, para isso, conte sempre com a ajuda de bons profissionais e produtos de qualidade.

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Fonte: Por Thaiane Kasmanas, coordenadora de Tech Service da Neogen.
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Avicultura

A tecnologia das vacinas vetorizadas: tudo aquilo que você sempre quis saber

Avanços na tecnologia de engenharia genética podem cada vez mais melhorar a produção e a eficácia das vacinas recombinantes visando oferecer alternativas válidas aos produtores. Uma coisa é certa, a evolução na avicultura não para. É um processo constante.

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Foto: Fátima Jaenisch

Por Eduardo Muniz, médico-veterinário, doutor em Patologia Veterinária e gerente de Serviços Técnicos de Aves da Zoetis

Ninguém duvida que as vacinas vetorizadas, também chamadas de recombinantes, vieram para ficar no mercado avícola. O fato é que elas são ferramentas eficazes e têm vantagens importantes quando pensamos nos programas imunoprofiláticos das aves. A tendência é que cada vez mais essa tecnologia seja incorporada aos programas de vacinação, pois os benefícios são claramente percebidos pelos produtores.

A tecnologia das vacinas vetorizadas é um bom exemplo da forte evolução científica que é característica inerente ao setor avícola. O conceito do vetor viral foi introduzido em 1972 e nos anos de 1983 e 1984 um vírus vetorizado foi utilizado para o desenvolvimento de uma vacina recombinante contra a influenza e a raiva. No setor avícola, as pesquisas com vacinas utilizando o herpesvírus dos perus recombinante (rHVT) iniciaram em 1990.

Figura 1 – Construção da vacina vetorizada com o herpesvirus recombinante (rHVT).

A vacina recombinante é o resultado de moléculas de DNA híbridas de dois ou mais microrganismos expressadas em um vetor. Esses vírus recombinantes trabalham como um “cavalo de troia”, pois o vírus utilizado como vetor irá albergar porções do inserto e quando o vetor replicar no hospedeiro ocorrerá a exposição às proteínas inseridas. Essas proteínas serão reconhecidas pelo sistema imune da ave, gerando proteção contra os antígenos de duas ou até mais doenças. Assim, a vacina recombinante é capaz de gerar imunidade e proteção multivalente.

Atualmente na avicultura os dois vírus mais utilizados como vetor para as vacinas recombinantes comercialmente disponíveis são o Poxvírus (vírus da Bouba) e o herpesvírus de perus (HVT). Estes dois vírus foram selecionados para o desenvolvimento das vacinas vetorizadas, pois possuem genomas grandes e são estáveis fenotipicamente, o que permite a inserção de porções do material genético dos insertos criando o produto recombinante.

Um dos objetivos dessa tecnologia é que o “vírus” a ser inserido no vetor não fosse liberado para o ambiente externo, como acontece com as vacinas vivas convencionais, resultando portanto em uma vacina extremamente segura do ponto de vista de reversão de virulência sem ocorrência de transmissão lateral. Além disso, as vacinas recombinantes contam com a vantagem de não produzir as indesejáveis reações pós-vacinais características principalmente nas vacinas convencionais contra doenças respiratórias, como a Doença de Newcastle e a Laringotraqueíte.

Outro benefício relevante da tecnologia das vacinas vetorizadas é que a administração pode ser convenientemente realizada por dose única no incubatório tanto por via subcutânea no pintinho de um dia como por via in ovo. Não existe interferência dos anticorpos maternais na replicação das glicoproteínas do vírus recombinante.

Essa vantagem motivou a migração de várias vacinas convencionais que antes eram feitas a campo pelo método de aplicação massal com várias doses para o incubatório. O exemplo mais claro disso é a vacinação contra a doença de Gumboro que na maioria dos produtores é eficazmente prevenida com uma única dose no incubatório utilizando vacinas vetorizadas ou de imunocomplexo.

Dessa forma, podemos dizer que a tecnologia das vacinas recombinantes produz um “casamento perfeito” com a vacinação in ovo, pois unimos a excelência no processo de administração da vacina realizada, com melhor controle do processo de vacinação, com um produto seguro e conveniente. Essas duas tecnologias empregadas juntas são sinérgicas e resultam em maior segurança do esquema imunoprofilático.

Já está demonstrado cientificamente a proteção com vacinas recombinantes para as seguintes enfermidades: doença de Marek, bouba aviária, doença de Gumboro, doença de Newcastle, laringotraqueíte, Influenza aviária e Mycoplasma gallissepticum. No entanto, existem pesquisas promissoras em desenvolvimento no sentido de produzir novas ferramentas, inclusive utilizando diferentes vetores como por exemplo o adenovírus. É importante atentar de que cada produto recombinante tem características únicas. Essa singularidade decorre do fato de que existem diferenças na construção genética de cada produto.

Um passo fundamental no desenvolvimento de uma vacina recombinante altamente eficaz é a seleção de glicoproteínas com grande capacidade imunogênica a serem inseridas no vetor. Essas proteínas irão fazer parte da estrutura externa dos vírus vetorizados e elicitarão a resposta imune. Cada vírus aviário possui uma ou mais proteínas que participam de maneira decisiva na resposta imune.

O principal antígeno imunogênico do vírus da influenza aviária é a hemaglutinina, do vírus de Newcastle são as hemaglutinina-neuroaminidade e a proteína de fusão, do vírus de Gumboro é a VP2, da laringotraqueíte são as glicoproteínas g. Reconhece-se que a proteína de fusão é mais imunogênica para a doença de Newcastle do que a hemaglutinina-neuroaminidade, por exemplo. Portanto, cada produto terá sua característica própria e única dependendo da inserção do gene utilizado e da consequente expressão da proteína com potencial imunogênico.

Pontos essenciais

Além disso, outra diferença importante em relação às vacinas vetorizadas está relacionada ao promotor utilizado. Para que aconteça a expressão do gene inserido, por exemplo a expressão da proteína F da DNC, é necessário também inserir o gene promotor no DNA do vetor. O promotor é o gene que irá recrutar um grupo de polimerases para a produção da proteína imunogênica. Cada produto utiliza promotores específicos, o que torna a característica da vacina única em relação a dois pontos fundamentais: geração de imunidade (onset of immutity) e duração da imunidade (duration of immunity).

Onset of immunity pode ser definido como a precocidade com que a proteção total é alcançada após a administração da vacina. Evidentemente quanto mais rápida for a geração da proteção, menor será o risco de desenvolvimento da doença. Já o duration of immunity pode ser definido como o tempo de geração da proteção total após o onset of immunity. Quanto maior for a duração da imunidade, mais efetiva será a vacina, especialmente em aves de vida longa, como poedeiras e reprodutoras. Um dos grandes desafios no desenvolvimento das vacinas vetorizadas é justamente antecipar o onset of immunity e retardar o duration of immunity.

Evolução constante

Avanços na tecnologia de engenharia genética podem cada vez mais melhorar a produção e a eficácia das vacinas recombinantes visando oferecer alternativas válidas aos produtores. Uma coisa é certa, a evolução na avicultura não para. É um processo constante. O entendimento de como funciona uma vacina vetorizada, das suas características, benefícios e limitações é essencial para a sanidade das aves.

As referências bibliográficas estão com o autor. Contato via: paula.biglia@formatoib.com.br

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse gratuitamente a edição digital Avicultura – Corte & Postura.

Fonte: O Presente Rural com Zoetis Avicultura
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