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Especialista dá detalhes do potencial do agronegócio brasileiro no mercado internacional

O país é um grande produtor de proteína animal, sendo o maior exportador mundial de carne bovina e de aves e o terceiro maior de carne suína.

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Arquivo/OP Rural

O Brasil é um grande produtor de proteína animal, sendo o maior exportador mundial de carne bovina e de aves e o terceiro maior de carne suína. Se não fosse a nutrição animal, leitor e leitora, talvez o país não teria chegado ao estágio de grande competitividade e presença internacional, cenário que fez o Brasil conquistar posições importantes sobre concorrentes como Estados Unidos e Austrália (gado de corte), Tailândia (carne de frango) e hoje competindo com a carne suína na Europa e em outras regiões. Essa fatia do mercado é consolidada através da existência de um sistema muito sofisticado de arraçoamento de animais, desde a produção de soja, milho e outras commodities, passando por tudo que tem hoje de tecnologia de última geração em nutrição, aditivos e produtos que fazem com que consigamos ter índices excelentes de produtividade e de conversão alimentar.

O potencial do agronegócio brasileiro no mercado internacional dentro do contexto da pandemia do coronavírus foi apresentado durante a 32ª Reunião Anual do Colégio Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA), realizada em formato on-line, pelo engenheiro agrônomo e coordenador do Centro Insper Agro Global, Marcos Sawaya Jank. Com mais de 35 anos de experiência no agronegócio global e de grandes mercados, Jank trouxe uma visão detalhada do ciclo de alta de preços que o setor experimenta e dos impactos que isso causa na dinâmica das exportações brasileiras, aliado ao desempenho e perspectivas das proteínas animais, além de mencionar alguns desafios importantes que o Brasil tem em termos de imagem e de valor adicionado, entre outros, de produtos e de sanidade.

Com a pandemia da Covid-19 ficou ainda mais em evidência no mercado de produção animal a importância da segurança do alimento ou “Food Safety”, que engloba práticas de manipulação para garantir a qualidade do alimento, desde a produção até o consumo. “Vivemos uma época muito desafiadora nesta área, numa nova geopolítica que se instala pelo mundo com uma guerra comercial e hegemônica entre Estados Unidos e China, a questão das grandes negociações internacionais feitas na Conferência do Clima, principalmente na construção do mercado de carbono e dos compromissos assumidos pelos países, do posicionamento do uso da terra, então temos muitos desafios. É um tempo bastante turbulento, polarizado e muito importante para olharmos o que está acontecendo no agronegócio”, pontua.

Conforme o especialista em agro, o volume muito baixo de estoques mundiais está gerando um comportamento de bastante volatilidade de preços, o que aponta para um novo ciclo de alta, similar ao vivido na década de 70, quando o choque do petróleo levou a maior alta de commodities, e entre 2007 e 2014, quando houve dois picos de alta de preços de alimentos em razão da quebra de safras muito importantes no mundo, conforme ilustrado no gráfico 1.

E hoje, ainda em meio a pandemia, vivenciamos um novo ciclo de alta que deriva essencialmente de uma demanda muito firme na Ásia por produtos brasileiros e particularmente na China, a qual não foi acompanhada pela produção, porque houve o rompimento de cadeias produtivas em virtude das restrições impostas pela pandemia. “O Brasil se beneficiou dessa demanda principalmente pelo fato da nossa estrutura exportadora funcionar muito bem, obviamente tivemos também ajuda da taxa de câmbio. A desvalorização cambial aqui no Brasil gerou um aumento em reais de commodities, inclusive um desbalanço de preço entre grãos e carnes, por exemplo. O fato é que estamos realmente em um movimento de alta e não sabemos quanto tempo que ele vai perdurar. O último ciclo durou em torno de seis anos, mas esse aqui eu acho que vai ser mais curto”, pondera.

Em contrapartida, o Brasil está investindo no segmento de infraestrutura logística em transporte ferroviário e hidroviário focadas em exportação, principalmente de grãos. “Isso é muito importante para quem mexe com proteína animal, porque na medida que a logística de exportação melhora para o grão, pode gerar falta de commodities no mercado interno, então hoje é muito mais fácil importar soja e milho do que era, mas acaba faltando esse produto principalmente na região Sul. Esse ano assistimos a uma importação importante de milho vindo dos países vizinhos, então essa questão interna da logística não está resolvida, o que está avançando muito é a logística exportadora, principalmente do Centro-Oeste para os portos do Norte e os portos do Sudeste”, expõe.

A alta de preços se deu em razão da grande demanda por grãos, que teve uma elevação acima da média comparado com outros produtos, que também seguiram o movimento de alta do mercado. Aqui no Brasil, os aumentos foram mais acentuados na carne bovina, produto que apresentou maior alta, puxado pela demanda chinesa, em contrapartida essa alta demanda fez com que a carne de frango também ficasse mais cara no mercado interno, conforme ilustrado no gráfico 2.

No entanto, o que mais preocupa quem está no segmento nutrição animal, segundo Jank, é a subida dos preços de grãos como soja e milho. “Teve uma alta importante, temos a arroba do boi a R$ 300, a soja a R$ 170 e o milho que chegou a R$ 100 a saca, isso obviamente são valores que não estávamos acostumados. E não são apenas nestes produtos, conforme o gráfico 2 aponta, foram também açúcar, algodão, café, ou seja, as principais commodities tiveram aumento de preço. Isso é bom para quem exporta, mas não é tão bom para quem compra commotidies aqui dentro. Percebemos claramente um aumento muito importante no custo da ração em função do aumento do farelo de soja e do milho, então isso gera uma redistribuição de renda”, avalia.

Em contrapartida, no mercado interno, segundo o especialista, os setores de leite e ovos sofreram bastante durante a pandemia porque são produtos sem head cambial, diferente da carne bovina que se beneficiou bastante da demanda chinesa. “Então existe um fenômeno de redistribuição de renda dentro das cadeias produtivas e isso gera ganhadores e perdedores”, menciona.

Como a China produz metade da produção de suínos do mundo, na ordem de 50 milhões de toneladas, a confirmação da PSA em solo chinês fez com que seu rebanho caísse para cerca de 35 milhões de toneladas e isso afetou bastante a rentabilidade da atividade, mas a China conseguiu reagir muito rápido, principalmente mudando o seu modelo produtivo, com a eliminação da produção de fundo de quintal. “E na medida que ela se recupera da peste suína depende menos de carne bovina, que trouxe de certa forma para substituir a carne suína, e é por isso que a gente está vendo a China estender a restrição ao Brasil em vista dos casos suspeitos da vaca louca no país. Eles não voltando a comprar está gerando uma grande crise, é o tal do oportunismo chinês, uma vez que não comprando isso vai se refletir numa queda do preço que eles pagam pela carne bovina, afetando diretamente as nossas exportações”, afirma o coordenador do Insper.

Grãos

Por outro lado, a produção de soja no Brasil foi afetada durante um certo momento pela peste africana, porque teve uma queda do consumo com a perda de rebanho na China e no Sudeste da Ásia, mas que já se recupera e deve superar 100 milhões de toneladas exportadas de soja. “E no milho tivemos um ano complicado, a produção caiu para 86 milhões de toneladas, mas já se recupera e deve terminar esse ano com previsão de crescer ainda mais no futuro. Se esses números estiverem corretos, será uma notícia muito boa para quem cria suínos e aves, que é a recuperação da produção de milho no Brasil, é claro que não dá para falar porque o grosso do milho brasileiro é a segunda safra, que é mais sensível a clima, como aconteceu nessa última safra, então depende muito ainda como as coisas vão se desenrolar no próximo ano”, pondera Jank.

Há uma recuperação muito forte não só da produção de milho, mas também da exportação de milho que pode atingir níveis que nunca foram vistos antes. “E isso é preocupante, porque a China mudou seu modelo produtivo voltado agora para produção comercial e não mais de fundo de quintal, significa que vai consumir muito farelo de soja e milho, aliás a China já está se consolidando como um dos maiores importadores de milho do mundo nos próximos anos, da mesma maneira que já é da soja. Então a pergunta que fica é se o Brasil será exportador de grãos ou se o Brasil será exportador de carne. São coisas bem diferentes e que deveriam estar no centro da estratégia brasileira. Eu acho que dá para fazer as duas coisas, mas eu vejo que é muito mais fácil exportar grão do que exportar rações, farelo ou carnes, inclusive a exportação de carne sofre muito mais restrições do que a exportação de grãos”, pontua.

Oferta e demanda de carnes

Em relação à oferta e demanda brasileira por carne, a produção e a exportação de carne bovina foi a que mais cresceu. Fruto da demanda momentânea da China durante a PSA, a carne suína também apresentou um crescimento na exportação de produtos, diferente da carne de aves, porque o país chinês é autossuficiente neste segmento. A carne bovina ultrapassa a carne de frango em valor de exportação, com mais de US$ 8 bilhões e cerca de US$ 6 bilhões em frango, mas em volume o frango ainda é a principal carne exportada. “Esses dados são bastante interessantes porque mostram uma mudança que vem acontecendo no mix de carnes em favor principalmente da bovina e da suína que foram as grandes beneficiadas da crise da Peste Suína Africana na China, o que faz com que tanto suíno como bovino aumentem o market share da carne na exportação”, destaca.

Conforme o gráfico sobre os preços nominais de produtos agropecuários, a carne de frango representou 30% da produção, mesma porcentagem que a carne suína chegou, enquanto que a bovina chega a mais de 25%, portanto a precificação de bovinos, suínos e aves tem hoje mais relação com o mercado internacional do que tinha antes. Isso é importante porque se tem uma desvalorização cambial que acaba afetando o preço doméstico, porque se 30% é exportado 70% fica aqui dentro, mas acaba havendo uma transferência de preços da exportação para o mercado interno e foi isso que tornou a carne bovina tão cara nos últimos tempos. “A seca, a geada e todos os problemas que afetaram os pastos acabaram levando a uma puxada de preço bastante grande que o consumidor sentiu na carne. E até foi isso que levou a substituição de carne bovina por carne de frango no mercado interno”, diz Jank.

Pontos positivos e negativos

O agronegócio é fundamental para a balança comercial brasileira, estimativas apontam que o agro deve superar US$ 120 bilhões em exportações em 2021. O país é o terceiro maior exportador do mundo em agro e possui o maior superávit comercial do mundo pelo fato de exportar muito e importar pouco, o que gera muitas divisas para o país.

Outro ponto positivo é a produção de grãos do país, que possui alta rentabilidade, com 30% de margem ebtida. “O forte aumento do processo de integração lavoura-pecuária, que nada mais é que a chegada da produção agrícola no pasto, tem impulsionado isso. Somente neste ano estima-se que a integração lavoura-pecuária deverá ultrapassar de 17 milhões de hectares para cerca de 50 milhões de hectares para produção de soja, milho e algodão”, detalha.

Dentre os aspectos negativos estão o risco de inflação e insegurança alimentar, sentido nos últimos tempos bastante pelo consumidor. “Desde o início da pandemia até agora tivemos uma alta generalizada de preços no Brasil, que se refletem na inflação. Para se ter uma ideia a inflação do ano passado foi de 4%, enquanto a inflação do grupo de alimentos foi de 14%”, afirma.

Jank também cita o aumento do preço dos insumos, máquinas e equipamentos, terra e arrendamentos, impacto cruzado do aumento dos preços sobre os usuários de produtos exportados (aves, suínos, aquicultura, leite e ovos), cobertor curto, que faz com que safras de grandes produtores não podem apresentar baixo desenvolvimento se não os preços disparam ainda mais. “Houve um grande desbalanço aqui dentro entre setores que acabaram se beneficiando da demanda internacional e do dólar valorizado e de setores que tiveram aumentos de custo e que tiveram uma perda de margens”, comenta.

Demanda Mundial 

O coordenador do agro global do Insper menciona que as grandes regiões produtoras do mundo são América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile), América do Norte – apesar dos Estados Unidos serem deficitários em agronegócio, são os maiores exportadores do mundo, Oceania e a região do leste da Europa e do Sul da Rússia que apresenta grande potencial de produção. Por outro lado, existe uma imensa região deficitária, que abrange o leste da Ásia (China e Japão), a Ásia Central, o Oriente Médio, no futuro a Ásia do Sul, além da Índia e da África, que juntas estima-se que até 2050 haja um crescimento populacional para cerca de cinco bilhões de pessoas. “Exatamente por isto que o nosso agronegócio cresce, porque a demanda cresce na China e nos países do Oriente, não mais na Europa e nem nos Estados Unidos. Hoje a gente vende basicamente para países emergentes da África. E isso que explica essa puxada gigantesca da soja e das carnes a partir do ano 2000”, discorre.

É muito importante entender a dinâmica internacional, porque quem vai puxar o agronegócio brasileiro não é o consumidor doméstico. “O agro é o setor mais internacionalizado da economia brasileira e é o setor talvez que tenha mais perspectiva de crescimento no mundo na medida em que a gente vê não só a demanda chinesa, mas também todo o potencial que ainda existe no Oriente Médio, na Índia e no futuro na África”, expõe Jank, acrescentando: “Nosso quadro é olhar para o Oriente para tentar abrir mercado, consolidar nossa posição competitiva naquela região e isso acaba puxando todo desenvolvimento da nossa indústria integrada de soja, milho e carne”.

Em relação ao consumo per capita de carne, as regiões que consomem perto ou acima de 100 kg de carne por habitante/ano são os países ricos – Estados Unidos, Europa e Austrália, e os países onde a carne é muito competitiva, como Brasil e Argentina. Já na África e no Sul da Ásia o consumo está abaixo de 20 kg. “São regiões com grande potencial de aumento de consumo. O consumo de carne nos países emergentes vai subir e muito, estive nessas regiões todas e as pessoas estão ansiosas para poder passar de um bife por semana para um bife a cada dois dias, porque elas não têm acesso a proteína. Existe um déficit proteico profundo nessas regiões e principalmente a comida é inacessível”, explica Jank.

Atualmente, a China saiu de US$ 1 bilhão para US$ 40 bilhões em exportações, com crescimento de outros países como no Sudeste da Ásia e uma queda da Europa, que nos anos 2000 comprova cerca de 70% da soja e da carne bovina, 40% do frango e agora perdeu a importância, consome 16% da exportação. “E vai ser cada vez menor porque já são mercados maduros, o consumidor não está aumentando o consumo, ao contrário, está reduzindo e buscando alternativas. Estão focados em produção doméstica, voltada para produtos orgânicos, carne vegetal e o não uso de promotores de crescimento ou de defensivos, é um modelo diferente, mas que custa mais caro, então nosso consumidor não será o europeu, mas sim o asiático”, afirma.

Neste contexto, Jank diz que a presença brasileira deve ser intensificada na Ásia, que está cada vez mais ganhando importância, representando hoje 80% das vendas de suíno, 70% do bovino e 50% do frango, conforme gráfico 3. “A Ásia é o nosso porto de destino e particularmente a China, que hoje é 60% urbana, com mais de 200 milhões de chineses saindo do campo para a cidade nesses últimos anos e por isso, no período entre 2000 a 2020 se tornou o principal destino do nosso agro”.

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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite

Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

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Foto: Isabele Kleim

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.

Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.

Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:

•    Compram a produção de pequenos agricultores;

•    Processam alimentos, como leite e derivados;

•    Garantem renda para famílias no campo.

Quem pode acessar o crédito

•    A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.

•    Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

•    Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.

Como funciona o financiamento

A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:

•    Prazo total: até 6 anos para pagamento;

•    Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;

•    Juros: 8% ao ano;

•    Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;

•    Limite por cooperado: até R$ 90 mil.

Até quando vale

A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.

O que muda na prática

Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:

•    Manter a compra da produção dos agricultores;

•    Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;

•    Garantir renda para famílias rurais;

•    Preservar empregos no interior;

•    Manter o abastecimento de alimentos.

A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.

Fonte: Agência Brasil
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental

Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

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Foto: Divulgação/Imac

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.

Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria

Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.

Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos

Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.

O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.

Fonte: Assessoria Imac
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte

Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

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Fotos: Lucas Nunes

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”

O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.

Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.

De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.

Melhoramento acelera ganhos produtivos

O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote

Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.

A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.

Modelo de seleção no Rio Grande do Sul

Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.

De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.

Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.

Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.

Manejo e adaptação

Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.

A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.

Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.

Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira

A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.

O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.

Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.

Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.

O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.

A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.

Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.

Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.

Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.

A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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