Suínos
Especialista aponta estratégias que realmente funcionam na preparação de leitões aos desafios sanitários
Treinamento do sistema imune, a modulação da microbiota intestinal e o uso de biorremediação surgem como alternativas integradas para reduzir o uso de antibióticos.

Do nascimento ao desmame, o leitão enfrenta diversos desafios que afetam sua saúde, desempenho e longevidade produtiva. Estratégias como o treinamento do sistema imune, a modulação da microbiota intestinal e o uso de biorremediação surgem como alternativas integradas para reduzir o uso de antibióticos. Mas o que a ciência e a prática comprovam como eficaz, seguro e viável?
Para o médico-veterinário Álvaro Menin, mestre em Ciência Animal, doutor em Biotecnologia e Biociências, PhD em Medicina Veterinária Preventiva e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o treinamento imunológico é uma abordagem preventiva e sistêmica que começa ainda no útero da matriz. “O ambiente intrauterino influencia a maturação do sistema imune fetal, envolvendo fatores como estado imunológico e metabólico da mãe, microbiota e estresse oxidativo. A fêmea estrutura componentes essenciais da imunidade inata que formam a base para a imunidade adaptativa do leitão”, afirma Menin, que vai palestrar sobre como preparar o leitão para os desafios sanitários durante o 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), que acontece de 12 a 14 de agosto em Chapecó (SC).
O especialista ressalta que após o nascimento, é fundamental garantir uma colostragem eficiente, associada a um programa vacinal da matriz, modulação da microbiota e exposição gradual a antígenos. Essas ações visam reduzir a ‘janela de susceptibilidade imunológica’, período em que a imunidade passiva diminui antes da maturação da imunidade ativa, deixando o leitão vulnerável.
Treinar o sistema imune vai além da vacinação: é criar um ambiente fisiológico, nutricional e sanitário equilibrado, sem sobrecarga inflamatória. A estratégia integrada, que abrange cuidados da fêmea, manejo colostral, modulação da microbiota e biosseguridade rigorosa, prepara o leitão para enfrentar desafios sanitários, reduzindo o uso de antimicrobianos e promovendo uma produção sustentável e eficiente.
Papel da microbiota intestinal na formação da imunidade precoce

Médico-veterinário, mestre em Ciência Animal, doutor em Biotecnologia e Biociências, PhD em Medicina Veterinária Preventiva e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Álvaro Menin: “Nenhum aditivo ou dieta substitui programas vacinais robustos, protocolos de limpeza e desinfecção eficientes e validados, vazio sanitário e controle rigoroso de entrada de patógenos” – Foto: Arquivo pessoal
A composição da microbiota intestinal está diretamente associada à saúde e ao desempenho zootécnico dos leitões. No entanto, mais do que simplesmente considerada ‘boa’, essa microbiota precisa ser resiliente, ou seja, capaz de manter sua estabilidade funcional mesmo diante dos desafios impostos pelo ambiente, pelo manejo e pela transição alimentar, reduzindo o risco de disbiose e a proliferação de microrganismos oportunistas, os chamados patobiontes.
A formação dessa microbiota é fortemente influenciada pela matriz. Microrganismos presentes no canal do parto, na mucosa vaginal, no colostro, leite, saliva, fezes e até mesmo no ambiente imediato de nascimento atuam na colonização inicial do intestino do leitão. “Por isso, a intervenção nutricional e sanitária sobre a microbiota da fêmea durante a gestação tem se mostrado uma estratégia eficaz para modular positivamente a microbiota do leitão, com efeitos que podem se estender por toda a sua vida”, pontua o especialista.
As primeiras duas a quatro semanas de vida constituem uma janela crítica, na qual o eixo microbiota–epitélio–sistema imune apresenta alta plasticidade e maior responsividade às intervenções. Nesse período, ressalta Menin, práticas como a administração de prebióticos, probióticos, simbióticos, aliadas à adoção rigorosa de boas práticas sanitárias, podem favorecer a maturação do sistema imunológico, a integridade das mucosas e a resistência a infecções.
Biorremediação e modulação da microbiota
Probióticos, prebióticos, simbióticos e estratégias de biorremediação têm ganhado destaque como ferramentas de suporte ao manejo sanitário e imunológico dos leitões. No entanto, as evidências científicas são claras ao apontar que essas soluções não devem ser aplicadas de forma isolada, mas integradas a uma abordagem mais ampla de manejo sanitário e imunológico.
Menin salienta que quando utilizados corretamente, probióticos podem melhorar a estabilidade da microbiota intestinal e reduzir a incidência de diarreias, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade. Os prebióticos, por sua vez, atuam como substratos funcionais que favorecem seletivamente o crescimento de bactérias benéficas, como Bifidobacterium e Lactobacillus, promovendo um ambiente intestinal mais equilibrado e resistente a disbioses. E os simbióticos, que combinam probióticos e prebióticos, buscam um efeito sinérgico, unindo o estímulo ao crescimento microbiano benéfico com a introdução de microrganismos vivos, otimizando assim a colonização intestinal e contribuindo para uma modulação mais eficiente do sistema imunológico.
No campo da biorremediação, o foco está no controle da carga antigênica e microbiana do ambiente, por meio de intervenções sanitárias, nutricionais e de manejo. O objetivo não é criar um ambiente estéril, mas sim garantir uma pressão de infecção controlada, que permita ao sistema imune do leitão se organizar de forma gradual, funcional e com menor desgaste energético.
Entre as estratégias sistemáticas de biorremediação, Menin menciona a estabilização da microbiota intestinal e respiratória por meio do uso de nutrientes específicos, como pré e probióticos; a implementação de higienogramas quantitativos e qualitativos para avaliar a eficácia dos protocolos de limpeza e desinfecção; o uso de ferramentas moleculares, como a qPCR, para mapear a prevalência de agentes infecciosos endêmicos e ajustar os programas vacinais e de biosseguridade; o controle de fatores imunossupressores, como micotoxinas e infecções subclínicas; e ainda a adoção de medidas voltadas à regeneração ambiental, com o objetivo de reduzir a carga microbiana patogênica e diminuir a transferência de genes de resistência a antimicrobianos.
Biosseguridade segue sendo o alicerce

Embora as estratégias nutricionais e ambientais tenham papel cada vez mais relevante no preparo sanitário dos leitões, o risco de superestimar sua eficácia em detrimento de medidas clássicas de biosseguridade é real e preocupante.
O médico-veterinário é categórico ao afirmar que nenhum aditivo, dieta ou intervenção ambiental substitui os fundamentos básicos da sanidade. “Nenhum aditivo ou dieta substitui programas vacinais robustos, protocolos de limpeza e desinfecção eficientes e validados, vazio sanitário e controle rigoroso de entrada de patógenos”, adverte.
Para o especialista, o equilíbrio está em compreender que biosseguridade, nutrição funcional, ambiência e imunização não competem entre si, são ferramentas complementares, que devem atuar de forma integrada e sinérgica para garantir a saúde e o desempenho dos animais.
Menin reforça que intervenções nutricionais, tanto em matrizes quanto em leitões, devem ser encaradas com seriedade, uma vez que representam investimentos de alto valor agregado e impacto direto sobre a fisiologia dos animais. Por isso, precisam ser baseadas em monitoramento laboratorial criterioso e embasadas por evidências robustas. “É fundamental que essas intervenções atendam às exigências metabólicas da fêmea, favoreçam a produção de um colostro rico em imunoglobulinas, células de defesa e compostos bioativos e, ao mesmo tempo, promovam o nascimento de leitões com a imunidade inata bem estruturada, preparados para enfrentar os desafios sanitários das primeiras fases da vida”, ressalta o mestre em Ciência Animal.
Colostro: a primeira vacina do leitão
A transferência de imunidade passiva (TIP) por meio do colostro é um dos pilares da sanidade nas primeiras semanas de vida do leitão. Como a placenta suína é do tipo epiteliocorial, o que impede a passagem de anticorpos durante a gestação, o colostro se torna a única e exclusiva fonte de imunoglobulinas, citocinas, fatores antimicrobianos e células de defesa no período neonatal. “É a primeira e mais importante linha de defesa do leitão, e sua eficácia depende de dois fatores-chave: a qualidade do colostro e a eficiência da colostragem”, destaca o especialista.
A colostrogênese, ou seja, a capacidade da matriz de produzir colostro rico em compostos imunológicos e nutricionais, é influenciada por fatores como estado de saúde, nutrição, manejo e protocolo vacinal da fêmea. Já a colostragem diz respeito ao manejo imediato após o parto: o tempo, a quantidade e a frequência com que os leitões ingerem o colostro são determinantes para sua sobrevivência e desempenho.
Segundo o doutor em Biotecnologia e Biociências, a ingestão adequada nas primeiras duas a seis horas de vida é essencial para garantir a absorção eficiente de imunoglobulinas e a proteção contra infecções, reduzindo de forma significativa os índices de mortalidade pré-desmame. “Leitões que não recebem colostro de forma eficiente ficam mais suscetíveis a doenças e têm a resposta vacinal comprometida, pois não estruturam adequadamente o sistema imunológico a tempo”, alerta.
Outro ponto crítico é o timing da vacinação. De acordo com Menin, a presença de altos níveis de anticorpos maternos no momento da aplicação pode interferir na eficácia da imunização ativa, neutralizando os antígenos vacinais antes que o sistema imune do leitão tenha a chance de reconhecê-los e responder. Por outro lado, aplicar a vacina tarde demais pode deixar o animal desprotegido em uma janela de vulnerabilidade imunológica. “É indispensável seguir as recomendações técnicas das fabricantes quanto ao momento ideal de aplicação de cada vacina, considerando o histórico sanitário da granja, o perfil de agentes circulantes e a dinâmica da imunidade passiva e ativa”, reforça o médico-veterinário.
O leitão está pronto?
Saber se um leitão está de fato imunologicamente preparado para enfrentar os desafios sanitários não é mais apenas uma questão de observação empírica. Hoje, há ferramentas práticas e laboratoriais que permitem avaliar tanto a qualidade do colostro quanto a eficiência da colostragem.
No campo, a opção mais acessível é o refratômetro de Brix, que estima a concentração de sólidos no colostro. “Valores acima de 26% Brix indicam um colostro de boa qualidade, rico em imunoglobulinas e capaz de garantir uma transferência de imunidade passiva eficaz”, explica Menin.
Para avaliar se o leitão realmente absorveu esses anticorpos, o foco se volta ao sangue. Menin cita o uso de testes como o imunócrito e o ELISA para medir a concentração de IgG no soro dos leitões, idealmente coletado até 24 horas após o nascimento. “As mesmas análises também podem ser aplicadas diretamente ao colostro e ao leite para mensurar os níveis de IgG e IgA”, aponta.
Quando algo dá errado, seja na produção de colostro pela matriz ou na ingestão por parte dos leitões, os sinais não tardam a aparecer. “Desuniformidade da leitegada, maior incidência de diarreias, baixo ganho de peso, falhas vacinais, aumento da mortalidade e baixa resposta a tratamentos são indicativos clássicos de falhas na colostrogênese ou colostragem”, evidencia o PhD em Medicina Veterinária Preventiva, enfatizando: “O uso sistemático dessas ferramentas permite identificar precocemente os pontos críticos e corrigir o manejo, contribuindo para maior sanidade, desempenho e eficiência produtiva ao longo de toda a cadeia”.
Preparar o leitão é enxergar o sistema
Na busca por leitões mais saudáveis e produtivos, não há espaço para soluções isoladas ou atalhos. Vacinas, aditivos, manejo ambiental e protocolos de exposição controlada têm papel relevante, mas o que realmente deve ser priorizado depende do perfil sanitário da granja, de sua estrutura e dos principais desafios enfrentados. “Programas vacinais bem estruturados são inegociáveis nos sistemas de produção brasileiros, especialmente diante da presença constante de agentes endêmicos com alto poder imunossupressor e impacto direto sobre a mortalidade e a eficiência produtiva. Sem vacinação eficaz, os demais esforços, por mais bem executados, perdem força”, frisa Menin.

Aditivos funcionais também são aliados importantes na promoção da saúde intestinal, suporte imunológico e redução da dependência de antibióticos. No entanto, Menin adverte que seu uso deve ser estratégico, baseado em evidências e acompanhado por monitoramento laboratorial contínuo, com análises simples, como perfis hematobioquímicos e estudos de microbiota.
Outro alicerce da preparação sanitária está no manejo de ambiência, que vai muito além do conforto térmico. “A ambiência deve estar integrada às práticas de biorremediação, com protocolos de limpeza e desinfecção validados, focados na redução de patobiontes e na contenção da disseminação de genes de resistência a antimicrobianos”, enfatiza.
O especialista reforça ainda que protocolos de exposição controlada a agentes específicos podem ser utilizados pontualmente, com acompanhamento técnico rigoroso, contudo não substituem medidas clássicas de biosseguridade, como o vazio sanitário e o controle rigoroso do fluxo de pessoas e materiais.
Avanços tecnológicos
Do ponto de vista tecnológico, os avanços são promissores e apontam para uma nova era na preparação sanitária dos leitões. O médico-veterinário destaca quatro frentes que devem transformar esse processo nos próximos anos.
A primeira delas é o uso de biomarcadores imunológicos e metabólicos, que permitem monitorar, de forma mais precisa e em tempo real, o estado de saúde dos animais.
A segunda é o desenvolvimento de vacinas personalizadas, com base em tecnologias como o RNA mensageiro (mRNA) e o CRISPR, que possibilitam respostas imunológicas mais específicas e eficientes.
A terceira frente é a análise de microbioma aplicada à suinocultura, cada vez mais utilizada para orientar a modulação intestinal e o uso racional de antibióticos ao longo das diferentes fases de produção.
E a quarta é o avanço das plataformas de análise de dados, impulsionadas pela inteligência artificial, que vêm tornando as decisões de manejo e sanidade mais precisas, rápidas e embasadas em evidências concretas.
Para Menin, preparar o leitão não é apenas uma questão de imunidade, mas de visão sistêmica. “A matriz é a primeira ‘fábrica de saúde’ do leitão. Colostro, microbiota, ambiente e biosseguridade formam um ecossistema integrado. Investir em diagnóstico precoce, monitoramento e capacitação das equipes de campo é tão importante quanto a escolha do aditivo ou vacina. Não existe fórmula secreta. Existe coerência técnica, execução consistente e compromisso com a performance”, ressalta.

Suínos
Suinocultura deve fechar 2025 com preços firmes e bom desempenho
Retrospectiva do Cepea aponta equilíbrio entre oferta e demanda baixa volatilidade no mercado interno expansão das exportações e cenário favorável para 2026 mesmo com menor compra da China.

A suinocultura brasileira fechou 2025 com um dos melhores desempenhos de sua história recente, segundo a Retrospectiva Cepea. Os preços do suíno vivo, em termos reais, deflacionados pelo IGP-DI de novembro de 2025, apresentaram firmeza e baixa volatilidade ao longo do ano no mercado spot da praça SP-5, que engloba Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba.
O cenário positivo foi resultado direto da expansão controlada da produção, que se manteve alinhada às demandas interna e externa aquecidas. Esse equilíbrio entre oferta e consumo garantiu margens elevadas aos produtores e consolidou um ambiente de rentabilidade histórica para a atividade.
No mercado internacional, o desempenho das exportações brasileiras foi sustentado pela ampliação e diversificação da base de importadores. Mesmo com a forte retração de quase 40% nas compras da China, tradicionalmente o principal destino da carne suína nacional, o Brasil conseguiu alcançar marcas recordes nos embarques, apoiado na elevada capilaridade dos mercados compradores.
Entre os destaques esteve o avanço da demanda de países asiáticos, como as Filipinas. O país, que combina crescimento econômico e populacional, enfrenta problemas recorrentes com a Peste Suína Africana (PSA), responsável por sucessivas quebras na produção doméstica. Esse contexto aumentou a dependência de importações e abriu espaço para uma demanda mais intensa pela carne suína brasileira.
Após os resultados expressivos de 2025, as perspectivas para 2026 seguem favoráveis. A expectativa é de manutenção de preços firmes, produção ajustada e continuidade da boa rentabilidade. A tendência de redução das compras chinesas deve persistir, ampliando oportunidades para outros mercados da Ásia, como Japão e Filipinas, além de países das Américas, a exemplo de México e Chile.
Suínos
Santa Catarina foi berço da inseminação artificial que transformou a suinocultura brasileira
Implantada em Concórdia nos anos 1970, a técnica revolucionou a genética, impulsionou a produtividade e se tornou base da suinocultura moderna no país.

A história da inseminação artificial em suínos começou em Santa Catarina, em 1975, com a criação da Central Regional de Disseminação Artificial de Suínos (Criasc), hoje Central de Coleta e Difusão Genética, em Concórdia. A iniciativa colocou o estado na vanguarda da técnica no Brasil, ao lado do Rio Grande do Sul.
A ideia de introduzir a inseminação artificial em suínos no estado catarinense surgiu de articulações entre a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), a Associação Catarinense (ACCS), Embrapa Aves e Suínos e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O então presidente da ABCS, Hélio Miguel de Rose, e o dirigente da ACCS, Paulo Tramontini, foram figuras decisivas para trazer a técnica para o Brasil. O mestre em Patologia da Reprodução e doutor em Produção Animal, Paulo Silveira, único médico-veterinário na ACCS na época, foi designado para liderar a implantação da ferramenta. “Era algo totalmente novo para nós. O desafio era aprender com quem já fazia e adaptar ao nosso sistema produtivo”, relata.

Médico-veterinário, mestre em Patologia da Reprodução e doutor em Produção Animal e um dos precursores da inseminação artificial em Santa Catarina, Paulo Silveira: “Ninguém faz história sozinho. O sucesso da inseminação é mérito de uma geração inteira de profissionais que acreditou na ciência” – Foto: Arquivo Pessoal
Uma comitiva formada por Silveira, Santo Zacarias Gomes, da Secretaria de Agricultura de Santa Catarina, e Inocêncio Warmbly, do Mapa, viajou à Alemanha para conhecer o uso de sêmen resfriado e o funcionamento das centrais europeias. Na Universidade de Hanôver, o grupo conheceu o pesquisador Hein Troi, que mais tarde enviaria ao Brasil um botijão de nitrogênio líquido com sêmen suíno congelado – o ponto de partida para os primeiros experimentos em solo catarinense. “Recebemos o sêmen com enorme expectativa. Realizamos as primeiras inseminações em porcas sincronizadas e obtivemos resultados muito acima do esperado”, menciona Silveira, salientando: “Os leitões que nasceram desses experimentos tinham qualidade genética muito superior e alguns se tornaram reprodutores da própria central”.
Os equipamentos, em sua maioria, foram improvisados. “O manequim de coleta, por exemplo, nós mesmos reproduzimos com base no que vimos na Alemanha, usando o que tínhamos à disposição”, conta o médico-veterinário.
As primeiras doses de sêmen resfriado passaram a atender granjas da região, numa época em que a comunicação era precária e o transporte feito em estradas de chão. “O telefone era luxo, e a identificação do cio dependia muito do olho do técnico. Ainda assim, alcançamos taxas de prenhez acima de 80%. Para os anos 70, era uma conquista enorme”, menciona o doutor em Produção Animal.
O projeto marcou o início de uma nova era na reprodução animal e abriu caminho para o que viria a se tornar uma das cadeias produtivas mais tecnificadas do agronegócio brasileiro. De uma estrutura modesta e experimental em Concórdia, a inseminação artificial se expandiu e se tornou o alicerce da suinocultura nacional. Hoje, mais de duas milhões de matrizes suínas são inseminadas no país, praticamente 100% do plantel tecnificado. “Foi um tempo de descobertas, improviso e muita vontade de fazer acontecer”, relembra Silveira, ressaltando: “Na época, não tínhamos tecnologia, mas tínhamos o propósito de levar a genética de ponta até o produtor catarinense e o resultado superou todas as expectativas.”
Resistência e superação
A novidade enfrentou resistência inicial entre os produtores, acostumados à monta natural. “Muitos achavam que não daria certo fora do laboratório. Mas quando viram os resultados, o ceticismo virou curiosidade e, logo depois, adesão”, recorda.
Entre os parceiros dessa fase pioneira estavam o médico-veterinário Luiz Alberto Caetano, da Secretaria de Agricultura de Santa Catarina, e o fiscal do Ministério da Agricultura Vamiré Luiz Sens, que acabou se tornando colaborador permanente da central. No campo, o inseminador Irineu Sareta foi peça-chave para o sucesso do projeto. “Dedicado, discreto e incansável, enfrentava barro, chuva e distância para atender os produtores”, diz Silveira.
Os treinamentos realizados pela equipe ajudaram a disseminar a técnica pelo país. A partir dos anos 1980, grandes granjas começaram a criar suas próprias centrais internas de inseminação, e a prática se tornou rotina na suinocultura brasileira.
Difusão da inseminação artificial
O impacto foi imediato. A difusão da inseminação artificial permitiu um salto produtivo nas granjas, que passaram de estruturas com 30 ou 40 matrizes para unidades com centenas e, mais tarde, milhares de fêmeas, transformando Santa Catarina no maior produtor e o principal exportador de carne suína do Brasi. “A inseminação artificial foi o ponto de virada. Transformou a suinocultura artesanal em uma atividade industrializada e tecnificada”, afirma.
Empresas como a Sadia e a Agroceres PIC apostaram na técnica para seus programas genéticos. A Sadia implantou um núcleo de 5 mil matrizes em Faxinal dos Guedes (SC) e processava seu próprio sêmen, enquanto a Agroceres PIC se destacou na difusão de doses comerciais. “A genética virou estratégia de competitividade. Quem dominava a tecnologia estava à frente do mercado”, pontua Silveira.
Criação do Cedisa
Além da contribuição à inseminação, Paulo Silveira teve papel decisivo na criação do Centro de Diagnósticos de Sanidade Animal (Cedisa), instalado em Concórdia durante seu período como chefe-geral da Embrapa Suínos e Aves. “O Cedisa nasceu da percepção de que não bastava disseminar genética de ponta; era preciso garantir sanidade. Ele foi concebido para dar suporte técnico, diagnóstico e segurança à cadeia suinícola”, explica.
A estrutura se tornou referência nacional e contribuiu para a consolidação dos programas de controle sanitário no país. “Sem saúde reprodutiva e controle de doenças, a genética perde valor”, reforça Silveira.
Avanços técnicos

Presidente da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi: “Nosso trabalho também contribui para manter a sanidade do rebanho catarinense e garantir o atendimento aos mercados mais exigentes do mundo” – Foto: Divulgação/ACCS
A inseminação artificial evoluiu de forma muito rápida. A introdução da técnica pós-cervical (intrauterina profunda) reduziu o refluxo e permitiu multiplicar por cinco o número de doses por suíno. A automação trouxe precisão às análises de sêmen e às diluições, e centrais modernas já contam com coleta automatizada. “Hoje se mede concentração e motilidade com máquinas, mas a essência é a mesma: entender o animal e respeitar o ciclo reprodutivo”, salienta Silveira.
Entre os desafios atuais, ele destaca o diagnóstico de cio. “Esse ainda é o ponto crítico. O cio é comportamento, é observação. Nenhuma máquina substitui a sensibilidade do técnico”, enfatiza, ressaltando a necessidade de haver avanços em diluentes de sêmen. “Precisamos de produtos mais acessíveis e duráveis. Se o sêmen puder ser conservado por mais de uma semana em boas condições, o setor dará um salto gigantesco, potencializando a produção de suínos em todo o país.”, enaltece.
Legado e reconhecimento
Cinquenta anos depois, Silveira enxerga a inseminação artificial como um dos pilares da suinocultura brasileira. “Hoje é impossível imaginar a produção de suínos sem a inseminação artificial. Se tornou um insumo técnico indispensável, tanto quanto a nutrição e a genética”, afirma.
Ele faz questão de citar nomes que ajudaram a consolidar a técnica, como Ivo Wentz, Werner Meincke e Isabel Scheid, pioneiros da técnica no Rio Grande do Sul, que transformaram pesquisa em prática. “Ninguém faz história sozinho. O sucesso da inseminação é mérito de uma geração inteira de profissionais que acreditou na ciência”, exalta.
Orgulhoso, o pioneiro resume sua trajetória com simplicidade: “Eu me sinto uma centelha. A gente começou pequeno, com improviso e coragem. Hoje, o Brasil é uma potência mundial em genética suína e isso é fruto da persistência de quem acreditou no impossível”, ressalta.
Força da genética catarinense
Com estrutura que alia tecnologia, bem-estar animal e sanidade, a Central de Coleta e Difusão Genética da ACCS é hoje uma das mais avançadas do país na produção e distribuição de sêmen suíno de alto padrão genético. “Essa é a primeira central do Brasil construída dentro dos princípios do bem-estar animal, com ambiente climatizado, musicalização e brinquedos para evitar o estresse no animal. Nosso trabalho também contribui para manter a sanidade do rebanho catarinense e garantir o atendimento aos mercados mais exigentes do mundo”, destaca o presidente da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi.
Com base no número de machos alojados, a produção média mensal chega a 17 mil doses de sêmen, um salto expressivo em relação a setembro de 2014, quando a ACCS reassumiu os trabalhos da central e registrava apenas 2.577 doses por mês.
Estrutura e diferenciais
Atualmente, a central abriga 150 reprodutores, sendo 60% da genética Agroceres PIC e 40% da Topigs Norsvin – entre as mais reconhecidas do mundo. O alojamento segue rigorosos padrões de bem-estar, com baias de seis metros quadrados, sendo quatro de piso ripado, garantindo conforto, higiene e segurança sanitária.
O centro de coleta permite o trabalho simultâneo com quatro animais e utiliza manequins semiautomáticos, tecnologia que aumenta a eficiência e reduz riscos de contaminação. As amostras são transferidas diretamente para o laboratório por meio de um óculo vedado, evitando o contato com o ambiente externo e preservando a qualidade do material.
Tecnologia e capacitação
Além de comercializar sêmen de alto valor genético, a central utiliza o sistema computadorizado CASA, que realiza a avaliação automatizada das células espermáticas, garantindo precisão nos parâmetros de qualidade. O processo é conduzido por uma equipe técnica qualificada e comprometida em oferecer produtos e serviços confiáveis aos suinocultores.
A ACCS também atua na formação de mão de obra especializada, em parceria com o universidades catarinenses, recebendo acadêmicos do curso de Medicina Veterinária para estagiar na unidade.
Suínos
Preços do suíno vivo sobem e aumentam rentabilidade em 2025
Oferta controlada e baixa do farelo de soja ampliam lucro dos produtores e impulsionam exportações brasileiras.

Os preços do suíno vivo no mercado doméstico permaneceram firmes ao longo de 2025, sustentados pelo aquecimento das demandas interna e externa e pela oferta controlada.
Ao mesmo tempo, as cotações do farelo de soja, um dos principais insumos utilizados na atividade, operaram em baixos patamares. Como resultado, o poder de compra do suinocultor paulista frente ao derivado foi o maior da série histórica do Cepea, iniciada em 2004.
O suíno vivo posto na indústria da praça SP-5 foi comercializado à média de R$ 8,56/kg no ano, 6,5% acima da de 2024 e a mais alta desde 2020, em termos reais (IGP-DI). O pico de preços do animal na região foi observado em setembro, de R$ 9,25/kg.
Como nos últimos anos, 2025 foi caracterizado pela crescente demanda externa pela carne suína brasileira. De janeiro a novembro, foram 1,35 milhão de toneladas embarcadas, 10,3% a mais que no mesmo período do ano anterior e já superando todo volume enviado ao exterior em 2024, de 1,33 milhão de toneladas, segundo dados da Secex.
Recentemente, o Brasil atingiu a terceira posição de maiores exportadores de carne suína, de acordo com o USDA, devido a uma ação conjunta que visa abrir e consolidar novos mercados, assim como garantir produção e seu devido escoamento para o exterior. Entre os destinos, as Filipinas seguiram como o principal, com mais de 350 mil toneladas destinadas ao país asiático em 2025.



