Suínos
Especialista aponta estratégias que realmente funcionam na preparação de leitões aos desafios sanitários
Treinamento do sistema imune, a modulação da microbiota intestinal e o uso de biorremediação surgem como alternativas integradas para reduzir o uso de antibióticos.

Do nascimento ao desmame, o leitão enfrenta diversos desafios que afetam sua saúde, desempenho e longevidade produtiva. Estratégias como o treinamento do sistema imune, a modulação da microbiota intestinal e o uso de biorremediação surgem como alternativas integradas para reduzir o uso de antibióticos. Mas o que a ciência e a prática comprovam como eficaz, seguro e viável?
Para o médico-veterinário Álvaro Menin, mestre em Ciência Animal, doutor em Biotecnologia e Biociências, PhD em Medicina Veterinária Preventiva e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o treinamento imunológico é uma abordagem preventiva e sistêmica que começa ainda no útero da matriz. “O ambiente intrauterino influencia a maturação do sistema imune fetal, envolvendo fatores como estado imunológico e metabólico da mãe, microbiota e estresse oxidativo. A fêmea estrutura componentes essenciais da imunidade inata que formam a base para a imunidade adaptativa do leitão”, afirma Menin, que vai palestrar sobre como preparar o leitão para os desafios sanitários durante o 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), que acontece de 12 a 14 de agosto em Chapecó (SC).
O especialista ressalta que após o nascimento, é fundamental garantir uma colostragem eficiente, associada a um programa vacinal da matriz, modulação da microbiota e exposição gradual a antígenos. Essas ações visam reduzir a ‘janela de susceptibilidade imunológica’, período em que a imunidade passiva diminui antes da maturação da imunidade ativa, deixando o leitão vulnerável.
Treinar o sistema imune vai além da vacinação: é criar um ambiente fisiológico, nutricional e sanitário equilibrado, sem sobrecarga inflamatória. A estratégia integrada, que abrange cuidados da fêmea, manejo colostral, modulação da microbiota e biosseguridade rigorosa, prepara o leitão para enfrentar desafios sanitários, reduzindo o uso de antimicrobianos e promovendo uma produção sustentável e eficiente.
Papel da microbiota intestinal na formação da imunidade precoce

Médico-veterinário, mestre em Ciência Animal, doutor em Biotecnologia e Biociências, PhD em Medicina Veterinária Preventiva e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Álvaro Menin: “Nenhum aditivo ou dieta substitui programas vacinais robustos, protocolos de limpeza e desinfecção eficientes e validados, vazio sanitário e controle rigoroso de entrada de patógenos” – Foto: Arquivo pessoal
A composição da microbiota intestinal está diretamente associada à saúde e ao desempenho zootécnico dos leitões. No entanto, mais do que simplesmente considerada ‘boa’, essa microbiota precisa ser resiliente, ou seja, capaz de manter sua estabilidade funcional mesmo diante dos desafios impostos pelo ambiente, pelo manejo e pela transição alimentar, reduzindo o risco de disbiose e a proliferação de microrganismos oportunistas, os chamados patobiontes.
A formação dessa microbiota é fortemente influenciada pela matriz. Microrganismos presentes no canal do parto, na mucosa vaginal, no colostro, leite, saliva, fezes e até mesmo no ambiente imediato de nascimento atuam na colonização inicial do intestino do leitão. “Por isso, a intervenção nutricional e sanitária sobre a microbiota da fêmea durante a gestação tem se mostrado uma estratégia eficaz para modular positivamente a microbiota do leitão, com efeitos que podem se estender por toda a sua vida”, pontua o especialista.
As primeiras duas a quatro semanas de vida constituem uma janela crítica, na qual o eixo microbiota–epitélio–sistema imune apresenta alta plasticidade e maior responsividade às intervenções. Nesse período, ressalta Menin, práticas como a administração de prebióticos, probióticos, simbióticos, aliadas à adoção rigorosa de boas práticas sanitárias, podem favorecer a maturação do sistema imunológico, a integridade das mucosas e a resistência a infecções.
Biorremediação e modulação da microbiota
Probióticos, prebióticos, simbióticos e estratégias de biorremediação têm ganhado destaque como ferramentas de suporte ao manejo sanitário e imunológico dos leitões. No entanto, as evidências científicas são claras ao apontar que essas soluções não devem ser aplicadas de forma isolada, mas integradas a uma abordagem mais ampla de manejo sanitário e imunológico.
Menin salienta que quando utilizados corretamente, probióticos podem melhorar a estabilidade da microbiota intestinal e reduzir a incidência de diarreias, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade. Os prebióticos, por sua vez, atuam como substratos funcionais que favorecem seletivamente o crescimento de bactérias benéficas, como Bifidobacterium e Lactobacillus, promovendo um ambiente intestinal mais equilibrado e resistente a disbioses. E os simbióticos, que combinam probióticos e prebióticos, buscam um efeito sinérgico, unindo o estímulo ao crescimento microbiano benéfico com a introdução de microrganismos vivos, otimizando assim a colonização intestinal e contribuindo para uma modulação mais eficiente do sistema imunológico.
No campo da biorremediação, o foco está no controle da carga antigênica e microbiana do ambiente, por meio de intervenções sanitárias, nutricionais e de manejo. O objetivo não é criar um ambiente estéril, mas sim garantir uma pressão de infecção controlada, que permita ao sistema imune do leitão se organizar de forma gradual, funcional e com menor desgaste energético.
Entre as estratégias sistemáticas de biorremediação, Menin menciona a estabilização da microbiota intestinal e respiratória por meio do uso de nutrientes específicos, como pré e probióticos; a implementação de higienogramas quantitativos e qualitativos para avaliar a eficácia dos protocolos de limpeza e desinfecção; o uso de ferramentas moleculares, como a qPCR, para mapear a prevalência de agentes infecciosos endêmicos e ajustar os programas vacinais e de biosseguridade; o controle de fatores imunossupressores, como micotoxinas e infecções subclínicas; e ainda a adoção de medidas voltadas à regeneração ambiental, com o objetivo de reduzir a carga microbiana patogênica e diminuir a transferência de genes de resistência a antimicrobianos.
Biosseguridade segue sendo o alicerce

Embora as estratégias nutricionais e ambientais tenham papel cada vez mais relevante no preparo sanitário dos leitões, o risco de superestimar sua eficácia em detrimento de medidas clássicas de biosseguridade é real e preocupante.
O médico-veterinário é categórico ao afirmar que nenhum aditivo, dieta ou intervenção ambiental substitui os fundamentos básicos da sanidade. “Nenhum aditivo ou dieta substitui programas vacinais robustos, protocolos de limpeza e desinfecção eficientes e validados, vazio sanitário e controle rigoroso de entrada de patógenos”, adverte.
Para o especialista, o equilíbrio está em compreender que biosseguridade, nutrição funcional, ambiência e imunização não competem entre si, são ferramentas complementares, que devem atuar de forma integrada e sinérgica para garantir a saúde e o desempenho dos animais.
Menin reforça que intervenções nutricionais, tanto em matrizes quanto em leitões, devem ser encaradas com seriedade, uma vez que representam investimentos de alto valor agregado e impacto direto sobre a fisiologia dos animais. Por isso, precisam ser baseadas em monitoramento laboratorial criterioso e embasadas por evidências robustas. “É fundamental que essas intervenções atendam às exigências metabólicas da fêmea, favoreçam a produção de um colostro rico em imunoglobulinas, células de defesa e compostos bioativos e, ao mesmo tempo, promovam o nascimento de leitões com a imunidade inata bem estruturada, preparados para enfrentar os desafios sanitários das primeiras fases da vida”, ressalta o mestre em Ciência Animal.
Colostro: a primeira vacina do leitão
A transferência de imunidade passiva (TIP) por meio do colostro é um dos pilares da sanidade nas primeiras semanas de vida do leitão. Como a placenta suína é do tipo epiteliocorial, o que impede a passagem de anticorpos durante a gestação, o colostro se torna a única e exclusiva fonte de imunoglobulinas, citocinas, fatores antimicrobianos e células de defesa no período neonatal. “É a primeira e mais importante linha de defesa do leitão, e sua eficácia depende de dois fatores-chave: a qualidade do colostro e a eficiência da colostragem”, destaca o especialista.
A colostrogênese, ou seja, a capacidade da matriz de produzir colostro rico em compostos imunológicos e nutricionais, é influenciada por fatores como estado de saúde, nutrição, manejo e protocolo vacinal da fêmea. Já a colostragem diz respeito ao manejo imediato após o parto: o tempo, a quantidade e a frequência com que os leitões ingerem o colostro são determinantes para sua sobrevivência e desempenho.
Segundo o doutor em Biotecnologia e Biociências, a ingestão adequada nas primeiras duas a seis horas de vida é essencial para garantir a absorção eficiente de imunoglobulinas e a proteção contra infecções, reduzindo de forma significativa os índices de mortalidade pré-desmame. “Leitões que não recebem colostro de forma eficiente ficam mais suscetíveis a doenças e têm a resposta vacinal comprometida, pois não estruturam adequadamente o sistema imunológico a tempo”, alerta.
Outro ponto crítico é o timing da vacinação. De acordo com Menin, a presença de altos níveis de anticorpos maternos no momento da aplicação pode interferir na eficácia da imunização ativa, neutralizando os antígenos vacinais antes que o sistema imune do leitão tenha a chance de reconhecê-los e responder. Por outro lado, aplicar a vacina tarde demais pode deixar o animal desprotegido em uma janela de vulnerabilidade imunológica. “É indispensável seguir as recomendações técnicas das fabricantes quanto ao momento ideal de aplicação de cada vacina, considerando o histórico sanitário da granja, o perfil de agentes circulantes e a dinâmica da imunidade passiva e ativa”, reforça o médico-veterinário.
O leitão está pronto?
Saber se um leitão está de fato imunologicamente preparado para enfrentar os desafios sanitários não é mais apenas uma questão de observação empírica. Hoje, há ferramentas práticas e laboratoriais que permitem avaliar tanto a qualidade do colostro quanto a eficiência da colostragem.
No campo, a opção mais acessível é o refratômetro de Brix, que estima a concentração de sólidos no colostro. “Valores acima de 26% Brix indicam um colostro de boa qualidade, rico em imunoglobulinas e capaz de garantir uma transferência de imunidade passiva eficaz”, explica Menin.
Para avaliar se o leitão realmente absorveu esses anticorpos, o foco se volta ao sangue. Menin cita o uso de testes como o imunócrito e o ELISA para medir a concentração de IgG no soro dos leitões, idealmente coletado até 24 horas após o nascimento. “As mesmas análises também podem ser aplicadas diretamente ao colostro e ao leite para mensurar os níveis de IgG e IgA”, aponta.
Quando algo dá errado, seja na produção de colostro pela matriz ou na ingestão por parte dos leitões, os sinais não tardam a aparecer. “Desuniformidade da leitegada, maior incidência de diarreias, baixo ganho de peso, falhas vacinais, aumento da mortalidade e baixa resposta a tratamentos são indicativos clássicos de falhas na colostrogênese ou colostragem”, evidencia o PhD em Medicina Veterinária Preventiva, enfatizando: “O uso sistemático dessas ferramentas permite identificar precocemente os pontos críticos e corrigir o manejo, contribuindo para maior sanidade, desempenho e eficiência produtiva ao longo de toda a cadeia”.
Preparar o leitão é enxergar o sistema
Na busca por leitões mais saudáveis e produtivos, não há espaço para soluções isoladas ou atalhos. Vacinas, aditivos, manejo ambiental e protocolos de exposição controlada têm papel relevante, mas o que realmente deve ser priorizado depende do perfil sanitário da granja, de sua estrutura e dos principais desafios enfrentados. “Programas vacinais bem estruturados são inegociáveis nos sistemas de produção brasileiros, especialmente diante da presença constante de agentes endêmicos com alto poder imunossupressor e impacto direto sobre a mortalidade e a eficiência produtiva. Sem vacinação eficaz, os demais esforços, por mais bem executados, perdem força”, frisa Menin.

Aditivos funcionais também são aliados importantes na promoção da saúde intestinal, suporte imunológico e redução da dependência de antibióticos. No entanto, Menin adverte que seu uso deve ser estratégico, baseado em evidências e acompanhado por monitoramento laboratorial contínuo, com análises simples, como perfis hematobioquímicos e estudos de microbiota.
Outro alicerce da preparação sanitária está no manejo de ambiência, que vai muito além do conforto térmico. “A ambiência deve estar integrada às práticas de biorremediação, com protocolos de limpeza e desinfecção validados, focados na redução de patobiontes e na contenção da disseminação de genes de resistência a antimicrobianos”, enfatiza.
O especialista reforça ainda que protocolos de exposição controlada a agentes específicos podem ser utilizados pontualmente, com acompanhamento técnico rigoroso, contudo não substituem medidas clássicas de biosseguridade, como o vazio sanitário e o controle rigoroso do fluxo de pessoas e materiais.
Avanços tecnológicos
Do ponto de vista tecnológico, os avanços são promissores e apontam para uma nova era na preparação sanitária dos leitões. O médico-veterinário destaca quatro frentes que devem transformar esse processo nos próximos anos.
A primeira delas é o uso de biomarcadores imunológicos e metabólicos, que permitem monitorar, de forma mais precisa e em tempo real, o estado de saúde dos animais.
A segunda é o desenvolvimento de vacinas personalizadas, com base em tecnologias como o RNA mensageiro (mRNA) e o CRISPR, que possibilitam respostas imunológicas mais específicas e eficientes.
A terceira frente é a análise de microbioma aplicada à suinocultura, cada vez mais utilizada para orientar a modulação intestinal e o uso racional de antibióticos ao longo das diferentes fases de produção.
E a quarta é o avanço das plataformas de análise de dados, impulsionadas pela inteligência artificial, que vêm tornando as decisões de manejo e sanidade mais precisas, rápidas e embasadas em evidências concretas.
Para Menin, preparar o leitão não é apenas uma questão de imunidade, mas de visão sistêmica. “A matriz é a primeira ‘fábrica de saúde’ do leitão. Colostro, microbiota, ambiente e biosseguridade formam um ecossistema integrado. Investir em diagnóstico precoce, monitoramento e capacitação das equipes de campo é tão importante quanto a escolha do aditivo ou vacina. Não existe fórmula secreta. Existe coerência técnica, execução consistente e compromisso com a performance”, ressalta.

Suínos
Preços do suíno na China atingem menor nível em 16 anos e aceleram descarte de plantéis
Perdas de até US$ 55 por animal pressionam produtores enquanto o país reduz dependência de soja dos EUA e amplia uso de ração fermentada.

Os produtores de suínos na China atravessam o período mais adverso desde 2010. O preço do animal vivo caiu ao menor patamar em 16 anos, em torno de 9,17 yuans por quilo, equivalente a cerca de US$ 0,62 por libra-peso, insuficiente para cobrir os custos de produção. A conta não fecha: estima-se prejuízo entre US$ 50 e US$ 55 por cabeça, o que tem provocado descarte acelerado de matrizes e redução forçada dos plantéis.

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A crise combina oferta elevada, demanda doméstica enfraquecida e um ambiente econômico pressionado. Em setembro do ano passado, autoridades chinesas reuniram os maiores produtores do país para discutir cortes coordenados na produção. Desde então, as cotações continuaram em queda, ampliando o período de perdas consecutivas na suinocultura do país.
O cenário ocorre em paralelo a uma mudança estrutural na estratégia de abastecimento de insumos para ração. A China reduziu de forma expressiva a participação dos Estados Unidos nas suas compras de soja. Em 2024, os chineses responderam por 47% das exportações norte-americanas do grão. Em 2025, essa fatia caiu para 19%. A diferença passou a ser suprida principalmente pelo Brasil, que ampliou espaço como fornecedor prioritário.
A alteração no fluxo comercial não se limita à origem da soja. O governo chinês passou a estimular práticas alimentares que diminuem a dependência do farelo de soja importado. A diretriz ganhou força após o acirramento das tensões comerciais com os EUA e foi incorporada como prioridade na política de segurança alimentar do país.
Principal mudança

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A principal mudança ocorre dentro das granjas. Parte dos produtores substitui a ração seca tradicional, rica em soja, por ração líquida fermentada. O processo utiliza insumos locais, como farelos diversos, restos vegetais e subprodutos agroindustriais, que passam por fermentação em tanques, em um método comparável ao da produção de iogurte. A fermentação quebra proteínas complexas, facilita a digestão e permite reduzir em até 50% o uso de farelo de soja em algumas operações.
A adoção desse sistema cresce. A ração fermentada representava 3% do volume industrial em 2022. Hoje alcança 8% e a projeção é atingir 15% até 2030. A mudança ocorre em um momento em que a alimentação responde por cerca de 70% do custo de produção do suíno, tornando qualquer redução no uso de ingredientes importados um fator relevante para tentar conter prejuízos.
A combinação entre preços historicamente baixos, ajuste forçado de oferta e reconfiguração das dietas animais indica que a atual crise da suinocultura chinesa ultrapassa um ciclo típico de mercado. Trata-se de um movimento que envolve política comercial, estratégia de segurança alimentar e reestruturação produtiva com efeitos diretos sobre o comércio global de soja, milho e carne suína.
Suínos
Paraná se mantém como principal fornecedor de carne suína no Brasil
Dados do IBGE e Agrostat mostram domínio no mercado interno, à frente de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O Boletim Conjuntural do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), divulgado na quinta-feira (9), destaca que em 2025 o Paraná destacou-se como principal fornecedor de carne suína para o mercado interno brasileiro pelo oitavo ano consecutivo, segundo dados da Pesquisa Trimestral de Abate do IBGE e do Agrostat/Mapa.
Do total de 1,23 milhão de toneladas (t) produzidas no Estado, aproximadamente 990,48 mil t foram destinadas ao consumo interno. Esse montante representa 23,7% do comércio interno de carne suína no Brasil, que alcançou 4,18 milhões de t.
Santa Catarina manteve-se na segunda colocação, com 851,91 mil t comercializadas internamente, equivalentes a 20,4% do total. Na sequência vieram Rio Grande do Sul, com 676,96 mil t (16,2%), Minas Gerais, com 642,31 mil t (15,3%), e Mato Grosso do Sul, com 263,59 mil t (6,3%).
O desempenho do Paraná como principal fornecedor pode ser atribuído a um conjunto de fatores. Entre eles, destaca-se o fato de o Estado ser o segundo maior produtor de carne suína do País e o terceiro maior exportador, tendo destinado apenas 19,2% de sua produção ao mercado externo no último ano. Em comparação, Santa Catarina, líder em produção e exportação, direcionou 46,8% de sua produção às exportações, enquanto o Rio Grande do Sul, terceiro maior produtor e segundo maior exportador, destinou 33,5% ao mercado externo.
Bovinos

Na pecuária de corte, o cenário para os bovinos é de cotações firmes no atacado, ao longo de março, impulsionadas pela oferta restrita de animais prontos e pela demanda externa aquecida. Dados do Deral apontam valorização de 4% e 4,3% no dianteiro e traseiro, respectivamente, no atacado. Vale ressaltar que, mesmo durante a Quaresma, quando o consumo tende a enfraquecer, não houve pressão relevante de queda nas cotações.
Chuvas no campo
A resiliência do setor agropecuário paranaense diante dos desafios ocasionados pela falta de chuvas em algumas regiões do Estado também é destaque do boletim. No Paraná, as lavouras de milho e feijão da segunda safra enfrentam um período de atenção devido à irregularidade das chuvas e ondas de calor.
Mas, segundo o Deral, o retorno recente das precipitações em algumas regiões trouxe um alívio momentâneo ao estresse hídrico, mantendo a perspectiva de recuperação produtiva caso o clima se estabilize. “No campo do feijão, por exemplo, os produtores viram uma valorização expressiva do tipo carioca, que acumulou alta de 48% em 12 meses, incentivando um aumento de 3% na área deste cultivar”, explica o engenheiro agrônomo e analista do Deral, Carlos Hugo Godinho.
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Primeiro clone suíno da América Latina nasce em São Paulo
Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro.

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba (SP), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.
O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.
A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante, técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.
A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.
De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas. “O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica – Foto: Divulgação/IZ/APTA
O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.
As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.
Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.
O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.
De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”, enaltece.



