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Especialista aponta causas, impactos e prevenção das doenças respiratórias em suínos

Para garantir a saúde e o bem-estar dos suínos e prevenir doenças respiratórias, é essencial adotar uma abordagem abrangente que englobe medidas de prevenção e controle.

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Fotos: Shutterstock

As doenças respiratórias em suínos representam um dos maiores desafios enfrentados pela suinocultura. Com impactos expressivos na produtividade e na rentabilidade das propriedades, essas enfermidades podem ser causadas por uma variedade de fatores infecciosos, como vírus e bactérias, e não infecciosos, como condições ambientais e de manejo. Identificar e entender as causas dessas doenças é de suma importância para a implementação de estratégias de prevenção e controle, que não apenas garantem o bem-estar dos animais, como também asseguram a sustentabilidade econômica do setor.

Médico-veterinário, mestre em Ciências Veterinárias, especialista em Sanidade Animal e pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcos Antônio Zanella Morés: “Estudos mostram que a erradicação do Mycoplasma hyopneumoniae pode gerar um ganho de US$ 7 por suíno abatido, com payback em até sete meses”

Para explorar as principais causas das doenças respiratórias em suínos, abordando tanto os agentes infecciosos quanto os fatores ambientais, além de destacar as melhores práticas para minimizar seus impactos nas granjas, o médico-veterinário Marcos Antônio Zanella Morés, mestre em Ciências Veterinárias, especialista em Sanidade Animal e pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, ministrou a palestra “Respire aliviado: desvendando causas, prevenção e impactos das doenças respiratórias em suínos”, durante o Congresso de Suinocultores e Avicultores O Presente Rural, realizado nos dias 11 e 12 de junho em Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná.

Além de gastos com medicamentos para controle, perdas nos índices zootécnicos, condenações de carcaças e mortalidade dos animais, as doenças respiratórias em suínos impactam sobretudo o bem-estar animal. Para exemplar isso, Morés apresentou os resultados de algumas pesquisas realizadas nos últimos três anos.  Dois estudos de metanálise feitos em 2023 mostraram que o impacto econômico médio de um ou mais agentes patogênicos respiratórios coexistentes varia de R$ 10,30 a R$ 54 por leitão na creche, de R$ 14 a R$ 93 por suíno de terminação e de R$ 605 a R$ 1.956 por matriz/ano no Brasil. Em outra pesquisa, feita em 2020, mostrou que em grupos de suínos com mais de 15,1% da área pulmonar afetada, o custo adicional foi de US$ 6,55 por animal. “Além disso, o estudo revelou que cada 1% de lesão pulmonar resulta em uma redução de 1,8 gramas no ganho de peso diário, impactando tanto na produtividade quanto na economia da suinocultura”, aponta Morés.

Quando o custo das doenças respiratórias é associado às condenações de carcaças, os dados revelam um cenário preocupante. Aderências, pleurites, abscessos e pneumonias representam 50% do total das condenações de carcaças nos frigoríficos e 80% das causas sanitárias. “A média de condenações em frigoríficos é de 3%, equivalente a 1,5% do peso de cada carcaça abatida, o que resulta em um desperdício anual de 100 mil toneladas de carne suína”, revela o pesquisador.

De acordo com o especialista, as doenças respiratórias são frequentes em suínos devido à particularidade anatômica de seus pulmões, que

possuem poucos bronquíolos respiratórios, característica que dificulta a eliminação de partículas, tornando os suínos mais predispostos a infecções.

Causas infecciosas e não infecciosas

As causas das doenças respiratórias em suínos podem ser infecciosas ou não infecciosas. No que se refere às causas infecciosas, Morés destaca o Complexo das Doenças Respiratórias dos Suínos (CDRS), que inclui diversas bactérias como Mycoplasma hyopneumoniae, Actinobacillus pleuropneumoniae, Pasteurella multocida, Glaesserella parasuis, Estreptococo suise e Bordetella bronchiseptica; e vírus, entre os principais Influenza e PCV2.

Além das causas infecciosas, existem fatores de risco relacionados ao manejo e ao ambiente que afetam a incidência de doenças respiratórias. Entre esses fatores, o pesquisador menciona a superlotação, a ventilação atmosférica, o fluxo contínuo de animais e a mistura de suínos de diferentes origens.

Sinais

Os sinais de doenças respiratórias podem se manifestar de várias maneiras. A tosse, por exemplo, explica Morés, pode indicar a presença de pneumonia micoplásmica ou gripe; e os espirros são frequentemente associados à rinite atrófica e também podem ser um sintoma de gripe. A dificuldade respiratória, que inclui dispneia ou batedeira, pode ser causada por condições como pleuropneumonia, pasteurelose, infecções por Actinobacillus suis, Streptococcus suis, circovirose, salmonelose e doença de Glässer. Além disso, a febre, geralmente acompanhada de apatia, prostração e falta de apetite, pode levar a perdas de desempenho e, em casos graves, resultar em mortes.

Fatores de risco para doenças respiratórias

As doenças respiratórias em suínos são frequentemente causadas por uma combinação de fatores de risco ambientais e de manejo, associados a infecções por agentes primários e oportunistas, o que torna essencial a adoção de estratégias eficazes para o controle e prevenção dessas doenças. “No manejo, as situações como a mistura de leitões de diferentes origens na formação dos lotes, a ausência de um vazio sanitário adequado entre os lotes, o fluxo contínuo de produção com várias idades e a superlotação nas baías são fatores críticos”, ressalta o especialista, enfatizando: “Além disso, a limpeza e a desinfecção inadequada das instalações também podem acarretar no surgimento de doenças respiratórias”.

Do ponto de vista ambiental, Morés diz que o excesso de gases nas instalações, como CO2 e amônia, e a temperatura inadequada para a fase de criação são condições que favorecem o desenvolvimento de infecções.

Já em relação à imunidade, a desestabilização do plantel de matrizes, alta taxa de reposição, presença de novas granjas e falhas no processo de aclimatação de leitoas podem comprometer a resistência dos animais a doenças respiratórias. “Esses fatores combinados aumentam a vulnerabilidade dos suínos e favorecem a propagação de patógenos”, aponta o médico-veterinário.

Doenças imunossupressoras também desempenham um papel importante no desenvolvimento de infecções respiratórias em suínos. “A circovirose é uma condição que compromete a imunidade dos animais, tornando-os mais suscetíveis a infecções secundárias. Além disso, as micotoxicoses, que são intoxicações causadas por fungos presentes na alimentação, afetam de forma negativa o sistema imunológico dos suínos”, salienta.

O manejo inadequado do colostro é outro fator crítico, uma vez que o colostro é a principal fonte de anticorpos que protege os leitões

contra doenças nos primeiros dias de vida. “A falta de uma ingestão adequada de colostro pode levar a uma imunidade comprometida, aumentando a vulnerabilidade dos suínos a infecções respiratórias e outras doenças”, frisa Morés.

Prevenção e controle

Para garantir a saúde e o bem-estar dos suínos e prevenir doenças respiratórias, é essencial adotar uma abordagem abrangente que englobe medidas de prevenção e controle. O primeiro passo, segundo Morés, é aumentar a resistência dos animais, o que pode ser feito através da ingestão adequada de colostro, essencial para fornecer proteínas específicas na primeira fase de vida dos leitões. Manter um equilíbrio imunológico protetor e realizar uma aclimatação eficiente dos leitões são igualmente importantes.

Além disso, a gestão da taxa de reposição deve ser cuidadosa, evitando a introdução de animais de granjas novas e garantindo uma administração adequada de vacinas. “O manejo, o estresse ambiental e a prevenção de doenças imunossupressoras também são aspectos que devem ser levados em consideração para manter a saúde dos suínos”, menciona Morés.

Para reduzir a pressão da infecção, o pesquisador diz que é necessário minimizar a mistura de leitões de diferentes origens e garantir um vazio sanitário adequado entre os lotes. “Evitar a superlotação nas baias e manter um protocolo rigoroso de limpeza e desinfecção das instalações são práticas indispensáveis para garantir a saúde dos suínos, assim com o manejo adequado dos animais doentes é essencial para prevenir a propagação de infecções”, complementa.

Suínos doentes

A rápida identificação de suínos doentes é fundamental para um manejo eficiente. “Esses animais devem ser medicados imediatamente e individualmente por via injetável. Se um suíno estiver sendo discriminado na baía ou não conseguir ingerir água e ração, deverá ser transferido para uma baia hospitalar. Caso não esteja sendo discriminado e possa ingerir água e ração, deve ser deixado na baia por 24 horas. Caso o suíno não apresente melhora do seu quadro deve ser transferido para a baia hospitalar”, explica o mestre em Ciências Veterinárias.

Limpeza e desinfecção

A limpeza e desinfecção das instalações devem ser realizadas com rigor, começando pela remoção de matéria orgânica, seguida do uso de detergentes e desinfetantes limpos. A eficácia dos procedimentos deve ser verificada de forma contínua.

O uso de produtos antimicrobianos deve ser preciso, com monitoramento contínuo dos agentes patogênicos e sua sensibilidade antimicrobiana. A administração deve seguir as dosagens adequadas e os períodos de retirada para garantir a eficácia e evitar resistência.

Para a erradicação de agentes primários, como Mycoplasma hyopneumoniae e Actinobacillus pleuropneumoniae, pode ser necessário implementar um protocolo medicamentoso e considerar o fechamento temporário do plantel. “Garantir uma biosseguridade adequada, com a escolha de fontes de animais livres para reposição ou a formação de pirâmides de produção com animais livres é fundamental. Estudos mostram que a erradicação do Mycoplasma hyopneumoniae pode gerar um ganho de US$ 7 por suíno abatido, com payback em até sete meses”, expõe Morés.

O pesquisador também ressalta a importância de adotar medidas de biosseguridade externa, essencial para proteger a granja. Isso inclui o isolamento da granja, o controle rigoroso da entrada de pessoas e veículos, a restrição à entrada de suínos portadores, e a gestão adequada da água e dos alimentos, além do controle de insetos e roedores. “Essas medidas ajudam a manter a saúde do plantel e a minimizar os riscos de surtos de gripes ou de outros agentes patogênicos”, frisa o pesquisador.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo na suinocultura acesse a versão digital de Suínos clicando aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

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Primeiro clone suíno da América Latina nasce em unidade da Secretaria de Agricultura de SP

Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro

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Primeiro clone da América Latina nasceu na unidade de Tanquinho do Instituto de Zootecnia, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.

O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.

A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante — técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.

A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.

De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.

O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.

As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.

Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.

O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.

De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”.

Fonte: Assessoria
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Qualidade de carne suína: a genética da matriz como escolha estratégica

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos.

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Fotos: Divulgação/Topgen

Artigo escrito por João Cella, Zootecnista, coordenador Comercial na Topgen Genética Suína

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos. No entanto, essa abordagem desconsidera um fator estrutural do sistema produtivo: a genética da matriz, que contribui com 50% do patrimônio genético dos leitões e influencia de forma decisiva o desempenho produtivo e a qualidade final da carne.

A matriz não é apenas a base reprodutiva da granja. Ela exerce influência direta sobre o peso ao nascimento, a uniformidade da leitegada e a capacidade de crescimento dos leitões nas fases subsequentes. Esses fatores iniciais condicionam respostas metabólicas, eficiência alimentar e padrões de deposição de músculo e gordura, que se refletem até o abate. Assim, a qualidade da carne começa a ser definida muito antes da escolha do macho, ainda na seleção genética das fêmeas.

Os programas de melhoramento genético de matrizes tradicionalmente priorizam características como prolificidade, habilidade materna, produção de leite e longevidade produtiva. Esses atributos seguem sendo fundamentais para a eficiência econômica da granja. Entretanto, uma visão moderna de genética reconhece que desempenho reprodutivo e qualidade de carne caminham juntos. A matriz transmite genes que influenciam diretamente a conversão alimentar, o ganho de peso diário, a uniformidade dos lotes e a composição da carcaça, especialmente o equilíbrio entre gordura e carne magra.

Equilíbrio entre gordura, carne magra e marmoreio

A gordura não deve ser interpretada de forma isolada como um componente indesejado da carcaça, mas como parte essencial do equilíbrio entre gordura e carne magra que sustenta a qualidade da carne suína. A genética exerce influência direta não apenas sobre a quantidade total de gordura depositada, mas também sobre sua distribuição e composição, determinando o perfil de ácidos graxos, a estabilidade oxidativa e a interação entre os tecidos muscular e adiposo. Nesse contexto, a gordura contribui para atributos fundamentais da carne suína, como sabor, textura e suculência.

Matrizes geneticamente equilibradas favorecem níveis adequados e estáveis de marmoreio, resultando em melhor qualidade tecnológica da carne, com maior capacidade de retenção de água, coloração mais uniforme e menor variabilidade entre lotes destinados à indústria.

O marmoreio, resultante da gordura intramuscular entremeada às fibras musculares, é um dos principais indicadores desse equilíbrio fisiológico. Níveis adequados de marmoreio contribuem para maior maciez, suculência e intensidade de sabor, ao mesmo tempo em que preservam os padrões industriais de rendimento e proporção de carne magra.

Esse ajuste fino entre deposição muscular e gordura intramuscular pode ser conduzido de forma consistente por meio de programas de melhoramento genético de matrizes, reforçando o papel estratégico da genética na construção da qualidade final da carne suína.

Genética da matriz e bem-estar animal

Matrizes selecionadas para equilíbrio fisiológico e temperamento contribuem para a produção de suínos mais dóceis, com melhor adaptação ao manejo e menor sensibilidade ao estresse, especialmente no pré-abate.

Animais menos reativos apresentam menor risco de oscilações de pH muscular, reduzindo a incidência de alterações como PSE e DFD. Isso resulta em carne com melhor coloração, maior capacidade de retenção de água e maior consistência entre lotes. Esses fatores impactam diretamente os processos industriais e ampliam a janela de comercialização no varejo.

É importante destacar que protocolos corretos de manejo, jejum, transporte, descanso e resfriamento são indispensáveis. Contudo, sem uma base genética adequada, esses cuidados têm sua eficácia limitada. A genética atua como o alicerce sobre o qual todas as demais práticas produtivas se apoiam.

Qualidade de carne como estratégia de longo prazo

Considerar a genética da matriz sob a ótica da qualidade de carne representa uma mudança de mentalidade na suinocultura. Trata-se de enxergar a fêmea não apenas como produtora de leitões, mas como agente estratégico na construção do valor do produto final. Essa abordagem atende a um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade sensorial, à padronização e à imagem da carne suína como proteína saudável, saborosa e versátil.

Para o produtor rural, os benefícios se refletem em melhor conversão alimentar, maior ganho de peso diário, uniformidade dos lotes, menor mortalidade e maior previsibilidade dos resultados. Para a indústria, significam carcaças mais consistentes, processos mais eficientes e menor variabilidade. Para o consumidor, resultam em carne com melhor sabor, maciez e estabilidade.

Nesse cenário, a genética animal assume papel central. A evolução da carne suína como carne de qualidade passa, inevitavelmente, pela escolha criteriosa das matrizes.

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Fonte: O Presente Rural
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Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos

Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

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Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition

Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.

Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.

Impactos de alto custo

A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.

O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.

Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.

Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.

Controle fúngico

Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.

Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.

Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos

O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.

Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.

Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.

Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.

Abordagem preventiva e integrada

O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.

Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.

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Fonte: O Presente Rural
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