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Escassez Alimentar x Mudanças Climáticas
Um sistema alimentar regenerativo é nossa melhor opção, não apenas para proteger a natureza, mas para garantir que a vida humana sobreviva e prospere.

A mudança climática é um tema controverso, quando pesquisamos em portais de busca, as análises dos pesquisadores atribuem como causa do efeito estufa a ação humana, despejando CO2, metano, óxidos de nitrogênio e CFCs na atmosfera.
As mudanças climáticas são uma realidade inegável e já sentimos os efeitos em nosso dia a dia. Segundo o portal Greenpeace Brasil, “o clima não espera: cientistas do IPCC alertam que combater o aquecimento global exige mudanças sem precedentes, mas ainda é possível se não perdermos tempo; e nossas florestas são motivo para ter esperança”.
A certeza que todos nós temos, a olho nu, é que temperatura média do planeta está subindo, poucos graus podem causar mudanças significativas, como as secas severas que ocorreram neste ano na Europa e China, e as enchentes no sul e sudoeste da Ásia, que segundo os portais de notícias globais, causaram mortes, desabrigaram milhões de pessoas, destruíram plantações, rodovias e ferrovias, e mataram gado.
Em 2021, as notícias eram que enchentes ocorreram na Alemanha, Bélgica e Holanda. Em 2022, acompanhamos as fortes queimadas na Europa e em regiões dos Estados Unidos. Outros eventos extremos como tufões, furacões e tornados, também estão cada vez mais frequentes.
Além dos danos materiais e humanos diretos, há um risco indireto menos perceptível e mais frequente: as plantas que nos alimentam. Para o desenvolvimento das lavouras, a água é o insumo fundamental, na quantidade e no momento certo. A exigência de água não é igual dentro do ciclo de vida das plantas, é menor na germinação e no início do desenvolvimento e maior no enchimento dos grãos ou na formação de tubérculos e frutos. O que deve-se frisar é que a falta de água durante o desenvolvimento das plantas é muito mais comum e impactante que os eventos extremos provocados pelo aumento da temperatura. A deficiência hídrica impede a total expressão do potencial produtivo das lavouras, resultando em perdas de produtividade e, por vezes, no total fracasso da produção.
Um dos exemplos que podemos citar é o milho, a segunda cultura com o maior potencial de transformar energia solar em alimento, motivo de seu cultivo ser distribuído por quase todo o globo. A despeito de seu enorme potencial produtivo, um déficit hídrico de 15 a 20 dias em um momento crucial de seu desenvolvimento pode levar à perda total da lavoura, e a seca que ocorreu na Europa, China, Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil nesse ano provou isso. Por sorte do Brasil, segundo o portal Conab, a estimativa para a temporada 2022/23 é de 28,69 milhões de toneladas, este resultado se deve a perspectiva de recuperação da produtividade no atual ciclo.
No caso da soja, grão que tem período de cultivo bastante delimitado, seu uso vai além da alimentação de frangos, aves poedeiras, suínos e gado leiteiro, o mercado depende da oferta do grão. Conforme o portal Sefaz, apenas quatro países representam 90% da produção global de soja, estes sendo Brasil, Argentina, Paraguai e Estados Unidos, ou seja, qualquer intercorrência na produção desses países afeta a oferta de proteína animal na dieta de bilhões de pessoas. Segundo o portal FarmNews, nos últimos quatro anos o consumo mundial passou de 340 milhões de toneladas para 380 milhões de toneladas, porém o estoque final desta oleaginosa mantém-se em torno de 100 milhões de toneladas na média dos últimos anos.
Ademais, os eventos extremos não só podem causar a falta de alimentos, mas também afetar a logística de transporte. Portais como G1 e StoneX mostraram como as secas severas na Europa e Estados Unidos reduziram a vazão de rios importantes para a navegação, como o Rio Reno, na Alemanha, o Rio Danúbio, na Bulgária, e o Rio Mississipi, nos Estados Unidos. Importante salientar que a via fluvial tem o menor custo por tonelada transportada e outras alternativas encarecem o preço dos alimentos até o ponto de ser inviável o escoamento das safras, o que torna preocupante o transporte dos grãos para região do Golfo por conta da menor vazão do rio Mississipi, onde se concentra a maior parte das exportações de soja e milho dos Estados Unidos. Tufões também prejudicam cidades portuárias importantes para o escoamento de alimentos.
As preocupações com as mudanças climáticas e a escassez de água e alimentos são fatos incontestáveis, e ainda estamos discutindo o que cada país deve fazer para contribuir para evitar o caos futuro. Infelizmente, a COP27 foi finalizada com muitas promessas, mas poucas ações. Os países ricos têm uma responsabilidade pelo que aconteceu no mundo, afinal, destruíram suas florestas, iniciaram um processo de industrialização desenfreado e hoje gozam de uma condição financeira per capita muito melhor que os países em desenvolvimento. Este crescimento tem um preço a ser pago, seja através de compensações financeiras ou de programas de desenvolvimento de economias “eco-friendly”.
Indispensável frisar que temperaturas elevadas, eventos climáticos extremos e interrupções nas cadeias de fornecimento de alimentos, água e energia, podem causar aos cidadãos dos países subdesenvolvidos uma dura realidade, prejudicando sua saúde e seu financeiro. A fome já existe causada pela desigualdade social nos países, mas se a escassez de alimentos entrar em um novo panorama: os países que irão poder comprar alimentos contra os países que não terão condições de alimentar sua população, o problema não será mais individual – de cada um dos países – mas de blocos econômicos com condições muito dispares no poder aquisitivo e força política.
Para começar, podemos trabalhar com formuladores de políticas globais para melhorar a política fiscal em torno de alimentos. De acordo com o The Nature Conservancy, governos em todo o mundo gastam até US$ 500 bilhões por ano em subsídios agrícolas, florestais e de pesca que degradam a natureza, quantia que é mais do que o dobro do que gastam para proteger ou restaurar a natureza.
A necessidade por alimentos não está desaparecendo ou diminuindo, está crescendo, e a maneira como, atualmente, cultivamos alimentos está degradando o planeta de uma forma que, paradoxalmente, torna o cultivo de alimentos cada vez mais difícil. Um sistema alimentar regenerativo é nossa melhor opção, não apenas para proteger a natureza, mas para garantir que a vida humana sobreviva e prospere. Juntos, podemos transformar a maior ameaça atual à natureza em sua maior oportunidade de ter um sistema alimentar que traga um crescimento positivo para as comunidades, economias e o planeta.

Colunistas
Exportações do agro aos EUA recuam até 41% após escalada tarifária
Café, carne bovina, madeira, frutas e sucos perderam espaço com o aumento das barreiras comerciais impostas por Estados Unidos.

O ano de 2025 foi marcado pelo redimensionamento das tarifas de importação norte-americanas com relação aos seus parceiros internacionais, o que ficou conhecido como “tarifaço”, e o Brasil, claro, não ficou de fora. No início, o País apareceu na parte debaixo da tabela de taxas, com seus produtos sofrendo uma porcentagem adicional para entrada no mercado norte-americano de 10%. Mas, como a maioria dos nossos competidores nesse mercado sofreram taxação maior, os produtos brasileiros ganharam competitividade lá.

Artigo escrito por Andréia Adami, pesquisadora da área de Macroeconomia do Cepea.
No entanto, o alívio durou pouco, pois, em junho, adicionou-se às disputas comerciais também ruídos e disputas políticas, para então, o governo norte-americano anunciar a elevação dessa taxa adicional aos produtos brasileiros para 50%, um novo golpe aos exportadores brasileiros, inclusive os do agronegócio.
Como resultado desse novo cenário mais adverso da política comercial norte-americana, o valor total das exportações brasileiras para o País em outubro de 2025 ficou 40% abaixo do de julho de 2025. No caso do agronegócio, a receita em dólar caiu 35% e o volume exportado reduziu 41%, na mesma comparação. Produtos importantes da nossa pauta de exportação como café, madeira, carne bovina, frutas e sucos foram duramente atingidos.
Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que as compras norte-americanas do café brasileiro caíram 50% entre agosto e novembro de 2025, quando comparadas com o mesmo período de 2024. O cenário não foi muito diferente para os exportadores de madeira, carne bovina, frutas e suco de laranja; além de pescados e produtos como mel, que, apesar de ter pequena representação em termos de valor, tinham forte dependência do mercado norte-americano.
O governo brasileiro correu para apoiar os setores afetados, principalmente na forma de disponibilização de crédito, para que estes pudessem ter tempo de armazenar seus produtos enquanto buscavam novos mercados, com o apoio das instituições brasileiras como o Ministério da Agricultura e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).
Diante das ações protecionistas do governo norte-americano, não só o Brasil, mas todos os países afetados por sua nova política comercial tiveram que aplicar uma estratégia de negociação há muito utilizada nos mercados financeiros, a de que “não se deve colocar todos os ovos numa mesma cesta”, ou seja, utilizar a diversificação de destinos como estratégia de redução de riscos, agora na área comercial.
A busca por abertura de novos mercados e acordos de livre comércio com o México, Canadá, Índia, Japão e principalmente com a União Europeia passou a ser visto como mais que essencial para preencher a lacuna deixada pelo mercado norte-americano.
No caso do agronegócio, o resultado desse esforço para conquistar novos mercado pode ser verificado no crescimento das vendas externas do setor no ano de 2025, que foi de 11% para a China, 9% para a União Europeia, 7% para o México, 13% para o Reino Unido e 38% para a Argentina; enquanto caíram 6% para os Estados Unidos.
E, a despeito da “química” entre nossos governantes e da recente derrubada do tarifaço pela Suprema Corte norte-americana, o mais importante é que o aumento das relações comerciais entre os países pode ser um elemento-chave para impulsionar o crescimento das suas economias, levando a mais demanda, principalmente por alimentos.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.
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Acordo Mercosul-UE reacende debate sobre competitividade da indústria brasileira
Tratado amplia acesso a mercado que representa 25% do PIB mundial, mas setor alerta para risco de desindustrialização sem reformas internas.

Após duas décadas de negociações, a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é apresentada ao público como uma conquista histórica. Contudo, para quem vive o cotidiano da indústria de transformação, o sentimento é de um alerta urgente combinado a uma expectativa cautelosa: a integração de um mercado que representa 25% do PIB mundial não é uma oportunidade automática; sem a correção das assimetrias competitivas brasileiras, ela é um risco de desindustrialização, mas, se bem conduzida, pode ser o passaporte para o Brasil se tornar um hub global de tecnologia sustentável.
Historicamente, o Brasil optou por um modelo que pune quem produz. Enquanto o fabricante europeu, especialmente na Alemanha e na

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado e Gpoint Studio/Freepik
Itália, opera em um ambiente de juros civilizados, logística de ponta e desoneração completa de investimentos, o industrial brasileiro carrega o “Custo Brasil” como uma âncora. Assinar um tratado de livre comércio nos obriga a fazer a “lição de casa”, ou seja, melhorar nossa competitividade.
O risco central reside na assimetria estrutural. Se o cronograma de redução tarifária avançar mais rápido do que as reformas internas, assistiremos à substituição da produção nacional por bens importados. Todavia, há um lado positivo que não pode ser ignorado: o acordo impõe uma “agenda de eficiência” obrigatória.
O acesso facilitado a componentes e tecnologias de ponta europeias poderá acelerar a modernização do parque fabril brasileiro, reduzindo custos de produção a médio prazo e elevando o padrão de qualidade da nossa engenharia.
Não se trata de temor à concorrência, mas de necessidade de isonomia. A reforma tributária sobre o consumo é um passo fundamental,

Foto: Divulgação
mas sua eficácia depende de uma implementação que garanta o crédito financeiro pleno e imediato. Com a isonomia garantida, o cenário muda de figura. O Brasil tem uma oportunidade ímpar de se destacar na Neoindustrialização Verde.
A indústria brasileira de máquinas já é uma das mais limpas do mundo e, com o selo do acordo, ganha um canal direto para fornecer soluções em energias renováveis, biocombustíveis e hidrogênio verde para uma Europa ávida por descarbonização.
Além do peso fiscal, a disparidade do custo de capital é alarmante. A modernização para a Manufatura 4.0 exige investimentos. Sem uma política de crédito competitiva, a “janela de oportunidade” do acordo será apenas uma vitrine para produtos estrangeiros. Mas, se o Estado Brasileiro oferecer os instrumentos financeiros adequados, o setor de bens de capital pode dar um salto qualitativo, integrando-se definitivamente às cadeias globais de valor e deixando de ser apenas um fornecedor local para ser um player internacional.

Artigo escrito por José Velloso, engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da Abimaq – Foto: Divulgação/Abimaq
O potencial de mercado é vasto. Exportamos atualmente apenas US$ 1 bilhão para a Europa, uma cifra irrisória perto da nossa capacidade. O acesso a esse mercado consumidor de alto poder aquisitivo é a grande promessa positiva deste tratado. Ele pode abrir portas para que a criatividade e a resiliência da engenharia brasileira conquistem nichos de alta tecnologia que antes eram inviabilizados por barreiras burocráticas e tarifárias.
O acordo Mercosul-União Europeia impõe ao Brasil um desafio inadiável. Ele pode ser o motor da nossa integração global, transformando a pressão da concorrência em incentivo para a inovação. A abertura comercial é um instrumento de desenvolvimento, mas o seu êxito depende de arrumarmos a nossa própria casa. Se fizermos o dever de casa, o Brasil não apenas sobreviverá à abertura, mas poderá emergir como um dos grandes fornecedores de soluções tecnológicas para os desafios do século XXI.



