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Escalada de tensões no Oriente Médio acende alerta para fertilizantes

Conflitos na região estratégica para a produção de nitrogenados elevam incertezas sobre logística, energia e custos de insumos agrícolas no mundo.

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Foto: Claudio Neves

Não bastasse a guerra entre Rússia e Ucrânia desde 2022 – ambos importantes fornecedores de fertilizantes –, a escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar o mercado global de fertilizantes em estado de alerta, especialmente no segmento de nitrogenados, como ureia e sulfato de amônio.

Nos últimos meses, as cotações desses insumos já vinham em trajetória de alta, impulsionadas por fatores estruturais, tais como restrições às exportações da China (no que tange aos fosfatados), a continuidade da guerra na Ucrânia e a forte demanda de países importadores como a Índia. A deterioração do cenário geopolítico na região adiciona agora um novo vetor de incerteza, ampliando a volatilidade nos preços e nas decisões de compra.

O Oriente Médio tem papel estratégico nesse mercado. A região responde por cerca de 40% do comércio marítimo global de ureia, além de participação relevante na oferta de amônia e fertilizantes fosfatados. Parte do produto associado ao Irã chega ao mercado internacional por meio de triangulações comerciais via Omã, o que torna o monitoramento das rotas de navegação ainda mais sensível. A atenção se concentra especialmente no Estreito de Ormuz, por onde passa em torno de 1/5 do petróleo negociado no mundo. Qualquer aumento das tensões envolvendo atores como Irã, Israel e Estados Unidos pode pressionar não apenas os custos energéticos, mas também fretes marítimos e seguros de carga, elementos que acabam se refletindo no custo final dos fertilizantes.

Impacto do preço do gás natural e do petróleo no valor dos fertilizantes

Artigo escrito por Ana Maria Piccino, analista de mercado de Custos Agrícolas do Cepea; Mauro Osaki, pesquisador da área de Custos Agrícolas do Cepea e Renato Garcia Ribeiro, pesquisador da área de Custos Agrícolas do Cepea.

A relação entre energia e fertilizantes é direta. A produção de nitrogenados depende fortemente do gás natural, utilizado na fabricação de amônia anidra, base de grande parte dos fertilizantes aplicados nas lavouras. O gás também desempenha papel relevante em diferentes etapas da cadeia alimentar, desde a produção até a conservação de alimentos. Interrupções ou encarecimento desse insumo tendem a repercutir rapidamente no mercado agrícola global.

No curto prazo, o mercado já começa a reagir à possibilidade de restrições logísticas, elevação do frete e do seguro marítimo. Há relatos de agentes do setor sobre uma corrida para antecipar importações de fertilizantes, motivada pelo receio de que o aumento das tensões no Estreito de Ormuz comprometa o fluxo de embarques nas próximas semanas ou meses. Esse movimento tem levado empresas a reorganizarem suas operações logísticas, mobilizando armazéns e liberando áreas nas fábricas que normalmente estariam destinadas à manutenção anual durante o período de entressafra. A prioridade tem sido abrir espaço para receber novos carregamentos, em uma tentativa de garantir abastecimento antes de eventuais gargalos no comércio internacional.

Ao mesmo tempo, o mercado também acompanha sinais de pressão sobre os derivados de petróleo, o que pode ampliar os custos de energia, transporte e seguros marítimos. Em um setor altamente dependente de logística internacional, esses fatores têm potencial de se transmitir rapidamente aos preços dos insumos agrícolas.

Impactos para o Brasil

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Para o Brasil, o impacto imediato tende a ser moderado, já que o País não está no momento de maior volume de compras de nitrogenados. Ainda assim, o cenário levanta preocupações para os próximos meses, especialmente depois da colheita da soja, quando os produtores começam a negociar os fertilizantes da próxima safra – majoritariamente fosfatados e potássicos. A dependência externa permanece elevada: o Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, segundo o relatório da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos), o que torna o setor agrícola particularmente sensível a choques geopolíticos e logísticos.

A grande maioria do solo brasileiro tem característica de baixa fertilidade e acidez, o que sugere a aplicação de fertilizantes para compensar a limitação química do solo e atender à exigência nutricional das culturas para sustentar a alta produtividade. Assim, os fertilizantes ocupam um percentual importante no Custo Operacional Efetivo (COE). Para as culturas de grãos, por exemplo, o milho verão lidera em peso relativo em torno de 34%, seguido da soja e milho segunda safra, com participações de 27%, e de trigo, com 30%. Para o arroz irrigado, o percentual é menor (18%), conforme a média das últimas 5 safras (21/22 a 24/25) do Projeto Campo Futuro (Sistema Senar/CNA).

O Brasil é altamente dependente da importação de importantes fertilizantes intermediários consumidos no Brasil (ureia, sulfato de amônio e cloreto de potássio). Quanto às fontes de fosfato (monoamônio fosfato – MAP, supersimples e supertriplo) existe produção nacional, mas insuficiente para atender a toda a demanda anual. Segundo dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), em 2025, o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia, procedentes da Nigéria (23%), Rússia (17%), Omã (16%), Catar (13%), Argélia (9%) e demais países (23%). Ressalta-se que 33% da ureia importada têm como origem a região do Oriente Médio. No caso do sulfato de amônia, a importação somou 7,78 milhões de toneladas e quase a sua totalidade veio da China. A quantidade de cloreto de potássio importada foi de 13,7 milhões de toneladas, trazidas da Rússia (45%) e do Canadá (38%). O volume de MAP importado em 2025 somou 3,1 milhões de toneladas, sendo a Rússia (46%), Arábia Saudita (25%) e Marrocos (23%) os maiores fornecedores. O supersimples somou 4 milhões de toneladas, originárias do Egito (42%), China (36%) e Israel (10%).

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Esse contexto – de prováveis escassez, incerteza de abastecimento e aumento de custos – reforça o debate sobre a necessidade de ampliar a produção doméstica de fertilizantes. A retomada de unidades industriais no País e as iniciativas previstas no “Plano Nacional de Fertilizantes” buscam reduzir a dependência externa. Em um ambiente de estabilidade global, produzir fertilizantes internamente pode parecer menos competitivo. No entanto, em um cenário marcado por conflitos e incertezas logísticas recorrentes, a capacidade de produzir insumos estratégicos no próprio território passa a ganhar importância do ponto de vista da estabilidade da produção agrícola.

Outro ponto que preocupa os produtores relaciona-se ao preço e à disponibilidade de diesel no mercado interno. O Brasil não é autossuficiente na produção de diesel, o que obriga a importação para atender à demanda interna. Com a disparada do preço do barril no mercado externo e a pretendida estratégia política de manutenção dos preços dos combustíveis no mercado interno, as importadoras podem evitar o prejuízo deixando de abastecer as distribuidoras, o que, por sua vez, pode implicar em desabastecimento, caso não ocorra o reajuste. A consequência da alta dos preços dos combustíveis é o repasse aos produtos finais, causando pressão inflacionária e a necessidade de manutenção e/ou elevação dos juros.

O efeito direto no campo está na elevação do custo com a operação mecânica (diesel e manutenção preventiva), que representa, sobre o COE, uma média 12% para soja e milho segunda safra. Para arroz e feijão, o peso é ainda maior: 17% e 16%, respectivamente (média das últimas 5 safras – de 2021/22 a 2024/25 – do Projeto Campo Futuro. Na parte jusante da cadeia produtiva, o frete rodoviário deve elevar e pressionar a formação de preços no mercado interno. A colheita e o transporte de soja da safra 2025/26 está em plena operação, assim como a finalização do plantio da segunda safra. A indisponibilidade de diesel neste momento gera apreensão aos produtores quanto à finalização dessas atividades.

Por fim, as altas dos preços dos combustíveis e fertilizantes devem impactar diretamente na rentabilidade do produtor, visto que, ao contrário dos setores das indústrias e dos serviços, o setor agropecuário é tomador de preço e não consegue repassar essas altas de custos de produção e frete aos seus preços de venda de forma proporcional. Mesmo assim, reflexos de aumentos de preços ao consumidor serão sentidos, em que pese a queda de rentabilidade do produtor.

Fonte: Artigo escrito por Ana Maria Piccino, analista de mercado de Custos Agrícolas do Cepea; Mauro Osaki, pesquisador da área de Custos Agrícolas do Cepea e Renato Garcia Ribeiro, pesquisador da área de Custos Agrícolas do Cepea.

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Da seca às enchentes, como Super El Niño pode mudar o clima no Brasil

Fenômeno pode alterar o regime de chuvas, pressionar a produção agrícola e aumentar o risco de eventos extremos no Brasil.

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Foto: Divulgação/Freepik

O ano de 2026 começou despertando grande expectativa entre especialistas, que alertam para a possível formação de um super El Niño, o qual, segundo cientistas, pode ter grande impacto no clima do planeta.

Foto: Roberto Dziura Jr.

Ainda que esse fenômeno pareça distante do nosso dia a dia, a verdade é que ele impacta a vida de milhões de brasileiros. Isso fica claro quando analisamos períodos anteriores, em que suas consequências foram desde problemas na produção de alimentos até crises no abastecimento de água e enchentes.

Mas muitos podem se perguntar: afinal, o que é o El Niño? O fenômeno acontece quando há um aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico, o que altera a circulação dos ventos e a formação das chuvas. Todo esse processo afeta o planeta, mas, no caso do Brasil, há uma variação de impactos entre as diferentes regiões do país, que vão desde excesso de chuva e alagamentos até secas intensas e falta de água nos reservatórios.

As publicações mais recentes indicam que as chances de que um forte El Niño ocorra durante o segundo semestre de

Foto: Divulgação

2026 são cada vez maiores, com possibilidade de efeitos até 2027. Por isso, os recentes comunicados de órgãos como o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) buscam alertar governos, agricultores e a população em geral para os possíveis impactos desse fenômeno.

Normalmente, os ventos no Pacífico sopram de leste para oeste, ou seja, da América em direção à Oceania e à Indonésia. Isso faz com que as águas mais quentes sejam deslocadas por essas correntes de ar, mantendo as áreas próximas à América do Sul com águas mais frias.

Foto: Gilson Abreu

O fenômeno altera o equilíbrio entre ventos, pressão e umidade devido ao aumento da temperatura no Oceano Pacífico. Quando isso acontece, há aumento na evaporação, os ventos ficam mais fracos e a água quente que normalmente fica próxima à Oceania se espalha, aquecendo as águas próximas à América do Sul, que são geralmente mais frias. Isso causa desequilíbrios com consequências em escala global.

De acordo com nota técnica emitida em conjunto pelo CPTEC, INPE e INMET, os efeitos desse fenômeno são sentidos de formas distintas nas regiões brasileiras. Na região Norte, a expectativa é de seca e redução no volume de chuvas, o que faz com que os rios baixem de nível, dificultando o transporte de pessoas e mercadorias. As comunidades ribeirinhas são as primeiras a sofrer com a dificuldade de acesso a alimentos, medicamentos e atendimento médico. Outro fator preocupante é que o clima mais quente e seco aumenta a incidência de queimadas e incêndios florestais.

No Nordeste, a consequência é a redução das chuvas e a escassez de água. Com menos precipitações, os reservatórios

Foto: Divulgação

recebem menor volume hídrico, o que afeta o abastecimento e a produção agrícola. A maior intensidade do calor também aumenta o risco de incêndios em áreas de vegetação.

No Centro-Oeste, os efeitos tendem a ser menos intensos, porém o aumento da temperatura também reduz a umidade do ar, cenário que favorece queimadas. Algumas áreas podem, no entanto, registrar chuvas dentro da média, elevando a umidade do solo.

A região Sudeste apresenta histórico mais variável: há locais com chuvas intensas e outros com períodos prolongados de estiagem e predominância de calor, fenômeno conhecido como “veranico”. Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória podem registrar ondas de calor mais intensas que o normal, o que aumenta o consumo de energia elétrica.

Foto: Divulgação

A região tradicionalmente mais afetada no Brasil é o Sul, onde o principal efeito é o excesso de chuva, com enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. Os três estados costumam enfrentar temporais mais frequentes e chuvas acima da média.

É importante lembrar que os efeitos desse fenômeno da natureza atingem diretamente a vida das pessoas, aumentando o preço da conta de luz, encarecendo os alimentos e reduzindo a disponibilidade de água. Em períodos de seca prolongada, a produção agrícola pode recuar, enquanto chuvas excessivas podem afetar estradas, moradias e plantações.

O El Niño de 2026 está às portas; sua dimensão e intensidade ainda são incertas, porém as previsões indicam que os impactos podem ser significativos. Por isso, medidas preventivas precisam ser adotadas: informação, planejamento e conscientização da sociedade são fundamentais para enfrentar esse período.

Por fim, é preciso compreender como o clima influencia nossas vidas. Esse é um passo importante para enfrentar os desafios ambientais do presente e do futuro em um planeta em constante mudança.

Fonte: Artigo escrito por Claudio de Brito Neri, professor de Geografia do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré.
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Produtores com perdas desde 2019 poderão renegociar dívidas

Proposta aprovada no Senado contempla prejuízos causados por seca, geada, enchentes, queda de preços e aumento dos custos de produção.

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O Senado Federal aprovou o Projeto de Lei nº 5.122/2023, que cria uma linha especial de financiamento para reestruturar dívidas do setor agropecuário, com recursos do Fundo Social do Pré-Sal e de outras fontes. É uma das medidas mais aguardadas pelo campo nos últimos anos, especialmente por quem foi atingido por secas, enchentes e pela combinação de queda de preços com alta de custos de produção.

Antes de tudo, um esclarecimento necessário: o projeto ainda não é lei. Como o Senado alterou o texto que havia recebido da Câmara, a proposta retorna à Câmara

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dos Deputados para nova votação. Só depois, com sanção presidencial e regulamentação, é que as condições passarão a valer na prática. Ou seja: é hora de organizar a documentação e entender as regras, não de assinar nada.

Quem pode renegociar?

A linha foi desenhada para o produtor rural e cooperativas de produção que tenham sofrido perdas concretas. O critério aprovado é objetivo: ter registrado, entre 2019 e 2025, perdas em duas ou mais safras que reduziram em pelo menos 30% a renda bruta agropecuária esperada, comprovadas por laudo de profissional habilitado. Para mini e pequenos produtores e beneficiários do Pronaf, admite-se laudo grupal ou coletivo, o que reduz burocracia e custo.

Essas perdas podem decorrer de eventos climáticos extremos (enxurradas, granizo, geadas, secas, vendavais, entre outros), de queda nos preços de comercialização ou de aumento dos custos de produção. O texto reconhece a realidade de que o endividamento no campo costuma ter várias causas somadas.

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Quais dívidas entram?

Em linhas gerais, poderão ser alcançadas operações de crédito rural de custeio, comercialização e industrialização, sejam as que estão adimplentes (já renegociadas ou prorrogadas até 30/04/2026), sejam as que entraram em inadimplência a partir de 1º/01/2024 e assim permaneceram em 30/04/2026. Também entram parcelas de operações de investimento vencidas ou a vencer entre 2024 e 2027, dentro de condições específicas.

Um ponto de especial interesse: as Cédulas de Produto Rural (CPRs) emitidas em favor de instituições financeiras, cooperativas, fornecedores de insumos ou compradores da produção também foram contempladas, desde que contratadas até 31/12/2025, em situação de inadimplência no período indicado e devidamente registradas em entidade autorizada pelo Banco Central. Igualmente abrangidos empréstimos cujos recursos tenham sido usados para quitar crédito rural ou CPRs, além das operações firmadas sob as Medidas Provisórias 1.226/2024 e 1.314/2025.

Quais as condições previstas?

Pelo texto aprovado:

  • Taxas de juros: 3,5% ao ano para Pronaf e pequenos produtores; 5,5% para Pronamp e médios produtores; e 7,5% para os demais.

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  • Prazo: até 13 anos para pagamento, incluindo no mínimo 2 anos de carência, conforme a capacidade de pagamento. O regulamento poderá prever situações extraordinárias em que haverá prazo adicional de até 5 anos.
  • Limites: até R$ 10 milhões por beneficiário e até R$ 50 milhões por associação, cooperativa ou condomínio.
  • Apuração do saldo: os débitos serão recalculados desde a contratação original, sem multa, mora ou honorários, com o credor obrigado a apresentar extrato consolidado e memória de cálculo. Na prática, isso permite “limpar” encargos que muitas vezes inflam o saldo devedor.

Pontos que merecem atenção do produtor

Alguns aspectos do texto trazem segurança e agilidade. A adesão à linha não impede a contratação de novos financiamentos nem gera registro em cadastros restritivos. Além disso, a operação dispensa a apresentação de certidões negativas (inclusive CND) e a vinculação a imóvel rural, e também impede a exigência de novas garantias.

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Há ainda a previsão de suspensão de cobranças por até 180 dias, abrangendo execuções extrajudiciais, judiciais e fiscais, inscrição em cadastros negativos e os respectivos prazos processuais, para quem se enquadrar nos critérios e solicitar a operação.

O caráter “autorizativo” e a regulamentação

É importante entender a natureza da norma. O projeto autoriza o Poder Executivo a estruturar a política, não a impõe automaticamente. Muitas condições operacionais (limite global de recursos, prazos de efetivação, casos omissos) dependerão de regulamentação posterior e de definições do Conselho Monetário Nacional.

Lembrando que, em regra, o alongamento é direito do produtor e obrigação do credor, tal qual estabelecido em lei.

Por isso, o momento pede preparação técnica: levantar o histórico das operações, reunir laudos que comprovem as perdas, mapear quais dívidas se enquadram e calcular o reflexo das novas condições. Cada caso tem particularidades, sobretudo quando envolvem CPRs, garantias fiduciárias e operações já renegociadas anteriormente.

A lei ainda prevê a possibilidade de contratação de linha de crédito para liquidação de operações amparadas por alongamento de débito autorizados entre 2024-2026 e operações de crédito rural em processo de cobrança judicial.

Segurança jurídica

O PL 5.122/2023 representa um avanço concreto na direção da segurança jurídica e da recuperação da capacidade de financiamento do agro. Mas a transformação dessa oportunidade em benefício real depende de planejamento e de análise individualizada de cada operação de crédito, bem como atenção à vigência da lei e de sua regulamentação para a oportuna adesão.

Fonte: Artigo escrito por Fábio Lamonica Pereira, advogado em Direito Bancário e do Agronegócio.
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Preço do farelo de soja sobe de elevador e desce de escada

Pesquisa aponta que a expansão do biodiesel aumenta a oferta de farelo, mas os efeitos sobre as rações ocorrem de forma gradual e desigual.

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O debate sobre os impactos dos biocombustíveis nos preços dos alimentos acompanha a expansão dessas políticas há décadas. Em geral, existe a preocupação de que, ao direcionar parte da produção agrícola para energia, os biocombustíveis poderiam pressionar a oferta de alimentos. Além disso, a expansão dos biocombustíveis teria fortalecido as conexões entre os mercados de energia e commodities agrícolas, tornando os preços dos alimentos mais sensíveis às oscilações dos mercados energéticos.

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A realidade, porém, é complexa.

A literatura mostra que os efeitos dos biocombustíveis sobre os mercados agropecuários variam significativamente conforme o contexto – o país, o biocombustível, o desenho das políticas públicas e as características das cadeias produtivas envolvidas.

Uma dentre as variadas razões para essa diversidade de resultados relaciona-se ao papel dos coprodutos, aspecto que recebia pouca atenção nas análises sobre o tema. Estudos mais recentes passaram a mostrar que incorporar nas avaliações econômicas os efeitos dos coprodutos, como o DDGS e o farelo de soja, pode atenuar parte importante das preocupações associadas ao debate “food versus fuel”.

No caso do biodiesel à base de soja produzido no Brasil, uma pergunta importante surge: ao avaliar seus efeitos sobre os preços dos alimentos, devemos olhar apenas para o óleo utilizado na produção do biocombustível ou também para o farelo de soja, que representa cerca de 80% do volume obtido no processamento da oleaginosa?

Como a produção de óleo e farelo ocorre conjuntamente, aumentos na demanda por óleo estimulam o esmagamento

Foto: Claudio Neves

da soja e, consequentemente, ampliam a oferta de farelo. Esse mecanismo tem potenciais implicações para o mercado de ração, a produção animal e a segurança alimentar.

Mas uma questão permanecia pouco explorada: mesmo quando a maior oferta de farelo pressiona seus preços para baixo, esses efeitos realmente chegam aos custos de produção animal?

O papel pouco explorado do farelo de soja

Foi justamente essa questão que motivou um estudo desenvolvido pelo Cepea/Esalq-USP em parceria com a Abiove, utilizando dados mensais para o Brasil entre 2010 e 2024.

Foto: Divulgação

Os resultados mostram que mudanças nos preços do farelo são efetivamente transmitidas para os preços das rações. Mais do que isso, a magnitude de repasse é consistente com o peso do farelo no custo de produção desses produtos, sugerindo um mecanismo de transmissão relativamente forte. Também encontramos que aproximadamente 36% da variabilidade observada nos preços das rações está associada a choques nos preços do farelo de soja.

Como o preço do farelo chega às rações

Todavia, os resultados também revelam duas características importantes desse processo. Primeiro, o estudo encontrou que a transmissão é gradual: um choque equivalente a uma variação de 8,42% no preço do farelo gera um aumento imediato de apenas 0,44% nos preços das rações. Os efeitos se intensificam nos meses seguintes e continuam se acumulando ao longo do tempo.

Ao final, o mesmo choque leva a uma elevação de 2,66% nos preços das rações, mostrando que boa parte do ajuste

Foto: Divulgação

não ocorre imediatamente. Essa característica ajuda a explicar por que os impactos podem ser menos facilmente percebidos por produtores, consumidores e formuladores de políticas públicas. Como diversos fatores afetam simultaneamente os preços, a identificação isolada dos efeitos provenientes do farelo de soja fica dificultada, já que o processo ocorre de forma gradual.

Alta sobe rápido, queda demora a chegar

O segundo ponto diz respeito à evidência de assimetria na transmissão. Isso significa que aumentos no preço do farelo são mais rapidamente e intensamente repassados aos preços das rações do que reduções. Em termos simples, os preços parecem subir de elevador e descer de escada: quando o farelo fica mais caro, os reajustes ocorrem de forma mais rápida e intensa; quando fica mais barato, os efeitos são menores e levam mais tempo para aparecer. Essa característica acaba atenuando parcialmente os potenciais benefícios associados à redução dos preços do farelo ao longo da cadeia.

Os efeitos econômicos das políticas de biodiesel não devem ser analisados apenas a partir do óleo de soja e seus derivados, já que sinais de preços se propagam entre os diferentes elos produtivos. Do ponto de vista das políticas públicas, a principal contribuição do estudo desenvolvido foi mostrar que o canal de transmissão farelo-ração existe e é economicamente relevante. Mas, o mecanismo opera de forma gradual, o que faz com que seus efeitos sejam menos facilmente percebidos pela sociedade, e assimétrica, o que limita parte dos ganhos de uma redução dos preços do farelo.

Fonte: Artigo escrito pelo diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove, Daniel Amaral; e pelos Pesquisadores do Cepea/Esalq/USP Nicole Rennó Castro, Aniela Fagundes Carrara, Lucilio Alves e Felipe Miranda de Souza Almeida.
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