Peixes
Entenda por que a lactococose se tornou um dos principais problemas da tilapicultura
Surtos da doença bacteriana avançam pelo país, atingem tilápias em diferentes fases de crescimento e impõem altos prejuízos à piscicultura nacional.

Basta uma pequena mudança nas condições de um viveiro de tilápias para que a lactococose transforme a produção em um cenário de perdas. Água alguns graus mais quentes, tanques-rede superlotados ou mal higienizados já são suficientes para desencadear surtos capazes de comprometer a sobrevivência dos peixes e corroer a rentabilidade do produtor. Emergente e silenciosa até poucos anos atrás, a doença bacteriana se tornou atualmente um dos principais desafios sanitários da piscicultura brasileira. O primeiro caso positivo foi registrado em 2020, no Mato Grosso.
Desde então, a doença se espalhou de forma consistente, e a experiência acumulada no campo revelou que a Lactococcus petauri é responsável pela maior parte dos surtos e pela mortalidade mais expressiva nos plantéis nacionais. Embora existam registros pontuais de Lactococcus garvieae, esta espécie é considerada de menor impacto. “Hoje sabemos que a Lactococcus petauri é a grande causadora da lactococose no Brasil, e que ela encontra nas altas temperaturas da água, na densidade elevada e no acúmulo de sujeira em gaiolas um ambiente propício para se instalar”, explicou a médica-veterinária Maísa Santiago Selingardi, especialista em Gestão de Qualidade, durante sua participação no 4º Simpósio de Piscicultura do Oeste do Paraná (Simpop), realizado entre os dias 16 e 17 de julho, em Toledo (PR).

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Desde o registro oficial da doença, a experiência prática tem sido fundamental para decifrar seu comportamento e os riscos que representa. O entendimento dos fatores que favorecem a proliferação da bactéria – temperaturas acima de 26 °C, densidade elevada e acúmulo de sujeira nas gaiolas, em sua maioria com lodo ou mexilhões – tem orientado os produtores sobre como reduzir a exposição dos peixes e minimizar perdas econômicas.
Nos cinco anos seguintes ao primeiro surto, análises laboratoriais transformaram suspeitas em conclusões concretas. Embora inicialmente se acreditasse que apenas peixes mais velhos fossem vulneráveis, animais ainda pequenos, de oito a 10 gramas, também podem ser acometidos. A maior incidência, no entanto, se concentra em subadultos e adultos: 34,2 % dos casos ocorreram em peixes de 50 a 350 gramas e 63,8 % em animais acima de 350 gramas, justamente os peixes de maior valor econômico para o produtor.
O levantamento, realizado entre outubro de 2020 e abril de 2025, analisou 165 propriedades em todo o Brasil, totalizando mais de 10.400 animais, e identificou 83 fazendas positivas para lactococose, com 1.377 peixes infectados.
Com a doença agora presente em diversos estados, o desafio é acompanhar sua expansão, mapear a sazonalidade dos surtos e definir estratégias preventivas eficazes. Cada dado coletado no campo reforça o entendimento científico e fornece ao produtor informações essenciais sobre quando e onde a lactococose pode se tornar uma ameaça real ao plantel e à rentabilidade da atividade.
Como identificar a lactococose
Identificar a lactococose apenas pela observação no viveiro ainda não é possível. O diagnóstico definitivo depende de análise laboratorial: o peixe com sinais suspeitos precisa ser coletado e enviado ao laboratório, onde se confirma se a doença é de fato lactococose ou outra condição, como estreptococose.
Apesar disso, há indícios que podem alertar o produtor para a presença da bactéria, principalmente em propriedades já positivas ou em casos de introdução recente da doença. Desde os primeiros surtos, um dos sinais mais observados tem sido a opacidade ocular, presente tanto em peixes pequenos quanto nos maiores. Frequentemente, esse sintoma vem acompanhado de corrosão de nadadeiras, melanose (peixes com coloração mais escura) e necrose branquial, que pode ocorrer com ou sem alteração na córnea. “Já encontramos peixes que apresentavam apenas com melanose, sem opacidade ocular, mas ao abrir a brânquia, era evidente a necrose. Por isso, é fundamental que o produtor examine sempre as brânquias. Elas são um indicador importante da saúde do peixe”, alerta Maísa.
Em casos crônicos, a lactococose pode se manifestar com caquexia, deixando o peixe visivelmente mais magro, e abscessos no pedúnculo caudal. “Esses sinais, quando identificados em um plantel ainda livre da doença, podem indicar a introdução precoce da bactéria e permitem que medidas preventivas sejam adotadas antes que os surtos se agravem”, alerta a profissional, mencionando: “A experiência acumulada nos últimos cinco anos mostra que, embora o diagnóstico laboratorial seja indispensável, a observação cuidadosa no campo continua sendo uma ferramenta essencial para a detecção precoce, oferecendo ao produtor a chance de reagir rapidamente e proteger a sobrevivência e a rentabilidade da produção”.
Sazonalidade

Médica-veterinária, especialista em Gestão de Qualidade, Maísa Santiago Selingardi: “A experiência acumulada nos últimos cinco anos mostra que, embora o diagnóstico laboratorial seja indispensável, a observação cuidadosa no campo continua sendo uma ferramenta essencial para a detecção precoce da doença” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural
Cinco anos após os primeiros casos, a lactococose continua se espalhando pela piscicultura brasileira. As análises laboratoriais, apresentadas pela médica-veterinária, realizadas nesse período revelam uma sazonalidade clara, com variações significativas da ocorrência da doença ao longo do ano, com picos de incidência em abril, quando chegou a 49,9 %, e em outubro, atingindo 47,4 %, coincidindo com períodos de oscilação de temperatura.
Nos primeiros meses do ano, a doença se mantém relativamente estável: 28,3 % em janeiro, 25,4 % em fevereiro e 27,7 % em março. Após o pico de abril, a incidência ainda é elevada em maio (42,1 %), mas cai bruscamente em junho (25,3 %) e julho (25,4 %), chegando ao nível mais baixo em dezembro (18,7 %). Outro período de atenção ocorre entre setembro (40,6 %) e outubro (47,4 %), seguido de redução gradual até o fim do ano. “A lactococose circula o ano todo na piscicultura, mas, diferente da estreptococose, que provoca picos de mortalidade no verão, principalmente em dezembro, janeiro e fevereiro, a lactococose apresenta maior incidência em abril e outubro, períodos de oscilação de temperatura. Essa é uma informação nova identificada ao longo desses cinco anos e muito relevante para os técnicos no campo”, pontua Maísa.
Expansão da doença
A expansão da doença pelo território nacional também é preocupante. Após um ano do primeiro registro no Brasil, no final de 2021 os primeiros casos começaram a surgir no Nordeste. Em 2022, a lactococose chegou a Goiás e Minas Gerais, especialmente no Triângulo Mineiro, causando altas mortalidades. No mesmo ano, o estado de São Paulo registrou casos de forma pontual, mas a doença se intensificou em meados de 2024. Em novembro do mesmo ano foram confirmados os primeiros casos no Norte do Paraná, tornando o estado também positivo para Lactococcus. “Hoje, os estados com maior incidência são Bahia, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, responsáveis por 77 % das ocorrências. Juntos, eles representam cerca de um terço da produção nacional de tilápia. Ao todo, 14 estados já registraram ocorrências da doença, demonstrando que a lactococose segue em expansão no País”, ressaltou a médica-veterinária.
Esses dados reforçam que a doença persiste e se espalha, exigindo monitoramento constante, biosseguridade rigorosa e atenção redobrada nos períodos críticos para proteger plantéis e a rentabilidade da atividade.
Importância do programa vacinal

Foto: Divulgação/UEL
As análises das 83 fazendas positivas mostram o comportamento da lactococose ao longo do tempo, com aumento do número de peixes infectados à medida que a doença se espalhou pelo país. De acordo com a profissional, programas de vacinação com vacinas autógenas foram implementados em 2022, especialmente no Nordeste, mostrando redução significativa na frequência de casos positivos e comprovando a eficácia de um programa vacinal bem estruturado dentro de uma piscicultura.
No entanto, a partir do final de 2024 e início de 2025, Maísa relata que foram observados aumento expressivo de casos em propriedades que ainda não tinham imunização contra a doença. “Nos primeiros meses após a entrada da bactéria no plantel, a mortalidade foi intensa”, disse Maísa.
Combinação perigosa
O estudo também revelou a coexistência da Lactococcus com Streptococcus 1B e, no Nordeste, com o tipo 3. Apesar da presença simultânea dessas bactérias, Maísa salienta que as coinfecções são raras: dos quase 1,4 mil animais positivos, apenas quatro apresentaram infecção dupla. “Isso comprovou que as duas doenças não caracterizam coinfecção, mas sim infecção concorrente. Ambas circulam no mesmo plantel, mas em momentos distintos, dependendo de fatores como a sazonalidade de cada doença”, explica a profissional.
Mesmo após cinco anos de circulação da Lactococcus no Brasil, não há vacina licenciada comercialmente para combate à doença. Nesse cenário, as vacinas autógenas desempenharam um papel fundamental, evitando o uso excessivo de antibióticos e oferecendo proteção eficiente contra a mortalidade da doença, comparável à Streptococcus 1B. “Tanto a Lactococcus, como a Streptococcus 1B, tem potencial de mortalidade elevado, tornando a imunização um instrumento essencial”, reforça.
Programas de vacinação customizada desaceleram a dispersão da doença, reduzem a frequência de animais positivos e aumentam a rentabilidade do produtor, consolidando-se como ferramenta estratégica para o controle da lactococose. “Ao combinar essas informações – grupo de risco, mapa epidemiológico da evolução da doença e dados de sazonalidade – o estudo da Vaxxinova oferece aos produtores e sanitaristas do campo um guia prático para reforçar a biosseguridade e implementar programas de imunoprofilaxia eficazes, fortalecendo a piscicultura brasileira diante de um desafio emergente”, evidencia Maísa.
O acesso é gratuito e a edição pode ser lida na íntegra on-line clicando aqui. Boa leitura!

Peixes
Governo passa a exigir nota fiscal como comprovação de origem do pescado
Nova portaria dos ministérios da Pesca e da Agricultura reforça rastreabilidade na cadeia, substitui norma de 2014 e cria mecanismo para regularização de embarcações no RGP.

Os Ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicaram, na última sexta-feira (10), a Portaria Interministerial nº 54, que estabelece a Nota Fiscal como documento oficial de comprovação de origem do pescado proveniente da pesca e da aquicultura.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
A nova norma revoga a Instrução Normativa Interministerial MPA/Mapa nº 4/2014, e atualiza os mecanismos de controle, com o objetivo de fortalecer a rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva.
A medida busca conferir maior segurança jurídica e previsibilidade às atividades do setor, ao alinhar os procedimentos de comprovação de origem às práticas atuais da pesca e da aquicultura no país. A adoção da Nota Fiscal como documento oficial contribui para ampliar a transparência das operações comerciais, aprimorar os mecanismos de fiscalização e valorizar o pescado brasileiro.
A portaria é resultado de um processo de construção conjunta entre o MPA e o Mapa, com base em discussões técnicas e diálogo com o setor produtivo. Participaram das tratativas representantes da Câmara Setorial da Produção e da Indústria de Pescados, além de auditores fiscais do Mapa. A iniciativa buscou garantir que a regulamentação atenda às necessidades operacionais do setor e seja aplicada de forma eficiente e uniforme em todo o território nacional.
Entre as novidades, a norma institui o anexo “Autodeclaração de Solicitação de Atualização de Dados junto ao MPA”. O instrumento visa resguardar o interessado

Foto: Divulgação
que já protocolou pedido de atualização cadastral de embarcação no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), mas que ainda aguarda análise administrativa.
A autodeclaração permitirá que o proprietário comprove sua regularidade durante esse período, evitando prejuízos à atividade produtiva e conferindo maior previsibilidade ao processo. De acordo com os ministérios, a medida está alinhada à modernização administrativa, à inovação regulatória e à garantia de direitos dos usuários dos sistemas públicos.
Com a nova regulamentação, a Nota Fiscal passa a ocupar papel central na comprovação de origem do pescado, reforçando o compromisso do governo federal com a modernização da gestão pesqueira e aquícola e com o desenvolvimento sustentável do setor.
Peixes
Tilápia mantém estabilidade de preços nas principais regiões produtoras
Cotações ao produtor variaram até 0,23% na última semana. Oeste do Paraná registra maior alta e segue com menor valor por quilo.

Os preços da tilápia permaneceram praticamente estáveis nas principais regiões produtoras do país na semana de 6 a 10 de abril, com variações discretas tanto de alta quanto de baixa, conforme levantamento do Cepea.

Foto: Shutterstock
No Oeste do Paraná, principal polo produtivo nacional, o valor pago ao produtor independente atingiu R$ 8,94 por quilo, com leve alta de 0,23% na comparação semanal, a maior variação positiva entre as regiões monitoradas. Apesar do avanço, a região segue registrando o menor preço médio entre os mercados acompanhados.
No Norte do Paraná, a cotação ficou em R$ 10,45/kg, sem variação na semana, indicando estabilidade nas negociações. Já na região dos Grandes Lagos, que abrange o noroeste de São Paulo e áreas próximas à divisa com Mato Grosso do Sul, o preço médio foi de R$ 10,04/kg, com leve alta de 0,16%.
Em Minas Gerais, os movimentos foram de ajuste negativo. Em Morada Nova de Minas, referência na produção aquícola do estado, o valor recuou 0,05%, para R$ 9,82/kg. No Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, a queda foi de 0,06%, com o preço médio em R$ 10,22/kg.
Os dados consideram o preço à vista pago ao produtor independente e indicam um mercado de baixa volatilidade no curto prazo, com oscilações pontuais entre as regiões.
Peixes
Câmara derruba mudanças do Senado e mantém novas regras do seguro-defeso
Texto que segue para sanção prevê cadastro mais rígido, pagamento em até 60 dias após regularização e R$ 7,9 bilhões reservados para o benefício em 2026.

A Câmara dos Deputados rejeitou na última quinta-feira (09) as alterações feitas pelo Senado Federal na Medida Provisória 1323/25, que define novas regras para o pagamento do seguro-defeso. Com a decisão, permanece o texto aprovado pelos deputados na última terça-feira (07). A proposta segue agora para sanção presidencial.

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil
O seguro-defeso é pago a pescadores artesanais durante o período de proibição da pesca para reprodução dos peixes. As mudanças têm como foco o endurecimento dos critérios de controle e identificação dos beneficiários.
A medida estabelece que:
- parcelas pendentes poderão ser quitadas em 2026, desde que o pescador cumpra os requisitos;
- haverá direito ao recebimento de anos anteriores, caso o pedido tenha sido feito dentro do prazo legal;
- o pagamento ocorrerá em até 60 dias após a regularização cadastral;
- passam a valer novas exigências de cadastro e identificação.
Para 2026, a previsão orçamentária do benefício, desconsiderando valores atrasados, é de R$ 7,9 bilhões.
Na véspera, os senadores haviam aprovado mudanças que incluíam a exigência de comprovação de contribuição ao INSS por ao menos seis meses no período de um ano, a criação de limite de renda para acesso ao benefício e a retirada do pagamento retroativo referente a 2025.
Todas essas alterações foram rejeitadas pelos deputados.



