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Entenda mais sobre gestão na produção de arroba

Gestão de pessoas e dos números da fazenda ainda é gargalo para muitas propriedades conseguirem bons resultados e não acabarem no vermelho

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Uma palavra que está na moda e que o pecuarista brasileiro vem ouvindo muito nos últimos tempos é gestão. A importância de uma boa administração dentro da fazenda é essencial para garantir bons resultados. Mas como fazer este trabalho dar certo é a dúvida de muitos produtores. O engenheiro agrônomo Lucas Oliveira explicou sobre a “gestão na produção de arroba” durante a primeira etapa da Intercorte, que aconteceu em Cuiabá, MT, em abril. O Presente Rural participou do evento.

De acordo com ele, nos últimos anos a receita nas fazendas tem caído e os custos de produção aumentado. “Os custos aumentam mais do que aquilo que estamos recebendo dentro da fazenda. A única maneira de equilibrar isso é produzirmos mais”, afirma. Segundo Oliveira, a maneira de produzir mais é investindo em nutrição, genética, sanidade e manejo. “Para investir em nutrição, vamos melhorar as condições das pastagens, manejar melhor os pastos, dar grãos para os nossos animais. Vamos trabalhar com o confinamento para conseguir controlar 100% daquilo que ele está comendo, para que ele possa engordar mais”, comenta.

Quando o profissional fala em investir em genética, ele reitera que não adianta dar uma excelente comida para o animal se ele não vai responder à altura daquela nutrição que está recebendo. No terceiro ponto abordado – a sanidade –, Oliveira comenta que é bastante importante porque o animal vai produzir mais com qualidade. “Estes três pontos devem estar bem colocados. E depois de estar com isso tudo muito bem feito, vamos manejar. Então pronto, se eu resolver esses quatro alicerces eu terei uma pecuária rentável e lucrativa”, afirma.

Porém, Oliveira destaca que muitos pecuaristas cuidavam destes quatro pontos, mas somente isso não estava resolvendo o problema. “Apesar de eu cuidar, ter uma boa nutrição e genética, meus animais serem bastante saudáveis e ter o manejo correto, nos últimos levantamentos que fizemos em algumas fazendas espalhadas pelo Brasil, 35% delas continuam fechando no vermelho”, conta. Ele informa que a média de reais por hectare/ano foi entre R$ 70 a R$ 80. “Ou seja, o segredo é somente produzir mais? Aí é que vem a palavra gestão. Gestão é buscar resultados através dos processos corretos. Então, eu vou fazer as coisas de maneira correta e buscar lucro, isso é gerir”, assegura.

Dessa forma, Oliveira garante que somente produzir mais não é a resposta. “Eu preciso produzir mais e com lucro, e é nisso que entra a palavra gestão, que vem para conectar as engrenagens”, diz. Um dos pontos mais importantes, que o profissional diz que é preciso que o pecuarista tenha em mente para ter um bom processo dentro da propriedade, são as pessoas. “Eu vou gerir essas pessoas para que todo o processo gere lucro”, afirma.

Gestão de pessoas

Oliveira destaca que quando se fala em gestão o primeiro ponto a se pensar é nas pessoas. “Quando vamos em algumas fazendas, a reclamação número um dos donos das propriedades é sempre a mão de obra. E se vamos conversar individualmente com o capataz ou ajudante e perguntar como é o patrão, ele já responde que o pecuarista não sabe o que quer. Qual a probabilidade de sucesso de um negócio em que o patrão fala mal do funcionário e o funcionário fala mal do patrão?”, questiona.

A resolução deste problema é a gestão de pessoas, assegura. “Todas as coisas são realizadas por pessoas, e elas precisam ser bem geridas, treinadas, precisam ser motivadas. E motivação é desafio versus recompensa”, conta. Para ele, é importante que a mão de obra tenha desafio e metas, além de recompensa, para que ele esteja engajado no projeto. “Dessa forma não precisa ser o olho do dono para engordar o boi, mas o olho de dono. Isso acontece quando o funcionário puxa para ele a responsabilidade de cuidar da propriedade e fazer as coisas acontecerem”, diz.

Gestão de números e resultados técnicos

Outro tipo de gestão que não pode ser esquecida e que faz toda a diferença para uma fazenda de sucesso é a gestão dos números. “Temos feito apanhados de fazendas reais e buscado dados sobre elas. Vimos que a primeira grande dificuldade é o pecuarista saber o rebanho dele”, diz. “Já chegou ao absurdo de uma fazenda que acompanhamos ter três anotações diferentes de um rebanho. Uma para o registro do Ministério, outro no software da fazenda e uma terceira em outro local. Para que se tenha uma boa gestão é preciso que eu tenha uma boa anotação. Eu preciso ter os números certos”, afirma.

Por último, aposta Oliveira, é importante fazer ainda a gestão dos resultados técnicos. “Nós temos uma máxima de que tudo aquilo que pode ser medido pode ser melhorado. Dessa forma, não há gestão sem meta e sem número. Tudo o que eu posso medir eu coloco em um número e eu posso melhorar, porque baseado nesse indicador, eu vou criar as metas para a minha fazenda. Não há gestão sem meta, eu preciso ter uma meta, alguma base, e isso são os meus números que vão me mostrar”, assegura.

“Síndromes” de Gabriela e Zeca Pagodinho

Para o profissional, somente o fato do pecuarista colocar um número ele já melhora o próprio negócio. “Porque quando a gente não mede, quando não temos os números da nossa fazenda, daquilo que estamos fazendo, a atividade não funciona e podemos cair no erro das duas principais síndromes do Brasil, a da Gabriela e do Zeca Pagodinho”, conta.

A primeira grande síndrome nas fazendas do Brasil, para Oliveira, é a da Gabriela. “Se eu nasci assim, cresci assim, vou morrer assim. Então, o meu pai fazia assim, meu avô fazia assim e o negócio vai andar desse jeito, eu não preciso fazer mais nada porque assim está dando certo. O problema que esse pecuarista não vê é que a métrica da época do pai dele é diferente da de hoje”, explica.

Já a segunda grande síndrome, de acordo com o profissional, e que está diretamente relacionada com o produtor que não tem os números, é a síndrome do Zeca Pagodinho. “É aquela propriedade que segue como a música: deixa a vida me levar… Ou seja, deixa o negócio ir acontecendo. Uma pesquisa que fizemos em três mil fazendas de gado de corte, mais de 60% dos fazendeiros não tinham nenhum tipo de negociação com o boi gordo. Ele vendia conforme o preço do dia, mesmo tendo várias ferramentas de venda como temos hoje”, relata.

Ganhando com os números

Oliveira conta que fazendo um estudo com uma média de 285 fazendas ao redor do país, alguns números interessantes foram encontrados. “A média de ganho das fazendas é de R$ 85 por hectare/ano. Só que houve 10% destas fazendas analisadas que ganharam R$ 773. Ou seja, tem fazendas ganhando 10 vezes mais que a média”, informa. Ele conta que a média produzida pelas fazendas foi de 6 arrobas hectare/ano, enquanto que aquelas 10% produziram 13 arrobas hectare/ano. “Existe esta ligação de que produzindo mais, eu vou estar ganhando mais”, diz.

Porém, o profissional alerta para outro dado curioso constatado no mesmo estudo. Ele explica que quem produziu uma média de 0 a 5 arrobas teve um rendimento de R$ 9 hectare/ano. Aqueles que produziram de 5 a 10 arrobas conseguiram R$ 65 hectare/ano. As fazendas com uma média de 10 a 15 arrobas renderam uma média de R$ 259 hectares/ano. Ainda subindo, aquelas que produziram de 15 a 20 arrobas tiveram um rendimento de R$ 911 ha/ano. Porém, as fazendas que tiveram uma média de produção acima de 20 arrobas tiveram um prejuízo de R$ 135 ha/ano.

Oliveira explica os números. “Dividimos a média de quem ganhou mais dinheiro e a média de quem perdeu mais dinheiro. Quem mais ganhou conseguiu um média R$ 911, ou seja, continuou subindo a proporção. Produzi mais e ganhei mais. Porém, quem perdeu dinheiro, perdeu muito dinheiro. A média de quem perdeu foi de R$ 1,5 mil hectare/ano. Isso nos mostra que eu produzir mais faz com que o meu risco seja maior”, afirma. Ele relata que é preciso ter uma gestão muito mais apurada, porque quanto mais o pecuarista produz, mais ele está investindo e maior é o risco. “Eu posso ganhar mais? Posso! Se eu fizer uma boa gestão do meu negócio”, diz.

Oliveira aconselha ao pecuarista que para fazer um bom negócio deve fazer o melhor para o momento. “Qual o tipo de animal que você tem, por quanto você comprou o animal, quanto custou o milho e a soja, por quanto vai vender o animal. Não existe sistema melhor para ganhar mais, o que existe é o melhor para aquele momento”, afirma.

Ele ainda acrescenta que é preciso que o pecuarista saiba a diferença entre despesa e custo. “Quando eu suplemento o meu animal, ou dou ração, eu estou aumentando o meu custo ou a minha despesa? É a minha despesa, porque o custo é igual a despesa sobre a minha produtividade. Eu tenho uma alta despesa, mas se eu tiver uma alta produtividade, o custo pode ser o mesmo ou menor”, explica. Oliveira acrescenta que o lucro da fazenda vem do desempenho do animal, multiplicado pela taxa de lotação – ou seja, a quantidade de animais que o produtor tem –, vezes aquilo que ele está recebendo por arroba, menos o custo. “Não é porque estou dando ração proteica energética que estou aumentando o meu custo. Eu posso estar aumentando a minha despesa. Eu tenho que ter um desempenho compatível com aquilo que eu estou fazendo”, afirma.

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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