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Enriquecimento de ovos com selênio: saúde animal e humana

Suplementação de selênio nas dietas das aves contribui para a saúde animal e enriquece os ovos, agregando benefícios nutricionais para os consumidores.

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Artigo escrito pela nutricionista na Agroceres Multimix, Thaila Fernanda de Moura.

O ovo se destaca nas últimas décadas como opção estratégica para atender à crescente demanda dos consumidores por alimentos funcionais. Na avicultura, a suplementação de selênio (Se) nas dietas das aves contribui para a saúde animal e enriquece os ovos, agregando benefícios nutricionais para os consumidores.

Mineral essencial para o bom funcionamento do organismo, o selênio desempenha papel crucial como cofator de mais de 25 selenoproteínas, incluindo a glutationa peroxidase, que protege as células contra danos oxidativos e o envelhecimento precoce. Além disso, esse mineral exerce um papel importante no fortalecimento do sistema imunológico, na regulação da função tireoidiana e na prevenção de doenças crônicas, como câncer e doenças cardiovasculares. Nesse contexto, otimizar os níveis de selênio nas dietas das aves é fundamental para promover a saúde, a produtividade e a produção de alimentos funcionais.

A exigência de selênio para galinhas varia de 0,05 a 0,08 ppm, dependendo do consumo diário de ração. Pesquisadores recomendam 0,142 mg de selênio por kg de ração para poedeiras suplementadas com fontes orgânicas e 0,315 mg/kg para fontes inorgânicas. Essa necessidade pode ser atendida por uma dieta convencional a base de milho e farelo de soja, sem suplementação adicional.

No entanto, o teor de selênio nos grãos de ração varia amplamente entre as regiões, e é uma prática comum na indústria avícola suplementar as dietas das galinhas poedeiras, com o intuito de evitar deficiências. Em aves, assim como e m outras espécies animais, o selênio pode ser suplementado por fontes inorgânicas ou orgânicas, sendo a escolha dessas fontes fator determinante para o destino metabólico do mineral.

O selenito de sódio é a fonte tradicional e inorgânica de selênio nas dietas animais. No entanto, fontes alternativas, como a selenometionina e leveduras enriquecidas com selênio, têm sido exploradas devido à sua maior biodisponibilidade e vantagens biológicas. Isso ocorre porque, apesar de amplamente utilizado, o selenito de sódio tem menor eficiência na retenção de selênio nos tecidos das aves. Após ser absorvido no intestino delgado, principalmente por difusão passiva, o selenito é transportado para o fígado, onde é convertido em seleneto para a síntese de selenoproteínas.

O seleneto é essencial para a produção de selenoproteínas antioxidantes, como a glutationa peroxidase e a tioredoxina redutase. Essas enzimas desempenham papéis fundamentais na proteção das células contra danos oxidativos, e ambas dependem diretamente do selênio para exercerem suas funções.

A selenometionina, forma orgânica de selênio, é absorvida pelos enterócitos de maneira similar aos aminoácidos, por meio de transporte ativo. Esse processo ocorre em todas as regiões do intestino delgado, utilizando um mecanismo semelhante ao da metionina. Durante a síntese proteica, a selenometionina pode substituir a metionina, permitindo que o selênio seja armazenado nos tecidos musculares. Assim, ela é incorporada às proteínas e liberada apenas após o turnover proteico, fornecendo selênio de forma gradual e eficiente para o organismo. Sua participação nas vias metabólicas confere vantagens sobre as fontes inorgânicas e outras fontes orgânicas, pois a absorção ocorre de maneira dependente de sódio, de forma semelhante à da metionina.

Um estudo de 2024 demonstrou que grupos suplementados com fontes orgânicas de selênio apresentaram maior teor do mineral nos ovos em comparação aos grupos suplementados com selênio inorgânico. Entre os grupos suplementados com 0,30 mg/kg de selênio, houve um aumento significativo no teor de selênio nos ovos em relação aos grupos suplementados com 0,15 mg/kg.

A levedura enriquecida com selênio é outra opção de fonte orgânica que contém aproximadamente 50-70% de selenometionina, podendo incluir outras formas de selênio, como a selenocisteína. Essa fonte natural é absorvida de maneira eficiente por transporte ativo no intestino e utilizada nos tecidos de forma semelhante à selenometionina.

utros estudiosos, ao avaliarem a deposição de selênio em ovos de galinhas poedeiras, observaram que os níveis de selênio transferidos para os ovos aumentaram linearmente com a suplementação do mineral na dieta (de 0,15 a 3 ppm), independentemente da fonte de selênio (orgânica ou inorgânica). No entanto, quando a suplementação foi feita com a forma orgânica do mineral, houve uma maior deposição de selênio nos ovos. Aos níveis de 0,60 ppm de selenito de sódio e levedura enriquecida com selênio, as respostas foram de 0,327 e 0,670, respectivamente, enquanto nas doses de 3,00 ppm, as respostas aumentaram para 0,641 e 2,207 para selenito e levedura, respectivamente.

Outro estudo com galinhas alimentadas com uma dieta contendo selenometionina observou que elas transferiram mais selênio para seus ovos (+28,8%) e acumularam maiores reservas nos músculos (+28%) em comparação com as aves alimentadas com dietas suplementadas com selênio inorgânico e selênio de levedura.

Embora existam outros produtos, como quelatos, glicinatos e proteinatos, ainda são necessários mais estudos para que esses se tornem fontes confiáveis.

Viabilidade

Do ponto de vista da viabilidade econômica, a combinação de fontes orgânicas e inorgânicas tem se mostrado uma abordagem eficaz em custo-benefício, permitindo que os produtores ajustem a suplementação ao longo das fases produtivas das aves e atendam às crescentes demandas do mercado por alimentos funcionais e nutritivos. Fontes inorgânicas de selênio, como o selenito de sódio, são necessárias para a síntese de selenocisteína.

Ovo como um alimento funcional

O ovo, por ser uma fonte rica de ácidos graxos poli-insaturados, é altamente suscetível à oxidação lipídica, especialmente durante o processamento e estocagem. Esse processo compromete a qualidade sensorial do alimento e é acelerado por fatores como tempo e temperatura, que afetam diretamente sua estabilidade.

O selênio é fundamental para prolongar a vida útil dos ovos, desempenhando um papel central como componente da enzima antioxidante glutationa peroxidase. Essa enzima atua reduzindo e neutralizando radicais livres gerados pela oxidação lipídica, retardando os processos oxidativos que afetam a qualidade do ovo.

Como resultado, a suplementação com selênio contribui para preservar as características sensoriais e nutricionais do ovo, assegurando sua estabilidade durante o armazenamento e transporte.

Além disso, no Brasil, a Instrução Normativa nº 75/2008 estabelece critérios para destacar o valor funcional dos alimentos. Essa regulamentação define os requisitos necessários para que um alimento seja rotulado como “fonte” ou “rico em selênio”, incluindo as concentrações mínimas exigidas para essas alegações. No caso dos ovos, ajustar a suplementação alimentar das aves para atender a essas exigências legais é essencial, permitindo que os produtores agreguem valor ao produto e atendam às expectativas do mercado consumidor por alimentos funcionais.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Os Valores Diários de Referência (VDR) indicam que a ingestão recomendada de selênio para adultos é de 60 μg por dia. Para classificar um alimento de acordo com seu conteúdo de selênio, são adotados os seguintes critérios:

  • Fonte de selênio: quando o alimento contém no mínimo 15% do VDR por porção.
  • Rico em selênio: quando o alimento apresenta no mínimo 30% do VDR por porção.

Um ovo de 50 g contém cerca de 15 μg de selênio, o que representa aproximadamente 25% da ingestão diária recomendada. Para ser classificado como “rico” em selênio, o ovo (50g) deve conter pelo menos 18 μg do mineral.

Portanto, o enriquecimento de ovos com selênio, por meio da suplementação adequada na dieta das aves, não apenas contribui para a saúde e o bem-estar animal, mas também oferece um valor nutricional significativo aos consumidores, atendendo à demanda crescente por alimentos funcionais. Além disso, com o respaldo de regulamentações como a Instrução Normativa nº 75/2008, é possível destacar o valor funcional do ovo, agregando maior valor ao produto e cumprindo as expectativas do mercado.

Esse diferencial competitivo permite ao produtor elevar o preço de venda em mais de 60%, posicionando os ovos

Foto: Rodrigo Félix Leal

enriquecidos como uma solução estratégica que combina alta rentabilidade com a crescente demanda por alimentos funcionais e saudáveis.

Assim, ao otimizar a suplementação de selênio nas dietas das aves, é possível melhorar a qualidade do produto, atender às exigências legais e satisfazer as necessidades dos consumidores, promovendo benefícios para a saúde humana de forma sustentável e eficiente.

Considerações finais

O enriquecimento de ovos com selênio configura-se como uma estratégia poderosa e diversificada para melhorar tanto a saúde animal quanto a humana. Ao suplementar as dietas das aves com fontes orgânicas de selênio, é possível não apenas otimizar a saúde e o desempenho das poedeiras, mas também aumentar o teor desse mineral nos ovos, contribuindo para a produção de alimentos funcionais com benefícios nutricionais significativos. Além disso, o selênio exerce um papel fundamental na preservação das características sensoriais dos ovos, especialmente ao atuar como um potente antioxidante, retardando a oxidação lipídica e prolongando a vida útil do produto.

O enriquecimento de ovos com selênio não é apenas uma tendência crescente, mas uma solução eficaz que integra saúde animal, benefícios nutricionais e valorização do produto. Ao adotar práticas de suplementação bem planejadas, os produtores podem impulsionar a qualidade de seus ovos, atendendo tanto às exigências dos consumidores quanto às necessidades do mercado global de alimentos funcionais.

As referências bibliográficas estão com os autores. Contato: joao.santos@agroceres.com.

O acesso à edição digital do jornal Avicultura Corte & Postura é gratuito. Para ler a versão completa, basta clicar aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural com Thaila Fernanda de Moura

Avicultura

Gestão, tecnologia e escala: os novos pilares da competitividade na produção de proteínas

Cenário de custos elevados, exigência por eficiência e mudanças na cadeia produtiva reforçam a necessidade de profissionalização, inovação e qualificação de mão de obra no setor.

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Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, professor embaixador no MBA em Agronegócios da USP/Esalq, pesquisador Cepea

A produção de proteínas animais no Brasil, especialmente nas cadeias de bovinos de corte, suínos e frango experimenta uma reformulação estrutural abrangente. Embora fatores tradicionais como clima e disponibilidade de terras ainda sejam relevantes, o verdadeiro diferencial competitivo do setor, estará cada vez mais concentrado em três pilares: gestão, tecnologia e capital humano.

Nos últimos anos, o produtor rural passou a operar em um ambiente de custos elevados e alta volatilidade. A dependência de insumos dolarizados, como fertilizantes, medicamentos, fosfatos e adubos faz com que o câmbio exerça influência direta sobre a rentabilidade da atividade. Nesse contexto, produzir bem já não é suficiente. É preciso produzir com eficiência, escala e estratégia.

O mercado também mudou. A crescente concentração de processadores e varejistas redesenhou a dinâmica de poder dentro da cadeia produtiva. Como consequência, o produtor que não acompanha esse movimento, profissionalizando sua gestão e adotando tecnologias capazes de elevar produtividade e previsibilidade, tende a perder competitividade. Comprar bem, vender melhor e entender quais investimentos realmente geram retorno deixou de ser diferencial, tornou-se requisito básico de sobrevivência.

Esse processo de mudança não é novo, mas vem se intensificando. A avicultura foi pioneira ao adotar a verticalização da produção. A suinocultura seguiu caminho semelhante, ainda que preservando alguma independência produtiva. Já a bovinocultura de corte caminha para um modelo distinto, marcado pelo aumento de escala e pela consolidação de grandes players. O avanço de contratos, parcerias e modelos mais formais de comercialização vem alterando profundamente a forma como o setor negocia, forma preços e organiza sua governança.

Nesse novo cenário, gestão não se limita às finanças. Envolve pessoas, meio ambiente, uso eficiente de recursos e estratégias de proteção de preços. O produtor que não domina esses aspectos corre o risco de ser excluído da atividade. Por outro lado, aqueles que investem em processos produtivos mais eficientes, tecnologia adequada e melhoria contínua da gestão ampliam sua capacidade de negociação e constroem uma base econômica mais sólida e sustentável.

O desafio, porém, vai além da porteira. O Brasil enfrenta um apagão de mão de obra qualificada, tanto no campo quanto nos elos industriais da cadeia. Investir em capital humano, da fazenda ao frigorífico, dos operadores aos tomadores de decisão é tão estratégico quanto investir em genética ou inovação tecnológica. A transformação digital já é uma realidade e impacta todas as etapas da produção, exigindo profissionais cada vez mais preparados.

No horizonte macroeconômico, a demanda global por alimentos mais saudáveis, o avanço da biotecnologia e o papel do Brasil como exportador não apenas de carne, mas também de genética, colocam o país em posição estratégica. Aproveitar essa oportunidade dependerá menos de expansão territorial e mais de eficiência, inteligência produtiva e capacidade de adaptação.

O futuro da produção de proteínas no Brasil será definido por quem compreender que escala sem gestão não sustenta resultados, tecnologia sem estratégia não gera valor e crescimento sem pessoas qualificadas não se mantém. O setor está mudando, e quem não acompanhar essa transformação corre o risco de ficar pelo caminho.

versão digital está disponível gratuitamente no site de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Mesmo em baixa concentração, micotoxinas comprometem intestino das aves e dificultam diagnóstico nas granjas

Exposição contínua, mesmo em níveis baixos, reduz desempenho produtivo, altera a microbiota e gera sinais sutis que dificultam a identificação precoce nas granjas.

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As micotoxinas seguem entre os principais entraves sanitários da produção avícola, com impacto direto sobre desempenho zootécnico, saúde intestinal e resposta imunológica das aves. Mesmo em níveis considerados baixos, a exposição contínua a essas toxinas pode comprometer funções fisiológicas essenciais, reduzindo a eficiência produtiva de forma silenciosa e dificultando o diagnóstico no campo.

De acordo com o médico-veterinário, mestre e doutor em Sanidade Avícola, Ricardo Hummes Rauber, o efeito cumulativo dessas substâncias interfere diretamente na integridade da mucosa intestinal e no equilíbrio da microbiota, com reflexos progressivos sobre a produtividade. “O problema é que, mesmo em baixos níveis, quando a exposição é crônica, as micotoxinas podem comprometer de forma importante a saúde intestinal. Elas reduzem a altura e a integridade das vilosidades, aumentam a profundidade das criptas, o que reduz a capacidade absortiva do intestino”, afirma.

Ele acrescenta que há impacto direto sobre as proteínas das tight junctions, estruturas responsáveis pela vedação entre as células epiteliais, cuja alteração aumenta a permeabilidade intestinal. Esse conjunto de alterações favorece um ambiente inflamatório persistente. “Ao mesmo tempo, há alteração da microbiota, com redução de bactérias benéficas, como alguns Lactobacillus spp., abrindo espaço para microrganismos oportunistas. O resultado é um intestino sob inflamação constante, menos eficiente e mais vulnerável, mesmo sem sinais clínicos clássicos de micotoxicose”, explica.

A discussão sobre esses efeitos será aprofundada durante o Bloco Sanidade no 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura, programado para ocorrer entre os dias 07 e 09 de abril, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC), ocasião em que o especialista abordará mecanismos fisiológicos, além de estratégias de monitoramento, prevenção e controle.

Sinais iniciais passam despercebidos no campo

Na rotina das granjas, os impactos das micotoxinas nem sempre são identificados de forma direta. Antes de perdas expressivas de desempenho, os primeiros sinais tendem a ser difusos e frequentemente atribuídos a outros desafios sanitários. “Os primeiros sinais costumam ser discretos. Em geral, o que aparece antes é perda de uniformidade do lote, piora leve da conversão alimentar, maior variação de consumo, fezes mais úmidas e um intestino menos estável diante de desafios rotineiros”, detalha Rauber.

Segundo ele, a dificuldade de diagnóstico está justamente na sobreposição desses sinais com outras afecções entéricas. “Muitas vezes, antes da queda evidente no desempenho, o que se observa é perda de resiliência intestinal. Esses sinais são comuns a diferentes problemas entéricos, o que leva a equipe de campo a considerar outras causas como primárias”, pontua.

Coocorrência de micotoxinas amplia os danos

Outro fator que amplia o impacto sanitário é a presença simultânea de diferentes micotoxinas na dieta, fenômeno conhecido como efeito coquetel. Na prática, a contaminação múltipla é mais regra do que exceção. “Esse é um ponto crítico, porque as micotoxinas raramente ocorrem isoladas. É comum encontrar aflatoxinas, fumonisinas, DON, NIV e toxina T-2 ao mesmo tempo na dieta”, detalha o especialista.

Mesmo quando matérias-primas apresentam contaminação individual, a formulação da ração tende a reunir diferentes perfis de micotoxinas, resultando em exposição combinada das aves. “Cada micotoxina age por mecanismos distintos. Isso leva, no mínimo, a um efeito aditivo. No entanto, o que ocorre na maioria dos casos é a potencialização dos impactos, caracterizando efeito sinérgico”, expõe, enfatizando que essa interação intensifica os danos à mucosa intestinal, agrava o desequilíbrio da microbiota e amplia a vulnerabilidade das aves a infecções secundárias, com reflexos diretos sobre desempenho e eficiência produtiva.

Causas que ampliam impacto sanitário

médico-veterinário, mestre e doutor em Sanidade Avícola, Ricardo Hummes Rauber: “Sem monitoramento das dietas, se perde a capacidade de relacionar histórico de contaminação com desempenho dos lotes e ajustar decisões nos ciclos seguintes”

A desorganização da barreira intestinal também tem efeito direto sobre a incidência de doenças entéricas. “Essa relação é bastante consistente. Quando as micotoxinas aumentam a permeabilidade intestinal, desorganizam a microbiota e mantêm um quadro de inflamação persistente, o intestino perde eficiência como barreira física e imunológica”, salienta Rauber.

Segundo ele, esse cenário favorece a translocação bacteriana, amplia a exposição a endotoxinas e compromete a resposta imune local. “Esse ambiente torna as aves mais suscetíveis a enterites bacterianas e a outros desafios entéricos, incluindo a coccidiose. É preciso entender que as micotoxinas podem atuar tanto como causas primárias quanto como fatores predisponentes”, diz.

Apesar da relevância do problema, as estratégias de controle ainda apresentam limitações quando aplicadas de forma isolada. O uso de adsorventes de micotoxinas na ração, prática difundida no setor, não resolve o problema de forma completa. “A principal limitação está na abordagem como solução única. Nenhum produto ou tecnologia será 100% efetivo, porque o desafio muda ao longo do tempo, tanto em intensidade quanto no perfil de micotoxinas presentes”, enaltece.

Ele destaca que o controle exige integração entre diferentes frentes. “O uso de aditivos anti-micotoxinas deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de saúde intestinal, envolvendo anticoccidianos, promotores de crescimento, eubióticos, biosseguridade e manejo. Essa discussão precisa ser feita de forma conjunta entre sanitaristas e nutricionistas”, evidencia.

Fatores que limitam resposta nas granjas

Na gestão da granja e da fábrica de ração, ainda há pontos críticos subestimados na prevenção da contaminação. Entre eles, o especialista destaca a baixa percepção sobre os efeitos de exposições crônicas em níveis reduzidos. “Ainda se subestima muito o efeito dos baixos níveis crônicos, que não provocam sinais clínicos evidentes, mas comprometem a saúde intestinal e a previsibilidade do lote”, aponta Rauber.

Além disso, fatores operacionais seguem influenciando diretamente o risco de contaminação. “Também se subestima a coocorrência de micotoxinas, a importância do armazenamento adequado e a necessidade de monitoramento sistemático das matérias-primas. Umidade, tempo de estocagem, pontos quentes e heterogeneidade nos silos seguem sendo fatores críticos”, menciona.

Outro entrave está na forma como os dados são utilizados. “O erro mais comum é olhar apenas o resultado analítico isolado, sem integrar essa informação com sinais de campo, saúde intestinal e desempenho”, salienta.

Ele chama atenção ainda para a baixa utilização de análises em rações prontas. “Muitas vezes se argumenta que, quando o resultado chega, a ração já foi consumida. Isso é verdadeiro, mas ignora a importância da previsibilidade. Sem monitoramento das dietas, se perde a capacidade de relacionar histórico de contaminação com desempenho dos lotes e ajustar decisões nos ciclos seguintes”, destaca.

Maior precisão na gestão do risco

Com o avanço das ferramentas de diagnóstico, nutrição e manejo, a tendência é de maior precisão na gestão do risco associado às micotoxinas. “O caminho é avançar para programas mais integrados e mais precisos”, reforça Rauber.

Entre as frentes prioritárias, ele cita o monitoramento analítico mais robusto de matérias-primas e dietas, a melhor avaliação do risco associado à coocorrência de micotoxinas e estratégias nutricionais voltadas à preservação da barreira intestinal. “Também devem ganhar espaço abordagens que combinem mitigação das toxinas com suporte à mucosa, modulação da microbiota e reforço da resposta imune”, relata.

Segundo o especialista, a eficiência no controle das micotoxinas dependerá menos de soluções isoladas e mais da capacidade de integrar informação, nutrição e manejo dentro de um mesmo sistema produtivo.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Microestrutura da ração e minerais definem eficiência produtiva na avicultura, apontam especialistas

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Pesquisador Wilmer Pacheco (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

Professora da Universidade de Maryland (EUA), Roselina Angel (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

A nutrição de precisão e seus reflexos no desempenho produtivo e na saúde das aves estiveram em pauta na manhã desta quarta-feira (8), durante o Bloco Nutrição do 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes em Chapecó.

O pesquisador Wilmer Pacheco iniciou o bloco com o tema “Granulometria e seu impacto no trato digestivo”, destacando como a estrutura física da ração influencia diretamente o desempenho produtivo e a saúde intestinal das aves. O especialista explicou que o tema vai além do tamanho das partículas, envolvendo dois níveis fundamentais: a microestrutura e a macroestrutura da ração. “Precisamos olhar para a microestrutura, que é controlada principalmente pelo processo de moagem, e para a macroestrutura, que está relacionada ao pellet e ao seu impacto na produtividade no campo”, destacou.

Segundo Pacheco, a granulometria refere-se ao tamanho das partículas obtidas após a moagem, sendo um fator determinante para a digestibilidade dos nutrientes e o funcionamento do trato digestivo. “A redução do tamanho das partículas aumenta a área de contato com o sistema digestivo, melhora a absorção de nutrientes e reduz a segregação dos ingredientes na ração.”

O pesquisador ressaltou que as aves possuem um sistema digestivo adaptado, com destaque para a moela, responsável pela trituração mecânica dos alimentos. Nesse contexto, a presença de partículas mais grossas também desempenha papel importante. “As aves precisam de partículas maiores na microestrutura, pois isso estimula o funcionamento da moela, reduz o pH e contribui para o controle de bactérias patogênicas, além de melhorar a absorção de minerais”, pontuou.

Outro aspecto abordado foi o impacto da estrutura da ração na qualidade do pellet e no desempenho das aves. De acordo com estudos apresentados pelo palestrante, dietas com partículas mais grossas podem melhorar a conversão alimentar, aumentar a digestibilidade de nutrientes e reduzir a umidade da cama o que reflete diretamente na eficiência produtiva.

Pacheco também destacou que o processo de peletização promove alterações adicionais na granulometria, exigindo controle rigoroso em todas as etapas da produção. “Esse método gera moagem adicional, por isso é fundamental entender como as partículas estão organizadas dentro do pellet para garantir uma dieta equilibrada.”

Como solução, o especialista reforçou a importância de ajustes nos equipamentos industriais, especialmente no moinho de martelo e nos parâmetros de peletização. Fatores como velocidade do rotor, número de martelos, tamanho da peneira e distância entre os componentes influenciam diretamente o tamanho e a uniformidade das partículas.

Além disso, aspectos como temperatura, tempo de condicionamento, teor de gordura e especificações da matriz também impactam a qualidade final do pellet e devem ser monitorados de forma integrada. O pesquisador destacou uma mensagem central para o setor. “A macroestrutura é importante, mas não podemos sacrificar a microestrutura. É o equilíbrio entre esses fatores que garante melhor desempenho, eficiência e saúde intestinal das aves”, concluiu.

Pesquisador Wilmer Pacheco (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)

DIETAS MODERNAS DO FRANGO DE CORTE

Na sequência, a professora da Universidade de Maryland (EUA), Roselina Angel, abordou o tema “Níveis de Ca e P nas dietas modernas do frango de corte”. A palestra foi uma análise prática sobre o uso de minerais na nutrição avícola e seus impactos na produtividade e na sustentabilidade.

Com ampla atuação científica e de consultoria internacional, Roselina frisou que um dos principais desafios atuais está no uso inadequado do cálcio nas dietas. Segundo ela, o problema não está na falta, mas no excesso. “Muitas pessoas enxergam esse mineral apenas como um nutriente essencial, o que é verdade, mas o excesso causa problemas significativos que ainda são pouco compreendidos”, explicou.

Entre os impactos apontados, a pesquisadora destacou efeitos no ambiente de produção e no desempenho das aves. “O excesso de cálcio aumenta a umidade da cama, favorece problemas como lesões e piora a qualidade dos pés das aves, além de reduzir a digestibilidade de proteínas, energia e gordura, prejudicando a conversão alimentar”, afirmou.

Roselina também ressaltou que o desequilíbrio mineral afeta a absorção de micronutrientes, ampliando os prejuízos produtivos. “São efeitos negativos que passam despercebidos, mas impactam diretamente no resultado final da produção”, pontuou.

Outro ponto abordado foi a necessidade de ajustes nos processos industriais. Segundo a pesquisadora, parte do problema está na forma como o calcário é manejado nas fábricas de ração. “O calcário é um ingrediente mais leve e, quando pesado com sistemas ajustados para milho e soja, pode gerar erros significativos. Mesmo pequenas variações resultam em níveis muito altos de cálcio na ração final”, salientou.

Para Roselina, a solução passa por maior precisão no processo de formulação e fabricação. “Precisamos trabalhar junto às fábricas de ração para ajustar esses processos e garantir que os níveis de cálcio e fósforo estejam adequados às reais necessidades das aves, que muitas vezes são menores do que se imagina, especialmente no caso do fósforo”, destacou.

Para acompanhar a palestra e os demais conteúdos da programação científica é necessária inscrição no evento. O terceiro lote está disponível, com investimento de R$ 890,00 para profissionais e R$ 500,00 para estudantes. O acesso à 17ª Brasil Sul Poultry Fair custa R$ 200,00. As inscrições podem ser realizadas no site: https://nucleovet.com.br/simposios/avicultura/inscricao.

PROGRAMAÇÃO GERAL

26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura

17ª Brasil Sul Poultry Fair

DIA 08/04 – QUARTA-FEIRA

Bloco Conexões que Sustentam o Futuro

16h30 – Do conhecimento à ação: como transformar orientações em resultados na avicultura.

Palestrante: Kali Simioni e João Nelson Tolfo

(15 minutos de debate)

17h30 – Porque bem-estar é crucial para a sustentabilidade?

Palestrante: Prof. Celso Funcia Lemme

(15 minutos de debate)

18h30 – Eventos Paralelos

19h30 – Happy Hour na 18ª Brasil Sul Poultry Fair

DIA 09/04 – QUINTA-FEIRA

Bloco Sanidade

8h – Tríade do diagnóstico de Laringotraqueíte infecciosas – enfoque nos diferentes métodos de diagnóstico das doenças respiratórias

Palestrante: Prof. Renata Assis Casagrande

(15 minutos de debate)

9h Micotoxinas: a ameaça silenciosa à saúde intestinal das aves.

Palestrante: Dr. Ricardo Rauber

(15 minutos de debate)

10h – Intervalo

10h30 – Gumboro em foco: avanços recentes e novas fronteiras no controle da doença.

Palestrante: Gonzalo Tomás

(15 minutos de debate)

11h30 – Influenza aviária – plano de contingência em caso real.

Palestrante: Taís Barnasque

(15 minutos de debate)

Sorteios de brindes.

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