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Energia renovável se dissemina nos campos do Paraná

Em apenas sete anos, número de propriedades com painéis solares ou biodigestores saltou de 47 para 25,6 mil.

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Marlei Dias Borges e Iranei Donizete Machado vivem realidades distintas no campo. A primeira é uma pequena produtora familiar, que mantém um casal de suínos com alguns leitões, oito vacas e fabrica queijos em seu sítio de 4,8 hectares, localizado em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Machado, um grande suinocultor, por sua vez, acabou de ampliar sua granja, em Mamborê, no Noroeste do Estado, que passou a ter capacidade de alojar 2,7 mil matrizes. Apesar das diferenças de porte, eles têm um ponto em comum: ambos passaram a gerar a energia consumida em suas respectivas propriedades a partir de fontes renováveis. Fazem parte de uma tendência no Paraná que não para de crescer nos últimos anos.

O avanço impressiona. Em apenas sete anos, de 2017 a 2023, o número de propriedades rurais paranaenses que passou a contar com sistemas de painéis fotovoltaicos ou com usinas de biogás decolou de apenas 47 para mais de 25,6 mil. A capacidade de energia gerada aumentou de pouco mais de 1,2 mil quilowatts (kW) de potência para mais de 558,7 mil kW. Hoje, as unidades de geração de energia a partir de energias renováveis estão em fazendas de 398 dos 399 municípios do Paraná (Tunas do Paraná é o único sem). Além de sustentáveis do ponto de vista ambiental, a adesão aos sistemas garante aos agricultores e pecuaristas autonomia energética e redução dos custos de produção.

Esse movimento tem como um dos divisores de águas a atuação do Sistema Faep/Senar-PR . Após promover uma série de eventos e seminários sobre geração de energias renováveis, em 2017, a entidade levou, em uma viagem técnica, 160 produtores e líderes rurais à Alemanha, Itália e Áustria. Lá, eles conheceram soluções tecnológicas voltadas à geração de energia limpa no campo – e constataram in loco que as energias renováveis, além de viáveis, também são um ótimo negócio. Desde então, o tema passou a ser uma bandeira do Sistema Faep/Senar-PR, que vem estimulando os agropecuaristas paranaenses a adotarem sistemas fotovoltaicos e de biogás em suas propriedades.

“Quem ainda não aderiu às energias renováveis vai ficar para trás. A energia é um dos itens que mais pesa no custo de produção, principalmente em atividades como avicultura, suinocultura, bovinocultura de leite e piscicultura, nas quais o Paraná é uma potência. É um investimento que se paga em poucos anos e que garante ao produtor economia imediata.  Isso sem falar na sustentabilidade ambiental”, resume o presidente do Sistema Faep/Senar-PR, Ágide Meneguette, acrescentando
: “Desde a década passada, essa questão tem sido uma prioridade e passamos, então, a levar informações e a estimular os nossos produtores. As energias renováveis não são mais o futuro: são o presente”.

Do pequeno produtor…

Foi navegando pela internet em seu celular que Marlei Dias Borges, de 68 anos, soube do Renova Paraná, programa do governo estadual voltado a fomentar a implantação de sistemas de energias renováveis no campo. Apesar de ser uma pequena produtora familiar, ela se interessou pela proposta. Queria zerar a conta de energia, que girava em torno de R$ 450 por mês. Quando a técnica do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) passou pelo sítio, Marlei pediu ajuda. E deu certo. Instalado no telhado da casa, o conjunto de 19 painéis solares acabou de completar um ano de funcionamento.

Produtora rural Marlei Dias Borges: “As entidades que estão ajudando e estimulando a entrar na energia solar entenderam um problema do pequeno produtor” – Fotos: Divulgação/Faep 

“Melhorou muito a minha vida. As entidades que estão ajudando e estimulando a entrar na energia solar entenderam um problema do pequeno produtor. Energia é tudo”, diz Marlei. “Antes, quando ligava a máquina de fazer ração para os animais ou a bomba d’água por muito tempo, eu já me preocupava: ‘Meu Deus, vai subir a conta!’. Agora, já não tenho essa preocupação. A energia [gerada pelo conjunto] dá e sobra”, aponta.

Marlei vive na pequena propriedade desde 2003, com a mãe, de 85 anos, e com o irmão, 59. Na ocasião, ela tinha acabado de se aposentar e, “com o dinheirinho do acerto”, comprou uma vaca. Produzia sete quilos de queijo por semana e fabricava pães. Posteriormente, ia, de ônibus, vendê-los na área central de São José dos Pinhais, batendo de porta em porta. Boa de prosa, logo fez clientela fiel. Com o tempo, aumentou o plantel e turbinou a produção. Hoje, as oito vacas estão inseminadas e, quando entrarem em lactação, Marlei espera produzir cerca de 50 peças de queijo por semana – agora, fabricados pelo irmão. A família também tem um carro popular, usado nas vendas.

Pelo conjunto de geração de energia, Marlei desembolsa R$ 5,1 mil por ano com o financiamento, que espera finalizar em cinco anos. Desde que o sistema começou a operar, a produtora paga apenas a taxa mínima da conta de luz, de uso da rede. Com a produção de energia, ela também investiu no bem-estar da família: comprou um aparelho de ar-condicionado. “Eu vejo isso como uma fonte de renda. Lá na frente, o dinheiro que a gente vai economizar fica como ganho. Eu quero investir um pouco no nosso conforto. Mas também não vou deixar de trabalhar, de vender nosso queijo. Eu sou de fazer amizade. Aqui em São José [dos Pinhais] todo mundo me conhece”, diz, orgulhosa.

… ao grande produtor
Em 2018, a energia era o insumo que mais puxava para cima os custos de produção de Iranei Donizete Machado. Na ocasião, sua granja alojava 2,2 mil matrizes, na fase UPL (Unidade Produtora de Leitões). Para manter os animais, a conta de luz variava entre R$ 18 mil e R$ 20 mil por mês. Os altos valores fizeram com que ele investisse em energia solar fotovoltaica: os 280 painéis instalados reduziram o custo da energia para R$ 8 mil por mês. “Era um custo que estava pesando muito. Com o sistema renovável já deu uma boa reduzida, o que fez com que a gente diminuísse o nosso custo de produção”, apontou Machado.

Produtor Iranei Machado (de chapéu) em sua propriedade: “A energia que a gente produz supre a nossa necessidade e sobra, mesmo com o aumento da granja”

Mas ele não parou por aí. Em 2023, o suinocultor ampliou sua granja: são 10 galpões (seis voltados à maternidade e quatro, à gestação), com capacidade total para 2,7 mil matrizes. No embalo, Machado decidiu aproveitar os dejetos produzidos pelos animais para gerar energia. Em um projeto orçado em R$ 1,3 milhão, ele implantou um biodigestor e dois geradores. Com os painéis solares e o biogás, a energia renovável gerada na propriedade passou a ser maior do que a consumida na granja.

“Agora, a energia que a gente produz supre a nossa necessidade e sobra, mesmo com o aumento da granja. Se não fossem as fontes renováveis, eu estaria pagando R$ 20 mil por mês, na conta de luz. É um baita ganho financeiro”, ressalta o suinocultor. “Além disso, tem a questão sustentável. Não é uma lagoa de dejetos mandando gás para o meio ambiente. Estamos aproveitando isso para gerar energia”, acrescenta.

Mesmo antes de finalizar o financiamento, o conjunto já vai começar a gerar renda para Machado. Ele se cadastrou em uma cooperativa, que pretende comprar a energia excedente produzida na granja. “Vai gerar um crédito, então teremos um ganho financeiro”, resume o suinocultor. “A pessoa só não adere às energias renováveis se não fizer as contas. Se a pessoa tem uma granja, não tem como deixar de aproveitar os dejetos para gerar energia e ter uma fonte de renda extra. Não tem nem que pensar. A viabilidade é enorme”, concluiu.

Paraná é o segundo no ranking de energia renovável

Em 2017, as usinas fotovoltaicas e biodigestores instalados em propriedades rurais do Paraná tinham capacidade de gerar 1,2 mil quilowatts (kW). Sete anos depois, em 2023, a potência instalada no Estado saltou para 558,7 mil kW. Com isso, o Paraná ocupa o segundo lugar no ranking de geração de energia no campo a partir de fontes renováveis. Hoje, o Estado responde por quase 18% da produção de energia limpa em meio rural. Sete anos atrás, esse índice não chegava a 9%.

No topo da lista, aparece Minas Gerais, com potência instalada de 659,2 mil kW e que responde por 21,1% da energia gerada no campo a partir de recursos renováveis. Para efeitos de comparação, Minas tem 853 municípios – mais que o dobro do que o Paraná. Além disso, a população mineira é de mais de 20,7 milhões de pessoas, enquanto os paranaenses somam 11,6 milhões de habitantes.

“Por si só, o avanço do Paraná já é fantástico. Temos números de geração muito próximos de Minas Gerais, que tem mais que o dobro de nossas dimensões. O trabalho que temos feito é grandioso e só tende a aumentar”, observa Luiz Eliezer Ferreira, do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep/Senar-PR.

“Como instituição, nosso objetivo é continuar trabalhando, levando informações e apoiando os nossos produtores a aderir às energias renováveis. Queremos, cada vez mais, ver usinas solares e biodigestores em propriedades rurais paranaenses, porque isso dá autonomia e competitividade aos nossos produtores”, reforça Ágide Meneguette, presidente do Sistema Faep/Senar-PR.

Programa estadual impulsionou novos projetos

Propriedade de Iranei Machado conta com conjunto fotovoltaico e biodigestores

Lançado em julho de 2021, o Programa Paraná Energia Rural Renovável (Renova Paraná) impulsionou a instalação de conjuntos de painéis fotovoltaicos e de biodigestores no campo. Às vésperas de completar dois anos de atividade, a iniciativa já apoiou o financiamento de mais de 5,8 mil projetos, que passam de R$ 1 bilhão. Apesar da velocidade com que o programa avançou, o coordenador do Renova Paraná, Herlon Goelzer de Almeida, prevê crescimento ainda maior para os próximos anos.

“Os produtores despertaram para a necessidade de gerar a própria energia. Nunca o Estado teve um programa com tanta velocidade na adesão e tanta repercussão. Isso mostra a importância da política pública”, aponta Almeida. “Embora expressivos, estamos só começando. O Paraná tem 330 mil propriedades rurais. Quem ainda não aderiu, tem que aderir”, alerta.

O Renova Paraná estimula os projetos por meio da equalização da taxa de juros, ou seja, na prática, o programa paga parte dos juros dos financiamentos. Além disso, há incentivos tributários e aproveitamento de créditos a quem aderir. “É uma iniciativa de acesso universal. Produtores de qualquer dimensão podem aderir. Não tem nenhum freio, nenhuma trava. Basta querer”, ressalta Almeida. “O produtor pode pagar as parcelas do financiamento com o que vai economizar de energia. Quando terminou de pagar, pronto: recuperou o capital. É altamente viável”, diz.

Aumento do custo da energia reforça viabilidade do investimento em fontes renováveis

Ao longo dos últimos cinco anos, o peso exercido pela energia elétrica sobre o setor agropecuário aumentou significativamente. Até 2018, a tarifa rural correspondia a 70% da tarifa residencial. No fim daquele ano, no entanto, nos últimos dias de seu governo, o então presidente Michel Temer assinou o Decreto 9.642/18, que previa a redução gradativa de subsídios federais à energia consumida no campo, até que as tarifas fossem equiparadas. Mas não parou por aí.

No Paraná, o governo do Estado extinguiu a Tarifa Rural Noturna, um programa que previa a redução de 60% na energia consumida entre 21h e 6h em propriedades rurais. Não bastasse isso, o custo da energia aumentou de forma acentuada nos últimos anos, com a implantação de um sistema de bandeiras tarifárias – em que a tarifa chega a aumentar 23% no caso de um cenário de escassez hídrica.

“Nos últimos cinco anos, o campo foi quem mais sofreu com os aumentos de energia elétrica. A tarifa para a classe rural registrou aumento de 58,6%, enquanto a tarifa residencial teve alta de 34%. No mesmo período, a inflação medida pelo IPCA foi de 29%. Ou seja, a alta da energia rural foi praticamente o dobro da inflação”, observa Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep/Senar-PR.

Tudo isso provoca reflexos diretos da porteira para dentro. Nos levantamentos de custos de produção realizados pelo Sistema Faep/Senar-PR R junto a avicultores e a suinocultores, a cada semestre, a energia elétrica aparece como um dos principais custos e que vem em trajetória crescente. Um dos casos mais evidentes ocorreu em Cascavel, na região Oeste do Paraná, onde a energia elétrica representou 32% dos desembolsos de um avicultor, considerando um aviário modal. “Pela primeira vez na história, o custo da energia superou o da mão de obra na avicultura em Cascavel”, aponta Ferreira.

Ao longo da última década, a questão energética passou a ser uma das prioridades do Sistema Faep/Senar-PR. A entidade promoveu um intenso trabalho de difusão de informações técnicas qualificadas aos produtores rurais sobre a adoção de sistemas de energias renováveis. A partir da viagem técnica internacional, em 2017, os esforços da instituição foram crescentes, com palestras e eventos. No ano passado, por exemplo, o Sistema Faep/Senar-PR promoveu seminários em cinco regiões do Estado, que tiveram a participação de mais de 600 pessoas.

“Institucionalmente, temos estimulado os produtores. Temos levado informações sobre a instalação e o funcionamento dos sistemas, sobre o investimento e a viabilidade financeira. O produtor precisa reduzir custos e a energia, hoje, tem um papel estratégico na atividade agropecuária”, destaca o presidente do Sistema Faep/Senar-PR, Ágide Meneguette. “Todos os nossos esforços têm dado resultado. Tanto que vemos no campo uma infinidade de usinas solares ou de biodigestores, das pequenas às grandes propriedades”, acrescenta.

Além disso, o Sistema Faep/Senar-PR lançou duas cartilhas sobre energias renováveis. Ambos os materiais trazem a síntese das legislações aplicadas ao tema e apresentam o funcionamento de sistemas fotovoltaicos e de biogás. Também, as publicações contemplam estudos de viabilidade técnica e financeira, estimando a necessidade de geração em propriedades modais voltadas à avicultura e à bovinocultura de leite, e calculando qual seria o payback – ou seja, o tempo de retorno do investimento. Os dois materiais estão disponíveis, gratuitamente, no site sistemafaep.org.br.

“Os estudos comprovam que é um investimento extremamente viável. Os conjuntos se pagam entre cinco e sete anos, enquanto a vida útil dos sistemas passa dos 25 anos. Na prática, o produtor terá energia praticamente de graça por cerca de duas décadas”, aponta Ferreira do DTE do Sistema Faep/Senar-PR.

Fonte: Sistema Faep/Senar-PR

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Rede de monitoramento de CO₂ em áreas agrícolas no Sul do Brasil abre caminho para crédito de carbono

Projeto da UFSM mede emissões e captura em tempo real e indica potencial de monetização no campo. Dados mostram redução de gases com manejo e estimam receita de até US$ 33 milhões ao ano no Pampa.

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Foto: Divulgação

Uma rede de monitoramento instalada em áreas agrícolas no Sul do Brasil está produzindo dados inéditos sobre a relação entre produção agropecuária e emissões de gases de efeito estufa. O sistema, coordenado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio do Laboratório de Gases do Efeito Estufa (LABGEE), utiliza torres de fluxo, tecnologia considerada a mais precisa para medir, de forma contínua, a troca de carbono entre o solo, as plantas e a atmosfera.

Foto: Ricardo Bonfanti

A iniciativa coloca a UFSM entre as instituições protagonistas no Brasil e no mundo no monitoramento contínuo e em tempo real do balanço de CO₂ em sistemas agrícolas, o que é estratégico para compreender o papel da agropecuária nas mudanças climáticas. No Brasil, pesquisas desse tipo em sistemas agrícolas monitorados continuamente por torres de fluxo são raras, especialmente em culturas importantes para a economia regional, como soja, arroz irrigado e pecuária.

À frente desta iniciativa, os professores Débora Roberti, do Departamento de Física do CCNE, e Rodrigo Jacques, do Departamento de Solos do CCR, destacam que o diferencial está na consistência dos dados ao longo do tempo. “Somos pioneiros no Brasil para este monitoramento contínuo ao longo dos anos, com torres de fluxo. Esses dados que estamos gerando podem servir como uma linha de base para saber se os agricultores estão absorvendo ou emitindo, sendo possível, então, entrar no mercado de crédito de carbono”, ressaltam.

Ao todo, nove torres estão distribuídas em diferentes sistemas produtivos, incluindo lavouras de soja, milho, trigo e arroz irrigado, além de áreas de pastagem natural no bioma Pampa, nos municípios gaúchos Catuípe (duas unidades), Alegrete, Cachoeira do Sul (quatro unidades) e Santa Maria, além de uma área no Paraná. Os locais foram escolhidos por permitirem comparar manejos tradicionais ou melhorados das lavouras e pastagens.

Os equipamentos realizam até 10 medições por segundo, registrando se o sistema está emitindo ou absorvendo dióxido de carbono (CO₂), além de variáveis como temperatura, radiação solar e precipitação. Na prática, o monitoramento permite calcular o chamado fluxo de carbono, o saldo entre o que é capturado pelas plantas durante a fotossíntese e o que é liberado por processos naturais. Esse acompanhamento contínuo mostra, em tempo real, quando uma área agrícola funciona como fonte ou como sumidouro de carbono.

Todos os dados são transmitidos automaticamente pela internet para o LABGEE, situado no prédio do INPE, onde são processados e analisados pelos pesquisadores e estudantes de pós-

Professora do Departamento de Física do CCNE da UFSM, Débora Roberti: “Somos pioneiros no Brasil para este monitoramento contínuo ao longo dos anos, com torres de fluxo” – Foto: Arquivo pessoal

graduação de Física e Meteorologia, com apoio do meteorologista Murilo Lopes.

De meia em meia hora, por três anos

Como as medições são contínuas, com os dados gerados a cada 30 minutos, os pesquisadores conseguem acompanhar ao longo do ano a dinâmica de emissão e absorção de carbono em cada área monitorada. Com uma série anual completa, já é possível estimar o balanço de carbono de sistemas agrícolas, pecuários ou naturais e identificar quais práticas ampliam a captura ou intensificam as emissões.

Para aumentar a confiabilidade das análises, no entanto, o monitoramento precisa abranger períodos mais longos, já que a variabilidade climática entre safras interfere diretamente nos resultados. Por isso, os pesquisadores trabalham com um horizonte mínimo de três anos de coleta contínua de dados. “Esse é o destaque desta técnica, que está na vanguarda das metodologias de medida de gás do efeito estufa na atmosfera”, afirma Débora.

Manejo define se área emite ou captura carbono

Os resultados já apontam diferenças relevantes entre sistemas de produção. Em áreas de arroz irrigado, a introdução de pastagens de inverno reduziu as emissões de CO₂ em 20% e de metano em 60%. Em lavouras com soja e trigo, a adoção de plantas de cobertura pode elevar em até três vezes a capacidade de captura de carbono por hectare.

No bioma Pampa, o manejo adequado das pastagens permite que a produção pecuária atue como captadora de carbono, compensando parte das emissões de metano dos bovinos. Por outro lado, áreas sem cobertura vegetal, como lavouras em pousio, tendem a se tornar emissoras.

Professor do Departamento de Solos do CCR da UFSM, Rodrigo Jacques: “Esses dados que estamos gerando podem servir como uma linha de base para saber se os agricultores estão absorvendo ou emitindo, sendo possível, então, entrar no mercado de crédito de carbono” – Foto: Arquivo pessoal

Os dados reforçam que o impacto climático da agropecuária depende diretamente das práticas adotadas no campo. Sistemas bem manejados podem inverter a lógica tradicional que associa produção rural apenas à emissão de gases de efeito estufa.

Além do aspecto ambiental, os resultados abrem espaço para monetização. Estimativas do próprio projeto indicam que, se metade das pastagens naturais do Pampa fosse direcionada à geração de créditos de carbono, o volume poderia chegar a 3,3 milhões de créditos por ano. A preços médios de US$ 10 por crédito, isso representaria cerca de US$ 33 milhões anuais.

O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas, como Física, Agronomia e Meteorologia, e envolve investimento de aproximadamente R$ 5 milhões. Os dados já começam a integrar bancos internacionais e são utilizados por grupos de pesquisa de outros países, ampliando a inserção do Brasil nas discussões globais sobre clima e produção de alimentos.

A expectativa é que, após três anos de monitoramento contínuo, período mínimo para consolidação dos dados, o sistema avance para novas culturas e projetos-piloto de crédito de carbono, com aplicação direta no campo.

Fonte: O Presente Rural com UFSM
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Biometano: da produção à distribuição é tema de fórum do setor

Especialistas discutem oportunidades e desafios no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu (PR)

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Assessoria

Uma abordagem integrada, que vai da produção à distribuição de biometano, será destaque no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano (FSBBB), realizado de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR). Com o tema Biometano: bem feito, suficiente, bem distribuído, o evento reunirá especialistas para discutir os principais avanços, desafios e oportunidades do setor.

 

A programação contempla painéis temáticos sobre produção, políticas públicas, mobilidade, investimentos, relação com o gás natural e perspectivas de mercado. Segundo o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Airton Kunz, integrante da comissão organizadora, o debate ganha relevância diante das novas oportunidades abertas pela Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que amplia a inserção do biometano na matriz energética brasileira. Outro ponto de destaque é o potencial do biometano na cadeia de proteína animal. “O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário, especialmente pela capacidade de geração a partir dos resíduos da produção animal. É uma oportunidade estratégica que precisa ser melhor explorada, sobretudo pelas oportunidades que se criam para substituir o óleo diesel pelo biometano em soluções de logística nestas cadeias”, afirma Kunz.

 

Apesar do cenário promissor, o avanço do biometano ainda enfrenta desafios, como a garantia da qualidade do produto, o aumento da escala de produção e a expansão da infraestrutura de distribuição. Atualmente, o biocombustível já vem sendo utilizado em frotas de caminhões e em processos industriais, substituindo combustíveis fósseis (diesel evitado) e contribuindo para a descarbonização. “Além de produzir bem, é fundamental avançar na distribuição eficiente, especialmente no transporte”, destaca o pesquisador.

 

Como já é tradição, o evento contará com uma programação prévia, que será realizada no dia 13, como reuniões técnicas, encontros e palestras. Já, a abertura oficial será no dia 14, seguindo com programação até dia 15, onde haverá espaço de negócios com mais de 70 empresas já confirmadas, momento startups de biogás, premiação “Melhores do Biogás”, vários painéis de debates sobre temas de interesse ao biogás. O dia 16 será dedicado a quatro roteiros de visitas técnicas.

 

A Embrapa é co-realizadora do evento e participa com especialistas na moderação e apresentação de painéis, além da organização de reuniões técnicas. Entre os destaques estão os painéis “O negócio dos Substratos e as Culturas Energéticas”, com participação de Airton Kunz; “Biogás na Prática”, com moderação de Ricardo Steinmetz; e “Oportunidades e Desafios Setoriais”, com a participação de Fabiane Goldschmidt Antes.

 

O FSBBB é realizado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), pela Embrapa Suínos e Aves e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), com organização da Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindústria (SBERA). Para maiores informações acesse: biogasebiometano.com.br.

 

Reunião técnica discutirá transporte no agronegócio

Como atividade pré-evento do FSBBB e com um olhar mais direcionado à distribuição, será realizada a Reunião Técnica Transporte a Biometano no Agronegócio, no dia 13 de abril, das 14 às 16 horas, no Hotel Bourbon Cataratas Resort, como atividade pré-evento. O encontro abordará temas como corredores rodoviários sustentáveis, descarbonização da cadeia agroindustrial, novas tecnologias e o uso de caminhões a gás e modelos dual fuel.

 

Apesar do cenário promissor, o avanço do biometano ainda enfrenta desafios, como a garantia da qualidade do produto, o aumento da escala de produção e a expansão da infraestrutura de distribuição. Atualmente, o biocombustível já vem sendo utilizado em frotas de caminhões e em processos industriais, substituindo combustíveis fósseis e contribuindo para a descarbonização. “Além de produzir bem, é fundamental avançar na distribuição eficiente, especialmente no transporte”, destaca o pesquisador.

 

A reunião também apresentará casos práticos, incluindo uma unidade rural produtora de biometano com abastecimento de caminhões e experiências no transporte de proteína animal. A iniciativa é organizada pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), Fetranspar, Embrapa, Superintendência de Energia do Paraná (SUPEN) e Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás). Gratuito, o encontro pré-evento é voltado a produtores de biogás e biometano, além de profissionais das áreas de logística, transporte e gestão de frotas. As inscrições podem ser feitas pelo link.

 

Trilha de atualização conecta especialistas e laboratórios de biogás

Outro momento que antecede a programação oficial do FSBBB é a Trilha de Atualização para Laboratórios de Biogás e Biometano, marcada também para o dia 13, das 8 às 17 horas. A trilha reunirá profissionais vinculados ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação – NAPI Biogás, participantes de ensaios de proficiência, representantes de laboratórios, pesquisadores, estudantes e demais interessados. O encontro será um espaço dedicado à troca de experiências e ao compartilhamento de informações entre os atores que atuam na área.

 

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas até o dia 10 de abril, pelo link do evento, com vagas limitadas a 50 participantes. A atividade será presencial. O encontro ocorrerá no Itaipu Parquetec (Av. Tancredo Neves, 6731, bairro Jardim Itaipu, em Foz do Iguaçu). A iniciativa é promovida pelo CIBiogás, Embrapa Suínos e Aves, Senai/SC, Inmetro e Universidade de Caxias do Sul, com fomento do NAPI Biogás.

 

A programação da manhã será marcada por apresentações voltadas à avaliação de substratos e ao uso de ensaios interlaboratoriais como ferramenta de controle de qualidade, além de discussões sobre novas rodadas de ensaios de proficiência. Também serão abordadas as principais fontes de erro na medição de biometano. O período da manhã inclui ainda uma visita técnica ao laboratório do CIBiogás.

 

À tarde, os temas se concentram em ferramentas microbiológicas para eficiência energética, relatos práticos sobre processos de acreditação de laboratórios e o uso de calculadoras científicas na otimização da digestão anaeróbia. A programação se encerra com uma mesa redonda sobre a jornada de acreditação, seguida de alinhamentos para ações futuras.

 

Fonte: Embrapa Suínos e Aves
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Brasil lidera uso de bioinsumos, mas fertilizantes convencionais seguem indispensáveis

Apesar de aplicar bioinsumos em 80% da soja e gerar economia de US$ 5 bilhões por ano, especialistas alertam que insumos tradicionais ainda são cruciais para a produção agrícola e segurança alimentar.

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O Brasil se destaca no cenário global de bioinsumos, sendo atualmente o país que mais utiliza esse tipo de insumo no mundo, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O crescimento do setor é expressivo e posiciona o país na vanguarda de uma tendência que avança rapidamente na agricultura.

No entanto, o engenheiro agrônomo Fellipe Parreira alerta que os bioinsumos ainda não têm potencial para substituir os fertilizantes convencionais. “Não há perspectiva e nem potencial para essa substituição no momento”, afirma.

Para Parreira, embora o Brasil possua vantagens competitivas claras, como biodiversidade, clima favorável e uma agricultura de escala consolidada, transformar o país de grande comprador de fertilizantes em referência internacional na produção deles ainda é um desafio de longo prazo, que exige mais do que entusiasmo ou crescimento do setor de bioinsumos.

Dependência de fertilizantes convencionais permanece alta

Engenheiro agrônomo Fellipe Parreira: “Os bioinsumos são aliados valiosos na otimização de nutrientes e no controle biológico, mas substituir completamente os fertilizantes minerais seria um risco inaceitável para a escala da nossa agroindústria” – Foto: Divulgação

Os números do setor reforçam essa necessidade. No primeiro semestre de 2025, as entregas de fertilizantes no país atingiram 20,14 milhões de toneladas, alta de 10,5% ante 2024. Mato Grosso absorveu 24% do volume, impulsionado principalmente pela soja e pelo milho. Em seguida vieram Paraná (15%), Goiás (9%), Mato Grosso do Sul (8%), Rio Grande do Sul (8%) e São Paulo (10%).

Em 2026, as importações nos dois primeiros meses somaram 5,26 milhões de toneladas, enquanto a produção nacional cresceu 8,9%. Apesar desse crescimento, a produção interna ainda cobre menos de 20% da necessidade total do país. O cenário reflete a preparação para safras recordes, mas sem perspectiva imediata de autossuficiência.

Importações recordes e preços em alta

O Brasil continua fortemente dependente do mercado externo, com cerca de 85% dos fertilizantes importados. Em 2025, o país registrou recorde de 43,5 milhões de toneladas, com destaque para fontes como MAP, ureia e KCl, provenientes de China, Canadá e Rússia. Restrições chinesas e gargalos logísticos elevaram os preços: ureia a US$ 465 por tonelada e MAP a US$ 720 por tonelada em fevereiro de 2026.

O mercado iniciou 2026 em alta após quedas registradas no ano anterior, com os fertilizantes nitrogenados subindo 10%, os fosfatados 20% e os potássicos mantendo-se estáveis em US$ 370 por tonelada. Esses aumentos, pressionados por fatores geopolíticos e pelo custo do gás natural, mantêm os custos de safra elevados, impactando diretamente as margens dos produtores.

Bioinsumos ainda como ferramenta complementar

Foto: Geraldo Bubniak/AEN

Parreira reconhece o avanço legítimo dos bioinsumos na agricultura brasileira, mas alerta para o risco de confundir tendência promissora com solução estrutural. “Os bioinsumos podem complementar a produção, mas não substituem os fertilizantes convencionais. Confundir os dois conceitos pode gerar expectativas equivocadas entre produtores, investidores e gestores públicos”, explica.

O profissional defende que a integração gradual dos bioinsumos deve ocorrer de forma planejada, fortalecendo a sustentabilidade e eficiência do setor sem comprometer a produtividade. Até que a produção nacional de fertilizantes consiga reduzir a dependência externa de forma consistente, os insumos tradicionais continuam indispensáveis para garantir o desempenho das safras e a segurança alimentar do país.

Sem perspectiva de substituição

Como líder global em bioinsumos, com crescimento de 30% ao ano, o Brasil já aplica esses insumos em 80% da soja, gerando economia estimada de US$ 5 bilhões anuais. O Programa Nacional de Bioinsumos amplia o uso sustentável para milho (27%), cana-de-açúcar (12%) e algodão (6%). Apesar disso, ainda não há perspectiva de substituição total dos fertilizantes minerais.

A volatilidade nos mercados de fertilizantes persiste em 2026, mantendo o foco em estoques ajustados e acordos globais. Parcerias público-privadas, como a Anda e o Mapa, buscam produzir estatísticas mais precisas e reduzir riscos.

Para o engenheiro agrônomo, é necessário priorizar a integração tecnológica e investimentos em validação de campo, consolidando os bioinsumos como aliados estratégicos e posicionando o Brasil como potência agrícola independente. “Os bioinsumos são aliados valiosos na otimização de nutrientes e no controle biológico, mas substituir completamente os fertilizantes minerais seria um risco inaceitável para a escala da nossa agroindústria, que depende de precisão e volume para competir globalmente”, alerta Parreira, reforçando que o caminho para o fortalecimento do setor passa por complementaridade, pesquisa e planejamento.

Fonte: O Presente Rural com GIROAgro
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