Suínos Saúde Animal
Embrapa pede reforço dos cuidados sanitários na produção animal durante pandemia
Para manter a segurança, os especialistas reforçam a importância das boas práticas sanitárias

A pandemia de Covid-19 faz especialistas chamarem a atenção de produtores para questões sanitárias importantes na criação de animais. Isso porque, assim como o vírus em questão, provavelmente contraído de animais silvestres, outros microrganismos também são transmissíveis entre rebanhos domesticados e humanos, os chamados vírus zoonóticos.
A principal orientação dada pela Embrapa a produtores e agricultores neste momento é proteger-se. “Por ser uma doença de transmissão de humano para humano, o cuidado nas propriedades está em proteger os trabalhadores, adotando medidas importantes que ajudam inclusive a impedir a entrada de outros vírus ou patógenos na área de produção”, explica a pesquisadora e chefe-geral da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella.
Por isso, para combater, ou ao menos desacelerar, a transmissão do vírus Sars-CoV-2, os especialistas recomendam também na produção animal: rotina de limpeza e desinfecção de ambientes, hábito de higiene pessoal, com uso de roupas e equipamentos de proteção individual ao ter contato com pessoas ou ambientes que possam ser vias de contaminação e pouca circulação de pessoas em um mesmo ambiente.
Fornecedor de alimentos, o setor de produção animal é atividade essencial e não pode parar. Para manter a segurança, os especialistas reforçam a importância das boas práticas sanitárias. “A biosseguridade tem papel fundamental na proteção de rebanhos, granjas e propriedades rurais porque evita a entrada e disseminação de agentes infecciosos e que trazem prejuízos enormes, sejam de ordem de saúde animal, seja econômico”, explica a pesquisadora, que é virologista e atuou na identificação da vacina da Influenza A – H1N1 durante o surto da influenza em suínos, em 2009.
Medidas de biosseguridade
Para a segurança sanitária essas medidas são importantes tanto para as granjas de suínos como para as de aves:
Isolamento da área de produção
Para que se tenha controle de acesso aos animais, é importante isolar a produção com a instalação de cercas (impedem a aproximação de pessoas estranhas e outros animais), uso de um único acesso às granjas com área de desinfecção na entrada.
As opções podem variar desde um arco de desinfecção, bomba de aspersão motorizada ou outro método capaz de garantir a higienização e desinfecção de veículos. Pode ser instalado um pedilúvio e realizar a troca de calçado ou colocação de propé (sapatilha descartável que envolve o calçado) antes de ter acesso à granja.
Instalação de silos externos
Silos externos, próximos à cerca de isolamento evita que caminhões circulem na granja
Telamento de aviários
A entrada de pássaros, animais domésticos e silvestres no interior do aviário possibilita a disseminação de diversas doenças que causam impactos econômicos muitos grandes. Pode ocorrer também contaminação da ração e da água, transporte de ácaros e de piolhos, e disseminação aérea de microrganismos.
Isolamento do escritório
O escritório deve ficar próximo à cerca de isolamento, com a área suja voltada para a parte externa da cerca, e a área limpa voltada para o interior. É considerada área suja o local destinado às pessoas que chegam à granja, seja no transporte de animais e insumos, sejam visitantes, funcionários e proprietários antes de entrar na unidade produtiva. Já a área limpa é a parte interna da granja de produção. Na área limpa do escritório, devem ser armazenados documentos, remédios, sêmen e material de escritório.
Controle de acesso e higienização na entrada
O acesso de funcionários, proprietários e visitantes ao interior da unidade produtiva só poderá ser feito após os procedimentos de troca de roupa e calçados e lavagens das mãos.
A recomendação é que os visitantes estejam em vazio sanitário por no mínimo 24 horas. Ou seja, não podem ter contato com outros animais de produção, abatedouro ou laboratório que trabalha com agente infeccioso antes de entrar na granja. E a entrada deles deve ocorrer pelo vestiário, com troca de roupa e calçado de uso exclusivo no interior da granja.
Cuidados com a Covid-19:
Distanciamento humano
Durante a execução do trabalho, mantenha distanciamento mínimo de um metro de pessoas, mesmo sem sintomas aparentes. O vírus da Covid-19 está presente em gotículas liberadas do nariz e boca da pessoa infectada. A distância segura reduz a chance de contato com essas secreções.
Reforço nas medidas de higiene
Lavar as mãos frequentemente e atentamente com água e sabão e usar roupas e calçados próprios da granja durante a execução do trabalho. Quando possível, tomar banho antes do acesso à granja e, ao retornar a sua residência, retire os sapatos, lave as mãos com água e sabão, e se possível tome banho imediatamente. Roupas e sapatos usados devem ser higienizados. A limpeza de todas as superfícies frequentemente tocadas, como maçanetas, chaves, devem ser feitas com desinfetante.
Hábitos
O produtor deve estar atento ainda aos seus hábitos, evitando tocar olhos, nariz e boca, que são uma das principais formas de contrair o vírus.
Isolamento de grupos de risco
Produtores e colaboradores do grupo de risco (idosos ou portadores de comorbidades – presença simultânea de mais de uma doença, como diabetes ou hipertensão) devem reavaliar a necessidade de continuar trabalhando, sendo recomendado que se resguardem ou sejam alocados a outras atividades sem contato social com outras pessoas.
Pessoas com sinais de gripe ou mal-estar devem permanecer em casa, sem ir à granja. Em caso de apresentar sintomas como febre, tosse e dificuldade respiratória, devem permanecer em casa e seguir as instruções da Unidade de Saúde em seu município quanto a suspeita de Covid-19.
Vacinação contra a gripe
O produtor também deve estar atento a campanha anual de vacinação da gripe, mesmo que a vacina da gripe não proteja contra a Covid-19 é importante tomar a vacina para reforçar a imunidade e para ajudar o médico no diagnóstico, caso o produtor tenha sintoma.
Lembre-se
O trabalho na granja continua o mesmo. Novos hábitos do avicultor, do suinocultor e dos colaboradores envolvidos na atividade é que vão fazer a diferença no enfrentamento da pandemia de Covid-19 e na preservação de sua segurança, bem como em todas as enfermidades que podem acometer pessoas e a produção.
Coronavírus
Os coronavírus (CoV) são responsáveis pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e, por isso, receberam a denominação de Sars-CoV. De acordo com pesquisadores, essa família contém espécies de vírus que causam infecções comuns em humanos e animais. Alguns coronavírus são zoonóticos como o Sars-CoV-2, causador da Covid-19 que os pesquisadores suspeitam que tenha se originado de morcegos e transmitido para humanos. Não se sabe se existe um outro hospedeiro intermediário, pesquisas estão em andamento.
Em menos de 15 anos, doenças importantes ameaçaram a produção de suínos e de aves no mundo e exigiram dos produtores a adoção de medidas de biosseguridade para controle, erradicação e proteção de seus rebanhos. A maioria das enfermidades foi causada por vírus, alguns zoonóticos (transmissíveis entre humanos e animais), outros não. Um exemplo foi a gripe aviária, causada pelo vírus da influenza aviária H5N1, em 2005, e a gripe suína, em 2009, causado por vírus da Influenza A, o H1N1. Ambos provocam doenças respiratórias em animais e humanos.
Outro vírus da família Coronaviridae e que trouxe perdas econômicas grandes à produção animal é o da PED (Diarreia Epidêmica dos Suínos) e TGE (Gastrenterite Transmissível), que apresentam enfermidades causadas por diferentes vírus dessa família. “Ambos acometem apenas suínos, nos quais causam doenças altamente contagiosas que provocam diarreia resultando em perdas por mortalidade de leitões e de desempenho”, explicou o pesquisador e virologista da Embrapa, Luizinho Caron. O PEDV chegou nos Estados Unidos em 2013 e, desde então, tem sido notícia, inclusive no Brasil, devido às perdas econômicas que causa naquele país.
A lição da H1N1 para a biosseguridade
Com o início da pandemia de influenza em humanos em março-abril de 2009 na América do Norte (México, Estados Unidos e Canadá) e dias depois em países da Europa e Oceania. O vírus H1N1/2009 pandêmico (H1N1pdm09) rapidamente disseminou-se em suínos no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Foi demonstrado que os genes do vírus novo eram uma combinação de vírus de influenza suína da América do Norte e de linhagens da Eurásia e que nunca haviam sido identificados em suínos ou em outra espécie anteriormente. “O suíno é um hospedeiro importante, pois pode se infectar com subtipos virais de diferentes espécies que provocam a gripe humana, aviária e suína”.
O H1N1pdm09 foi reconhecido como um vírus novo, emergente, zoonótico, possui fragmentos genômicos originários de vírus humanos, aviários e suínos, inclusive fragmentos do vírus de influenza da pandemia de 1918, da Gripe Espanhola que matou aproximadamente 50 milhões de pessoas no mundo, 35 mil no Brasil.
Até então, a doença não era um problema respiratório importante em suínos e as análises realizadas no País não apontavam a presença do H1N1pdm09 antes de 2009. No entanto, hoje é considerado como o principal agente etiológico associado ao complexo de doença respiratória suína.
Ela é caracterizada por um quadro clínico respiratório agudo, acometendo grande número de suínos de várias faixas etárias. Atualmente, a prevalência de influenza em rebanhos brasileiros é de 60%. Além disso, sequenciamento genômico indicou que fragmentos do genoma do H1N1pdm09 estão presentes em todos isolados de vírus da influenza em suínos analisados pelas nossas pesquisas.
A suspeita é que a doença foi introduzida em criações brasileiras por transmissão de humanos gripados para os suínos, pois nos rebanhos que primeiro reportaram a doença, não existiu entrada de outros animais ou outro risco sanitário significativo que levasse a introdução do novo vírus. “A saúde humana e animal estão relacionadas. Os trabalhadores da suinocultura devem se vacinar anualmente contra a gripe”, reforça.
Por isso, os cientistas alertam para a importância de se adotar medidas de biosseguridade nas granjas. “É fundamental para evitar os riscos de introdução e da disseminação dentro dos rebanhos”, afirma Zanella.
A transmissão de doenças virais entre espécies, como as que passam de humanos para suínos, e vice-versa, favorece alterações na sequência do genoma do microrganismo, a chamada mutação. É daí que surgem novos vírus entre os quais alguns serão mais patogênicos e para os quais não haverá imunidade.
“Devemos ter em mente que a saúde humana e a saúde animal estão relacionadas e que a vacinação anual contra a gripe de trabalhadores da suinocultura (produtores, veterinários, transportadores de suínos, etc) deve ocorrer para evitar introdução de vírus humanos em suínos. Assim, além do reforço na biosseguridade (limpeza, desinfecção e demais medidas citadas acima), essas são medidas importantes para evitar que novos vírus surjam, alguns mais patogênicos, para os quais os animais ou os humanos não têm imunidade”, alerta a pesquisadora da Embrapa.
Na avicultura, além do H5N1, outro vírus representa risco à produção. É o da Bronquite Infecciosa, outro membro da família CoV e que acomete apenas galinhas. Ele é causador de doença altamente contagiosa e impõe fortes perdas econômicas à avicultura. Nas primeiras semanas de vida das aves, é possível observar coriza, ouvir espirros e as lesões no sistema respiratório afetam o consumo de ração e, por consequência, o desempenho do lote.
Na suinocultura brasileira e norte-americana, emergiu recentemente um agente causador de uma doença vesicular, o Senecavírus. Apesar de não ser uma zoonose, a infecção pelo por esse microrganismo causa lesões vesiculares semelhantes à febre aftosa, doença de controle oficial e de notificação. Por causa disso, o diagnóstico diferencial para aftosa deve ser realizado em laboratório oficial, o que onera a cadeia.
Biosseguridade tem protegido o Brasil da PED
Diferentemente do Senecavírus, a PED não teve grande impacto dentro das fronteiras brasileiras, ao contrário do que ocorreu em países vizinhos como Peru e Colômbia. E isso se deve ao nível de biosseguridade das propriedades, que manteve o plantel de suínos protegido, colocando em prática medidas para garantir a saúde dos animais. “Como não há vacina disponível para a doença, a proteção do rebanho precisa estar focada em ações de biossegurança e prevenção. Higiene, limpeza das instalações e controle na circulação de pessoas e veículos são ações básicas para minimizar o risco da doença”, enfatiza a pesquisadora Janice Zanella.
Essa prática, de acordo com a pesquisadora, deve ser constante, não somente em momentos de surto. “Boa biossegurança deve ser realizada o tempo todo para garantir a proteção da suinocultura, da economia, da indústria e da sociedade brasileira”. Além disso, cada granja deve estabelecer seus próprios procedimentos, identificando os principais pontos de risco, nos quais o cuidado deve ser ainda maior.
Manter-se livre das doenças na produção também poderá significar uma ótima oportunidade de negócio para o Brasil. O país é um grande produtor e exportador agrícola e um importante fornecedor mundial de carnes de qualidade, de acordo com Zanella. Mesmo com seu volume elevado, a produção brasileira é livre de importantes problemas sanitários que acometem outros grandes produtores de carne suína e de frango, como a Peste Suína Africana (PSA), a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS), a influenza aviária ou gripe aviária.
Para os pesquisadores, a biosseguridade é o pilar mais importante da cadeia produtiva. “Medidas de biosseguridade em granjas têm como foco mitigar os riscos de contaminação de rebanhos e a disseminação de doenças. A sobrevivência de agentes causadores e transmissores de doenças depende muito de condições ambientais”, detalha a pesquisadora.
O crescimento das zoonoses
De acordo com a pesquisadora Janice Zanella, 75% das doenças emergentes e reemergentes do último século são zoonoses. Ou seja, doenças de origem animal que, além de causar fatalidades humanas e animais, afetam a economia. “Os seres humanos sempre dependeram de animais para alimentação, transporte, trabalho e companhia. Entretanto, eles podem ser fontes de doenças infecciosas causadas por vírus, bactérias e parasitas, que passam para os humanos”, lembra Zanella.
A pesquisadora explica que os vírus podem sofrer mutações ou modificações para uma adaptação ao hospedeiro humano. “Novos vírus são capazes de transmissão rápida por não haver resposta imune no hospedeiro ou vacinas disponíveis, caso do Sars-CoV-2”, relata.
Outro exemplo dessa evolução dos vírus, segundo Janice, foi o Sars 1, em 2002, identificado na China. “Especialistas verificaram a necessidade de fechar cidades. Ele era um vírus sem muita transmissibilidade, mas com grande mortalidade. Depois, no Oriente Médio, o hospedeiro era o camelo, com o Mers, também da família dos coronavírus, com taxa de mortalidade em torno de 30%”.
A pesquisadora aponta o aumento populacional como um dos mais importantes fatores dessa emergência e reemergência de zoonoses. “Esse aumento da população, aliado à urbanização das cidades, provoca densidade concentrada em centros urbanos, o que vai impactando vários setores: comércio, globalização, viagem, mudanças de clima, alterações do habitat”.
A biodiversidade é uma preocupação no Brasil, de acordo com a cientista, pois o país possui muitos animais e plantas de muitas espécies. “Com certeza, vamos ter vírus e outros agentes que não conhecemos. Porém, o Brasil nunca deu origem a uma pandemia. Temos apenas que ficar alerta, pois temos doenças causadas por mosquito, por exemplo, e doenças emergem e reemergem em todos lugares”.
Para ela, o país deve ficar alerta e manter o alto nível de segurança em sua indústria de proteína animal. “Nossa carne é de muita qualidade. No Brasil, a inspeção é rigorosa e eficiente, sendo um sistema modelo para o mundo. O consumo de carnes de caça, por exemplo, é regional, o comércio não ocorre e os abates devem seguir as mesmas normas da produção comercial”.
Zanella enfatiza que prever o surgimento ou volta de epidemias não é algo fácil. O ponto-chave, para ela, é a prevenção e a identificação de patógenos em animais e responder rapidamente antes que a doença se torne uma ameaça à população humana. O trabalho deve ser coordenado entre vários atores da sociedade e poder público. “É preciso investimento e valorizar a biosseguridade”.
Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2020 ou online.

Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.







