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Em meio à crise, produtores de leite travam luta pela sobrevivência
Diante da crise, bovinocultores usam estratégias para levar a atividade para o próximo round, torcendo para que novos ventos afastem os oponentes dos lácteos.

Uma crise sem precedentes empurra os produtores de leite para as cordas na luta pela sobrevivência na atividade. Diante de fortes oponentes como o alto custo de produção, importação da Argentina e do Uruguai, queda no preço do produto pago ao produtor e falta de suporte do poder público, os bovinocultores estão quase indo a nocaute. Resta, agora, o apelo às autoridades para que tomem medidas de fomento à cadeia produtiva e a “esquiva” dentro da porteira, na busca pela redução dos gastos, esperando que o mau momento passe antes da temida queda à lona.
Neste duelo, em todas as regiões do Paraná, os produtores que resistem têm a gestão como prioridade. Muitos vivem dilemas como mudar a dieta dos animais em determinadas fases, redução do tempo de ventilação em dias menos quentes para economizar na conta de luz, corte de funcionários, secar animais antes do tempo habitual, descarte de vacas menos produtivas, entre outras medidas necessárias para a sustentabilidade do negócio.

Douglas Oliveira tem uma propriedade rural em Itapejara d’Oeste, voltada à produção de leite – Fotos: Divulgação/Faep
Em Itapejara d’Oeste, no Sudoeste do Paraná, maior bacia leiteira estadual em volume, o bovinocultor Douglas Oliveira busca alternativas para resistir na atividade, como processar 15% da sua produção em um laticínio próprio, como leite pasteurizado de pacote. “Comecei a reduzir o custo. Antes, nós dávamos caroço de algodão para os animais, agora não. Isso baixou um pouco a gordura do leite, mas o custo diminuiu. Também reduzimos a frequência de visita do veterinário e tivemos que demitir um funcionário”, compartilha Oliveira, que tem um rebanho de 89 vacas em lactação.
Um pouco para cima no mapa, na região Oeste, mais especificamente em Marechal Cândido Rondon, o produtor Edio Chapla também precisou alterar o planejamento para se manter na atividade.

Edio Chapla aposta na diversificação, com a bovinocultura de leite sendo uma das atividades às quais se dedica
Quando começou a produzir leite, há oito anos, o plano era atingir 100 vacas em lactação em 2023. As dificuldades enfrentadas nos últimos tempos fizeram com que Chapla alcançasse somente 40 animais no atual momento, com produção de 1,3 mil litros por dia. “Nós ainda temos frango, peixe e suínos [sistema crechário] e plantamos um pouco de lavoura. No aspecto geral, todas as atividades estão com problema, pelo alto custo de manutenção de estrutura, mão de obra e energia elétrica. Vamos costurando, tirando de uma para tapar a outra, mas vai chegar um momento que produzir leite será inviável”, reflete Chapla.
No Noroeste, em Umuarama, a estratégia de Elson Junior para seguir produzindo leite passa pela união com outros produtores. Ele preside uma cooperativa de 57 bovinocultores que, juntos, acumulam 10 mil litros de leite/dia. “Um produtor de 100 litros por dia não tem poder de negociação e, às vezes, não possui conhecimento de mercado para sentar com a indústria e negociar. Agora, para a indústria perder 10 mil litros de leite por dia, já é outra coisa”, detalha o bovinocultor, que conta com 35 animais em lactação e produção diária de mil litros de leite.
A tempestade perfeita para o mercado de lácteos começou com a queda no consumo. A demanda por leite em 2022 voltou ao patamar de 2011, em termos de produção e consumo per capita. “Abrimos o ano passado com queda de 10% no preço em relação a 2021. Nunca tínhamos visto uma queda tão acentuada”, descreve o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Glauco Rodrigues Carvalho. “Para piorar, entramos em 2023 com consumo mais fraco. E, como a economia da China desacelerou, a Argentina e o Uruguai, que tinham o país da Ásia como importante parceiro comercial, direcionou suas vendas para o Brasil”, acrescenta. Somente entre janeiro e agosto deste ano, o país já importou 1,4 milhão de litros (veja no infográfico).

Além disso, nem mesmo o inverno, período no qual historicamente as cotações do leite costumam aumentar, fez o preço pago ao produtor subir. Conforme dados do Conseleite-PR, desde abril, o preço de referência para o leite vem acumulando quedas consecutivas.
Outro fator de dificuldade envolve a oscilação no preço dos grãos, o que afeta diretamente o custo de produção de alimentos para as vacas. Em outubro de 2022, conforme o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), o milho estava cotado a quase R$ 80 a saca. Como o planejamento ocorre com antecedência, a alimentação dos animais está pesando, apesar da cotação atual do cereal estar na casa dos R$ 42.

Roelof Hermannes Rabbers se dedica ao leite em Castro, nos Campos Gerais, município que mais produz leite no Brasil
Em Castro, nos Campos Gerais, município que mais produz leite no Brasil, o produtor Roelof Hermannes Rabbers, há décadas na atividade, compara a crise da época da hiperinflação, início dos anos 1990, com o atual momento vivido pela cadeia do leite. “A receita diminuiu e a despesa ficou igual ou até cresceu. Ou seja, tudo subiu e o leite baixou”, resume Rabbers, que produz 5 mil litros/dia, com 160 vacas em lactação no regime semiconfinado.
Eficiência como contragolpe
As estratégias adotadas pelos produtores para resistir ao momento sinalizam para caminhos comuns em todas as regiões do Paraná. Diante do cenário alarmante, está clara a necessidade de eficiência na gestão da propriedade rural leiteira, para enfrentar oponentes pesos pesados. “Hoje, todos sofrem os efeitos da crise. O que determina o maior poder de resistência é a eficiência, e isso não tem ligação apenas com o tamanho da propriedade”, expõe o presidente da Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura de Leite da Faep, Ronei Volpi.
Esse apontamento encontra força nos dados da Embrapa Gado de Leite, ao revelar que diferentes modelos de tecnologia e eficiência coexistem no Brasil, com produtores obtendo renda de R$ 5 mil por hectare por ano e outros de R$ 300. Desta forma, segundo Carvalho, da Embrapa Gado de Leite, com o passar do tempo, os bovinocultores com menor renda devem, gradativamente, deixar a atividade. “Produtores têm abandonado o leite e o motivo está atrelado à eficiência da produção. Por outro lado, produtores mais tecnificados e profissionais, que possuem escala de produção, são bonificados”, explica o especialista.
Atualmente, as propriedades que produzem até 49 litros de leite por dia representam 71% do número de estabelecimentos no Brasil. Por outro lado, estes respondem por apenas 16% do volume da produção.

Mesmo essa parcela dos pecuaristas, que investe em tecnologia, precisa estar atenta à gestão, de acordo com o diretor da empresa Labor Rural, Christiano Nascif. Para o dirigente, uma parcela significativa dos produtores de leite adota a cultura do custo mínimo e não do lucro máximo, o que pode resultar na falência do negócio. “Tem modelo de negócio mudando para Compost Barn, com a ordenhadeira mais atualizada que existe e usando transferência de embrião. Mas, muitas vezes, em descompasso com a gestão, que está atrasada, ainda no século XVIII”, explica. “Muitos usam a máxima: ‘meu avô fazia assim, meu pai fazia assim e eu faço assim’”, complementa.
Nesse aspecto, a solução para problemas de gestão passa necessariamente por uma mudança de cultura, especialmente da assistência técnica. “Tem muito técnico que valoriza questões tecnológicas e não a gestão. Em qualquer momento, mesmo em tempo de bonança, a gestão é fundamental. Hoje, são poucos, mas existem produtores de leite que estão ganhando dinheiro na atividade por meio da eficiência”, aponta o diretor da empresa Labor Rural, Christiano Nascif.

“Agroindústrias com um portfólio enxuto atravessam situação mais complicada”, revela o gerente da divisão de leite da Frimesa, Erivelto Costa
No atual momento de crise, esses produtores que trabalham no azul estão apostando no “arroz com feijão bem feito”, que envolve perseguir boa produtividade e comprar insumo de forma planejada e conjunta. “Um caminho é tentar a expansão mesmo, pois há bonificação por volume e qualidade que acresce de 20% a 30% no valor recebido pelo produtor”, recomenda Carvalho.
Cenário de crise também atinge a indústria
A situação delicada do produtor de leite também se reflete na indústria, conforme o gerente da divisão de leite da Frimesa, Erivelto Costa. A marca que reúne 1927 produtores processa diariamente 680 mil litros de leite, crescimento de 6% em relação ao ano passado. Porém o faturamento cresceu apenas 2,38%. No final da conta, a operação possui, na média de 2023, uma margem de 0,3%. “Nem todos os produtos estão ruins. Temos um portfólio grande de lácteos e isso permite migrar para o que dá resultado melhor em cada momento”, revela Costa.
As agroindústrias com um portfólio enxuto atravessam situação mais complicada para fechar as contas. Mesmo a Frimesa tem adotado medidas para reduzir custos, com redução máxima de desperdício, programas de inovação e controle. “Hoje, não é só o produtor que está ficando com o ônus, tudo que veio de fora ficou muito caro. Eu acredito que o fundo do poço seria hoje se o leite brasileiro chegasse aos 41 centavos de dólar [em agosto, o Conseleite-PR fechou em cerca de 45 centavos de dólar], que é o preço pago pelo leite de importação da Argentina”, opina.

Presidente da Frente Parlamentar em Apoio ao Produtor de Leite (FPPL) e deputada federal por Minas Gerais Ana Paula Leão
Medidas do poder público
A presidente da Frente Parlamentar em Apoio ao Produtor de Leite (FPPL) e deputada federal por Minas Gerais Ana Paula Leão, destaca as ações que estão sendo desenvolvidas pelo poder público para auxiliar o setor.
De acordo com ela, as frentes de ação a FPPL para minimizar os efeitos da crise estão focadas em estancar e tentar resolver o problema que está massacrando os pequenos e médios produtores: a importação. “Conseguimos que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) voltasse com a taxa de 10% e acrescentasse mais 8% aos produtos oriundos da União Europeia (UE), Nova Zelândia e Estados Unidos, não só leite em pó, mas 28 produtos lácteos. No entanto, o leite da UE representa 5% do problema. O grande problema é do Mercosul, especialmente do Uruguai e Argentina”, ressalta.
Quando questionada se houve avanço em relação a diminuir as importações da Argentina e Uruguai, a parlamentar disse que existe um programa no Mapa chamado “Mais Leite Saudável”, o qual permite a agroindústrias, laticínios e cooperativas de leite participantes utilizarem créditos presumidos do PIS/Pasep e da Cofins, da compra do leite in natura utilizado como insumo de seus produtos lácteos, em até 50% do valor a que tem direito. “Solicitamos ao Mapa que as empresas que compram leite em pó importado percam o benefício”, salienta.
Em relação aos impactos de um eventual colapso na produção leiteira, Ana afirma que seria um caos social. “Somos em mais de um milhão de produtores de leite, que geram em torno de 4 milhões de empregos, considerando empregados diretamente nas propriedades rurais e técnicos, veterinários e outros profissionais. Esperamos que o governo nos atenda, porque 90% da classe dos produtores de leite são formados por pequenos e médios produtores”, menciona, enfatizando que os produtores têm reclamado da dificuldade para manter em dia o pagamento de créditos de custeio e investimentos.
Ana afirma que foi solicitado ao ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, a prorrogação de prazo para quitação de financiamentos. “Fizemos o pedido para o que o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, encaminhe isso e tome a frente de negociação com os bancos para prorrogar. Não está acontecendo só no Paraná. É uma realidade em outros estados também”, pontua, ampliando: “Esse problema do leite é cíclico, mas temos que colocar um ponto final nele. A FPPL está trabalhando essa situação e também em projetos de políticas públicas de incentivo. Por isso, eu deixo uma mensagem de esperança de que, juntos, vamos resolver esse problema”.
Respiro ao setor
Na última quarta-feira (18), o Governo Federal publicou o Decreto 11.732 de 2023 que promove mudanças nos percentuais das alíquotas da contribuição para PIS/Pasep e da Confis. Na prática, as empresas que optarem por comprar leite in natura nacional terão redução de 50% nesses impostos. A medida passa a valer em fevereiro de 2024.
Prêmio Queijos do Paraná agrega valor ao leite
A primeira edição do Prêmio Queijos do Paraná deu uma amostra de um possível caminho para os pequenos e médios produtores de leite. Ou seja, esses podem apostar na produção artesanal de derivados lácteos e agregar valor ao produto. Ao todo, a iniciativa teve 323 queijos inscritos.
A premiação distribuiu 98 medalhas de bronze, prata, ouro e super ouro. Entre esses, os jurados escolheram o melhor queijo do concurso: o Parmesão, da Frimesa, produzido em Marechal Cândido Rondon (PR). Além disso, ao longo de nove meses do concurso, foram realizadas dezenas de ações, visando fortalecer o setor lácteo paranaense.
O sucesso do projeto promovido por um comitê gestor formado pelo Sistema Faep/Senar-PR, Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Sebrae-PR e Sindileite-PR, com apoio de 28 entidades, fez com que a segunda edição esteja confirmada para 2024, com novidades. “A primeira edição movimentou a cadeia do leite do Paraná, fazendo com que muitos produtores pudessem apesentar seus produtos ao público consumidor. Para a segunda edição, vamos trazer novidades, pois o objetivo é sempre agregar para desenvolver a cadeia produtiva”, destaca Ronei Volpi, presidente da Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura de Leite da Faep.
Em Arapoti, operação estável evita desperdícios
A busca quase obsessiva pela eficiência explica o caminho de Fernanda Krieger Bacelar no leite. A publicitária, com 15 anos de uma carreira em comunicação e marketing, resolveu apostar suas fichas em uma propriedade leiteira em Arapoti, região vocacionada ao leite.

Produtora Fernanda Krieger Bacelar: “Estou buscando eficiência, melhorando processos, deixando tudo redondo e isso casa com esse momento de crise”
Há sete anos, Fernanda resolveu traçar os primeiros planos de construir a leiteria, com ajuda de cursos do Senar-PR. No final de 2016 a produção começou oficialmente, com 60 animais em lactação. A estrutura projetada para 400 vacas fez a produtora crescer a todo custo. “Naquela época, o leite entrava no resfriador e congelava, porque não tinha volume. Então percebi que para ser efetiva era preciso volume”, relembra.
O passo seguinte da operação foi apostar no aumento da remuneração pelo produto. Na região há cooperativas especializadas em leite, com programas de pagamento por qualidade. Hoje, com 430 animais em lactação e produção de 16 mil litros de leite por dia, Fernanda recebe mais de R$ 0,80 de bônus por litro com os índices de qualidade que obtém. “Desde que começamos, temos as metas e a análise de leite num quadro. Os funcionários esperam ansiosos para saber como está o indicador. Estou buscando eficiência, melhorando processos, deixando tudo redondo e isso casa com esse momento de crise. Temos que manter a mentalidade de crescimento, evolução, para que negócio vá para frente”, destaca a produtora de leite em Arapoti, Fernanda Krieger Bacelar.
A propriedade já ganhou cinco prêmios da Cooperativa Capal e três da Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH). Em momentos difíceis, Fernanda aponta para a necessidade de controle total das contas. “Já que não posso controlar custos, tenho que controlar meus gastos para manter a operação estável, segura e evitar desperdícios. Assim, quando passar a crise, eu vou poder galgar melhores lucratividades”, reflete.

Hora de identificar ineficiências
Sem aumento no consumo doméstico e sem capacidade de competir no mercado internacional com exportações, por possuir um dos maiores custos de produção em comparação aos países exportadores, a produção total de leite no Brasil não cresce desde 2014. Neste ano, o cenário se agravou por conta do aumento de importações de produtos lácteos oriundos principalmente da Argentina e Uruguai. “Embora o setor tenha evoluído nas últimas duas décadas, com expressivas transformações estruturais, novas tecnologias, equipamentos e genética que resultaram em ganhos de produtividade e melhorias na qualidade do leite, a condição de rentabilidade dos produtores piorou”, afirma a técnica do DTE no Sistema Faep/Senar-PR, Nicolle Wilsek.
O leite paranaense é heterogêneo quanto à qualidade e volume produzido. Assim, somado ao cenário de dificuldades, muitos produtores com pequena produtividade deixaram a atividade. Já os remanescentes, retratam uma realidade de menos produtores e maior produção. “Mesmo com o cenário de dificuldades, o Paraná apresenta um potencial de produção de leite superior. A cadeia produtiva do leite viabiliza bons ganhos marginais, principalmente quando observadas as condições naturais da região, permitindo produção de pastagens e cereais durante o ano todo, além de ser uma atividade familiar. O momento é de o produtor conhecer a fundo a sua propriedade, identificando suas ineficiências para melhorar o custo produtivo, equilibrando com a receita atual”, constata.

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VBP do Piauí atinge R$ 11,3 bilhões impulsionado por soja e milho
Grãos concentram a maior parte do faturamento agropecuário do estado e seguem determinando o desempenho da produção piauiense no cenário nacional.

O setor agropecuário do Piauí apresenta sinais de desaceleração no fechamento de 2025. De acordo com os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) divulgados em 21 de novembro, o Valor Bruto da Produção (VBP) do estado atingiu R$ 11.354,25 milhões, uma queda nominal de 4,73% em relação aos R$ 11.918 milhões registrados em 2024. O desempenho coloca o estado em um movimento contrário ao cenário nacional, que projeta crescimento no mesmo período.
Enquanto o Piauí encolhe, o VBP do Brasil saltou de aproximadamente R$ 1,21 trilhão em 2024 para R$ 1,41 trilhão em 2025. Esse descolamento acentua a baixa relevância do estado no PIB agropecuário nacional: a participação do Piauí, que já era tímida, caiu de 0,98% para apenas 0,80% do total brasileiro. O estado ocupa hoje a 16ª posição no ranking nacional.
Dinâmica de Produtos
A economia agrícola piauiense é altamente dependente de commodities, o que explica a volatilidade do VBP. O “carro-chefe” do estado, a Soja, registrou queda de 3,6%, passando de R$ 7.340 milhões em 2024 para R$ 7.073,5 milhões em 2025. O cenário é ainda mais crítico para o Milho, que sofreu uma retração de 12,8%, caindo de R$ 2.321 milhões para R$ 2.024,7 milhões.

Proteína Animal
O VBP do Piauí é composto majoritariamente por lavouras (93%), restando apenas 7% para a pecuária. Dentro deste nicho, a configuração em 2025 apresenta:
Bovinos: R$ 464,6 milhões (4ª maior atividade do estado).
Ovos: R$ 131,2 milhões.
Frangos: R$ 113,6 milhões.
Leite: R$ 66,2 milhões.
Suínos: R$ 13,0 milhões.
A baixa expressividade da pecuária em relação aos grãos evidencia a falta de diversificação e de integração lavoura-pecuária no estado, mantendo o VBP vulnerável às oscilações de preço e clima que afetam a soja e o milho.
Evolução Histórica
O gráfico histórico revela que o Piauí viveu um “boom” entre 2020 e 2022, saltando de R$ 10,7 bilhões para o pico de R$ 13,9 bilhões. No entanto, desde 2023, o estado entrou em uma trajetória de queda consecutiva. O valor de 2025 (R$ 11,3 bilhões) é o mais baixo dos últimos cinco anos, aproximando-se dos níveis pré-pandemia e sugerindo que o crescimento anterior foi impulsionado por preços extraordinários de mercado, e não por um ganho de produtividade estrutural permanente.
Os dados indicam que o agronegócio no Piauí enfrenta um desafio de escala e diversificação. A dependência extrema da soja e do milho (que juntos somam mais de 80% do VBP total) torna o estado refém das cotações internacionais. Enquanto o Brasil expande sua fronteira e aumenta o valor agregado, o Piauí não consegue sustentar o ritmo, perdendo participação relativa. A retração na pecuária e em culturas de subsistência, como o feijão e a mandioca, aponta para uma fragilidade tanto no grande produtor quanto na agricultura familiar.
A edição de 2025 figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil se despede do pesquisador conhecido por ser o pai do Feijão Carioca
Responsável pela avaliação e difusão da variedade mais consumida do país, agrônomo do IAC ajudou a redefinir padrões de produtividade e qualidade do feijão brasileiro.

A história recente do feijão no Brasil passa, de forma decisiva, pelo trabalho do pesquisador Luiz D’Artagnan de Almeida, que faleceu em 02 de janeiro. A trajetória profissional do agrônomo no Instituto Agronômico (IAC) está diretamente associada à avaliação, validação e difusão do feijão carioca, variedade que se tornou dominante no consumo nacional e transformou o mercado do grão no país.
D’Artagnan ingressou no IAC em 1967, instituição vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, onde construiu toda a sua carreira até a aposentadoria, em 2002. Atuou na antiga Seção de Leguminosas, área estratégica em um período em que a pesquisa pública buscava ampliar a oferta de alimentos básicos com maior produtividade e regularidade de qualidade.
O ponto de inflexão ocorreu ainda na década de 1960. Em 1966, o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes, então chefe da Casa de Agricultura da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI), encaminhou ao IAC um lote de grãos de feijão com coloração rajada, até então pouco conhecida comercialmente. O material foi submetido a avaliações técnicas conduzidas por D’Artagnan, ao lado dos pesquisadores Shiro Miyasaka e Hermógenes Freitas Leitão Filho.
As análises envolveram não apenas o desempenho agronômico, mas também características culinárias, um diferencial para a época. Os resultados indicaram um material adaptado às condições de cultivo e com boa aceitação para consumo, abrindo caminho para sua adoção em escala mais ampla.
Em 1969, o feijão carioca foi oficialmente lançado, sob a responsabilidade direta de D’Artagnan, e incorporado ao projeto de produção de sementes básicas da CATI. A partir desse marco, a variedade ganhou espaço rapidamente nas lavouras e no mercado consumidor.
Na década de 1970, com a criação do Programa de Melhoramento Genético do Feijão, o material consolidou sua liderança. O feijão carioca passou a responder por cerca de 66% do consumo nacional, alterando padrões de oferta, produtividade e preferência do consumidor. O avanço teve impacto direto na organização do mercado, na estabilidade de preços e na segurança alimentar, ao fortalecer um alimento central na dieta brasileira.
Pelo papel desempenhado nesse processo, Luiz D’Artagnan de Almeida tornou-se conhecido entre colegas e produtores como o “pai do Carioquinha”, apelido que traduz o alcance prático de sua contribuição científica. Ao longo da carreira, recebeu diversas homenagens pelo trabalho desenvolvido no IAC e pelo legado deixado à pesquisa agrícola e à alimentação no Brasil.
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Governo projeta superávit comercial de até US$ 90 bilhões em 2026
Estimativa supera o saldo positivo de 2025, de US$ 68,3 bilhões.

O Brasil deve terminar 2026 com superávit comercial de US$ 70 bilhões a US$ 90 bilhões em 2026. As estimativas foram divulgadas na última terça-feira (o6) pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a previsão indica um resultado superior ao registrado em 2025, quando a balança comercial brasileira fechou com saldo positivo de US$ 68,3 bilhões.
Apesar do superávit elevado, o resultado do ano passado representou uma queda de 7,9% em relação a 2024, quando o saldo foi de US$ 74,2 bilhões.
Para 2026, o Mdic estima exportações entre US$ 340 bilhões e US$ 380 bilhões. As importações devem variar de US$ 270 bilhões a US$ 290 bilhões. Com isso, a corrente de comércio (soma de exportações e importações) pode alcançar entre US$ 610 bilhões e US$ 670 bilhões.
Superação de expectativas
O superávit de 2025 ficou acima das expectativas do mercado, que projetavam cerca de US$ 65 bilhões, e é considerado o terceiro melhor resultado da série histórica, atrás apenas dos saldos registrados em 2023 e 2024.
As projeções oficiais para a balança comercial são atualizadas trimestralmente. Segundo o Mdic, novas estimativas mais detalhadas sobre exportações, importações e saldo comercial de 2026 serão divulgadas em abril.



