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Avicultura Entrevista exclusiva

Doutor da UFRJ defende reapresentação da cadeia avícola brasileira

Professor destaca algumas tendências e possibilidades que o setor pode utilizar para melhorar sua imagem junto ao consumidor e aumentar o consumo da proteína animal

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Arquivo/OP Rural

Mesmo com toda a atualização, crescimento e conhecimento a respeito do mundo e do consumidor, ainda existem oportunidades que a avicultura nacional vem perdendo ou que poderiam ser mais bem aproveitadas. Investir em questões como estratégias, inovação, sustentabilidade e liderança empresarial são alguns dos quesitos que podem fazer toda a diferença. Mas então, quais as tendências e possibilidades para a avicultura? Quem responde essa pergunta é o doutor em Administração e professor do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Celso Funcia Lemme.

De acordo com ele, uma questão que ele vê como fundamental quando se fala em oportunidades para a avicultura brasileira é quanto a comunicação mais assertiva com o consumidor, especialmente quando se fala em bem-estar animal. “Acho que há 10 ou 15 anos não se falava tanto deste tema quanto agora”, comenta. Lemme explica que a primeira questão básica, onde há uma oportunidade para a avicultura, é que ainda existem muitas dúvidas e desinformações a respeito do assunto. “Fizemos uma pesquisa na UFRJ com consumidores e investidores. O que percebemos é que o cidadão do ambiente urbano não tem ou tem muito pouco conhecimento dos métodos de produção do alimento que chega até a mesa dele”, informa.

O professor explica que com a pesquisa eles conseguiram ver como reagem as pessoas quando são expostas aos métodos usuais de produção. “Estas são coisas comuns aos profissionais especializados e que lidam com isso diariamente. É comum que eles discutam temas como gaiolas de bateria, utilização de galpão, níveis de iluminação, destinação dos machos na produção de ovos. Mas tudo isso não é de conhecimento do consumidor. O que percebemos na pesquisa é que uma vez exposto a esse conhecimento, o consumidor comum tem uma reação fortíssima. Ou seja, a percepção que ele tem do negócio que coloca o alimento na mesa dele, que deveria ser extremamente favorável é o contrário”, diz.

Lemme afirma que trabalhar essa questão do tratamento dos animais, tendo ações como a eliminação definitiva das gaiolas de bateria do sistema de produção brasileiro, a destinação dos pintinhos machos na produção de ovos, entre outros assuntos que competem ao bem-estar dos animais, é fundamental como estratégia de negócio. “Pensando na próxima geração, as pesquisas que olham para os millenium (geração Y), mostram que eles estão muito focados no propósito de negócio, de investimento e o próprio exercício profissional deles. Com essa explosão das redes sociais em que a informação ganha velocidade e tem uma disseminação enorme, o setor ainda permanece preso a práticas que possam ferir os princípios éticos dos consumidores. Este é um risco enorme para o negócio e, portanto, projetos e trabalhos de investimento que caminham na direção de bem-estar animal pode ser uma oportunidade gigantesca, excepcional e muito adequada a avicultura”, afirma.

Muito mais que vendedores de carne

Um segundo item importante apontado pelo professor foi a forma como o posicionamento empresarial e de comunicação corporativa de diversos setores e atividades tem mudado e como isso seria interessante também para a avicultura. “Vamos olhar, por exemplo, para o setor de distribuição de energia. O que se fazia anos atrás era esperar o aumento do consumo do produto, nesse caso, a energia. Isso significaria incentivar o gasto. Essa postura antiga está sendo revista. Hoje as empresas de energia têm focado na atuação e comunicação no consumo consciente, ou seja, não gaste energia à toa, eu vou atuar como seu consultor e fornecedor de informação para que você faça o uso consciente de energia, o que é bom para você e será a longo prazo para mim, porque reduz a minha necessidade de investimento para aumentar o fornecimento que está sendo desperdiçado”, explica.

Para Lemme, este é um ótimo serviço que está sendo ofertado por diversos setores e que pode também ser usado no agronegócio. “Eu vejo uma oportunidade enorme para a avicultura para atuar nessa área, ou seja, o nosso negócio não é vender carnes e ovos. O nosso negócio é orientar a sua saúde alimentar, aconselhar a dieta saudável, o nosso negócio não é vender cada vez mais carne, ovos e outros derivados, mas sim fazer parte da alimentação das famílias, que faz parte da saúde”, explica. De acordo com ele, esse tipo de prestação de serviço é uma oportunidade que o setor deve ocupar. “Quem fornece alimento está em uma posição muito boa para se tornar também um bom fornecedor de conhecimento dessa área e com isso ganhar a confiança do consumidor”, afirma.

O professor explica que junto com o bem-estar animal, que é uma questão ética da profissão, essa colocação como fornecedor do serviço e conhecimento pode ser um passo importante para o setor, aliando saúde ambiental, saúde pessoal e animal. “E questões tecnológicas e sociais são fundamentais para poder trabalhar essas questões”, garante.

Lemme conta que a capacidade do setor em se apresentar para financiadores e investidores de maneira qualificada é fundamental para que se obtenha capital a um custo razoável para financiar inovações tecnológicas e gerenciais. “Isso é uma coisa que eu vejo como muito importante para o setor nos próximos anos, é que faz ele se apresentar aos agentes financeiros como uma conjugação de suporte à saúde através da alimentação, suporte aos princípios éticos da sociedade, através do bem-estar animal, agente importante de qualificação e retenção de mão de obra no campo, e como um braço importante da economia brasileira”, diz.

O professor explica que muitas vezes o produtor rural vai pedir um financiamento de forma tradicional, pedindo equipamento para o campo. “O que eu acho é que o setor tem que saber se apresentar como ele é de uma maneira mais ampla. Ele é saúde, ética, retenção de mão de obra no campo e braço de profissionalização. Essa colocação dizendo quais as diversas frentes que o setor pode trazer para a economia brasileira e mundial dá uma visão ao investidor de negócio”, afirma. “A integração da agricultura de uma forma mais ampla de cadeias de valor é uma oportunidade extraordinária que precisa ser explorada”, assegura.

Comunicação assertiva

Para Lemme, é necessário que a avicultura reforce a comunicação com o grande público através das associações de classe. “Uma comunicação direta e assertiva, como que estamos vendo na televisão em intervalos de programas, eu acho que está conseguindo dar ao público uma visão diferente do agronegócio”, comenta. Ele lamenta que a visão do agro para o grande público, mesmo na universidade, é muito balizada em uma palavra depreciativa para o setor produtivo que é qualificar como ruralista. “Este é um termo que tem uma certa conotação pejorativa, porque ela usa um prefixo de produtor rural, mas ela usa rotulando como alguém que depreda o meio ambiente no seu modelo de negócio, como alguém que não respeita e não tem ética no tratamento com os animais. Então existe essa imagem difusa na cabeça da sociedade”, diz.

Algo importante para o professor é que o setor mostre seus avanços. “Ou seja, admita que há sim muitos problemas, mas mostre o quanto estão avançando. Então, o setor de avicultura especificadamente, ajudaria muito para a imagem dele adotar essa postura na sua comunicação”, comenta.

O último ponto citado por Lemme é sobre passar uma mensagem muito importante, que é a valorização do produtor. “Uma coisa que eu acho importante  no meio dessa discussão do que pode avançar, o que está errado e o que pode melhorar é a gente não esquecer de valorizar o produtor, o pequeno, o médio e o grande, e transformar essa imagem do rural na imagem do cara que trabalha para garantir o alimento e saúde da população”, afirma. O produtor somente alerta que esta comunicação deve ser verdade, não mentindo ou omitindo fatos. “É uma questão de ter ética com a sociedade. Admitir algumas coisas, mas por outro lado mostrar o quanto já tem sido feito e os avanços que foram alcançados. Dessa forma a gente vai trabalhar em uma linha de gerar confiança, para o consumidor entender que o setor não está fugindo de questão difíceis, mas que tem muito mais coisa boa para mostrar. E tudo isso nasce na mão do produtor rural”, aponta.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Tecnologia

Vacinação de aves de ciclo longo chegou a era 4.0

Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Eva Hunka, médica veterinária, MSc. Medicina Veterinária Preventiva e gerente de negócios Biológicos da Phibro; e Eric Culhari, zootecnista, MSc Bioclimatologia e Bem-estar animal e especialista pHi-Tech da Phibro

O termo Pecuária 4.0 e a linha do tempo desta evolução, assim como a origem deste termo, ainda são pouco conhecidas. O termo Pecuária 4.0 faz referência à indústria 4.0. Pensando de maneira análoga ao desenvolvimento da indústria, podemos dividir a história da produção animal da seguinte forma:

-Primeira revolução industrial: a máquina a vapor proporcionou incremento de produtividade e mobilidade de seres humanos. Fazendo uma analogia com a produção animal, podemos considerar que o primeiro evento disruptivo na sociedade ocorreu muito tempo antes, quando os humanos deixaram de caçar, e domesticaram os animais. Este processo possibilitou que a energia empregada na caça fosse redirecionada para outros fins.

– Segunda revolução industrial: se caracteriza pela produção em massa e adoção do método científico (observar, medir, testar hipóteses e concluir) como ferramenta para incremento da produção.  Ambas as revoluções citadas, provocaram alterações na sociedade como o êxodo rural, aumentando a população urbana e consequentemente diminuindo a rural.

Sendo assim, a produção de alimentos teve que se alterar, pois aquelas pessoas que praticavam agricultura de subsistência e eram capazes de produzir seu próprio alimento, agora morando na cidade necessitavam comprar este alimento produzido por outros, exigindo maior produtividade nos estabelecimentos de produção animal. Com isso, temos a segunda mudança relevante na maneira de se produzir animais.

– Terceira revolução industrial:  é marcada pelo início da digitalização dos processos. Neste período computadores e outros equipamentos eletrônicos vieram em substituição aos meios analógicos utilizados até então para gerar, armazenar e analisar dados. Na pecuária não foi muito diferente. Com o avanço da eletrônica e da capacidade computacional, dados antes registrados e armazenados fisicamente, em folhas de papel, passaram para planilhas eletrônicas, facilitando a análise e visualização dos resultados obtidos. Além disso, equipamentos como alimentadores automáticos passaram a ser vistos em granjas de suínos e aves, ordenha mecanizada em sistemas de produção leiteira, entre outros equipamentos.

– Quarta revolução industrial: tanto na indústria quanto na produção animal, estamos falando do emprego de sensores, ferramentas computacionais avançadas e técnicas estatísticas modernas para coleta de dados massiva e em tempo real, armazenamento destas grandes bases de dados (“big-data”) em nuvem e uso de inteligência artificial para interpretar e gerar resultados a partir de padrões não captados pelo cérebro humano. Neste cenário, exploramos a internet das coisas (IoT) nos mais diferentes processo, como é o caso dos dispositivos de vacinação 4.0, que são capazes de gerenciar todo processo de vacinação, a partir de um dispositivo injetor, que, durante a vacinação, coleta informações sobre o processo e nos permite controle em tempo real e análises complexas, baseadas em dados da própria granja.

A agroindústria vem se tornando cada vez mais competitiva e isso fez crescer a necessidade por tecnologia, aumentando o controle e a eficiência do processo produtivo. Estes processos inteligentes trazem benefícios em diferentes setores da cadeia, desde os relacionados diretamente à produção bem como os que promovem melhores condições de trabalho para os operadores. Este tipo de movimento ajuda a fixar os trabalhadores no campo e promovem um movimento contrário ao êxodo rural, atraindo jovens para o campo.

Empregando as tecnologias que fazem parte deste pacote chamado de pecuária 4.0, estamos gerando uma quantidade de informações muito grande, com qualidade e velocidade incomparáveis aos processos anteriormente utilizados. De posse destas informações a tomada de decisão ocorre também mais rápido, e de maneira mais assertiva, melhorando não só o desempenho, mas a vida das aves de maneira geral.

Tão importante quanto o desempenho, é pensarmos na vida dos animais que estamos criando. Aspectos como comportamento, nutrição e sanidade são avaliados para determinação do grau de bem-estar dos indivíduos de uma criação. Com a utilização de tecnologias como visão computacional, bio-acústica e outras do pacote 4.0, é possível monitorar as condições de bem-estar animal em tempo real, além de identificar problemas e encontrar soluções de maneira mais rápida, melhorando a qualidade de vida das aves. Desta maneira estamos produzindo alimentos de forma responsável e eficiente.

A passos largos

Na avicultura este movimento anda a passos largos, promovendo melhor utilização dos insumos, maior controle dos processos e até mesmo segurança alimentar. A avicultura 4.0 permite uma tomada de decisão mais ágil, evitando erros ou desperdício, com isso temos reduções significativas no consumo de energia, custos com manutenção, maior aproveitamento das matérias primas e consequente aumento de produtividade.

Com toda esta tecnologia, processos antes obscuros, como é o caso da vacinação intramuscular das matrizes, deixam de ser uma operação simples e passam a ser vistos como Pontos Críticos de Controle. Sistemas de gerenciamento do processo vacinal permitem uma ação corretiva em tempo real e tem o smartphone como peça fundamental nesta comunicação entre o equipamento e os supervisores do processo, ou mesmo os tomadores de decisão, visto que todas as informações são armazenadas em “nuvem” e podem ser acessadas pelos diferentes níveis da companhia.

Este tipo de equipamento permite a integração do processo vacinal às rotinas de monitoramento da granja, onde podemos, através de painéis de controle, perceber desvios e tomar decisões com base em dados coletados no campo.

Toda esta tecnologia trouxe e continuará a trazer um aumento de desempenho e produtividade no campo. Atualmente a conectividade ainda é um dos principais gargalos nas propriedades rurais, mas tudo isso é um caminho sem volta e, assim como a tecnologia, a conectividade será uma realidade em breve.

A vacinação 4.0, também traz benefícios sanitários e isto pode ser visto através da monitoria sorológica, que é uma das principais ferramentas para averiguação da proteção vacinal em aves de ciclo longo. Estas aves recebem vacinas inativadas com a finalidade de elevar os títulos de anticorpos e, consequentemente, promover uma proteção mais duradoura, pois os anticorpos específicos, oriundos de uma imunização ativa, geralmente perduram por longos períodos.

Quando falamos em resultados de sorologia, é natural que logo pensemos em qualidade ou potência da vacina utilizada, visto que existes muitas variáveis no produto, que podem interferir nesta resposta como: adjuvantes, tipo de emulsão, concentração e tipo do antígeno etc. Mas muitas vezes esquecemos que o processo de vacinação é tão importante quanto o produto e também impacta neste resultado.

Vacinação evolui

O processo de vacinação evoluiu muito pouco nos últimos anos. Tivemos alguma evolução no que se refere a equipamentos de vacinação, mesmo assim são equipamentos que estão muito dependentes do fator humano. Exceto pelo processo de vacinação in ovo, este já consolidado no Brasil, e foi um grande passo para a automação dos incubatórios.

No caso da vacinação a campo, temos as seringas de precisão, bastante usadas na vacinação intramuscular, mas estas, também tem o homem como peça fundamental para a qualidade do processo, visto que é totalmente manual.

Um trabalho realizado em 2012, em Israel, mostra que o simples fato de a equipe de vacinação saber que está sendo avaliada, altera a sorologia das aves (Gráfico 1). Isso mostra claramente que o processo de vacinação é uma parte essencial do resultado.

Gráfico 1. Titulação de HI para TE (Meningoencefalite Viral de Perus) em lotes onde os vacinadores não sabiam da monitoria (G1 e G2) versus vacinadores que sabiam que estavam sendo monitorados (Monitor.)

Novos equipamentos de vacinação, com uma nova proposta, onde o erro humano é minimizado e o processo de coleta, compartilhamento e armazenamento de dados do processo possibilita correções pontuais, e também, a tomada de decisões mais estratégicas e de longo prazo. Estes equipamentos usam e abusam da internet das coisas e usam a tecnologia 4.0 a seu favor. Com esta melhoria no processo, a soroconversão é mais eficiente e uniforme.

Gráfico t. Titulação de IBD (Elisa IDEXX) em lotes vacinados com dispositivo 4.0 e lotes vacinados com vacinadora manual

Na avicultura trabalhamos com vacinações massais, onde muitos animais são tratados ao mesmo tempo. Neste processo nós temos o lote como unidade epidemiológica, e todos os animais do lote devem ser o mais uniforme possível. Quando falamos em processo eficiente, devemos garantir que todos os animais recebam a mesma dose, em um mesmo momento e por isso devem se comportar, sanitariamente, de um modo muito parecido.

Os equipamentos automatizados trouxeram a processo de vacinação para os dias atuais, elevando o status sanitário das aves e transformando este processo em um ponto crítico de controle da produção.

Nem todo animal que recebeu a vacina esta imunizado, pois existem diferentes fatores que contribuem para a eficácia da vacinação, fatores que variam desde a armazenagem correta do produto até erros de aplicação como dose incompleta, vacinação a partir de frascos vazios ou mesmo aplicação em local errado, podem alterar os resultados sorológicos. Quanto mais controlado for este processo de vacinação, menores são as chances de erros. Um lote bem vacinado tende a apresentar títulos sorológicos mais uniformes, com um abaixo coeficiente de variação. Esta uniformidade diminui a quantidade de indivíduos suscetíveis na população, e no caso de reprodutoras, isso também se reflete da transferência de anticorpos para a progênie.

Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle. Onde podemos atuar, quer seja em tempo real, por meio da correção dos erros e ajustes no momento da vacinação, ou mesmo em decisões estratégicas de longo prazo, por meio da análise dos dados coletados, oriundo dos diferentes episódios de vacinação realizados, ordenados e compilados, permitindo uma visualização completa dos processos.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Nutrição

Balanço eletrolítico na nutrição de aves

As perdas econômicas são mais acentuadas na fase final de criação dos frangos, quando esses são submetidos a períodos de calor intenso

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Artigo escrito por Everson Xavier Ferreira, consultor técnico comercial de aves na Agroceres Multimix e Franciely Benthien da Costa, consultora técnica comercial de aves de corte na Agroceres Multimix

Um dos maiores problemas enfrentados pela indústria avícola em países de clima tropical como o Brasil, são as significativas perdas zootécnicas e econômicas, decorrentes da severidade climática que atinge a produção avícola, perdas essas ocasionadas pelo estresse calórico, relacionadas – principalmente – a altas temperaturas, associadas à umidade relativa do ar alta, ou seja dias quentes e chuvosos. Entretanto, clima quente e seco também gera perdas significativa na produção, mas o processo de ofegação torna-se menos eficiente com a umidade mais alta.

Submeter as aves à temperatura e umidade elevadas, faz com que as mesmas saiam da zona de conforto térmico, ocasionando aumento da temperatura corporal e alcalose respiratória. Essa condição resulta em um impacto extremamente negativo sobre o desempenho animal, afetando a eficiência alimentar, consumo de alimento, taxa de crescimento e sobrevivência (figura 1). As perdas econômicas são mais acentuadas na fase final de criação dos frangos, quando esses são submetidos a períodos de calor intenso.

Com o aumento da temperatura do ambiente e aumento da umidade relativa do ar, a capacidade da ave em dissipar o calor é reduzida e com isso temos uma elevação da temperatura corporal, a aves fisiologicamente buscam de subterfúgios para minimizar este problema. A ave busca aumento da sua superfície corporal, abre asas, agacha-se com as mesmas abertas, eriça as penas, busca locais menos adensados no aviário, barbela e crista aumentam de tamanho, buscam a cama fresca com maior frequência, reduzem o consumo de alimento, aumentam o consumo de água e principalmente buscam através do aumento da frequência respiratória essa troca de calor, ficando ofegante.

A evaporação da água (resfriamento evaporativo) pelo trato respiratório constitui o principal mecanismo da ave, que está em estresse calórico, adota para resfriamento e redução da temperatura corporal. Esse mecanismo dá-se devido a ave ter a capacidade de aumentar a frequência respiratória, sendo esse mecanismo crítico para a manutenção da temperatura corporal.

A hiperventilação pulmonar, ocasionada pelo aumento dos movimentos respiratórios, leva a perdas significativas de CO2 fazendo com que ocorram alterações no equilíbrio ácido-básico sanguíneo das aves que e dependendo do tempo de exposição, podem levá-las a óbito. Devido a insuficiente oxigenação, o ritmo cardíaco aumenta na tentativa de suprir mais oxigênio para o metabolismo oxidativo dos tecidos em rápido crescimento, causando uma hipertensão pulmonar. Com prolongada falta de oxigênio, mecanismos de regulação do organismo da ave são acionados para manter a homeostase. O quadro é agravado ainda mais pelo aumento da resistência ao fluxo sanguíneo no pulmão, que promove o desequilíbrio entre a necessidade e o fornecimento de oxigênio e a insuficiência cardíaca. A predisposição à ascite é maior nos frangos porque o pulmão é rígido e fixo na cavidade torácica e o peso do órgão em relação ao peso corporal diminui em função da idade.

Contudo, a maior taxa de ventilação alveolar, ainda que necessário para o resfriamento, resulta em diminuição na pressão de CO2 e, consequentemente, em perturbações no equilíbrio ácido básico.

Outro ponto que devemos considerar é o relativo gasto energético demandando pelas aves na dissipação do calor, no qual ocorre uma grande demanda da energia ingerida na dieta para manutenção da temperatura corporal.

Outra situação observada em aves em estresse calórico é o significativo aumento do consumo de água, para compensar a perda de água na respiração e aumentar a capacidade de disseminação de calor que, por consequência os rins aumentam a produção de urina e maior perda de potássio ( K+), Sódio(Na+) e Cloro(Cl-) fundamentais na manutenção da pressão osmótica e no equilíbrio ácido básico.

Abaixo, é possível observar um quadro desenvolvido para ajudá-lo a fixar os conceitos de acidose e alcalose, tanto metabólica quanto respiratória. Observe o que acontece com o pH e as concentrações de HCO3 e pCO2 em cada uma das situações ácido-base:

Essas variações no equilíbrio ácido básico decorrente de aves em estresse térmico, têm custos elevadíssimos para a indústria avícola, custo esses decorrentes de perdas zootécnicas generalizadas, como; redução do ganho de peso, aumento da conversão alimentar, mortalidade final elevada, redução na qualidade interna e externa dos ovos (gema e casca), queda da capacidade de resposta imune, entre outras.

Os eletrólitos podem ainda ser descritos como substâncias químicas, que se dissociam nos seus constituintes iônicos, tendo como função fisiológica principal a manutenção do equilíbrio ácido-base corporal. A prevenção do desequilíbrio hidroeletrolítico pode ser obtida pela incorporação de cátions e ânions na dieta, sendo usualmente expressos em mEq/kg. Os eletrólitos essenciais à manutenção da pressão osmótica e no equilíbrio ácido-base dos líquidos corporais são: sódio (Na+), potássio (K+) e o cloro (Cl–). Além de as aves os exigirem em quantidades mínimas em sua alimentação – para satisfazer suas necessidades nutricionais -, é fundamental que a proporção entre eles seja respeitada, para manter o equilíbrio ácido-base e obter o máximo desempenho das aves.

O potássio (K+) é o principal cátion do fluído intracelular, enquanto o sódio (Na+) e o cloro (Cl–) são os principais íons do fluído extracelular. O controle da perda de água nas células é obtido pelo equilíbrio desses íons no meio intracelular e extracelular. O K+ está envolvido em muitos processos metabólicos, incluindo: o antagonismo arginina-lisina, condução nervosa, formação do glicogênio, contração muscular, síntese de proteínas teciduais, manutenção do equilíbrio intracelular, reações enzimáticas, balanço osmótico e equilíbrio ácido básico. Consequentemente, mudanças no equilíbrio de K+ podem afetar as funções celulares e o controle da quantidade de água no meio celular.

Atualmente, a importância do Na+ na manutenção das funções vitais normais é bastante conhecida. O sódio é o principal cátion presente nos fluídos extracelulares, atuando essencialmente: no equilíbrio ácido básico, pressão osmótica corporal, atividade elétrica das células nervosas e do músculo cardíaco, permeabilidade celular e absorção dos monossacarídeos e aminoácidos. Por ser o principal cátion do líquido extracelular e estar obrigatoriamente acompanhado de um número igual ao dos ânions, cloro e bicarbonato, o sódio é o principal responsável pela osmolaridade dos líquidos.

O cloro (Cl–) é predominante no líquido extracelular; sua função principal é a manutenção do equilíbrio químico com os cátions presentes. Sabe-se que o excesso de sódio é excretado pelos rins, e o cloro (Cl–) normalmente o acompanha. O cloro participa ainda do efeito tampão no sangue em intercâmbio com o bicarbonato. O aumento do Cl– plasmático favorece a retenção de H+ e diminui a reabsorção de HCO–3 pelos rins, sendo essa uma resposta à alcalose metabólica.

O K+ e o Na+ são íons alcalogênicos e quando suas concentrações são aumentadas, em relação à concentração do Cl–, o pH dos fluídos corporais aumenta, podendo caracterizar a alcalose metabólica. No entanto, o Cl– é um íon acidogênico e sua alta concentração na dieta contribui para a diminuição do valor do balanço eletrolítico e, neste caso, o pH pode diminuir, estando abaixo do normal, podendo assim caracterizar uma acidose metabólica.

O balanço eletrolítico da dieta

O balanço eletrolítico na nutrição das aves é definido como: a diferença entre os principais cátions e ânions da dieta e, portanto, um tema de grande importância na produção animal. O balanço dos eletrólitos no organismo pode influenciar no crescimento do animal, no apetite, desenvolvimento ósseo, resposta ao estresse térmico e no metabolismo de certos nutrientes, como: aminoácidos, minerais e vitaminas.

Um dos primeiros estudiosos a discutir a importância do balanço eletrolítico, estudando os fundamentos do balanço cátion-ânion para suínos e aves, entendeu que o animal regula o balanço eletrolítico pela alteração da acidez líquida ingerida e excretada. Para manter o balanço eletrolítico, deve-se regular a ingestão e a excreção de ácidos. Nas situações em que o animal encontra-se em equilíbrio ácido-básico, sem excesso ou deficiência de ácido, podemos aplicar a seguinte equação:

Todos os eletrólitos poderiam ser incluídos nas equações de cálculo do balanço eletrolítico, no entanto, alguns desses íons não são considerados, devido à importância secundária no equilíbrio ácido básico, pois, é apenas o potencial eletrolítico dos elementos que pode classificá-los em termos de importância no equilíbrio básico do organismo. Esses elementos têm capacidade de funcionar como eletrólitos, mas estão presentes em pequenas quantidades nas rações e em baixas concentrações nos tecidos das aves, reduzindo, naturalmente, seu impacto sobre o equilíbrio ácido básico. Por essa razão, a expressão foi reduzida para: Na+ + K+ – Cl– (mEq/kg).

As matérias-primas utilizadas nas rações de aves possuem diferentes concentrações de sódio, potássio e cloro. Portanto, dependendo da composição das dietas utilizadas, torna-se necessária a correção dos valores de balanço eletrolítico das rações. Um exemplo da modificação do balanço eletrolítico, causada pela composição da dieta, são as rações com inclusão de farinhas de origem animal como fonte proteica, que reduzem a inclusão do farelo de soja, um ingrediente responsável por grande parte do fornecimento de potássio às dietas.

A suplementação de sais nas rações ou na água dos animais tem sido usada para aumentar a ingestão de íons específicos, corrigindo mudanças no equilíbrio ácido-básico. Essa suplementação é feita através da inclusão de compostos alcalinos, visando aumentar o valor do balanço eletrolítico; ou a inclusão de compostos ácidos, para diminuir o valor do balanço eletrolítico, conforme a necessidade. Entre os compostos alcalinos, destacam-se: o bicarbonato de potássio (KHCO3), carbonato de potássio (K2CO3) e o bicarbonato de sódio (NaHCO3), e entre os compostos ácidos: o cloreto de potássio (KCl), cloreto de amônio (NH4Cl) e o cloreto de cálcio (CaCl2).

Muitas pesquisas demonstram que a correção do balanço eletrolítico através da adição de sais nas dietas é útil, não só para melhorar o desempenho dos animais, mas também uma ferramenta bastante utilizada para minimizar os efeitos do desbalanço de eletrólitos causado pelo estresse calórico.

Carbonato de Potássio

O carbonato de potássio consiste em um sal branco, solúvel em água e fortemente alcalino (pH básico). Muito utilizado na indústria, esse produto tem como principal utilização a fabricação de sabão, vidro e porcelana. Além dessa função, ele também pode ser utilizado para a fabricação de fertilizantes, visto que proporciona à planta maior resistência ao ataque de pragas, além de ser utilizado na alimentação animal em especial em frangos de corte.

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Avicultura O Presente Rural

Nova edição de Nutrição e Saúde Animal está disponível na versão digital

Edição conta com entrevistas exclusivas, artigos técnicos e atualizações das principais empresas do agronegócio nacional

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A edição de Nutrição e Saúde Animal de O Presente Rural de 2020 está disponível na versão digital. Você leitor lerá sobre a evolução do milho para utilização na nutrição em cada espécie animal, as expectativas e tendências para o mercado de grãos no país e no mundo, uma entrevista exclusiva com a ministra Tereza Cristina, além de uma matéria completa sobre a história e os investimentos que a De Heus vem fazendo no Brasil.

Além do mais, você poderá conferir artigos técnicos sobre nutrição e saúde animal de avicultura, suinocultura e bovinocultura escritos por profissionais renomados do setor. Há ainda matérias sobre as atualizações nas principais empresas do agronegócio nacional.

A edição completa você pode ler aqui.

Fonte: O Presente Rural
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