Avicultura 26º SBSA
Doenças respiratórias e incidência de micotoxinas trazem desafios para a avicultura

As doenças respiratórias e os problemas entéricos representam um grande desafio para a avicultura e exigem atenção redobrada ao manejo, além de ações rápidas de controle. Os médicos veterinários Renata Casagrande e Ricardo Rauber abordaram métodos de diagnóstico e estratégias para controle desses desafios no bloco sanidade, durante a programação desta quinta-feira (9) do 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet).
Renata debateu a laringotraqueíte infecciosa das galinhas, enfermidade considerada estratégica por seu impacto sanitário e econômico, com foco na tríade do diagnóstico. Essa abordagem reúne três abordagens fundamentais: a análise epidemiológica, a observação de sinais clínicos e achados de necropsia, além de exames laboratoriais, como histopatologia, biologia molecular e sorologia.
“A tríade do diagnóstico é um protocolo da patologia adotado no diagnóstico de patógenos em todas as espécies animais. No entanto, em alguns momentos o histopatológico deixa de ser realizado na avicultura, sendo que ele é um exame primordial, que vai dar o direcionamento para que o veterinário possa decidir sobre a necessidade de solicitar exames complementares”, explicou.
Em Santa Catarina, a laringotraqueíte foi diagnosticada pela primeira vez em 2020 em granjas de postura comercial. “Há diagnósticos em outros estados do Brasil em poedeiras, mas também em algumas outras categorias de aves, como matrizes. Então, é uma doença bastante importante e que precisamos monitorar”.
Com base nas análises, a doutora demonstrou que esse primeiro surto em Santa Catarina teve origem em uma área com alta densidade de granjas de postura. A expansão geográfica foi posteriormente confirmada, com detecção da circulação em granjas de postura comercial em todo o estado em 2021. Embora a hipótese sobre a fonte de introdução do vírus em Santa Catarina ainda não possa ser confirmada, as amostras analisadas indicam semelhança genética com estirpes provenientes do Peru e dos Estados Unidos.
Ainda foi observado que o vírus em circulação apresenta baixa virulência, no entanto, Renata alertou que isso não elimina riscos, uma vez que há possibilidade de mutações que podem mudar esse quadro. Durante o monitoramento nas propriedades, foram identificados resultados positivos em testes sorológicos e de PCR, enquanto a vacinação com vacina recombinante demonstrou eficácia no controle da doença, mas não a eliminação do vírus nas propriedades positivas, segundo inquérito epidemiológico realizado após a vacinação nessas granjas.

Médico veterinário Ricardo Rauber abordou o impacto das micotoxinas na saúde intestinal das aves (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)
MICOTOXINAS
O médico veterinário Ricardo Rauber trouxe pesquisas que demonstram os impactos das micotoxinas na saúde intestinal das aves. De acordo o doutor, a saúde intestinal das aves deve combinar um bom funcionamento de todos os papéis fisiológicos do órgão.
“Para que esse equilíbrio do funcionamento seja mantido, é fundamental que as aves apresentem uma microbiota estável, um intestino bem protegido, com camada adequada de muco, além de uma boa função de barreira e resposta imune e, por último, vem a capacidade de digestão e absorção de nutrientes. Essencialmente, o que esperamos de uma ave consumindo ração é que ela tenha condição de consumir esse alimento e absorver os nutrientes desse alimento”.
Qualquer agente, seja tóxico ou infeccioso, que comprometa esse equilíbrio, será um desafio entérico. Segundo Ricardo, cada micotoxina tem efeitos bem específicos na saúde intestinal das aves. Ele citou como exemplos as aflatoxinas, fumonisinas, Deoxinivalenol (DON), Nivalenol (NIV) e a toxina T-2, todas com impacto na avicultura.
No dia a dia da granja, as aves estão expostas a diversos outros desafios, como patógenos entéricos e respiratórios, fatores ambientais, falhas de manejo e variações na qualidade da dieta. Nesse contexto, as micotoxinas atuam frequentemente como um fator predisponente à disbiose, aumentando a vulnerabilidade das aves a outros agentes.
Análises mostram que as micotoxinas afetam a estrutura do intestino, ao alterar a histomorfometria intestinal e interferir na superfície absortiva. No campo, isso vai se traduzir como piora da conversão alimentar. “Esse é o impacto direto nas micotoxinas sobre o desempenho das aves”, salientou.
O doutor em sanidade avícola reforçou que as micotoxinas não são a única causa dos problemas na avicultura, mas seu controle é importante para garantir melhores resultados na cadeia produtiva. “Precisamos estar atentos aos resultados dos programas de monitoramento de matérias-primas e rações e, no mínimo, considerá-las como um potencial fator predisponente nos quadros entéricos a campo”, concluiu.

Avicultura 26º SBSA
26º SBSA debate manejo do frango de corte moderno
Médicos veterinários Lucas Schneider e Rodrigo Tedesco Guimarães destacam a importância da adoção de novas estratégias de manejo para explorar ao máximo o potencial genético dos frangos modernos

O manejo do frango de corte moderno abriu os debates do painel sobre manejo, na quarta-feira (8), no 26° Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet). Os médicos veterinários Rodrigo Tedesco Guimarães e Lucas Schneider debateram critérios relacionados ao processo de seleção genética, tecnologias e aspectos de manejo.
Rodrigo fez um comparativo com estratégias usadas no passado e na avicultura atual e propôs uma reflexão sobre a necessidade de adaptação de práticas tradicionais de manejo para que atendam a esse frango moderno e, de fato, garantam a expressão do seu potencial genético.
Na avaliação do especialista, a ave moderna está mais responsiva e isso exige um equilíbrio entre todos os processos. “O progresso genético exige um novo ponto de equilíbrio entre desempenho acelerado e robustez fisiológica. Com a evolução genética, as aves se tornaram ultra-responsivas ao ambiente. Ter apenas água e alimento não é mais suficiente. O sucesso agora exige precisão absoluta em sanidade, nutrição e ambiência”.
Na visão de Rodrigo, o manejo moderno continuará sendo sistêmico, mas exigirá cada vez mais excelência nos índices zootécnicos. “O tempo mais curto entre a eclosão e o abate faz com que cada erro tenha um custo cada vez maior. Isso exige que as oportunidades que se apresentam em cada etapa de produção sejam aprimoradas para melhorar o resultado do processo. É um efeito dominó. O ambiente perfeito vai levar ao enchimento de papo adequado, à obtenção do peso esperado, que consequentemente vai nos garantir uniformidade do lote e rendimento máximo no momento em que esse produto for para abate. Preciso fazer uma coleta criteriosa de dados, agir rapidamente para trazer soluções e ter um manejo estritamente responsivo, contando com equipes bem treinadas”, destacou.

Médico veterinário Lucas Schneider reforçou importância de adotar estratégias para conforto térmico. (Foto: Suellen Santin/MB Comunicação)
GENÉTICA MODERNA EXIGE PRECISÃO DIÁRIA
O médico veterinário Lucas Schneider reforçou que a evolução genética e os investimentos em granjas têm transformado significativamente o perfil do frango produzido atualmente. Um novo cenário que exige mudanças no manejo tradicional adotado pela cadeia produtiva.
Um dos grandes desafios do setor é romper paradigmas ainda presentes no dia a dia das granjas. “Muitas das práticas que funcionavam no passado já não atendem mais às exigências do frango atual. Precisamos avançar nesses conceitos para extrair o máximo potencial produtivo e garantir maior eficiência e rentabilidade”, ressaltou.
Para isso, é imprescindível que haja uma mudança de mentalidade, que alinhe o manejo às novas características das aves. A assertividade nessas estratégias vai trazer oportunidades como diminuição de custos, aumento da rentabilidade para o produtor e para a empresa, redução de mortalidade, especialmente na fase final, melhora do ganho de peso diário, melhora em conversão alimentar e redução das condenações em planta de abate, que é atualmente o maior custo do setor.
“Há várias estratégias que podemos adotar para atingir esses objetivos, como planejamento de produção, perfil de linhagem, observação do comportamento fisiológico, temperatura do ar, temperatura corporal, tudo focado em melhorar manejo e desempenho”, exemplificou Lucas.
Dentre essas estratégias, o estresse térmico é uma etapa chave. Nesse sentido, a ambiência, que envolve temperatura, ventilação e velocidade do ar, deixou de ser somente questão de conforto térmico e se tornou um limitante produtivo.
Na avaliação do especialista, as aves modernas operam com margens de erro menores, por isso, falhas nos processos produtivos podem resultar em prejuízos até mesmo irreversíveis. “As linhagens respondem de forma diferente ao manejo, por isso aplicar um manejo genérico limita o desempenho. A genética moderna exige precisão diária”.
Avicultura
Informação técnica ainda é o ativo mais valioso da avicultura
Em um cenário de alta complexidade, acesso a conteúdo técnico confiável define eficiência e reduz riscos na produção.

Em um setor que opera com margens ajustadas e variáveis cada vez mais sensíveis, como sanidade, custo de ração, ambiência e mão de obra, a diferença entre resultado consistente e desempenho irregular passa, com frequência, por um fator menos visível: o nível de informação que sustenta as decisões.
Eventos como o Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), realizado em Chapecó (SC), cumprem justamente esse papel. Não são vitrines. São pontos de atualização técnica, onde se discutem dados, se confrontam práticas e se ajustam rotas. Em um ambiente em que as mudanças são incrementais – e muitas vezes imperceptíveis no curto prazo -, a atualização contínua deixa de ser diferencial e passa a ser requisito.
Ao longo das 25 edições anteriores, o SBSA consolidou um perfil claro: conteúdo técnico aplicado, com foco em problemas reais de campo. Não se trata apenas de apresentar novas tecnologias, mas de compreender como elas se comportam dentro dos sistemas produtivos existentes. Essa diferença é decisiva. Informação, quando não é contextualizada, não vira decisão, vira acúmulo.
O desafio, no entanto, não está apenas em acessar informação. Está em separar o que é relevante do que é apenas ruído. A quantidade de conteúdo disponível hoje é incomparavelmente maior do que há uma década. Mas volume não é sinônimo de qualidade. Em um cenário de excesso de dados, a edição se torna tão importante quanto a informação em si. É nesse ponto que o setor precisa fazer uma escolha simples, mas determinante: onde buscar conhecimento.
Atualizar-se não é apenas estar presente em eventos. É construir repertório técnico a partir de fontes confiáveis, com critério editorial, base científica e relação íntima com a realidade produtiva. A decisão de onde se informar impacta diretamente a qualidade das decisões tomadas dentro da granja, da integração e da indústria.
A avicultura brasileira avançou apoiada em pilares claros: genética, nutrição, sanidade e gestão. Hoje, todos eles dependem, de forma transversal, de informação qualificada. Não há ajuste fino sem entendimento técnico. Não há consistência sem leitura correta do cenário.
O SBSA, ao reunir profissionais, pesquisadores e indústria em torno de temas críticos, reforça esse movimento. Mais do que acompanhar tendências, o setor precisa compreendê-las – e isso exige tempo, método e acesso às fontes certas.
No fim, a informação continua sendo um dos poucos ativos capazes de gerar ganho real sem aumentar custo direto de produção. Mas, como qualquer insumo estratégico, ela precisa ser de qualidade.
Avicultura
Gestão, tecnologia e escala: os novos pilares da competitividade na produção de proteínas
Cenário de custos elevados, exigência por eficiência e mudanças na cadeia produtiva reforçam a necessidade de profissionalização, inovação e qualificação de mão de obra no setor.

Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, professor embaixador no MBA em Agronegócios da USP/Esalq, pesquisador Cepea
A produção de proteínas animais no Brasil, especialmente nas cadeias de bovinos de corte, suínos e frango experimenta uma reformulação estrutural abrangente. Embora fatores tradicionais como clima e disponibilidade de terras ainda sejam relevantes, o verdadeiro diferencial competitivo do setor, estará cada vez mais concentrado em três pilares: gestão, tecnologia e capital humano.
Nos últimos anos, o produtor rural passou a operar em um ambiente de custos elevados e alta volatilidade. A dependência de insumos dolarizados, como fertilizantes, medicamentos, fosfatos e adubos faz com que o câmbio exerça influência direta sobre a rentabilidade da atividade. Nesse contexto, produzir bem já não é suficiente. É preciso produzir com eficiência, escala e estratégia.
O mercado também mudou. A crescente concentração de processadores e varejistas redesenhou a dinâmica de poder dentro da cadeia produtiva. Como consequência, o produtor que não acompanha esse movimento, profissionalizando sua gestão e adotando tecnologias capazes de elevar produtividade e previsibilidade, tende a perder competitividade. Comprar bem, vender melhor e entender quais investimentos realmente geram retorno deixou de ser diferencial, tornou-se requisito básico de sobrevivência.
Esse processo de mudança não é novo, mas vem se intensificando. A avicultura foi pioneira ao adotar a verticalização da produção. A suinocultura seguiu caminho semelhante, ainda que preservando alguma independência produtiva. Já a bovinocultura de corte caminha para um modelo distinto, marcado pelo aumento de escala e pela consolidação de grandes players. O avanço de contratos, parcerias e modelos mais formais de comercialização vem alterando profundamente a forma como o setor negocia, forma preços e organiza sua governança.
Nesse novo cenário, gestão não se limita às finanças. Envolve pessoas, meio ambiente, uso eficiente de recursos e estratégias de proteção de preços. O produtor que não domina esses aspectos corre o risco de ser excluído da atividade. Por outro lado, aqueles que investem em processos produtivos mais eficientes, tecnologia adequada e melhoria contínua da gestão ampliam sua capacidade de negociação e constroem uma base econômica mais sólida e sustentável.
O desafio, porém, vai além da porteira. O Brasil enfrenta um apagão de mão de obra qualificada, tanto no campo quanto nos elos industriais da cadeia. Investir em capital humano, da fazenda ao frigorífico, dos operadores aos tomadores de decisão é tão estratégico quanto investir em genética ou inovação tecnológica. A transformação digital já é uma realidade e impacta todas as etapas da produção, exigindo profissionais cada vez mais preparados.
No horizonte macroeconômico, a demanda global por alimentos mais saudáveis, o avanço da biotecnologia e o papel do Brasil como exportador não apenas de carne, mas também de genética, colocam o país em posição estratégica. Aproveitar essa oportunidade dependerá menos de expansão territorial e mais de eficiência, inteligência produtiva e capacidade de adaptação.
O futuro da produção de proteínas no Brasil será definido por quem compreender que escala sem gestão não sustenta resultados, tecnologia sem estratégia não gera valor e crescimento sem pessoas qualificadas não se mantém. O setor está mudando, e quem não acompanhar essa transformação corre o risco de ficar pelo caminho.
A versão digital está disponível gratuitamente no site de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.
