Suínos
Doença de Glässer, como superar esse desafio?
Esta bactéria é um dos primeiros microrganismos a colonizar o trato respiratório superior dos leitões, geralmente nos primeiros dias de vida, sendo a mãe uma fonte importante de transmissão para os filhotes.

Artigo escrito por Equipe técnica Ourofino
A doença de Glässer é causada pela bactéria Glaesserella (G.) parasuis e afeta exclusivamente suínos. Esta bactéria é um dos primeiros microrganismos a colonizar o trato respiratório superior dos leitões, geralmente nos primeiros dias de vida, sendo a mãe uma fonte importante de transmissão para os filhotes.
A manifestação da doença está associada a diversos fatores, incluindo a virulência do sorovar presente na granja, manejo, mistura de lotes, protocolo vacinal e a presença de co-infecções. As perdas econômicas decorrentes da doença de Glässer incluem refugagem, mortalidade, especialmente nos casos superagudos, além dos custos com tratamentos e assistência veterinária.
A principal característica das lesões observadas na doença de Glässer é uma inflamação serofibrinosa das serosas, que aparece na forma de pleurite, peritonite, pericardite e poliatrite. Esta inflamação gera um aspecto repugnante nas carcaças, levando à depreciação e consequente perda financeira para os produtores.
Etiologia, Epidemiologia e Patogenia
A G. parasuis é uma bactéria gram-negativa, com sorovares classificados conforme a virulência e o tipo capsular. Há 15 sorovares descritos, mas uma grande parte dos casos é causada por sorovares não-tipificáveis. No Brasil, a maioria dos isolados conhecidos são de alta e média virulência, além dos não-tipificáveis. A diversidade antigênica das cepas circulantes torna o controle do patógeno desafiador, impactando negativamente na eficácia das vacinas atualmente disponíveis.
As matrizes são a principal fonte de infecção para os leitões neonatos, transmitindo a bactéria por contato direto. Ao mesmo tempo, com a colostragem e amamentação durante a fase de maternidade, a mãe transfere aos filhotes anticorpos protetivos para os sorovares com os quais ela teve contato. Isso gera um equilíbrio que ajuda a prevenir o desenvolvimento da doença nessa fase inicial, e a bactéria pode ser isolada de animais saudáveis.
Quando os leitões vão para a fase de creche, ocorre normalmente uma mistura de lotes de leitões de diferentes origens, ao mesmo tempo em que há um decaimento da imunidade colostral, fazendo com que haja uma maior circulação de diferentes sorovares entre os leitões. Essa fase é um ponto chave no desencadeamento da doença, pois alguns animais podem ter ali o seu primeiro contato com o patógeno. Como há uma baixa proteção cruzada natural entre os sorovares, a janela imunológica que ocorre após o desmame juntamente com a mistura de lotes se tornam um importante fator de risco para a doença.
A depender da virulência dos sorovares circulantes, a doença poderá cursar com índices de mortalidade mais altos do que o esperado para a fase. Entendendo esse contexto, é possível encontrar diferentes sorovares em um único animal, gerando infecções mistas complexas.
A presença de co-infecções também contribui para a infecção pela G. parasuis, especialmente em condições de imunossupressão. Em novos surtos ou em granjas mais novas, observa-se a forma superaguda da doença, caracterizada por morte súbita, enquanto em granjas onde a doença é endêmica, apenas os animais negativos para aqueles sorovares manifestam a doença.
Após a colonização do trato respiratório superior, dependendo da virulência da cepa, a doença pode seguir diferentes caminhos (Figura 01). Cepas não virulentas ou de baixa virulência são controladas pelos macrófagos pulmonares, gerando uma resposta inflamatória moderada que impede a progressão da infecção.
Por outro lado, cepas virulentas possuem mecanismos de evasão do sistema imunológico, como a depleção de linfócitos T, permitindo que a bactéria se multiplique e se dissemine pela circulação sanguínea, alcançando as serosas. Há, então, uma resposta imunológica tardia com a ativação excessiva de macrófagos, levando a uma intensa inflamação com depósito de fibrina e acúmulo de líquidos, que é a principal característica desta doença.

Figura 01. Patogenia da Doença de Glasser
Como se apresenta
A doença de Glässer apresenta-se de diversas formas. A forma clássica, de curso agudo, ocorre principalmente em leitões na fase de creche, caracterizada por febre alta, apatia, anorexia e dificuldade respiratória. As articulações podem apresentar aumento de volume devido ao acúmulo de líquido sinovial. Na necropsia, é comum encontrar grandes quantidades de fibrina nos órgãos e líquido serofibrinoso nas cavidades.
A forma septicêmica ocorre sem polisserosite, com apatia, dificuldade respiratória e distúrbios da coagulação sanguínea, podendo resultar em morte súbita. As lesões incluem focos de hemorragia, petéquias e trombos. As formas crônicas apresentam fibrose do pericárdio, pleura e peritônio, além de artrite crônica.
A forma respiratória cursa com pneumonia, podendo G. parasuis atuar como patógeno primário ou secundário a infecções imunossupressoras, como em casos de circovirose e infecção pelo vírus influenza A.
Diagnóstico
O diagnóstico da doença baseia-se no histórico da granja, sinais clínicos e achados de necropsia, sendo a confirmação laboratorial essencial. Devem ser selecionados pelo menos cinco animais por unidade produtiva para aumentar as chances de isolar todos os sorovares envolvidos.
Após a necropsia, o coração, saco pericárdico e pulmões devem ser removidos e enviados para análise, juntamente com líquido articular colhido de forma asséptica. Suabes de pleura e peritônio também são indicados para isolamento do patógeno. É recomendado enviar a cabeça inteira para avaliação e coleta de materiais de forma asséptica, uma vez que o cerebelo costuma ser afetado na fase sistêmica da doença.
O isolamento do patógeno é importante para identificar os sorovares presentes, e a técnica de PCR multiplex é recomendada pela sua alta sensibilidade e especificidade. Técnicas sorológicas são indicadas para avaliar o processo de infecção e imunização.
Controle e Prevenção
O tratamento com antimicrobianos deve ser feito com base em testes de susceptibilidade para evitar o surgimento de cepas resistentes. É importante monitorar a ingestão de água e alimentos pelos animais, especialmente os mais apáticos, para garantir a eficácia do tratamento.
Para garantir um bom desempenho na granja, é necessário assegurar uma boa colostragem, cuidado na introdução de novos animais e correção dos fatores de risco associados à doença. Aliada a estas condições, a vacinação é a melhor estratégia para superar os desafios da doença de Glässer. Uma nova vacina foi desenvolvida utilizando-se cepas nacionais, com o objetivo de oferecer proteção heteróloga comprovada contra 96% dos sorovares circulantes no Brasil. Desta forma, independente dos sorovares circulantes na granja, os animais vacinados com esta vacina estarão protegidos. Esta proteção superior reduz a preocupação de um monitoramento constante e custoso para mapear os sorovares circulantes para posteriores ajustes em caso de uso de vacina autógena. Além disto, em razão da complexidade e dificuldade de isolamento, os sorovares circulantes podem não estar presentes na vacina autógena.
Além disso, essa nova vacina é polivalente, e promove uma proteção superior quando comparada às demais vacinas do mercado, com a conveniência de uma dose única. Esta característica possibilita inúmeros benefícios para os animais, técnicos e produtores, como por exemplo: otimização da mão-de-obra para vacinação, bem-estar e redução do estresse dos leitões em razão da não aplicação de uma segunda dose, redução de espaço para armazenagem (menor número de frascos).
Em resumo, o controle da doença de Glässer depende de uma vacinação eficaz. Já está disponível no mercado uma vacina com cepas nacionais, heteróloga e de dose única, que protege contra a maioria dos sorovares e simplifica o manejo, promovendo conveniência, economia e bem-estar animal.
As referências bibliográficas estão com os autores. Contato: [email protected].
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Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.
Suínos
Redução das granjas de reprodutores acende alerta para a genética suína
Artigo destaca a queda no número de GRSCs e defende medidas para preservar a base genética da suinocultura brasileira.

Ao nos referirmos às Granjas de Reprodutores Suínos no Brasil, as chamadas GRSCs, há que se ressaltar, de pronto, o fundamento histórico e a relevância dessas granjas à atividade suinícola nacional, assim como sua relação direta com a organização da classe dos produtores de suínos do Brasil, haja vista que elas deram origem à Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), fundada por um grupo de 48 produtores em 13 de novembro de 1955 no município gaúcho de Estrela, dando-se assim início a um significativo e intenso trabalho de melhoramento do rebanho de suínos no Brasil. E a criação da ABCS tornou possível organizar o registro genealógico e os programas de melhoramento genético no país, em se tratando de suinocultura comercial. É possível afirmar que as GRSCs são os verdadeiros centros de seleção genética, controle de origem e de avaliação do desempenho dos animais.
De fato, foram o pilar da transformação da suinocultura brasileira, ajudando a tornar o Brasil uma potência global na produção de carne suína, ocupando hoje o 4° lugar na produção mundial de suínos, pelo fato de as GRSCs garantirem a autossuficiência genética nacional, impulsionarem a adoção da inseminação artificial e elevarem a sanidade e a produtividade brasileira a padrões internacionais. De tal forma que essas granjas tiveram e ainda têm um papel fundamental no desenvolvimento da suinocultura brasileira moderna, dentro de uma cadeia altamente tecnificada e competitiva.
Não há como não se observar esse aspecto histórico da importância das granjas de produção de reprodutores suídeos, desde a criação da ABCS e de suas associações afiliadas estaduais, para a sustentação da atividade suinícola do Brasil nos últimos 70 anos, período em que o consumo interno de produtos derivados de suínos dobrou, passando de uma média nacional de 10kg para 20 kg, per capta, justamente a partir do uso de reprodutores dessas granjas. Aliás, em 2025, a média foi de 20,2 kg/habitante/ano (segundo a ABCS), consolidando um crescimento de cerca de 35% na última década.
Redução drástica das GRSCs no Brasil

Artigo escrito por Cesar da Luz é especialista em agribusiness, consultor da Associação Paranaense de Suinocultores e pesquisador da cadeia suinícola nacional. E-mail: [email protected].
Mesmo diante de todo esse contexto histórico, levantamento feito com base na literatura brasileira e com dados obtidos junto ao Relatório de 2025 do Registro Genealógico de Suínos da Associação Brasileira de Criadores de Suínos, ABCS, indica que houve uma redução muito significativa no número dos criadores de suínos da raça Landrace, com afixo registrado pelo produtor na entidade que representa o sistema suinícola brasileiro. Afixo é o nome oficial dado ao criatório, ou granja, certificada na ABCS.
Para se ter uma ideia da grande redução no número desse tipo de granjas e da grande erosão da variabilidade genética de suínos no Brasil, enquanto na década de 1970 o número de afixos registrados na ABCS era de 271, no ano passado, esse número caiu drasticamente para apenas 34. Portanto, atualmente, essas granjas representam apenas 12,5% do total existentes na década de 1970, em um ambiente em que as fontes de material genético das principais raças comerciais de suínos, como Landrace, Large White, Duroc e Pietrain, já são bastante escassas.
O fato é que o número de Registros Genealógicos vem reduzindo substancialmente desde a década de 1970 para a década de 1990 e para o período posteriormente aos anos 2000, enquanto o número de afixos de Empresas Integradoras e de Empresas de Genética vem crescendo sua participação no mercado de reprodutores Landrace, no Brasil.
Raça Landrace
No caso específico da raça Landrace, ela é uma das mais importantes para a evolução da atividade suinícola brasileira moderna, principalmente pela sua elevada capacidade reprodutiva e pelo excelente desempenho materno. Originária da Dinamarca, a raça foi introduzida no Brasil para contribuir no melhoramento genético dos rebanhos comerciais e se tornou fundamental nos sistemas intensivos de produção de carne suína.
A participação da raça Landrace foi decisiva para a modernização da suinocultura brasileira, especialmente a partir da intensificação da atividade nas regiões Sul, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul,0 Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais, sendo que as GRSCs passaram a utilizar amplamente a genética Landrace em programas de seleção, contribuindo para a disseminação de animais superiores e para o controle sanitário dos plantéis.
É importante destacar, ainda, que a raça Landrace é uma das principais raças de suínos utilizada na produção de suínos no Brasil, compondo 50% do genótipo na maioria das fêmeas F1 utilizadas na produção comercial de suínos, o que muito bem representa o que está ocorrendo com os Registros Genealógicos de Suínos no país, algo que requer muita atenção, especialmente dos órgãos governamentais, especialmente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
Ressalte-se, ainda, que as Granjas Independentes de Produção de Reprodutores, no caso da raça Landrace, elas são fundamentais também para a produção do mercado livre de suínos no país, composto por granjas de pequeno e médio porte que não pertencem aos sistemas integrados e cooperados. São tais granjas independentes que abastecem grande parcela do mercado interno nacional com produtos derivados de suínos, mas que estão reduzindo ano após ano, colocando o Brasil na dependência de reprodutores de Empresas de Genética que atuam no país, mas cujos Núcleos Genéticos Primários se encontram no exterior, o que implica no aumento do volume de “royalties” enviados para fora do Brasil.
Portanto, as GRSCs continuarão sendo extremamente importantes para suprir o mercado interno de reprodutores suínos, bem como fundamentais para o resgate e manutenção das raças nacionais de suínos e mesmo para a manutenção das raças importadas que já estão adaptadas para uso comum na suinocultura brasileira. Sem dúvida, as granjas de reprodutores foram a base do avanço genético, sanitário e tecnológico da suinocultura nacional, sem as quais o setor dificilmente teria alcançado os níveis atuais de eficiência, qualidade e competitividade internacional que se encontram hoje.
Olhando para esse histórico e para a importância das Granjas de Reprodutores de Suínos para a suinocultura brasileira, vê-se, inclusive, a própria necessidade de que uma fonte pública proporcione recursos, inclusive a fundo perdido, para a implementação das novas medidas exigidas pelo MAPA, integrantes da Portaria DAS/MAPA nº 1.358/2025, permitindo que as GRSCs consigam continuar cumprindo seu papel no contexto da suinocultura e como salvaguardas do banco genético nacional.






