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Do laboratório ao campo, controle biológico acelera a agricultura de baixo carbono

Tecnologias biológicas ganham escala na produção agrícola, reduzem emissões e reforçam sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e alinhados às novas regras do mercado de carbono.

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Nos últimos anos, o Brasil vem reafirmando seu papel estratégico da agricultura mundial, não apenas como força produtiva, mas como eixo central de uma agenda ambiental cada vez mais estruturada. A discussão sobre agricultura de baixo carbono deixou de ser prospectiva e passou a refletir práticas que já estão em implementação no campo. Nesse contexto, os bioinsumos se consolidam como parte de um novo modelo produtivo, sustentado pela ciência, pela pesquisa aplicada e pela eficiência agronômica.​

Durante décadas, a lógica predominante da produção agrícola esteve associada à intensificação do uso de insumos químicos, correções rápidas e ganhos imediatos de produtividade. Esse modelo permitiu avanços importantes, mas também evidenciou limites técnicos, ambientais e econômicos.

Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma, com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.

A evolução do setor passa, agora, por uma abordagem mais sistêmica, que considera o solo como um organismo vivo e o manejo como um processo integrado. É nesse ponto que os bioinsumos, incluindo biodefensivos, biofertilizantes e inoculantes, ganham relevância como ferramentas tecnológicas capazes de conciliar desempenho produtivo e sustentabilidade.​

Mais do que substituir insumos convencionais, os bioinsumos fortalecem os sistemas produtivos ao promover equilíbrio biológico, eficiência no uso de nutrientes e maior resiliência das lavouras. Trata-se de uma abordagem que exige conhecimento, planejamento e acompanhamento técnico, mas que oferece resultados consistentes nos médio e longo prazos. Essa capacidade de gerar efeito cumulativo, melhorar a qualidade do solo e reduzir emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) coloca o tema no centro da discussão sobre a chamada Lei do Carbono.

É a Lei do Carbono 15.042/2024, elemento decisivo desse movimento, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) e estabelece as bases do mercado regulado de carbono no país. A lei organiza o ambiente de transação de créditos, distingue o mercado regulado do voluntário e cria instrumentos para valorizar reduções e remoções de emissões.

Embora o agronegócio não esteja, neste primeiro momento, entre os setores obrigatoriamente regulados, o produtor rural passa a operar em um cenário em que o carbono deixa de ser apenas discurso e passa a ser ativo econômico, com regras e potencial de remuneração por serviços ambientais.

A expansão desse mercado acompanha o avanço de políticas públicas voltadas à agricultura de baixo carbono e de programas que estimulam práticas sustentáveis no campo. Esses instrumentos ampliaram o acesso ao crédito, incentivaram a difusão de conhecimento técnico e ofereceram maior previsibilidade para investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Com isso, a produção biológica deixou de ser uma alternativa restrita a nichos e passou a integrar estratégias de gestão agrícola em diferentes escalas.

Nesse contexto, práticas associadas à agricultura de baixo carbono, como o uso intensivo de bioinsumos, o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta e a recuperação de pastagens, passam a ser passíveis de mensuração em termos de carbono no solo e redução de emissões. O bioinsumo deixa de ser apenas substituto de um produto químico e passa a integrar sistemas capazes de gerar lastro técnico para projetos de crédito de carbono, à medida que avançam metodologias de medição, relato e verificação (MRV).

Os efeitos dessa mudança são observados tanto nas fazendas quanto nos centros de pesquisa, com avanço na qualificação técnica e aumento dos investimentos em inovação. O controle biológico já está presente em grandes culturas e diferentes regiões, contribuindo para a redução de resíduos químicos, preservação do solo e manejo eficiente de pragas, sem comprometer o equilíbrio do ecossistema. Além dos ganhos ambientais, produtores identificam benefícios econômicos associados à maior estabilidade produtiva.

Nenhuma transformação dessa magnitude se sustenta sem uma base regulatória eficiente. A consolidação de um marco legal específico para os bioinsumos é fundamental para o desenvolvimento do setor. A previsibilidade regulatória impacta prazos, custos e decisões de investimento. Nesse sentido, a nova Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) segue em processo de regulamentação, com expectativa de fortalecimento definitivo do mercado a partir de 2026.

À vista disso, o Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação em escala global, apoiado por biodiversidade, capacidade técnica e estrutura de pesquisa. Para consolidar esse protagonismo, é essencial manter investimentos em ciência aplicada, fortalecer o ambiente regulatório e ampliar o diálogo entre pesquisa, produtores e mercado.

Fonte: Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma, com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.

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Formação ou exercício profissional na Agronomia: o que vem primeiro?

Número elevado de vagas, sobretudo no EAD, levanta questionamentos sobre a formação diante das exigências da profissão.

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A expansão dos cursos de Agronomia no Brasil levanta um alerta: estamos formando profissionais na mesma qualidade que o agro exige?

A qualidade da formação está diretamente ligada ao exercício profissional. No caso do engenheiro agrônomo, cuja atuação é ampla, sistêmica e integrada, essa relação se torna ainda mais decisiva, especialmente em um cenário de crescente internacionalização das relações econômicas.

O Decreto 23.196, de 1933, estabelece com clareza as atribuições da profissão, abrangendo áreas como fitotecnia, zootecnia, economia e administração rural, cooperativismo, engenharia e paisagismo. Trata-se de uma base sólida, que já contempla a natureza dinâmica da atividade e permite a incorporação de inovações tecnológicas e gerenciais ao longo do tempo.

O desafio, portanto, não está na legislação, mas na formação. Os cursos de Agronomia precisam estar alinhados a essa amplitude de atuação. No entanto, a expansão de graduações, especialmente na modalidade 100% a distância, e a adoção de projetos pedagógicos fragmentados acendem um sinal de alerta sobre a qualidade do ensino.

Artigo escrito por Kleber Santos, engenheiro agrônomo, membro da ABCA Distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável.

Esse ponto se torna ainda mais sensível diante do avanço da inserção internacional do agro brasileiro. Acordos comerciais, como o firmado entre Mercosul e União Europeia, exigem profissionais com visão integrada dos sistemas produtivos, capazes de atuar da produção à gestão. Nesse contexto, o engenheiro agrônomo se destaca justamente por sua formação abrangente, desde que ela seja, de fato, garantida.

A sustentabilidade também amplia essa demanda. O enfrentamento das mudanças climáticas, a preservação da biodiversidade e a redução da poluição exigem conhecimento técnico aliado à capacidade de gestão e inovação. São desafios que reforçam a importância de uma formação sólida e prática.

Apesar disso, os números preocupam. Dados do Sistema e-MEC (2024) apontam a existência de quase 600 cursos de Agronomia autorizados no Brasil, com mais de 112 mil vagas. Desse total, 54,2% estão na modalidade a distância e 45,8% no formato presencial. A maior parte das vagas está concentrada no ensino privado, e apenas quatro instituições detêm mais de 70% das vagas em cursos EAD.

Diante desse cenário, a presencialidade segue como elemento essencial na formação agronômica. O uso de tecnologias, como internet e inteligência artificial, é bem-vindo, mas não substitui a vivência prática, o contato com o campo e a integração entre teoria e realidade produtiva.

Ao mesmo tempo, iniciativas de qualificação e acompanhamento da formação ganham relevância. Entidades como a Academia Brasileira de Ciência Agronômica, a CONFAEAB e o Sistema CONFEA/CREAs têm papel importante nesse processo, assim como estudos voltados à evasão, retenção e demanda de estudantes.

Outro ponto estratégico é a integração entre ensino e prática, por meio da extensão universitária e de programas de mobilidade acadêmica e profissional, tanto no Brasil quanto no exterior. Essas experiências contribuem para alinhar a formação às exigências do mercado.

O crescimento no número de cursos não é, por si só, um problema. O desafio está em garantir qualidade. Em um setor cada vez mais profissionalizado e inserido no mercado global, a formação do engenheiro agrônomo precisa acompanhar essa evolução.

No fim, a resposta é direta: antes de discutir o exercício profissional, é preciso garantir uma formação à altura das atribuições da profissão.

Fonte: Artigo escrito por Kleber Santos, engenheiro agrônomo, membro da ABCA Distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável
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Agro amplia presença feminina, mas liderança segue concentrada com homens

Participação cresce na gestão e na produção, enquanto homens ainda respondem por 59% das decisões. Diferença expõe limite no acesso à liderança no setor.

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A presença feminina no agronegócio brasileiro deixou de ser periférica há algum tempo, mas a distribuição de poder dentro do setor ainda não acompanhou esse movimento na mesma velocidade.

Dados levantados pela PwC mostram que mais mulheres estão no campo, na gestão de propriedades, na assistência técnica, no marketing, na pesquisa e na condução de negócios rurais, porém a tomada de decisão segue majoritariamente concentrada nas mãos dos homens. Há uma evidente assimetria que não pode ser tratada apenas como pauta de representatividade.

Quando a pesquisa aponta que mulheres agregam capacidade analítica, visão crítica, adaptação e resolução de problemas, o dado não deveria ser lido como elogio institucional, mas como indicativo objetivo de competências que hoje fazem diferença em ambientes produtivos mais expostos a risco e transformação.

Artigo escrito pela advogada Gabriela Veloso – Foto: Gabriela Veloso/Martorelli Advogados

O avanço feminino no agronegócio foi sendo construído por mulheres que precisaram conquistar legitimidade técnica, espaço comercial e presença em ambientes historicamente masculinos, muitas vezes tendo de provar mais para ocupar o mesmo lugar. O fato de esse percurso hoje parecer mais improvável do que há duas décadas revela mudança, mas não autoriza a conclusão apressada de que a barreira foi superada.

Esse ponto fica ainda mais evidente quando a expansão da presença feminina é comparada ao acesso efetivo à liderança. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, as mulheres já representam 27,59% das propriedades atendidas pela assistência técnica e gerencial do Senar/MS, além de ampliarem participação em cadeias como olericultura, leite, corte e agroindústria.

Ao mesmo tempo, o estudo da PwC indica que, nas organizações do setor, 59% das decisões ainda permanecem sob responsabilidade dos homens, enquanto apenas 17% são protagonizadas por mulheres. O contraste é eloquente porque mostra que entrada e permanência não significam, automaticamente, influência sobre a estratégia.

Isso importa porque, no agro, decidir não é apenas ocupar um cargo. É participar da definição sobre investimento, diversificação de cultura, contratação de equipe, adoção de tecnologia, alocação de capital, gestão financeira da propriedade, relacionamento com fornecedores, planejamento sucessório e reação a ciclos de mercado.

Essa assimetria de gêneros, faz com que o próprio setor perca a chance de incorporar repertórios diferentes justamente onde eles poderiam alterar a forma de gerir risco e enxergar oportunidades.

O avanço feminino no agro, portanto, merece ser lido com mais sofisticação. O que precisa demonstrar sua capacidade de atualizar seus próprios centros de decisão para lidar melhor com um ambiente de negócios cada vez mais complexo.

Fonte: Artigo escrito pela advogada Gabriela Veloso
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A vida invisível do solo e o futuro da agricultura tropical

Microbiologia do solo ganha protagonismo ao elevar produtividade, reduzir dependência de insumos e fortalecer a resiliência das lavouras tropicais diante das mudanças climáticas.

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A próxima revolução agrícola talvez não esteja baseada nas máquinas, nas sementes ou nos fertilizantes, mas no que acontece abaixo da superfície do solo. Nos sistemas tropicais, compreender e manejar a microbiologia do solo deixou de ser uma discussão restrita à academia para se tornar um dos pilares da produtividade e da resiliência do agronegócio moderno.

O solo é, essencialmente, um organismo vivo. Em poucos gramas de terra fértil convivem bilhões de microrganismos responsáveis por processos que sustentam toda a produção agrícola: bactérias fixadoras de nitrogênio, fungos micorrízicos, que ampliam a absorção de nutrientes, e microrganismos capazes de solubilizar fósforo e outros minerais. Esse conjunto invisível de organismos é o que mantém o ciclo produtivo ativo e a estrutura o solo e sustenta a saúde das plantas.

Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.

Nos trópicos, essa dinâmica ganha características próprias. Diferentemente dos solos de clima temperado, onde a decomposição da matéria orgânica ocorre de forma mais lenta, os solos tropicais vivem sob temperaturas elevadas e intensa atividade biológica. Isso acelera a decomposição e, ao mesmo tempo, revela um potencial extraordinário: uma biodiversidade microbiana altamente adaptada a solos naturalmente ácidos e de baixa fertilidade.

É justamente essa biodiversidade que abre caminho para uma agricultura mais eficiente. Estudos conduzidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que o uso de inoculantes microbiológicos adaptados às condições locais podem elevar a eficiência nutricional em culturas como soja e milho em até 30%, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e ampliando a sustentabilidade econômica das lavouras.

O desafio se torna ainda mais relevante diante das condições climáticas que caracterizam os grandes biomas agrícolas brasileiros. Em regiões como o Cerrado e a Amazônia, produtores convivem com pressão constante de pragas, eventos recorrentes de seca e oscilações climáticas cada vez mais frequentes. Nesse contexto, fortalecer a eficiência biológica do sistema produtivo passa a ser uma estratégia central de adaptação.

Práticas como cobertura permanente do solo, rotação diversificada de culturas e uso estratégico de bioinsumos ajudam a estimular a microbiota e melhorar o funcionamento do solo como sistema. Os resultados vão além da nutrição das plantas: solos biologicamente ativos apresentam maior retenção de água, menor lixiviação de nutrientes e maior capacidade de sequestrar carbono. Em sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, produtores já relatam maior estabilidade produtiva mesmo em ciclos de estresse climático.

O Brasil, aliás, já lidera um dos capítulos mais importantes dessa transformação. A inoculação biológica está presente em cerca de 85% da área cultivada com soja no país, a maior taxa de adoção do mundo. O mercado de bioinsumos cresce de forma consistente, com taxas anuais acima de 15%, refletindo uma mudança estrutural na forma como o produtor enxerga o manejo agrícola.

Mas a próxima etapa dessa evolução não será apenas ampliar o uso de produtos biológicos. O verdadeiro salto de eficiência virá da capacidade de medir e compreender melhor o funcionamento do solo. Indicadores como respiração microbiana, biomassa ativa e diversidade biológica já começam a ser utilizados como ferramentas de diagnóstico, permitindo decisões agronômicas mais precisas e adaptadas à realidade de cada área produtiva.

Se o Brasil pretende consolidar sua liderança na agricultura tropical, será necessário avançar também em políticas públicas e instrumentos econômicos que valorizem essa abordagem biológica. Mecanismos de remuneração por carbono no solo, linhas de crédito voltadas à transição para sistemas mais regenerativos e plataformas tecnológicas capazes de conectar microrganismos específicos a diferentes tipos de solo são caminhos que começam a ganhar relevância.

A ciência do solo aponta, com cada vez mais clareza, que produtividade e biologia caminham juntas. Empresas de inovação agrícola já investem em pesquisa para desenvolver bioestimulantes e soluções microbiológicas adaptadas aos diferentes biomas brasileiros, ampliando a possibilidade de manejar o solo com o mesmo nível de precisão com que a medicina trata um paciente.

Para o produtor rural, o primeiro passo pode ser mais simples do que parece: conhecer melhor a vida que existe no próprio solo. Um diagnóstico microbiológico é capaz de revelar se aquele sistema está biologicamente ativo, equilibrado e preparado para expressar todo o potencial produtivo da lavoura.

No fim das contas, a agricultura tropical do futuro será construída menos pela força de insumos externos e mais pela capacidade de ativar essa complexa máquina viva que existe debaixo dos nossos pés. Uma máquina silenciosa, invisível, e absolutamente essencial para produzir mais, com mais resiliência e inteligência agronômica.

Fonte: Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.
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