Suínos Expedição Suinocultura - episódio 4
Do campo à mesa: a engrenagem meticulosa da suinocultura entre granjas, fábricas de ração e frigoríficos
Carne suína, quando chega à mesa do brasileiro, já percorreu um longo e meticuloso caminho.

A carne suína, quando chega à mesa do brasileiro, já percorreu um longo e meticuloso caminho. Diferente do frango ou do boi, ela se transforma antes de ser consumida: mais de 70% da carne suína no país é processada em produtos como presunto, calabresa, linguiças e bacon. Esse processo começa na granja, passa pelas fábricas de ração, pelos centros de genética, pelas mãos humanas e pelos robôs, até chegar ao consumidor com valor agregado, identidade e padrão.
No quarto episódio da Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil, mostramos o elo que conecta granja e agroindústria. Uma cadeia complexa e altamente sincronizada, que exige biossegurança, sanidade, tecnologia, rastreabilidade e, acima de tudo, gente comprometida.
Industrialização: uma marca da suinocultura gaúcha

José Roberto Goulart, CEO da Alibem e presidente do SIPS, o Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS: “No Brasil, dá para dizer que 70% a 75% dos produtos consumidos são industrializados”
A cultura dos embutidos tem raízes profundas no Rio Grande do Sul. Trazida por imigrantes europeus, ela moldou hábitos e impulsionou o desenvolvimento de pequenas e grandes indústrias. “No Brasil, dá para dizer que 70% a 75% dos produtos consumidos são industrializados”, explica José Roberto Goulart, CEO da Alibem e presidente do SIPS, o Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS.
Essa lógica muda toda a operação: não se fala apenas em carne in natura, mas em transformação. “As pessoas não lembram da carne suína como lembram do frango ou da carne bovina. Pensam em presunto, bacon, calabresa”, afirma.
O gargalo da mão de obra
Por trás das toneladas de carne, há um desafio: a escassez de pessoas dispostas a trabalhar na suinocultura. “Granja, fábrica de ração e frigorífico são três negócios distintos, com exigências específicas, e falta gente em todos eles”, sintetiza o presidente do Sips.

Presidente do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal (Fundesa), Rogério Kerber: “Em 12 horas, qualquer notificação de suspeita sanitária é atendida. Em 48 horas, temos o resultado laboratorial”
Na granja, a dificuldade é convencer alguém a morar em local afastado, lidar com o isolamento e assumir a responsabilidade pelo bem-estar animal. “Você tem que oferecer casa, internet, escola próxima. E ainda achar alguém que goste desse tipo de trabalho”, explicou.
O frigorífico, por sua vez, enfrenta concorrência com outros setores e um ambiente muitas vezes hostil: calor, frio, esforço físico. “Estamos ficando como os Estados Unidos: dependendo de imigrantes. Hoje são haitianos, venezuelanos, argentinos… Sem eles, a indústria para”, frisa Goulart.
A resposta: automação e reorganização da cadeia
A solução está no avanço da tecnologia. “Cada setor tem buscado automatizar o máximo possível. É uma necessidade sem volta”, afirmou.
Alguns frigoríficos já consideram exportar carne menos trabalhada, enviando produtos mais inteiros para que a desossa seja feita no destino, como ocorre nos Estados Unidos com o México. “Pode ser que, no futuro, a gente perca parte do valor agregado. Mas hoje, o nosso diferencial ainda é entregar cortes bem trabalhados.”
Biosseguridade como prioridade absoluta
Se o porco não pode esperar, a sanidade tampouco admite falhas. No Rio Grande do Sul, há um sistema rigoroso de controle sanitário, com destaque para o Fundesa (Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal). “É um modelo que dá agilidade, coisa que a máquina pública não tem. Em 12 horas, qualquer notificação de suspeita sanitária é atendida. Em 48 horas, temos o resultado laboratorial”, destaca o presidente do Fundesa, Rogério Kerber.
Além disso, o estado adotou regras rígidas de segregação de veículos e manejo. “Caminhão de leitão só leva leitão. Caminhão de ração, só ração”, amplia Kerber.
Um compromisso assinado com o governo do Rio Grande do Sul prevê que, até março de 2026, todas as granjas estejam cercadas e com barreiras sanitárias. “Estamos correndo contra o tempo. Tem muita granja antiga que precisa se modernizar”, destaca o suinocultor Mauro Antonio Gobbi.
O padrão não espera: precisão é regra

Suinocultor e empresário Mauro Antonio Gobbi: “Estamos correndo contra o tempo. Tem muita granja antiga que precisa se modernizar”
Na suinocultura moderna, os padrões são inegociáveis. “O frigorífico não espera porco. Cada um tem seu limite: 105 kg em São Paulo, 125 kg em outro, 150 kg. O animal tem que estar dentro do padrão. Se errar, perde mercado”, crava o suinocultor Sadi Acadrolli.
Esse nível de precisão exige não apenas manejo adequado, mas também nutrição de altíssima qualidade. “Temos nossa própria fábrica de ração e controlamos até a variedade do milho. A qualidade do grão impacta diretamente na produtividade”, destaca o suinocultor Jean Marcelo Fontana.
Além do milho, o uso de cereais de inverno, como o triticale, tem ajudado a reduzir custos. E a estratégia de estocagem tem se mostrado crucial. “A gente tenta fazer colchão de milho para cinco a seis meses. Senão, precisa trazer do Mato Grosso, o que encarece tudo com ICMS e frete”, frisa Gobbi.
A rastreabilidade
Todo suíno enviado ao frigorífico precisa de um boletim sanitário assinado. “É nossa responsabilidade técnica. Se errar, a penalização vem. A inspeção evoluiu muito. Hoje, tudo é controlado”, cita Gobbi.
E isso começa cedo: desde a separação de leitões com sintomas, passando por vacinação preventiva, até a fabricação de rações medicadas sob autorização do Ministério da Agricultura. “Nossa taxa de mortalidade na creche está abaixo de 1%. Isso mostra que o manejo está funcionando”, amplia.
Gente que faz a diferença

Suinocultor Jean Marcelo Fontana: “Temos nossa própria fábrica de ração e controlamos até a variedade do milho. A qualidade do grão impacta diretamente na produtividade”
A suinocultura é feita por máquinas, mas depende de gente. E algumas empresas encontraram formas criativas de valorizar seus colaboradores. “Mais de 20 funcionários da nossa empresa hoje também são suinocultores parceiros. A gente abre espaço, eles vestem a camisa”, conta Acadrolli.
Além disso, benefícios como moradia, alimentação e apoio à saúde criam vínculos duradouros. “O que manda menos aqui sou eu. E obedeço feliz. Porque sei que a coisa anda”, brinca o suinocultor.
Sincronia

Suinocultor e empresário Sadi Acadrolli: “O frigorífico não espera porco. Cada um tem seu limite: 105 kg em São Paulo, 125 kg em outro, 150 kg. O animal tem que estar dentro do padrão”
A engrenagem entre granja e agroindústria é precisa, exigente e veloz. Tudo precisa estar em sincronia. E, como aprendemos nesta etapa da Expedição no Rio Grande do Sul, o sucesso da cadeia suinícola depende de uma verdade simples: o porco não espera e o mercado não perdoa. Mas quando há planejamento, tecnologia, rastreabilidade e compromisso, há também espaço para crescer. E para respirar fundo, com a certeza de que o dever de casa está sendo bem feito.
Clique aqui para assistir ao quarto episódio completo da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.

Suínos
Uso de plasma spray dried na ração reduz mortalidade e necessidade de antibióticos em suínos
Estudo conduzido em sistema comercial brasileiro aponta melhora sanitária em animais de crescimento e terminação com suplementação diária de SDP.

Artigo escrito por Luís Rangel, APC; Giovana Ludovico, Granja Ludovico, PR, BR; Javier Polo, APC; Leandro Borges, APC; Yanbin Shen, APC; Joe Crenshaw, APC.
O plasma spray dried (SDP, do inglês spray dried plasma) é uma proteína funcional altamente digestível, amplamente utilizada em dietas de leitões de creche. Ele tem sido usado como uma ferramenta de apoio em dietas de suínos sob diversas condições de desafios, como infecções bacterianas e virais, encontradas em sistemas comerciais de produção.
Objetivos
Avaliar o impacto da aplicação de SDP top-dressed na ração, na mortalidade, e no uso de medicamentos injetáveis em suínos de crescimento e terminação em condições comerciais no Brasil.
Materiais e métodos
Um total de 1.536 suínos em crescimento (65 dias de idade) foram distribuídos em 24 baias de machos castrados e 24 baias de fêmeas (32 suínos/baia). Os suínos foram distribuídos aleatoriamente em um grupo Controle ou em um grupo com SDP (24 repetições/tratamento). Ambos os grupos apresentaram o mesmo status sanitário, ração e programa vacinal. O grupo SDP recebeu 2 g de SDP aplicados sobre a ração diariamente durante a fase de crescimento e terminação, de 98 dias. A cada dia, 64 g de SDP foram adicionados ao cocho e misturados manualmente à ração de cada baia com 32 animais, fornecendo assim 2 g de SDP por suíno. Mortalidade e uso de medicamentos foram registrados por baia ao longo do estudo. A baia foi considerada a unidade experimental, e os dados foram analisados usando um modelo misto para os efeitos principais de tratamento e sexo, com a repetição como efeito aleatório. Probabilidades de qui-quadrado foram relatadas para os resultados expressos em porcentagem.
Resultados e discussão
Não houve efeitos significativos do sexo dos animais ou interações entre sexo e tratamento. O grupo SDP apresentou menor (P=0,0007) número médio de mortalidade por baia (Tabela 1; Figura 1) e menor (P=0,0003) porcentagem de mortalidade (Tabela 1). O grupo SDP necessitou de menos (P=0,0016) aplicações do antibiótico Tulatromicina por baia, com tendência (P=0,0877) a menor uso de medicamentos injetáveis totais (Figura 1). Outros medicamentos utilizados incluíram aplicações de Dexametasona (Controle, 0,38; SDP, 0,46) por baia e Metamizol sódico (Controle, 0,55; SDP, 0,51) por baia, mas seu uso não diferiu entre os tratamentos. A principal razão para o uso de antibióticos injetáveis foi a presença de sintomas de pneumonia. Esses achados estão alinhados com pesquisas anteriores que demonstram os benefícios do SDP no desempenho, saúde intestinal, função imune e saúde sistêmica geral (1,2), bem como a redução no uso de antibióticos em suínos de crescimento e terminação (3,4,5).

Conclusões
Fornecer 2 g de SDP por suíno por dia, adicionado à ração durante a fase de crescimento/ terminação, representa uma nova estratégia para apoiar a saúde dos suínos, especialmente em plantéis que enfrentam desafios sanitários. Essa abordagem está alinhada com as regulamentações internacionais atuais que visam reduzir a dependência de antimicrobianos.
As referências bibliográficas estão com os autores. Contato: luis.rangel@apcproteins.com
Suínos
Estratégias de manejo e nutrição elevam performance e longevidade de fêmeas suínas
Produtividade e a longevidade das fêmeas suínas são resultado direto de decisões técnicas assertivas ao longo de toda a vida reprodutiva, com foco em nutrição adequada, controle de peso e consumo de ração.

Artigo escrito por Rodrigo Lima, especialista global em nutrição da Topigs Norsvin
O desempenho reprodutivo das fêmeas suínas é resultado da combinação entre genética, nutrição e manejo ao longo de toda a vida produtiva. Em sistemas intensivos, especialmente aqueles que operam com alta densidade e metas produtivas agressivas, decisões técnicas sobre o momento ideal da primeira cobertura, a definição da curva nutricional durante a gestação e o controle da condição corporal na lactação tornam-se determinantes não apenas para o número de leitões desmamados, mas também para a longevidade das matrizes e a rentabilidade do sistema como um todo. Em um mercado em constante expansão, o desafio passa a ser produzir mais, com melhor qualidade e de forma sustentável.
Segundo o Especialista Global em Nutrição da Topigs Norsvin, Rodrigo Lima, mesmo os melhores avanços genéticos precisam estar acompanhados de um manejo ajustado às necessidades fisiológicas das fêmeas. Ele explica que, entre 2015 e 2023, com base em dados da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), o Brasil aumentou em 46% o número de suínos abatidos, passando de 39,2 milhões para 57,1 milhões de cabeças. No mesmo período, o plantel de matrizes cresceu 23%, alcançando 2,1 milhões de animais. Esses dados, somados ao avanço no número de suínos terminados por ciclo produtivo — que passou de 9,51 para 11,29 —, indicam um sistema mais exigente e cada vez mais dependente de decisões técnicas precisas para manter o ritmo de crescimento com qualidade reprodutiva.
Desafios gerados pela produtividade
O aumento do tamanho das leitegadas, impulsionado por ganhos genéticos e melhor desempenho reprodutivo, traz consigo novos desafios no manejo das fêmeas. Com mais leitões por parto, aumenta a demanda por leite, aumenta a exigência sobre o metabolismo das matrizes e se intensifica a necessidade de garantir uniformidade e bom peso ao desmame. “Esses fatores impõem uma pressão fisiológica maior sobre as matrizes, exigindo estratégias nutricionais mais refinadas e manejo ajustado à nova realidade produtiva. Sem esse equilíbrio, os avanços em quantidade podem comprometer a qualidade dos leitões e a longevidade das fêmeas no sistema”, pontua Lima.
Segundo o especialista, o desenvolvimento corporal da fêmea jovem exerce influência direta sobre sua produtividade futura. A curva de crescimento ao longo da recria precisa ser cuidadosamente monitorada para garantir que a fêmea atinja a primeira cobertura com peso e maturidade adequados. Intervenções nutricionais mal planejadas nessa fase podem resultar em animais subdesenvolvidos, comprometendo o desempenho reprodutivo nos ciclos seguintes. Por isso, o ajuste fino entre ganho de peso, idade e condição corporal na recria é um dos pilares para alcançar eficiência reprodutiva e longevidade no plantel.
Nutrição ajustada à demanda gestacional
A demanda nutricional das fêmeas suínas durante a gestação apresenta variações significativas ao longo das três fases que compõem o período gestacional. Do momento da cobertura até o parto, há um aumento progressivo nas exigências do organismo para atender o desenvolvimento do útero, dos leitões, da placenta, dos líquidos fetais e da glândula mamária.
Essas variações impactam diretamente os requisitos de aminoácidos, que devem ser ajustados de acordo com o avanço genético, principalmente quando se trata do tamanho da leitegada e do desenvolvimento fetal. Segundo Lima, o ajuste nutricional, portanto, é estratégico para garantir o bom desempenho reprodutivo das matrizes.
A eficiência desse manejo é refletida nos dados de campo observados no Sul do Brasil. A análise de mais de 3 mil leitegadas entre 2022 e 2023 indicou evolução tanto no número total de nascidos (NT) quanto no peso médio ao nascimento quando ajustados os níveis de acordo com a exigência nutricional. Em 2022, o NT médio foi de 15,6 leitões por leitegada, com peso médio de 1,419 kg. Já em 2023, esses números subiram para 16,9 leitões e 1,488 kg, respectivamente.
Nutrição de precisão: presente e futuro
A adoção de estratégias de nutrição de precisão tem conquistado espaço na suinocultura como uma resposta às crescentes exigências por eficiência produtiva e bem-estar animal. Essa abordagem busca ajustar o fornecimento de nutrientes de acordo com as necessidades específicas de cada animal ou grupo, respeitando fatores como fase fisiológica, categoria e condição corporal. “O objetivo é maximizar o desempenho produtivo com o uso racional de recursos, contribuindo também para a sustentabilidade da atividade”, frisa o especialista da Topigs Norsvin.
Dados apresentados por Lima indicam ganhos expressivos com a aplicação da nutrição de precisão em comparação com métodos tradicionais. Em um estudo publicado na revista científica Animal Feed Science and Technology, foi registrado um aumento de 9,81% no peso da leitegada ao desmame quando se utiliza alimentação de precisão, ou de 4% quando se dinamiza a curva de consumo durante o período gestacional, comparado com modelos convencionais. Os dados reforçam que a nutrição de precisão não é um conceito distante, mas sim viável e economicamente justificável. “A tendência é que o avanço da tecnologia, o uso de sensores, softwares e a automação acelerem a adoção dessas práticas, oferecendo ao produtor maior controle sobre a dieta e a performance das fêmeas ao longo do ciclo produtivo”, acrescenta Lima.
A longevidade e a qualidade dos leitões são resultados que vão além da genética, pois dependem, sobretudo, de manejos corretos e consistentes durante toda a vida reprodutiva da fêmea. Como reforça Rodrigo Lima, é esse conjunto de decisões, envolvendo nutrição ajustada, controle de peso, estratégia de arraçoamento e atenção ao bem-estar que sustenta sistemas produtivos mais rentáveis e sustentáveis. “Em um cenário cada vez mais competitivo, a eficiência começa cuidando bem das fêmeas para garantir o futuro da produção”.
Suínos
Manejo reprodutivo de precisão impulsiona eficiência na suinocultura brasileira
Avanço da inseminação pós-cervical e do diagnóstico precoce de gestação reduz perdas, melhora índices produtivos e amplia o aproveitamento genético dos plantéis.

A reprodução eficiente é um dos pilares da sustentabilidade da suinocultura moderna. Em um cenário cada vez mais competitivo, a aplicação de tecnologias reprodutivas de precisão tem‑se tornado decisiva para o aumento dos índices produtivos e o melhor aproveitamento genético dos plantéis. Nesse contexto, a combinação entre o diagnóstico precoce de gestação e a inseminação artificial pós‑cervical (PCIA) representa um avanço expressivo rumo a um manejo mais racional, previsível e rentável.
“Identificar porcas vazias o quanto antes é fundamental para evitar prejuízo. Com um ultrassom de qualidade, você já consegue um diagnóstico preciso a partir do 18º dia após a inseminação. Isso permite que as fêmeas não prenhes voltem mais rápido para o manejo reprodutivo, diminuindo os dias não produtivos e consequentemente melhorando a eficiência da granja”, destaca Ricardo Zanella, consultor técnico da IMV Technologies do Brasil”.
Mais do que um instrumento diagnóstico, o ultrassom de precisão torna-se um aliado na tomada de decisão, permitindo o controle efetivo do ciclo reprodutivo e a melhoria contínua dos indicadores zootécnicos. Quando combinado a técnica de inseminação pós-cervical, (PCIA), forma-se um sistema reprodutivo de alta performance e previsibilidade.
Evolução e panorama da inseminação artificial na suinocultura brasileira
A Inseminação Artificial (IA) consolidou-se como uma das principais estratégias para ganhos genéticos e eficiência produtiva dos rebanhos. Segundo levantamento recente, o Brasil contava em 2023 com 9.763 machos em Centrais de Inseminação e 2,06 milhões de matrizes distribuídas em 1.725 granjas. A média nacional foi de 30 leitões desmamados por fêmea/ano, com o grupo de elite (top 10%) alcançando 37,2 leitões, o que reflete o avanços técnicos do setor.
Os números demonstram também a alta eficiência reprodutiva obtida por meio do melhoramento contínuo dos processos: 2,4 a 2,5 partos por fêmea/ano, 90% de taxa média de prenhez e 2,88 inseminações por ciclo. A técnica pós-cervical (PCIA) já é utilizada em mais de 70% das inseminações realizadas em porcas adultas, embora sua aplicação em leitoas ainda enfrente limitações práticas, como diferenças anatômicas e exigência de maior habilidade técnica.
IA pós-cervical: eficiência, desafios e oportunidades
A IA pós-cervical representa uma evolução em relação à técnica tradicional, com benefícios diretos à eficiência reprodutiva e ao manejo diário. O método utiliza menor volume e concentração da dose inseminante, dispensando a necessidade de macho durante o processo e reduzindo significativamente o tempo de inseminação.

Figura 1 – Comparativo entre as taxas médias de prenhez obtidas com a inseminação tradicional e a inseminação artificial pós-cervical em marrãs (PCIA). Observa-se incremento de 5 pontos percentuais em favor da PCIA, demonstrando maior eficiência do método. Fonte: Dados experimentais do Projeto Fontana/Universidade de Passo Fundo (2024, dados não publicados).
Entre as principais vantagens, destacam-se:
Maior eficiência no uso do sêmen, com redução de volume e concentração espermática por dose
Redução de custos operacionais e melhor aproveitamento genético de machos superiores
Aumento das taxas de concepção e prenhez, com menor tempo de execução da IA
Redução do estresse nas fêmeas e otimização da rotina de trabalho
Padronização dos protocolos e ganho de produtividade por operador

Figura 2 – Tempo médio de inseminação (em segundos) comparando o método tradicional e o pós-cervical em marrãs. A PCIA apresentou redução significativa, indicando maior agilidade e uniformidade no processo. Fonte: Dados experimentais do Projeto Fontana/Universidade de Passo Fundo (2024, dados não publicados).
Técnica
Contudo, a implementação da técnica requer treinamento avançado, sêmen de alta qualidade e dispositivos adequados ao trato reprodutivo de marrãs, que apresentam maior sensibilidade anatômica. “A PCIA exige técnica e controle. Quando bem aplicada, proporciona segurança, velocidade e uniformidade nas inseminações, com resultados reprodutivos superiores”, afirma Zanella.
Evidências práticas: resultados do Projeto Fontana/UPF (RS, 2024)
A viabilidade técnica da IA pós-cervical em leitoas foi avaliada no Projeto Fontana – T1, realizado na Granja Fontana, em Charrua (RS), com 2.500 matrizes. O estudo comparou o uso da Inseminação Pós Cervical (PCIA) com a inseminação tradicional em condições de campo, totalizando 213 inseminações, sendo 112 tradicionais e 101 pós-cervicais.
Os resultados foram expressivos:
100% de taxa de passagem do cateter pós-cervical
0% de ocorrência de lesões no trato reprodutivo
Taxa de prenhez de 93% na PCIA, contra 88% na inseminação tradicional
Tempo médio de inseminação de 88,4 segundos, significativamente menor e mais uniforme que os 114 segundos observados no método convencional
Número médio de leitões nascidos vivos semelhante entre os grupos: 13,2 (PCIA) vs. 13,7 (tradicional).

Figura 3 – Número médio de leitões nascidos vivos por fêmea inseminada. O desempenho reprodutivo foi estatisticamente semelhante entre os métodos, comprovando a viabilidade da PCIA para leitoas. Fonte: Dados experimentais do Projeto Fontana/Universidade de Passo Fundo (2024, dados não publicados).
Viável
Esses dados reforçam que a técnica é plenamente viável para uso em leitoas, desde que aplicados protocolos padronizados e profissionais capacitados. A uniformidade no tempo de aplicação e o alto índice de prenhez indicam maior previsibilidade operacional e melhor eficiência de manejo, fatores determinantes para o sucesso em granjas de médio e grande porte.
Precisão e tecnologia a favor da reprodução
O avanço das biotecnologias aplicadas à reprodução suína reflete a evolução de um setor que busca reduzir perdas e maximizar resultados com base em dados. Nesse cenário, o diagnóstico precoce de gestação por ultrassonografia complementa os ganhos da inseminação pós-cervical, permitindo decisões rápidas quanto ao reagrupamento de fêmeas vazias, ajuste de coberturas e controle sanitário.

Figura 4 – Crescimento da adoção da inseminação artificial pós-cervical (PCIA) no Brasil. A técnica passou de 10% em 2015 para 70% em 2023, consolidando-se como padrão de eficiência nas granjas tecnificadas. Fonte: Estimativas de mercado e literatura técnica. Elaboração IMV Technologies do Brasil (2025).
Tomada de decisões
“Mais do que um equipamento, o ultrassom de precisão se consolida como um aliado na tomada de decisões. Ele fornece dados confiáveis que favorecem o controle do ciclo reprodutivo e o aprimoramento dos indicadores zootécnicos”, reforça Zanella.
A integração entre diagnóstico precoce e inseminação eficiente forma a base de um manejo reprodutivo inteligente, onde cada etapa é orientada por informação técnica, previsibilidade e resultados mensuráveis.
Considerações finais
A inseminação pós-cervical representa um avanço consistente na reprodutividade da suinocultura moderna, oferecendo maior eficiência, menor custo e melhor aproveitamento genético. Quando aliada a tecnologias de diagnóstico precoce, amplia-se o potencial de controle produtivo e reprodutivo das granjas, fortalecendo a sustentabilidade econômica e biológica do sistema. “O futuro da reprodução suína passa pela integração entre conhecimento técnico, inovação e precisão. O objetivo é simples: gerar mais leitões com menos recursos, de forma segura, eficiente e sustentável”, enfatiza Zanella.
A consolidação dessas práticas depende da formação contínua de equipes, do monitoramento dos indicadores reprodutivos e do uso de tecnologias confiáveis, transformando dados em decisões e decisões em produtividade.




