Bovinos / Grãos / Máquinas
Dietas aniônicas no pré-parto ampliam índices produtivo, reprodutivo e de saúde das vacas
O conforto e manejo são primordiais para um parto tranquilo, além de estratégias nutricionais para minimizar possíveis distúrbios metabólicos
Artigo escrito por Beatriz Conte Venturelli, MSc. e gerente Técnica de Ruminantes da Poli-Nutri Nutrição Animal
Com a evolução da genética leiteira e o investimento na estrutura de todo o ciclo produtivo das vacas de leite, o período de transição é o mais delicado a ser trabalhado em uma fazenda. O período de transição compreende três semanas pré-parto até três semanas pós-parto e define o ciclo produtivo, reprodutivo e de saúde dos animais. No pré-parto e pós-parto são necessárias estratégias com protocolos bem definidos e funcionários bem treinados para cuidar desses animais. O conforto e manejo são primordiais para um parto tranquilo, além de estratégias nutricionais para minimizar possíveis distúrbios metabólicos.
A estratégia nutricional mais utilizada é a dieta aniônica no pré-parto. A dieta aniônica consiste no fornecimento de sais aniônicos com base em sulfatos e cloretos para negativar o balanço cátion-aniônico da dieta (DCAD). Dietas com níveis altos de sódio e potássio resultam em alcalose metabólica. Devido a isso, as vacas no pré-parto têm a habilidade de manter a homeostase de cálcio comprometida por reduzir a responsividade do tecido ao paratohormônio (PTH).
Com o comprometimento dos níveis séricos de cálcio, os animais podem apresentar o quadro de hipocalcemia clínica (febre do leite) ou a hipocalcemia “subclínica” em que as vacas não apresentam os sintomas de hipocalcemia, mas com os baixos níveis de cálcio, a capacidade de contração muscular fica reduzida e ocorre uma imunossupressão. Com isso, a motilidade dos tratos digestivo e reprodutivo são menores e as vacas podem apresentar concomitantemente retenção de placenta, metrite, deslocamento de abomaso e mastite.
Lean e colaboradores (2006) fizeram uma meta-análise, da diferença cátion aniônica das dietas e seu efeito sobre a incidência de hipocalcemia em vacas leiteiras. Eles verificaram as diferentes equações citadas na literatura e a equação usada por Block DCAD = (Na+ + K+) – (Cl- + S2-) mostrou ser efetiva. Mostraram também que apenas o DCAD (equação citada por Block, 1984) não é suficiente para minimizar a incidência de hipocalcemia, outros minerais e o tempo de exposição à dieta aniônica também influenciam na incidência e montaram um modelo de predição da incidência de hipocalcemia.
A utilização deste modelo na formulação de dietas para vacas no pré-parto mostra que o cálcio, fósforo e magnésio influenciam na incidência de hipocalcemia. Portanto é necessário o balanceamento correto desses minerais.
Em relação ao tempo de exposição a dieta, Lean e colaboradores mostraram em sua meta-análise que amentando o tempo de exposição a dieta de 20 para 30 dias, aumenta o risco de hipocalcemia em 42%. Weich e colaboradores (2013) analisaram o tempo de exposição à dieta aniônica de até 42 dias para evitar o manejo excessivo no pré-parto e minimizar os efeitos do estresse em novas socializações com rearranjos dos lotes. Eles verificaram que o efeito na produção pós-parto, balanço energético e homeostase de cálcio das vacas de leite que foram alimentadas durante 42 dias foi semelhante às vacas alimentadas apenas com 21 dias. No estudo, houve o acompanhamento de distúrbios metabólicos e no grupo controle foram relatos 16 vacas com problemas, no grupo que foi alimentado apenas 21 dias com a dieta aniônica foram relados dez vacas e no grupo alimentado com 42 dias com a dieta aniônica foram relatados 12 vacas.
O estresse de nova socialização também compromete o manejo e o conforto dos animais, mas os benefícios encontrados fazendo um lote pré-parto consumindo a dieta aniônica com uma média de consumo de lote de 20 dias é adequado para evitar os distúrbios metabólicos.
Com relação aos níveis de cálcio na dieta, Goff e Horst (1997) propuseram que reduzir em aproximadamente 50 g/dia o cálcio da dieta haveria a prevenção de hipocalcemia, mas seria combinado com a redução de potássio que teria um efeito estimulatório na homeostase do cálcio em dietas de baixo cálcio. Essa pesquisa também relata que para estimular a homeostase de cálcio como prevenção da hipocalcemia a dieta teria que ter a restrição abaixo de 20 g/dia de cálcio. Lean e colaboradores verificaram resultados diferentes e um efeito quadrático em relação à concentração de cálcio na dieta e a incidência de hipocalcemia. Ao aumentar de 0,5 a 0,6% a concentração de cálcio na dieta, estima-se aumentar em 37% o risco de hipocalcemia. Eles relatam não estar claro o mecanismo de prevenção de hipocalcemia ao utilizar dietas com alta concentração de cálcio, mas sugerem que seria por um processo de absorção passiva do cálcio em combinação com dietas de baixo DCAD.
Em uma observação de campo realizada na Fazenda Recanto Grão Mogol, Carmo do Rio Claro (MG), com 24 vacas no pré-parto no período de 17 de novembro a 27 de dezembro de 2012, as vacas receberam dieta aniônica com base de forragem, silagem de milho e 3kg/vaca/dia de ração constituída por milho moído, farelo de soja e núcleo aniônico. Foram coletadas amostras de sangue no dia do parto e 24 horas após o parto para verificar a concentração de cálcio sérico dos animais.
O teor de Ca sanguíneo no dia do parto foi 8,16±0,77 mg/dL e 24 horas após o parto foi 7,85±0,83 mg/dL. O menor valor observado ao parto foi 6,89 mg/dL e o mais alto foi 9,59 mg/dL. No dia posterior ao parto os valores mínimo e máximo foram 6,65 e 9,97 mg/dL, respectivamente. A proporção de animais com teor de Ca igual ou superior a 8 mg/dL foi de 54,2% no dia do parto e 29,2% no dia posterior ao parto, mas valores extremamente baixos (<5,5 mg/dL) não foram observados. Nenhum caso de hipocalcemia clínica foi observado.
Esse resultado observado na data do parto foi semelhante aos resultados encontrados por DeGroot e colaboradores (2010). Eles observaram que as vacas que foram alimentadas com a dieta controle não-aniônica tiveram queda do cálcio sérico a partir do quinto dia pré-parto, diferente das vacas alimentadas com dietas aniônicas que tiveram a queda do cálcio esperada no dia do parto com valores de 7,5 a 8 mg/dL.
A hipomagnesemia influência na homeostase de cálcio em dois aspectos: 1) por reduzir a secreção de PTH, e 2) por reduzir a responsividade do tecido ao PTH. Sua influência é independente da alcalose metabólica, então baixos valores séricos de magnésio comprometem a absorção do cálcio.
Portanto, devemos analisar os níveis de minerais, nos ingredientes da dieta, que podem favorecer a ocorrência de distúrbios metabólicos, principalmente o cálcio e potássio que se encontram em maior quantidade em forragens e coprodutos utilizados nas dietas brasileiras.
Para formular uma dieta aniônica, muitos fatores devem ser levados em consideração. O consumo de matéria seca das vacas no pré-parto tende a diminuir com a aproximação do parto, com isso fazer as vacas consumirem o núcleo aniônico é fundamental para a eficiência da dieta.
Outro fator é o conhecimento das matrizes nutricionais dos ingredientes utilizados na dieta aniônica. Para a formulação é importante conhecer o manejo da propriedade para saber se as vacas terão acesso a pastagens ricas em potássio ou utilizarão coprodutos como polpa cítrica rica em cálcio assim, nutricionalmente, a dieta pode ficar equilibrada, mas o DCAD ficar comprometido e o risco de incidência de hipocalcemia ficar alto.
O monitoramento da dieta aniônica pode ser feito por meio do pH urinário e deve ser mensurado nas vacas que estão ingerindo a dieta aniônica a pelo menos cinco dias até três semanas. Após esse período o metabolismo da vaca compensará essa acidificação.
A estratégia nutricional de usar dietas aniônicas é uma ferramenta nutricional bastante eficaz. Com a diminuição dos distúrbios metabólicos no rebanho, além do produtor gastar menos com procedimentos veterinários e medicamentos, os animais ficam sadios para um bom ciclo produtivo e reprodutivo. No experimento conduzido por DeGroot e colaboradores (2010), as vacas leiteiras que consumiram dietas aniônicas durante o período de transição pré-parto, no pós-parto obtiveram maior produção de leite e consumo de matéria seca.
Isso mostra que todo investimento feito sobre as vacas de leite são recompensados com bom manejo e alimentação. A genética avançou para tornar as vacas de leite rentáveis, basta os pilares do manejo e nutrição colaborarem para o excelente desempenho desses animais.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2016 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


