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Dias de Campo da Embrapa mostram eficiência dos sistemas integrados e a importância da agricultura sustentável
O 14º Dia de Campo sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em Ipameri (GO) reuniu cerca de mil pessoas, com a retomada do evento presencial após a pandemia. Com foco na produção sustentável e no mercado de carbono, foram apresentados dados que comprovam a eficiência do sistema.

“É possível produzir mais, ganhar mais dinheiro e produzir de forma mais sustentável” – assim os pesquisadores Robélio Marchão e Roberto Guimarães resumiram a experiência da Fazenda Santa Brígida, referência em intensificação sustentável. O 14º Dia de Campo sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em Ipameri (GO) reuniu cerca de mil pessoas, com a retomada do evento presencial após a pandemia. Com foco na produção sustentável e no mercado de carbono, foram apresentados dados que comprovam a eficiência do sistema.
William Marchió, consultor da Fazenda Santa Brígida, mostrou aos participantes os lucros por hectare obtidos na propriedade: soja – R$ 5,2 mil; soja e boi-safrinha – R$ 9,38 mil; boi intensivo – R$ 9,4 mil – o que equivalente a 54 arrobas por hectare, um resultado inédito, garante o consultor.
Durante sua apresentação, o próprio palestrante indagou o público: “Se soja e boi-safrinha dão o mesmo retorno econômico que a pecuária intensiva, por que investir na segunda opção?”. A resposta sai do óbvio: “O motivo é mais nobre que esse”. Ele explica que o boi faz a ciclagem de nutrientes e aumenta a quantidade de bactérias benéficas presentes no solo e o pastejo estimula a produção de raízes. “O Zuri produz muita raiz, de 15 a 20 toneladas de matéria orgânica por hectare por solo”, exemplifica. Ele completa: “Essa ciclagem é extremamente importante porque nós vamos sequestrar CO2. Apesar de não estar recebendo nada por isso, nós sequestramos. Um dia quem sabe?”.
Esse dia pode estar bem próximo. A Associação Rede ILPF está trabalhando para que o sistema integrado faça parte do mercado de carbono. Em 2022, o mercado regulado movimentou US$ 865 bilhões no mundo, com tendência de alta no crescimento. Nesse cenário, a América Latina é a região com melhores condições de participar desse mercado, com destaque para o potencial brasileiro, garantem os especialistas.
Para fortalecer a participação do Brasil, a Embrapa tem apostado na intensificação sustentável para aumentar a eficiência dos sistemas de produção. A partir dela, surgiram conceitos como o da carne carbono neutro e da soja baixo carbono, que conferem um selo aos produtos que não emitem carbono ao longo de sua cadeia, com maior valorização no mercado, principalmente internacional.
Essa mesma proposta pode ser estendida a outros produtos, reforça o pesquisador da Embrapa Cerrados, Robélio Marchão: “A Embrapa vem trabalhando em metodologias e protocolos de boas práticas adotadas pela propriedade para certificar as commodities. Para a soja, por exemplo, vamos ter um selo para garantir que ela é produzida de forma mais sustentável”, destacou.
“E por que estamos preocupados com o carbono?”, questiona. Apesar de essa ser uma preocupação global, o pesquisador lembra que o Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa e que cerca de 28% dessa emissão está ligada à atividade agropecuária. “Apesar de esse ser um problema, também pode ser uma grande oportunidade para o setor”, garante. Os pesquisadores Roberto Guimarães Júnior e Robélio Marchão também apresentaram dados de produtividade animal em situações diversas: em pastos de baixa produtividade – 350 gramas/animal/dia; pasto intermediário – 450 gramas/animal/dia; sistema Integração Lavoura-Pecuária – 600 gramas/animal/dia.
Com esses dados, é possível afirmar que os sistemas integrados contribuem para mitigar o impacto ambiental do setor agropecuário a partir da redução da idade de abate dos animais. “Aumentando a eficiência do sistema com a melhoria da condição do pasto, o que significa que o animal terá uma dieta de melhor qualidade, reduzimos a idade de abate desse animal, que vai ficar menos tempo no sistema. Na primeira condição, o abate levaria 44 meses. Na integração, com um resultado conservador, o abate ocorre com 28 meses”, explicam.
Na atividade agrícola, os ganhos se refletem na produtividade. “A análise de trabalhos conduzidos em fazenda e em áreas experimentais, durante 16 ciclos de cultivo, revelou que nas áreas com presença de gramíneas forrageiras como planta de cobertura, a produtividade média foi de onze sacos a mais de soja, o que dá R$ 1,6 mil a mais por hectare simplesmente pelo fato de se fazer a rotação com pastagens”, garante.
O caso da Fazenda Santa Brígida
Em 2006, Marize Porto procurou para Embrapa em busca de soluções para as áreas de pastagem degradada em sua fazenda e ouviu dos especialistas que usando a agricultura ela viabilizaria a renovação das suas pastagens, como conta o consultor da fazenda, Roberto Freitas, que apresentou aos participantes a trajetória de intensificação sustentável da fazenda, de uma predominância de pastos degradados para o sistema ILPF.
E Marchió estava certo ao afirmar que existem outros motivos para adoção dos sistemas integrados, além do retorno econômico. Pesquisadores da Embrapa Cerrados atestaram melhoria dos índices relacionados à saúde do solo da fazenda Santa Brígida após a adoção de boas práticas, o que mostra a evolução do sistema. “Aqui na fazenda santa Brígida, eu consigo ver o que está acontecendo a partir de uma análise de solo convencional. A condição da fazenda, quando a Marize Porto [proprietária da fazenda] começou esse trabalho, era de pastos com baixa produtividade, bastante antigos. Após seis anos utilizando sistemas integrados e outras tecnologias da Embrapa, ela já conseguiu agregar matéria orgânica ao solo, com o índice passando de 1,8 para 3,2”, explicou o pesquisador Robélio Marchão.
Para entender melhor o sistema, Marchió apresentou informações sobre o manejo adotado na propriedade. Foram vários os questionamentos dos participantes: “Como é feita a rotação na fazenda Santa Brígida?” Qual é o prazo que o gado fica no campo?”. Em cada resposta, o consultor deu detalhes específicos do trabalho realizado. “Nós plantamos o milho com o [capim] Zuri. Aí colhemos o milho e fica o pasto. A partir daí, fazemos a rotação. Essa é a maneira mais barata de se fazer isso. Durante três anos, o gado pasta no campo. Depois da seca, a pastagem é dessecada e a lavoura é instalada com plantio direto”.
Marchió conclui: “Hoje, aqui na Santa Brígida, não conseguimos mais dissociar o boi da agricultura. A pecuária é parte da solução ambiental. Com o boi, conseguimos neutralizar a produção, conseguimos ser neutros em carbono quando intensificamos a produção. O boi é parte da solução e não um problema para o nosso País”. A participante Maria Inês da Cunha, que atua no setor de insumos agrícolas, concorda: “Essa é a única forma que a pecuária tem para sobreviver. A lavoura vai fazer com que a pecuária tenha uma nova vida”.
Uso de bioinsumos como ferramenta de intensificação
Outra tecnologia abordada durante o Dia de Campo foi o uso bioinsumos que que possibilitam a captura do nitrogênio do ar e sua fixação no solo. O pesquisador da Embrapa Soja, Marco Antônio Nogueira, abordou a importância das bactérias para os sistemas integrados: “A inoculação de gramíneas, no caso do milho e do trigo, aumentou em 24% a produtividade em sistemas com baixo nível tecnológico. Em áreas com maior nível tecnológico, o ganho médio de produtividade é maior do que 5%, com ganhos no teor foliar acima de 4% e no teor de nitrogênio nos grãos de 3,6%”.
A inoculação será uma estratégia adotada na Santa Brígida em 2024. “Vamos usar o Azospirilum. Três aplicações dele custam 10% do valor da ureia e entrega 40 quilos de nitrogênio”. O consultor William Marchió conta que o produto vai substituir a ureia. O inoculante trará ganhos em nitrogênio, com redução no custo de produção, e ainda com a vantagem de ser um produto natural para substituir um químico.
Outro aspecto da tecnologia para o qual poucas pessoas se atentam é a quantidade de raízes, reforça Nogueira. O uso de inoculantes possibilita um aumento médio da produção de raízes da ordem de 12%. Em 2022, foram comercializadas mais de 10 milhões de doses do inoculante com Azospirillum, bactérias que estão sendo usadas nos produtos próprios para gramíneas.
O pesquisador conta que no ano passado, devido aos preços e à dificuldade de acesso aos fertilizantes nitrogenados, a pesquisa recomendou a redução de 25% da adubação nitrogenada de cobertura e o uso da inoculação. Os resultados mostraram que esse ajuste não causa perda de produtividade. “Isso ocorre devido a um grande aumento da área de raízes que esses microrganismos promovem, que conseguem explorar melhor o solo em busca de água e nutrientes, inclusive nutrientes de alta mobilidade, como o nitrogênio”, explica.
Com a redução da adubação, a economia para o produtor foi de R$ 260 por hectare. “Outro aspecto muito importante que precisamos ressaltar cada vez mais: ele deixou de emitir mais de 200 quilos por hectare de CO² equivalente. É uma coisa que vamos ter que colocar na balança dos benefícios dos nossos sistemas de produção”.
Estudantes aprendem sobre produção de alimentos com sustentabilidade
A Fazenda Santa Brígida também abriu a porteira para que mais de 100 estudantes do Ensino Fundamental de três escolas da rede municipal local pudessem experienciar como a agricultura pode, ao mesmo tempo, produzir alimentos e preservar o meio ambiente. Com idades entre nove e 11 anos, alunos do Centro Municipal de Ensino e Treinamento João Marcelino, do Centro Integral de Educação Municipal Michele Santinoni e da Escola Municipal Demóstenes Cristino participaram de um dia de campo na manhã do dia 24 de março, evento promovido pela Rede ILPF e que contou com apresentações da equipe da Embrapa Cerrados (DF) e o plantio de mudas de espécies nativas do Cerrado.
Na primeira estação, o supervisor de Transferência de Tecnologia da Unidade, Sérgio Abud, falou sobre a sustentabilidade da agropecuária e a importância do campo para a cidade. Ele lembrou que a agricultura começou a se desenvolver a partir do crescimento da população humana – o homem aprendeu a cultivar e a colher observando a natureza e, em seguida, a armazenar o alimento, levando à criação das cidades. “Hoje, há muito mais gente nas cidades que no campo, que precisa produzir o alimento de forma que o ambiente consiga continuar produtivo para as gerações do futuro”, disse, destacando a importância de se fazer agricultura onde for possível e preservar os ambientes que não podem ser mudados de lugar, como a Floresta Amazônica e o Pantanal.
Abud lembrou que a população mundial deverá ser de quase 10 bilhões de pessoas em 2050, e o agricultor brasileiro tem a responsabilidade de alimentar o País e o mundo. Para que não falte alimento até lá, é preciso praticar uma agricultura sustentável, ou seja, que permite a produção agropecuária com preservação ambiental e geração de empregos. “Temos que entregar para as próximas gerações um ambiente igual ou, de preferência, melhor que o que temos hoje”, disse.
O supervisor destacou a importância da proteína na alimentação humana e que o Brasil é o maior produtor mundial de soja, leguminosa rica em proteína, assim como o feijão. Já o milho e o arroz são ricos em carboidratos. “Se misturarmos o milho com a soja ou o arroz com o feijão, temos um alimento rico em carboidrato e proteína. Precisamos também produzir e nos alimentar de frutas e verduras, alimentos reguladores, que farão o nosso organismo funcionar bem”, comentou.
Um desafio apontado por Abud é o controle das pragas que se alimentam das plantas que o ser humano consome. “Como hoje plantamos em larga escala, a população dessas pragas aumentou, e o homem passou a usar inseticidas, fungicidas etc. Se usarmos inseticida de forma desorganizada, vamos matar os insetos-pragas, mas também os inimigos naturais, que se alimentam desses insetos-pragas”, exemplificou.
Ele salientou a importância do monitoramento da lavoura e do manejo integrado de pragas, estratégia que contempla diversas táticas como a rotação de cultivos e o controle biológico antes que se utilize produtos químicos. “Podemos usar o inseticida, mas temos que saber o momento certo e a quantidade certa de usá-lo. Dessa forma, não teremos o problema de matar os inimigos naturais e produziremos mais alimentos”, disse, acrescentando que os defensivos são formulados na dose recomendada para que não causem prejuízo aos inimigos naturais nem favoreçam a seleção de populações de pragas resistentes aos produtos.
“Toda ação que o agricultor faz no campo tem que ser integrada. Biológico sempre, químico quando for necessário. Assim, nós que estamos na cidade receberemos um alimento saudável”, finalizou.
Importância do solo e o uso dos sistemas integrados
A pesquisadora Helenice Gonçalves apresentou o tema “Solo, substrato vivo: a interação da conservação do solo com a preservação da água”. “A vinda de vocês à fazenda é muito importante, porque vocês são os agentes do futuro. Vocês estarão em nosso lugar daqui a uns anos e são o nosso foco para que o mundo se torne um lugar melhor e mais sustentável”, disse aos estudantes, salientando a necessidade de garantir o futuro das próximas gerações.
Após pedir às crianças que fechassem os olhos e percebessem o ambiente à sua volta, a pesquisadora explicou a importância do solo. “Como ele está abaixo dos nossos pés, geralmente não prestamos atenção. Mas o solo é fundamental para tudo o que está aqui hoje exista. É dele que as plantas se alimentam e é das plantas que nós sobrevivemos”, disse.
A Fazenda Santa Brígida está localizada no Cerrado, segundo maior bioma do Brasil em extensão. Helenice apontou um aspecto importante do Cerrado para a produção de alimentos: “Estamos na estação chuvosa, quando ocorre o máximo da pujança da agricultura no Bioma. E a chuva é fundamental para que a agricultura seja bem praticada aqui. O agricultor que não tem condição de irrigar trabalha 100% dentro da estação chuvosa”.
A pesquisadora enfatizou que o solo regula o ciclo da água. “A água da chuva precisa penetrar no solo, e em muitos locais ela não consegue achar uma entrada. Significa que o solo não está conseguindo absorvê-la. Isso é muito ruim para as plantas e para nós. Por isso, é preciso praticar uma agricultura sustentável”.
O solo apresenta três tipos de características fundamentais: física (corpo do solo), química (nutrientes) e biológica (microrganismos). Uma agricultura praticada de forma sustentável permite a saúde do solo nessas três dimensões. Nesse sentido, Helenice explicou que a fazenda adota sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), com produção de madeira (árvores), capim, animais e culturas anuais como soja e milho.
“Potencializamos o uso da área utilizando os sistemas integrados. Quando o milho que vocês estão vendo for colhido, vai ficar o capim. Na seca, ele ainda estará verde e vai alimentar o gado. E, melhor ainda, os animais têm a sombra das árvores plantadas, que depois podem ser retiradas para uso da madeira e outros fins. Então, nessa mesma área, com tudo isso junto, o produtor consegue obter renda”, disse.
A pesquisadora apontou que práticas como o revolvimento do solo com arado, adotadas décadas atrás, não podem mais ocorrer. “Quando revolvemos o solo, ele fica exposto às chuvas, que criam buracos chamados voçorocas. Com isso, perdemos o solo. Levou 10 milhões de anos para que uma camada de 20 cm de solo fosse formada. Junto com essa camada de solo perdida, vai embora o adubo, que cai no rio e contamina a água, matando os peixes e o que mais houver nessa água, que depois vai para nossa casa. Então, o produtor consciente preserva a vida urbana”, argumentou.
Helenice citou a guerra na Ucrânia, que causou aumento no preço do adubo e, por consequência, encareceu os alimentos, para mostrar como a agricultura impacta nossas vidas. “Da mesma forma, se não preservarmos o Bioma Cerrado, vamos sentir mais calor, vai faltar água para nossa casa e nossos animais. A agricultura bem praticada interfere na vida urbana, por isso é importante vocês virem aqui conhecê-la”, afirmou, salientando que a agricultura sustentável é possível.
Plantio de mudas de espécies nativas e o papel das árvores
Na última estação, o engenheiro agrônomo Roberto de Freitas, consultor da fazenda, coordenou o plantio de mudas de espécies nativas do Cerrado, como ipê (amarelo, rosa, roxo e verde), cega-machado, sangra d’água e ingá de macaco, em uma área de recuperação ambiental da propriedade. Cada muda foi plantada por duas crianças.
Freitas explicou que os biomas contam com diferentes tipos de árvores, sendo que em cada um há regiões distintas, como matas de galeria e regiões mais altas, com espécies diferentes. “Cada bicho precisa de um tipo de árvore para se alimentar, e cada árvore precisa de um tipo de bicho para se reproduzir”, completou, citando o exemplo da cotia, que enterra parte das sementes das quais se alimenta, originando novas árvores. “Por isso, é importante, em cada lugar, plantar árvores que sejam do lugar, pois elas vão combinar com os bichos da natureza desse lugar. Tentamos, com isso, promover o equilíbrio”, concluiu.
O agrônomo também explicou que o local do plantio das mudas, próximo a um córrego, foi escolhido para recompor parte da mata original que foi derrubada e proteger o curso d’água. “Este lugar não deveria ter sido desmatado. Antigamente, a gente queria desmatar para plantar e não se preocupava com o que viria depois. Com o tempo, percebemos que isso foi um erro”, disse, citando problemas decorrentes, como as enchentes.
“Neste bosque, nem o gado entra mais. Além das mudas que vocês estão plantando, os bichos plantarão outras (com sementes), constituindo uma mata parecida com a que havia aqui”, anunciou, acrescentando que as árvores também precisam de outros animais, como borboletas e abelhas, para a polinização, o que permitirá a geração de frutos.
Ele lembrou que as águas do córrego abastecem a cidade de Ipameri. “Esta é outra razão de plantarmos as árvores aqui. Quando a mata cresce, a água das enxurradas entra no solo, é filtrada e chega limpa do outro lado. Além disso, essa infiltração, em vez de causar enchentes, vai fornecer água no período da seca. Há muitas minas d’água na beira desta mata e este plantio vai contribuir para preservar e aumentar essas minas”, explicou.
Freitas apontou, ainda, que a árvore, ao transpirar, retira água do solo e libera um vapor frio, que ameniza a temperatura ambiente. “Num inverno como o nosso, em que ficamos seis meses sem chuva, a árvore ajuda a controlar a umidade do ar”, completou o agrônomo.
Por fim, ele informou que os eucaliptos plantados na fazenda para o sistema de ILPF, apesar de não serem oriundos do Brasil, têm boa interação com a fauna local, além de reduzirem a pressão pelo desmatamento da mata nativa por fornecerem madeira.
Experiência gratificante
Segundo a proprietária da fazenda, Marize Costa, a ideia do dia de campo foi mostrar a alunos e professores que é possível produzir grãos, carne e preservar o planeta simultaneamente. “A gente se preocupa com a sustentabilidade da propriedade. Eles entenderam isso muito bem, gostaram do que viram e se divertiram”, disse a produtora. Ela destacou o caráter lúdico do plantio das mudas nativas do Cerrado: “As crianças se sentiram parte de um planeta com agricultura e pecuária sustentáveis e vão nos ajudar a conservá-lo. Além de inovadora, foi uma experiência muito gratificante”.
José Eustáquio da Cunha Júnior, diretor da Escola Municipal Demóstenes Cristino, demonstrou satisfação com o convite feito à instituição de ensino para participar do evento, uma vez que a proposta veio ao encontro dos projetos sustentáveis desenvolvidos na escola, envolvendo plantios de milho e feijão, reuso de água e produção de peixes.
“Trazer nossos alunos muito nos agrada porque este é um ambiente com aspecto totalmente sustentável. Trabalhamos a parte teórica e com miniprojetos em que os alunos desenvolvem a parte prática, mas não com a amplitude daqui da fazenda. Fazê-los caminhar e ver as coisas acontecerem em um projeto grande, ter contato com o meio ambiente, a interação com o agro, o gado, o plantio da soja e do capim e a preservação da água é muito gratificante”, afirmou o diretor.
Professora do Centro Integral de Educação Municipal Michele Santinoni, Denia Machado ficou contente por ter sido convidada a levar 20 alunos da 5ª série do Ensino Fundamental à Fazenda Santa Brígida. “Embora a gente more no interior, é uma experiência muito nova para os alunos e para nós. É algo que sai da sala de aula e nos traz para a realidade”, disse. “Eles vão embora hoje com aquele ‘gostinho de quero mais’, com vontade de cuidar mais do ambiente, da terra, dos animais, além do empreendedorismo, pois já temos um projeto na escola e agora eles viram que dá para unir o custo e o benefício da agricultura ao meio ambiente de uma maneira saudável”, completou.
Damares de Siqueira, Matheus Morais e Lucas Gabriel de Farias, alunos de Denia, curtiram a experiência do dia de campo, sobretudo o plantio das mudas. Damares, de 10 anos, ficou muito feliz quando soube do dia de campo. “Amo fazenda, gosto das árvores, pássaros, animais. Gostei mais da estação em que plantei com minha dupla um ipê amarelo e da estação que fala do solo, da natureza, da agricultura. Todos que puderem devem vir aqui, porque é muito legal saber mais sobre a natureza e a agricultura”, contou.
Já Matheus plantou uma muda de ingá de macaco. “Quero voltar aqui um dia para ver essa árvore grande”, afirmou o estudante de 10 anos. “Aprendi muitas coisas da fazenda e vou levar isso no meu coração. Achei muito gostoso (plantar a muda), podíamos fazer mais disso. Quero voltar depois para ver todas as mudas que nós plantamos”, disse Lucas, de 11 anos, que sonha em montar uma fazenda para a avó quando crescer.
Visão positiva do agronegócio
O evento contou com o apoio da associação De Olho no Material Escolar, por meio do projeto “Vivenciando a Prática”. A entidade busca fazer a ponte entre o setor agropecuário e a sociedade em geral, buscando ampliar o conhecimento de jovens e crianças sobre o agronegócio por meio da atualização do material escolar baseada em conteúdo científico. Um estudo feito pela associação mostrou que 60% do material didático escolar brasileiro está comprometido com um olhar negativo sobre a agricultura.
Luciana Basto, integrante da entidade, destaca que o sistema educacional pode contribuir para o agronegócio, e que eventos como o dia de campo na Fazenda Santa Brígida ajudam a desmistificar o que acontece dentro das porteiras. “Precisamos que os professores e os alunos tenham uma visão positiva, e é isso que queremos levar com o projeto, mostrando que ninguém no agronegócio quer desmatar ou aplicar defensivos de forma equivocada, mas entregar um alimento limpo e saudável para a população”, afirmou.

Colunistas
Com crescimento de 10% ao ano, mercado global de cogeração deve atingir US$ 49 bilhões até 2029
Estudo aponta avanço dos equipamentos impulsionado por eficiência energética e metas climáticas, enquanto o Brasil já soma 18,7 GW em biomassa, com predominância do bagaço de cana.

Em um cenário global pressionado simultaneamente pela escalada da demanda por energia, pela volatilidade dos preços e pela urgência climática, poucas soluções reúnem tantos atributos positivos quanto a cogeração. Não por acaso, o mercado mundial de equipamentos do setor vive um momento de forte expansão.
Segundo estudo recém-divulgado pela Research and Markets, consultoria global sediada em Dublin, na Irlanda, o movimento da geração cresceu de US$ 29,6 bilhões em 2024 para US$ 32,5 bilhões em 2025, com taxa anual próxima de 10%. Montante deverá alcançar US$ 49 bilhões até 2029. Trata-se de uma resposta estrutural a desafios centrais da transição energética.
A cogeração parte de um princípio simples e poderoso: com um único combustível é possível fornecer mais de um tipo de energia, como a elétrica, térmica e gás de processo. Ao elevar significativamente a eficiência dos sistemas, reduz perdas, diminui custos operacionais e proporciona mais resiliência ao setor elétrico, contribuindo para evitar apagões e diminuir emissões de carbono. Em um cenário de consumo energético crescente, esse ganho de eficiência deixa de ser apenas desejável e passa a ser estratégico.

Foto: Divulgação
O estudo da Research and Markets mostra que o avanço da cogeração está diretamente associado à busca por eficiência energética, retorno sobre investimento e atendimento a regulações ambientais cada vez mais rigorosas.
No horizonte à frente, entram em cena outros vetores igualmente relevantes: integração com fontes renováveis, sistemas descentralizados de energia, digitalização e uso de tecnologias inteligentes. Não é coincidência que grandes grupos industriais estejam apostando em soluções capazes de operar com gás natural, biomassa e biogás, combinando confiabilidade operacional com redução progressiva da pegada de carbono.
Esse movimento revela mudanças importantes no debate climático. A transição energética não se fará apenas com a expansão da oferta renovável centralizada, mas também com soluções que aumentem a eficiência do sistema como um todo, aproximem geração e consumo e reduzam a pressão sobre redes e investimentos em infraestrutura. A cogeração ocupa exatamente esse espaço, reforçando a segurança do suprimento, reduzindo riscos sistêmicos e entregando resultados ambientais mensuráveis no curto prazo.
O caso brasileiro ilustra bem esse potencial. Dados da Cogen (Associação da Indústria de Cogeração de Energia) mostram que o modelo, em especial a partir da cogeração com biomassa, cresce em importância na matriz elétrica nacional.
Em 2025, a capacidade instalada de biomassa alcançou cerca de 18,7 GW, dos quais aproximadamente 70% têm origem no bagaço de cana-de-açúcar. Outras fontes relevantes incluem licor negro (21%), madeira (6%), biogás (2%) e outras biomassas (1%). Trata-se de uma fonte energética fortemente associada à atividade industrial e ao agronegócio, com elevado grau de previsibilidade e baixo impacto ambiental.
A evolução ao longo das últimas duas décadas foi expressiva. Em 2005, a capacidade instalada de biomassa era cerca de 5 GW. Desde então, o crescimento foi contínuo, impulsionado principalmente pela cogeração no setor sucroenergético.
Além de atender ao consumo interno, a biomassa contribui de maneira relevante para a exportação de energia elétrica, reforçando o papel da cogeração como segurança energética. Importante ter em conta que as exportações de energia elétrica bateram recorde em 2025: foram de 28,8 TWh, ante o recorde anterior, que foi de 28,2TWh, em 2023.
Do ponto de vista regional, São Paulo lidera com folga, concentrando cerca de 7,9 GW de capacidade instalada, seguido por Mato Grosso do Sul (2,5 GW) e Minas Gerais (2,2 GW). Esse mapa reflete a integração virtuosa entre produção industrial, geração de energia e aproveitamento de resíduos, um modelo alinhado tanto à lógica econômica quanto às exigências da agenda climática.
Em um país com matriz elétrica majoritariamente renovável, a cogeração cumpre um papel ainda mais relevante: aumenta a segurança energética do sistema, reduz a necessidade de despacho térmico fóssil em momentos críticos e contribui para a descarbonização de setores intensivos em energia.
O avanço global e a experiência brasileira mostram que a cogeração afirma-se como peça-chave para uma transição energética pragmática, que combina inovação, eficiência e resultados concretos. Em tempos de incerteza climática e pressão sobre os sistemas elétricos, soluções que entregam tudo isso ao mesmo tempo precisam estar sempre no centro das decisões de política energética e industrial.
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Depois de cair 12,17%, fretes de soja sobem 30,99% na primeira quinzena de março
Apesar da oscilação no ritmo dos embarques, o volume total transportado entre 1º de fevereiro e 15 de março variou apenas 1,04% no país.

As chuvas nas principais regiões produtoras em fevereiro reduziram o ritmo de escoamento da soja e provocaram queda relevante na contratação de fretes no período. Em março, mesmo com instabilidade climática, o transporte reagiu com forte aceleração. O movimento é apontado por levantamento da Frete.com, que monitora a dinâmica do transporte rodoviário de cargas no país.
Segundo a plataforma, o volume de fretes de soja recuou 12,17% no Brasil em fevereiro de 2026 na comparação anual. No Centro-Oeste, principal polo produtor, a retração foi de 11,96%. O recuo não indica menor produção, mas atraso logístico causado pelas condições de campo, que dificultaram colheita, carregamento e circulação de caminhões.
Com a melhora operacional, a contratação de fretes acelerou em março. Na primeira quinzena, o volume avançou 30,94% no Brasil e 30,99% no Centro-Oeste frente ao mesmo período de 2025, refletindo a necessidade de recompor o fluxo de escoamento.
Apesar da oscilação entre os meses, o acumulado entre 1º de fevereiro e 15 de março permaneceu praticamente estável. No Brasil, houve leve alta de 1,04% no volume transportado, enquanto no Centro-Oeste a variação foi negativa em 0,48%.
Para Roberto Junior, gerente executivo de Inteligência de Negócios da empresa, o comportamento caracteriza um efeito clássico de demanda reprimida. As chuvas reduziram a capacidade operacional em fevereiro e, quando as condições permitiram, o sistema logístico acelerou para compensar o atraso, concentrando o transporte em março.
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Soja varia de 40 a 100 sacas por hectare nas áreas da C.Vale sob efeito do La Niña
Plantio antecipado no Paraná, contrastes climáticos no Centro-Oeste e nova estiagem no Rio Grande do Sul explicam a amplitude de resultados na safra 2025/26.

A influência do La Niña esteve presente ao longo da safra 2025/26 de soja nas regiões de atuação da Cooperativa C.Vale, mas o comportamento do clima foi determinante para resultados muito distintos entre estados, municípios e até dentro das mesmas propriedades. Houve áreas com produtividades de 80, 90 e até 100 sacas por hectare, enquanto outras ficaram próximas de 40 sacas, refletindo a irregularidade das chuvas, a ocorrência de granizo, estiagens prolongadas e, em alguns casos, excesso hídrico no final do ciclo.
No Paraná, produtores das regiões mais quentes conseguiram antecipar o plantio logo no início de setembro, na abertura do zoneamento agrícola. A fase inicial foi favorecida por chuvas regulares, mas a partir do final do ano as precipitações passaram a ocorrer de forma mais espaçada e localizada, gerando grande variação de rendimento. “Tivemos produtividades de 80, 90 e até 100 sacas por hectare, mas na média, o rendimento ficou entre 65 e 70 sacas”, afirma Fernando Taffarel Zanelato, supervisor do Departamento Agronômico da C.Vale.
Em Campo Mourão, no Centro-Oeste paranaense, o produtor Claudir Bernardi cultivou 194 hectares de soja. A lavoura foi atingida por granizo, o que exigiu o replantio de 150 hectares. Ao longo do ciclo, ele realizou controle de percevejos e três aplicações de fungicidas. O rendimento final ficou em 65 sacas por hectare.
Centro-Oeste com realidades opostas

Consultor técnico Diórgenes Rossi e o produtor Claudir Bernardi examinam planta na lavoura antes da colheita – Foto: Divulgação/C.Vale
No Mato Grosso do Sul, o comportamento climático foi marcado por contrastes. Regiões da metade Sul do estado, abaixo de Campo Grande, enfrentaram estiagens e temperaturas elevadas. Já a metade Norte, em áreas como Chapadão do Sul, recebeu volumes regulares e expressivos de chuva.
Os produtores sul-mato-grossenses cultivaram 4,7 milhões de hectares com soja nesta safra. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento era de produtividade média de 52,8 sacas por hectare no estado. “A região Sul do Mato Grosso do Sul teve produtividade aproximadamente 40% superior à da safra 2024/25”, aponta Jeferson Salattti, gerente regional da cooperativa no Mato Grosso do Sul.
No Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, o clima foi favorável até praticamente o encerramento do ciclo. A partir de fevereiro, porém, chuvas intensas e prolongadas afetaram a qualidade e o peso dos grãos. Cultivares mais sensíveis sofreram com doenças de final de ciclo e perderam rendimento. “A produtividade média foi inferior à da safra passada justamente em função dessas chuvas”, avalia Renato Rambo, gerente regional da cooperativa no estado.
Estiagem impacta safra gaúcha
No Rio Grande do Sul, o padrão climático dos últimos anos voltou a se repetir. A estiagem atingiu as lavouras novamente, com impacto mais severo nas áreas da Fronteira Oeste. As chuvas retornaram na segunda quinzena de fevereiro e interromperam temporariamente as perdas, mas um novo período seco se instalou entre o final de fevereiro e o início de março, limitando a recuperação produtiva das áreas afetadas.





