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Dias de Campo da Embrapa mostram eficiência dos sistemas integrados e a importância da agricultura sustentável
O 14º Dia de Campo sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em Ipameri (GO) reuniu cerca de mil pessoas, com a retomada do evento presencial após a pandemia. Com foco na produção sustentável e no mercado de carbono, foram apresentados dados que comprovam a eficiência do sistema.

“É possível produzir mais, ganhar mais dinheiro e produzir de forma mais sustentável” – assim os pesquisadores Robélio Marchão e Roberto Guimarães resumiram a experiência da Fazenda Santa Brígida, referência em intensificação sustentável. O 14º Dia de Campo sobre Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em Ipameri (GO) reuniu cerca de mil pessoas, com a retomada do evento presencial após a pandemia. Com foco na produção sustentável e no mercado de carbono, foram apresentados dados que comprovam a eficiência do sistema.
William Marchió, consultor da Fazenda Santa Brígida, mostrou aos participantes os lucros por hectare obtidos na propriedade: soja – R$ 5,2 mil; soja e boi-safrinha – R$ 9,38 mil; boi intensivo – R$ 9,4 mil – o que equivalente a 54 arrobas por hectare, um resultado inédito, garante o consultor.
Durante sua apresentação, o próprio palestrante indagou o público: “Se soja e boi-safrinha dão o mesmo retorno econômico que a pecuária intensiva, por que investir na segunda opção?”. A resposta sai do óbvio: “O motivo é mais nobre que esse”. Ele explica que o boi faz a ciclagem de nutrientes e aumenta a quantidade de bactérias benéficas presentes no solo e o pastejo estimula a produção de raízes. “O Zuri produz muita raiz, de 15 a 20 toneladas de matéria orgânica por hectare por solo”, exemplifica. Ele completa: “Essa ciclagem é extremamente importante porque nós vamos sequestrar CO2. Apesar de não estar recebendo nada por isso, nós sequestramos. Um dia quem sabe?”.
Esse dia pode estar bem próximo. A Associação Rede ILPF está trabalhando para que o sistema integrado faça parte do mercado de carbono. Em 2022, o mercado regulado movimentou US$ 865 bilhões no mundo, com tendência de alta no crescimento. Nesse cenário, a América Latina é a região com melhores condições de participar desse mercado, com destaque para o potencial brasileiro, garantem os especialistas.
Para fortalecer a participação do Brasil, a Embrapa tem apostado na intensificação sustentável para aumentar a eficiência dos sistemas de produção. A partir dela, surgiram conceitos como o da carne carbono neutro e da soja baixo carbono, que conferem um selo aos produtos que não emitem carbono ao longo de sua cadeia, com maior valorização no mercado, principalmente internacional.
Essa mesma proposta pode ser estendida a outros produtos, reforça o pesquisador da Embrapa Cerrados, Robélio Marchão: “A Embrapa vem trabalhando em metodologias e protocolos de boas práticas adotadas pela propriedade para certificar as commodities. Para a soja, por exemplo, vamos ter um selo para garantir que ela é produzida de forma mais sustentável”, destacou.
“E por que estamos preocupados com o carbono?”, questiona. Apesar de essa ser uma preocupação global, o pesquisador lembra que o Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa e que cerca de 28% dessa emissão está ligada à atividade agropecuária. “Apesar de esse ser um problema, também pode ser uma grande oportunidade para o setor”, garante. Os pesquisadores Roberto Guimarães Júnior e Robélio Marchão também apresentaram dados de produtividade animal em situações diversas: em pastos de baixa produtividade – 350 gramas/animal/dia; pasto intermediário – 450 gramas/animal/dia; sistema Integração Lavoura-Pecuária – 600 gramas/animal/dia.
Com esses dados, é possível afirmar que os sistemas integrados contribuem para mitigar o impacto ambiental do setor agropecuário a partir da redução da idade de abate dos animais. “Aumentando a eficiência do sistema com a melhoria da condição do pasto, o que significa que o animal terá uma dieta de melhor qualidade, reduzimos a idade de abate desse animal, que vai ficar menos tempo no sistema. Na primeira condição, o abate levaria 44 meses. Na integração, com um resultado conservador, o abate ocorre com 28 meses”, explicam.
Na atividade agrícola, os ganhos se refletem na produtividade. “A análise de trabalhos conduzidos em fazenda e em áreas experimentais, durante 16 ciclos de cultivo, revelou que nas áreas com presença de gramíneas forrageiras como planta de cobertura, a produtividade média foi de onze sacos a mais de soja, o que dá R$ 1,6 mil a mais por hectare simplesmente pelo fato de se fazer a rotação com pastagens”, garante.
O caso da Fazenda Santa Brígida
Em 2006, Marize Porto procurou para Embrapa em busca de soluções para as áreas de pastagem degradada em sua fazenda e ouviu dos especialistas que usando a agricultura ela viabilizaria a renovação das suas pastagens, como conta o consultor da fazenda, Roberto Freitas, que apresentou aos participantes a trajetória de intensificação sustentável da fazenda, de uma predominância de pastos degradados para o sistema ILPF.
E Marchió estava certo ao afirmar que existem outros motivos para adoção dos sistemas integrados, além do retorno econômico. Pesquisadores da Embrapa Cerrados atestaram melhoria dos índices relacionados à saúde do solo da fazenda Santa Brígida após a adoção de boas práticas, o que mostra a evolução do sistema. “Aqui na fazenda santa Brígida, eu consigo ver o que está acontecendo a partir de uma análise de solo convencional. A condição da fazenda, quando a Marize Porto [proprietária da fazenda] começou esse trabalho, era de pastos com baixa produtividade, bastante antigos. Após seis anos utilizando sistemas integrados e outras tecnologias da Embrapa, ela já conseguiu agregar matéria orgânica ao solo, com o índice passando de 1,8 para 3,2”, explicou o pesquisador Robélio Marchão.
Para entender melhor o sistema, Marchió apresentou informações sobre o manejo adotado na propriedade. Foram vários os questionamentos dos participantes: “Como é feita a rotação na fazenda Santa Brígida?” Qual é o prazo que o gado fica no campo?”. Em cada resposta, o consultor deu detalhes específicos do trabalho realizado. “Nós plantamos o milho com o [capim] Zuri. Aí colhemos o milho e fica o pasto. A partir daí, fazemos a rotação. Essa é a maneira mais barata de se fazer isso. Durante três anos, o gado pasta no campo. Depois da seca, a pastagem é dessecada e a lavoura é instalada com plantio direto”.
Marchió conclui: “Hoje, aqui na Santa Brígida, não conseguimos mais dissociar o boi da agricultura. A pecuária é parte da solução ambiental. Com o boi, conseguimos neutralizar a produção, conseguimos ser neutros em carbono quando intensificamos a produção. O boi é parte da solução e não um problema para o nosso País”. A participante Maria Inês da Cunha, que atua no setor de insumos agrícolas, concorda: “Essa é a única forma que a pecuária tem para sobreviver. A lavoura vai fazer com que a pecuária tenha uma nova vida”.
Uso de bioinsumos como ferramenta de intensificação
Outra tecnologia abordada durante o Dia de Campo foi o uso bioinsumos que que possibilitam a captura do nitrogênio do ar e sua fixação no solo. O pesquisador da Embrapa Soja, Marco Antônio Nogueira, abordou a importância das bactérias para os sistemas integrados: “A inoculação de gramíneas, no caso do milho e do trigo, aumentou em 24% a produtividade em sistemas com baixo nível tecnológico. Em áreas com maior nível tecnológico, o ganho médio de produtividade é maior do que 5%, com ganhos no teor foliar acima de 4% e no teor de nitrogênio nos grãos de 3,6%”.
A inoculação será uma estratégia adotada na Santa Brígida em 2024. “Vamos usar o Azospirilum. Três aplicações dele custam 10% do valor da ureia e entrega 40 quilos de nitrogênio”. O consultor William Marchió conta que o produto vai substituir a ureia. O inoculante trará ganhos em nitrogênio, com redução no custo de produção, e ainda com a vantagem de ser um produto natural para substituir um químico.
Outro aspecto da tecnologia para o qual poucas pessoas se atentam é a quantidade de raízes, reforça Nogueira. O uso de inoculantes possibilita um aumento médio da produção de raízes da ordem de 12%. Em 2022, foram comercializadas mais de 10 milhões de doses do inoculante com Azospirillum, bactérias que estão sendo usadas nos produtos próprios para gramíneas.
O pesquisador conta que no ano passado, devido aos preços e à dificuldade de acesso aos fertilizantes nitrogenados, a pesquisa recomendou a redução de 25% da adubação nitrogenada de cobertura e o uso da inoculação. Os resultados mostraram que esse ajuste não causa perda de produtividade. “Isso ocorre devido a um grande aumento da área de raízes que esses microrganismos promovem, que conseguem explorar melhor o solo em busca de água e nutrientes, inclusive nutrientes de alta mobilidade, como o nitrogênio”, explica.
Com a redução da adubação, a economia para o produtor foi de R$ 260 por hectare. “Outro aspecto muito importante que precisamos ressaltar cada vez mais: ele deixou de emitir mais de 200 quilos por hectare de CO² equivalente. É uma coisa que vamos ter que colocar na balança dos benefícios dos nossos sistemas de produção”.
Estudantes aprendem sobre produção de alimentos com sustentabilidade
A Fazenda Santa Brígida também abriu a porteira para que mais de 100 estudantes do Ensino Fundamental de três escolas da rede municipal local pudessem experienciar como a agricultura pode, ao mesmo tempo, produzir alimentos e preservar o meio ambiente. Com idades entre nove e 11 anos, alunos do Centro Municipal de Ensino e Treinamento João Marcelino, do Centro Integral de Educação Municipal Michele Santinoni e da Escola Municipal Demóstenes Cristino participaram de um dia de campo na manhã do dia 24 de março, evento promovido pela Rede ILPF e que contou com apresentações da equipe da Embrapa Cerrados (DF) e o plantio de mudas de espécies nativas do Cerrado.
Na primeira estação, o supervisor de Transferência de Tecnologia da Unidade, Sérgio Abud, falou sobre a sustentabilidade da agropecuária e a importância do campo para a cidade. Ele lembrou que a agricultura começou a se desenvolver a partir do crescimento da população humana – o homem aprendeu a cultivar e a colher observando a natureza e, em seguida, a armazenar o alimento, levando à criação das cidades. “Hoje, há muito mais gente nas cidades que no campo, que precisa produzir o alimento de forma que o ambiente consiga continuar produtivo para as gerações do futuro”, disse, destacando a importância de se fazer agricultura onde for possível e preservar os ambientes que não podem ser mudados de lugar, como a Floresta Amazônica e o Pantanal.
Abud lembrou que a população mundial deverá ser de quase 10 bilhões de pessoas em 2050, e o agricultor brasileiro tem a responsabilidade de alimentar o País e o mundo. Para que não falte alimento até lá, é preciso praticar uma agricultura sustentável, ou seja, que permite a produção agropecuária com preservação ambiental e geração de empregos. “Temos que entregar para as próximas gerações um ambiente igual ou, de preferência, melhor que o que temos hoje”, disse.
O supervisor destacou a importância da proteína na alimentação humana e que o Brasil é o maior produtor mundial de soja, leguminosa rica em proteína, assim como o feijão. Já o milho e o arroz são ricos em carboidratos. “Se misturarmos o milho com a soja ou o arroz com o feijão, temos um alimento rico em carboidrato e proteína. Precisamos também produzir e nos alimentar de frutas e verduras, alimentos reguladores, que farão o nosso organismo funcionar bem”, comentou.
Um desafio apontado por Abud é o controle das pragas que se alimentam das plantas que o ser humano consome. “Como hoje plantamos em larga escala, a população dessas pragas aumentou, e o homem passou a usar inseticidas, fungicidas etc. Se usarmos inseticida de forma desorganizada, vamos matar os insetos-pragas, mas também os inimigos naturais, que se alimentam desses insetos-pragas”, exemplificou.
Ele salientou a importância do monitoramento da lavoura e do manejo integrado de pragas, estratégia que contempla diversas táticas como a rotação de cultivos e o controle biológico antes que se utilize produtos químicos. “Podemos usar o inseticida, mas temos que saber o momento certo e a quantidade certa de usá-lo. Dessa forma, não teremos o problema de matar os inimigos naturais e produziremos mais alimentos”, disse, acrescentando que os defensivos são formulados na dose recomendada para que não causem prejuízo aos inimigos naturais nem favoreçam a seleção de populações de pragas resistentes aos produtos.
“Toda ação que o agricultor faz no campo tem que ser integrada. Biológico sempre, químico quando for necessário. Assim, nós que estamos na cidade receberemos um alimento saudável”, finalizou.
Importância do solo e o uso dos sistemas integrados
A pesquisadora Helenice Gonçalves apresentou o tema “Solo, substrato vivo: a interação da conservação do solo com a preservação da água”. “A vinda de vocês à fazenda é muito importante, porque vocês são os agentes do futuro. Vocês estarão em nosso lugar daqui a uns anos e são o nosso foco para que o mundo se torne um lugar melhor e mais sustentável”, disse aos estudantes, salientando a necessidade de garantir o futuro das próximas gerações.
Após pedir às crianças que fechassem os olhos e percebessem o ambiente à sua volta, a pesquisadora explicou a importância do solo. “Como ele está abaixo dos nossos pés, geralmente não prestamos atenção. Mas o solo é fundamental para tudo o que está aqui hoje exista. É dele que as plantas se alimentam e é das plantas que nós sobrevivemos”, disse.
A Fazenda Santa Brígida está localizada no Cerrado, segundo maior bioma do Brasil em extensão. Helenice apontou um aspecto importante do Cerrado para a produção de alimentos: “Estamos na estação chuvosa, quando ocorre o máximo da pujança da agricultura no Bioma. E a chuva é fundamental para que a agricultura seja bem praticada aqui. O agricultor que não tem condição de irrigar trabalha 100% dentro da estação chuvosa”.
A pesquisadora enfatizou que o solo regula o ciclo da água. “A água da chuva precisa penetrar no solo, e em muitos locais ela não consegue achar uma entrada. Significa que o solo não está conseguindo absorvê-la. Isso é muito ruim para as plantas e para nós. Por isso, é preciso praticar uma agricultura sustentável”.
O solo apresenta três tipos de características fundamentais: física (corpo do solo), química (nutrientes) e biológica (microrganismos). Uma agricultura praticada de forma sustentável permite a saúde do solo nessas três dimensões. Nesse sentido, Helenice explicou que a fazenda adota sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), com produção de madeira (árvores), capim, animais e culturas anuais como soja e milho.
“Potencializamos o uso da área utilizando os sistemas integrados. Quando o milho que vocês estão vendo for colhido, vai ficar o capim. Na seca, ele ainda estará verde e vai alimentar o gado. E, melhor ainda, os animais têm a sombra das árvores plantadas, que depois podem ser retiradas para uso da madeira e outros fins. Então, nessa mesma área, com tudo isso junto, o produtor consegue obter renda”, disse.
A pesquisadora apontou que práticas como o revolvimento do solo com arado, adotadas décadas atrás, não podem mais ocorrer. “Quando revolvemos o solo, ele fica exposto às chuvas, que criam buracos chamados voçorocas. Com isso, perdemos o solo. Levou 10 milhões de anos para que uma camada de 20 cm de solo fosse formada. Junto com essa camada de solo perdida, vai embora o adubo, que cai no rio e contamina a água, matando os peixes e o que mais houver nessa água, que depois vai para nossa casa. Então, o produtor consciente preserva a vida urbana”, argumentou.
Helenice citou a guerra na Ucrânia, que causou aumento no preço do adubo e, por consequência, encareceu os alimentos, para mostrar como a agricultura impacta nossas vidas. “Da mesma forma, se não preservarmos o Bioma Cerrado, vamos sentir mais calor, vai faltar água para nossa casa e nossos animais. A agricultura bem praticada interfere na vida urbana, por isso é importante vocês virem aqui conhecê-la”, afirmou, salientando que a agricultura sustentável é possível.
Plantio de mudas de espécies nativas e o papel das árvores
Na última estação, o engenheiro agrônomo Roberto de Freitas, consultor da fazenda, coordenou o plantio de mudas de espécies nativas do Cerrado, como ipê (amarelo, rosa, roxo e verde), cega-machado, sangra d’água e ingá de macaco, em uma área de recuperação ambiental da propriedade. Cada muda foi plantada por duas crianças.
Freitas explicou que os biomas contam com diferentes tipos de árvores, sendo que em cada um há regiões distintas, como matas de galeria e regiões mais altas, com espécies diferentes. “Cada bicho precisa de um tipo de árvore para se alimentar, e cada árvore precisa de um tipo de bicho para se reproduzir”, completou, citando o exemplo da cotia, que enterra parte das sementes das quais se alimenta, originando novas árvores. “Por isso, é importante, em cada lugar, plantar árvores que sejam do lugar, pois elas vão combinar com os bichos da natureza desse lugar. Tentamos, com isso, promover o equilíbrio”, concluiu.
O agrônomo também explicou que o local do plantio das mudas, próximo a um córrego, foi escolhido para recompor parte da mata original que foi derrubada e proteger o curso d’água. “Este lugar não deveria ter sido desmatado. Antigamente, a gente queria desmatar para plantar e não se preocupava com o que viria depois. Com o tempo, percebemos que isso foi um erro”, disse, citando problemas decorrentes, como as enchentes.
“Neste bosque, nem o gado entra mais. Além das mudas que vocês estão plantando, os bichos plantarão outras (com sementes), constituindo uma mata parecida com a que havia aqui”, anunciou, acrescentando que as árvores também precisam de outros animais, como borboletas e abelhas, para a polinização, o que permitirá a geração de frutos.
Ele lembrou que as águas do córrego abastecem a cidade de Ipameri. “Esta é outra razão de plantarmos as árvores aqui. Quando a mata cresce, a água das enxurradas entra no solo, é filtrada e chega limpa do outro lado. Além disso, essa infiltração, em vez de causar enchentes, vai fornecer água no período da seca. Há muitas minas d’água na beira desta mata e este plantio vai contribuir para preservar e aumentar essas minas”, explicou.
Freitas apontou, ainda, que a árvore, ao transpirar, retira água do solo e libera um vapor frio, que ameniza a temperatura ambiente. “Num inverno como o nosso, em que ficamos seis meses sem chuva, a árvore ajuda a controlar a umidade do ar”, completou o agrônomo.
Por fim, ele informou que os eucaliptos plantados na fazenda para o sistema de ILPF, apesar de não serem oriundos do Brasil, têm boa interação com a fauna local, além de reduzirem a pressão pelo desmatamento da mata nativa por fornecerem madeira.
Experiência gratificante
Segundo a proprietária da fazenda, Marize Costa, a ideia do dia de campo foi mostrar a alunos e professores que é possível produzir grãos, carne e preservar o planeta simultaneamente. “A gente se preocupa com a sustentabilidade da propriedade. Eles entenderam isso muito bem, gostaram do que viram e se divertiram”, disse a produtora. Ela destacou o caráter lúdico do plantio das mudas nativas do Cerrado: “As crianças se sentiram parte de um planeta com agricultura e pecuária sustentáveis e vão nos ajudar a conservá-lo. Além de inovadora, foi uma experiência muito gratificante”.
José Eustáquio da Cunha Júnior, diretor da Escola Municipal Demóstenes Cristino, demonstrou satisfação com o convite feito à instituição de ensino para participar do evento, uma vez que a proposta veio ao encontro dos projetos sustentáveis desenvolvidos na escola, envolvendo plantios de milho e feijão, reuso de água e produção de peixes.
“Trazer nossos alunos muito nos agrada porque este é um ambiente com aspecto totalmente sustentável. Trabalhamos a parte teórica e com miniprojetos em que os alunos desenvolvem a parte prática, mas não com a amplitude daqui da fazenda. Fazê-los caminhar e ver as coisas acontecerem em um projeto grande, ter contato com o meio ambiente, a interação com o agro, o gado, o plantio da soja e do capim e a preservação da água é muito gratificante”, afirmou o diretor.
Professora do Centro Integral de Educação Municipal Michele Santinoni, Denia Machado ficou contente por ter sido convidada a levar 20 alunos da 5ª série do Ensino Fundamental à Fazenda Santa Brígida. “Embora a gente more no interior, é uma experiência muito nova para os alunos e para nós. É algo que sai da sala de aula e nos traz para a realidade”, disse. “Eles vão embora hoje com aquele ‘gostinho de quero mais’, com vontade de cuidar mais do ambiente, da terra, dos animais, além do empreendedorismo, pois já temos um projeto na escola e agora eles viram que dá para unir o custo e o benefício da agricultura ao meio ambiente de uma maneira saudável”, completou.
Damares de Siqueira, Matheus Morais e Lucas Gabriel de Farias, alunos de Denia, curtiram a experiência do dia de campo, sobretudo o plantio das mudas. Damares, de 10 anos, ficou muito feliz quando soube do dia de campo. “Amo fazenda, gosto das árvores, pássaros, animais. Gostei mais da estação em que plantei com minha dupla um ipê amarelo e da estação que fala do solo, da natureza, da agricultura. Todos que puderem devem vir aqui, porque é muito legal saber mais sobre a natureza e a agricultura”, contou.
Já Matheus plantou uma muda de ingá de macaco. “Quero voltar aqui um dia para ver essa árvore grande”, afirmou o estudante de 10 anos. “Aprendi muitas coisas da fazenda e vou levar isso no meu coração. Achei muito gostoso (plantar a muda), podíamos fazer mais disso. Quero voltar depois para ver todas as mudas que nós plantamos”, disse Lucas, de 11 anos, que sonha em montar uma fazenda para a avó quando crescer.
Visão positiva do agronegócio
O evento contou com o apoio da associação De Olho no Material Escolar, por meio do projeto “Vivenciando a Prática”. A entidade busca fazer a ponte entre o setor agropecuário e a sociedade em geral, buscando ampliar o conhecimento de jovens e crianças sobre o agronegócio por meio da atualização do material escolar baseada em conteúdo científico. Um estudo feito pela associação mostrou que 60% do material didático escolar brasileiro está comprometido com um olhar negativo sobre a agricultura.
Luciana Basto, integrante da entidade, destaca que o sistema educacional pode contribuir para o agronegócio, e que eventos como o dia de campo na Fazenda Santa Brígida ajudam a desmistificar o que acontece dentro das porteiras. “Precisamos que os professores e os alunos tenham uma visão positiva, e é isso que queremos levar com o projeto, mostrando que ninguém no agronegócio quer desmatar ou aplicar defensivos de forma equivocada, mas entregar um alimento limpo e saudável para a população”, afirmou.

Colunistas
A verdade é aliada do agronegócio
A desinformação, ao se propagar, compromete o diálogo social e mina a confiança entre o campo e a cidade.

A circulação acelerada de informações, potencializada pelo ambiente digital, impôs à sociedade contemporânea um desafio que extrapola o campo da tecnologia e alcança a esfera ética, econômica e institucional: o combate sistemático à desinformação. No caso do agronegócio brasileiro, setor estratégico para a segurança alimentar, para a geração de empregos e para o equilíbrio da balança comercial, as notícias falsas produzem efeitos particularmente nocivos, pois distorcem percepções, fragilizam reputações e comprometem decisões públicas e privadas baseadas em dados equivocados.
As entidades de representação e defesa do setor primário da economia (como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e todas as Federações estaduais) vêm alertando sobre a transmissão intencional de mentiras na forma de narrativas simplificadoras e frequentemente ideologizadas, disseminadas com o objetivo de desqualificar a produção agropecuária nacional.

Artigo escrito por José Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC)
Atribui-se ao campo, de forma leviana, a responsabilidade exclusiva por problemas complexos, como mudanças climáticas, insegurança alimentar ou crises ambientais, ignorando-se deliberadamente o arcabouço legal, científico e tecnológico que orienta a atividade rural no Brasil. Afirmações como a suposta inexistência de controle sobre o uso da água na irrigação, a ideia de que a produção de grãos avança indiscriminadamente sobre áreas protegidas ou a falsa noção de que a pecuária brasileira opera à margem de qualquer critério de bem-estar animal são exemplos de construções retóricas que não resistem à uma análise minimamente fundamentada.
A desinformação, ao se propagar, compromete o diálogo social e mina a confiança entre o campo e a cidade. O produtor rural passa a ser visto como antagonista do interesse coletivo, quando, na realidade, é protagonista de avanços relevantes em produtividade sustentável, rastreabilidade, inovação genética, agricultura de precisão e adoção de práticas conservacionistas. Esse descompasso entre percepção e realidade gera prejuízos concretos, desde restrições comerciais baseadas em argumentos infundados até a formulação de políticas públicas dissociadas da realidade produtiva.
Combater as notícias falsas não significa negar a necessidade de aperfeiçoamentos contínuos ou de fiscalização rigorosa. Ao contrário, pressupõe transparência, acesso à informação qualificada e valorização do conhecimento técnico-científico. Exige, sobretudo, o fortalecimento do pensamento crítico, da educação midiática e da responsabilidade na produção e no compartilhamento de conteúdos. Instituições representativas, imprensa profissional, comunidade acadêmica e sociedade civil têm papel complementar nesse processo.
A Faesc utiliza todos os seus canais de comunicação para levar cotidianamente à sociedade informações verdadeiras, verificáveis e confiáveis sobre tudo o que envolve o universo rural, mas o enfrentamento da desinformação sobre o agronegócio é uma tarefa permanente, que demanda compromisso com os fatos, respeito à ciência e disposição para o diálogo. Defender a verdade sobre o campo brasileiro é defender o desenvolvimento sustentável, a soberania alimentar e o futuro de milhões de famílias que produzem com responsabilidade, sob uma das legislações ambientais mais exigentes do mundo. Trata-se de um dever institucional e cívico que não pode ser relativizado.
Notícias
Mudanças climáticas lideram lista de preocupações no campo paranaense
Levantamento apresentado no Show Rural Coopavel indica que 91% temem impactos climáticos e 40% citam pragas e despesas como entraves à rentabilidade.

Os produtores rurais do Paraná iniciam 2025 sob forte atenção aos impactos climáticos e à sustentabilidade econômica do negócio. Dados da 9ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural, com recorte exclusivo de 2025, apresentados durante o Fórum ABMRA de Comunicação, realizado no Show Rural Coopavel, nesta quarta-feira, 11, mostram que 91% dos agricultores do estado acreditam que as mudanças no clima causarão algum tipo de impacto em suas propriedades nos próximos anos. A radiografia é maior do que a média nacional, que chega a 86% de preocupação pelos produtores rurais.
O levantamento também revela quais são os desafios do produtor paranaense, colocando o clima como o principal, citado por 67% dos entrevistados. Na sequência estão pragas e doenças e custos de produção com 40% em ambos os cenários.

Fórum ABMRA de Comunicação apresentou dados inéditos do perfil do produtor rural paranaense – Foto: Divulgação
Para o presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), Ricardo Nicodemos, o retrato apresentado pela pesquisa é estratégico para o mercado. “Esses dados são fundamentais para que as empresas deixem de falar com um produtor genérico e passem a se comunicar com o produtor real de 2025, o qual é mais qualificado, mais pressionado pelo clima e pelos custos e muito mais atento à comercialização. Quando entendemos exatamente quais são suas prioridades e desafios, conseguimos construir estratégias de comunicação mais assertivas, com mensagens relevantes, escolha adequada de canais e abordagens que realmente dialoguem com a tomada de decisão no campo”, afirma.
O perfil do produtor rural no estado apresenta uma característica de maturidade de idade com média de 47 anos. Em termos de escolaridade, 35% concluíram o ensino médio e 10% possuem ensino superior completo.
A tradição familiar permanece como principal motivador para atuar no agro, mencionada por 53% dos entrevistados, enquanto 46% destacam o conhecimento adquirido no setor.
Notícias
Exportações aos EUA recuam pelo sexto mês seguido e déficit triplica em janeiro
Vendas ao mercado americano somam US$ 2,4 bilhões, com queda de 25,5% pressionada por tarifas e retração do petróleo no início de 2026.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos iniciaram 2026 em retração. Segundo o Monitor do Comércio Brasil–EUA, elaborado pela Amcham Brasil, as vendas ao mercado americano somaram US$ 2,4 bilhões em janeiro, queda de 25,5% na comparação anual e o sexto recuo consecutivo.
As importações brasileiras de produtos norte-americanos também diminuíram, com baixa de 10,9% no mesmo período. Como a contração das exportações foi mais intensa, o déficit comercial brasileiro na relação bilateral alcançou cerca de US$ 0,7 bilhão — mais que o triplo do registrado em janeiro de 2025.
Tarifas e petróleo pressionam a balança
O desempenho negativo foi puxado principalmente pelos óleos brutos de petróleo, cuja receita caiu 39,1% em relação a janeiro do ano anterior. Produtos sujeitos a tarifas adicionais registraram retração média de 26,7%, com destaque para os bens enquadrados na Seção 232, que recuaram 38,3%.
Entre os itens com maior impacto negativo estão semiacabados de ferro ou aço, sucos, elementos químicos inorgânicos e combustíveis derivados de petróleo.
“O início de 2026 segue marcado por pressões relevantes sobre o comércio bilateral. A combinação entre a queda das exportações brasileiras e a manutenção de tarifas elevadas, especialmente sobre bens industriais, tem aprofundado o desequilíbrio na balança comercial entre Brasil e Estados Unidos”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
Produtos sobretaxados ampliam retração
A análise do conjunto de bens afetados por tarifas adicionais indica que a queda foi superior à média geral. Produtos sujeitos a sobretaxas de 40% e 50% registraram retração expressiva, assim como itens vinculados à Seção 232, especialmente cobre e produtos siderúrgicos.
O movimento reforça a tendência observada nos meses anteriores, com manutenção de barreiras tarifárias pressionando o fluxo bilateral.
Resiliência parcial na pauta exportadora
Apesar do cenário adverso, parte da pauta exportadora apresentou desempenho relativamente mais robusto. Entre os dez principais produtos enviados aos Estados Unidos em janeiro, seis tiveram desempenho melhor do que as exportações brasileiras para o restante do mundo. É o caso de café não torrado, carne bovina, aeronaves, celulose e equipamentos de engenharia.
Em contrapartida, produtos que perderam espaço no mercado americano mostraram desempenho superior quando destinados a outros países, sinalizando reorientação geográfica das vendas externas.
Mesmo com o aumento do déficit global dos Estados Unidos no comércio de bens, o Brasil segue entre os poucos países com os quais os norte-americanos mantêm superávit comercial relevante. “Avançar no diálogo econômico de alto nível é essencial para restaurar previsibilidade, reduzir barreiras e criar condições para a retomada do fluxo comercial ao longo de 2026”, conclui Abrão Neto.





