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Destinação de animais mortos ainda é um dos grandes desafios da avicultura
A remoção dos animais mortos do local de criação deve ser realizada de forma a minimizar os riscos sanitários ao rebanho e de acordo com normas de segurança do trabalho.

A correta destinação de animais mortos que atendam aos aspectos sanitários, ambientais e econômicos continua sendo um dos grandes desafios para os diversos setores da cadeia produtiva animal no Brasil. Afim de auxiliar produtores e órgãos regulamentadores, a Embrapa Suínos e Aves, de Chapecó (SC), desenvolve há alguns anos estudos e avaliações de algumas práticas apontadas como rotas tecnológicas, entre elas compostagem acelerada, biodigestão anaeróbia, desidratação, incineração e reciclagem industrial de carcaças (rendering) para a produção de farinhas, gorduras, fertilizantes e outros coprodutos de valor agregado.
Estudos realizados pela Embrapa Suínos e Aves apontam que a taxa média de mortalidade em aves de 3% com peso vivo do frango de corte de 3kg, de perus com 5kg e de poedeiras com 1kg. Enquanto projeta-se um índice médio de mortalidade de matrizes suínas de 6% considerando o peso vivo médio de 250 kg e um volume de parição de 9,2kg/parto; para a creche foi ponderada uma mortalidade de 1,5% com um peso vivo médio de 12kg; e na terminação, a porcentagem de mortalidade foi estimada de 1,75% com um peso vivo médio de 60kg. Considerando todo o ciclo produtivo, somente o volume de suínos mortos ao longo da cadeia é superior a 110 mil toneladas/ano.
Já em gado de leite previu-se uma taxa de mortalidade de 2,5%, considerando uma média de 200 kg de peso vivo; e do gado de corte uma mortalidade média de 2,5% com animais de até 150 kg.

Chefe da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe: “Quase não vejo composteiras com sistemas de aspersão, essencial para promover a umidade. Se estiver tudo seco não vai compostar, já se umedecer vai funcionar perfeitamente” – Fotos: Divulgação/Embrapa Suínos e Aves
Estima-se que no Brasil o problema com a destinação de carcaças de suínos, aves e bovinos ultrapasse 1,5 milhão de toneladas todos os anos. “Esse número pode ser muito maior do que isso, porque há muitos animais em produção na região Sul do Brasil, em uma área proporcionalmente pequena, e isso faz com que essa região tenha mais de 500 quilos de animais mortos por quilômetro quadrado todos os anos. No Oeste do Paraná, onde tem uma intensa produção animal, esse volume pode ser muito maior, porque o volume de animais mortos por dia é proporcional ao número da produção de animais. Então, é um problema muito sério e precisa ser trabalhado. Nós não vamos ter, além da biosseguridade, sustentabilidade ambiental se continuarmos, de certa forma, negligenciando essa questão da destinação de animais mortos”, expõe o chefe da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe.
Parados no tempo
Outro grande problema apontado por Krabbe está no manuseio e processamento destes animais mortos através das tecnologias disponíveis, o que tem gerado causas trabalhistas no meio rural. “Há mais de sete anos começamos a trabalhar com tecnologias para destinação de animais mortos. A Embrapa dispõe de um galpão com uma série de máquinas que são produzidas no Brasil para testarmos essas novas tecnologias”, relata, reforçando que a mortalidade animal acontece no mundo inteiro e o que diferencia os países são os métodos empregados para diminuir os impactos gerados no descarte das carcaças. “O que tem de diferente é que alguns países estão muito mais avançados do que outros em relação a isso. O Brasil ficou praticamente 30 anos em cima daquelas composteiras de células enquanto as produções foram crescendo, as granjas aumentando e nada novo foi criado para sanar o problema da destinação dos animais mortos. Chegou um momento que já não dava mais”, analisa Krabbe.
De acordo com o chefe da Embrapa Suínos e Aves, na pecuária leiteira paranaense muitos produtores estão trabalhando com a compostagem de inteiros em duas pilhas, enquanto uma fica compostando, a segunda é montada. Depois de cerca de oito meses, o material da primeira pilha vira fertilizante para a lavoura, recomeçando todo o processo. “Granjas com 700 vacas estão trabalhando assim, isso mostra que é possível”, ressalta.
Escolha de tecnologias
Outro grande problema elencado por Krabbe é em relação a ociosidade no uso das tecnologias, uma vez que quando o produtor opta por tecnologias caras para pouca produção acaba onerando o seu custo. “Para quem trabalha com unidade reprodutora de leitões desmamados tem um custo bem elevado por quilo de animal processado, agora o produtor que tem uma unidade reprodutora de leitões com outro sistema de produção esse custo baixa pela metade. Quando o produtor tem uma matriz em um ciclo completo esse custo se divide de novo pela metade. Então a mesma tecnologia, dependendo do processo da granja, pode custar quatro vezes mais. Por isso é tão importante fazer uma boa escolha das tecnologias, que vai resultar em redução de custos em torno de R$ 0,03, R$ 0,04 e até R$ 0,05, dependendo do sistema de produção”, menciona, acrescentando que em frango de corte esse custo pode ser abaixo de R$ 0,02 e no caso de suínos em creches ou suínos em terminação esses valores podem ser em torno de R$ 0,02 a R$ 0,03. “São tecnologias que precisam ser implantadas, mais com cuidado na escolha”, alerta.
Compostagem
Estudos técnicos apontam que a compostagem é a proposta ambientalmente correta para o destino dos animais mortos sem doença. Trata-se de um processo controlado de decomposição, onde as carcaças são depositadas sobre matéria vegetal (podendo ser silagem, palha ou serragem, por exemplo) por um período de 180 a 240 dias. No entanto, Krabbe alerta que a compostagem não é um sistema milagroso, é preciso oferecer condições para a decomposição acontecer, como aeração e teor de umidade em torno de 50 a 60%.
Conforme Krabbe, na Embrapa foi montada uma composteira com uma área cercada, isolada em um espaço onde não tem grande trânsito de animais e em local afastado de fontes ou de cursos de água, forrada com serragem. “Não tem uma mosca, não tem cheiro e funciona muito bem”, diz, acrescentando: “Quase não vejo composteiras com sistemas de aspersão, essencial para promover a umidade. Se estiver tudo seco não vai compostar, já se umedecer vai funcionar perfeitamente”, relata.
Com o local da composteira delimitado e cercado, o aspersor pode ser instalado no teto da composteira, deixando o registro ligado entre dez e 15 minutos jorrando água, de duas a três vezes por semana. “Isso muda totalmente a dinâmica da composteira, é outra realidade, a eficiência será muito maior”, salienta o chefe da Embrapa Suínos e Aves.
A compostagem é um sistema eficiente, que funciona muito bem e a um custo baixo, mas para fazer uso desta rota segura o produtor precisa verificar junto aos órgãos fiscalizadores se essa tecnologia para destinação de animais mortos é aceita em sua região.
Outras tecnologias
Entre as tecnologias para pré-processamento das carcaças está o uso do triturador, utilizado para reduzir o volume do material, aumentando a eficiência dos sistemas de tratamento e diminuindo a mão de obra com o esquartejamento manual das carcaças.
O material triturado deve ser obrigatoriamente processado em sistema de tratamento de carcaças de animais mortos por biodigestão, compostagem tradicional ou acelerada.
Outro equipamento que possibilita controlar as variáveis do processo de compostagem, proporcionando segurança sanitária e ambiental, além de um composto final de elevado valor agronômico, é o rotoacelerador. Com as carcaças trituradas, o material é misturado à serragem ou outra matéria vegetal seca dentro do equipamento, que possui um reator cilíndrico com isolamento térmico, sistema automatizado para controle de rotação, de aeração e com possibilidade de tratamento dos gases de exaustão, podendo operar em sistema de batelada ou contínuo. O tempo médio de compostagem varia entre 21 a 28 dias.
Após a remoção do material compostado, o produto é depositado em leiras, onde será revolvido semanalmente até a sua maturação completa. Esse composto orgânico pode ser utilizado como fertilizante para adubação de culturas agrícolas e florestais. “O rotoacelerador é uma tecnologia de baixo custo, por exemplo, para a compostagem do frango o custo gira em torno de R$ 0,02 a R$ 0,03 por ave, porém tudo é uma questão de uso. Se o equipamento está muito ocioso, o custo sobe bastante, ou seja, é preciso dimensionar bem o uso do equipamento para a realidade da granja”, expõe Krabbe.
O tratamento térmico e redução do volume de carcaças por desidratação não ocorre por queima ou incineração das carcaças, o que não gera emissão de gases, apenas vapor d’água e gases provenientes da queima da lenha ou biogás utilizado como fonte de energia.
Esse equipamento por chegar até 120º graus e dependendo do tamanho pode comportar até 1000 kg de carcaças (suínos ou aves). O tempo de operação leva de duas a três horas para descontaminação completa. Dentro do equipamento existem “dentes” que cortam o produto e no fim do processo, o material está completamente triturado, como se fosse uma farinha.
Ao término do processo, o material desidratado deve ser encaminhado para tratamento por compostagem ou biodigestão anaeróbia. “Se você tiver uma baixa ociosidade, essa tecnologia para as aves vai custar em torno de R$ 0,01, por vezes até menos de R$ 0,01 para processar. E na suinocultura, o produtor consegue chegar entre R$ 0,01 e R$ 0,02. Então é uma tecnologia bastante eficiente e útil, que ajuda demais na biosseguridade e a custos muito competitivos”, frisa Krabbe.
Realidades diferentes no Brasil
Para todos os processos apresentados existem medidas estabelecidas por órgãos competentes em cada Estado e que devem ser respeitadas. Por exemplo, cita Krabbe, no caso de bovinos mortos é feito o recolhimento dos brincos, que funcionam como uma espécie de documento de trânsito de animais mortos, como se fosse uma GTA.
A remoção dos animais mortos do local de criação deve ser realizada de forma a minimizar os riscos sanitários ao rebanho e de acordo com normas de segurança do trabalho. No caso dos suínos, é preciso tirar os animais da granja, colocar na divisa da propriedade, onde deverá ser recolhido. A IRN de 2019/48 estabelece todas as regras do recolhimento da transformação. Os veículos devem ser higienizados e desinfetados para evitar o acúmulo de resíduos.
“Nós temos várias opções do ponto de vista da pesquisa, mas obviamente os produtores precisam respeitar o que os órgãos que fazem o licenciamento das granjas aceitam e consideram como validado dentro da região de competência desse órgão. Então existe tecnologia como o rotoacelerador, que funciona muito bem, é seguro; existe desidratadores, hidrólise – onde você transforma o animal inteiro em líquido. E você tem outras opções, inclusive o uso de carcaças em biodigestores é possível, com um ganho significativo em produção de gás”, afirma, dizendo que todas essas alternativas devem estar muito sintonizadas com a realidade de cada local. “E a depender do sistema usado tem uma grande possibilidade de uso como fertilizantes, de condicionantes do solo, gás etc., têm muitas tecnologias que podem sair destes processos, no entanto, a carcaça é um grande risco do ponto de vista de biosseguridade, por isso é necessário que se faça um trabalho muito sério com relação a isso”, enfatiza Krabbe.
As pesquisas da Embrapa Suínos e Aves são feitas no âmbito do projeto Tecnologias para destinação de carcaças (TEC-DAM) e contam ainda com a participação da Embrapa Gado de Leite (MG) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

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Dia de Campo da Copacol conecta pesquisa, manejo e mercado ao produtor
Estudos do CPA mostraram, na prática, soluções para solo, soja e milho, além de análises de mercado para apoiar a tomada de decisão do produtor.

Com o objetivo de potencializar a produção e preparar cada vez mais os cooperados, o 35° Dia de Campo de Verão Copacol apresentou estudos exclusivos realizados pelo CPA (Centro de Pesquisa Agrícola), e contou com a participação de 1,5 mil visitantes. “É muito bom receber nossos cooperados para compartilhar novidades e apresentar tecnologias que, se aplicadas nas propriedades, trarão uma melhor produtividade. Além de preparar nossos cooperados para bons resultados no campo, aqui também queremos trazer uma visão comercial, afinal, essas duas coisas precisam estar alinhadas na busca de melhores resultados”, afirma o diretor-presidente, Valter Pitol.

Cooperados que já acompanham de perto o trabalho do CPA garantem que eventos como esse fazem a diferença, como comenta o produtor de Joetaesse, Cássio Henrique Moeller. “O CPA sempre nos ajuda a alcançar melhores resultados e potencializar nossa produtividade e eventos como o Dia de Campo agregam muito conhecimento e traz novidades que nos ajudam a crescer nas propriedades”.
Além da presença dos cooperados e cooperadas, colaboradores e pesquisadores do CPA, o secretário de Agricultura e Abastecimento do Paraná, Márcio Nunes, também prestigiou o evento. “A Copacol é uma das cooperativas mais importantes do mundo com produtos exportados para muitos países. E ela faz um trabalho sensacional com os produtores, um exemplo é esse Dia de Campo. A Copacol treina, adapta e coloca o produtor em situações de competitividade, tudo isso visando a melhoria da qualidade de vida através do aumento da renda do produtor, estimulando que as famílias fiquem no campo”, completa o secretário.
Na prática
Um dos assuntos abordados nas palestras em campo foi a compactação do solo e seus feitos sobre o sistema de produção. Essa compactação consiste na incapacidade de o solo absorver a água, o que muitas vezes pode gerar o aumento da umidade na superfície, tornando o ambiente propício para o desenvolvimento de doenças. “Nós utilizamos o método Dres [Diagnóstico rápido de estrutura de solo] onde podemos avaliar o nível de compactação do solo para saber qual técnica deve ser aplicada em cada propriedade, seja com plantas de cobertura, ou utilização de maquinários. É um processo muito importante, que impacta diretamente no desenvolvimento das culturas e na produtividade delas”, explica o engenheiro agrônomo e pesquisador do CPA, Andrei Regis Sulzbach.

Para cooperado de Jesuítas, Renato da Silva Tonelli, é importante acompanhar o trabalho do CPA, e saber que problemas que eles enfrentam no dia a dia, já estão sendo estudados e soluções já podem ser aplicadas na propriedade. “No último ano tivemos problema com relação a compactação de solo, e hoje vi que há um trabalho de pesquisa já sendo feito para desenvolver novas formas de manejo, melhorar nossas condições e minimizar esses problemas que nós que vivemos do campo temos”, comenta o cooperado.
Outro assunto que chamou atenção dos participantes foi o painel de cultivares de soja recomendadas pelo CPA, que são apresentadas com duas datas de semeadura, adubação em quantidades de acordo com a época e orientação de acordo com a região plantada, também foram apresentados manejos de doença e controle de pragas. “Apresentamos um demonstrativo com as épocas de semeadura diferentes com o mesmo manejo, onde fica visível a diferença de comportamento de cada planta, para mostrar a importância de se atentar as recomendações do CPA, de acordo com testes feitos na prática”, conta o engenheiro agrônomo André Luiz Borsoi.
Para o cooperado Lucas Antunes Jasper, de Cafelândia, essa é uma oportunidade imperdível para quem produz no campo. “Aqui no evento podemos ver o comparativo das cultivares que depois vamos levar para dentro das nossas lavouras. Conseguimos ver lado a lado todos os testes e tudo fica bem claro para nós. O CPA consegue nos orientar sobre os melhores manejos e isso faz com a que ganhemos tempo e estejamos sempre a frente com a nossa produtividade”, comenta o produtor.
Além disso, também foram apresentados resultados sobre plantas daninhas: o custo oculto no sistema de produção; milho safrinha: os desafios para altas produtividades e manejo de doenças da soja: estratégias de aplicação para preservar o potencial produtivo.
Comercialização
O mercado também faz parte do processo produtivo, e entender como e quando comercializar os grãos, é fundamental para o cooperado. Pensando nisso, a abertura do Dia de Campo contou com uma palestra sobre tendências no mercado de commodities, com o consultor da StoneX Brasil, Étore Baroni. “O objetivo é trazer mais informações para os cooperados. São muitos fatores que influenciam nos preços, então, é preciso preparar o produtor para aproveitar as melhores oportunidades ao longo do ano. Tivemos mudanças muito fortes nos preços nos últimos anos e o CPA consegue trazer esse ganho de produtividade contínua. Por isso, é preciso alinhar a produtividade boa, com níveis de preços bons, mantendo uma rentabilidade para o produtor”, completa o consultor.
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Proteínas animais ganham novas oportunidades com acordo UE-Mercosul, celebra ABPA
Entidade vê avanço em previsibilidade comercial e reforço do Brasil como fornecedor global, com impactos graduais e cotas bem delimitadas para aves, suínos e ovos

Após mais de duas décadas de negociações e sucessivos impasses políticos, a confirmação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia começa a ser destrinchada. Para a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o entendimento representa um avanço relevante em previsibilidade comercial e no fortalecimento das relações entre os dois blocos, com efeitos graduais e tecnicamente delimitados para a cadeia de proteínas animais.

Foto: Jonathan Campos
Em nota setorial, a entidade destaca que o acordo é resultado de um processo longo e de elevada complexidade técnica, e que seus impactos não devem ser interpretados como uma abertura irrestrita de mercado, mas como a construção de oportunidades progressivas, condicionadas a regras sanitárias, cotas e salvaguardas já previstas no texto negociado.
No caso da carne de frango, principal item da pauta exportadora brasileira de proteínas, a ABPA é enfática ao afirmar que o acordo não altera o sistema de cotas atualmente em vigor entre Brasil e União Europeia. “Essas regras permanecem intactas. A novidade está na criação de um contingente tarifário adicional, no âmbito do Mercosul, de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa”, informa na nota.
Esse volume será compartilhado entre os países do bloco sul-americano e dividido igualmente entre produtos com osso e sem osso. A implantação será gradual, em seis etapas anuais iguais, até atingir o volume total no sexto ano de vigência. A partir daí, a cota passa a se repetir anualmente, dentro das regras estabelecidas.
Carne suína
Para a carne suína, o acordo inaugura uma nova possibilidade. Pela primeira vez, o Mercosul contará com um contingente tarifário

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
preferencial específico para o produto, inexistente até então para o Brasil. “A cota final prevista é de 25 mil toneladas por ano, com tarifa intra-cota de € 83 por tonelada, valor significativamente inferior ao praticado fora do contingente”, diz a nota.
Aves
Assim como no caso das aves, a implementação será escalonada ao longo de seis anos. No entanto, a ABPA ressalta que a efetiva utilização dessa cota pelo Brasil dependerá da conclusão dos trâmites sanitários junto à União Europeia, incluindo a aprovação do Certificado Sanitário Internacional, condição essencial para a abertura do mercado.
O segmento de ovos também aparece como um dos beneficiados pelo acordo. Estão previstos contingentes tarifários específicos, isentos de tarifa intra-cota, de 3 mil toneladas anuais para ovos processados e outras três mil toneladas para albuminas. Segundo a entidade, trata-se de uma oportunidade concreta para ampliar as exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado, especialmente em nichos industriais e alimentícios.
Cotas do acordo
Apesar das oportunidades, a ABPA chama atenção para um ponto central: todas as cotas criadas pelo acordo são do Mercosul, e não exclusivas do Brasil. Isso exigirá coordenação intrabloco para definir critérios de alocação entre os países-membros, além de atenção permanente às exigências regulatórias e sanitárias impostas pelo mercado europeu.

Foto: Jonathan Campos
A entidade reforça ainda que os impactos econômicos positivos tendem a ser graduais, acompanhando o cronograma de implantação do acordo e condicionados ao cumprimento rigoroso das normas técnicas. As salvaguardas previstas devem ser aplicadas de forma estritamente excepcional e baseada em critérios técnicos, evitando distorções comerciais.
Para a ABPA, a concretização do acordo UE-Mercosul fortalece o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de proteínas animais no mercado internacional, atuando de forma complementar à produção europeia. Sanidade, sustentabilidade e capacidade produtiva seguem como pilares centrais para o aproveitamento das oportunidades abertas pelo pacto. “O pleno potencial do acordo dependerá de uma implementação técnica, previsível e transparente, em linha com os princípios do comércio internacional e da segurança alimentar global”, afirma a entidade.
Confira a Nota Setorial na íntegra:
NOTA SETORIAL– ACORDO MERCOSUL–UNIÃO EUROPEIA
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) celebra o aceite do Bloco Europeu e a concretização do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, resultado de um processo de negociação de longo prazo e de elevada complexidade técnica.
O acordo representa um avanço relevante para a previsibilidade comercial e para o fortalecimento das relações entre os blocos, com impactos graduais e bem delimitados para o setor de proteínas animais.
No caso da carne de frango, é importante destacar que o acordo não interfere, não altera e não substitui o sistema de cotas já em vigor entre o Brasil e a União Europeia, que permanece plenamente válido. O que o acordo acrescenta é a criação de um novo contingente tarifário adicional, no âmbito do Mercosul, de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa, a ser compartilhado entre os países do bloco. Esse volume será composto por 50% de produtos com osso e 50% de produtos sem osso e terá implantação gradual em seis etapas anuais iguais, até atingir o volume total anual no sexto ano de vigência. A partir desse momento, o contingente passa a se repetir anualmente.
Para a carne suína, o acordo cria, pela primeira vez, um contingente tarifário preferencial específico para o Mercosul, inexistente até então para o Brasil. A cota final prevista é de 25 mil toneladas anuais, com tarifa intracota de € 83 por tonelada, substancialmente inferior à tarifa aplicada fora da cota. Assim como na carne de frango, a implantação ocorrerá em seis etapas anuais iguais, com crescimento progressivo do volume até o atingimento do teto anual. A efetiva utilização dessa cota pelo Brasil dependerá da conclusão dos trâmites sanitários junto à União Europeia para a abertura do mercado, incluindo a aprovação do Certificado Sanitário Internacional.
No segmento de ovos, o acordo estabelece contingentes tarifários específicos, também no âmbito do Mercosul, isento de tarifa intra-cota. Estão previstos 3 mil toneladas anuais para ovos processados e 3 mil toneladas anuais para albuminas, criando uma oportunidade concreta para a ampliação das exportações brasileiras de produtos com maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, a ABPA ressalta que os contingentes criados pelo acordo são cotas do Mercosul, e não exclusivas do Brasil, o que demandará coordenação intrabloco para definição dos critérios de alocação entre os países membros. Os impactos econômicos positivos serão graduais, acompanhando o cronograma de implantação e condicionados ao cumprimento rigoroso dos requisitos sanitários, regulatórios e às regras de aplicação de salvaguardas, que devem permanecer estritamente técnicas e excepcionais.
Por fim, a ABPA ressalta que a concretização do acordo Mercosul–União Europeia reforça o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de proteínas animais, em complementariedade à produção local, com base em sanidade, sustentabilidade e capacidade produtiva. O pleno aproveitamento das oportunidades abertas dependerá de uma implementação técnica, previsível e transparente, em linha com os princípios do comércio internacional e da segurança alimentar global.
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União Europeia aprova assinatura de acordo comercial com Mercosul
Decisão envolve um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e um PIB combinado próximo de US$ 22 trilhões. Apesar da resistência de alguns países, o acordo é tratado como estratégico para o futuro do comércio global.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou há pouco a aprovação, por ampla maioria dos países que integram a União Europeia (UE), do acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. “A decisão do Conselho de apoiar o acordo UE-Mercosul é histórica”, escreveu Ursula em sua conta na rede social X. “Estamos empenhados em criar crescimento, empregos e em garantir os interesses dos consumidores e das empresas europeias”, acrescentou a presidente da comissão responsável por elaborar propostas de leis para todo o bloco e por executar as decisões do Parlamento e do Conselho europeu.

Foto: Divulgação
Com o resultado confirmado, a presidente da Comissão Europeia poderá viajar para o Paraguai, já na próxima semana, para ratificar o acordo com os países-membros do Mercosul. O Paraguai assumiu em dezembro de 2025 a presidência rotativa pro-tempore do bloco.
Em um comunicado mais extenso, divulgado na página da Comissão, Ursula disse esperar ansiosamente pela assinatura do acordo que, para entrar em vigor, ainda terá que ser aprovado no Parlamento Europeu. “Em um momento em que o comércio e as dependências [comerciais e econômicas] estão sendo usadas como armas, e a natureza perigosa e transacional da realidade em que vivemos se torna cada vez mais evidente, este acordo comercial histórico é mais uma prova de que a Europa traça seu próprio curso e se mantém como uma parceira confiável”, diz no documento.
Mais cedo, o ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural da Polônia, Stefan Krajewski, comentou, em sua conta no X, que além de seu país, votaram contra o acordo Áustria, França, Hungria e Irlanda. Pelas regras do bloco, para ser aprovada, a proposta tinha que obter o aval de ao menos 15 dos 27 Estados-Membros que, juntos, representem ao menos 65% da população total do bloco.
Repercussão
No Brasil, a decisão foi comemorada por lideranças políticas e empresariais. Responsável por promover os produtos e serviços brasileiros

Foto: Marcos Oliveira/Agência Brasil
no exterior, a Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (ApexBrasil) afirma que o acordo estabelece um mercado de quase US$ 22 trilhões, com o potencial de incrementar as exportações brasileiras para a União Europeia em cerca de US$ 7 bilhões. “Estamos falando de uma população de mais de 700 milhões de habitantes e de um PIB de perto de US$ 22 trilhões. Só perde para o dos Estados Unidos, em torno de US$ 29 trilhões, e supera o da China, que gira em torno de US$ 19 trilhões”, comentou o presidente da agência, Jorge Viana, em nota.
Viana também destacou a qualidade da pauta exportadora brasileira com o bloco europeu: “Mais de um terço daquilo que o Brasil exporta para a região é composto de produtos da indústria de processamento.”
O acordo prevê redução imediata de tarifas para máquinas e equipamentos de transporte como motores e geradores para energia elétrica, motores de pistão (autopeças) e aviões. Todos representam áreas estratégicas para inserção competitiva do Brasil.
Também haverá oportunidade positiva para couro e peles, pedras de cantaria, facas e lâminas e produtos químicos. Haverá redução gradativa das tarifas, até zerá-las, sobre diversas commodities (sujeitos a cotas).




