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Destinação de animais mortos ainda é um dos grandes desafios da avicultura
A remoção dos animais mortos do local de criação deve ser realizada de forma a minimizar os riscos sanitários ao rebanho e de acordo com normas de segurança do trabalho.

A correta destinação de animais mortos que atendam aos aspectos sanitários, ambientais e econômicos continua sendo um dos grandes desafios para os diversos setores da cadeia produtiva animal no Brasil. Afim de auxiliar produtores e órgãos regulamentadores, a Embrapa Suínos e Aves, de Chapecó (SC), desenvolve há alguns anos estudos e avaliações de algumas práticas apontadas como rotas tecnológicas, entre elas compostagem acelerada, biodigestão anaeróbia, desidratação, incineração e reciclagem industrial de carcaças (rendering) para a produção de farinhas, gorduras, fertilizantes e outros coprodutos de valor agregado.
Estudos realizados pela Embrapa Suínos e Aves apontam que a taxa média de mortalidade em aves de 3% com peso vivo do frango de corte de 3kg, de perus com 5kg e de poedeiras com 1kg. Enquanto projeta-se um índice médio de mortalidade de matrizes suínas de 6% considerando o peso vivo médio de 250 kg e um volume de parição de 9,2kg/parto; para a creche foi ponderada uma mortalidade de 1,5% com um peso vivo médio de 12kg; e na terminação, a porcentagem de mortalidade foi estimada de 1,75% com um peso vivo médio de 60kg. Considerando todo o ciclo produtivo, somente o volume de suínos mortos ao longo da cadeia é superior a 110 mil toneladas/ano.
Já em gado de leite previu-se uma taxa de mortalidade de 2,5%, considerando uma média de 200 kg de peso vivo; e do gado de corte uma mortalidade média de 2,5% com animais de até 150 kg.

Chefe da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe: “Quase não vejo composteiras com sistemas de aspersão, essencial para promover a umidade. Se estiver tudo seco não vai compostar, já se umedecer vai funcionar perfeitamente” – Fotos: Divulgação/Embrapa Suínos e Aves
Estima-se que no Brasil o problema com a destinação de carcaças de suínos, aves e bovinos ultrapasse 1,5 milhão de toneladas todos os anos. “Esse número pode ser muito maior do que isso, porque há muitos animais em produção na região Sul do Brasil, em uma área proporcionalmente pequena, e isso faz com que essa região tenha mais de 500 quilos de animais mortos por quilômetro quadrado todos os anos. No Oeste do Paraná, onde tem uma intensa produção animal, esse volume pode ser muito maior, porque o volume de animais mortos por dia é proporcional ao número da produção de animais. Então, é um problema muito sério e precisa ser trabalhado. Nós não vamos ter, além da biosseguridade, sustentabilidade ambiental se continuarmos, de certa forma, negligenciando essa questão da destinação de animais mortos”, expõe o chefe da Embrapa Suínos e Aves, Everton Luis Krabbe.
Parados no tempo
Outro grande problema apontado por Krabbe está no manuseio e processamento destes animais mortos através das tecnologias disponíveis, o que tem gerado causas trabalhistas no meio rural. “Há mais de sete anos começamos a trabalhar com tecnologias para destinação de animais mortos. A Embrapa dispõe de um galpão com uma série de máquinas que são produzidas no Brasil para testarmos essas novas tecnologias”, relata, reforçando que a mortalidade animal acontece no mundo inteiro e o que diferencia os países são os métodos empregados para diminuir os impactos gerados no descarte das carcaças. “O que tem de diferente é que alguns países estão muito mais avançados do que outros em relação a isso. O Brasil ficou praticamente 30 anos em cima daquelas composteiras de células enquanto as produções foram crescendo, as granjas aumentando e nada novo foi criado para sanar o problema da destinação dos animais mortos. Chegou um momento que já não dava mais”, analisa Krabbe.
De acordo com o chefe da Embrapa Suínos e Aves, na pecuária leiteira paranaense muitos produtores estão trabalhando com a compostagem de inteiros em duas pilhas, enquanto uma fica compostando, a segunda é montada. Depois de cerca de oito meses, o material da primeira pilha vira fertilizante para a lavoura, recomeçando todo o processo. “Granjas com 700 vacas estão trabalhando assim, isso mostra que é possível”, ressalta.
Escolha de tecnologias
Outro grande problema elencado por Krabbe é em relação a ociosidade no uso das tecnologias, uma vez que quando o produtor opta por tecnologias caras para pouca produção acaba onerando o seu custo. “Para quem trabalha com unidade reprodutora de leitões desmamados tem um custo bem elevado por quilo de animal processado, agora o produtor que tem uma unidade reprodutora de leitões com outro sistema de produção esse custo baixa pela metade. Quando o produtor tem uma matriz em um ciclo completo esse custo se divide de novo pela metade. Então a mesma tecnologia, dependendo do processo da granja, pode custar quatro vezes mais. Por isso é tão importante fazer uma boa escolha das tecnologias, que vai resultar em redução de custos em torno de R$ 0,03, R$ 0,04 e até R$ 0,05, dependendo do sistema de produção”, menciona, acrescentando que em frango de corte esse custo pode ser abaixo de R$ 0,02 e no caso de suínos em creches ou suínos em terminação esses valores podem ser em torno de R$ 0,02 a R$ 0,03. “São tecnologias que precisam ser implantadas, mais com cuidado na escolha”, alerta.
Compostagem
Estudos técnicos apontam que a compostagem é a proposta ambientalmente correta para o destino dos animais mortos sem doença. Trata-se de um processo controlado de decomposição, onde as carcaças são depositadas sobre matéria vegetal (podendo ser silagem, palha ou serragem, por exemplo) por um período de 180 a 240 dias. No entanto, Krabbe alerta que a compostagem não é um sistema milagroso, é preciso oferecer condições para a decomposição acontecer, como aeração e teor de umidade em torno de 50 a 60%.
Conforme Krabbe, na Embrapa foi montada uma composteira com uma área cercada, isolada em um espaço onde não tem grande trânsito de animais e em local afastado de fontes ou de cursos de água, forrada com serragem. “Não tem uma mosca, não tem cheiro e funciona muito bem”, diz, acrescentando: “Quase não vejo composteiras com sistemas de aspersão, essencial para promover a umidade. Se estiver tudo seco não vai compostar, já se umedecer vai funcionar perfeitamente”, relata.
Com o local da composteira delimitado e cercado, o aspersor pode ser instalado no teto da composteira, deixando o registro ligado entre dez e 15 minutos jorrando água, de duas a três vezes por semana. “Isso muda totalmente a dinâmica da composteira, é outra realidade, a eficiência será muito maior”, salienta o chefe da Embrapa Suínos e Aves.
A compostagem é um sistema eficiente, que funciona muito bem e a um custo baixo, mas para fazer uso desta rota segura o produtor precisa verificar junto aos órgãos fiscalizadores se essa tecnologia para destinação de animais mortos é aceita em sua região.
Outras tecnologias
Entre as tecnologias para pré-processamento das carcaças está o uso do triturador, utilizado para reduzir o volume do material, aumentando a eficiência dos sistemas de tratamento e diminuindo a mão de obra com o esquartejamento manual das carcaças.
O material triturado deve ser obrigatoriamente processado em sistema de tratamento de carcaças de animais mortos por biodigestão, compostagem tradicional ou acelerada.
Outro equipamento que possibilita controlar as variáveis do processo de compostagem, proporcionando segurança sanitária e ambiental, além de um composto final de elevado valor agronômico, é o rotoacelerador. Com as carcaças trituradas, o material é misturado à serragem ou outra matéria vegetal seca dentro do equipamento, que possui um reator cilíndrico com isolamento térmico, sistema automatizado para controle de rotação, de aeração e com possibilidade de tratamento dos gases de exaustão, podendo operar em sistema de batelada ou contínuo. O tempo médio de compostagem varia entre 21 a 28 dias.
Após a remoção do material compostado, o produto é depositado em leiras, onde será revolvido semanalmente até a sua maturação completa. Esse composto orgânico pode ser utilizado como fertilizante para adubação de culturas agrícolas e florestais. “O rotoacelerador é uma tecnologia de baixo custo, por exemplo, para a compostagem do frango o custo gira em torno de R$ 0,02 a R$ 0,03 por ave, porém tudo é uma questão de uso. Se o equipamento está muito ocioso, o custo sobe bastante, ou seja, é preciso dimensionar bem o uso do equipamento para a realidade da granja”, expõe Krabbe.
O tratamento térmico e redução do volume de carcaças por desidratação não ocorre por queima ou incineração das carcaças, o que não gera emissão de gases, apenas vapor d’água e gases provenientes da queima da lenha ou biogás utilizado como fonte de energia.
Esse equipamento por chegar até 120º graus e dependendo do tamanho pode comportar até 1000 kg de carcaças (suínos ou aves). O tempo de operação leva de duas a três horas para descontaminação completa. Dentro do equipamento existem “dentes” que cortam o produto e no fim do processo, o material está completamente triturado, como se fosse uma farinha.
Ao término do processo, o material desidratado deve ser encaminhado para tratamento por compostagem ou biodigestão anaeróbia. “Se você tiver uma baixa ociosidade, essa tecnologia para as aves vai custar em torno de R$ 0,01, por vezes até menos de R$ 0,01 para processar. E na suinocultura, o produtor consegue chegar entre R$ 0,01 e R$ 0,02. Então é uma tecnologia bastante eficiente e útil, que ajuda demais na biosseguridade e a custos muito competitivos”, frisa Krabbe.
Realidades diferentes no Brasil
Para todos os processos apresentados existem medidas estabelecidas por órgãos competentes em cada Estado e que devem ser respeitadas. Por exemplo, cita Krabbe, no caso de bovinos mortos é feito o recolhimento dos brincos, que funcionam como uma espécie de documento de trânsito de animais mortos, como se fosse uma GTA.
A remoção dos animais mortos do local de criação deve ser realizada de forma a minimizar os riscos sanitários ao rebanho e de acordo com normas de segurança do trabalho. No caso dos suínos, é preciso tirar os animais da granja, colocar na divisa da propriedade, onde deverá ser recolhido. A IRN de 2019/48 estabelece todas as regras do recolhimento da transformação. Os veículos devem ser higienizados e desinfetados para evitar o acúmulo de resíduos.
“Nós temos várias opções do ponto de vista da pesquisa, mas obviamente os produtores precisam respeitar o que os órgãos que fazem o licenciamento das granjas aceitam e consideram como validado dentro da região de competência desse órgão. Então existe tecnologia como o rotoacelerador, que funciona muito bem, é seguro; existe desidratadores, hidrólise – onde você transforma o animal inteiro em líquido. E você tem outras opções, inclusive o uso de carcaças em biodigestores é possível, com um ganho significativo em produção de gás”, afirma, dizendo que todas essas alternativas devem estar muito sintonizadas com a realidade de cada local. “E a depender do sistema usado tem uma grande possibilidade de uso como fertilizantes, de condicionantes do solo, gás etc., têm muitas tecnologias que podem sair destes processos, no entanto, a carcaça é um grande risco do ponto de vista de biosseguridade, por isso é necessário que se faça um trabalho muito sério com relação a isso”, enfatiza Krabbe.
As pesquisas da Embrapa Suínos e Aves são feitas no âmbito do projeto Tecnologias para destinação de carcaças (TEC-DAM) e contam ainda com a participação da Embrapa Gado de Leite (MG) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

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Brasil vê no agro aliado estratégico para energia limpa e crescimento sustentável
Seminário na Câmara aponta ganhos de produtividade, tecnologias avançadas e políticas de incentivo como chave para competitividade.

Em meio à instabilidade do cenário energético internacional e à pressão por metas de descarbonização, a Comissão Especial sobre Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde (CEENERGIA) promoveu, na quarta-feira (25), o seminário “Mapa do Caminho – Biocombustíveis: a Rota Mais Curta”, reunindo parlamentares, representantes do setor produtivo, pesquisadores e integrantes do governo.
O evento foi promovido em parceria com a Coalizão pelos Biocombustíveis e contou com o apoio da Frente Parlamentar Mista da Economia Verde, da Frente Parlamentar do Etanol, da Frente Parlamentar Mista do Biodiesel, da Frente Parlamentar da Agropecuária e da Frente Parlamentar do Biogás e do Biometano.

Embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP 30 até novembro: “A ideia é atrair a confiança do mundo através de um esforço que une governo, sociedade civil e empresariado” – Fotos: Divulgação/FPPA
A iniciativa foi proposta pelos deputados Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na Câmara, e Bacelar (PV-BA), com o objetivo de discutir o papel estratégico dos biocombustíveis na descarbonização da matriz de transporte e na consolidação de novas rotas tecnológicas, como o hidrogênio verde.
Presidente da comissão especial da Câmara e coordenador da Coalizão dos Biocombustíveis no Congresso Nacional, Arnaldo Jardim destacou que o Brasil reúne condições estruturais e tecnológicas para liderar a transição energética com base em uma matriz renovável já consolidada. “Nós queremos a transição e a afirmação do mapa do caminho: tem que ser feita em harmonia com aquilo que é uma realidade dos combustíveis fósseis”, disse.
Transição com segurança jurídica e coordenação institucional
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP 30 até novembro, destacou que a conferência de Belém (PA) deve marcar a transição da fase de compromissos para a implementação prática das metas climáticas. “O mutirão vai mostrar o quanto esse processo já está conseguindo coisas importantes em várias regiões do mundo. A ideia é atrair a confiança do mundo através de um esforço que une governo, sociedade civil e empresariado”, declarou.

Presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel, o deputado Alceu Moreira: “Se nós tivermos segurança jurídica e previsibilidade, uma demanda acima da nossa capacidade produtiva nos permitirá fazer o planejamento de investimento de curto, médio e longo prazo”
Presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel, o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) reforçou que os biocombustíveis são parte central da matriz que posiciona o Brasil como um país agroambiental com selo verde. “Se nós tivermos segurança jurídica e previsibilidade, uma demanda acima da nossa capacidade produtiva nos permitirá fazer o planejamento de investimento de curto, médio e longo prazo”, afirmou.
Já o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da FPA, ressaltou que a integração entre produção de alimentos e energia é uma das principais vantagens competitivas do Brasil. “Direta ou indiretamente tudo vem do agro. Não é apenas o setor que alimenta o mundo, mas é o setor que vai fornecer a energia limpa que o mundo precisa”, ressaltou.
Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia, defendeu que os biocombustíveis devem ser tratados como estratégia de desenvolvimento nacional. “O avanço do setor depende menos da expansão de área e mais de ganhos de produtividade, com uso intensivo de ciência para enfrentar desafios climáticos e aumentar eficiência”, expôs.
Painéis técnicos debatem regulação, tecnologia e financiamento

Deputado Pedro Lupion, presidente da FPA: “Direta ou indiretamente tudo vem do agro. Não é apenas o setor que alimenta o mundo, mas é o setor que vai fornecer a energia limpa que o mundo precisa”
Ao longo do seminário, os debates foram organizados em blocos temáticos sobre inovação tecnológica, sustentabilidade, financiamento e metas de expansão, consolidando uma visão integrada da transição energética brasileira.
O primeiro painel reuniu especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Embrapa Agroenergia e da Associação Brasileira de Bioinovação para discutir os avanços tecnológicos na produção de biocombustíveis.
Na sequência, representantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sustentaram que o avanço dos biocombustíveis não compromete a segurança alimentar. Eles destacaram ganhos de produtividade, uso de áreas já consolidadas e evolução tecnológica como fatores que superam a antiga dicotomia entre alimentos e energia.
No eixo financeiro, técnicos da UNICA, do BNDES e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) analisaram CBIOs, fundos climáticos e garantias regulatórias. Luciano Rodrigues, da UNICA, afirmou que a bioenergia do agro já responde por quase um terço da energia consumida no país. Ele celebrou o avanço do etanol no pós-RenovaBio, mas alertou que o próximo ciclo exige investimentos estruturantes em infraestrutura e inovação.

Deputado Arnaldo Jardim, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na Câmara: “Nós queremos a transição e a afirmação do mapa do caminho: tem que ser feita em harmonia com aquilo que é uma realidade dos combustíveis fósseis”
No painel final, representantes de entidades do biodiesel, etanol de milho, biogás, resíduos, hidrogênio verde e do setor de petróleo discutiram metas de expansão e o posicionamento estratégico do Brasil. “O Combustível do Futuro é um marco histórico, mas a gente precisa gerar escala. Ninguém tem biomassa como nós”, advertiu André Nassar, diretor-executivo da Abiove.
Já o presidente da UNEM, Guilherme Nolasco, defendeu a valorização da agricultura tropical. “Nosso desafio é levar competitividade a todo o país, sem conflito com a indústria fóssil”, apontou.
Tiago Santovito, da Associação Brasileira do Biogás, destacou o biometano como solução pronta para descarbonizar indústria e transporte pesado, com potencial de substituir o gás natural a partir do uso de resíduos.
O seminário também contou com a participação dos professores Gonçalo Pereira (UNICAMP), Gláucia Souza (USP/Agência Internacional de Energia), Artur Yabe Milanez (BNDES), Newton Hamatsu (FINEP), Donizete Tokarski (UBRABIO), André Pedro Maranhão (ABREMA) e Camilo Adas (APROBIO).
Próximos passos
Ao final do seminário, Arnaldo Jardim apresentou um esboço de projeto de lei do “Mapa do Caminho”. O texto ficará aberto a sugestões da população na página da comissão na internet até a próxima terça-feira (03). O lançamento da proposta consolidada está previsto para o dia 09 de março, durante evento em São Paulo.
Paralelamente, a Casa Civil e os ministérios do Meio Ambiente, de Minas e Energia e da Fazenda preparam o “mapa do caminho nacional”, que deverá ser apresentado em breve no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
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Virada de chave entre soja e milho exige precisão técnica e rapidez no campo
Transição para a segunda safra concentra decisões sobre nutrição, manejo fitossanitário e escolha de híbridos, com risco de ponte verde e janela de plantio curta determinando o potencial produtivo e a rentabilidade do sistema.

A transição da soja para o milho segunda safra marca um dos períodos mais relevantes da agricultura nacional. Conhecida como virada de chave, essa fase concentra decisões técnicas, desafios operacionais e impactos diretos na rentabilidade do sistema produtivo. “O sucesso dessa sucessão depende de uma leitura integrada do sistema, aliando nutrição, manejo fitossanitário, escolha tecnológica e agilidade operacional”, salienta o engenheiro agrônomo Marcos Boel Júnior.

Engenheiro agrônomo Marcos Boel Júnior: “O sucesso dessa sucessão depende de uma leitura integrada do sistema, aliando nutrição, manejo fitossanitário, escolha tecnológica e agilidade operacional” – Foto: Arquivo pessoal
A atenção ao sistema produtivo como um todo é fundamental, já que soja e milho apresentam exigências nutricionais distintas. Após a colheita, a soja contribui com parte do nitrogênio disponível no solo para a cultura seguinte, ainda que em volume insuficiente para sustentar altas produtividades do milho, o que demanda a complementação da adubação. Em contrapartida, o milho deixa uma palhada de boa qualidade, rica em potássio, que, ao se decompor, disponibiliza nutrientes para a soja na safra seguinte. Essa troca fortalece todo o sistema.
Outro ponto de atenção nessa transição é o risco da chamada ponte verde, caracterizada pela migração de pragas, doenças e plantas daninhas da soja para o milho recém-emergido. “Na virada de chave, o produtor tem, ao mesmo tempo, soja ainda em maturação, soja seca, áreas sendo colhidas, milho sendo plantado e milho emergindo. Nesse cenário, a praga vai buscar o alimento mais fácil, especialmente a migração de percevejos e do complexo de lagartas da soja para as novas plantas de milho”, alerta Boel Júnior.
Manejo bem conduzido na soja sustenta potencial produtivo do milho
Para mitigar esses riscos, o agrônomo reforça a importância de práticas bem executadas ainda na soja. Ele destaca que uma boa dessecação pré-colheita, por exemplo, facilita a mecanização, melhora a uniformidade da maturação e já permite entrar com o milho em uma área mais limpa. “Em alguns casos, a aplicação de inseticida nesse momento também é recomendada, pois ajuda a reduzir a população de percevejos e lagartas”, pontua.

Foto: Jaelson Lucas
A escassez hídrica, típica da segunda safra, reforça a corrida contra o tempo. “O que está sob nossa influência é plantar o máximo possível dentro da janela ideal. Em regiões tradicionais, o plantio até 25 de fevereiro aumenta muito as chances de o milho florescer com boa disponibilidade hídrica e aproveitar as últimas chuvas”, afirma, destacando que quanto mais o plantio avança fora dessa janela, maior é o risco produtivo.
Nesse contexto, tecnologias e inovações que tragam flexibilidade de manejo se tornam aliadas do produtor. “Toda inovação e boa prática que permita maior eficiência é bem-vinda, porque você não tem tempo para corrigir erros. A escolha correta do híbrido, uma boa biotecnologia que suprime determinadas pragas e um tratamento de sementes profissional trazem mais tranquilidade para o produtor focar em outras operações”, ressalta Boel Júnior.
Além dos aspectos técnicos, a virada de chave é marcada por elevada complexidade operacional e forte impacto econômico, uma vez que o milho segunda safra tem assumido papel decisivo na rentabilidade das propriedades. Neste cenário, a sucessão soja-milho se mostra como um modelo amplamente adotado no País por maximizar o uso da área e promover equilíbrio técnico e econômico no longo prazo, contribuindo para a construção de sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis.
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Degradação do solo compromete produtividade e amplia custo no campo
Áreas com perda de matéria orgânica e avanço da erosão desafiam modelo baseado em insumos químicos, enquanto bioinsumos ganham espaço como estratégia de reconstrução biológica e redução da dependência externa.

O solo agrícola brasileiro dá sinais claros de esgotamento. A perda de matéria orgânica, o desequilíbrio biológico e a redução da fertilidade natural já impactam a produtividade das lavouras e elevam o custo de produção em diferentes regiões do país, colocando em xeque a eficiência do atual modelo produtivo. Esse processo, que muitas vezes avança silenciosamente, já é sentido diretamente no campo e no bolso do produtor.
Na prática, a degradação se traduz em menor disponibilidade de nutrientes, queda da atividade microbiana e aumento da suscetibilidade à erosão. “Estamos vendo solos que produzem menos, exigem mais investimento e entregam menor retorno ao produtor. Esse desequilíbrio pressiona a rentabilidade e compromete a sustentabilidade do sistema produtivo”, afirma administradora, que atua no mercado de bioinsumos e fertilizantes especiais, Sheilla Albuquerque.

Administradora, que atua no mercado de bioinsumos e fertilizantes especiais, Sheilla Albuquerque: “Estamos vendo solos que produzem menos, exigem mais investimento e entregam menor retorno ao produtor”
Estudos conduzidos pela Embrapa apontam que os solos brasileiros apresentam, em média, erodibilidade moderada, com áreas de maior risco concentradas principalmente no Nordeste, onde já se observam processos de desertificação. O levantamento reforça a necessidade de ações prioritárias de conservação e manejo para evitar a perda de terras produtivas.
O desafio é ainda mais evidente nas pastagens. Levantamentos recentes indicam que cerca de 109 milhões de hectares apresentam algum nível de degradação, demandando investimentos elevados em recuperação e manejo adequado para manter a atividade pecuária viável no longo prazo.
Para Sheilla, esse cenário expõe os limites do modelo baseado na intensificação química, com uso crescente de fertilizantes e corretivos para compensar a perda da qualidade do solo. “A dependência de insumos importados torna o produtor mais vulnerável à volatilidade cambial e a choques geopolíticos. Ao mesmo tempo, a degradação física e biológica reduz a eficiência desses insumos, criando um ciclo de mais gasto e menor resposta agronômica”, avalia.
Diante desse contexto, ganha espaço a discussão sobre a reconstrução biológica do solo. O Programa Nacional de Bioinsumos, coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, busca ampliar o uso de insumos de base biológica como estratégia para reduzir a dependência externa, fortalecer a sustentabilidade e elevar a eficiência produtiva da agropecuária brasileira. O programa prevê estímulos à pesquisa, apoio a biofábricas e disseminação dessas tecnologias em diferentes regiões do país.
Os bioinsumos incluem microrganismos benéficos, biofertilizantes e soluções voltadas à nutrição do solo e ao controle biológico, com foco na recuperação da microbiota, na melhoria da estrutura física do solo e no fortalecimento dos ciclos naturais de nutrientes. “Essas tecnologias contribuem para maior resiliência das lavouras, especialmente em cenários de estresse hídrico e climático”, explica Sheilla.
Nesse movimento, o solo deixa de ser visto apenas como suporte físico da planta e passa a ser tratado como um organismo vivo: condição considerada essencial para a competitividade do agronegócio brasileiro no longo prazo.




