Conectado com

Notícias

Desmatamento ilegal, licenciamento ambiental, bioenergia e legislação são temas do painel Desafios da Mudança do Clima no Cerrado

Debate ocorreu durante o evento “Diálogos pelo Clima” – Bioma Cerrado, evento preparatório para a COP30, liderado pela Embrapa.

Publicado em

em

Fotos: Divulgação/Embrapa

Durante a Mesa Redonda “Os desafios da mudança do clima para o Bioma Cerrado – Agricultura, pecuária, florestas e bioenergia”, moderada pelo pesquisador Eduardo Alano, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Cerrados (DF), foram discutidas as influências das mudanças climáticas na bioenergia, na pecuária, na agricultura e nas florestas no Cerrado, considerando os problemas, perspectivas e oportunidades.

Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sybelle Barreira: “Mais de 70% do desmatamento goiano e mato-grossense estão relacionados ao licenciamento. Isso, que era um desafio muito grande, passa a ser um desafio que conseguimos vencer”

Sybelle Barreira, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), comentou sobre a situação e os principais desafios colocados pelas mudanças do clima para o setor florestal no Cerrado. Ela apontou que o desmatamento ilegal é um desafio que tem sido vencido com maior fiscalização e controle. “Em 2024, Goiás, que tem uma grande área de Cerrado, teve uma redução de mais de 50% do desmatamento. Isso é uma vitória do estado”, disse, citando dados do Relatório Anual do Desmatamento (RAD). “Mais de 70% do desmatamento goiano e mato-grossense estão relacionados ao licenciamento. Isso, que era um desafio muito grande, passa a ser um desafio que conseguimos vencer”, completou, ressaltando que não se pode ignorar o Código Florestal brasileiro.

Barreira também destacou como desafio a pesquisa e a comunicação científica para levar informações efetivas para a realidade do produtor rural. “É um desafio, mas a gente vem vencendo como oportunidade. Precisamos de investimento público e provado para seguir com a pesquisa e a extensão rural”, afirmou.

O coordenador-adjunto de Transição Energética da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Henrique Paiva de Paula, abordou a situação no setor de bioenergia. Ele explicou que a transição energética é discutida em função das mudanças climáticas e deve equilibrar a segurança energética, a equidade energética (capacidade de pagamento) e a sustentabilidade ambiental. “Equilibrar esses três pilares é desafiador. No contexto atual de transição energética, principalmente mundial, alguns pilares começam a ganhar mais peso, como a segurança energética, que pode trazer elementos que dificultem a manutenção dos outros dois pilares”, observou.

Outro desafio é abordar o setor energético em nível de bioma, o que pode gerar oportunidades, segundo de Paula. “Quando se fala em transição energética, estamos sempre falando de adição. Não estamos substituindo um combustível por outro, ou um vetor energético por outro. Estamos acrescentando mais de diferentes vetores energéticos”, disse, lembrando que a base hidrelétrica brasileira trouxe um diferencial para o País e que, nos últimos 15 anos, foram introduzidas outras fontes de energia. “Um desafio para o setor energético, quando se fala de transição energética e mudanças do clima, é como seguir trabalhando adição energética e transição energética ao mesmo tempo. É precisar de mais energia e saber qual tipo de energia queremos”.

Para o consultor do Instituto Mato-grossense da Carne (IMAC), Giovane Michelon, o principal desafio para a pecuária frente às mudanças climáticas é o fato do setor ser tratado como maior “vilão” do desmatamento ilegal. “É ultrapassar (a questão), demonstrar e saber ‘separar o joio do trigo’ de quem faz errado e de quem não faz, e não tratar a regra como exceção”, afirmou, apontando a necessidade de se traçar macroestratégias como a imagem da carne mato-grossense (no caso do IMAC), a intensificação da produção e redução do carbono na cadeia pecuária, o avanço na agenda da regularização ambiental, bem como a transparência e rastreabilidade de toda a cadeia.

“A maior dificuldade é tirar a mácula do pecuarista de principal desmatador, de inimigo ambiental. E na realidade, não é isso, muito pelo contrário. Hoje, os maiores controles são justamente dos pecuaristas”, comentou, salientando a importância de maior proximidade das instituições com o produtor e mostrar que esses desafios podem ser superados.

Leny Rosa Filho, superintendente federal de Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Mapa), apontou a politização da pauta ambiental como um dos principais desafios para a agricultura no contexto das mudanças climáticas. “Governos federal, dos estados e dos municípios têm responsabilidade. Todas as práticas fomentadas pelo Mapa levam em consideração o conhecimento científico e o respeito ao meio ambiente. Porém, algumas legislações ambientais nos estados são aprovadas sem levar em consideração essas questões. Todos têm que falar na mesma língua, valorizando sempre o conhecimento científico”, disse.

O superintendente também apontou como grande desafio a redução das desigualdades no campo. Ele citou algumas ações empreendidas pela Superintendência Federal de Agricultura e Pecuária no estado, como a implantação da Unidade Mista de Pesquisa e Inovação (Umipi) da Embrapa na Baixada Cuiabana e o Programa Solo Vivo, voltado à recuperação de áreas degradadas em propriedades de agricultura familiar.

Oportunidades

Para Giovane Michelon, as oportunidades para a pecuária vão sendo criadas à medida que as políticas públicas deixam de ser eficientes. Ele citou o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), criado pelo IMAC para reinserção, no mercado, de pecuaristas bloqueados pelas indústrias, por meio de uma ferramenta que auxilia no monitoramento da regeneração de áreas desmatadas ilegalmente no estado para fins de regularização ambiental.

“Acabamos criando e antecipando o processo de recuperação ambiental por meio do Prem, que faz o monitoramento no sistema, mas trazemos o produtor novamente ao mercado, ele passa a ter uma autorização de comercialização. E a partir disso, podemos consultar se ele está realmente recuperando aquela área que foi desmatada irregularmente”, explicou. O Prem deu origem ao Passaporte Verde, política pública apoiada pelo Ministério Público Federal que auxilia a regularização ambiental em Mato Grosso. “Por meio dessa política, vamos conseguir trabalhar com o processo de intensificação, buscar a redução de carbono na produção e a rastreabilidade”.

Coordenador-adjunto de Transição Energética da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Henrique Paiva de Paula: “Equilibrar esses três pilares é desafiador. No contexto atual de transição energética, principalmente mundial, alguns pilares começam a ganhar mais peso, como a segurança energética, que pode trazer elementos que dificultem a manutenção dos outros dois pilares”

Henrique de Paula informou que a Aneel tem criado grupos de trabalho para participarem da construção de políticas públicas como o Plano Clima, a Taxonomia Sustentável Brasileira, do Plano Nacional de Transição Energética e do Nova Indústria Brasil, que afetam a bioenergia e os diversos segmentos do setor energético. Também têm sido empreendidas atividades regulatórias, como a regulamentação de sistemas de armazenamento de energia, como as hidrelétricas reversíveis. “Tradicionalmente, o Cerrado tem boa parte das pequenas centrais hidrelétricas do Brasil, por exemplo. Será que fazer esse olhar por bioma e buscar oportunidades para esse tipo de atividade regulatória faz sentido? É uma reflexão que levarei para a Agência”, disse.

Outra oportunidade vislumbrada pelo coordenador-adjunto de Transição Energética da Aneel está no Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, que definiu sete temas estratégicos – entre eles, eletricidade de baixo carbono e eletrificação da economia, que envolvem a bioenergia.

Conscientizar os jovens sobre a importância tanto da agricultura como da preservação do meio ambiente deve ser um tema a ser levado para a discussão na COP30, na opinião de Leny Rosa Filho. Ele informou que o Mapa está reestruturando o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com a melhoria e modernização das estações meteorológicas, a fim de levar os dados meteorológicos de forma mais precisa aos produtores.

Sybelle Barreira salientou a necessidade das instituições de ensino e pesquisa a reaprenderem a fazer a comunicação científica junto ao público jovem. “Isso não é fácil”, frisou. A professora da UFG citou problemas no setor florestal decorrentes do aumento das temperaturas, como perda de habitat de flora e fauna, necessidade de remodelação da flora e da fauna para adaptação às novas condições, elevadas taxas de mortalidade de espécies vegetais que têm comprometido a regeneração natural, queda na produtividade do eucalipto, perdas de padrões de sazonalidade das chuvas e o aumento das emissões de óxido nitroso para a atmosfera.

Nesse sentido, ela apontou algumas estratégias. “O Plano ABC+ é uma excelente estratégia, principalmente pelos sistemas integrados e os plantios (de eucalipto) em monocultura. Mas precisaremos de clones adaptados a esse aumento de temperatura. Faço um pedido para que os dados do Plano ABC e do Plano ABC+ sejam liberados para que possamos saber onde esses sistemas integrados e plantios em monocultura foram implantados”, disse, argumentando que as informações poderão auxiliar no avanço da pesquisa. Barreira sugeriu, ainda, a elaboração de programas estaduais que pautem o desmatamento ilegal zero e defendeu o investimento de recursos públicos e privados também nos pequenos grupos de pesquisa na área florestal.

Papel da ciência

Henrique de Paula apontou o desafio de comunicar adequadamente a política pública e a ciência quando ambas convergem, tanto para o público em geral como internamente nas instituições, citando a elaboração de um guia prático sobre mudanças climáticas e transição energética para os técnicos da Aneel, bem como a coleta de impressões da sociedade sobre a publicação. Ele ressaltou o papel da pesquisa, desenvolvimento e inovação não apenas para a produção de dados como também para o avanço das tecnologias que contribuam para a transição energética, citando que o primeiro gerador eólico brasileiro foi oriundo de projetos de pesquisa de uma chamada pública da Aneel, e que está em discussão um edital para projetos voltados à produção de hidrogênio de baixo carbono por meio de bioenergia.

Para Leny Rosa Filho, é preciso harmonizar o discurso sobre as mudanças climáticas na comunidade científica, tendo como base a ciência e conhecimento científico. “Talvez se deva fortalecer o papel da ciência, melhorar a narrativa e gerar dados para que se combata as falas no sentido de que as mudanças climáticas não estejam promovendo algumas situações que vivenciamos no dia a dia”, comentou.

A geração de informações é um grande desafio para a ciência, na visão de Sybelle Barreira. “Com desafios, geramos oportunidades de desenvolvimento científico e tecnológico. Este é o grande eixo que precisamos trabalhar. Não se trata apenas de financiamento”, afirmou, ressaltando a importância da formação de redes de pesquisa, bem como de redes abertas de dados. “A ciência pode colaborar muito para esse diálogo, para avançarmos em termos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Mas precisamos saber quem faz o quê”, completou.

Giovane Michelon ressaltou que as políticas públicas devam ser fundamentadas com pesquisa científica. “Uma política pública feita simplesmente vinculada a dados socioeconômicos, porém sem dados científicos, acaba se tornando vazia”, comentou. Ele salientou que a política pública não é uma receita de bolo. “Quando se fala em recuperação ou regeneração, não podemos aplicar a mesma lógica da Amazônia no Cerrado ou no Pantanal. São lógicas distintas e que devem estar fundamentadas por meios científicos. Hoje, temos que entender que algumas lógicas se alteraram. E o que aplicávamos antes talvez não funcione mais, justamente pela mudança climática”, argumentou.

Ao final da Mesa Redonda, os participantes responderam a perguntas do público sobre manejo de pragas e doenças face às mudanças climáticas; retorno econômico de investimentos em sustentabilidade e o reconhecimento dos produtores que adotam práticas sustentáveis; e o componente florestal na produção de carne e sua incorporação na agricultura familiar.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados

Notícias

Resultados de pesquisa fortalecem a tomada de decisão no campo

Iniciativas da Aprosoja MT e do Iagro MT, auxiliam produtores com dados técnicos para manejo, redução de riscos e aumento da eficiência produtiva.

Publicado em

em

Foto: Bruno Lopes/Aprosoja MT

A pesquisa tem papel fundamental na tomada de decisões no campo, especialmente em momentos estratégicos como o atual, em que a segunda safra de milho já está em desenvolvimento. É nesse período que o produtor acompanha o desempenho da lavoura, observa os impactos das escolhas feitas no plantio e no manejo, e começa a avaliar, de forma mais concreta, o que está funcionando e o que pode ser ajustado.

Nesse cenário, os centros tecnológicos (CTECNOS), iniciativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), em parceria com o Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT), ganham ainda mais relevância ao aproximar o produtor da informação técnica.

Foto: Divulgação

Os trabalhos desenvolvidos nos CTECNOS se destacam como importantes aliados ao oferecerem dados técnicos comparativos e resultados de pesquisas aplicadas à realidade do campo. As informações geradas nesses espaços contribuem para orientar decisões ainda durante a safra, além de servirem como base para o planejamento do próximo ciclo, com foco em maior eficiência produtiva, redução de riscos e melhor aproveitamento dos recursos.

O vice-presidente oeste, Gilson Antunes de Melo, ressalta que a agricultura mato-grossense se destacou e continua se destacando, em grande parte, devido à pesquisa. Tanto no milho quanto na soja, assim como em outras culturas, grande parte da tecnologia aplicada no dia a dia da lavoura é resultado de estudos e pesquisas desenvolvidas.

“Os CTECNOS têm um papel fundamental nesse processo. Eles realizam uma pesquisa diferenciada, pois partem das demandas do próprio produtor. Quando surge uma dúvida no campo, essa necessidade é levada ao CTECNO, que, por meio de estudos, valida e retorna os resultados ao produtor. Dessa forma, há maior confiança nas informações apresentadas, o que facilita a adoção das práticas na lavoura e contribui para a obtenção de melhores resultados”, destaca Gilson.

Foto: Jaelson Lucas/AEN

O coordenador do CTECNO Araguaia, André Somavilla, explica que o período de colheita da soja é fundamental para o potencial produtivo da lavoura do milho. Ele destaca que, se a soja for semeada de forma mais tardia, fazendo com que a colheita avance para os meses de fevereiro/março, consequentemente a entrada da cultura do milho também ocorrerá mais tarde.

“Basicamente, o período vegetativo do milho vai corresponder ao período em que ainda há ocorrência de chuvas, que, em anos normais, se estende até início de abril. Então, o período de colheita da soja impacta diretamente na disponibilidade hídrica para a segunda safra. E a pesquisa se encaixa perfeitamente nesse momento de colheita da soja e plantio da segunda safra, de modo que a gente consegue estimar os potenciais de risco para cada região”, complementa o coordenador.

Foto: Divulgação

Para a pesquisadora do CTECNO Parecis, Daniela Basso Facco, os resultados obtidos nos centros de pesquisa, ajudam os produtores desde o planejamento da lavoura até a fase de condução dos tratos culturais. “Desde a semeadura, os resultados das vitrines de híbridos, por exemplo, podem auxiliar os produtores na escolha do híbrido, no posicionamento em função do ambiente e da época de semeadura”, explica Daniela Basso Facco.

Neste mês, a programação dos CTECNOS ganha reforço com a realização das visitas técnicas nos centros Araguaia e Parecis. Os encontros acontecem nos dias 23 e 29 de abril, respectivamente, e serão uma oportunidade para que produtores e profissionais do agro acompanhem de perto os resultados das pesquisas e levem esse conhecimento para a prática no campo.

Fonte: Assessoria Aprosoja MT
Continue Lendo

Notícias

Gramíneas elevam produtividade da soja em até 15% no Brasil

Estudo com 55 pesquisas em 33 localidades aponta ganhos de até 515 kg por hectare e melhora na saúde do solo.

Publicado em

em

Fotos: Ieda Mendes

Uma análise em escala nacional confirmou o potencial das gramíneas tropicais de raízes profundas, como a braquiária, para impulsionar a produtividade da soja e promover a saúde do solo. O estudo, liderado pela Embrapa e publicado na Revista Agronomy, consolida evidências de diferentes pesquisas realizadas no Brasil e reforça o papel dessas plantas na intensificação sustentável da agricultura.

Foto à direita: Lourival Vilela (sistema radicular de braquiária)

As informações foram obtidas a partir de uma meta-análise conduzida por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF), em parceria com a Embrapa Solos (RJ), o Instituto Federal Catarinense (IFC) e a Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR). A meta-análise é um método científico que reúne e analisa resultados de diversos estudos sobre um mesmo tema, permitindo conclusões mais robustas.

“As gramíneas tropicais estão cada vez mais presentes nos sistemas agrícolas brasileiros. No entanto, ainda faltava uma avaliação em escala nacional sobre os impactos dessa prática na saúde do solo e na produtividade da soja. Realizamos esse trabalho para cobrir essa lacuna”, afirmou a pesquisadora da Embrapa Cerrados Ieda Mendes.

Segundo Mendes, a meta-análise publicada na revista Agronomy utilizou 55 trabalhos publicados até fevereiro de 2026 (confira critérios de inclusão no quadro abaixo), abrangendo ensaios de campo conduzidos em 33 localidades no Brasil. O objetivo foi avaliar os efeitos de gramíneas tropicais de raízes profundas, utilizadas como culturas antecessoras (plantas cultivadas antes da implantação da cultura principal anual), sobre indicadores biológicos da saúde do solo e a produtividade da soja.

Resultados

Os resultados mostraram que as gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente do gênero Urochloa (antes chamado Brachiaria, que originou o termo braquiária), promovem aumento de 15% na produtividade da soja, o que representa um incremento médio de 515 kg por hectare e uma receita adicional de US$ 198 por hectare. A análise de diferentes espécies forrageiras, sistemas de manejo, cultivares de soja e condições edafoclimáticas indicou efeitos positivos em todas as situações avaliadas.

No caso das braquiárias, considerando que são utilizados de 3 a 10 kg por hectare de sementes para o seu estabelecimento, com preço médio de três dólares por quilo, o custo para sua introdução nos agroecossistemas é relativamente baixo, variando entre US$ 9 e US$ 30 por hectare.

De acordo com a pesquisadora, os indicadores de saúde do solo nas áreas cultivadas com as braquiárias também apresentaram incrementos expressivos, com destaque para a atividade das enzimas arilsulfatase (+35%) e β-glicosidase (+31%), seguidas pela fosfatase ácida (+20%), e pelo carbono da biomassa microbiana (+24%) e carbono orgânico (+11%).

Efeito de gramíneas tropicais de raízes profundas como culturas antecessoras, na produtividade de grãos de soja e atributos do solo (atividade enzimática, biomassa microbiana e carbono orgânico total). Os valores representam as médias dos efeitos, e as barras horizontais indicam os intervalos de confiança de 95%, com o número de comparações apresentado entre parênteses. Os círculos pretos indicam a média do efeito para cada variável. A área em verde destaca a produtividade de grãos de soja como a principal variável de resposta agronômica

“De forma geral, as enzimas do solo responderam com maior intensidade ao uso de gramíneas tropicais, com aumentos médios de cerca de 31% — quase três vezes superiores aos observados para o carbono orgânico. Esse resultado reforça o potencial dessas enzimas como indicadores sensíveis das mudanças na saúde do solo. É importante destacar que durante a busca na literatura foram identificadas publicações sobre os efeitos das gramíneas tropicais nos atributos químicos e físicos do solo. No entanto, devido ao baixo número de comparações disponíveis, esses estudos não puderam ser incluídos na meta-análise”, explicou a pesquisadora.

Das 55 publicações avaliadas, nenhuma corresponde ao período entre 2000 e 2010. Dezoito estudos foram publicados entre 2011 e 2020, enquanto 37 foram publicados entre 2021 e 2025. Esse aumento expressivo ao longo do tempo reflete o crescente interesse pelo uso de gramíneas de raízes profundas na agricultura brasileira.

Outro dado relevante é que, de um total de 173 comparações avaliadas, 154 apresentaram ganhos de produtividade, variando de 30 a 2.200 kg por hectare. Apenas 19 comparações (11%) indicaram reduções, com perdas entre 11 e 672 kg por hectare. Na maioria dos casos, essas reduções não foram estatisticamente significativas e estavam associadas a falhas de manejo no estabelecimento das gramíneas.

Segundo a pesquisadora, os resultados confirmam os efeitos benéficos das gramíneas tropicais de raízes profundas e destacam sua contribuição para a intensificação sustentável dos sistemas agrícolas tropicais, especialmente pela capacidade de melhorar a saúde do solo. “Isso, por sua vez, resulta no aumento da produtividade da soja na maioria das condições agronômicas e ambientais”, afirmou.

Implicações para a intensificação sustentável

Pesquisador Lourival Vilela, um dos autores do trabalho, e a profundidade das raízes

De acordo com a pesquisadora, essa meta-análise forneceu evidências robustas de que gramíneas tropicais de raízes profundas, especialmente espécies do gênero Urochloa, devem ser reconhecidas não apenas como plantas de cobertura, mas como poderosos insumos biológicos em sistemas agrícolas regenerativos e conservacionistas.

“Sua capacidade de fornecer múltiplos serviços ecossistêmicos — como a promoção da atividade microbiana, a melhoria da agregação do solo e da ciclagem de nutrientes, o aumento dos estoques de carbono orgânico e a maior infiltração de água — posiciona essas gramíneas na vanguarda das soluções baseadas na natureza para a intensificação sustentável”, afirma.

Nesse contexto, essas gramíneas funcionam como bioinsumos vivos, capazes de regenerar simultaneamente a saúde do solo e aumentar a produtividade das culturas. Segundo Ieda Mendes, essa abordagem amplia o conceito de bioinsumos: passa a incluir não apenas produtos formulados, mas também organismos vivos como as plantas, que interagem com os agroecossistemas para promover resiliência, eficiência e sustentabilidade.

“A adoção em larga escala dessas gramíneas como culturas antecessoras em sistemas de produção de soja representa, portanto, não apenas uma solução tecnológica, mas um investimento estratégico no solo como um ativo vivo, que reforça o papel central da funcionalidade biológica na promoção da sustentabilidade, da produtividade e da resiliência dos agroecossistemas”.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados
Continue Lendo

Notícias

Itaipu avalia potencial de ampliar geração com energia solar no reservatório

Estudos indicam capacidade teórica relevante ainda dependente de avanços técnicos regulatórios.

Publicado em

em

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O reservatório de água da usina de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, na Região Sul do país, possui cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados (km²) de perímetro, com quase 170 km de extensão, desde a barragem até o lado oposto, e uma largura média de 7 km entre as margens direita e esquerda.

Toda a capacidade hidrelétrica contida na área inundada do Rio Paraná, que move turbinas que geram até 14 mil megawatts (MW) de energia elétrica, também pode ser aproveitada para gerar eletricidade a partir de painéis solares instalados justamente sobre o espelho d’água. Esse é o experimento que vem sendo estudado por técnicos brasileiros e paraguaios desde o fim do ano passado.

Ao todo, foram instalados 1.584 painéis fotovoltaicos em uma área de menos de 10 mil metros quadrados (m²) sobre o lago, a apenas 15 metros de um trecho da margem no lado paraguaio, com profundidade de aproximadamente 7 metros.

A planta solar de Itaipu tem capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), unidade de medida para a capacidade máxima de geração de energia. Essa energia é equivalente ao consumo de 650 casas e só é utilizada para consumo interno, sem comercialização e sem ligação direta com a rede de geração hidrelétrica.

Na prática, o objetivo atual da “ilha solar” de Itaipu é funcionar como um laboratório de pesquisa para futuras aplicações comerciais. Os engenheiros envolvidos no projeto analisam todos os aspectos, como a interação das placas com o ambiente, incluindo eventuais impactos no comportamento de peixes e algas, na própria temperatura da água, influência dos ventos sobre o desempenho do painéis, a estabilidade da estrutura, dos flutuadores e da ancoragem com o solo.

A ideia, no futuro, é expandir a geração de energia elétrica por esta via, algo que precisará ser atualizado no próprio Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre Brasil e Paraguai e que viabilizou a colossal obra de engenharia compartilhada. “Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa”, apontou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.

Estimativas preliminares indicam que seriam necessários pelo menos quatro anos de tempo de instalação para atingir uma geração solar de 3 mil megawatts (algo como 20% da capacidade instalada da hidrelétrica atualmente).

O investimento é de US$ 854,5 mil (cerca de R$ 4,3 milhões na cotação atual). As obras de instalação foram tocadas por um consórcio binacional formado pelas empresas Sunlution (brasileira) e Luxacril (paraguaia), vencedor da licitação.

Uma usina, muita fontes

A diversificação de fontes de energia na Itaipu Binacional não se limita aos estudos em energia solar, mas envolve projetos ousados com hidrogênio verde e baterias.

Essas iniciativas estão em desenvolvimento no Itaipu Parquetec, um ecossistema de inovação e tecnologia, criado em 2003 pela Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu (PR). Conta com parceria de universidades e empresas públicas e privadas e já formou mais de 550 doutores e mestres em diferentes áreas.

Ali, funciona o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, que desenvolve o hidrogênio verde. O hidrogênio é denominado “verde”, ou sustentável, porque ele pode ser obtido sem emissão de gás carbônico (CO₂), causador do efeito estufa e, por consequência, do aquecimento global.

A técnica usada no Itaipu Parquetec é o processo da eletrólise da água, que promove a separação dos elementos químicos a partir de moléculas como a da água (H₂O), por meio do uso de equipamentos em processos químicos automatizados feitos em laboratórios.

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 - Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação que integra entidades como instituições de ensino, empresas e órgãos governamentais, da Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 – Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação da Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O hidrogênio verde é versátil e pode servir como insumo sustentável para a cadeia de produção industrial, incluindo siderúrgica, química, petroquímica, agrícola, alimentícia entre outras, e como combustível para o mercado de energia e transporte. Em Itaipu, uma planta de produção do hidrogênio verde serve como uma plataforma para desenvolvimento de projetos-piloto.

“Nós somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para atender, por exemplo, projetos de pesquisa [científica] ou projetos para indústria nacional. Existem algumas empresas nacionais que estão fazendo seus desenvolvimentos de carreta [movida] a hidrogênio, de ônibus a hidrogênio, por exemplo. Aqui é o lugar para testar e validar esses projetos”, explica Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec.

Uma dessas iniciativas foi apresentada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, quando um barco movido a hidrogênio, a partir de uma pesquisa no Itaipu Parquetec, foi entregue para atuar na coleta seletiva das comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense.

Outro destaque no Itaipu Parquetec é um centro de gestão energética, que alavanca pesquisas na área de desenvolvimento de células e protótipos para fabricação e reaproveitamento de baterias, para o armazenamento de energia, especialmente em sistemas estacionários, voltados para empresas ou outras estações fixas, que demandam, por exemplo, uma reserva energética.

Biogás e SAF

A Itaipu também vem apostando na geração de biogás a partir de resíduos orgânicos gerados pelos restaurantes espalhados por diferentes alas da usina e de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA-Vigiagro), em fiscalização de fronteira.

Tudo isso, em vez de ser descartado em aterro, transforma-se em biogás e biometano.

A convite da Itaipu Binacional, a Agência Brasil acompanhou, no último dia 13 de abril, a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis que fica no complexo da usina. O local é gerido pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), uma empresa fundada por Itaipu voltada a soluções na área de combustível limpo.

Por um processo de biodigestão realizado em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos gerados na região são transformados em combustível limpo, capaz de abastecer carros que circulam dentro de Itaipu, abastecidos por meio de cilindros de gás instalados nos veículos.

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2025 - Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustiveis da Usina Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2026 – Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustíveis da Usina Itaipu Binacional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em quase nove anos de operação, segundo a usina, foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, volume que resultou na geração de biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros, o equivalente a 12 voltas ao redor da Terra.

A planta também desenvolve, de forma experimental, o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser usado na produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação, na sigla em inglês).

“Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento”, destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.

Fonte: Agência Brasil
Continue Lendo

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.