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Desmatamento ilegal, licenciamento ambiental, bioenergia e legislação são temas do painel Desafios da Mudança do Clima no Cerrado

Debate ocorreu durante o evento “Diálogos pelo Clima” – Bioma Cerrado, evento preparatório para a COP30, liderado pela Embrapa.

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Fotos: Divulgação/Embrapa

Durante a Mesa Redonda “Os desafios da mudança do clima para o Bioma Cerrado – Agricultura, pecuária, florestas e bioenergia”, moderada pelo pesquisador Eduardo Alano, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Cerrados (DF), foram discutidas as influências das mudanças climáticas na bioenergia, na pecuária, na agricultura e nas florestas no Cerrado, considerando os problemas, perspectivas e oportunidades.

Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sybelle Barreira: “Mais de 70% do desmatamento goiano e mato-grossense estão relacionados ao licenciamento. Isso, que era um desafio muito grande, passa a ser um desafio que conseguimos vencer”

Sybelle Barreira, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), comentou sobre a situação e os principais desafios colocados pelas mudanças do clima para o setor florestal no Cerrado. Ela apontou que o desmatamento ilegal é um desafio que tem sido vencido com maior fiscalização e controle. “Em 2024, Goiás, que tem uma grande área de Cerrado, teve uma redução de mais de 50% do desmatamento. Isso é uma vitória do estado”, disse, citando dados do Relatório Anual do Desmatamento (RAD). “Mais de 70% do desmatamento goiano e mato-grossense estão relacionados ao licenciamento. Isso, que era um desafio muito grande, passa a ser um desafio que conseguimos vencer”, completou, ressaltando que não se pode ignorar o Código Florestal brasileiro.

Barreira também destacou como desafio a pesquisa e a comunicação científica para levar informações efetivas para a realidade do produtor rural. “É um desafio, mas a gente vem vencendo como oportunidade. Precisamos de investimento público e provado para seguir com a pesquisa e a extensão rural”, afirmou.

O coordenador-adjunto de Transição Energética da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Henrique Paiva de Paula, abordou a situação no setor de bioenergia. Ele explicou que a transição energética é discutida em função das mudanças climáticas e deve equilibrar a segurança energética, a equidade energética (capacidade de pagamento) e a sustentabilidade ambiental. “Equilibrar esses três pilares é desafiador. No contexto atual de transição energética, principalmente mundial, alguns pilares começam a ganhar mais peso, como a segurança energética, que pode trazer elementos que dificultem a manutenção dos outros dois pilares”, observou.

Outro desafio é abordar o setor energético em nível de bioma, o que pode gerar oportunidades, segundo de Paula. “Quando se fala em transição energética, estamos sempre falando de adição. Não estamos substituindo um combustível por outro, ou um vetor energético por outro. Estamos acrescentando mais de diferentes vetores energéticos”, disse, lembrando que a base hidrelétrica brasileira trouxe um diferencial para o País e que, nos últimos 15 anos, foram introduzidas outras fontes de energia. “Um desafio para o setor energético, quando se fala de transição energética e mudanças do clima, é como seguir trabalhando adição energética e transição energética ao mesmo tempo. É precisar de mais energia e saber qual tipo de energia queremos”.

Para o consultor do Instituto Mato-grossense da Carne (IMAC), Giovane Michelon, o principal desafio para a pecuária frente às mudanças climáticas é o fato do setor ser tratado como maior “vilão” do desmatamento ilegal. “É ultrapassar (a questão), demonstrar e saber ‘separar o joio do trigo’ de quem faz errado e de quem não faz, e não tratar a regra como exceção”, afirmou, apontando a necessidade de se traçar macroestratégias como a imagem da carne mato-grossense (no caso do IMAC), a intensificação da produção e redução do carbono na cadeia pecuária, o avanço na agenda da regularização ambiental, bem como a transparência e rastreabilidade de toda a cadeia.

“A maior dificuldade é tirar a mácula do pecuarista de principal desmatador, de inimigo ambiental. E na realidade, não é isso, muito pelo contrário. Hoje, os maiores controles são justamente dos pecuaristas”, comentou, salientando a importância de maior proximidade das instituições com o produtor e mostrar que esses desafios podem ser superados.

Leny Rosa Filho, superintendente federal de Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Mapa), apontou a politização da pauta ambiental como um dos principais desafios para a agricultura no contexto das mudanças climáticas. “Governos federal, dos estados e dos municípios têm responsabilidade. Todas as práticas fomentadas pelo Mapa levam em consideração o conhecimento científico e o respeito ao meio ambiente. Porém, algumas legislações ambientais nos estados são aprovadas sem levar em consideração essas questões. Todos têm que falar na mesma língua, valorizando sempre o conhecimento científico”, disse.

O superintendente também apontou como grande desafio a redução das desigualdades no campo. Ele citou algumas ações empreendidas pela Superintendência Federal de Agricultura e Pecuária no estado, como a implantação da Unidade Mista de Pesquisa e Inovação (Umipi) da Embrapa na Baixada Cuiabana e o Programa Solo Vivo, voltado à recuperação de áreas degradadas em propriedades de agricultura familiar.

Oportunidades

Para Giovane Michelon, as oportunidades para a pecuária vão sendo criadas à medida que as políticas públicas deixam de ser eficientes. Ele citou o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), criado pelo IMAC para reinserção, no mercado, de pecuaristas bloqueados pelas indústrias, por meio de uma ferramenta que auxilia no monitoramento da regeneração de áreas desmatadas ilegalmente no estado para fins de regularização ambiental.

“Acabamos criando e antecipando o processo de recuperação ambiental por meio do Prem, que faz o monitoramento no sistema, mas trazemos o produtor novamente ao mercado, ele passa a ter uma autorização de comercialização. E a partir disso, podemos consultar se ele está realmente recuperando aquela área que foi desmatada irregularmente”, explicou. O Prem deu origem ao Passaporte Verde, política pública apoiada pelo Ministério Público Federal que auxilia a regularização ambiental em Mato Grosso. “Por meio dessa política, vamos conseguir trabalhar com o processo de intensificação, buscar a redução de carbono na produção e a rastreabilidade”.

Coordenador-adjunto de Transição Energética da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Henrique Paiva de Paula: “Equilibrar esses três pilares é desafiador. No contexto atual de transição energética, principalmente mundial, alguns pilares começam a ganhar mais peso, como a segurança energética, que pode trazer elementos que dificultem a manutenção dos outros dois pilares”

Henrique de Paula informou que a Aneel tem criado grupos de trabalho para participarem da construção de políticas públicas como o Plano Clima, a Taxonomia Sustentável Brasileira, do Plano Nacional de Transição Energética e do Nova Indústria Brasil, que afetam a bioenergia e os diversos segmentos do setor energético. Também têm sido empreendidas atividades regulatórias, como a regulamentação de sistemas de armazenamento de energia, como as hidrelétricas reversíveis. “Tradicionalmente, o Cerrado tem boa parte das pequenas centrais hidrelétricas do Brasil, por exemplo. Será que fazer esse olhar por bioma e buscar oportunidades para esse tipo de atividade regulatória faz sentido? É uma reflexão que levarei para a Agência”, disse.

Outra oportunidade vislumbrada pelo coordenador-adjunto de Transição Energética da Aneel está no Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, que definiu sete temas estratégicos – entre eles, eletricidade de baixo carbono e eletrificação da economia, que envolvem a bioenergia.

Conscientizar os jovens sobre a importância tanto da agricultura como da preservação do meio ambiente deve ser um tema a ser levado para a discussão na COP30, na opinião de Leny Rosa Filho. Ele informou que o Mapa está reestruturando o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com a melhoria e modernização das estações meteorológicas, a fim de levar os dados meteorológicos de forma mais precisa aos produtores.

Sybelle Barreira salientou a necessidade das instituições de ensino e pesquisa a reaprenderem a fazer a comunicação científica junto ao público jovem. “Isso não é fácil”, frisou. A professora da UFG citou problemas no setor florestal decorrentes do aumento das temperaturas, como perda de habitat de flora e fauna, necessidade de remodelação da flora e da fauna para adaptação às novas condições, elevadas taxas de mortalidade de espécies vegetais que têm comprometido a regeneração natural, queda na produtividade do eucalipto, perdas de padrões de sazonalidade das chuvas e o aumento das emissões de óxido nitroso para a atmosfera.

Nesse sentido, ela apontou algumas estratégias. “O Plano ABC+ é uma excelente estratégia, principalmente pelos sistemas integrados e os plantios (de eucalipto) em monocultura. Mas precisaremos de clones adaptados a esse aumento de temperatura. Faço um pedido para que os dados do Plano ABC e do Plano ABC+ sejam liberados para que possamos saber onde esses sistemas integrados e plantios em monocultura foram implantados”, disse, argumentando que as informações poderão auxiliar no avanço da pesquisa. Barreira sugeriu, ainda, a elaboração de programas estaduais que pautem o desmatamento ilegal zero e defendeu o investimento de recursos públicos e privados também nos pequenos grupos de pesquisa na área florestal.

Papel da ciência

Henrique de Paula apontou o desafio de comunicar adequadamente a política pública e a ciência quando ambas convergem, tanto para o público em geral como internamente nas instituições, citando a elaboração de um guia prático sobre mudanças climáticas e transição energética para os técnicos da Aneel, bem como a coleta de impressões da sociedade sobre a publicação. Ele ressaltou o papel da pesquisa, desenvolvimento e inovação não apenas para a produção de dados como também para o avanço das tecnologias que contribuam para a transição energética, citando que o primeiro gerador eólico brasileiro foi oriundo de projetos de pesquisa de uma chamada pública da Aneel, e que está em discussão um edital para projetos voltados à produção de hidrogênio de baixo carbono por meio de bioenergia.

Para Leny Rosa Filho, é preciso harmonizar o discurso sobre as mudanças climáticas na comunidade científica, tendo como base a ciência e conhecimento científico. “Talvez se deva fortalecer o papel da ciência, melhorar a narrativa e gerar dados para que se combata as falas no sentido de que as mudanças climáticas não estejam promovendo algumas situações que vivenciamos no dia a dia”, comentou.

A geração de informações é um grande desafio para a ciência, na visão de Sybelle Barreira. “Com desafios, geramos oportunidades de desenvolvimento científico e tecnológico. Este é o grande eixo que precisamos trabalhar. Não se trata apenas de financiamento”, afirmou, ressaltando a importância da formação de redes de pesquisa, bem como de redes abertas de dados. “A ciência pode colaborar muito para esse diálogo, para avançarmos em termos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Mas precisamos saber quem faz o quê”, completou.

Giovane Michelon ressaltou que as políticas públicas devam ser fundamentadas com pesquisa científica. “Uma política pública feita simplesmente vinculada a dados socioeconômicos, porém sem dados científicos, acaba se tornando vazia”, comentou. Ele salientou que a política pública não é uma receita de bolo. “Quando se fala em recuperação ou regeneração, não podemos aplicar a mesma lógica da Amazônia no Cerrado ou no Pantanal. São lógicas distintas e que devem estar fundamentadas por meios científicos. Hoje, temos que entender que algumas lógicas se alteraram. E o que aplicávamos antes talvez não funcione mais, justamente pela mudança climática”, argumentou.

Ao final da Mesa Redonda, os participantes responderam a perguntas do público sobre manejo de pragas e doenças face às mudanças climáticas; retorno econômico de investimentos em sustentabilidade e o reconhecimento dos produtores que adotam práticas sustentáveis; e o componente florestal na produção de carne e sua incorporação na agricultura familiar.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados

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Workshop de Bioinsumos reúne mercado e inteligência de dados em São Paulo

Pela primeira vez aberto ao público, evento será realizado nos dias 17 e 18 de março, com foco em análises estratégicas, dados inéditos e projeções sobre o mercado brasileiro e internacional.

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A Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio) está com as inscrições abertas para a 3ª edição do Workshop de Inteligência de Mercado em Bioinsumos, que será realizado nos dias 17 e 18 de março, em Campinas (SP).

Em um momento marcado pelos desdobramentos regulatórios da Lei dos Bioinsumos (nº 15.070) e pela forte expansão do setor no país, o evento se propõe a ser um espaço estratégico de análise e interpretação desse novo ambiente de mercado, reunindo representantes da indústria, especialistas e profissionais do setor, além de demais agentes da cadeia de bioinsumos, para discutir tendências, desafios e oportunidades, com base em dados e projeções sobre o cenário brasileiro e internacional.

Consolidado como um espaço qualificado de acesso a dados exclusivos e discussões de alto nível, esta edição contará com um número maior e mais diversificado de apresentações, tendo como foco a inteligência de mercado.

A programação, que será combinada a momentos de debate e networking entre os participantes, trará análises sobre o panorama global dos bioinsumos, incluindo projeções e tendências para os próximos anos, o cenário das commodities agrícolas e seus impactos sobre o setor, os desafios de adoção das tecnologias biológicas no campo, além de um retrato atualizado do mercado brasileiro, com detalhamento de segmentos como inoculantes e biodefensivos.

A participação é aberta aos associados da ANPII Bio e, pela primeira vez, profissionais não associados também poderão participar, mediante inscrição prévia. As vagas são limitadas e as inscrições podem ser realizadas por meio de formulário online.

Fonte: Assessoria ANPII Bio
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A matemática do fomento para inovação no agronegócio

Da porteira para dentro, o Brasil é líder. Mas o próximo salto competitivo não está na lavoura, está no laboratório.

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O agro brasileiro construiu uma potência produtiva admirada no mundo inteiro. Somos referência em produtividade, eficiência operacional e capacidade de adaptação. Da porteira para dentro, o Brasil é líder. Mas o próximo salto competitivo não está na lavoura, está no laboratório.

O lançamento de R$ 3,3 bilhões em editais de subvenção econômica pela Finep, dentro do programa Finep Mais Inovação Brasil, sinaliza que o país decidiu acelerar sua transformação industrial. Entre esses editais, há um recorte estratégico para as cadeias agroindustriais sustentáveis, com R$ 300 milhões destinados especificamente a projetos de inovação no setor. O edital, disponível no portal oficial da Finep, prevê apoio não reembolsável para o desenvolvimento de novos produtos, processos e tecnologias voltados à agroindústria.

Artigo escrito por Francisco Tripodi, executivo especializado em inovação e financiamento à pesquisa e desenvolvimento.

Esse movimento abre uma oportunidade para o agronegócio brasileiro dar um passo além da exportação de commodities e avançar na agregação de valor por meio de biotecnologia, bioinsumos, fertilizantes de nova geração, processamento industrial e biocombustíveis avançados.

O Brasil já domina a produção de grãos, proteína animal e fibras, mas a pergunta estratégica agora é: queremos continuar exportando matéria-prima ou queremos exportar tecnologia embarcada, soluções industriais e propriedade intelectual derivada daquilo que produzimos?

A matemática do fomento ajuda a dimensionar essa oportunidade e ter a resposta para o questionamento.

Dados dos dez editais da primeira edição do programa Finep Mais Inovação mostram que, a cada R$ 1 investido em projetos apoiados, 69,7% foram aportados pela Finep e apenas 30,3% corresponderam à contrapartida das empresas. Como a subvenção é um recurso não reembolsável, ela reduz diretamente o custo de capital do projeto. Quando essa contrapartida empresarial é estruturada de forma estratégica, pode ainda gerar benefícios fiscais por meio da Lei do Bem, do MOVER e da Lei das TICs, com recuperação que pode chegar a 49% sobre os dispêndios elegíveis.

Na prática, isso significa que cada R$ 1 em subvenção pode gerar aproximadamente até R$ 3 em retorno financeiro em projetos de inovação, considerando os efeitos combinados entre recurso não reembolsável e incentivos fiscais. Para um setor que convive com volatilidade de preços internacionais, pressão de custos e margens apertadas, essa engenharia financeira altera substancialmente a análise de risco.

Não se trata simplesmente de captar recurso público. Trata-se de estruturar projetos com estratégia, governança e visão de longo prazo. Equipamentos de maior risco tecnológico, plantas piloto, unidades de processamento ou soluções biotecnológicas podem ser viabilizados com subvenção. Equipes técnicas e pesquisadores podem gerar créditos fiscais relevantes. O resultado é um projeto mais robusto, com menor exposição financeira e maior capacidade de diferenciação competitiva.

Fazendo uma análise baseada em estimativas de mercado e no meu histórico de atuação no seguimento, indica que empresas que combinam fomento direto e indireto podem crescer até 20% mais rápido que a média de seus setores. Esse crescimento não vem apenas do capital acessado, mas da disciplina estratégica que a inovação exige.

Para mim, o agro brasileiro venceu a batalha da produtividade e agora precisa vencer a batalha da sofisticação tecnológica. O mundo caminha para cadeias mais exigentes em rastreabilidade, sustentabilidade, descarbonização e diferenciação de produto. Quem dominar biotecnologia, processamento avançado e ativos intangíveis terá maior poder de precificação e menor dependência de ciclos internacionais.

Os R$ 300 milhões destinados às cadeias agroindustriais sustentáveis representam uma oportunidade de reposicionamento estratégico. O capital está disponível. O ambiente regulatório está estruturado. O que ainda precisa evoluir, em muitos casos, é a gestão da inovação dentro das empresas, tratando P&D como investimento central na estratégia do negócio.

O agro brasileiro já provou que sabe produzir em escala. O próximo passo é provar que sabe inovar em escala. Dominar a porteira foi uma conquista histórica. Dominar o laboratório pode ser o movimento que garantirá as próximas décadas de liderança global.

Fonte: Artigo escrito por Francisco Tripodi, executivo especializado em inovação e financiamento à pesquisa e desenvolvimento.
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UFSM cria primeiro laboratório maker de foodtech do Brasil

Foodtech FabLab conecta ciência, startups e indústria para acelerar o desenvolvimento de alimentos, bebidas e suplementos mais sustentáveis e inovadores.

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A inovação tecnológica aplicada à alimentação ganha um novo impulso no Brasil com a criação do primeiro laboratório maker voltado à foodtech no país. Instalado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Foodtech FabLab foi concebido para aproximar ciência, empreendedorismo e indústria, oferecendo infraestrutura avançada, capacitação e serviços especializados para o desenvolvimento de novos produtos nos segmentos de alimentos, bebidas e suplementos.

Integrado ao InovaTec UFSM Parque Tecnológico e viabilizado com recursos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o laboratório surge com a proposta de acelerar a transformação da cadeia alimentar por meio da inovação, contribuindo para processos mais eficientes, sustentáveis e alinhados às demandas do mercado. A inauguração oficial do espaço está marcada para o dia 31 de março, às 09 horas, no Espaço Collab, localizado no prédio 61H do campus sede da universidade.

A iniciativa responde a um cenário global marcado por profundas transformações. A pressão por sistemas alimentares mais sustentáveis, cadeias produtivas resilientes e alternativas aos insumos químicos tradicionais se intensifica diante de desafios como insegurança alimentar, instabilidade no abastecimento, mudanças climáticas e exigências crescentes de qualidade e transparência.

Ao mesmo tempo, a reformulação de produtos para atender a novas preferências de consumo exige pesquisa aplicada, agilidade e segurança regulatória. Nesse contexto, ambientes de prototipagem e validação tecnológica tornam-se estratégicos para reduzir o gargalo entre o conhecimento científico e a aplicação no mercado. Por isso, o FoodTech FabLab nasceu com vocação global. É o resultado de um projeto focado em conectar a excelência acadêmica brasileira às exigências de um mercado internacional em constante evolução.

Trata-se de um espaço colaborativo, equipado com tecnologias avançadas, capaz de integrar pesquisadores, estudantes, startups, empresas e representantes do setor regulatório em torno de soluções concretas para os sistemas alimentares do presente e do futuro.

Ambientes maker são espaços de criação que possibilitam aprendizagem prática e incentivam criatividade, experimentação e desenvolvimento de habilidades. Neles, há acesso a ferramentas, equipamentos e plataformas para testes, prototipagem e validação de ideias. No campo das foodtechs, iniciativas com esse perfil ainda são raras no mundo, e no Brasil o Foodtech FabLab se destaca como uma proposta pioneira.

A UFSM já demonstrou sua capacidade de gerar negócios inovadores na área, com empresas como a Baristo e o Delivery Much, criadas por universitários da UFSM e apoiadas pela Pulsar Incubadora Tecnológica, que estão hoje consolidadas no mercado nacional. O novo laboratório amplia essa vocação ao oferecer infraestrutura especializada para que outras iniciativas possam surgir e se desenvolver com maior robustez técnica. E, ainda, o laboratório terá potencial de atuar internacionalmente, em conexão com outros ambientes de inovação, laboratórios de pesquisa e de interação ao redor do mundo.

Empresas deste ramo vêm ressignificando os sistemas alimentares por meio de tecnologias aplicadas ao processamento de alimentos, desenvolvimento de novos ingredientes e produtos, proteínas alternativas, sistemas de entrega por aplicativo (delivery), rastreabilidade, varejo, food service e soluções para redução de desperdício. O objetivo é tornar a cadeia alimentar mais eficiente, segura, e sustentável, atendendo às demandas crescentes por alimentos de alta qualidade e com menor impacto ambiental.

Foodtech FabLab

Mais do que um laboratório, o Foodtech FabLab é uma plataforma de inovação estruturada para transformar ideias em soluções viáveis, sustentáveis e regulatoriamente seguras. Sua organização se apoia em eixos estratégicos (tecnologias disruptivas, sustentabilidade e regulatório) que atuam de forma integrada para reduzir riscos, acelerar validações e ampliar o potencial de mercado dos projetos desenvolvidos.

A infraestrutura contempla o Food Maker Space, a Experience Box para análise sensorial, a Kitchen 3.0 e sala de reuniões para articulação com parceiros. No núcleo tecnológico, o laboratório dispõe de equipamentos como impressora 3D de alimentos, pasteurizador a fio, extrusora de proteínas, extrator de aromas sem solvente, emulsificador nano e sistemas de secagem. Essa combinação permite desenvolver e testar soluções em diferentes frentes, como vegetais minimamente processados, bebidas funcionais, proteínas de origem animal e vegetal, emulsões, aromas naturais, aplicações com micro-organismos, massas e panificação.

Na prática, isso significa que pesquisadores, startups e empreendedores poderão prototipar novos ingredientes, reformular produtos, validar processos industriais em escala piloto e testar modelos de produção antes de investir em escala comercial. O ambiente foi concebido para encurtar o ciclo entre concepção, validação técnica e entrada no mercado, reduzindo incertezas tecnológicas e econômicas.

A sustentabilidade não é apenas um princípio orientador, mas um elemento mensurável do processo produtivo. A cozinha experimental conta com sensores capazes de monitorar consumo de insumos, geração de resíduos, sobras e uso de água, permitindo construir métricas ambientais e orientar decisões baseadas em dados. Essa abordagem favorece o desenvolvimento de produtos com menor impacto ambiental e contribui para a construção de cadeias produtivas mais responsáveis e eficientes.

O eixo regulatório diferencia o Foodtech FabLab ao integrar, desde o início, a interlocução com órgãos municipais, estaduais e federais. A regulamentação é um dos principais desafios na indústria de alimentos, onde padrões rigorosos de qualidade, segurança e saúde são indispensáveis para a comercialização de novos produtos. O laboratório atuará em estreita colaboração com instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Mapa, além de dialogar com referências internacionais, assegurando que as inovações avancem com respaldo técnico e jurídico.

O FabLab poderá oferecer suporte técnico e consultoria para empresas e startups, auxiliando na compreensão e no atendimento aos requisitos legais desde as fases iniciais de desenvolvimento. Atuando como interlocutor, o laboratório ajudará a desburocratizar processos que, por vezes, podem ser complexos e demorados e que comumente causam atrasos no lançamento de inovações no mercado devido à falta de conformidade regulatória.

Outro compromisso central é a formação de talentos. O ambiente foi concebido para promover aprendizagem ativa, criativa e prática, estimulando tanto competências técnicas quanto habilidades comportamentais. A proposta é formar especialistas da UFSM (estudantes dos cursos de Nutrição, Tecnologia em Alimentos, do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia dos Alimentos e de grupos de pesquisa da área) e também profissionais externos, ampliando o impacto para além da universidade.

A inauguração do espaço foi precedida pelo investimento na formação de capital humano. Em 2025, o InovaTec lançou o programa FoodTech Skills, voltado à capacitação de estudantes, pesquisadores e empreendedores para atuação em ambientes de inovação em alimentos. Inicialmente centrado em conteúdos técnicos e regulatórios, o programa passa agora a integrar teoria e prática no próprio laboratório, preparando profissionais para explorar plenamente o potencial da nova infraestrutura. Cerca de cem pessoas já foram atingidas com as ações do Foodtech Skills que trataram sobre registros de produtos e boas práticas laboratoriais, regulamentações sanitárias, sistemas avançados de microondas e extrusão em alimentos.

Inauguração

Com proposta de ambiente aberto e colaborativo, o FoodTech FabLab chega para ampliar as possibilidades de conexão entre a Universidade, a comunidade, o mercado e a indústria. Instalado no Prédio 61H do InovaTec UFSM Parque Tecnológico, o espaço favorece parcerias estratégicas, estimula a criação de negócios de base científica e tecnológica e fortalece o desenvolvimento regional.

Nos próximos meses a meta é integrá-lo plenamente às atividades acadêmicas e empresariais, consolidando-o como polo de referência na área de alimentos. A partir dessa articulação, o laboratório deverá impulsionar novos projetos, atrair investimentos e posicionar ainda mais Santa Maria como rota no mapa da inovação regional e nacional.

No dia 31, o InovaTec UFSM estará de portas abertas para receber a comunidade neste novo espaço, conectar ideias e celebrar mais uma nova etapa da inovação na UFSM.

Fonte: Assessoria UFSM
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