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Avicultura Nutrição

Desafios de micotoxinas e tecnologias para mitigação de efeitos negativos em aves

Contaminação dos grãos pode causar danos às superfícies de absorção intestinais e com isso reduzir produtividade

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Mariel Neves Tavares, médica veterinária, mestranda em Gestão e Inovação na Industria Animal, Laboratório de Análises Econômicas LAE e gerente de Território da Olmix

A questão do uso de antimicrobianos na avicultura como promotores de crescimento e o conceito de resistência bacteriana no conceito de saúde única vem cada vez mais assolando as decisões dos nutricionistas nas granjas produtoras de ovos. Com a Portaria 171 de 13 dezembro de 2018 do Mapa vimos o quão próximo estamos da proibição do uso de algumas moléculas, que podem causar prejuízos produtivos.

Diante dessa situação, algumas alternativas que buscam melhorar a saúde dos animais preventivamente têm sido consideradas. Opções que melhoram digestibilidade são uma das ferramentas das quais não devemos abrir mão. Ácidos e/ou probióticos para controle de microbiota são fundamentais para os controles sanitários exigidos pelos serviços de inspeção para manutenção da saúde alimentar.

A contaminação dos grãos que são a base alimentar das aves comerciais pode causar danos às superfícies de absorção intestinais e com isso reduzir produtividade, além de alterar microbiota e permitir com maior facilidade desenvolvimento de outros patógenos devido também á redução de imunidade que metabólitos produzidos por fungos ainda ao longo da produção das culturas, bem como transportes podem causar aos animais. Por isso, também indispensável é o uso de um adsorvente de micotoxinas no contexto prevenção via nutrição.

As contaminações

Tricotecenos

Em 1989, pesquisadores descreveram a inibição da síntese proteica bloqueando a peptidiltransferase de 60S-ribossômicos como principal modo de ação dos tricotecenos, um dos tipos de micotoxinas.

Em 1993, outro estudioso entendeu que as perdas observadas em condições de campo com milho contaminado com 10000ppb de Deoxinivalenol (Vomitoxinas) – DON podem ter sido nível superior de DON, ou a um efeito sinérgico entre DON e outras micotoxinas.

Em 1996, pesquisa associou necroses, diarreias e vômitos  à presença de DON nas dietas de suínos. Diarreias podem estar ligadas à alteração de microbiota intestinal, com redução da absorção de nutrientes também em aves.

Em 2002 um grupo estudioso relatou perda de desempenho em poedeiras alimentadas com dietas contendo milho contaminados por 7600ppb de DON e 1600ppb  de ZEA. No mesmo ano, outro grupo relatou que baixas concentrações (<10 µmol / L) de DON na digesta modulou seletivamente a atividades de transportadores intestinais.

Fumonisinas

Em 2018, estudo encontrou 100% das  240 amostras de milho analisadas pela metodologia de HPLC MS/MS contaminadas por Fumonisinas (FUM); 56,7% continham ZEA e 77% continham Aflatoxinas, isso demonstra que muitas das amostras continham policontaminações. DON não apareceram em HPCL MS/MS com metodologia considerando níveis mínimos de 200ppb de detecção.

Zearalenona

Já estudos em 1976 com milho contaminado com 10000ppb de zearalenona (ZEA), produzido por  Fusarium mycoestrogen, não influenciou o desempenho da camada intestinal, fertilidade ou eclodibilidade dos ovos quando oferecidas a poedeiras. O que demonstra que é um tipo de micotoxina menos preocupante para poedeiras.

Policontaminações

Outro estudioso observou em 2004 que a suplementação com adsorventes de micotoxinas diminuiu o consumo de ração e aumentou a eficiência da utilização de ração no período de 8 a 12 semanas. Produção de ovos e peso de ovo diminuiu em semanas 4 e 8 em comparação com controles quando grãos contaminados foram oferecidos na alimentação, enquanto ovos e os pesos da casca de ovo diminuíram na quarta semana.

A suplementação com adsorventes impediu a elevação nas concentrações de ácido úrico e peso relativo dos rins. Então, o desempenho da camada intestinal e metabolismo foram adversamente afetados pela alimentação crônica de uma combinação de micotoxinas Fusarium spp, e o uso de adsorvente impediu muitos desses efeitos.

Monitorias de Risco e Micotoxinas Mascaradas

Monitorias para análise de risco nas dietas auxiliam diagnósticos e guiam decisões, mas não reduzem os efeitos negativos que esses contaminantes podem trazer à produção animal. Essa situação pode ser atribuída à interação de micotoxinas não identificadas com micotoxinas conhecidas.

Essa já é uma hipótese que foi confirmada. A alimentação de misturas de grãos (milho e trigo) contaminados naturalmente com micotoxinas de Fusarium podem aumentar a gravidade das micotoxicoses em comparação com a alimentação contendo uma única micotoxina como contaminante.

Um grupo, em 2015, mediu a quantidade de fumonisinas totais nas formas hidrolisadas (HFB1 e HFB2) em 1,5 e 3,8 vezes maior que a quantidade de fumonisinas livres (FB1 e FB2). A concentração de fumonisinas ocultas foi calculada subtraindo-se níveis de fumonisinas livres dos níveis totais de fumonisina. Os níveis de fumonisinas ocultas foram calculados entre 0.5 e 2.0 vezes maior que o nível de fumonisinas livres. Uma forte correlação positiva (R = 0,97) foi observada entre fumonisinas livres (FB1 e FB2) e fumonisinas totais (HFB1 e HFB2).

Com base nesta correlação, gerou modelo preditivo para estimar o nível total de fumonisina com base nos achados por análises de concentração de fumonisina livre. Estes resultados mostram o risco de exposição a fumonisinas provavelmente subestimado se apenas forem consideradas fumonisinas livres. O modelo preditivo poderia ser uma nova abordagem para estimar a quantidade total de fumonisinas em amostras de milho sem a necessidade executar métodos analíticos caros e demorados.

Soluções e Eficácia

A prevalência das micotoxinas, somada aos efeitos encontrados nos animais e ainda a demanda de redução do uso de terapias tradicionais para corrigir as falhas de desempenho causada pelo risco que esses fatores contaminantes da dieta expõe os animais, leva a necessidade do uso de ferramentas de controle.

Segundo relatório anual da European Food Safety Authority (EFSA, 2009) estruturas disponíveis para adsorção de micotoxinas são: carvão ativado, alumínio silicatos, esmectitas (bentonita, montemorilonita), zeolitas, alumínio silicatos ou montemorilonitas modificados, parede celular de levedura.

Há ainda agentes de biotransformação que podem reduzir os danos causados pelas micotoxinas no organismo, são eles: Flavobacterium aurantiacum para detoxificação de aflatoxinas, Eubacterium para tricotecenos, T. mycotoxinivorans para ocratoxinas e zearalenona e Komagataela pastoris para fumonisinas.

Um composto híbrido de algas e argilas foi testado a 1kg/ton de dieta completa base milho-soja, em 2006 por Havenaar e Demais, demonstrando a capacidade de adsorção de 40% de DON a 1ppm associada a 60% de adsorção de FUM a 2ppm concomitantemente, em um sistema dinâmico gastrointestinal, TIM-1 no TNO em Wageningen Holanda.

Uma integração de frango testou em 2016 o composto alga-argila nas dietas pré-inicial e inicial aplicando 0,5Kg/ton de dieta base milho-soja em galpões teste contra galpões testemunhos utilizando produto com estratégias detoxificantes para fumonisinas, a desafio médio de 1ppm desta micotoxina. Os resultados de desempenho produtivo foram comparados e o ganho de peso diário e a conversão alimentar foram 4% superior quando o composto hibrido foi comparado ao agente detoxificante.

Em 2018, uma granja de poedeiras em São Paulo, sob desafio médio de 2ppm de FUM associado a média de 0,8ppm de DON e 2ppb de Aflatoxinas, o mesmo composto foi utilizado em um galpão teste a 0,5Kg/ton contra galpão testemunho utilizando 2Kg/ton de produto a base de bentonita associada a parede celular de levedura, entre as semanas 21 e 34 de idade. Os resultados comparativos foram de 3,65% a mais na taxa de produção de ovos, com p = 0,009.

Novas tecnologias disponíveis podem mudar decisões em uma área produtiva. Importante é observar que o tratamento deve corresponder ao desafio, ou seja, há estratégia eficazes para micotoxinas específicas que não tem ação sob outras micotoxinas. Para conhecer o desafio é preciso monitorar as matérias-primas ou dietas totais. E o ponto decisório deve ser firmado onde há retorno sobre o investimento, afinal é o dinheiro que paga as contas!

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Para especialista do mercado de carnes

São nos meios digitais que as opiniões são formadas, inclusive a maneira como comemos

Segundo especialista, é preciso compreender o que pensa o consumidor e o que ele busca

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Arquivo/OP Rural

Estamos imersos num mar incertezas, em que o futuro é presente. No passado, uma tecnologia ou comportamento social levava anos, até décadas, para ser adotada em larga escala. Hoje, além de não sabermos o que nos espera, as transformações podem ocorrer de um ano para outro ou até em poucos meses. A disrupções constantes ocorrem nas empresas, desafiam o futuro das profissões, das relações sociais e da economia.

Refletir sobre o mercado mundial e brasileiro de carnes foi a missão do experiente consultor Gordon Butland, diretor da G&S Agriconsultants, durante o 20o Simpósio Brasil Sul de Avicultura, realizado em Chapecó, SC. A palestra abriu o evento, que reuniu mais de dois mil profissionais de toda a América Latina.

No mercado consumidor, a transformação com novas e diferenciadas exigências virou rotina. Tradição não é mais garantia de liderança ou permanência da empresa no mercado. É preciso compreender o que pensa o consumidor e o que ele busca.

Tendências

As pessoas estão consumindo menos proteína animal, constata Butland. “São mudanças no comportamento do consumidor que têm um efeito multiplicador”. Essa e outras tendências correm como um pavio de pólvora no mercado, sendo que as mídias digitais são o elemento condutor. “Temos uma geração que não vive sem celular. Esse aparelho modificou nossa maneira de viver”. Nesse contexto, uma marca não existe se não estiver na palma da mão dos consumidores, que são influenciados pelo que veem na tela. “É nos meios digitais que as opiniões são formadas, inclusive a maneira como comemos”, constata.

O jogo mudou e as regras são outras. “As pessoas não aceitam mais a relação ‘da granja à mesa’. Agora, é o consumidor quem diz o que deve ser produzido”, define. “Eles querem saber de onde vem a comida, como foi produzida e o que realmente tem dentro da embalagem”, complementa.

A linguagem do consumidor é simples e direta. “Ele quer rótulos compreensíveis e tem horror a termos como aditivos, amplamente utilizado na indústria”. Ainda conforme Butland, as pessoas buscam alimentos com menos sódio e querem conhecer os valores nutricionais dos alimentos. Não são apenas os jovens que buscam relações de consumo melhores. “Muitas pessoas com 50 anos ou mais buscam longevidade e ajustam a dieta com esse objetivo, o que inclui comer mais disso ou menos daquilo. Isso muda a forma como produzimos e o que temos produzido”, salienta.

Bem-estar animal e meio ambiente

Bem-estar animal, cuidado com o meio ambiente, redução de antibióticos, são algumas questões que se inserem no sistema produtivo com muita força. Nesse sentido, as auditorias atuam como guardiãs dessas questões. “Sabemos que algumas coisas o consumidor tem na cabeça, não são baseados em fatos científicos. Mas, no supermercado, não podemos esquecer a opinião do público”.

Quais as consequências desses novos parâmetros nas indústrias? “Vamos ter especificações mais complexas, sujeitas a auditorias sem aviso prévio. E querem tudo isso sem pagar mais”, reflete. “Não é invenção de quem faz, mas começa com o consumidor, que está forçando mudanças”, salienta.

Credibilidade

Com informações claras sobre o que está comprando, o consumidor busca construir relações de confiança. Para isso, países, empresas e produtores precisam inspirar credibilidade. Nesse sentido, o sapato aperta de todos os lados. Uma das preocupações das multinacionais, por exemplo, é auditar seus fornecedores globalmente.

O Brasil, grande líder mundial na produção de alimentos, teve sua credibilidade arranhada nos últimos tempos. Butland acredita que ainda existe sujeira debaixo do tapete. “As questões envolvendo o ex-presidente Temer não terminaram. Tudo começou com as delações dos irmãos Batista. Então, podemos voltar às manchetes negativas novamente e ter problemas com isso”.

Restabelecer a credibilidade brasileira é fundamental, na visão de Butland. “E isso não acontece em um ano”, frisa. Ele cita o exemplo da Tailândia, que gerenciou mal a gripe aviária em 2004. “Após isso, levou oito anos para retornar ao mercado da União Europeia e dez anos para o Japão”. Para o consultor, isso não vai acontecer com o Brasil. “O mercado não consegue ficar sem a gente, mas não podemos descuidar da credibilidade”, menciona.

Neste cenário, Butland acredita que não se pode subestimar a velocidade e o impacto das comunicações. “O problema ocorre e, imediatamente, a comunicação deve ser clara”.

Importações X exportações

O Brasil exporta para 150 países, sendo que 85% dos produtos são enviados para 30 nações. Em outros sete, o Brasil é o mercado número um de compras. “Quando eu olho para o comércio mundial, não foco nos exportadores, mas para quem está importando. Se não tem importação, não tem exportação”, salienta. Nesse cenário, Butland vê que 16% do crescimento em longo prazo vêm dos menores. Isso porque países e companhias não gostam de depender apenas de um fornecedor. A China, por exemplo, compõe 82% de nossos envios, e a tendência é se manter nesse patamar. “Mesmo onde não somos número um, já temos um market share substancial”, finaliza.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Nutrição

Avaliação prévia do cereal é decisiva contra micotoxinas nas rações

Cuidados envolvendo boas práticas na produção dos cereais desde o plantio até a colheita, assim como os métodos de controle de produção das rações e de qualidade de ingredientes são fundamentais para que se gerencie os riscos com micotoxinas

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Para se evitar a contaminação das rações, a prevenção ainda é a maneira mais eficiente. Os cuidados envolvendo boas práticas na produção dos cereais desde o plantio até a colheita, assim como os métodos de controle de produção das rações e de qualidade de ingredientes são fundamentais para que se gerencie os riscos com micotoxinas nas rações de aves. A nutricionista Renata Soares Marangoni explica um pouco como acontece o processo de produção para evitar contaminações e garantir a maior segurança alimentar das aves. Confira!

O Presente Rural (OP Rural) – Quais os impactos das micotoxinas na produção avícola?

Renata Soares Marangoni (RSM) – As micotoxinas afetam a saúde das aves de uma forma ampla, comprometendo diversos fatores, como a imunidade, os processos digestivos, a performance zootécnica e, consequentemente, a lucratividade da atividade avícola. Dentre diversos efeitos deletérios das micotoxinas podemos citar alguns como: maior suscetibilidade aos desafios sanitários; redução no consumo de ração; problemas na qualidade entérica; redução na taxa de ganho de peso; redução na produção de ovos; redução na fertilidade e eclosão em matrizes.

OP Rural – Este é um problema percebido nas rações de aves. Como fazer para evitar a contaminação?

RSM – É bastante complexo e difícil o controle prático de se evitar a contaminação das rações, principalmente devido a variabilidade que encontramos na qualidade dos cereais utilizados na produção das rações. Ingredientes como  o milho, soja, trigo e seus derivados, entre outros,  necessitam ser avaliados e qualificados de acordo com as suas contaminações para que se possa fazer uma utilização mais criteriosa dos grãos e com isso se tenha uma redução na possibilidade de contaminação das rações produzidas, e assim se evite ou reduza a contaminação das aves no campo pelas diversas micotoxinas conhecidas.

Os cuidados envolvendo boas práticas na produção dos cereais desde o plantio até a colheita são fundamentais para se controlar o desenvolvimento fúngico nas lavouras e com isso se evitar que estes produzam micotoxinas que contaminam os grãos. Cuidados no transporte, no processamento e na armazenagem dos grãos também são fundamentais para que se evite o desenvolvimento de fungos e consequentemente se reduza a possibilidade de contaminações com micotoxinas.

Para se evitar a contaminação das rações, a prevenção ainda é a mais eficiente, para isso se faz necessário o uso de ingredientes não contaminados e portanto práticas de gerenciamento de riscos de contaminação, através de medidas como a análise prévia das micotoxinas presente nos grãos, a fim de se conhecer quais micotoxinas estão presentes e também o grau de contaminação destas matérias-primas, são fundamentais.

Através de análises constantes de diferentes lotes de grãos recebidos ao longo do ano, pode-se criar um histórico de resultados de contaminação de micotoxinas, possibilitando a classificação de diferentes fornecedores, regiões produtoras e épocas do ano.

De posse destas informações o técnico poderá tomar a melhor decisão de uso em relação as possibilidades de problemas que a utilização de grãos contaminados poderia causar às aves.

OP Rural – Como garantir a segurança e qualidade das rações de aves?

RSM – Garantir a segurança e qualidade das rações, em relação as contaminações por micotoxinas, é um trabalho difícil e envolve diversas etapas no processo de produção. É necessário, entre outras medidas, que se controle a qualidade dos grãos. Para isso medidas como a análise de micotoxinas, já no recebimento grãos, a fim de se conhecer o risco da matéria prima que se está recebendo antes de se colocá-la na fábrica, é muito importante. Pois isso ajudará na tomada de decisão, se devemos ou não aceitar determinadas cargas de grãos que sejam provenientes de lotes contaminados.

É de fundamental importância que cada empresa crie seu padrão de qualidade para recebimento e monitoramento de matérias-primas. Este padrão deve ser sempre discutido com os fornecedores e utilizado para a qualificação e classificação deles.

A segregação de grãos, em diferentes silos, de acordo com a qualidade e em relação a níveis de contaminação presentes também pode ser realizada e isso facilitará a ação dos técnicos na decisão da melhor utilização de grãos com maior probabilidade de contaminação em categorias animais de menor risco, buscando assim reduzir os efeitos prejudiciais na performance das aves.

A utilização de processos fabris, como a realização da avaliação na qualidade físico-química dos grãos no recebimento, a realização da pré-limpeza do milho, antes de sua utilização também são práticas que podem ajudar a melhorar a qualidade do ingrediente utilizado em relação a problema com contaminação de micotoxinas.

A utilização da mesa densimétrica, para qualificação de milho, também é outro processo que pode ajudar a reduzir a contaminação por micotoxinas no milho que se utiliza nas rações.

OP Rural – Aditivos ajudam a reduzir os riscos?

RSM – A utilização de aditivos anti micotoxinas, nas rações, tem sido prática comum na atividade avícola e isso tem ajudado a controlar os efeitos nocivos das micotoxinas nas aves. Estes aditivos não controlam a contaminação dos grãos e da ração, mas ajudam na redução da absorção das micotoxinas no trato digestório das aves, e com isso diminui-se a probabilidade de que as diversas micotoxinas afetem a saúde das aves e manifestem seus efeitos deletérios nos animais.

OP Rural – Fazer a ração exclusivamente para aves, não havendo mistura, os riscos de contaminação são menores?

RSM – De modo geral não, como falamos, os maiores riscos de contaminação estão nas matérias primas, nos cerais e não se relacionam com a espécie animal para qual a ração está sendo produzida. Por exemplo: o milho contaminado com micotoxinas vai contaminar todas as rações produzidas com ele, independente da espécie a qual está destina.

OP Rural – As micotoxinas causam perdas no valor nutricional da ração?

RSM – As micotoxinas são metabólitos tóxicos produzidos pelos fungos, em algumas situações, como, por exemplo, mecanismo de defesa em determinadas situações de desafios, e são mais associadas aos seus efeitos prejudiciais diretamente aos animais. Normalmente as perdas nutricionais nos grãos se relacionam com o desenvolvimento dos fungos, já que estes se utilizam de nutrientes presentes nos grãos para se desenvolverem, e com isso afetam a qualidade nutricional dos grãos.

OP Rural – É possível haver contaminação após a ração estar pronta?

RSM – Normalmente as contaminações são oriundas das matérias-primas e estas sim contaminam as rações finais produzidas. Porém, pode haver alguns casos, com o tempo longo de armazenamento das rações, um aumento na quantidade de determinados tipos de micotoxinas presentes, devido a presença de fungos específicos que podem se desenvolver com o tempo.

Portanto, o controle microbiológico da ração durante e após a sua produção, assim como a qualidade de seu armazenamento, são de grande importância para se evitar a contaminação por fungos e consequentemente reduzir o risco de contaminação por micotoxinas.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Condenação no abate

Critérios de condenação: a visão na Europa, Brasil e Estados Unidos

Especialistas dos três continentes falam sobre os critérios de condenação em seus respectivos países

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Como legislam e manejam a produção avícola nos Estados Unidos, Brasil e União Europeia? Já deferentes métodos, com diferentes resultados. Para comparar os sistemas, o Simpósio Brasil Sul de Avicultura, realizado em abril, reuniu especialistas dos três continentes. O evento foi realizado em abril em Chapecó, SC. Compare e tire suas conclusões.

A visão europeia para os critérios de condenação em abatedouros de aves foi o tema do especialista internacional doutor Philip Paul Hammond. Atualmente, a Europa é considerada um dos mercados mais exigentes quando o assunto é produção de alimentos. Conforme Hammond, na União Europeia, a segurança alimentar é regida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos. No entanto, cada estado membro tem uma agência responsável própria para implementação das regras diretivas do bloco no bem-estar das aves e a saúde pública da população humana.

No Reino Unido, a agência governamental Food Standards Agency (FSA) realiza, através de fornecedores privados, assistentes de inspeção post mortem – veterinários oficiais que devem estar presentes em todas as plantas durante o abate e processamento.

“O bem-estar animal está no topo da pirâmide de diretrizes da UE com relação à produção e ao abate de aves”, salienta Hammond. Todo o monitoramento é dividido em três etapas: mortalidade, inspeção post mortem e comunicação dos resultados.

Um dos focos do programa é reduzir a superpopulação das criações, estabelecendo uma densidade animal máxima, além de especificar outros requisitos com relação à iluminação, cama, alimentação e ventilação. Veterinários oficiais visitam periodicamente as criações para verificar se há violações dos critérios de bem-estar. “Além disso, os frangos abatidos de cada criador são cruzados e a observância das regras verificada. Registros pós-mortem com relação a dermatites de contato, parasitismos e doenças sistêmicas também podem indicar que o criador não seguiu as regras de bem-estar”, informa o palestrante.

Hammond lembra que a legislação europeia visa assegurar que a carne não contenha anormalidades, alterações fisiopatológicas ou outra contaminação. Por isso, é papel dos veterinários oficiais assegurar que todos os animais que entram em uma planta de processamento estejam de acordo com as regras, através de informações de todo o processo de criação, inspeção ante mortem, bem-estar animal monitorado, inspeção post mortem, amostragem em laboratório especialmente com relação à Salmonella. “Antes de entrar na linha de processamento, cada carga de aves é avaliada. A inspeção também ocorre na linha de abate. Toda carga gera um relatório de condição dos frangos e integra o sistema interno conhecido como Innova”.

Esses relatórios fornecerão dados dos níveis médios de produção de aves em todo Reino Unido, permitindo a comparação trimestral. “O aumento de qualquer indicador levará a uma investigação pela equipe veterinária”.

Na apresentação, Hammond também discorreu sobre as orientações para as lesões encontradas nos frangos abatidos. Lesões generalizadas resultam na rejeição total da carcaça. “Estas lesões podem ter sido geradas por vários fatores. No entanto, o estresse enfrentado pelos frangos durante o transporte é uma das maiores causas de problemas”, exemplifica. Neste sentido, uma série de ações podem aliviar os efeitos negativos desta etapa do processo. Como a densidade de animais, transporte em horários mais frios do dia, proteção à luz direta do sol e ventiladores para aumento do fluxo do ar. “As lesões geralmente são causadas por estresse, no processo de recolha na fazenda, durante o transporte ou condições de estabulação e clima”.

Lesões macroscópicas variam entre 4% e 9,5% em sistemas intensivos de criação. “Qualquer animal rejeitado nos critérios jamais poderá seguir para consumo”. Esses critérios envolvem: aves que chegam mortas ao abatedouro; debilitadas; lesões articulares e artrites; dermatites e celulites; problemas respiratórios; hepatites, entre outros. Os dados atuais do Reino Unido mostram que a prevalência média de lesões micro identificadas nas carcaças varia de 14,5% – 18,1%.

Considerações gerais sobre os critérios europeus de condenação

“Bem-estar e saúde pública são fundamentais na avicultura; embora os fatores de bem-estar estejam relacionados ao processo produtivo na fazenda e no transporte, é no frigorífico que resultados de bem-estar podem ser medidos objetividade; os critérios de condenação variam entre os países com o objetivo de garantir a qualidade e a segurança da carne consumida pelo público; diferenças nos critérios existem devido à legislações diferentes baseadas na interpretação local da ciência e política, risco à segurança alimentar, conformidade e treinamento, custo de produção e disposição de condenação, esquemas de garantia, bem como o mercado para os produtos; fatores legais, políticos, de percepção do consumidor e desafios locais de doenças influenciam nos níveis de condenação, seja de carcaça total ou parcial; o objetivo é garantir o controle ideal de doenças, a biossegurança e o gerenciamento, e bem-estar, bem como ótimas técnicas produtivas, através do controle do processo, manutenção e investimento em novas tecnologias”.

A visão brasileira

Elci Dickel apresentou a visão brasileira com relação aos critérios de condenação em abatedouros de aves. Dickel é médico veterinário, professor doutor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade Passo Fundo, RS. Possui vínculos de pesquisa com grupos consolidados da UFRGS e Embrapa Suínos e Aves – Concórdia, SC. É também auditor fiscal federal agropecuário (aposentado) do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Conforme Dickel, a inspeção de produtos de origem animal no Brasil é de responsabilidade do Mapa, através da Secretaria de Defesa Agropecuária, do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal- Dipoa. Com a tecnificação da avicultura no país, o Mapa, editou a Portaria Nº210 de novembro 1998, que trata do Regulamento Técnico da Inspeção Tecnológica e Higiênico, Sanitária de Carne de Aves.

O organograma do Dipoa contempla auditorias nacionais, estaduais e regionais. Nos estabelecimentos, a equipe do SIF é coordenada pelos auditores federais agropecuários, agentes de Inspeção e auxiliares de Inspeção pertencentes às empresas, treinados e coordenados pelo SIF local. A IN 20 de 2016 contempla o controle e monitoramento da Salmonella spp. O Decreto 9.013 de 2017 dispõe sobre o regulamento da inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal (Riispoa). O setor é regido ainda pelo Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA) instituído em 1994, pelo Programa Nacional de Controles de Resíduos Biológicos (PNCRB) e pelo Programa de Redução de Patógenos.

A inspeção avalia a qualidade higiênico-sanitária dos produtos de origem animal. “Os fiscais verificam se o produto atende aos requisitos mínimos de qualidade para o consumo. Os produtos aprovados recebem um selo de aprovação”, informa Dickel. Além da inspeção nos frigoríficos, o processo produtivo das aves é acompanhado pela equipe técnica dos estabelecimentos, em todas as etapas da criação. “Estes profissionais emitem certificados para cada lote, os quais são verificados pelo SIF local, por ocasião da inspeção ante mortem”, explica Dickel.

A inspeção brasileira, explica Dickel, se dá nas seguintes etapas: manejo pré-abate, inspeção ante mortem, inspeção post mortem, verificação dos programas de autocontrole e certificação sanitária. “A inspeção visa garantir que os produtos de origem animal e seus derivados estejam de acordo com os conceitos de segurança alimentar, atendam as exigências sanitárias e padrões físico-químicos nacionais e internacionais”, esclarece.

Dickel salienta ainda a importância do bem-estar animal em todo o processo produtivo. “Bem-estar animal não é só uma filosofia, acaba por repercutir na carcaça. Portanto, temos que ter em mente que o grande benefício do bem-estar animal é na qualidade das carnes”. Outro ponto relevante, destaca, é a qualificação dos profissionais envolvidos na produção e inspeção. “O veterinário deve estudar a fisiologia das aves, especialmente no Brasil, onde tem quatro estações bem definidas. Precisamos de equipes treinadas para trabalhar com aves, pois se trata de uma matéria-prima que exige cuidados especiais”.

Números

Dados do Mapa referente ao abate de aves em 2018 foram discutidos por Dickel durante a palestra. Os abates estaduais e municipais não estão contemplados na análise. Das 5,7 bilhões de cabeças de aves abatidas no ano passado, 507 milhões apresentaram alguma alteração: – 57,1% tecnopatias, defeitos de criação ou de processamento – a maior parte por processamento. É um número expressivo, mas nem todas são condenadas; 22% são processos inflamatórios; 20% defeitos fisiológicos – 91% dos processos fisiológicos são as miopatias.

Diante destes números, Dickel avalia que os desafios do setor são gigantes. Conforme ele, entre as tecnopatias, 61% são contaminação de carcaça; 29% contusões e fraturas. “Precisamos alinhar procedimentos. Embora as apanhas das aves sejam realizadas por equipes, os números mostram que falta qualificação para tal. Penso que a inspeção brasileira precisa refletir e aprimorar alguns aspectos”, salienta.

Para Dickel, observar os padrões de qualidade e as recomendações legais é fundamental para obter uma carcaça de qualidade. “Temos que utilizar critérios e padrões uniformes, isso é essencial”. Ele também reclama a falta de agilidade. “Precisa-se mudar as regras conforme a ciência evolui, utilizar ferramentas e novas tecnologias”.

Resumo das necessidades do setor, conforme Elci Dickel: educação continuada (reciclagem) para a equipe de fiscalização; preenchimento de vagas com técnicos concursados; treinar os funcionários envolvidos com a gestão de qualidade; técnicos com conhecimento dos processos industriais; incorporação de novas tecnologias para melhorar a inspeção; padronização nacional de nomenclatura e destinos para as carcaças e vísceras com alterações; treinar os funcionários e incorporar o uso de sistemas de inteligência artificial afim de evitar desperdício; atualizar os dados nacionais e mais acessíveis; maior controle sanitário-oficial na criação dos animais para abate e industrialização. “Temos a responsabilidade de fornecer frangos de qualidade para qualquer parte do planeta que consuma nossa carne”, sustenta.

A visão estadunidense

O norte americano Mike Casto falou sobre a visão americana para os critérios de condenação no abate de aves. Casto é especialista em abatedouro e integra o Suporte Técnico Mundial da Cobb-Vantress.

A Salmonella é um patógeno que contamina a carne durante o abate e o processamento. Nas pessoas, pode provocar diarreia, dor abdominal e febre. Durante o abate e o processamento dos frangos, a presença de Salmonella spp. nos intestinos, pele e penas resulta em contaminação da carne e seus subprodutos. A Comissão Internacional para Especificações Microbiológicas em Alimentos define como pontos críticos gerais de controle (PCC) para o abate de frangos o escaldamento, a lavagem após a depenagem, a lavagem após a evisceração e o pré-resfriamento.

Mike Casto informa que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) vem trabalhando na modernização de seu sistema de inspeção de aves ao longo de duas décadas – um sistema que foi originalmente desenvolvido na década de 1950. O Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar do USDA (FSIS) relatou em 1997 que estudos da Academia Nacional de Ciências, do General Accounting Office e do USDA “estabeleceram a necessidade de mudanças fundamentais no programa de inspeção de carnes e aves do USDA”.

Tolerância zero

Um programa piloto foi implementado em 1997 em 20 plantas de frango, chamado Projeto de Modelos de Inspeção Baseado em HACCP, ou HIMP. O objetivo do HIMP era testar um sistema alternativo de inspeção de segurança alimentar que buscava diminuir a contaminação por patógenos. Segundo Casto, ao longo dessas duas décadas tem sido estudado, debatido e revisado visando a modernização da inspeção de frango, melhorar a segurança alimentar e proteger os trabalhadores.

Conforme Casto, neste controle mais rígido iniciado na década de 1990, o USDA determinou tolerância zero para contaminação por Salmonella e outros patógenos nas carcaças de frango. “O que parecia simples acabou revelando-se um gigantesco desafio, devida às dificuldades técnicas de adaptação ao novo sistema. Muitas plantas não estavam preparadas para tal”, afirma. Tanto o setor produtivo quanto a indústria precisaram desenvolver tecnologias para atender ao programa governamental. “Foi preciso garantir que nenhuma carcaça enviada ao resfriamento tivesse qualquer material fecal visível, uma tentativa de minimizar ao máximo a probabilidade de contaminação por Salmonella”, recorda.

Logo percebeu-se que o problema era maior do que o esperado e o sistema de processamento e limpeza não dava conta de atender aos padrões, afirma Casto. Se qualquer material fecal fosse encontrado em uma carcaça, a linha de processamento devia ser imediatamente interrompida. Medidas corretivas e preventivas eram tomadas antes que a linha de processamento fosse reiniciada. Isso, segundo Casto, significava avaliar cada peça dos equipamentos para determinar a causa da falha o que, naturalmente, gerava um alto custo produtivo.

Solução

No entanto, a solução para o problema da contaminação não estava estritamente na indústria, mas começava nas fazendas. Estudos indicaram que retirar a ração dos frangos ainda no galpão – respeitando uma janela de 8 a 12 horas antes da chegada à linha de abate, diminui as chances de contaminação. Os frangos continuavam bebendo água para promover a digestão e o descarte adequado do conteúdo intestinal, até a recolha das aves e envio ao abatedouro.

“Os intestinos vazios representam uma diminuição considerável da contaminação nas linhas de abate”, afirma Casto. A partir desta constatação, a cadeia norte-americana de produção de aves desenvolveu um programa que garante a retirada do trato naturalmente, ainda na fazenda. Já na indústria, simula-se as condições da fazenda, mantendo os frangos o mais confortável possível até limpar totalmente o trato intestinal. A permanência mínima nesse espaço é de duas horas.

Na linha de abate, outras medidas foram observadas, como a velocidade de fluxo das aves adequado e temperatura de escaldagem não muito alta. “Neste momento, cuidado aos detalhes e uniformidade das aves abatidas é fundamental”, resume Casto. Ele comenta que foi preciso mudar ainda o processo de lavagem das aves. “A indústria de engenharia logo aprendeu maneiras criativas de construir sistemas de lavagem de gabinete, alguns com escovas, que usavam vários estilos de bicos de alta pressão. Ângulos ajustáveis para o fluxo direcional atingem áreas difíceis de alcançar”, exemplifica.

O resultado foi que, na maioria das plantas norte-americanas, houve uma redução significativa em todos os fatores de contaminação desde o início do programa tolerância zero. “Os ajustes de manejo, fluxo de abate e equipamentos fizeram uma diferença significativa no objetivo de reduzir ao máximo a contaminação por patógenos”, sintetiza.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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