Bovinos / Grãos / Máquinas
De 20 para 400 litros diários e o sonho de chegar a mil
Jornal O Presente Rural vai até Itaquiraí, Em Mato Grosso do Sul, conhecer a história e os desejos do produtor da agricultura familiar
A gente costuma mostrar propriedades modelo em nossas reportagens, mas boa parte das áreas rurais no Brasil são pouco tecnificadas. Em pequenos sítios da agricultura familiar, os serviços braçais são mais frequentes, o uso de tecnologias é mais restrito e os resultados econômicos estão longe daquelas cifras bilionárias que o agronegócio nacional sustenta. Mas são produtivas e podem ser exemplo de como o agro se desenvolve no país mesmo nas adversidades.
É assim na propriedade de Amarildo Rodrigues de Oliveira, no município de Itaquiraí, em Mato Grosso do Sul. Pouco maquinário e muita dedicação estão transformando a realidade da família. “Comecei na atividade leiteira no ano de 2000, com 20 litros por dia. Hoje estamos tirando cerca de 400 litros. Meu objetivo, em dois anos, no máximo, é chegar a mil litros por dia. Seria a realização de um sonho”, confidencia o pequeno produtor.
O município de Itaquiraí sofreu uma mudança econômica a partir do surgimento dos assentamentos rurais, em 1985. Até o ano de 2007, foram desapropriadas ou compradas 12 áreas para abrigar agricultores sem-terra. Hoje são 2,7 mil famílias assentadas em 46 mil hectares de terras. Amarildo, a esposa Vanda e os três filhos não estavam na lista de beneficiados, mas acabaram comprando a terra de um assentado, no ano de 2000. Eles ainda aguardam pelo título da propriedade, mas nesse tempo tocam os 17,5 hectares para um futuro promissor. Embora nem sempre tenha sido assim. Amarildo, de 45 anos, conta que pensou em desistir.
“A gente começou bem desanimado. O solo era muito ruim para plantar, não tinha fertilidade. Até 2005 a vontade era pegar as coisas de ir embora. Para você ter uma ideia, a primeira análise de solo me pediu 12 toneladas de calcário por alqueire, muita coisa”, conta, lembrando sempre que os recursos são escassos para esses produtores. “Mas aos poucos a gente foi adubando, foi corrigindo o solo e investimos na vaca de leite. Hoje tudo (recursos) tem que sair do leite”, diz o pecuarista.
São 31 vacas Jersey e Jersolando e quatro Holandesas, 20 delas em lactação. Contando as bezerras e novilhas, são 71 animais. “Começamos bem pequenos, com 20, 30 litros, mas fomos crescendo. Nosso projeto agora é chegar a 50 vacas em lactação. Para isso, eu quero investir para melhorar a propriedade, fazer um semi-confinamento e uma nova sala de ordenha, com canalização para o leite. Mas a gente fica com um pouco de medo. O diesel sobe todo dia, a gente tem que trabalhar com o pé no chão. Esse investimento que pretendo fazer é de R$ 120 mil, mas tenho medo de investir e não conseguir pagar. Acho que vou esperar as coisas se estabilizarem mais no Brasil”, comenta o produtor.
Modesta, mas produtiva
A propriedade é humilde. Uma casa simples, dois açudes para a criação de tilápias para consumo próprio, com destaque para a necessidade de lona, pois o solo arenoso absorve a água. Vários piquetes e uma sala de ordenha modesta, de madeira, com a extração do leite feita com balde ao pé. “A gente ordenha três vacas por vez, duas vezes ao dia. É trabalho pra cinco horas”, explica. As teteiras são inseridas na vaca e o leite é despejado em grandes baldes, que são lacrados e aguardam o caminhão da cooperativa passar recolhendo. Todo o leite é destinado a uma cooperativa do Paraná, a cerca de 180 quilômetros de distância.
Engana-se, no entanto, quem pensa que simplicidade é sinônimo de pouca produtividade. A média diária é de 20 litros por dia com a raça Jersey, que, segundo Amarildo, está dentro de um bom patamar. O bom desempenho, corroborado com 4,32% de gordura, 3,35% de proteína e 290 mil células somáticas, vem com uma série de fatores, cita o produtor, que incluem “manejo, dieta e sanidade”.
“Detalhes”
“O manejo é muito importante. Ele começa com a escolha do animal. Escolhi a Jersey porque é uma vaca mais rústica, ela come menos, dá menos trabalho. Elas são separadas em piquetes, de acordo com o período produtivo. A escolha do pasto também é importante. A gente tem aqui a Tifton e o Manbasso”, lembra o produtor.
Ele cita, ainda, que o balanço nutricional tem que estar equilibrado para que a vaca expresse seu potencial produtivo e para faturar mais com a qualidade da bebida. “A dieta é fundamental para nós. Se cair os níveis (nutricionais) da dieta, a produção da vaca cai também e cai os níveis de gordura e proteína do leite. Com níveis altos, a gente consegue até 12 centavos a mais por litro. Eles (indústria) pagam mais por leite de mais qualidade”, cita. “A nutrição é uma coisa que a gente não pode vacilar. Se faltar trato, cai a produção e a qualidade”, reforça Amarildo. A alimentação na propriedade é à base de pasto e silagem, toda da fazenda. “Planto milho para silagem. Hoje somos autossuficientes”, destaca. Ração também entra no cardápio, tudo orientado por técnicos de uma empresa de nutrição animal e da cooperativa.
A dieta é diferente também no pré-parto, pontua o produtor. “A gente faz uma dieta diferente no pré-parto. O que a vaca come nesse período tem que ser ainda mais balanceado”.
Para crescer com qualidade, apesar das instalações não serem as mais adequadas, Amarildo se preocupa com a sanidade. “A gente faz todos os procedimentos de higiene, como lavar os tetos, desinfetar, enxugar com papel toalha. Tem que fazer isso porque se não, não dá qualidade no leite”, cita, referindo-se à Contagem de Células Somáticas.
Poucas oportunidades e muita esperança
O produtor rural explica que a união em associação permitiu que ele e seus vizinhos conseguissem alguns maquinários para facilitar o trabalho no dia a dia. “Temos a associação dos moradores, que sou presidente. Conseguimos um trator e uma ensiladeira, que já ajuda um bastante. Mas somos em 38 produtores e outros 30 vão se associar. Vamos tentar conseguir mais um trator e duas carretas basculantes par atender todo mundo”, comenta.
As dificuldades são grandes para esses produtores, especialmente no acesso à informação. “Agora, com a internet melhorou um pouco, mas a gente tem pouco conhecimento das novas tecnologias, das coisas que a gente pode colocar na propriedade. A gente depende dos técnicos para ter esse contato com as novidades”, comenta Amarildo. De fato, até o acesso à propriedade é ruim, de chão, cheio de buracos.
Amarildo espera que o mercado do leite melhore nos próximos meses e que consiga o financiamento para a reforma da fazenda. “O mercado do leite estava muito ruim, o preço baixo. Agora começou a dar uma reagida, espero que melhore nos próximos meses, mas tá difícil”, sustenta. “A gente espera que melhore”.
Vaca de 61 litros
Na varanda de casa, Amarildo e o filho Diogo ostentam com orgulho vários troféus e cópias de cheques que ganhou em torneios leiteiros no MS. Em um deles, conta Amarildo, comprou uma vaca só para participar de uma competição, e se deu muito bem. “Fiquei sabendo do torneio e fui comprar uma vaca holandesa que sabia que era bem produtiva. Paguei R$ 4 mil nela, mas acabei ganhando 11 mil de premiação do torneio”, conta, satisfeito com o bom negócio. “Tem gente que não acredita, mas essa vaca produziu 61 litros”, comenta o produtor. O animal ainda está produzindo, mas não emprenha mais e deve ser descartado em breve para dar lugar a uma vaca que garanta a reprodução e o aumento do plantel para Amarildo chegar aos tão sonhados mil litros. O caminho é longo, feito com os pés no chão, como Amarildo mesmo diz, mas alguém duvida que ele vai realizar esse sonho?
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Pecuária brasileira investe em rastreabilidade e práticas sustentáveis para modernizar o setor
Programa da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável orienta produtores sobre recuperação de pastagens, formalização e monitoramento da cadeia para aumentar eficiência e atender exigências ambientais e comerciais.

Pressionada por novas exigências ambientais, regras comerciais mais rigorosas e pela necessidade de ampliar a produção sem expandir área, e ao mesmo tempo impulsionada pelos avanços produtivos que vêm transformando o setor, a pecuária brasileira atravessa um momento decisivo. Ao mesmo tempo em que enfrenta questionamentos sobre emissões e desmatamento, o setor reúne condições técnicas e práticas sustentáveis para liderar uma transição baseada em tecnologia, eficiência, recuperação de áreas já abertas e maior integração dos produtores à cadeia formal.
Nesse cenário, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável tem reforçado sua atuação como articuladora de propostas estruturantes e como referência técnica para o debate público. A entidade sustenta que a competitividade da carne brasileira dependerá da capacidade de transformar o momento atual em ativos estratégicos.

Presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Ana Doralina Menezes: “O Brasil tem a oportunidade de demonstrar que é possível produzir mais utilizando melhor o que já existe” – Foto: Clever Freitas
Um dos pilares dessa agenda é a recuperação de pastagens degradadas, apontada como eixo central do Caminho Verde, política pública defendida pela instituição para impulsionar a intensificação sustentável da atividade. A estratégia parte de um diagnóstico claro: “o Brasil possui um volume importante de áreas consideradas de baixa produtividade. Requalificá-las, por meio de manejo adequado, melhoria do solo, tecnologias e integração de sistemas, permite elevar a produção por hectare, reduzir emissões relativas e otimizar a produção”, explica a presidente, Ana Doralina Menezes.
De acordo com a profissional, o programa representa uma solução pragmática e alinhada às demandas globais. “O Brasil tem a oportunidade de demonstrar que é possível produzir mais utilizando melhor o que já existe. Recuperar pastagens é aumentar eficiência, melhorar renda no campo e responder de forma concreta aos compromissos climáticos”, afirma.
A transformação, porém, não se limita à dimensão produtiva. Parte relevante do desafio está na reinserção de pecuaristas na cadeia formal. A informalidade restringe acesso a crédito, assistência técnica, mercados que exigem comprovação socioambiental, além de fragilizar a imagem do setor como um todo, por isso é imprescindível que o pecuarista esteja alinhado e de acordo com o Código Florestal vigente.

Foto: Breno Lobato
Para o vice-presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Lisandro Inakake de Souza, a inclusão é condição para que a transição seja efetiva. “Quando o produtor está regularizado, ele tem acesso a financiamento, pode investir em tecnologia e atender às exigências de mercado. A formalização precisa ser vista como instrumento de fortalecimento econômico e não apenas como obrigação”, destaca.
A ampliação da rastreabilidade também integra esse movimento, uma vez que ela se apresenta como infraestrutura que conecta sanidade, ambiente e gestão. Em relação ao mercado, com compradores cada vez mais atentos à origem e à conformidade ambiental, sistemas consistentes de monitoramento tornam-se fator determinante para manutenção e novas aberturas. Por isso, como reforça a Mesa, transparência é elemento estruturante da competitividade. “Rastreabilidade é credibilidade. Ela protege quem produz corretamente e permite que o Brasil apresente dados sólidos sobre sua cadeia”, frisa Lisandro.
Ao articular recuperação de pastagens no âmbito do Caminho Verde, inclusão produtiva e avanço da rastreabilidade, a instituição busca incentivar o setor de forma propositiva diante das transformações regulatórias e comerciais em curso. “Mais do que reagir a pressões externas, a estratégia é demonstrar que produtividade, responsabilidade socioambiental e inserção competitiva podem avançar de forma integrada, incentivando o produtor a atuar como centro da solução”, complementa Ana Doralina.
Uma agenda conectada ao campo

Lisandro Inakake de Souza, vice-presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável: “Quando o produtor está regularizado, ele tem acesso a financiamento, pode investir em tecnologia e atender às exigências de mercado” – Foto: Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável
Para apoiar o pecuarista nos temas estratégicos que vêm moldando o futuro da atividade, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável iniciou 2026 com uma programação propositiva de webinars voltados à qualificação e à disseminação de informação técnica.
No dia 29, foi realizado o segundo encontro dedicado à reinserção de produtores na cadeia formal. Em 26 de fevereiro, o foco esteve na rastreabilidade, aprofundando desafios e caminhos para ampliar transparência e conformidade. Um terceiro webinar sobre reinserção está previsto para maio, dando continuidade às discussões.
Todos os conteúdos já disponibilizados podem ser acessados no canal oficial da instituição no YouTube, ampliando o alcance das orientações e fortalecendo o diálogo com produtores, técnicos e demais elos da cadeia.
“Nosso compromisso é transformar temas complexos em orientação prática para quem está no campo. Quando promovemos debates sobre recuperação de pastagens, reinserção na cadeia formal e rastreabilidade, estamos oferecendo instrumentos concretos para que o produtor tome decisões mais seguras, amplie sua competitividade e participe de forma ativa dessa nova etapa da pecuária brasileira”, finaliza a presidente.
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Sistema Faep assume coordenação da Aliança Láctea Sul Brasileira no biênio 2026/27
Fórum reúne entidades e produtores para discutir estratégias de competitividade e desenvolvimento da cadeia do leite.

O Sistema Faep está à frente da coordenação geral da Aliança Láctea Sul Brasileira para o biênio 2026/27. O comando é rotativo entre os Estados participantes e, neste novo ciclo, ficará sob responsabilidade do Paraná, representado pelo Sistema Faep. Mais recentemente, o Mato Grosso do Sul passou a integrar a iniciativa, ampliando a articulação regional em torno do fortalecimento da produção e da competitividade do leite brasileiro.

Ronei Volpi, coordenador geral da Aliança Láctea, em sua propriedade – Foto: Divulgação/Sistema Faep
“A Aliança contribui para a integração entre os Estados e a construção de estratégias conjuntas voltadas à cadeia do leite. O Sistema Faep seguirá trabalhando ao lado das entidades do setor para avançar em pautas que ampliem a competitividade e as oportunidades para a produção”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Criada em 2014, a Aliança Láctea Sul Brasileira é um fórum público-privado que reúne representantes do setor produtivo e de instituições dos estados da região Sul. O grupo discute ações voltadas à cadeia leiteira e busca alinhar iniciativas nas áreas de produção, indústria e comercialização de leite e derivados, com foco nos mercados interno e externo. No ciclo 2026/27, a coordenação será exercida pelo consultor do Sistema Faep, Ronei Volpi, produtor rural com atuação há décadas na cadeia leiteira e participação em discussões voltadas ao desenvolvimento do setor.
A agenda de trabalho da Aliança para 2026 começou recentemente. No início de março, o Sistema Faep foi anfitrião da primeira reunião do ano, quando foram apresentados o Plano de Incentivo à Exportação de Lácteos e o plano de trabalho voltado à sanidade na cadeia leiteira, iniciativas que buscam fortalecer a competitividade do setor e ampliar oportunidades de mercado para os produtores da região.
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Demanda externa impulsiona exportações brasileiras de carne bovina
Volume embarcado supera 267 mil toneladas em fevereiro, com crescimento expressivo em mercados como Rússia, México e Chile.

As exportações brasileiras de carne bovina totalizaram 267.319 mil toneladas em fevereiro de 2026, com receita de US$ 1,44 bilhão, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC).
Na comparação com fevereiro de 2025, o resultado representa crescimento de 21,6% no volume embarcado e de 38,2% na receita, refletindo a ampliação da demanda internacional pela proteína brasileira. O desempenho também supera levemente o registrado em janeiro de 2026, quando as exportações somaram US$ 1,404 bilhão e 264 mil toneladas, consolidando o melhor resultado já registrado para um mês de fevereiro na série histórica.

No acumulado de janeiro e fevereiro de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina alcançaram 531.298 toneladas, com receita de US$ 2,84 bilhões, avanço de 23,8% em volume e 39,2% em valor em relação ao mesmo período do ano passado.
A carne bovina in natura segue como principal produto exportado, com 235.890 toneladas embarcadas em fevereiro, o equivalente a 88,2% do volume total exportado e 92,2% da receita obtida no mês.
Entre os destinos, a China permanece como principal mercado, com 106.702 toneladas importadas em fevereiro, seguida pelos Estados Unidos, com 39.440 toneladas, além de Rússia (15.762 t), Chile (13.857 t) e União Europeia (9.084 t) entre os principais compradores da carne bovina brasileira.

Foto: Divulgação/Porto de Santos
Entre os mercados relevantes, Rússia, México e Chile apresentaram crescimento expressivo nas compras em relação ao mês anterior, com altas de 111,6%, 132% e 37,6%, respectivamente, enquanto as exportações para a União Europeia avançaram 21,2% no período.
Para o presidente da ABIEC, Roberto Perosa, os números reforçam a presença da carne bovina brasileira no comércio internacional. “O Brasil segue ampliando sua presença nos mercados internacionais com regularidade de oferta, qualidade do produto e diversificação de destinos, fatores que sustentam o crescimento das exportações de carne bovina”, conclui.
