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Da curiosidade científica ao Nobel: a trajetória da pesquisadora Mariangela Hungria na agricultura

Com 43 anos dedicados à Embrapa, pesquisadora é referência mundial em fixação de nitrogênio no solo e avanço dos biológicos no agronegócio.

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Em 2025, a pesquisadora foi condecorada com a entrega da Medalha Apolônio Salles, reconhecimento do Estado brasileiro à relevância científica e ao impacto social de sua trajetória - Foto: Percio Campos/Mapa

Se o que hoje conhecemos de insumos agrícolas biológicos, técnicas de produção de baixo carbono e agricultura sustentável, sobretudo àquela que garante segurança alimentar a 10% do mundo em que vivemos, muito se deve às pesquisas, ambições e contribuições de uma cientista brasileira: Mariangela Hungria.

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria, foi agraciada com o Prêmio Mundial da Alimentação de 2025, o World Food Prize – Foto: A. Neto

Reconhecida internacionalmente pelos trabalhos de fixação de nitrogênio no solo a partir do uso de bioinsumos e pelas mais de 500 publicações científicas na academia, Hungria carrega – para além de toda a inteligência que transborda – uma trajetória marcada por estudo, empoderamento e família.

Hoje, com 43 anos completos dedicados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisadora celebra a conquista de ser a primeira mulher brasileira a receber, em 2025, o Prêmio Mundial da Alimentação, o chamado “Nobel da Agricultura”, pela World Food Prize Foundation, e vê o crescimento da tecnologia agrícola avançar ano a ano, com potencial de elevar o uso no campo de 15% para 50%.

Trajetória

A curiosidade científica que levou a então pesquisadora a alcançar o topo começou lá trás, há muitos anos, quando ainda criança o contato com a natureza era ensinado e permeado pela cientista, professora e avó materna. “Desde que me entendo por gente, eu tinha essa curiosidade científica”, ressalta Mariangela Hungria.

1 – Professora, me conta um pouco da sua história. Como você chegou a ser pesquisadora, se esse sonho é de criança ou não, como você se interessou pelos bioinsumos. Quem é Mariangela Hungria?

Nasci em São Paulo, capital, mas minha família é do interior. Vim ao mundo de oito meses e, até hoje, não sei como minha mãe conseguiu fazer isso: grávida, pegou o trem de Itapetininga até São Paulo para o parto. Logo depois, voltamos para Itapetininga, onde cresci. Tive uma infância muito diferente da de hoje, com muita brincadeira na rua, liberdade e contato constante com o ambiente ao redor. Desde muito cedo, porém, algo já me acompanhava: uma curiosidade científica quase instintiva.

Eu queria entender como as coisas funcionavam. Tive muita sorte nesse processo, porque minha avó teve um papel central na minha formação. Sempre me identifiquei muito com ela. Era farmacêutica e bioquímica de formação e havia estudado para ser professora do que, na época, se chamava “Ciências Químicas, Físicas e Biológicas”. Lecionou em uma escola estadual da nossa cidade e foi ela quem percebeu e estimulou esse interesse pela ciência em mim.

Nós tínhamos uma afinidade muito grande. Ela me incentivava o tempo todo, lia comigo seus livros de ciências e fazia experimentos no

Foto: Divulgação

fundo do quintal. Cobria folhas das plantas para mostrar que, sem luz, elas ficavam amareladas por não realizarem fotossíntese; pesava uma bexiga para explicar que o ar tem peso. Era tudo muito lúdico, quase mágico. Sempre que eu fazia perguntas, as respostas vinham do vento, da vida no solo, dos processos invisíveis da natureza.

O que sempre me impressionou é que minha avó era uma mulher muito à frente do seu tempo. Tinha um respeito profundo pelo solo e repetia que ali existia muita vida. Um momento decisivo foi quando ela me deu, aos oito anos, o livro Caçadores de Micróbios. Fiquei fascinada com as histórias dos microbiologistas. No dia seguinte, disse a ela que queria ser microbiologista.

Com o tempo, percebi que não me identificava com a microbiologia médica, que era o caminho mais comum. Nunca gostei da ideia de fazer Medicina. O que eu queria era algo ligado à natureza, à produção de alimentos. Desde criança, me impactava profundamente ver pessoas passando fome. Algumas iam até nossa casa, e minha avó mantinha um conjunto separado de pratos, talheres e copos para oferecer comida. Aquilo me marcou muito. Foi ali que se formou a certeza de que eu queria fazer algo que ajudasse a produzir alimentos, aliando isso à ciência e à microbiologia.

Quando completei 10 anos, minha mãe, meu irmão e eu voltamos para São Paulo em busca de melhores oportunidades de estudo. Passei a estudar no Colégio Rio Branco, com bolsa, durante sete anos. Minha mãe jamais teria condições de pagar aquela escola. Foi um período fundamental para a minha formação. Sou profundamente grata e mantenho vínculo com o colégio até hoje. A partir dali, segui para a Agronomia, porque era o caminho que reunia tudo o que eu buscava: ciência, natureza e produção de alimentos.

A cientista brasileira participou da Conferência do Clima (COP30) da ONU, sediada em 2025 em Belém  (PA), onde exibiu as raízes de soja e trabalhos da Embrapa – Foto: Saulo Coelho/Embrapa

2 – Como foi no início dos seus estudos e das pesquisas e desenvolvimento na área biológica? Houve resistência? Naquela época já se vislumbrava a adesão de técnicas sustentáveis ou a introdução ocorreu com o tempo, conforme demonstração da inovação da tecnologia?

Há um aspecto curioso nesse começo de trajetória: naquela época, a agronomia era vista quase como uma ‘subcarreira’. Eu era a primeira aluna do colégio e, ao longo de todos os anos, fui a única estudante que manteve essa posição. Os professores não se conformavam com a minha escolha. Chegaram a chamar minha mãe para dizer: “Não faz sentido, ela é a primeira aluna, deveria ir para a Medicina. Como vai escolher Agronomia?”. Minha mãe sempre foi muito firme. Dizia que não adiantava insistir, que era isso que eu queria fazer. Apenas acrescentava, em tom de brincadeira, que só não gostaria que eu sofresse sendo professora, talvez porque ela mesma fosse professora, mas da área de humanas, de francês. E assim fui para a Agronomia.

Naquele momento, a profissão não era considerada de prestígio. Felizmente, isso mudou muito. Tenho enorme orgulho de ser engenheira agrônoma. Hoje, é uma carreira valorizada e reconhecida, e foi muito significativo acompanhar essa transformação ao longo do tempo. Na época, além de pouco valorizada, era uma área majoritariamente masculina e, na prática, bastante machista.

Quando entrei na faculdade, o enfoque era quase exclusivamente químico. E havia uma razão histórica para isso. Na década anterior, o Brasil ainda importava alimentos. Lembro desde criança: maçã vinha da Argentina e era cara; frango era comida de domingo. Com a chegada de Norman Borlaug e da chamada Revolução Verde, baseada no melhoramento genético e no uso de fertilizantes químicos, a produção agrícola brasileira cresceu de forma expressiva. Foi esse modelo que viabilizou, inclusive, a expansão da agricultura para o Cerrado. Todas essas ideias estavam chegando ao país naquele período.

Não havia espaço para biológicos. Ainda assim, eu carregava desde criança a convicção de que queria trabalhar com biológicos na

Foto: Divulgação

agricultura. Naquele tempo, não existiam bolsas de iniciação científica como hoje, o que faz muita diferença. No segundo ano da graduação, engravidei por acidente; no terceiro, tive outra filha. Precisei trabalhar durante todo o curso. Trabalhei na biblioteca, fiz traduções de inglês, serviços de datilografia e consegui, aos poucos, economizar algum dinheiro.

No último semestre da faculdade, finalmente consegui fazer um estágio na área que realmente me interessava. Procurei o Centro de Energia Nuclear da Agricultura (CENA), que hoje integra a Esalq, mas na época ainda não fazia parte. Fui atrás da Drª Alaídes Puppin Ruschel, que trabalhava com fixação biológica de nitrogênio, exatamente o tema que me atraía e que praticamente não existia na Esalq naquele momento. Ela me estimulou a elaborar um projeto de mestrado. Eu o fiz e fiquei torcendo muito para que desse certo, porque me formaria no fim do ano e queria, de fato, continuar estudando.

Meus amigos diziam que era loucura, que eu precisava arrumar um emprego. Mas eu sentia que ainda tinha muito a aprender. Submeti o projeto à Fapesp. Se a bolsa não fosse aprovada, eu teria de ir para o mercado de trabalho, com duas crianças para sustentar. A bolsa saiu. Consegui fazer o mestrado com a Drª Alaídes, no CENA/Esalq, com uma tese em fixação biológica do nitrogênio.

Cheguei a iniciar as disciplinas do doutorado, mas havia no Brasil uma cientista extraordinária, com enorme projeção nacional e internacional: a Drª Johanna Döbereiner. Ela trabalhava no Rio de Janeiro e era uma referência absoluta na área. Eu pensei: “Não, eu preciso ir aprender com essa mulher”. Ela me convidou para fazer o doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde hoje funciona a Embrapa Agrobiologia. Minha orientadora foi a Drª Maria Cristina Prata Neves, com a Drª Johanna como coorientadora.

Foi uma oportunidade única. Passei a integrar um grupo inteiro dedicado à fixação biológica do nitrogênio e estava extremamente motivada. Oito meses depois de iniciar o doutorado, a Drª Johanna me chamou para conversar. Disse que havia surgido uma vaga, que uma pessoa havia saído, e que queria me contratar. Eu ainda questionei: “Mas tem tanta gente esperando”. Ela respondeu, de forma direta: “Não, é você que eu quero, e pronto”.

Devo muito à Drª Johanna. Ela foi minha grande mentora científica. Uma pessoa brilhante, com quem aprendi, de fato, o que significa ser cientista. Houve também um apoio pessoal fundamental. Naquele momento, eu tinha duas filhas, uma delas com necessidades especiais, não tinha família por perto. Ela enxergou minha dedicação, não as minhas limitações, limitações que, tenho certeza, muitos teriam visto, sobretudo se eu fosse um homem. Ela abriu as portas, confiou em mim e me contratou na Embrapa Agrobiologia em 1º de dezembro de 1982. Estou lá até hoje.

Entre diversos reconhecimento, em 2022 a pesquisadora recebeu o prêmio “Vida e Obra”, da Fundação Bunge, pela sua trajetória e contribuições – Foto: Divulgação/PFB

3 – Considerando o legado de 40 anos dedicados a pesquisas, sobretudo de fixação de nitrogênio no solo pelo uso de bioinsumos, como você avalia o potencial dessa tecnologia para o agronegócio brasileiro até 2030?

Vou retomar um pouco antes desse momento. Quando saí da Embrapa Agrobiologia, permaneci ali por cerca de 10 anos. Desse período, três anos e meio foram dedicados a um pós-doutorado no exterior, nos Estados Unidos. Ainda encaro essa fase como parte da minha formação científica, muito ligada aos fundamentos da área. A Drª Johanna sempre acreditou profundamente no avanço do conhecimento, e foi nesse período fora do país que compreendi que precisava voltar. Essa foi, sobretudo, uma decisão de mãe.

Naquele momento, Seropédica, no Rio de Janeiro, ainda carecia de infraestrutura. Minha filha mais velha estava entrando no ensino médio, e a mais nova, com necessidades especiais, precisava de acompanhamento médico contínuo. Por isso, solicitei transferência para Londrina, no Paraná, uma cidade com melhor estrutura e que também me permitia ficar próxima dos meus avós, em Itapetininga, no interior de São Paulo, onde eu queria estar mais presente na fase final da vida deles. Foi assim que cheguei à Embrapa Soja, em julho de 1991. Ali, de fato, começou minha carreira científica e minha vida profissional.

Cheguei praticamente do zero. Não havia laboratório, não havia equipe, não havia estrutura. Por outro lado, havia espaço para ideias. Eu não tinha um grupo formado, mas tinha autonomia. Foi nesse contexto que surgiu a primeira oportunidade de trabalhar exatamente com aquilo em que eu acreditava.

Até então, falava-se em biológicos em uma escala muito restrita, quase sempre associada à agricultura orgânica ou à agricultura familiar.

Foto: Divulgação

Ao chegar à Embrapa Soja, fui clara: queria trabalhar com fixação biológica do nitrogênio voltada a altíssimos rendimentos, em grande escala. Sempre pensei que, se a tecnologia funcionasse para o grande produtor, ela funcionaria também para o médio e para o pequeno. Naquela época, predominava a ideia de que, uma vez introduzida a bactéria no solo, não seria necessário fazer mais nada.

Comecei buscando as cooperativas, porque o uso de bioinoculantes era praticamente inexistente. Iniciei então uma série de experimentos de campo, conduzidos de forma intensiva ao longo de dois a três anos. Os resultados mostraram que a reaplicação anual da bactéria, em estado fisiológico adequado, pronta para atuar, proporcionava um aumento médio de 8% na produtividade. Passei a divulgar esses dados diretamente aos agricultores. Esse trabalho nunca parou. Tornou-se contínuo, com uso ano após ano.

Percorremos o Brasil, especialmente a região Central, levando informações sobre os benefícios da inoculação e da fixação biológica do nitrogênio. Esse se tornou um diferencial do nosso trabalho. Trata-se de algo muito característico do Brasil, e fomos acompanhando esse crescimento de perto.

Desde as primeiras apresentações dos resultados, entre 1993 e 1994, observei um avanço constante. Quanto mais se falava sobre o tema, maior era a adoção da tecnologia na soja. Esse crescimento nunca foi interrompido. A soja, afinal, é uma commodity estratégica, com cerca de 47 milhões de hectares cultivados, o que naturalmente amplia o impacto de qualquer inovação que funcione.

Ao longo desse processo, enfrentamos muitas dificuldades. O poder de marketing dos produtos biológicos sempre foi muito menor quando

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria: “Hoje contamos com mais de 500 experimentos comparando sistemas biológicos e fertilizantes nitrogenados, em diferentes cultivares e condições de manejo, demonstrando que o biológico pode funcionar plenamente, com desempenho equivalente ao químico” – Foto: A.Neto

comparado ao dos fertilizantes químicos. Houve forte pressão no sentido de sustentar a ideia de que altos rendimentos só seriam possíveis com a aplicação de nitrogênio mineral. Hoje, no entanto, contamos com mais de 500 experimentos comparando sistemas biológicos e fertilizantes nitrogenados, em diferentes cultivares e condições de manejo, demonstrando que o biológico pode funcionar plenamente, com desempenho equivalente ao químico. Com isso, o uso foi crescendo de forma contínua ao longo dos anos.

Durante a pandemia, esse movimento ganhou um novo impulso. As restrições na cadeia de suprimentos, somadas à guerra na Ucrânia, de onde o Brasil importa grande parte dos fertilizantes, levantaram uma questão central: como continuar produzindo? O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome e é altamente dependente da agricultura. Esse contexto abriu uma grande oportunidade para os biológicos. Foi possível dizer aos produtores: “Que tal testar aquilo de que falamos há tanto tempo?”. Sem alternativas viáveis, muitos decidiram experimentar. E os resultados confirmaram que a tecnologia funcionava.

Com essa expansão rápida, e em parte desordenada, também surgiram problemas. Passaram a circular conceitos equivocados, como a ideia de que produzir um biológico é simples, que não envolve riscos ou que não exige investimento em pesquisa. Vimos crescer uma desinformação que ignora as limitações e as diferenças fundamentais entre o desenvolvimento de produtos biológicos e químicos.

Os bioinsumos exigem mão de obra altamente qualificada, treinada e especializada, algo que ainda não existe em quantidade suficiente no país para sustentar esse ritmo de crescimento. Há microrganismos disponíveis, mas explorar todo o seu potencial demanda investimento contínuo em pesquisa. A produção também requer rigoroso controle de qualidade, sobretudo para evitar impactos negativos sobre a biodiversidade dos solos brasileiros.

Se hoje o Brasil ocupa uma posição de liderança em pesquisa, desenvolvimento e uso de bioinsumos, isso se deve, em grande parte, à existência de uma legislação sólida, que estabelece que apenas microrganismos validados pela pesquisa podem ser utilizados. Estou convencida de que esse mercado continuará crescendo, porque é um caminho sem volta. Há uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis, os agricultores buscam melhorar a saúde do solo e são produtos que não deixam resíduos. O desafio agora é entender como esse crescimento vai se consolidar. Acredito que ainda passaremos por alguns ciclos de ajuste até que o mercado encontre um equilíbrio mais maduro.

Mariangela contribuiu para diversas visitas de pesquisadores e lideranças globais nos cultivos da Embrapa exibidos na AgriZone, durante a COP30 – Foto: Saulo Coelho/Embrapa

4 – Falando especificamente de safras e projeções, qual a sua avaliação quanto a adoção dos produtos biológicos para os próximos anos em comparação às outras tecnologias? Consegue nos trazer algum indicativo que as pesquisas apontam? 

Em relação às projeções de mercado, acompanhamos de perto as análises feitas pela indústria e pelas entidades do setor. Do ponto de vista da Embrapa, nosso papel é gerar conhecimento, desenvolver soluções e torcer para que elas sejam efetivamente adotadas. O que observamos, a partir da demanda crescente de agricultores que nos procuram em busca de informação, é que o interesse pelos bioinsumos vem aumentando de forma consistente.

Tenho uma visão bastante clara sobre onde está hoje o principal gargalo desse mercado. Apesar de o Brasil ser líder mundial em tecnologia de bioinsumos, a participação desses produtos ainda é relativamente baixa quando comparada aos insumos químicos, algo entre 10% e 15%. Considerando o que já está disponível, poderíamos avançar com relativa facilidade para patamares próximos de 50%. E quando falo em soluções prontas, refiro-me a tecnologias já validadas, testadas e disponíveis.

Atualmente, temos soluções desenvolvidas para mais de 100 espécies agrícolas. Ainda assim, a limitação não está na pesquisa científica, mas sim na capacidade de o setor privado transformar essas tecnologias em produtos acessíveis e amplamente distribuídos.

Foto: Divulgação

Um levantamento da Embrapa mostra que 73% dos agricultores que cultivam soja no Brasil possuem áreas de até 50 hectares. Esses produtores, em grande parte, não têm hoje acesso a inoculantes comerciais adequados às suas realidades. Esse dado é bastante revelador. Falamos muito sobre a necessidade de mais investimento em pesquisa e, de fato, ele é fundamental, mas em muitos casos as soluções já existem. O desafio está em ampliar sua oferta, adaptá-las a outras culturas e, principalmente, levá-las a um número maior de agricultores.

Se conseguirmos superar esse entrave, há espaço para uma expansão significativa do uso de bioinsumos na agricultura brasileira, com base em tecnologias que já estão disponíveis nas prateleiras.

5 – O Brasil desempenha um significativo papel na segurança alimentar brasileira. Como isso se configura em dados? como você avalia os sistemas brasileiros de produção agrícola, considerando a agricultura tropical brasileira e a complementariedade de tecnologias no campo?

Sou integrante da Academia Brasileira de Ciências e coordeno um grupo de trabalho dedicado à segurança alimentar. Nesse âmbito, lançamos em 2024 um livro sobre o tema, disponibilizado gratuitamente para download. Em 2025, publicamos a versão em inglês e, neste ano, com o Congresso Latino-Americano de Segurança Alimentar organizado pelo Itamaraty, pretendemos lançar a edição em espanhol. Quando a Academia me confiou essa responsabilidade, ficou claro que eu precisaria estudar, escrever e apresentar sobre segurança alimentar de forma sistemática. Foi um grande aprendizado. Sempre estudei muito ao longo da vida, mas confesso que me surpreendi ao perceber o quanto ainda havia para compreender sobre o tema.

Como mencionei anteriormente, desde a infância minha motivação sempre foi produzir alimentos para que as pessoas não passassem

Foto: Geraldo Bubniak

fome. Durante muito tempo, essa era para mim a essência da segurança alimentar. No entanto, ao escrever o livro e dialogar com pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, compreendi que a produção de alimentos representa apenas cerca de 30% a 40% do que efetivamente constitui a segurança alimentar e nutricional. Trata-se de um campo que envolve um conjunto amplo e integrado de ciências.

Entram nesse debate as ciências sociais, que analisam e orientam políticas públicas; as ciências de dados, fundamentais para identificar quem são e onde estão as populações em situação de insegurança alimentar; e as ciências econômicas, que ajudam a dimensionar, por exemplo, qual nível de renda é necessário para que uma pessoa saia da condição de fome. Tudo isso exige base científica sólida e articulação entre áreas.

Além disso, é fundamental investir na educação das novas gerações em hábitos alimentares saudáveis, em estratégias eficazes de comunicação para garantir que as mensagens cheguem corretamente às pessoas e, naturalmente, na produção de alimentos em larga escala. Ainda que o Brasil não consuma internamente toda a soja que produz, os recursos obtidos com a exportação permitem financiar programas de enfrentamento à insegurança alimentar grave. Soma-se a isso o fortalecimento da agricultura familiar, que não deve ser visto como um favor, mas como um reconhecimento do fato de que esses agricultores são responsáveis por cerca de 60% a 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

O livro mostra, de forma muito clara, que a segurança alimentar é um desafio que exige a atuação conjunta de múltiplas áreas do

Foto: Divulgação

conhecimento e de diferentes setores da sociedade. Não é um problema que se resolve individualmente. É necessário o envolvimento do setor público, do setor privado e do terceiro setor. Um exemplo emblemático disso ocorreu quando finalizamos a versão em português, em 2024. Naquele momento, os dados indicavam que, em razão da pandemia de Covid-19 e das políticas adotadas à época, o Brasil havia alcançado 33 milhões de pessoas em situação de fome. Apenas dois anos depois, com a implementação de programas governamentais, foi possível retirar o país do Mapa da Fome. Em 2025, anunciamos que menos de 2,5% da população brasileira se encontrava em situação de fome.

Ao mesmo tempo, o Brasil produz alimentos suficientes para sustentar cerca de 900 milhões de pessoas no mundo. Diante disso, é inadmissível que qualquer brasileiro ou qualquer pessoa ainda passe fome. Precisamos seguir avançando em todas as frentes: na valorização e regionalização da alimentação, no fortalecimento de programas municipais de compra de alimentos para a merenda escolar diretamente de agricultores locais, garantindo alimentos frescos e nutritivos às crianças e renda aos produtores.

A segurança alimentar é um tema fascinante, complexo e profundamente desafiador. É, por natureza, interdisciplinar e intersetorial. Somente com a integração de diferentes campos do conhecimento e a união de todos os setores da sociedade será possível avançar de forma consistente. O Brasil tem condições de garantir que nenhum brasileiro volte a passar fome.

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria: “O Brasil tem condições de garantir que nenhum brasileiro volte a passar fome”

6 – Com relação à Embrapa, como você avalia o papel da empresa de pesquisa brasileira no contexto internacional? Nesta trajetória de 40 anos, consegue nos elencar três pontos de destaque para a vitrine mundial?

A Embrapa é uma instituição extraordinária. Foi um momento absolutamente brilhante da história recente do Brasil apoiar a visão de Alysson Paolinelli, apostar no futuro e criar uma empresa pública de pesquisa agropecuária com base científica sólida e investimento contínuo. Por isso, considero fundamental ampliar a conscientização da sociedade sobre a importância de existir uma Embrapa, no sentido mais amplo do termo: uma instituição pública dedicada à geração de conhecimento estratégico para o país.

Tomando como exemplo o tema desta entrevista, os bioinsumos, fica evidente por que o Brasil é hoje líder mundial nessa área. A Embrapa investe em pesquisa com biológicos há mais de quatro décadas, desde uma época em que praticamente todo o debate e os recursos estavam concentrados nos insumos químicos. Foram quase cinco décadas apostando em uma agenda científica que poucos enxergavam como estratégica, enquanto o restante do mundo seguia um caminho diferente. Esse investimento de longo prazo explica a posição de liderança que o país ocupa hoje.

Se há um equívoco histórico, talvez seja o fato de a Embrapa ser chamada de empresa, algo que frequentemente gera confusão sobre o seu papel. Muitas pessoas não compreendem que a Embrapa não vende produtos. Ela não comercializa sementes, por exemplo. O que faz é licenciar tecnologias e estabelecer parcerias, e os recursos gerados retornam ao governo e ao sistema de pesquisa, não à instituição como lucro. O que a Embrapa entrega à sociedade são tecnologias públicas, disponíveis para diferentes tipos de agricultura e perfis de agricultores.

À medida que o setor privado se estrutura e passa a atuar de forma independente em determinadas áreas, a Embrapa cumpre seu papel e

Foto: Divulgação

se desloca para onde o mercado não chega. Um exemplo claro é o melhoramento de soja convencional, realizado praticamente apenas pela Embrapa, porque não há interesse privado suficiente. O mesmo ocorre em pesquisas voltadas a cadeias específicas e regionais, como o tambaqui na região Norte, sistemas produtivos com uma cabra por família no Nordeste ou o melhoramento genético de culturas como a abobrinha. São temas que não atraem investimentos privados, mas que são social e economicamente relevantes para o país. Além disso, tecnologias estruturantes como o sistema de plantio direto, a fixação biológica do nitrogênio e a integração lavoura-pecuária-floresta também têm forte participação da Embrapa em sua concepção e consolidação.

Embora não tenha lucro, a Embrapa utiliza a metodologia do balanço social, reconhecida internacionalmente, para medir o retorno das tecnologias desenvolvidas. Esse instrumento avalia quanto as inovações geradas contribuem para o aumento de renda do agricultor e para a sociedade como um todo. Em 2025, o balanço mostrou que, para cada R$ 1 investido na Embrapa, há um retorno de R$ 25 para a sociedade. Esse dado é extremamente relevante para dimensionar o valor da pesquisa pública.

A pesquisa agropecuária, especialmente em um país onde a agricultura responde por cerca de um terço do PIB, deveria ser tratada como questão de soberania nacional. Nos últimos dois ou três anos, a instituição tem recorrido a emendas parlamentares para viabilizar parte de suas atividades. O Brasil é hoje líder em agricultura tropical, mas essa posição não é garantida. Sem investimento contínuo em pesquisa, a perda de competitividade pode ocorrer de forma rápida. Esses são, a meu ver, os principais pontos que precisam ser considerados quando se discute o papel estratégico da Embrapa para o país.

Fonte: Assessoria CropLife Brasil

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

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Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal

Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

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Foto: Divulgação

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de  R$ 6,38 milhões.

Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão.  O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.

Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.

Desafios para o segundo semestre

Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.

O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil  do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.

Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo

Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

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Foto: Paulo Kurtz

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.

O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.

Potencial de uso da plataforma

O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.

Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.

Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.

Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.

Avanços para o melhoramento genético

As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:

“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje

“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.

Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.

No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.

Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.

Fonte: Assessoria Embrapa Trigo
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