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‘Custos ocultos’ na produção de alimentos e o dilema de sua precificação
Impactos ambientais das atividades humanas têm sido, há décadas, alvo de estudos e interesse dos pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento. Não é diferente no que se refere ao setor agropecuário, em particular, e aos chamados sistemas agroalimentares de forma mais ampla.

Os impactos ambientais das atividades humanas têm sido, há décadas, alvo de estudos e interesse dos pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento. Não é diferente no que se refere ao setor agropecuário, em particular, e aos chamados sistemas agroalimentares de forma mais ampla. Na economia, cunhou-se o termo externalidade para identificar, por exemplo, os efeitos ambientais não compensados das atividades produtivas ou do consumo. Esses efeitos podem ser negativos ou positivos e não são somente os efeitos sobre o meio-ambiente, embora estes sejam os mais frequentemente ilustrados. Por exemplo, o lançamento de efluentes das leiterias ou da suinocultura nos rios e ribeirões, sem tratamento prévio, gera uma externalidade negativa. O licenciamento ambiental, taxas pelo uso de água e até as multas são instrumentos que buscam controlar essas externalidades, mas também podem, de alguma forma, internalizar seus custos, mesmo que parcialmente, nos preços de mercado.

Foto: Geraldo Bubniak
Recentes relatórios da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (Food and Agriculture Organization – FAO), publicados em dezembro de 2023 e em dezembro de 2024, intitulados “O Estado da Alimentação e da Agricultura” (The State of Food and Agriculture – SOFA), apresentam uma proposta metodológica para estimar estes custos das externalidades dos sistemas alimentares dos países. A metodologia considera não somente os custos ambientais, mas também os de saúde pública e os sociais, designados pelos autores como custos ocultos (“hidden costs”) dos sistemas agroalimentares. A preocupação expressa ao introduzir a proposta metodológica é que tais custos devem ser computados nos preços dos alimentos, para se obter “preços verdadeiros”.
Essa internalização seria promovida a partir da adoção de políticas públicas pelos países, com o objetivo de estimular um ajustamento mais rápido dos sistemas alimentares para modelos mais sustentáveis. Essa sustentabilidade é entendida não apenas do ponto de vista ambiental e social, mas também como a ênfase na produção de alimentos de melhor qualidade nutricional.
A metodologia adotada no Sofa prevê a incorporação de externalidades positivas, por exemplo, a alimentação escolar e seus efeitos positivos sobre os resultados educacionais e na redução das desigualdades, além de apresentar às crianças novos alimentos. No entanto, os exercícios de estimação desses custos ocultos já desenvolvidos e apresentados nos relatórios, inclusive para o caso do Brasil, não evidenciam claramente tais externalidades positivas, as quais também estão presentes nos sistemas alimentares brasileiros.
Os “custos ocultos” dos sistemas agroalimentares foram estimados para 153 países e para o período de 2016 a 2023. É um trabalho de fôlego e desafiador que, ao ser conduzido com o apoio da FAO, tem potencial para um significativo impacto na transformação dos sistemas agroalimentares em direção à sustentabilidade, à equidade e à uma nutrição adequada. Para o Brasil, estes custos alcançaram um montante de US$ 426,61 bilhões, dos quais a maior parte relacionados aos custos ambientais, com cerca de US$ 293,65 bilhões, seguidos de custos de saúde pública, com de US$ 129,7 bilhões, e os restantes de US$ 3,26 bilhões de custos ocultos sociais.

Foto: Gilson Abreu
O Sofa preconiza a alteração dos preços em favor de opções mais nutritivas e sustentáveis, por meio de uma política de tributação dos alimentos ultraprocessados e de subsídio ao consumo de alimentos saudáveis. Contudo, a ideia de que incentivos fiscais podem ser uma resposta eficiente ao problema dos preços de mercado mais altos praticados para os produtos mais saudáveis esbarra na pequena ou nula margem de manobra fiscal dos estados, até mesmo no caso de países industrializados. Um risco importante que não se pode desconsiderar é que tais políticas acabem resultando em uma taxação adicional justamente sobre o consumo de alimentos para os mais pobres, que já sofrem de algum tipo de insegurança alimentar.
A rotulagem da pegada de carbono em produtos comercializados no varejo e a rotulagem nutricional, ainda adotada de forma voluntária pelos países europeus e que classifica os alimentos conforme seu perfil nutricional, são algumas das iniciativas que, de certa forma, já buscam direcionar o mercado e os consumidores para a identificação dessas externalidades. Na medida em que os preços desses produtos reflitam essas diferenças no grau de externalidade da produção e/ou do consumo desses alimentos, a internalização dos custos ocultos pode se concretizar. Como essa internalização pode impactar os preços dos alimentos é um desafio para os economistas e outros analistas.
De acordo com o Sofa , no longo prazo, as melhorias na saúde pública que levam ao aumento da produtividade poderiam se traduzir, segundo o documento, em maior renda familiar. Nesse caso, mesmo que as dietas mais saudáveis sejam mais caras, o aumento da renda poderia ajudar a compensar essa despesa adicional. Todavia, o efeito positivo de dietas saudáveis na renda familiar deve ser observado mais a longo prazo, enquanto o impacto negativo do aumento dos preços deve ocorrer no curto prazo, o que pode acarretar a elevação nos índices de insegurança alimentar.
Em mais de um momento, o documento indica as incertezas envolvendo o cálculo desses custos, seja no que se refere às limitações dos dados utilizados, ou quanto aos limites da metodologia empregada. Por exemplo, ao não considerar os custos associados ao crescimento infantil, à exposição a agroquímicos, à degradação da terra, à resistência antimicrobiana e às doenças causadas por alimentos inseguros.

Foto: Mahmud Turkia
Logo, é importante ter cautela com essas estimativas, principalmente ao se propor discutir instrumentos de políticas públicas visando incluir os custos ocultos na precificação de alimentos. Principalmente, diante de um quadro mundial no qual a FAO estimou subnutrição entre 8,9% a 9,4% da população global em 2023, o que, considerando o valor médio, representaria 733 milhões de pessoas, cerca de 152 milhões a mais do que em 2019 (SOFI/FAO, 2024). A evolução dos preços dos alimentos tem um papel essencial na análise dos fatores de risco para a insegurança alimentar, de modo que políticas que visem ajustar esses preços devem ser avaliadas com muito cuidado.
Há um interesse significativo entre pesquisadores brasileiros de diversas áreas e instituições sobre o tema da internalização das externalidades e no cálculo dos custos dos sistemas agroalimentares e de sua transição para padrões mais sustentáveis. Considerando a expertise do Cepea em estudos relacionados às cadeias de valor de produtos agropecuários e florestais, criamos um grupo de pesquisa para discutir a metodologia, os dados e o impacto do Sofa 2023/2024 para o Brasil. Este grupo é composto por pesquisadores em economia aplicada, além de especialistas em nutrição e saúde pública, ciências agrícolas e ambientais, tecnologia da informação, história econômica e políticas públicas. Nosso objetivo é contribuir para a discussão iniciada pelo Sofa, buscando avanços metodológicos potenciais para a organização de bases de dados mais abrangentes sobre o contexto brasileiro, bem como na promoção de discussões para avançar a integração desses achados em políticas públicas.
Dada a diversidade do Brasil em sistemas de produção agrícola e de distribuição de alimentos, seu papel como grande fornecedor de alimentos e sua significativa desigualdade social, o País oferece um caso altamente relevante e abrangente para análise. A proposta deste grupo de pesquisa inclui a organização de reuniões de trabalho, o desenvolvimento de textos reflexivos e artigos científicos baseados em contribuições teóricas e metodológicas e o fomento de colaboração entre academia, partes interessadas e formuladores de políticas públicas.

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Safra recorde pressiona logística e expõe desafios no escoamento da produção
Crescimento estimado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística reforça a necessidade de modernização da infraestrutura e ampliação da eficiência no transporte agrícola.

A cada nova safra, o agronegócio brasileiro reafirma sua relevância no cenário global. De acordo com dados do IBGE, a estimativa é uma safra de 345,6 milhões de toneladas em 2025, a maior já observada no Brasil, sendo 18,1% superior a de 2024. Esses números evidenciam a força do setor e, ao mesmo tempo, a urgência de uma logística capaz de acompanhar o crescimento. À medida que os números avançam e a produtividade se consolida como um diferencial competitivo, fica claro que a eficiência na operação deixou de ser apenas uma parcela da preocupação para se tornar parte essencial e estratégica, especialmente nas épocas em que o volume é concentrado e a pressão sobre toda a cadeia aumenta.
Grande parte dessa operação nasce em regiões distantes dos centros urbanos e dos portos, o que torna a infraestrutura um dos principais desafios para o escoamento. Estradas rurais pouco preparadas, acessos fragilizados e gargalos históricos ao longo dos corredores logísticos impactam diretamente custos, prazos e previsibilidade. Mesmo com avanços graduais na malha nacional, a infraestrutura física ainda evolui de forma mais lenta que a demanda, o que reforça a importância de soluções digitais sólidas, baseadas em dados, inteligência e integração, e capazes de compensar as questões de limitações estruturais.

Artigo escrito por André Pimenta, CEO da Motz – Foto: Sandro Portaluri
Outro ponto crítico é a escassez de caminhões e motoristas durante o pico da safra. A concentração de demanda pressiona valores de frete e reduz a capacidade de resposta do setor, intensificando um desafio que se repete ano após ano, especialmente em um país onde cerca de 68,8% do fluxo de soja ainda depende do transporte rodoviário, segundo dados do Esalq-Log (Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial). Esse nível de concentração torna o sistema mais sensível a qualquer oscilação, e é justamente nesse contexto que as plataformas digitais ganham protagonismo ao conectar embarcadores e transportadores com maior rapidez e assertividade, melhorando a alocação de recursos e reduzindo o impacto da sazonalidade. Quando combinamos previsibilidade, transparência e dados em tempo real, deixamos de reagir ao gargalo para antecipá-lo.
O movimento já faz parte da transformação mais profunda que o setor logístico vive. A digitalização de ponta a ponta elimina burocracia, amplia visibilidade e melhora a colaboração entre todos os agentes da cadeia. A otimização de soluções com recursos como automação e uso de inteligência artificial trazem velocidade e precisão às operações críticas, enquanto o rastreamento de cargas pode estabelecer um novo padrão de transparência e segurança. Visibilidade, que antes era diferencial, tornou-se requisito básico para operar em grande escala.
A alta temporada do agronegócio, portanto, não deve ser vista apenas como um período de tensão operacional, mas como oportunidade para elevar o patamar logístico do setor. Quando unimos tecnologia, integração, inteligência e presença operacional, transformamos desafios históricos em vantagem competitiva, conectando o campo à estrada por meio de uma logística que responde ao agora e evolui para um futuro sustentado por líderes estratégicos, cadeias mais integradas e uma convivência madura entre o digital e o físico.
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Salvaguarda chinesa para carne bovina pressiona exportações brasileiras e acende alerta no setor
Limitação de cotas pode reduzir presença do produto brasileiro no mercado asiático e gerar impacto na cadeia produtiva.

A salvaguarda adotada pela China para proteger sua produção local é, sem dúvida, uma medida legítima e até exemplar. Trata-se de uma decisão soberana que demonstra o zelo com o produtor interno, algo que também deveríamos praticar com igual rigor. O ponto que exige atenção, contudo, não é a existência da salvaguarda em si, mas as condições e adaptações necessárias à sua implementação.
No caso específico da carne vermelha brasileira, é indispensável considerar a dinâmica própria desse comércio. A relação entre produção, embarque e entrega opera em ritmo acelerado e com contratos previamente estabelecidos. O ciclo médio entre a produção e a chegada do produto ao destino gira em torno de 75 dias, o que significa que qualquer alteração abrupta nas regras impacta volumes já comprometidos e em trânsito.

Artigo escrito por Paulo Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo).
À época da implementação da medida, o volume comercializado era da ordem de 170 mil toneladas por mês, o que representa aproximadamente 7.700 toneladas por dia. Projetado para o período de 75 dias, isso resulta em cerca de 500 mil toneladas em trânsito, desconsiderando inclusive eventuais interrupções por feriados. Diante da cota atual, a diferença alcança quase 50% do total pretendido, criando um descompasso evidente entre oferta e limite autorizado.
Esse cenário pode levar, em menos de seis meses, à ausência do produto brasileiro no mercado chinês. Por isso, a solicitação do Brasil para que sejam consideradas na cota de 2026 apenas as cargas efetivamente embarcadas neste ano não é um pleito meramente setorial, mas uma medida vital para a sobrevivência do setor produtivo brasileiro e para o equilíbrio do abastecimento, sem prejuízo ao produtor chinês, justamente o objetivo central da salvaguarda.
Os números são claros. Em 30 de dezembro de 2025 havia cerca de 350 mil toneladas entre portos chineses e cargas em trânsito. Somam-se a isso 120 mil toneladas exportadas em janeiro e uma previsão de 100 mil toneladas para fevereiro. Ao final desse período, o total entregue poderá alcançar 570 mil toneladas. Restariam, então, para os dez meses seguintes de 2026, apenas 530 mil toneladas, o equivalente a 53 mil toneladas por mês, frente às 170 mil entregues em dezembro.
Não se trata de uma análise teórica ou de projeções especulativas, mas da leitura objetiva de números que já sinalizam risco de desabastecimento no mercado chinês e grave impacto sobre a cadeia produtiva brasileira. É imprescindível que a diplomacia brasileira leve à mesa das relações bilaterais essa realidade concreta, demonstrando que ajustes técnicos são necessários para preservar a previsibilidade e a estabilidade do comércio.
A China é, indiscutivelmente, nossa grande e leal parceira comercial. O que se impõe agora é a capacidade de expor, com dados e serenidade, as preocupações legítimas de um setor estratégico para ambas as economias.
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Quando investir em marketing no agronegócio?
Experiência prática mostra como a aplicação de métricas e etapas bem definidas orienta decisões sobre quando, como e por que investir em comunicação no setor.

O marketing no agronegócio é complexo e exige, a todo instante, uma análise criteriosa sobre o andamento das ações. Na Ação Estratégica – Comunicação e Marketing no Agronegócio, fazemos essa leitura de cenário com base em uma fórmula exclusiva, chamada V.C.I.D.
Certa vez, uma empresa de nutrição animal contratou a agência para fazer um projeto de marketing de conteúdo. Reuni a equipe e estruturamos o planejamento, indicando os melhores canais e as abordagens mais apropriadas.

Artigo escrito por Rodrigo Capella, palestrante e diretor geral da Ação Estratégica – Comunicação e Marketing no Agronegócio.
Após o sinal verde do cliente, começamos a produzir o conteúdo, que teve rápido engajamento e visibilidade em curva ascendente.
Tudo estava uma maravilha até que o alcance se estagnou, de uma hora para outra. Foi quando, então, aplicamos a fórmula V.C.I.D para entender o cenário.
A etapa da visibilidade (V) já estava concluída e agora precisávamos completar a fase seguinte, o C de Credibilidade. As ações eram outras, os objetivos eram outros.
Adaptamos o conteúdo para atingir as novas metas e o processo andou naturalmente. Em pouco tempo, mais uma etapa concluída.
Esse aprendizado me fez refletir sobre uma questão específica: quando investir em marketing no agronegócio?
O resultado desta análise, em alguns momentos profunda, vou compartilhar agora com você. Acredito que uma empresa de agronegócio precisa investir em marketing quando quer:
1) Destacar os seus diferenciais
2) Aparecer com a mesma intensidade que seus principais concorrentes
3) Ampliar a presença de mercado de forma estratégica.
4) Garantir a solidez do negócio.
Esses quatro pontos muitas vezes se convergem e automaticamente explicam que, sem marketing, uma empresa pode prejudicar as suas conexões e, com menos conexões, uma empresa compromete a sua essência.
Portanto, o marketing no agronegócio é – e sempre será – fundamental. Você dúvida disso?



