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Custos de produção devem continuar sendo gargalo na suinocultura em 2021

De acordo como Cepea, os valores dos dois principais componentes da ração, o milho e o farelo de soja, devem se manter altos neste ano

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Jean Paterno/Coopavel

Os custos de produção são um importante item na suinocultura. É por conta deles que muitos suinocultores tem grandes dores de cabeça. No ano passado, o milho e o farelo de soja foram responsáveis pelo grande aumento nos custos. E, segundo os indícios do mercado, serão novamente este ano.

Segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, os custos de produção devem continuar sendo um grande gargalo ao setor em 2021. Isso porque os valores dos dois principais componentes da ração, o milho e o farelo de soja, devem se manter altos neste ano, tendo em vista as aquecidas demandas interna e externa por esses grãos. Esse cenário tende a pressionar, por mais um ano, o poder de compra dos suinocultores.

De acordo com a equipe de Grãos do Cepea, em 2021, a relação estoque/consumo final de soja pode ser a menor das últimas nove temporadas, o que poderá dar sustentação aos preços domésticos tanto da soja quanto de seus derivados no decorrer de 2021. No caso do milho, os estoques também estão baixos. Além disso, a demanda firme e as incertezas quanto ao tamanho da oferta da temporada 2020/2021 devem manter os preços internos do milho neste ano em patamares acima da média de anos anteriores.

Ainda segundo o Cepea, apesar dos reveses provocados pela pandemia de Covid-19, a suinocultura brasileira encerrou o ano de 2020 com preços, abate e embarques recordes. Para 2021, a expectativa é de que, mesmo com o custo de produção elevado, o balanço positivo se repita. A demanda externa por carne suína deve continuar firme, sustentada pelas compras chinesas, ao passo que a procura interna deve ser favorecida pela possível retomada econômica.

Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) indicam que a produção brasileira de carne suína pode aumentar 3,5% em 2021 frente ao projetado para 2020, passando para quase 4,4 milhões de toneladas. Esse crescimento é similar ao apontado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que estima alta de 3,6% na produção brasileira, totalizando 4,1 milhões de toneladas.

Do lado da demanda, a ABPA estima elevação das exportações em torno de 10% de 2020 para 2021, ao passo que os números apontados pelo USDA indicam aumento um pouco mais conservador, de 4,2%. Além da continuidade do bom ritmo de embarques para a China, há, ainda, a expectativa de incremento nas vendas a outros destinos, especialmente na Ásia.

O Cepea aponta ainda que apesar de a comercialização com os chineses continuar aquecida, o país asiático já sinaliza a retomada gradual da recomposição do rebanho de suínos, que foi dizimado pela peste Suína Africana (PSA). Segundo os especialistas, esse movimento tem deixando produtores brasileiros em alerta, diante das possíveis implicações nos médio e longo prazos.

No caso da demanda interna, segundo o Boletim Focus, do Banco Central, de 31 de dezembro de 2020, o PIB deve ter crescimento de 3,4% em 2021. Ainda que essa taxa seja menor do que a projetada anteriormente, esse avanço já é um estímulo para as vendas de carne suína no mercado doméstico, que podem crescer até 2%, de acordo com a ABPA, e cerca de 3,5%, segundo o USDA. A recuperação do mercado de “food service” tende a ser um dos pilares dessa melhora.

O mercado em 2020

Segundo levantamento do Cepea, a pandemia de covid-19 trouxe para a suinocultura brasileira um cenário de incertezas e de muitos desafios em 2020. Depois de caírem com força entre março e abril, os valores tanto do suíno vivo quanto da carne iniciaram um movimento de recuperação em todas as praças acompanhadas pelo Cepea, atingindo recordes reais em setembro. As exportações e os abates também foram recordes.

Os preços do suíno vivo e da carne registraram quedas acentuadas entre meados de março e abril, período em que as recomendações de distanciamento social e decretos municipais e estaduais impactaram significativamente a demanda por produtos suinícolas. Enquanto o mercado de carne apresentou baixa liquidez, diante de restaurantes e de outros serviços de alimentação fechados e/ou trabalhando de forma parcial, a indústria acumulou estoques, e a demanda por novos lotes de animais para abate ficou menor.

Já em maio, mostra o Cepea, o mercado nacional de suínos voltou a se aquecer, impulsionado pelas exportações brasileiras da proteína, que bateram recorde (101,1 mil toneladas, segundo a Secex) e pelo aumento da procura interna. Nos meses seguintes, os embarques seguiram registrando bom desempenho. A China seguiu sendo o maior destino da carne, o que vem sendo observado desde março/2019. De janeiro a novembro de 2020, o país foi destino de 50,4% dos embarques nacionais da proteína suína, o equivalente a 468,6 mil toneladas, aumento de expressivos 115% frente ao mesmo período de 2019, segundo dados da Secex.

Considerando-se o total dos embarques, foram exportadas 901,1 mil toneladas de carne suína in natura na soma de 2020, um recorde. E o setor exportador também foi favorecido pelo câmbio. A receita com as vendas somou R$ 11,02 bilhões de janeiro a dezembro, 90,5% acima da obtida em 2019 e também recorde.

No mercado interno, o auxílio emergencial do governo federal e a gradativa retomada das atividades econômicas, assim como a alta nos preços da carne bovina, impulsionaram as vendas da proteína suína e, consequentemente, as do animal vivo.

Nesse contexto, os preços internos do vivo e da carne disparam, atingindo, em setembro, recordes reais em todas as praças acompanhadas pelo Cepea e renovando as máximas nos meses seguintes. No Oeste Catarinense, o animal chegou a ser negociado a R$ 9,70/kg em novembro, o valor mais alto dentre as regiões.

Apesar da menor oferta de animais para abate em determinados momentos, especialmente em setembro, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia) indicam produção recorde de suínos de janeiro a setembro de 2020, totalizando 36,8 milhões de animais abatidos.

Mesmo com o bom desempenho das exportações e com os preços recordes registrados em parte do ano, o poder de compra do suinocultor frente aos insumos da alimentação recuou frente a 2019. Isso porque os valores do milho e do farelo subiram ainda com mais força em 2020, prejudicando as margens do produtor, especialmente no encerramento do ano.

Considerando-se o milho comercializado no mercado de lotes da região do Indicador de Campinas (SP) e o suíno negociado na praça de SP-5 (Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba), foi possível ao suinocultor adquirir 6,62 quilos do cereal com a venda de um quilo de animal na média de 2020. A quantidade é 9,9% menor que a média de 2019.

Frente ao farelo de soja comercializado em Campinas, foi possível ao suinocultor a compra de 3,45 quilos do derivado com a venda de um quilo de animal vivo na média de 2020, queda de 10,7% na comparação com 2019.

Saiba o que pensam lideranças dos principais estados produtores para a suinocultura em 2021

Para entender melhor como cada Estado avalia a atual situação quanto aos custos de produção e quais são as perspectivas para 2021, a reportagem de O Presente Rural conversou com os presidentes e representantes das associações de suinocultores dos principais Estados produtores. Acompanhe:

 Rio Grande do Sul

Presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Luis Folador

Dois mil e vinte foi um ano diferente, quando começamos primeiro semestre viemos de patamares normais, tanto de preço de milho quanto de farelo de soja, preços até um pouco acima da média em função do Estado ter sofrido estiagem em 2019 e 2020, teve perdas de produção e isso encareceu um pouco o milho no nosso Estado. Mas foi a partir do segundo semestre que nós vimos uma explosão do preço do milho e do farelo. Vimos o milho saindo de um preço de R$ 46,50 a saca para R$ 90 a saca, e o farelo saindo de um preço de R$ 1,5 mil a tonelada 2,8 mil fechando o ano a R$ 2,4 mil. Então os desafios realmente do setor nesse ano de 2021 será com o custo de produção e como nós olhamos o custo de produção médio. O suíno, da Embrapa que publica todo mês, nós começamos o ano com um custo de produção a R$ 4 e terminamos o ano com um custo de produção médio chegando quase a R$ 7 o quilo, então realmente deixou todo mundo preocupado em função de que os preços dos suínos eles vem se mantendo, vem cobrindo esses custos, tendo volume de exportações no mercado interno até final do ano também, mesmo com a pandemia ajudou, com a questão do auxílio emergencial do Governo Federal, que foi um dinheiro que acabou indo bem, principalmente direcionado para compra de comida. Então, podemos dizer que o mercado andou bem, o volume de exportação foi excepcional.

Agora 2021 preocupa um pouco, olhando o cenário externo a princípio as exportações caminham tudo dentro da normalidade, os volumes que vem acontecendo nesse mês de janeiro são normais, as projeções são boas. O que preocupa é o mercado interno em função de não mais ter esse dinheiro do auxílio emergencial, ele deixa de circular e grande parte dele, ousaria dizer que 80% desse dinheiro, ia para compra de alimentação, de comida, entre elas a carne suína. Então é um ano de custos desafiadores.

A variação de preço paga aos produtores em 2020 do Rio Grande do Sul pode ser dividida em três momentos: tivemos em janeiro até meados de março preços com alguma estabilidade, preços em alta, pujando, subindo a cada semana um pouco, chegando na casa dos R$ 6 o quilo. Ai no dia 15 de março quando veio a notícia da pandemia, dessa questão toda de diminuição da circulação, os preços despencaram até meados de maio, mais ou menos, onde o preço caiu quase R$ 2 o quilo, chegando a uma média paga ao produtor de R$ 4 o quilo. Após a segunda quinzena de maio o mercado voltou a se recuperar, as exportações se mantiveram em alta durante todos os meses do ano e fez com que voltasse novamente os preços para cima, os preços foram subindo semana a semana e chegamos ao maior preço em torno de R$ 8,70 o quilo. Então foi uma escalada de preços a partir de maio bastante interessante que deixou com que o produtor fechasse a conta do ano todo, porque ele passou praticamente seis meses do ano no 0 a 0 em função da queda dos preços de março a maio e o custo de produção no segundo semestre que estourou. Então jogando tudo isso em um balanço que fecha de primeiro de janeiro a 31 de dezembro a gente vê que o produtor teve resultados, teve ganhos e teve margem, mas não foi nada extraordinário, foi uma margem de lucro dentro daquilo que é normal dentro de uma atividade produtiva comercial. Então tivemos essa possibilidade de que o mercado externo nos ajudou muito em 2020 porque exportamos mais de 1 milhão de toneladas de carne suína e isso fez toda a diferença na balança comercial do nosso custo de produção.

Para 2021 eu espero que os preços se mantenham nestes patamares, porque os custos não estão dando refresco e nós estamos com custos de produção nesse início de janeiro com o milho chegando na casa dos R$ 90 a saca, farelo de soja a R$ 2,8 mil a tonelada, e milho e farelo de soja representam 90% da composição de uma fórmula de ração, e lá fora que subiu os preços das vitaminas, minerais, vacinas e medicamentos, tudo subiu também com o preço do dólar. Então nós tivemos também uma escalada de custos bastante alta. Custos de produção hoje deve fechar próximo da casa do R$ 7 o quilo. Com o preço do suíno para o produtor tem que se manter, para o produtor independente, fora do sistema de integração, que faz a comercialização da produção, é acima de R$ 7 para fechar a conta, porque senão não fecha. E ninguém mais tem estoque de produto barato. Milho a menos desses preços que hoje são praticados, farelo de soja quem tinha estoque lá trás foi consumindo esse estoque e hoje está comprando com o preço real do mercado. E ainda nós temos aqui no Estado uma safra muito quebrada do milho, por conta da estiagem que nós tivemos nos meses de setembro, outubro e novembro. Então a safra do milho aqui comprometeu em torno de 60% da produção de oferta. Então os preços do milho vão ser extremamente altos o ano todo e a expectativa do mercado externo se em fevereiro continuar tendo o mesmo movimento, se a China continua sendo uma grande importadora de carne suína brasileira, em torno de 60%, a Ásia toda representa 80% da carne suína brasileira vendida. E é bom? É bom, vamos aproveitar e vender. Mas nós estamos na mão de um único mercado, 80% da nossa exportação, que tem que ser exportada porque aqui o mercado interno não comporta absorver esse produto, estamos na mão da Ásia. É bom, é positivo, mas ao mesmo tempo é preocupante, porque se a China resolve criar qualquer problema, alguma restrição, que pode afetar nós exportarmos normalmente para lá a pancada é muito grande. Então a princípio tudo sinaliza que será um ano estável, com a questão de manter os preços de suínos compatíveis para cobrir custos de produção. Mas há uma preocupação bastante grande de produtores, com a questão dos custos realmente de oferta de milho no primeiro semestre.

A única solução para ter mais lucratividade em margens ajustadas é ter um preço de venda acima do custo de produção para deixar margem para o produtor, porque hoje o produtor já é muito eficiente, produtivo e capacitado da porteira para dentro, há sempre ajustes para fazer, sempre é possível melhorar alguma coisa dentro da granja no aspecto de produção, produtividade e custo ainda que pode cortar. E a gente conseguir que o mercado rode e que tivesse uma melhor oferta de milho no mercado interno, mas isso depende da colheita e do clima, e o nosso Estado infelizmente, a colheita de milho que começa agora no Rio Grande do Sul a quebra é extraordinária. Então não tem muito milagre a fazer a não ser um mercado estável e remunerador para cobrir o custo de produção.

Algo importante que sempre tenho falado é de que tenhamos cautela, cuidado com crescimento e investimentos, crescer em produção além da oferta com a demanda de mercado. Hoje estamos exportando muito para a China, mas eles já estão comprando muito por um problema sanitário que eles tiveram no início de 2017 e eles vêm sanando esse problema, daqui a pouco eles vão continuar sendo nossos importadores, mas em um volume menor. E se a China deixar de importar 30% do volume que ela importa hoje do Brasil vamos colocar esse produto onde? No mercado interno pode ficar, mas a que preço? Então é importante que o setor esteja consciente nesse sentindo de crescer, evoluir, melhorar, fazer investimentos, mas não podemos sair de forma inconsequente ampliando produção porque daqui a pouco essa carne vem para o mercado e ela precisa ser vendida para alguém. Se tivermos comprador mais do que vendedor os preços vão lá para baixo. Então é importante ter essa cautela, esse cuidado e que se faça essa análise para médio e longo prazo.

 Santa Catarina

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi

O ano de 2020, apesar de ter sido bom na nossa atividade, tivemos um susto no início do ano, devido a questão da pandemia. Saímos em janeiro comercializando o suíno no mercado independente a R$ 5,58 em quilo, enquanto o custo estava a R$ 4,27. A partir de março, abril nós tivemos aquela parada toda por causa da pandemia, e realmente os custos caíram bastante, nós chegamos em alguns casos comercializar o suíno a R$ 3 o quilo posto no frigorifico, aumentando muito o prejuízo do produtor porque o custo subiu, indo para R$ 4,60. No final do ano, em dezembro tivemos uma média no independente de venda a R$ 7,80 com o custo de R$ 7, no mês de dezembro. Isso mostra o quanto o mercado oscilou e também a questão do custo que só foi aumentando. Avaliando uma média do ano passado entre custo e valor de venda, nós tivemos um custo médio de R$ 5,60 para produzir cada quilo de suíno e foi comercializado em uma média de R$ 6,31 o quilo. Trouxe sim uma margem de lucro para nós produtores, foi um ano histórico também na nossa atividade, tivemos bons motivos para comemorar, mas o grande volume de exportação que aconteceu, no ano passado nós passamos no Brasil de 1,20 milhão de toneladas exportadas, e Santa Catarina contribuiu com 479,88 mil toneladas exportadas. Desse volume nós temos uma preocupação muito grande para este ano porque foram exportadas no ano passada 302,3 mil toneladas para o mercado chinês. Então esse ano nós temos que dar uma avaliada boa de como vai ficar essa relação com os Estados Unidos e China para ver se eles vão importar mais carne de lá nós vamos perder aqui, se eles importarem mais grãos de lá quem sabe aqui cai o nosso custo de produção para a gente continuar tendo essa margem de lucro dentro da nossa atividade. É realmente preocupante essa situação.

Mas a produção foi boa dentro do nosso Estado, nós crescemos em torno de matrizes alojadas a campo nós tínhamos em 2019 446 mil matrizes e fechamos o ano com uma média de 452 mil matrizes, melhorando a produtividade também, que isso é um fator importante e também o peso de carcaça aumentou no ano passado, dos mercados exigindo mais gordura na carne e com a melhoria genética que aconteceu tiveram que colocar mais peso nos animais para poder atender esses mercados que fazem essa exigência com relação ao maior volume de gordura na carne.

A variação de preço pago ao produtor foi muito grande, como eu citei saindo de R$ 5,58 no início de janeiro para uma média de R$ 7,80 e dezembro. Foi realmente uma variação muito grande, embora quando a gente viu que as grandes indústrias compravam do mercado independente ultrapassou os R$ 10 alguns produtores comercializando. Então isso mostra essa instabilidade de preço que estamos vendo hoje no mercado que tem afetado muito os nossos produtores, porque não tem uma garantia, você não pode planejar muito sobre aquilo que está dando no momento porque um tempo depois pode ser que caia muito o preço, porque tudo depende de mercado exportador, depende de dólar, de consumo no mercado interno. Então tudo isso tem trazido uma insegurança para nossa atividade com relação a preços.

No ano passado tivemos uma margem de lucro muito boa quando comparado a anos anteriores, principalmente olhando nos últimos quatro anos, que eu vejo que a suinocultura deve ser avaliada a cada cinco anos e ver como ela está na lucratividade do produtor, se está sobrando ou não, a forma como a gente produz dentro da propriedade rural, e todos lembram da crise de 2016 que muitos produtores deixaram a atividade, não conseguiram mais tocar a atividade, e realmente essa é uma preocupação que a gente tem. A partir de 2017 começou uma pequena melhora e 2018 também, e realmente em 2020 consagrou-se como o melhor dos últimos 10 anos dentro da nossa atividade, por toda aquela exportação, que foi realmente muito positiva e o Estado ganhou muito com isso, passando de US$ 1 bilhão as exportações de carne suína, e é claro, todo mundo comemorando estas exportações porque trouxe uma lucratividade muito forte para o campo, que era o que a gente precisava. Muito tempo não tínhamos lucratividade no meio rural como foi no ano passado e isso precisa também para este ano, porque nós estamos mudando a nossa propriedade para trabalhar dentro do bem-estar animal, principalmente propriedades antigas e que tem muito a se fazer e precisa de investimentos. Então nós precisamos fazer com que a nossa suinocultura seja viável para manter o produtor no campo, investindo, fazendo a sucessão familiar, enfim, fazendo a produção de alimentos, que é algo muito sagrado. E produzir a proteína animal é trabalhar 365 dias por ano e estar sempre de plantão porque muitas coisas acontecem à noite e o produtor tem que estar lá para poder resolver.

O ano de 2021 realmente está muito preocupante porque nas duas primeiras semanas do ano tivemos ainda bons preços pagos ao produtor devido ao grande volume de vendas no natal e final de ano. Depois foi feita essa reposição dos estoques e o mercado travou completamente. Para se ter uma ideia, como falei anteriormente, antes vendíamos a R$ 7,80 em dezembro e hoje já estamos com uma comercialização de R$ 5,80 a $6 o kg, o que não cobre os custos de produção. Nós estamos passando de R$ 7 com o custo de produção e isso é uma preocupação grande porque nós não temos garantia de milho, de soja, porque tudo isso está sendo exportado em um grande volume por mercados como a China que também compra a carne, mas também está levando muita proteína animal, e essa é a grande preocupação, muito milho vinha do Paraguai, e agora com a alta do dólar também está difícil de trazer, não dá viabilidade econômica, trazer do Mato Grosso também tem a questão da distância. Então hoje nós temos milho em algumas regiões de Santa Catarina passando dos R$ 90 e o farelo de soja chegando na propriedade a R$ 3 mil a tonelada. Então isso tira toda a tranquilidade do produtor e começa a levar boa parte do lucro que sobrou ano passado. Então até quando vai durar isso? Essa é a preocupação que a gente vê. Eu acredito que nós teremos janeiro e fevereiro dois meses bem complicados, depois a partir de março com a vacina que está chegando, é claro que está imunizando poucas pessoas ainda, mas já temos a imunização de rebanho, como todo mundo fala, e volta as aulas, então as coisas começam a entrar em uma maior normalidade, e isso vai melhorar o consumo da carne suína e eu acredito que vai aumentar também os preços e o produtor vai ter a lucratividade mais garantida quando isso ocorrer.

É difícil falar dessa questão de milho e soja porque há uma demanda muito grande no mercado internacional pelos nossos produtos. Então eu vejo que não vai cair o preço da forma como está, é claro que tem muita coisa que é especulação e está jogando o preço para cima, mas não vejo possibilidade de baixa significativa no preço de milho e de farelo. O milho varia em torno de R$85 a R$90, depende a região do Estado, sobe ou cai um pouco, mas está bem complicada essa situação. E a Conab, que deveria ser um órgão regulador, nunca foi, para se falar bem a verdade, porque ela sempre jogava o milho no mercado a um preço menor, para tentar puxar o preço para baixo, mas o milho não tinha qualidade. Então quem tinha o milho bom mantinha o preço dele como estava e o produtor se iludia e buscava aquele milho, mas depois acabava gastando em medicamento para ajustar a granja, porque era milho com fungo, estragado e realmente com problema. Eu vejo que a Conab tinha que trabalhar um pouco diferente, mudar a forma como ela está fazendo, sendo uma garantidora entre o produtor de milho e o consumidor de milho dele, que a gente poderia estar trabalhando melhor nessa linha. O produtor planta o milho e depois ele vende para a Conab, mas ela não vai comprar, só vai fazer uma intermediação para quem consome esse milho, e ela vai dar essas garantias. Então ficaria melhor para o consumidor e para o produtor, que teria essa garantia que a safra dele não ia parar lá no estoque dele. Então tem que regular alguma coisa, mas é bem preocupante essa questão de grãos para esse ano.

É claro que com tudo isso há uma tendência muito forte o custo de produção se manter na casa dos R$ 7 realmente porque não se vê mudança daquilo que está o mercado hoje para o que vai ser o mercado no futuro em 2021. Então o que o produtor tem que trabalhar mais: a propriedade ela tem que ser uma empresa rural muito bem gerida financeiramente e na produtividade, se o produtor tiver esses controles na mão da produtividade, porque é ali que se ganha, porque no custo a gente não consegue mexer, tem que pagar aquilo que o mercado está pedindo, mas na produtividade nós podemos melhorar. Então essa é a questão que o produtor tem que estar muito focado, avaliar semanalmente a produtividade, como está, como ele pode melhorar, tecnificar a propriedade com ventilação, que isso traz um ganho de produção muito forte, independente de inverno ou verão, vai ter um controle de temperatura ali dentro que vai fazer com que as coisas fiquem bem tranquilas para as matrizes, os animais, que estão naquele sistema produtivo e vai trazer a melhor rentabilidade, como menor conversão alimentar, melhor ganho de peso, menos dias alojados. Tudo isso é o diferencial que o produtor pode fazer. E é aquela velha história: que é o olho do dono que engorda o suíno. Então a gente tem que cuidar muito nessa linha para que a gente fique sempre com uma margem de lucro garantida. Nós não podemos trabalhar com prejuízo como nós estamos trabalhando agora. Então o que precisa fazer: reduzir um pouco a carga tributária, nós temos um problema sério porque as propriedades estão hoje cada vez maiores e sempre com funcionários e esse é grande problema dessa questão trabalhista que tem ainda muita coisa que deveria ser mudada. Nós temos que fazer com que os nossos políticos olhem para o agronegócio e vejam que é o que está sustentando o nosso país na balança positiva, no PIB. Tudo isso são fatores que nós precisamos trabalhar. E cada vez mais as nossas entidades do agronegócio estarem juntas, não somente a atividade da suinocultura junto com a Associação Brasileira de Criadores de Suínos, as entidade filiadas, mas também todo o setor de proteína animal, seja de frango, de gado de corte ou leite, para que a gente possa fazer com que a política trabalhe políticas para isso. É inadmissível hoje nós termos que importar grãos, o pequeno produtor e as pequenas cooperativas, a gente ter que importar e pagar PIS/ COFINS 11,75% sobre aquilo que estamos importando. Então acaba tirando a nossa competitividade e o pequeno e o médio não conseguem crescer. Enquanto o grande que exportar consegue usar o sistema Drawback nós não conseguimos. A ministra da Agricultura tinha falado que ia zerar esse PIS/ COFINS na importação de grãos, mas até agora não aconteceu. Então a politicagem nesse país é que estraga o agronegócio, desestimula empreendedores rurais a crescer e essas questões todas tem que ser mais bem trabalhadas, porque se não a gente não vai conseguir fazer com que o país e o nosso produtor tenham ganho. Sempre se falava que quando nós chegássemos a 400 toneladas de carne exportadas o produtor ia ganhar dinheiro, depois foi para 600. Esse ano nós exportamos 1 milhão de toneladas de carne suína e agora o produtor já não está mais ganhando dinheiro dentro da atividade. Então é isso que não pode acontecer. Quem está ficando com todo esse lucro? Será que é o imposto do governo, será que são as indústrias ou os supermercadistas. Mas onde está ficando esse dinheiro? Então na principal área que deve ficar, que é lá no produtor para ele fazer os investimentos a gente não está conseguindo ter a margem de lucro garantida. Essa é a grande preocupação que nós temos, e o que eu vejo que é cada vez mais necessário é o nosso produtor olhar diferente para a sanidade. Se nós perdermos esta sanidade que Santa Catarina tem, o único Estado livre de febre aftosa sem vacinação, com certeza vai nos complicar muito porque praticamente metade da carne exportada saiu daqui pela condição sanitariamente diferenciada que nós temos. Eu sempre tenho falado que o produtor tem que ir dormir pensando como ele vai acordar no outro dia e melhorar a sanidade do seu rebanho, e fazer o trabalho na propriedade no dia a dia, não deixar ninguém entrar que não seja aquela pessoa que venha dar assistência técnica, mas mesmo assim todos os requisitos sanitários sendo respeitados, para que a gente possa continuar sendo este Estado promissor, o maior produtor de carne suína do Brasil, maior exportador e, consequentemente, com a melhor qualidade da carne suína, esta proteína animal de excelência.

 Paraná

Presidente da Associação Paranaense de Suinocultores (APS), Jacir José Dariva

A variação dos custos de produção na suinocultura, independente da região produtora, está sempre relacionada à oscilação do mercado de grãos, pois os principais componentes da ração animal são o milho e o farelo de soja. Com a grande alta dos preços dos grãos em 2020, houve preocupações ao suinocultor, pois esse cenário de alta traz consequências à suinocultura. O milho pode estar plantado ao lado das granjas, mas se não for do próprio suinocultor, em consórcio de lavoura com a criação de suínos, isso influencia nos custos de produção, com alta no preço dos grãos. Mesmo que em 2019 e 2020 a suinocultura tenha vivido momentos mais tranquilos, isso serviu apenas para reposição de perdas com a crise verificada nos anos anteriores. Ou seja, o mercado bem ofertado não animou plenamente o produtor de carne suína.

Houve grandes oscilações no mercado de suínos em 2020. O ano começou com o preço na faixa dos R$ 6 o quilo, em janeiro do ano passado. Em abril, o mês começou com preço em R$ 5,01, e houve queda na metade do mês para R$ 4,44 e fechou em baixa, com o quilo cotado a R$ 3,18, o menor preço de 2020. Em maio, houve leve recuperação, subindo para R$ 3,46 no início do mês, chegou em R$ 4,12 na metade daquele mês, fechando em R$ 4,39. Dá para se afirmar que o primeiro semestre de 2020 fechou com uma média de preço em R$ 4,50 o quilo. Em julho, o preço voltou a subir e o mês fechou em R$ 6,35. A tendência de alta se manteve, sendo que no final de agosto de 2020 o suíno estava cotado a R$ 6,93. Porém, o melhor desempenho foi mesmo no último quadrimestre do ano passado, com pico em setembro, com preço de R$ 8,76 no dia 22. A alta persistiu em outubro, fechando aquele mês em R$ 9,16, ou seja, ultrapassando a barreira dos R$ 9, com mercado bem aquecido. Em novembro, a tendência de alta se manteve e o suíno foi cotado inicialmente em R$ 9,07 o quilo, subiu para R$ 10,60, mas caiu no final do mês, fechando em R$ 8,36, já em queda, novamente, quadro que se manteve até o dia 31 de dezembro de 2020, com preços variando entre R$ 6,40 e R$ 7,47, sendo que no último dia do ano o suíno foi vendido a R$ 6,40 o quilo. Esse mesmo estudo de acompanhamento do mercado do suíno vivo no Paraná mostrou que no início de janeiro de 2021 o quilo estava cotado a R$ 7, com média no mês de R$ 7,11.

De maneira geral as margens de lucro ficaram um pouco mais altas em relação a anos anteriores, mas é preciso observar que mesmo com todas as oscilações na média do preço pago aos produtores do Paraná em 2020, a atividade conseguiu apenas fazer frente aos custos de produção e recompor perdas acumuladas nos anos imediatamente anteriores. O produtor teve momentos mais favoráveis em 2020, especialmente na suinocultura independente, com um resultado um pouco mais satisfatório, mas não em um patamar que garanta total estabilidade e maior lucratividade, mesmo diante de maiores volumes de carne suína exportados pelo Brasil, em decorrência do cenário na China, com o surgimento da PSA.

O produtor neste início de ano se vê apreensivo ao observar tendências de baixa no preço do suíno. E mais ainda se levada em conta a persistente alta no preço do milho e da soja. Não se vê um cenário favorável ao suinocultor, pois essa tendência de alta no preço dos componentes da ração animal deve se manter, com exportações bem aquecidas do setor de grãos.

Além disso, não acredito que os preços dos grãos cairão para um patamar que traga vantagens ao produtor de proteína animal no Brasil. Muito pelo contrário, há bastante procura pelos grãos brasileiros e um mercado externo bem aquecido, sobrando pouco para o mercado interno, e com isso os custos de produção na suinocultura devem seguir elevados.

A solução para ter mais lucratividade em margens ajustadas não é fácil de ser encontrada, mas resumidamente passa pelo maior controle possível dos custos e da união dos produtores independentes na hora de acessar o mercado, que tem suas próprias regras e é difícil de ser controlado. A redução dos custos importa muito, porque é algo que está um pouco mais no controle do produtor, que deve estar atento a todas as questões que compõem os seus custos. Manter boas parcerias e estar sempre atualizado também é fundamental para uma boa gestão das granjas, pois de nada adianta termos tecnologias, sem que haja maior precisão também na área administrativa e de gestão sobre a nossa produção. Já houve avanços, mas quem persiste na atividade merece ser elogiado, porque a suinocultura, como se diz, não é para os fracos, e quem permanece nela sabe os desafios que isso significa.

Quero agradecer todo o apoio que o jornal O Presente Rural tem dado aos produtores, em especial às demandas da suinocultura do Paraná, divulgando as ações da Associação Paranaense de Suinocultores. Em 2021, a expectativa é de avançar em nossa atividade, com as exportações mantendo-se em alta e que isso possa refletir positivamente no mercado interno. Em termos institucionais, buscamos um novo tempo na área da Integração, com o fortalecimento do processo das CADECs, tentando atrair novos membros e que mais produtores estejam interessados em participar dos debates com as agroindústrias, além de manter as ações em torno da sanidade animal e da biosseguridade nas granjas do Paraná, apoiando as ações da Seab e da Adapar para elevar nosso status sanitário, o que deve ser reconhecido internacionalmente pela OIE em maio próximo.

 São Paulo

Presidente da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), Valdomiro Ferreira Júnior

O custo de produção em 2020 foi acelerado e praticamente terminamos o ano com um percentual de alta em média de 55% a mais, em relação ao início e término do ano.

Iniciamos 2020 praticando preços condições bolsa na região de Campinas em média de R$ 120/@ = R$ 6,40/Kg vivo. Fechamos o ano praticando preços em R$ 135/@ = R$ 7,20/Kg vivo. Ocorreu no meio do mês de novembro o ápice de preço chegando a R$ 185/@ = R$ 9,87/Kg vivo.

Sem sombra de dúvida os custos de produção no ano de 2020, foram extremamente mais altos do que a média histórica. Portanto, tivemos alguns meses apenas com margem de lucratividade positiva, criando dificuldades aos suinocultores em relação ao fluxo de caixa.

O ano de 2021 inicia-se com grandes perdas ao suinocultor. O milho responsável pelo maior percentual no custo de produção, atingiu valores no mês de janeiro jamais visto. Na região de Campinas o produtor pagou até R$ 89/saca de 60 quilos. Isso comprometeu a relação de troca, entre arroba suína e saca de milho. O ideal para o suinocultor a cada arroba vendida ele possa comprar 2,5 sacas de milho. Nesse momento, ele adquire apenas 1,12, uma das piores relações na história do setor.

A grande preocupação do setor produtivo, é preço dos grãos, leia-se milho, soja e sorgo. Além dos preços muito alto, corre-se ainda a possibilidade de falta do produto, em decorrência da questão climática e a grande exportação ocorrida no ano de 2020.

Além disso, o nosso setor depende em números arredondados de 20% do mercado externo e 80% do mercado interno. Em relação ao externo, não podemos fazer nada, pois, o mesmo é composto seus fundamentos no câmbio, no prêmio e na bolsa de Chicago, praticamente, o suinocultor é um mero expectador e consumidor. No mercado interno, dependemos das questões macroeconômicas do país. Todos sabem da situação volátil que temos na política e na economia. O consumidor brasileiro está perdendo sua renda, e não podemos esquecer que aumento de consumo da proteína animal só é possível com renda. Diante do quadro as expectativas para o ano são incertas.

A consideração final que faço aos nossos suinocultores paulistas e brasileiros é cautela, foco no custo de produção e acompanhar muito de perto as questões externas, em especial, o comportamento da China e dos Estados Unidos. O momento exige mais do que nunca, atenção especial as questões sanitárias de nosso rebanho. Protegê-lo significa manter ativo o maior patrimônio e uma granja, ou seja, seu plantel genético.

 Minas Gerais

Presidente da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (Asemg), João Carlos Bretas Leite

O ano de 2020 iniciou com valor de farelo de soja a R$ 1.700 (posto na granja) a tonelada e finalizamos o ano com valor de R$ 2.800 (posto granja). O valor da saca de milho em janeiro era de R$ 51,07 e em dezembro chegou ao preço de R$ 75,33. Devido às exportações, tivemos um ano atípico como um todo, nos valores referentes a custo de produção, contamos com uma situação preocupante ao suinocultor já que os custos chegaram a patamares nunca vistos.

No início do ano o valor do suíno vivo estava em alta no mês de janeiro, a média de preço do Estado foi de R$ 5,65. No início da pandemia tivemos uma queda brusca nos preços, chegando ao valor de aproximadamente R$ 4,20. Em meados de junho o preço iniciou uma trajetória ascendente, chegando ao valor máximo de R$ 9,50 no mês de novembro.

Válido ressaltar que a precificação do quilo do suíno vivo em Minas ocorre através da BSEMG (Bolsa de Suínos do Estado de Minas Gerais), que avalia e entende o mercado na qual está inserida, negocia valores de comercialização com os representantes do setor de frigoríficos e precifica o valor do suíno vivo no Estado. Também há momentos em que as partes envolvidas não entram em acordo e a Bolsa fica com o status de em aberto, nestes momentos a BSEMG sugere um valor de venda e frigoríficos e produtores negociam suas vendas no mercado de spot.

Realmente as margens de lucro em 2020 foram positivas. Foi um ano inigualável para o setor, com alta procura da nossa proteína o que gerou um momento bastante satisfatório para o negócio suinocultura.

Já 2021 iniciou com um cenário de custos ao produtor nunca vistos, os insumos estão chegando às granjas com preços muitos superiores às faixas costumeiras para este período do ano. Em relação aos preços pagos ao produtor, na primeira semana deste ano, estão em um momento de estabilidade, em Minas contamos com o valor de R$ 7,50 para o quilo do suíno vivo o que nos confere ainda lucratividade ao produtor. No entanto é impossível prever o comportamento do mercado para as próximas semanas, o fato é que com custos em alta o produtor terá um ano de desafios pela frente.

Quanto aos custos dos insumos para este ano a previsão dos especialistas é que não haja redução nos valores, o que certamente acarretará um custo de produção superior ao visto em 2020.

A solução para ter mais lucratividade em margens ajustadas é a pergunta que vale um milhão de dólares e que todos nós suinocultores estamos em busca de respostas. Entendo que a produtividade será o grande desafio do suinocultor para 2021, só assim será possível manter as margens ajustadas. Buscar por novas tecnologias e recursos também podem ser fatores importantes neste ano.

 Mato Grosso

Diretor executivo da Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat), Custódio Rodrigues de Castro

A variação dos custos de produção, acredito eu, como no Brasil todo, foi assustadora para nós aqui também. Tínhamos um custo no começo da pandemia em torno de R$ 3,50, vendendo o suíno a R$ 3,80 mais ou menos, e esse custo subiu naquele auge do preço para R$ 5, R$ 5 e pouco, que ainda vendendo o suíno a R$ 8, R$ 8,50 era considerável o lucro. Mas depois, com aquela questão do milho aqui no Mato Grosso, onde normalmente seria em torno de R$30, 32, 35 para R$62 isso assustou muito. Então os custos de produção hoje oscilam entre R$ 6,50 depende o produtor, se for terminador até R$7, incluindo o leitão nessa coisa toda.

Assustamos muito no começo da pandemia, os preços oscilavam entre R$ 3,80 e R$ 3,70, caiu para R$ 2,60, abaixo do custo de produção e isso foi assustador. Mas depois cresceu consideravelmente como em todo o Brasil. Subiu para R$ 4 e pouco, R$ 5 e pouco e chegando no auge, enquanto em São Paulo estava em torno de R$ 10, a carcaça R$ 15, nós chegamos com o preço aqui a R$ 8,50, R$ 8,90 que para nós era extremamente interessante. Então as margens de lucro ficaram um pouco mais alta em relação aos anos anteriores com certeza, mas agora está bastante preocupante, principalmente no que tange a questão do milho para esse ano. Nós sabemos que o milho aqui já está praticamente 80% comercializado, e o preço aqui não vai abaixar de R$ 45, R$ 50, coisa que é assustadora para nós porque o milho normalmente era em torno de R$ 25 a R$ 30, isso não vai ter mais. Então os produtores tem feito suas contas de uma maneira que possam ver como vai ser esse ano. A grande preocupação é na nossa entressafrinha que vai de fevereiro até maio, até o começo da colheita do milho.

Para o ano de 2021 nós estamos muito preocupados com os preços, tanto de custo de produção quanto de preços pagos. A lucratividade caiu consideravelmente e acredito que isso foi no Brasil todo.

Para o milho e a soja eu acredito que não deve ter redução considerável de preços, hoje a soja aqui se fala em R$ 2.600 a tonelada, é extremamente alto, e o milho em torno de R$ 45 e R$ 47 que é extremamente alto para nós também aqui.

Já para melhorar a lucratividade temos que intermediar junto aos governos, tentar minimizar os impactos com o custo de produção, brecar um pouco esse milho que está saindo para as traders principalmente comprando esse milho assustadoramente num preço, inclusive tendo aumentando esses preços. Então o governo tem que olhar isso com cuidado principalmente porque a Conab hoje não tem estoque e nem fazer. Assim, temos que criar um mecanismo para o produtor comprar antecipadamente e criar alguma coisa para que o produtor possa ter recurso para comprar esse milho antecipado e minimizar os impactos da cadeia produtiva não somente da suinocultura, como também de aves.

As expectativas de 2021 são boas, principalmente com a China, que continua comprando um pouco nosso produto e acredito que nós vamos ter uma dificuldade maior em 2022, com eles repovoando as granjas e em um mercado bastante competitivo. Então o que temos que fazer é criar oportunidades de exportação e buscar novos mercados, especificadamente o México, que seria um mercado bastante interessante. Acredito que nós temos que fazer um lobby nesse sentindo, junto com todas as associações, incluindo a Associação Brasileira, para que possamos acessar novos mercados para que a suinocultura não tenha problema no outro ano, sabendo que alguns produtores e cooperativas aumentaram consideravelmente o número de matrizes. Então a preocupação para o produtor de pequeno porte deve ser bastante considerável em função da competitividade que vai ter com as grandes corporações.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de fevereiro/março de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Sanidade do rebanho

PSA e PSC poderiam causar US$ 10 bilhões em prejuízos à suinocultura brasileira, avalia Embrapa

Somente um programa robusto de biosseguridade é que pode evitar a entrada dessa e de outras doenças na grande área produtiva do Brasil.

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Foto: Jonathan Campos/AEN

Manter as granjas protegidas de patógenos que afetam a sanidade dos rebanhos é de suma importância para a manutenção do desenvolvimento da suinocultura de forma sustentável e lucrativa no Brasil. Neste contexto, a biosseguridade tem papel fundamental na proteção de planteis, granjas e propriedades rurais, uma vez que evita a entrada e a disseminação de agentes infecciosos.

De acordo com a médica-veterinária e virologista da Embrapa Suínos e Aves, Danielle Gava, somente a Peste Suína Africana e a Peste Suína Clássica poderiam causar um prejuízo de US$ 10 bilhões caso as doenças fossem detectadas na suinocultura industrial brasileira. Ela destacou alguns aspectos práticos que trazem ameaças reais para a atividade, enaltecendo que a contribuição de todos os elos da cadeia é primordial para manter o atual status sanitário brasileiro.

Médica-veterinária e virologista da Embrapa Suínos e Aves, Danielle Gava: “Ao flexibilizarmos algum ponto da biosseguridade vamos abrir brecha para que algum vírus circule e possa entrar dentro do plantel” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Segundo a profissional, várias doenças ameaçaram a produção mundial de suínos nas últimas duas décadas, exigindo dos produtores a adoção de medidas de biosseguridade para controle, erradicação e proteção de seus rebanhos. A maioria das enfermidades foi causada por vírus, entre eles alguns zoonóticos, como a gripe suína em 2009, provocada pelo vírus da Influenza A – o H1N1 – doença respiratória transmissível entre humanos e animais. “Nos últimos 20 anos aconteceram pelos menos 20 introduções de vírus de humanos para suínos, por isso é fundamental possuir um plano de vacinação para o subtipo correto”, reforçou Danielle, ampliando: “Os vírus que circulam no Brasil de Influenza são diferentes do restante que circula no mundo, ou seja, vacinas de outros países não vão funcionar para os vírus brasileiros”, esclareceu.

Danielle ressalta que a adoção de algumas medidas como cerca periférica de isolamento, controle do tráfego de veículos no perímetro da granja e a troca de roupa e calçados antes de entrar em uma unidade produtiva contribui para manter a saúde dos animais e mitigar riscos de contaminação e disseminação de agentes infecciosos.

Impacto econômico

Segundo a virologista, o impacto econômico de doenças como a Peste Suína Africana e a Peste Suína Clássica no sistema de produção por si só já justifica a adoção de medidas de biosseguridade.

Foto: Divulgação

Para mensurar a importância sanitária, ela diz que é primordial que a cadeia produtiva – da granja à agroindústria – busque responder as seguintes perguntas: Quanto custa o impacto de uma doença na granja? Quanto custa cada dia não produtivo? Quanto custa o leitão que não nasceu? Quanto vale a mortalidade? Quanto custa uma grama perdida na conversão alimentar? “Essas são algumas perguntas a se fazer para mensurar o prejuízo econômico que o setor poderá ter em caso da entrada de uma doença no plantel, porque, por exemplo, em relação a conversão alimentar, um grama parece pouco, mas em uma granja que entrega cinco mil terminados significa um montante considerável”, pontua Danielle.

Conforme a virologista, levando em consideração apenas o número de leitões desmamados por ano em zonas livres, se houvesse a entrada da Peste Suína Africana (PSA) em território brasileiro o impacto econômico na cadeia produtiva seria bilionário, superando a casa de U$S 5,5 bilhões. E no caso da Peste Suína Clássica (PSC), levando em conta que 99% da produção de suínos no Brasil é em zona livre, a entrada desse vírus causaria um prejuízo entre U$S 1,3 a U$S 4,5 bilhões.

“Ao flexibilizarmos algum ponto da biosseguridade vamos abrir brecha para que algum vírus circule e possa entrar dentro do plantel, seja através do contato com javalis, alimentação contaminada com o vírus da PSA ou PSC, carcaça de animais mortos ou outros animais asselvajados”, elenca Danielle.

Biosseguridade interna

Conforme Danielle, quando se trata de biosseguridade nas granjas, ela considera dois atores muito importantes e que merecem atenção redobrada: suínos e pessoas. “É uma cadeia que está envolvida na produção de animais, então se um elo da corrente se perder deixamos a granja suscetível a vários agentes infecciosos. Quando isso acontece ou vamos introduzir animais infectados dentro do plantel ou eventualmente levar esse agente para o rebanho”, menciona.

A médica-veterinária afirma que existe uma íntima associação entre a biosseguridade interna e a biosseguridade externa, enfatizando que as granjas que possuem um número maior de leitões desmamados e uma menor rotatividade de pessoas conseguem cumprir com melhor eficácia as medidas de biosseguridade.

A biosseguridade interna está relacionada à prevenção para evitar a multiplicação e disseminação de agentes no rebanho, afim de minimizar a propagação de doenças e diminuir a pressão de infecções dentro do sistema de produção. Dentre as medidas que devem ser adotadas estão banho e troca de roupas e calçados para entrada no perímetro interno da granja; controle do fluxo de veículos, sendo que os caminhões usados para transporte de suínos e de ração devem possuir identificação própria e serem usados exclusivamente para este fim. Aqueles que adentraram a área interna da cerca de isolamento precisam passar pelo sistema de desinfecção; possuir um programa auditável de prevenção e controle de vetores e pragas, como roedores, insetos e pássaros; limpeza e desinfecção deve ser realizada logo após a saída do rebanho, higienizando toda a instalação e equipamentos usados para manejo dos animais, especialmente o piso, os comedouros e os bebedouros. Ao término da limpeza, a granja deve ser mantida fechada para evitar a entrada de pessoas e animais; o vazio sanitário deve durar por um período de cinco a sete dias para que seja eficiente; e deve-se adotar um protocolo de vacinação levando em consideração problemas sanitários que ocorreram em lotes anteriores ou na região em que a granja está instalada.

Biosseguridade externa

A biosseguridade externa, cita a profissional, engloba a proteção do rebanho contra a entrada de agentes infecciosos, contribuindo desta forma para a redução de doenças endêmicas, além de ter o papel de impedir que doenças exóticas adentrem às granjas.

Entre as medidas a serem tomadas estão delimitação da área interna da unidade de produção com a instalação de uma cerca periférica de isolamento, com afastamento mínimo de cinco metros da granja, impedindo desta forma o acesso de pessoas e animais no entorno da propriedade; embarcadouro e desembarcadouro instalado próximo a cerca de isolamento e com portão, para que possa ser mantido sempre fechado; barreira sanitária instalada na entrada da granja, abrangendo vestiário sanitário, câmara de desinfecção e sistema de desinfecção de veículos; a instalação do silo de ração recomenda-se que seja na área interna e próximo a cerca de isolamento, permitindo fácil acesso para abastecimento pela área externa. Em caso de a ração não ser estocada em silo, orienta-se que o produto esteja bem embalado e seja armazenado em local arejado; a granja deve possuir composteira para destinação de suínos mortos, restos placentários e sobras de ração; o sistema de tratamento de dejetos deve ser cercado para evitar o acesso de pessoas e animais e deve ser feito em área fora da cerca de isolamento.

Como posso melhorar a minha granja?

De acordo com a profissional, dentro do plano de biosseguridade há medidas de curto e longo prazos, que precisam ser adotadas, mas sua aplicação está associada ao tempo que leva e ao investimento. “O que se pode fazer de imediato é melhorar a higiene, o manejo, o fluxo de pessoas na granja, etc. Essas ações vão exigir apenas a reorganização do sistema de trabalho”, destaca Danielle.

Já medidas a longo prazo estão associadas as instalações das granjas, como construção de um arco de desinfecção e melhorias nas vias de acesso à propriedade. E ainda há medidas de monitoramento contínuo, relacionadas principalmente as pessoas, ou seja, atreladas à responsabilidade de cada funcionário dentro e fora da granja.

A profissional destaca que os produtores precisam proteger as granjas todos os dias e não apenas hoje ou em determinadas situações em que há visitação à granja. “É importante lembrar que a granja não é shopping center, realmente é preciso prezar pelas medidas de biosseguridade, evitar o fluxo de pessoas todos os dias e o tempo inteiro na área de isolamento da granja” enfatiza a virologista.

Capacitação constante

A profissional destaca que é fundamental que os veterinários, produtores de suínos e controladores de javalis participem constantemente de treinamento, a fim de que possam reconhecer os sintomas da PSC e de outras enfermidades. “Conhecer as características da doença é primordial, porque diferentes agentes, vírus ou bactérias podem causar doenças semelhantes; identificar fatores de risco, adequar o sistema de vigilância, fazer quarentena, capacitar os laboratórios de diagnóstico para atender as demandas rápidas, possuir um plano de contingência, bem como garantir apoio legal e recursos aos produtores são medidas importantes para garantir a biosseguridade nas granjas”, detalha Danielle.

Conforme a virologista, sempre existe um momento e espaço para melhorias dentro da granja, no entanto o excesso de medidas pode levar os produtores a negligenciar etapas importantes do processo. “É importante que todos os elos da cadeia produtiva estejam comprometidos em manter o status sanitário invejável que o país possui. Cada um tem sua participação e contribuição, por isso é imprescindível não negligenciar nenhuma etapa”, salienta Danielle.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

Um algo a mais na suinocultura familiar

Com os anseios voltados às realizações pessoais e ao crescimento profissional, a família Horn transformou seu ganha pão numa grande empresa familiar do agronegócio, e gera renda a si e para inúmeras famílias de colaboradores.

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Fotos: Sandro Mesquita/OP Rural

Com os anseios voltados às realizações pessoais e ao crescimento profissional, a família Horn transformou seu ganha pão numa grande empresa familiar do agronegócio, e gera renda a si e para inúmeras famílias de colaboradores.

Suinocultor Werner Miguel Horn: “Praticamente tudo que conseguimos foi através da suinocultura. É uma paixão, poucas pessoas que entram nela desistem da atividade”

O patriarca Werner Miguel Horn, de 62 anos, nasceu na cidade de Estrela, Rio Grande do Sul, e com apenas três anos de idade veio com a família para Marechal Cândido Rondon, Oeste do Paraná, onde aprendeu os afazeres do campo com seus pais.

Aos 33 anos casou-se com Rosane Gregório, seu braço direito que há quase 30 anos divide a lida do campo.

Werner conta que após o casamento, o casal ganhou três leitoas de suas famílias, porém, duas delas se mostraram não produtivas. Mas isso não foi obstáculo para eles, e os primeiros desafios deram início ao negócio da família na suinocultura. “Começamos aos poucos, mas sempre com muita dedicação e amor pelo que fazemos”, destaca.

Esse mesmo amor também foi o responsável pela chegada de dois filhos. Jandrei Lucas e Júnior Matias Horn, de 26 e 27 anos. Ambos aprenderam o ofício ainda pequenos e até hoje trabalham todos os dias em companhia dos pais nas propriedades da família.

Werner revela que no início os investimentos foram direcionados para a piscicultura. “Fiz diversos cursos sobre como criar peixes, mas perdemos duas vendas por completo, e isso fez a gente desistir da atividade”, relata.

A frustração, no entanto, foi o estopim para o casal focar esforços na suinocultura, atividade já desenvolvida na propriedade, mas até então vista como secundária. “Começamos a levar a suinocultura mais a sério em 1995 e passo a passo chegamos onde estamos hoje”, lembra.

A experiência da rotina de trabalho e a busca por conhecimento no setor de suínos deram suporte ao casal, que atualmente conta com três granjas.

Produção

Os Horn são suinocultores independentes e possuem suas granjas localizadas no distrito de São Roque, interior do município. A principal delas é a Unidades de Produção de Leitão (UPL), onde a equipe do Jornal O Presente Rural foi recebida pela família.

No local existem sete barracões que abrigam 2,1 mil matrizes e uma fábrica de ração. Possui ainda uma unidade multiplicadora com 170 avôs em sistema de reposição fechada, além da Granja Irmãos Horn, com mais 650 matrizes.

A granja produz 100% da ração consumida pelos animais nas três unidades produtoras de suínos

Toda a ração consumida diariamente, cerca de 15 mil quilos, é produzida na fábrica própria que fica na propriedade principal. Parte da matéria-prima (soja e milho) usada para fazer a ração é proveniente dos cerca de 500 hectares de lavoura mantidos pela família.

Trabalho é o que não falta no dia a dia da família, e para que tudo ocorra da maneira esperada, Werner explica que as tarefas são divididas. “Todos ajudam, cada um em sua uma função específica”, menciona.

A diferença de idade e a larga experiência adquirida em anos dedicados à suinocultura não são empecilhos para o bom entendimento entre pais e filhos na hora de planejar e traçar estratégias para trazer os melhores resultados para o negócio. Segundo o patriarca, as vezes acontecem algumas controversas, algo normal num grupo de pessoas, mas quando as ideias dos filhos são boas não há problemas em aceitá-las. “A gente senta, discute e vemos o que é melhor para a empresa. Geralmente chegamos a um denominador comum”, menciona o produtor do Paraná.

Colaboradores

Para conseguir manter as atividades nas três unidades, os Horn contam com a ajuda de 45 funcionários. A maior parte desse trabalhadores mora em casas no sítio onde fica granja principal e reside a família Horn.

No total, quatorze famílias de funcionários residem nas três unidades, além de outros funcionários que moram nas proximidades. Geralmente os casais trabalham e moram na granja, onde garantem renda para viver, criar os filhos e, consequentemente, ajudam a movimentar a economia da região.

Para Werner, é uma grande responsabilidade gerar renda para essas famílias, especialmente em períodos de crise no setor, afinal, são dezenas de pessoas que dependem do negócio para sobreviver. “É gratificante ver essas famílias que trabalham para nós construindo suas vidas através da suinocultura”, afirma.

Segundo o produtor, a atividade não é mais como há alguns anos, a produção intensiva exige muita dedicação e empenho dia e noite durante todos os dias do ano. “As granjas de hoje funcionam 24 horas, por isso tudo precisa ser muito bem estudado e planejado para atingir bons resultados”, destaca Horn.

Satisfação profissional

Félix Daniel Martins Menteges atua na suinocultura há 14 anos, e há dois trabalha na Granja Horn. Ele e a esposa trabalham e moram na propriedade, ela no escritório e ele atualmente é encarregado geral da principal unidade. “A suinocultura gera renda e qualidade de vida para nós”, afirma Félix.

Família Horn guarda com orgulho os diversos prêmios recebidos ao longo dos anos pelo desempenho na suinocultura

Ele conta que ingressou na atividade ainda na adolescência, com a influência da família. “Meu pai trabalhava na suinocultura e desde adolescente aprendi a trabalhar com essa atividade. É algo que gosto de fazer”, menciona.

Segundo ele, já exerceu outras atividades fora do meio rural, mas não gostou da experiência, o que o fez retornar para a suinocultura. “Pretendo seguir na suinocultura até me aposentar”, afirma.

Desafios

A alta no custo de produção em razão das perdas nas lavouras por conta da estiagem afeta milhares de produtores em todo o Brasil. A instabilidade no setor é, segundo Werner, o principal desafio enfrentado por suinocultores brasileiros, em especial para os produtores independentes. “Esses grandes grupos montam estruturas enormes, com milhares de matrizes e não sabem se no futuro essa carne terá destino certo. O resultado é esse que vemos hoje: excesso de carne no mercado”, menciona.

O suinocultor revela que antes desse período de turbulência em virtude, principalmente, da alta do custo de produção, a família começou a investir em novas estruturas para aumentar a produção em 4,5 mil matrizes, mas em razão da crise foi preciso desacelerar. “Não é o momento de aumentar a produção, se conseguirmos nos manter com o que temos já é preciso erguer as mão para o céu e agradecer, pois está difícil”, relata.

Segundo o produtor, as duas frustrações de safra na região prejudicaram ainda mais a atividade, o que fez a família optar pela produção de leitão descrechado. “Isso é um algo a mais que resolvemos fazer por que a produção de leitão de creche ficou inviável nos últimos tempos”, expõe Werner.

De acordo com ele, o farelo de soja, por exemplo, que há um ano a tonelada custava R$ 1.6 mil, hoje custa mais de R$ 3 mil. “Estamos com a expectativa de uma boa safra de milho, e se isso se confirmar, o cenário deve mudar para melhor”, acredita o produtor paranaense.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Dez mil anos de convívio

Humanos e suínos: uma relação que vai muito além da carne

Professor Adroaldo Zanella faz profunda reflexão sobre a relação de suínos e seres humanos. Mais do que carne, o animal foi fundamental para a criação das primeiras cidades, há cerca de oito mil anos, recentemente foi o modelo para o desenvolvimento de ventiladores pulmonares no enfrentamento à Covid-19 no Brasil e é esperança para acabar com as filas de transplantes de órgãos no mundo em um futuro próximo

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São pelo menos dez mil anos de relação entre suínos e os seres humanos. Em todo esse tempo, desde a domesticação até os dias de hoje, os suínos deram muito mais do que carne para as pessoas. Do surgimento das primeiras cidades na antiguidade até as pesquisas contra o câncer a depressão nos dias de hoje, esses animais fantásticos ajudaram o homem a moldar o mundo em que vive atualmente.

Com a crise que afeta a suinocultura brasileira pela alta dos custos e preços baixos, o professor Adroaldo Zanella faz uma profunda reflexão nessa relação entre porcos e humanos, sobre os riscos econômicos e sociais que a atividade corre, mas também o xeque dessa rica e duradoura história. “Não quero ser expectador desse colapso. É preciso criar uma rede nacional para salvar a suinocultura”.

O porco e as primeiras cidades

PhD em Bem-Estar Animal e professor da Universidade Federal de São Paulo (USP), Adroaldo Zanella: “Os porcos têm um potencial substancial como modelos biomédicos para estudar processos de desenvolvimento humano” – Foto: Arquivo/OP Rural

Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, o PhD em Bem-Estar Animal e professor da Universidade Federal de São Paulo (USP), Adroaldo Zanella, inicia falando sobre a domesticação desses animais e a relação com o sedentarismo, quando o homem deixou de ser nômade. A história mais difundida para esse fato está ligada à agricultura, quando o homem se fixou por começar a produzir seus próprios grãos.

No entanto, há estudos que sugerem outra hipótese. Os primeiros colonos domesticaram os porcos antes de dominar o plantio. Não tem animal doméstico de maior contribuição para a humanidade do que o suíno. A teoria mais aceitável hoje na questão da organização da sociedade humana em cidades é a teoria da domesticação de suínos”, destaca.

Zanella embasa sua crença em evidências propostas como a do Dr. Richard Redding, um arqueólogo da Universidade de Michigan e membro da equipe que, em meados dos anos de 1990, fez a principal descoberta que reforça a teoria do sedentarismo ligada à domesticação de porcos.

Sua teoria foi publicada, em 1994, e publicada on-line em 1996, pelo New York Times, que na época introduziu o texto da seguinte forma a seguir: “Cavando nas ruínas de uma vila no Sudeste da Turquia, onde as pessoas viviam há mais de 10 mil anos, os arqueólogos esperavam encontrar os traços usuais de uma sociedade à beira da revolução agrícola. Devia haver sobras de grãos de trigo e cevada selvagens e talvez ossos de ovelhas e cabras abatidas em algum estágio inicial de domesticação.

Os arqueólogos não encontraram nada do tipo. Em vez disso, para sua completa surpresa, eles desenterraram os amplos restos de ossos de porco. A descoberta, segundo eles, sugere fortemente que o porco foi o primeiro animal que as pessoas domesticaram para se alimentar. A diminuição do tamanho dos molares foi um dos vários indícios de que a transformação de javalis em porcos estava em andamento naquela época. A análise de radiocarbono colocou a data em 10.000 a 10.400 anos atrás”, disse na época o jornalista do tabloide estadunidense.

“Eu era professor na Universidade de Michigan (Estados Unidos), conheço o Richard (Redding), ele produziu dados incríveis citando as primeiras cidades organizadas por conta da domesticação dos porcos. Quando as pessoas operavam caprinos, ovinos e bovinos, era mais fácil tropear, ir de um lugar a outro. Já o porco era mais difícil. Enquanto eles tinham cabras e ovelhas e bovinos podiam ser nômades. Quando os suínos começaram a aproveitar restos de alimentação dos humanos, esses organizaram-se em pequenas vilas. Os suínos transformaram humanos nômades em sedentários, até mesmo por seu comportamento, que forçou que isso acontecesse”, destaca, mencionando: “gosto dessa ideia do suíno domesticando o humano, fazendo o humano parar”. “São dados muito robustos de pesquisas científicas demonstrando que a partir da domesticação as pessoas ficaram sedentárias”, reforça o professor da USP.

Entre esses dados, estão algumas evidências que demonstram essa domesticação, como os dentes molares dos porcos já menores e ossos de animais preferencialmente machos e jovens, indicando que as fêmeas eram poupadas para a reprodução.

Suíno na saúde humana

No início deste ano o americano David Bennett, de 57 anos, se tornou a primeira pessoa no mundo a receber um transplante de coração geneticamente modificado de um porco. Ele morreu dois meses depois, no Centro Médico da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. No entanto, o xenotransplante inédito foi considerado um sucesso. Para o professor Zanella, em um futuro não muito distante suínos geneticamente modificados poderão ser usados para doar vários órgãos aos seres humanos.

Um trabalho publicado em novembro de 2021 pela revista Science Translational Medicine, da Associação Americana

Fotos: Arquivo/OP Rural

para o Avanço da Ciência (American Association for the Advancement of Science), assinado pelos pesquisadores Joan K. Lunney, Angélica Van Goor, Kristen E. Walker, Taylor Hailstock, Jasmim Franklin e Chaohui Dai, deixa claro a importância do suíno na condução de pesquisas e desenvolvimento de produtos e processos para melhorar e até salvar vidas humanas. “Os porcos têm um potencial substancial como modelos biomédicos para estudar processos de desenvolvimento humano, doenças congênitas e mecanismos de resposta a patógenos, além da utilidade como doadores de órgãos de xenotransplante e ferramentas para o projeto de vacinas e medicamentos. A semelhança dos porcos com os humanos em tamanho e estrutura anatômica, fisiologia, imunologia e genoma aumenta seu potencial como modelos para humanos. Portanto, é imperativo que a pesquisa seja relevante e reprodutível em modelos animais que se assemelhem mais aos humanos, como o porco”, resume a pesquisa.

“Quase ninguém sabe da relação dos suínos com as Ciências Biomédicas. Muitas pessoas ficaram sabendo um pouco com esse caso desse transplante de coração que ocorreu nos Estados Unidos recentemente, m as existem histórias que precedem isso. Para citrar um exemplo, o ventilador pulmonar desenvolvido pela Escola Politécnica da USP foi testado em suínos. Esse equipamento que salvou milhares de vidas no período da pandemia. Os testes clínicos foram feitos com suínos, no hospital da USP, por veterinários. Hoje esses ventiladores pulmonares estão em todo o Brasil. E pesquisadores fizeram isso em laboratórios no mundo inteiro”, destaca o professor Zanella.

O professor destaca ainda outras importantes contribuições da suinocultura para a saúde humana, como uso de anestésicos. “O suíno foi o primeiro animal que respirou com anestesia. Só depois foi testado em humanos”. Ele explica porque a ciência usa o suíno e não outros animais “Hoje, como animal para pesquisa biomédica, é um dos mais importantes do mundo inteiro. A fisiologia do suíno é muito parecida com a do humano. Do ponto de vista comparativo, ratos e camundongos são modelos piores, sem comparação. Usar primatas como modelos esbarra em questões éticas. O melhor modelo é o suíno”.

Em seu doutorado, em 1992, na Universidade de Cambridge, Zanella fez um trabalho sobre ansiedade e depressão usando modelos de suínos. “Publiquei e continuo publicando em questões de psiquiatria, psicologia, usando o suíno como modelo. Doenças psiquiátricas, doenças de pele, oncológicas, etc. O suíno contribui em várias áreas biomédicas”, destacou, lembrando que para as pesquisas existe uma rigorosa preocupação para manter o bem-estar do animal preservado, sem causar dor ou sofrimento.

Suíno adaptável

Algumas hipóteses mostram porque os suínos foram os preferidos dos primeiros povos a se fixar na terra. Um deles é que o animal, em relação aos demais, como caprinos e bovinos, produz muito mais carne com a energia consumida em suas dietas. O outro é que o suíno é altamente adaptável, como de tudo.

Foto: Jonathan Campos/AEN

Essa adaptabilidade, de acordo com Zanella, pode ser usada a favor da suinocultura atual, que experimenta uma forte crise pela alta dos insumos, especialmente milho e soja, base da nutrição desses animais. “A gente produz a melhor carne, processa uma variedade de produtos, precisamos abrir mão de milho e soja apenas. A gente vai ter que descobrir um jeito de alimentar os suínos fugindo do binômio milho e soja. Quem está limitado não é o suíno, somos nós”, pontua Zanella.

O suíno e o desenvolvimento econômico e sustentável

Outros estudos, aponta Zanella, mostram que a atual suinocultura “feita de forma organizada tem uma pegada de carbono muito menor”. Fiz um trabalho em cooperação com a Universidade de Cambridge para avaliar os indicadores de sustentabilidade em propriedades rurais do Brasil. Percebemos que esses indicadores de sustentabilidade melhoraram, como mais controle na produção do grão, no uso de microbianos, destinação de dejetos e práticas de bem-estar animal. “A suinocultura hoje é muito forte em sustentabilidade”, destaca.

O professor também destaca a importância de manter as famílias em pequenas propriedades rurais, como no Sul do país, onde as fazendas são menores que em regiões como no Centro-oeste. “A suinocultura é um importante instrumento para a sustentação das famílias nas áreas rurais do Sul do Brasil. Tenho um carinho enorme pela forma como a suinocultura ajudou a organizar o Sul do Brasil”, destacou, reforçando que neste momento ele tem acompanhado as dificuldades em pequenas cooperativas da região. “O custo humano do colapso das pequenas propriedades seria enorme com o agravamento da crise”.

Zanella também é suinocultor. A paixão veio do pai, no interior do Rio Grande do Sul, e segue até hoje. “Da granja formei filho em Agronomia, filha em Medicina e continuo na suinocultura, tenho muito orgulho”, frisa.

Unir forças pelos suínos

Para Zanella, o setor precisa se mobilizar para atravessar esse momento difícil. Ele defende a união até mesmo de empresas concorrentes para garantir saúde à atividade. “Precisamos abrir mais espaço da carne suína para comercialização em uma estratégia tem que envolver as indústrias, fazer uma campanha de embelezamento do suíno, tem que abraçar a causa, negociar dificuldades com estratégias. Precisamos criar uma rede nacional para salvar a suinocultura. O suíno só vai ser forte se tiver união de todos os segmentos, ninguém é dispensável. As pessoas que estão mais estáveis nesse universo volátil têm que dar a mão para outros para cruzarmos essa dificuldade. Depois compete de novo, mas agora o ideal é uma estratégia coordenada para aumentar o consumo e aumentar o preço na gôndola. Isso dá pra fazer”, sugere o pesquisador e professor da USP. “A gente opera de forma fragmentada, somos ilhas, precisamos construir pontes”, reforça.

Com muito sentimento pela atividade, Zanella reforça que não quer assistir as pequenas propriedades ou pequenas empreses sucumbirem à crise. “Tenho muita gratidão pela suinocultura. Não quero assistir esse colapso”, reforça o professor Adroaldo Zanella.

Fonte: O Presente Rural
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