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Cultivares de trigo tropical da Embrapa são apresentadas em Dia de Campo
Os pesquisadores Julio Albrecht e Jorge Chagas apresentaram as características e as recomendações de manejo das cultivares de trigo tropical da Embrapa.

Responsável pelo desenvolvimento de variedades de trigo adaptadas ao Cerrado do Brasil Central e com elevado rendimento de grãos e qualidade industrial, a Embrapa participou do “Dia de Campo Trigo Irrigado 2023”, promovido no dia 12 de setembro pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) em uma propriedade no Núcleo Rural Jardim, no PAD-DF, Distrito Federal. O evento contou com a participação de 170 produtores, consultores e extensionistas rurais.
Cultura em expansão na região, o trigo tem despertado o interesse de produtores devido aos benefícios proporcionados ao sistema de produção, como a quebra do ciclo de pragas e doenças e a melhoria da qualidade do solo, além de possíveis ganhos financeiros durante a entressafra do trigo do Sul do País.
“É uma cultura que abraçamos há algum tempo e com a qual já tempos alguma experiência. O Dia de Campo é uma oportunidade de compartilhar um pouco desse conhecimento. Temos empresas como a Embrapa, que é nossa parceira desde o início, com as cultivares BRS 264, BRS 254, BRS 404 e BRS 394, materiais que são diferenciais na triticultura aqui no Cerrado”, afirmou o presidente da Coopa-DF, José Guilherme Brenner.
O chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados (DF), Fábio Faleiro, destacou que a pesquisa e a força do produtor rural transformaram não apenas a agricultura brasileira nas últimas décadas como o Brasil, e que o País hoje vivencia a tropicalização do trigo. “É um fato histórico. Em poucos anos, vamos atingir a autossuficiência não só na produção, mas também na qualidade. E o Cerrado tem um papel muito importante nisso, tanto com o trigo irrigado como com o trigo safrinha”, comentou.
Trigos desenvolvidos no Cerrado para o Cerrado
O pesquisador Julio Albrecht, da Embrapa Cerrados, ressaltou a parceria histórica entre a Embrapa e a Coopa-DF e falou sobre as principais características das quatro cultivares de trigo tropical atualmente ofertadas para o Cerrado.
Cultivar de trigo irrigado mais plantada na região, a BRS 264 se destaca pela precocidade e pela alta produtividade, tendo alcançado o recorde mundial de produtividade média diária em 2021 – 80,92 kg/ha/dia com ciclo de 119 dias, totalizando 9630 kg/ha ou 160,5 sc/ha– na propriedade do produtor Paulo Bonato, em Cristalina (GO).
Apresenta qualidade industrial, com estabilidade de farinha de 24 minutos e força de glúten (W) superior a 250 x 10-4 J. Segundo o pesquisador, a variedade tem ótima aceitação pelos moinhos, o que possibilita uma boa liquidez na comercialização. “É um dos melhores materiais da região para a produção de farinha para panificação, com uma alta estabilidade e uma boa força de glúten. Em termos de qualidade industrial, é um trigo muito equilibrado”.
Outros fatores importantes de qualidade industrial apontados são o elevado rendimento de farinha (66,5% em média, com 14% de umidade) em comparação ao dos demais trigos da região (entre 58% e 60%); e o elevado peso hectolítrico (PH) (84), característica relacionada à densidade dos grãos e ao rendimento de farinha.
Albrecht acrescentou que a BRS 264 é plantada em sistema de sequeiro em algumas regiões, como o Sul de Minas Gerais, região mais fria e onde as chuvas se estendem um pouco mais ao longo do período chuvoso, o que favorece o cultivo. Porém, para o Brasil Central, não é recomendado o plantio em sequeiro devido ao risco de brusone, principal doença que acomete a cultura na região.
A produtividade média com a cultivar tem sido de cerca de 130 sc/ha no sistema irrigado, alcançando 70 sc/ha no sistema de sequeiro em regiões como o Sul mineiro. Além disso, é atualmente um dos materiais mais precoces do mundo (ciclo em torno de 107 dias), permitindo a economia de água e energia, bem como a colheita bem antes do início do período chuvoso no Cerrado.
O pesquisador destacou ainda o desempenho agronômico da cultivar apresentando dados de um estudo realizado em Luís Eduardo Magalhães (BA) que comparou diferentes materiais quanto à produtividade em função da dose de nitrogênio utilizado na adubação. A cultivar obteve a maior produtividade média (6077 kg/ha) entre as concorrentes. “A BRS 264 é uma cultivar excepcional em termos de produção e de qualidade, além de responder muito bem à tecnologia”, concluiu.
Já a cultivar BRS 394 é indicada para os sistemas irrigado e de sequeiro, também se destacando pela alta produtividade – médias de 120 sc/ha (irrigado) e 70 sc/ha (sequeiro) – e pela precocidade. Assim como a BRS 264, é um trigo classe pão, com estabilidade acima de 25 minutos, rendimento de farinha médio de 62,5% e força de glúten (W) média de 320 x 10-4 J, o que a torna, em determinadas situações, um trigo melhorador. “Isso para o moinho é uma grande vantagem, porque ele consegue usar a farinha da BRS 394 e da BRS 264 para melhorar a qualidade de farinhas de trigos de qualidade inferior, fazendo um blend”, explicou Albrecht.
Indicada para o sistema irrigado, a BRS 254 é o material mais antigo dos quatro apresentados, mas que ainda se destaca pela elevada produtividade – média de 120 sc/ha, sendo que em 2017 o produtor Paulo Bonato obteve 139,8 sc/ha – e pelo fato de ser um trigo melhorador, característica de interesse industrial. É um material de ciclo médio e, por ser moderadamente suscetível ao acamamento, requer um manejo mais cuidadoso, sobretudo quanto à irrigação e à adubação nitrogenada – a dose total não dede ser superior a 120 kg de N/ha. “Mas também é um trigo que responde à tecnologia”, ponderou o pesquisador.
A cultivar tem elevada força de glúten (W) (330 x 10-4 J). “Quanto maior a força de glúten, melhor para as padarias produzirem pães congelados”, observou o pesquisador. O rendimento de farinha médio é de 62,2% e o PH (82) é elevado.
Por fim, a BRS 404 é uma cultivar indicada para produção em sistema de sequeiro, mas também pode ser utilizada em sistema irrigado, principalmente em regiões mais quentes. A principal característica é a tolerância a calor e à seca, por isso a indicação para a safrinha.
A cultivar tem ciclo precoce e apresenta produtividades médias de 70 sc/ha em sistema de sequeiro em anos de chuvas bem distribuídas ao longo do ciclo da cultura e, no sistema irrigado, alcança 100 sc/ha. No ensaio de trigo safrinha realizado em 2021 pela Coopa-DF, a BRS 404 superou os demais materiais tanto em produtividade (59,47 sc/ha) como no PH (84), outra importante característica da cultivar. No ensaio deste ano, a cultivar novamente superou as demais (71,95 sc/ha), mantendo o PH elevado (84).
Segundo Albrecht, a BRS 404 é um material que, em anos mais quentes ou secos, consegue responder bem em termos de produtividade. E quanto ao PH, é atualmente um dos melhores materiais para a triticultura no Cerrado. “Normalmente, quando há alguma adversidade climática na fase de enchimento do grão ou na fase de maturação, os materiais tendem a reduzir o PH. Alguns chegam a ficar com PH abaixo de 78 (exigência mínima dos moinhos), o que proporciona um rendimento muito baixo de farinha. Nessa condição, os moinhos pagam um valor menor pela produção. Algumas vezes, nem compram o trigo”, comentou o pesquisador, recomendando cuidado na escolha da variedade em função do PH.
A BRS 404 tem excelente qualidade industrial para panificação, é classificada como trigo pão, apresenta estabilidade de farinha acima de 14 minutos e PH médio de 83, tendo também boa aceitação junto aos moinhos.
Manejo das cultivares no Cerrado
Jorge Chagas, pesquisador da Embrapa Trigo (RS), apresentou recomendações de manejo das cultivares da Embrapa. Ele abordou as medidas necessárias durante o planejamento da lavoura, a semeadura, o afilhamento e o alongamento das plantas, e comentou sobre o software gratuito Monitoramento de Irrigação no Cerrado.
Na fase de planejamento, o produtor deve ter conhecimento sobre rotação e sucessão de culturas para que tenha o pivô de irrigação liberado para a época adequada de semeadura do trigo. “O planejamento das safras anteriores para que o produtor consiga semear o trigo na época certa é importante, pois assim ele não ficará com o pivô parado nem plantará o trigo tardiamente”, explicou.
Ele salientou a importância da aquisição de insumos como herbicidas e o regulador de crescimento com antecedência, bem como da escolha da cultivar, que deve considerar o rendimento, o ciclo (que influencia no custo com energia e água no sistema irrigado), o acamamento, a resistência a doenças, a qualidade de grãos e a aceitação pelo moinho, entre outros. “Cada cultivar vai gerar um manejo na propriedade, conforme suas características”, lembrou o pesquisador.
Outro fator importante é a aquisição de sementes. “A partir da escolha da cultivar, o produtor deve verificar junto ao obtentor onde adquirir sementes, sempre de produtores idôneos”, recomendou.
A semeadura do trigo pode ser feita a lanço ou, preferencialmente, em linha, pois a técnica posiciona as sementes na profundidade ideal, permite o uso eficiente de fertilizantes e garante um arranjo de plantas uniforme, o que favorecerá a eficiência do uso do redutor de crescimento. “O plantio a lanço é uma alternativa para quem deseja testar a cultura e ainda não quer investir numa semeadora”, observou.
Para a região do Cerrado do Brasil Central, os pesquisadores têm indicado a época de semeadura do trigo irrigado entre os dias 5 e 20 de maio para melhor exploração do potencial produtivo e, principalmente, para escapar da ocorrência de brusone. Para a semeadura tardia, são indicadas a BRS 394 ou a BRS 254, por serem mais tolerantes à chuva na colheita.
Quanto à densidade de semeadura, Chagas salientou a importância de se observar o peso de mil sementes (PMS) da cultivar, que pode variar muito conforme o sistema em que a semente foi produzida (sequeiro ou irrigado); a quantidade necessária de sementes; a germinação do lote e a plantabilidade, ou seja, a quantidade de plantas que de fato nascem no campo. “É importante que o produtor veja o quanto ele planta e o quanto realmente germina no campo para que determine as populações de plantas ideais de cada material”, explicou.
O pesquisador mostrou dados de ensaios realizados em Cristalina e Unaí (MG) com densidades de semeadura das cultivares da Embrapa, seguindo as recomendações de manejo para a região. Com 400 a 450 sementes viáveis/m2 da BRS 264, foram obtidas 68 a 77 plantas viáveis/metro de linha, com espaçamento de 17 cm; com 350 a 400 sementes viáveis/m2 da BRS 394, foram obtidas 60 a 68 plantas viáveis/metro de linha, com espaçamento de 17 cm. As cultivares BRS 254 (330 a 380 sementes viáveis/m2 e 56 a 65 plantas/metro de linha com espaçamento de 17 cm) e BRS 404 em sistema irrigado (300 a 350 sementes viáveis/m2 e 51 a 60 plantas/metro de linha com espaçamento de 17 cm), por serem mais perfilhadoras, apresentaram menores respostas à densidade de semeadura.
Ele apontou que quando a população de plantas está acima da indicada, há uma propensão ao acamamento. “Se você começar com uma densidade de semeadura alta, terá que reduzir a dose de nitrogênio ou, no final do ciclo, terá que reduzir a quantidade de água. Não dá para resolver isso confiando apenas no regulador de crescimento, querendo que ele faça milagre. Tanto o excesso de plantas como o excesso de nitrogênio diminuem a eficiência do regulador de crescimento em reduzir o acamamento”, alertou.
Com relação à adubação de plantio, Chagas lembrou a importância de um solo equilibrado, com os nutrientes em níveis adequados e o alumínio neutralizado com calcário e gesso agrícola, condição que pode ser verificada na análise laboratorial de solo. Com os nutrientes em níveis adequados no solo, recomenda-se a adubação de manutenção com fósforo (80 a 100 kg/ha), potássio (40 a 60 kg/ha), dando preferência a adubos com boro e zinco na composição, além de cálcio e enxofre. Já o nitrogênio deve ser aplicado (20 a 40 kg/ha) na semeadura.
Na adubação em cobertura, o nitrogênio deve ser aplicado do plantio até 15 dias após a germinação. “Isso porque até 30 a 35 dias após a germinação, o potencial do trigo estará praticamente definido, a planta já terá a espigueta praticamente formada”, justificou o pesquisador. A aplicação tardia do nitrogênio, por outro lado, não é indicada, a não ser que a lavoura apresente problemas com perda de área foliar ou deficiência de nitrogênio.
“Se for aplicado mais nitrogênio que o indicado, a lavoura estará sujeita ao acamamento. Se a densidade for alta ou houver excesso de nutrientes, você terá que reduzir a quantidade de nitrogênio”, disse, apresentando as doses médias recomendadas de nitrogênio para adubação em cobertura de cada cultivar da Embrapa.
Ao final da apresentação, ele apresentou o software Monitoramento de Irrigação no Cerrado, disponível gratuitamente na página da Embrapa Cerrados na internet. O programa disponibiliza informações para a irrigação de culturas anuais (trigo, cevada, feijão, arroz e milho) e café.
No caso do trigo, a opção “Embrapa 42” corresponde às cultivares BRS 394 e BRS 264, enquanto “Embrapa 22” corresponde à BRS 254 e à BRS 404, em função do ciclo. Também é possível selecionar o tipo de solo e informar a data de emergência das plantas. A partir dessas informações, o programa fornece o número de dias dos turnos de rega e a lâmina líquida a ser aplicada.
“Todas essas recomendações são de manejo básico para que cada produtor as aplique conforme a sua realidade. Elas são um norte a ser seguido para obtermos produtividades satisfatórias e começarmos a pensar em aumentar o nível de rendimento do trigo aqui na região”, concluiu Chagas.

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Satélite e IA mapeiam mais de 13 mil hectares de terras agrícolas abandonadas no Cerrado
Estudo pioneiro da Embrapa e UnB identifica áreas de eucalipto e pastagens subutilizadas, orientando políticas de restauração e sequestro de carbono.

Estudo pioneiro desenvolvido pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) utilizou imagens de satélite e inteligência artificial (IA) para mapear o abandono de áreas agrícolas no Cerrado brasileiro. Resultados obtidos no município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, apontam mais de 13 mil hectares de terras agrícolas abandonadas entre 2018 e 2022, o equivalente a quase 5% da área agrícola existente no início do período. Esse mapeamento detalhado representa a primeira avaliação desse tipo no bioma e pode orientar políticas públicas voltadas à restauração ecológica, à contabilização de carbono e ao planejamento territorial sustentável.
Os estudos foram conduzidos por equipes da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP) e Embrapa Meio Ambiente (SP), além da UnB. A pesquisa utilizou imagens do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia (ESA), combinadas a técnicas de aprendizado profundo (deep learning), para mapear mudanças no uso e cobertura da terra. Por meio da Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN, sigla em inglês), modelo computacional capaz de reconhecer padrões nas imagens, os pesquisadores conseguiram classificar diferentes categorias: vegetação nativa, pastagens cultivadas, lavouras anuais, plantações de eucalipto e, de forma inédita, áreas agrícolas abandonadas. A acurácia do mapeamento foi de 94,7%, considerada excelente para classificações de uso da terra com sensoriamento remoto.
Segundo o levantamento, a maior parte das áreas abandonadas (87%) corresponde a antigas plantações de eucalipto destinadas à produção de carvão vegetal. O município de Buritizeiro destaca-se pela extensa área plantada com eucalipto, além da criação de gado bovino. “A região caracteriza-se por desafios produtivos, como baixa produtividade em pastagens durante períodos secos e custos crescentes de insumos fertilizantes, fatores que contribuem para o abandono de áreas agrícolas”, afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados Edson Sano.
De acordo com ele, a partir das imagens analisadas, os cientistas identificaram que a maior parte das áreas abandonadas correspondia a plantios de eucalipto, tanto mal-mantidos como que transicionaram para vegetação campestre ou arbustiva depois da extração da madeira. “A predominância do abandono em áreas de eucalipto está associada à queda da atratividade econômica da produção de carvão vegetal em função de fatores como o aumento nos custos logísticos e de produção. O principal destino do carvão vegetal era o polo siderúrgico do estado de Minas Gerais em Sete Lagoas”, explica Sano.
Segundo o pesquisador, além disso, o aumento dos preços de fertilizantes e de insumos agrícolas tem incentivado a descontinuação de atividades produtivas. “Embora a maioria das terras abandonadas tenha sido identificada em áreas de silvicultura, nenhum abandono significativo de lavouras anuais (como soja ou milho) foi observado no período analisado. Isso sugere que os sistemas agrícolas mais intensivos mantiveram sua produtividade ao longo dos cinco anos analisados”, complementa.
Implicações para políticas públicas
De acordo com Gustavo Bayma, analista da Embrapa Meio Ambiente, os mapas gerados por essa metodologia trazem informações espaciais detalhadas sobre o abandono de terras. Esses dados podem ser usados para incluir áreas subutilizadas em estratégias nacionais de restauração ambiental e de mitigação das mudanças climáticas. Tais estratégias podem consistir, por exemplo, na estimativa do potencial de sequestro de carbono ou na criação de corredores de restauração ecológica no Cerrado.
“O estudo também ressalta a importância de políticas que reduzam a volatilidade dos preços de insumos agrícolas e incentivem alternativas econômicas sustentáveis para pequenas e médias propriedades, uma vez que fatores econômicos foram identificados como motor importante do abandono das áreas de pastagem na região”, afirma Bayma. Ele observa que a pesquisa mostra, contudo, que o monitoramento ainda enfrenta limitações, como a necessidade de séries históricas mais longas para separar abandono permanente de períodos temporários de pousio (descanso da terra por um ano ou menos).
Mesmo assim, os resultados demonstram o potencial das tecnologias de inteligência artificial para apoiar políticas públicas de restauração ambiental, planejamento territorial e adaptação às mudanças climáticas no Cerrado. “A análise se baseou em apenas duas datas de aquisição de imagens durante um período de quatro anos, o que impede distinguir com precisão entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio. Embora o uso de imagens de alta resolução e de visualizações auxiliares tenha ajudado na validação, a confirmação de abandono ainda depende, em parte, da interpretação visual e do conhecimento local”, acrescenta o pesquisador da Embrapa Agricultura Digital Édson Bolfe.
Outro desafio destacado por ele é a dificuldade de diferenciar pastagens degradadas de vegetação nativa (como gramíneas e arbustos) apenas por sensoriamento remoto, uma vez que suas assinaturas espectrais podem ser muito semelhantes. Segundo os especialistas, o estudo comprovou que métodos de aprendizado profundo, aliados a imagens de satélite, podem mapear terras agrícolas abandonadas no Cerrado de forma robusta e precisa, um avanço metodológico importante para a avaliação de transições de uso da terra em savanas tropicais. “Os resultados fortalecem a necessidade de incorporar áreas abandonadas em políticas ambientais e agrícolas, com vistas à restauração ecológica, à mitigação climática e à sustentabilidade rural”, afirma Bolfe.
Informações mais detalhadas sobre o estudo estão disponíveis no artigo Putting Abandoned Farmlands in the Legend of Land Use and Land Cover Maps of the Brazilian Tropical Savanna.
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Agricultura familiar ganha força com invenções que aumentam produtividade
Concurso Nacional de Inventos seleciona soluções como debulhadora de feijão, envasadora de mel e veículos elétricos solares para pequenas propriedades.

Debulhadora de feijão verde, veículo elétrico solar para pulverização e roçagem, envasadora semiautomática de mel, cultivador equipado com três enxadinhas para cobertura em substituição ao uso da carpideira e motocicleta adaptada como triciclo para uso por pequenas propriedades rurais no lugar de tratores de alto custo. Essas e outras invenções foram selecionadas no 1º Concurso Nacional de Inventos de Máquinas, Equipamentos e Implementos voltados à realidade da agricultura familiar, que mobilizou criadores de todas as regiões do País e recebeu 242 inscrições.
São inventos de autoria de agricultores e empreendedores da agricultura familiar que têm como objetivo serem utilizados em pequenas propriedades rurais para melhorar o manejo, aumentar a produtividade e a renda, reduzir a penosidade e assegurar mais qualidade de vida ao homem do campo. São, enfim, soluções pensadas para enfrentar desafios cotidianos da produção no campo, como reduzir o esforço físico do trabalho, melhorar processos produtivos e ampliar a eficiência das atividades agrícolas. O resultado final do concurso já está disponível na página oficial da iniciativa, acesse clicnado aqui.
A premiação será entregue aos inventores na terça-feira (17), na Feira Nacional de Máquinas e Tecnologias para a Agricultura Familiar que ocorrerá até nesta quarta-feira (18), na Expo Dom Pedro, em Campinas (SP). Os equipamentos (protótipos) estarão expostos no local da premiação. Veja a programação completa do evento aqui.
Inclusão produtiva
Promovida pela Embrapa, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e Conab, a Feira é um marco para a inovação e a mecanização do setor produtivo rural, reunindo lideranças governamentais, entidades de pesquisa, setor industrial, agricultores e cooperativas em prol do fortalecimento da soberania alimentar brasileira. Tem como objetivo promover o acesso a tecnologias e máquinas, reafirmando o compromisso do governo federal com a inclusão produtiva, o desenvolvimento sustentável e a valorização da agricultura familiar como pilar da economia nacional.
Embrapa lança com parceiros 2 catálogos de máquinas e equipamentos
Durante a feira, será lançada a página Mecaniza Social, acesse clicando aqui, um espaço virtual onde estão disponíveis dois catálogos, Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia e Catálogo de Máquinas e Equipamentos da Agricultura Familiar.
O Catálogo da Sociobioeconomia traz inventos importantes que têm como objetivo contribuir para a melhoria das condições de trabalho na Amazônia Legal, em especial para as cadeias do açaí, babaçu, castanha-da-amazônia e cupuaçu. Um exemplo é o trabalho de estudantes do ensino médio do Instituto Federal do Maranhão e do Instituto Estadual do Maranhão. Os grupos, respectivamente sob orientação dos professores Fernando Tocantins e Felipe Borges Pereira, desenvolveram uma colheitadeira manual de coco babaçu e uma estufa para secagem do mesocarpo do babaçu, a partir de demandas de quebradeiras de coco.
Ainda na cadeia do babaçu, destaca-se o equipamento de uso individual acionado manualmente através de alavanca. Iniciativa da Embrapa Maranhão, o equipamento foi desenvolvido para melhorar ergonometricamente as condições de trabalho. Na foto ao lado, quebradeiras de coco de babaçu trabalham com o equipamento.
A plataforma de colheita de açaí com debulhador hidráulico é outro protótipo desenvolvido por um produtor rural para reduzir a penosidade da colheita do açaí cultivado em terra firme. Trata-se de uma carretinha rebocável por trator, com estrutura em aço e fechamento em madeira. Graças à técnica aplicada, não é necessário o uso de gancho junto a foice, pois o corte é direcionado de forma precisa, fazendo com que o cacho caia diretamente dentro das asas da plataforma. Trata-se da Plataforma BIO-1, um equipamento agrícola semimecanizado projetado para a colheita eficiente do açaí em sistemas de plantio solteiro (uma estipe). Combina segurança, agilidade e baixo desperdício, sendo ideal em plantas de médio a grande porte.
A analista da Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA), Mazillene Borges, trabalhou na prospecção de equipamentos e protótipos que compõem o Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia das cadeias produtivas do açaí e do cupuaçu.
“Conhecer a realidade de como produtores, extrativistas e agricultores familiares das cadeias do açaí e do cupuaçu estão criando alternativas para melhorar a produção dos produtos da biodiversidade foi uma grande experiência. Fizemos a prospecção em seis estados da Amazônia: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Rondônia e Amazonas. Foi uma equipe multidisciplinar, com cinco unidades da Embrapa”, relata Mazillene Borges.
O trabalho de prospecção consistiu em fazer o levantamento das cadeias de produção, identificando a quantidade produzida e comercializada, em seguida, a equipe buscou conhecer os equipamentos que usavam na coleta e produção e que estão no mercado. Foram identificados motosserras, roçadeiras, modelos de motos de embarcação para transporte do açaí das áreas de manejo para comercialização, bem como as agroindústrias estão fazendo seus próprios equipamentos. Também foram visitadas pequenas indústrias metalúrgicas instaladas no Pará para produzir máquinas para as agroindústrias.
“O mais fantástico foi perceber como as pessoas foram se atentando para essas necessidades e inventando máquinas para atender a demanda do processamento industrial do açaí, por exemplo”, conta a analista. Com este trabalho, foi possível identificar mais de 25 modelos de equipamentos inventados pelos produtores para colher o açaí, melhorar a produtividade e a penosidade do trabalho. E por fim, levantamos também a questão da segurança do trabalho, as necessidades e lacunas tecnológicas que precisamos ficar atentos”, afirma.
Família de inventores
A foto ao lado traz o apanhador de açaí (vara) – uma ferramenta criada pelo extrativista Edilson Cavalcante Costa (camisa rosa) de Abaetetuba, no Pará, para facilitar a coleta do fruto na floresta, que ainda se encontra em desenvolvimento, ou seja, já existe o protótipo, e necessita de parceria para ser replicado em maior quantidade. Na foto, Mazillene Borges entre Edilson Costa e o filho que também é inventor. Ele criou o debulhador de cacho de açaí.
No catálogo, também é possível conhecer e adquirir o classificador de castanha-da-amazônia com separador de cascas, que classifica as amêndoas por tamanho no processamento. O classificador de castanha-da-amazônia encontra-se disponível para comercialização.
Catálogo de Máquinas para a Agricultura Familiar
Além das inovações para as cadeias da sociobiodiversidade, a plataforma integra o Catálogo de Máquinas para a Agricultura Familiar. Esta seção reúne ativos estratégicos como máquinas de plantar alho e colhedoras de espigas de milho, focadas no ganho de eficiência produtiva. A estrutura do portal foi desenhada para facilitar o acesso ao mercado, conectando o homem do campo a empresas parceiras e agentes financeiros, garantindo que a tecnologia chegue à ponta com o suporte de instituições como o BNDES.
“Os catálogos estão disponíveis em um ambiente virtual desenvolvido pela Embrapa que também realizou o mapeamento, a seleção e a caracterização dos equipamentos indicados no site Mecaniza. Queremos ofertar ao produtor rural um espaço onde ele se sinta seguro para fazer suas aquisições”, explica Daniel Papa, analista da Gerência-Adjunta de Inclusão Socioprodutiva e Digital da Embrapa, e coordenador do projeto de criação do catálogo.
Segundo ele, as soluções tecnológicas dos inventores estão organizadas em dois grandes grupos, o Catálogo de Máquinas e Equipamentos da Agricultura Familiar, trabalho realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, em parceria com a Embrapa. E o Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia, trabalho realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC.
“Na Embrapa, compreendemos que a mecanização da agricultura familiar e do extrativismo não deve ser vista apenas como um incremento produtivo, mas como um instrumento fundamental de dignidade e soberania alimentar, capaz de reduzir a penosidade do trabalho e assegurar mais qualidade de vida ao homem e à mulher do campo. Ao lançarmos ferramentas como Plataforma Mecaniza Social e dos dois catálogos, reafirmamos nosso compromisso institucional de entregar inovações que nascem da própria realidade rural, transformando protótipos e invenções em ativos de mercado escalonáveis que fortalecem a inclusão produtiva em todas as regiões do Brasil”, ressalta a presidente da Embrapa Silvia Massruhá.
Para a presidente, as mulheres rurais da Amazônia, especialmente aquelas que vivem do da cadeia produtiva do açaí, do babaçu, da castanha e do babaçu, a tecnologia apropriada representa um passo decisivo em direção à equidade e à valorização do seu papel sistêmico na bioeconomia. O desenvolvimento de equipamentos ergonômicos — como as máquinas adaptadas para as quebradeiras de coco ou as plataformas semi- mecanizadas para a colheita de açaí — é essencial para reduzir o esforço físico e garantir a segurança no manejo desses produtos da biodiversidade. “Integrar a inovação científica aos saberes tradicionais permite que essas mulheres liderem a gestão de suas propriedades com eficiência, consolidando a agricultura familiar como um pilar resiliente e sustentável para o futuro do país”, finaliza a presidente.
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Sisbi-POA gera novas oportunidades para produtores e agroindústrias mato-grossenses
Adesão ao sistema permite formalização, padronização e expansão das vendas para outros estados do Brasil.

Oestado de Mato Grosso avançou na ampliação da participação no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) com a integração de quatro novos consórcios públicos municipais – Vale do Rio Cuiabá, Região Sul, Vale do Guaporé e Médio Araguaia. A iniciativa fortalece a organização regional da inspeção sanitária e amplia as oportunidades para que agroindústrias locais comercializem seus produtos em todo o território nacional.
Com essa adesão, Mato Grosso passa a contar com seis consórcios integrados ao sistema, abrangendo 72 municípios. Considerando que o estado possui 142 municípios, isso significa que aproximadamente 51% dos municípios mato-grossenses já estão vinculados ao sistema por meio de consórcios.
“O Sisbi é uma política pública fundamental porque permite que os produtos das agroindústrias sejam comercializados em todo o território nacional, abrindo oportunidades para produtores e gerando renda no interior do país. Quando assumimos, apenas 331 municípios brasileiros tinham adesão ao sistema e Mato Grosso não tinha nenhum. O que estamos vendo agora é resultado de um trabalho conjunto que fortalece a inspeção sanitária e permite que essa política pública chegue a quem mais precisa”, afirmou o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.
“Esse é um avanço concreto dentro de uma agenda estratégica conduzida pelo ministro Carlos Fávaro para fortalecer a inspeção sanitária no país e ampliar oportunidades, especialmente para pequenos e médios produtores. Na prática, isso significa criar condições para que eles possam formalizar a produção, agregar valor aos produtos e acessar novos mercados com garantia sanitária. É exatamente esse movimento que estamos vendo acontecer em Mato Grosso, que se torna o primeiro estado do país a conduzir uma versão estadual do projeto”, destacou o secretário-adjunto de Defesa Agropecuária, Alan Alvarenga.
Em Mato Grosso, a Superintendência de Agricultura e Pecuária tem atuado em parceria com consórcios e municípios para ampliar a adesão ao sistema.
“Quando assumi a superintendência, o ministro me deu uma missão clara de fazer o Sisbi avançar em Mato Grosso. Com o apoio dos consórcios, prefeitos, do Tribunal de Contas e das associações municipais, e o trabalho de uma equipe técnica qualificada, conseguimos transformar esse objetivo em realidade. Agora nossa responsabilidade aumenta, e a superintendência segue de portas abertas para trabalhar junto com os municípios e ampliar ainda mais esse avanço no estado”, relatou o superintendente em Mato Grosso, Edson Paulino.
A produtora de queijos Larissa Berté, de Nossa Senhora do Livramento, município integrado ao sistema nesta sexta-feira, destaca o potencial de expansão que o Sisbi oferece aos produtores artesanais. “Nossa expectativa com o Sisbi é ampliar a presença dos nossos produtos em nível nacional, levando o sabor de Mato Grosso para outros estados e outras localidades. Isso também incentiva pequenos produtores, como nós, a crescer e aumentar a produção, impactando diretamente a economia local”.
Protocolos de intenções
Além da integração dos novos consórcios, também foram assinados protocolos de intenção com outros oito consórcios – Araguaia, Norte Araguaia, Portal do Araguaia, Portal da Amazônia, Vale do Juruena, Vale do Teles Pires, Vale do Rio Arinos e Alto do Rio Paraguai – que iniciarão o processo de qualificação para futura integração ao Sisbi-POA.
Essa nova etapa poderá alcançar cerca de 62 municípios adicionais. Caso todos avancem no processo de integração, Mato Grosso poderá chegar a 134 municípios vinculados ao sistema, o que representa aproximadamente 95% dos municípios do estado.
Pordutores relatam impactos positivos
Os efeitos da adesão ao sistema já são percebidos por produtores que passaram a integrar o modelo de inspeção.
Proprietário do Pavin Sertanejo, Aparecido Pavin conta que a regularização da atividade abriu novas perspectivas para o negócio. “Para nós, abriu mais possibilidades de portas para trabalhar e vender. Temos muita procura pelos nossos produtos e dobramos nossas vendas”, relata. Segundo ele, o crescimento da demanda já exige novos investimentos na estrutura da agroindústria. “Estamos até pensando em instalar uma câmara fria porque hoje armazenamos o produto final no freezer e já está ficando apertado. Produzimos linguiça, salame, bacon e vários produtos defumados”.
Para o produtor Jeferson Gonçalves Silva, da Granja Alvorada da Serra, em Cáceres, a adesão ao Sisbi representou um marco na profissionalização da propriedade. “Foi um divisor de águas para a nossa propriedade. Trouxe mais organização, padronização dos processos e maior controle sanitário. Passamos a comercializar nossos produtos em outros municípios, outras regiões e até em outros estados do Brasil. Isso ampliou nossas oportunidades com novos parceiros comerciais e teve impacto direto no crescimento da produção e na valorização da marca”, afirmou.
Contexto nacional do Sisbi-POA
O Sisbi-POA foi criado em 2006 com o objetivo de integrar os serviços de inspeção de produtos de origem animal no país e ampliar as oportunidades de comercialização para as agroindústrias brasileiras.
Durante os primeiros 16 anos do sistema, entre 2006 e 2022, foram integrados 331 municípios em todo o Brasil. Entre 2023 e março de 2026, esse processo ganhou novo ritmo, com a integração de 1.184 novos municípios, elevando o total nacional para 1.515 municípios.
Grande parte desse crescimento tem sido impulsionada pelo fortalecimento dos consórcios públicos municipais, modelo que permite compartilhar estrutura técnica, otimizar recursos e estruturar serviços de inspeção mais robustos e eficientes.





