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Cooperativismo e ODS: como as cooperativas brasileiras ajudam a cumprir a Agenda 2030
Com atuação estratégica no Paraná e em Santa Catarina, cooperativas avançam em sustentabilidade, educação e governança, consolidando-se como protagonistas da Agenda 2030 no Brasil.

A adesão do Brasil à Agenda 2030 das Nações Unidas estabeleceu um conjunto de compromissos que ultrapassam os governos e exigem o engajamento ativo do setor privado e da sociedade civil. Entre os agentes mais alinhados a essa visão estão as cooperativas, especialmente no agro, onde as ações de produção, educação, sustentabilidade ambiental e distribuição de renda fazem parte da prática cotidiana e não de uma política eventual.
No caso do cooperativismo brasileiro, o vínculo com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é estrutural. A lógica de funcionamento de uma cooperativa já pressupõe princípios como participação democrática, justiça social, desenvolvimento local, gestão compartilhada e uso responsável de recursos naturais. Essa convergência de valores é uma vantagem comparativa real para o setor.
No Paraná, o sistema cooperativista formalizou essa adesão de forma estratégica. Desde 2018, a Ocepar (Sindicato e Organizações das Cooperativas do Estado do Paraná) mantém o Programa de Acompanhamento dos ODS. Na prática, os dados mostram que ações cooperativas impactam diretamente ao menos 13 dos 17 ODS. Entre elas, programas de capacitação rural, projetos de geração de energia a partir de resíduos, investimento em educação técnica, apoio à agricultura familiar, controle de emissões, assistência a comunidades vulneráveis e políticas internas voltadas à equidade de gênero e valorização da diversidade.

O sistema cooperativista paranaense tem demonstrado um forte compromisso com a Agenda 2030, buscando alinhar seu planejamento estratégico com os ODS estabelecidos pela ONU. “O setor realiza e promove junto ao seu público práticas sustentáveis, como a adoção de tecnologias mais eficientes, o incentivo à responsabilidade social e ambiental, além de fortalecerem a inclusão social e o desenvolvimento econômico local”, declara o presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken, com exclusividade ao Jornal O Presente Rural.
Além do compromisso com os ODS, o cooperativismo paranaense vem trilhando um caminho ambicioso em termos de crescimento econômico. Por meio do Plano Paraná Cooperativo 2030 (PRC 200), liderado pela Ocepar desde 2015, o setor projeta multiplicar por 10 sua renda anual em 15 anos, passando de R$ 50 bilhões para R$ 500 bilhões. Em 2024, com R$ 205,6 bilhões faturados, o sistema já superou a marca da metade do caminho. Para alcançar esse objetivo, mais de 30 projetos são executados de forma simultânea, abrangendo desde estratégias de comunicação até melhorias em conectividade e infraestrutura.
Esse crescimento está ancorado na força das 227 cooperativas ativas no estado, que atuam em sete áreas e reúnem quatro milhões de cooperados e 146 mil funcionários. Só em 2024, o setor alcançou um resultado líquido de R$ 10,8 bilhões e investiu R$ 6,8 bilhões. O ramo agropecuário, com 62 cooperativas, concentra R$ 154,3 bilhões em faturamento, emprega 113,9 mil colaboradores e reúne 231,5 mil cooperados, operando 128 agroindústrias espalhadas pelas regiões paranaenses.
Por outro lado, o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc/Sescoop) também tem reforçado sua atuação dentro dessa agenda, assumindo um papel estratégico na formação de lideranças e cooperados e na consolidação de uma cultura cooperativista cada vez mais comprometida com as agendas globais de sustentabilidade e responsabilidade social.

Presidente do Sistema Ocesc/Sescoop, Vanir Zanatta: “Acreditamos que o conhecimento é o primeiro passo para a transformação e, por isso, investimos fortemente em educação cooperativista com viés socioambiental” – Foto: Divulgação/Sistema Ocesc
Outra frente importante é o estímulo à educação cooperativista com viés ambiental e social, principalmente junto a jovens, sucessores e comunidades do entorno das cooperativas. As ações incluem desde iniciativas de preservação de nascentes e reflorestamento até campanhas contra o desperdício de alimentos. “Acreditamos que o conhecimento é o primeiro passo para a transformação e, por isso, investimos fortemente em educação cooperativista com viés socioambiental”, ressalta o presidente da Ocesc/Sescoop, Vanir Zanatta, em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.
Por meio do Sescoop/SC, o Sistema estruturou programas contínuos de capacitação que integram os princípios cooperativistas aos ODS, abordando temas como governança, uso responsável dos recursos naturais e inovação sustentável. As formações são direcionadas tanto a dirigentes, que definem estratégias, quanto a cooperados, que executam as ações no cotidiano das cooperativas.
Além das ações voltadas à formação técnica e estratégica, a Ocesc também promove oficinas e formações específicas sobre os ODS para dirigentes, conselheiros e associados das cooperativas. A entidade incentiva ainda a elaboração de relatórios anuais de sustentabilidade, com base nos indicadores da ONU, estabelecendo padrões de acompanhamento e transparência para o setor. “A formação engloba teoria e prática das lideranças às bases cooperativistas. Tudo isso é incorporado nas rotinas das cooperativas e dos cooperados, trazendo resultados concretos e fortalecendo o protagonismo das cooperativas como agentes de desenvolvimento sustentável”, reforça Zanatta
Governança sustentável
Há também uma mobilização crescente das cooperativas para integrar os ODS à governança institucional, deixando de tratá-los como uma agenda externa ou acessória. Iniciativas de bioenergia, automação sustentável, destinação correta de resíduos e responsabilidade social deixaram de ser projetos e passaram a integrar o modelo de negócio de forma permanente. “É importante que os impactos ambientais sejam reduzidos para manutenção das atividades, especialmente aquelas que são ligadas ao agronegócio. Além disso, o mercado exige boas práticas ambientais, e cada vez mais essa demanda é necessária e pertinente”, salienta Ricken.

Presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken: “O sistema cooperativista tem buscado integrar suas ações às políticas públicas e às metas globais, promovendo uma cultura de sustentabilidade e responsabilidade social que permeia toda a sua cadeia de valor” – Foto: Samuel Milléo Filho/Sistema Ocepar
Pensando nisso, algumas iniciativas já estão em prática. O Projeto ESG+Coop integra o Plano Paraná Cooperativo, que é o planejamento estratégico de desenvolvimento do cooperativismo paranaense, o PRC 300. O objetivo é ter um programa de monitoramento, avaliação e certificação das cooperativas paranaenses, com o foco no atendimento a requisitos ambientais, sociais e de governança e desempenho. “O projeto ESG+Coop tem como resultados esperados o fortalecimento da imagem das cooperativas, com a sistematização e divulgação do que o setor faz para a melhoria das questões ambientais e os impactos sociais positivos da cadeia produtiva do cooperativismo”, explica Ricken.
Diante de um cenário de maior exigência do mercado, um relatório de atividades consistente, que demonstre as ações concretas de ESG, abre oportunidades de negócios e melhora o acesso a crédito aos empreendimentos cooperativistas. O projeto, lançado em outubro de 2022, já conta com mais de 56 cooperativas paranaenses aderentes ao programa. Destas, 30 já finalizaram a etapa de formação.
Em Santa Catarina, Zanatta menciona a ferramenta desenvolvida pelo Sescoop/SC conhecida como Diagnóstico ESGCoop, que permite mapear e avaliar o nível de implementação das práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) nas cooperativas. “O diagnóstico oferece uma visão detalhada sobre como essas práticas estão incorporadas nas operações e estratégias das cooperativas, permitindo identificar boas práticas e pontos de melhoria”, destaca Zanatta.
A partir desse mapeamento, as cooperativas catarinenses são conectadas a outras soluções, como o programa Neutralidade de Carbono, promovido pelo Sistema OCB. A iniciativa abrange formação técnica, elaboração de inventário de emissões com base no Programa Brasileiro GHG Protocol, registro público e desenvolvimento de projetos voltados à descarbonização das atividades. Em Santa Catarina, três cooperativas participaram do piloto da solução: Cooper A1, Central Ailos e Unicred União.
Além disso, Ricken ressalta que o sistema cooperativista tem buscado integrar suas ações às políticas públicas e às metas globais, promovendo uma cultura de sustentabilidade e responsabilidade social que permeia toda a sua cadeia de valor. “Essa postura demonstra o compromisso do setor com um desenvolvimento mais justo, sustentável e alinhado às metas globais de longo prazo”, sustenta o presidente do Sistema Ocepar.
Modelo de negócio
O modelo de negócio cooperativista é destaque pela sua atuação sustentável, já que busca minimizar impactos ambientais da atividade produtiva, bem como recuperar áreas degradadas e contribuir para transição energética. Ricken salienta que as cooperativas são empreendimentos criados por pessoas e para pessoas, o que reforça o compromisso em proteger, desenvolver e cuidar das comunidades. “Por meio da gestão democrática, as cooperativas não apenas geram inclusão social e econômica, mas também fortalecem comunidades locais na adaptação e mitigação dos impactos climáticos. Seus resultados são distribuídos de forma justa entre os membros, promovendo geração de renda e resiliência comunitária”, afirma o executivo.
Durante a realização da COP30, em novembro, no Brasil, o sistema cooperativista paranaense e brasileiro estará presente em Belém, no Pará, demonstrando para o mundo aquilo que já é feito no País em prol de um desenvolvimento sustentável e voltado para as pessoas e o planeta.
Atuação cooperativista

Em recente estudo realizado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), no Paraná, municípios que têm cooperativas contam com o Índice de Desenvolvimento Humano mais alto. Em muitos municípios do Paraná, as cooperativas são as mais importantes empresas, maiores empregadoras e geradoras de receitas. “Cerca de um terço dos produtores rurais do Paraná são cooperados. A expressiva participação dos pequenos e médios produtores, com área de até 50 hectares, nas cooperativas agropecuárias, representando 77% do total de cooperados, o que evidencia a importância das cooperativas para essa faixa de produtores”, ressalta Ricken.
Sem falar na distribuição dos resultados (sobras), que em 2024 atingiu a marca de R$ 10,8 bilhões, recursos esses que ficam na própria região e são investidos nas próprias atividades dos cooperados ou em bens de consumo, o que ajuda a girar a roda da economia local.
Alinhamento estratégico com os objetivos da ONU
Para ampliar o alinhamento estratégico das cooperativas paranaenses com os objetivos da ONU, Ricken afirma que a prioridade é, por meio do PRC 300, fortalecendo a disseminação de boas práticas sustentáveis e promovendo uma maior integração das ações cooperativistas aos ODS. “Isso inclui oferecer capacitações e treinamentos específicos para que as cooperativas possam incorporar de forma mais efetiva as metas da Agenda 2030 em suas operações, além de incentivar a troca de experiências e a cooperação entre elas”, pontua.

Segundo o dirigente, também está nos planos ampliar parcerias com entidades públicas e privadas, promovendo projetos com impacto social, ambiental e econômico alinhado aos ODS. “Por exemplo, o Projeto 04, Certificação de Cooperativas, Programa Paraná Cooperativo, que tem como primeiro passo solucionar as homologações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), onde atualmente existem 530 mil propriedades rurais já cadastradas, junto a outras 29 iniciativas, pretendemos criar uma cultura de sustentabilidade mais robusta dentro do sistema cooperativista paranaense, garantindo que as cooperativas não apenas adotem práticas sustentáveis, mas também se tornem agentes de transformação social e ambiental, contribuindo de forma mais significativa para o desenvolvimento do estado e do país”, salienta.
O executivo ainda destaca que a declaração da ONU instituindo 2025 como o Ano Internacional das Cooperativas é uma oportunidade valiosa para fortalecer o cooperativismo no Brasil e no mundo. “Em 2025 vamos ter uma grande oportunidade para aumentar a visibilidade das cooperativas, permitindo que elas compartilhem suas histórias de sucesso e os benefícios que oferecem às comunidades, como a geração de empregos, a inclusão social e o desenvolvimento sustentável”, enfatiza, salientando que a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e as organizações estaduais estão promovendo iniciativas de comunicação, educação e capacitação sobre o cooperativismo, ajudando a formar novos líderes e a fortalecer as habilidades dos membros existentes, o que é fundamental para o crescimento e a sustentabilidade das cooperativas.
Sustentabilidade ganha papel estratégico no cooperativismo catarinense

As cooperativas de Santa Catarina têm transformado os relatórios de sustentabilidade inspirados nos ODS em verdadeiras ferramentas de gestão estratégica, inovação e tomada de decisão. A avaliação é do presidente da Ocesc, que destaca a evolução do uso desses instrumentos no dia a dia do setor. “Esses relatórios deixaram de ser apenas instrumentos de prestação de contas. Hoje, orientam políticas internas, projetos ambientais e sociais e sustentam indicadores robustos de desempenho sustentável”, afirma Zanatta.
Segundo ele, essa prática tem aproximado ainda mais o cooperativismo catarinense da Agenda 2030 da ONU, promovendo ações estruturadas e mensuráveis com foco em impacto positivo. Como exemplo desse uso estratégico, o executivo cita a Aurora Coop, a qual criou o Programa de Certificação Propriedade Rural Sustentável Aurora (PRSA), que já auditou mais de 2,1 mil propriedades rurais. “O programa nasceu para garantir que os conhecimentos adquiridos em capacitações fossem efetivamente aplicados no campo. Os critérios ambientais, sociais, produtivos e financeiros são padronizados e monitorados, gerando relatórios que acompanham a evolução dos indicadores e orientam decisões com mais eficiência e transparência”, ressalta.
Outro case é da Copercampos, que alia os relatórios aos ODS com ações práticas, como o mapeamento da pegada de carbono em propriedades e eventos, além da produção de combustíveis sustentáveis. “A emissão de créditos de descarbonização (CBios) reforça o compromisso com a redução de gases de efeito estufa, documentada em seus balanços de carbono e compartilhada com a sociedade e órgãos reguladores”, exalta.

Outra iniciativa de destaque é da Cooperalfa, que se sobressai com seu programa de gestão de pneus, voltado à redução de desperdícios e à destinação ambientalmente correta dos resíduos. O processo é monitorado por indicadores ambientais precisos, que evidenciam os resultados da logística reversa e reforçam a responsabilidade compartilhada ao longo da cadeia produtiva.
Na avaliação de Zanatta, os relatórios de sustentabilidade deixaram de ser peças formais e se consolidaram como parte ativa da estratégia operacional e institucional das cooperativas. “Eles reforçam a transparência, a governança e a consolidação de práticas sustentáveis, mostrando que o cooperativismo é protagonista na construção de um futuro mais equilibrado”, salienta.
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU
1. Erradicação da pobreza
Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.
2. Fome zero e agricultura sustentável
Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.
3. Saúde e bem-estar
Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
4. Educação de qualidade
Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
5. Igualdade de gênero
Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.
6. Água potável e saneamento
Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos.
7. Energia limpa e acessível
Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos.
8. Trabalho decente e crescimento econômico
Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.
9. Indústria, inovação e infraestrutura
Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação.
10. Redução das desigualdades
Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
11. Cidades e comunidades sustentáveis
Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
12. Consumo e produção responsáveis
Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.
13. Ação contra a mudança global do clima
Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos.
14. Vida na água
Conservar e usar sustentavelmente os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.
15. Vida terrestre
Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.
16. Paz, justiça e instituições eficazes
Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
17. Parcerias e meios de implementação
Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
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Notícias
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



