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Controle eficiente de plantas daninhas pode ajudar no manejo da lagarta-do-cartucho

Em ensaios com milho, pesquisadores descobriram que plantas daninhas podem manter lagarta-do-cartucho no campo durante a entressafra

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Marina Pessoa

Plantas invasoras prejudicam não somente pela competição por recursos naturais com a lavoura, elas também podem ser meio para manter pragas e doenças no campo. Pesquisadores verificaram que a persistência e a alta dispersão de plantas daninhas com resistência a herbicidas na área de cultivo são capazes de favorecer a sobrevivência de pragas e doenças que ameaçam diversas culturas no Brasil. Isso foi demonstrado para a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em lavouras de milho durante uma pesquisa da Embrapa Milho e Sorgo (MG).

Publicada no periódico Florida Entomologist Bio One, sob o título “Survival and Development off farm armyworm (Lepidoptera: Noctuidae) in weeds during the off-season” – “Sobrevivência e desenvolvimento da lagarta-do-cartucho (Lepidoptera: Noctuidae) em ervas daninhas durante a entressafra” – o trabalho procurou investigar, em condições de laboratório e casa de vegetação, a capacidade adaptativa do inseto ao milho. Foram analisadas seis plantas daninhas com histórico de resistência ao glifosato, como buva, capim-amargoso, capim-pé-de-galinha e caruru, todas elas comumente encontradas em agroecossistemas brasileiros. Justamente pela dificuldade de controle, elas podem permanecer por maior tempo no campo. Por isso, os cientistas quiseram saber se essas plantas seriam também hospedeiras da lagarta-do-cartucho.

 A pesquisa demonstrou que a sobrevivência e a biomassa de S. frugiperda foram significativamente maiores em capim-pé-de-galinha, milho e sorgo selvagem, tanto em laboratório como em casa de vegetação. Por outro lado, a boa notícia é que buva, trapoeraba, capim-amargoso e caruru foram as plantas menos adequadas para o desenvolvimento de S. frugiperda. Ou seja, não são plantas hospedeiras adequadas para a praga no campo.

Além da capacidade adaptativa dessa lagarta, os resultados sugerem que sua persistência no campo pode estar diretamente relacionada à ineficiência no controle de plantas daninhas durante a entressafra, reforçando a importância do manejo integrado de pragas e ervas daninhas durante esse período.

“O manejo de plantas daninhas durante a entressafra é prática negligenciada por muitos produtores. Devido à ausência de culturas de interesse agrícola durante alguns meses do ano, áreas de lavouras são deixadas em pousio, sendo dessecadas próximo à data de plantio da nova safra”, explica o pesquisador da Embrapa Alexandre Ferreira da Silva, também da Embrapa Milho e Sorgo.

O cientista alerta que, durante esse período, plantas daninhas podem se desenvolver, completar seu ciclo de vida e aumentar o seu banco de sementes. “Esse fato pode ocasionar prejuízos econômicos aos produtores, pois implica maiores gastos com herbicidas e perda de eficácia desses produtos na dessecação, além de aumentar a incidência de plantas daninhas durante o desenvolvimento da cultura, devido ao aumento do banco de sementes”, frisa o pesquisador.

A lagarta-do-cartucho

A lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) é uma das principais pragas polífagas que tira proveito do sistema de plantio direto e de outros sistemas de cultivo com a presença de plantas hospedeiras o ano todo no campo. Esse inseto é praga não apenas em lavouras de milho, mas também de sorgo, algodão, arroz, soja e outras lavouras de importância econômica.

A pesquisadora Simone Martins Mendes, da Embrapa Milho e Sorgo, explica que nessas culturas ela pode atacar as plantas na fase de germinação, retirando o estande da lavouras; no estádio vegetativo, quando provoca grande desfolha nas lavouras de milho, sorgo e arroz; e nas estruturas reprodutivas, como no caso das espigas do milho e do algodão, causando prejuízos ao agricultor.

Além disso, existem registros em literatura da ocorrência dessa praga se alimentando em mais de 300 espécies de plantas no campo. Assim, esse inseto tem grande facilidade de se estabelecer na área de cultivo”, diz a cientista.

“Nesse contexto, entender como a praga se comporta – se alimentando de plantas daninhas que apresentam resistência à herbicidas – pode ajudar o produtor a manejar melhor a praga, estando atento também ao controle dessas plantas para facilitar seu manejo no campo.” Outro detalhe ressaltado pela pesquisadora é que essa praga tem histórico de seleção de resistência às principais tecnologias disponíveis para seu controle. Estão registradas a seleção de resistência para algumas tecnologias Bt, expressas em milho, e também a algumas moléculas de inseticidas, daí a grande dificuldade de manejo da lagarta-do-cartucho.

Resistência ao glifosato

Segundo Silva, esse cenário se torna ainda mais complicado ao tratarmos de espécies que possuem biótipos resistentes a glifosato, tendo em vista que essa é a principal molécula herbicida utilizada na agricultura.

“Biótipos com resistência a glifosato se encontram amplamente dispersos pelas principais regiões produtoras de grãos do País. Atualmente, no Brasil há 11 espécies que possuem biótipos resistentes à molécula: buva (Conyza canadensisC. bonariensisC. sumatrensis), azevém (Lollium perenne ssp. multiflorum), caruru (Amaranthus palmeri, A. hybridusA retroflexus), capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), capim-branco (Chloris elata) e leiteiro (Euphorbia heterophylla)”, enumera o pesquisador.

“Para o adequado manejo de plantas daninhas na entressafra, o pesquisador recomenda medidas integradas de controle para evitar crescimento e produção de sementes durante o período. “Entre as medidas estão: a possibilidade de uso de herbicidas residuais após a colheita, uso de plantas de cobertura e práticas de controle mecânico”, orienta Silva.

“Nesse cenário em que as plantas daninhas estão se tornando mais comuns durante a entressafra, favorecendo a sobrevivência das pragas, nós realizamos um estudo no qual avaliamos os aspectos biológicos de S. frugiperda em plantas daninhas específicas comuns nos agroecossistemas brasileiros  e inferimos como a presença dessas plantas pode influenciar a sobrevivência dessa praga nos sistemas agrícolas”, complementa a pesquisadora Simone Mendes.

Plantas daninhas como ponte-verde

“A chamada ponte-verde ocorre quando o inseto-praga encontra no campo plantas que são hospedeiras, ou seja, nas quais as pragas podem se alimentar e até se reproduzir. Por causa disso, a manutenção de plantas hospedeiras no campo pode ser uma fonte para que os insetos-praga mantenham a sua população no campo”, informa a pesquisadora Simone Mendes.

“Os achados desse trabalho mostram que por causa do manejo inadequado, as plantas daninhas resistentes ao glifosato tendem a permanecer verdes por mais tempo na área de cultivo, tornando-se potenciais hospedeiras de pragas polífagas. Portanto, conhecer a aptidão e a biologia da lagarta-do-cartucho nessas plantas infestantes nos ajuda a adequar o manejo da planta daninha e do inseto-praga”, comenta a pesquisadora

De acordo com ela, conhecendo previamente quais plantas daninhas estão presentes na área é possível ajustar o monitoramento realizado antes do plantio da lavoura principal.  “Se essas espécies estiverem na área, a praga pode permanecer se alimentando e causar problemas na lavoura recém-implantada, reduzindo o estande e causando injurias que reduzem o potencial produtivo.”

Como as plantas daninhas se comportam e como fazer o manejo

O pesquisador Alexandre Silva comenta que estudos realizados por membros da equipe de herbologia da Embrapa estimam que o custo da resistência de plantas daninhas a herbicidas no sistema de produção da soja seja de, aproximadamente, R$ 5 bilhões ao ano. Acrescentando as possíveis perdas de rendimento da cultura em função da matocompetição, esse valor total pode atingir R$ 9 bilhões anualmente.

“Diante desse contexto, é importante que os produtores realizem o adequado enfretamento do problema, adotando as estratégias de manejo e seguindo as diretrizes do Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD), que consiste na integração dos diferentes métodos de controle, levando em consideração a realidade local”, diz o pesquisador.

Segundo ele, entre os principais métodos de controle destacam-se o manejo preventivo, que são os cuidados na aquisição de sementes, limpeza de máquinas e implementos agrícolas advindos de áreas com histórico de infestação, manutenção de beiradas de estradas, carreadores e manter os terraços livres de plantas daninhas; e o manejo cultural, que implica reduzir o período de pousio, fazer a produção de palha para cobertura do solo, escolher cultivares adaptadas à região, usar o espaçamento e a população de plantas recomendadas e fazer rotação de cultura.

Além desses métodos, o pesquisador também inclui o manejo mecânico, quando são feitas capinas de repasse e roçadas para evitar a propagação das plantas na área; e o controle químico, que consiste na utilização de herbicidas com diferentes mecanismos de ação, em diferentes sistemas de controle, como por exemplo o uso de herbicidas pré e pós-emergentes na mesma área.

“Para evitar que as plantas daninhas possam servir como ponte-verde e não aumentem o seu banco de sementes na área é necessário realizar o adequado monitoramento da praga e promover o controle das infestantes durante o período de entressafra. É importante que a dessecação seja realizada de maneira antecipada, preferencialmente de 15 a 20 dias antes do semeio da cultura, e que seja realizado o monitoramento próximo à data de semeio para verificar se há necessidade de aplicação de inseticida para controle da praga-alvo” , orienta Silva.

Além disso, ele aponta que entre as espécies que apresentam biótipos resistentes a glifosato, o capim pé-de-galinha e o caruru foram as plantas daninhas mais adequadas como hospedeiras para a praga.

“Dessa forma, é importante que o produtor tenha atenção especial para saber se essas plantas estão presentes na sua propriedade. O adequado manejo da comunidade infestante, integrando os diferentes métodos de controle e realizando a adequada rotação de herbicidas com mecanismos efetivos no controle das plantas daninhas-alvo, auxilia o produtor no manejo de biótipos resistentes. Esse biótipo, por sua vez, ajuda a reduzir o alimento e a ponte-verde para a praga, permitindo seu melhor manejo na lavoura”, relata Ferreira.

Os estudos foram realizados pelos pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo (MG) Alexandre Ferreira da Silva, Decio Karam e Simone Martins Mendes; pela doutoranda Tâmara Moraes, do departamento de Entomologia da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (Esalq/USP); e pela bolsista de pós-doutorado Natália Alves Leite, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS).

Fonte: Embrapa Milho e Sorgo

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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite

Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

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Foto: Isabele Kleim

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.

Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.

Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:

•    Compram a produção de pequenos agricultores;

•    Processam alimentos, como leite e derivados;

•    Garantem renda para famílias no campo.

Quem pode acessar o crédito

•    A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.

•    Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

•    Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.

Como funciona o financiamento

A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:

•    Prazo total: até 6 anos para pagamento;

•    Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;

•    Juros: 8% ao ano;

•    Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;

•    Limite por cooperado: até R$ 90 mil.

Até quando vale

A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.

O que muda na prática

Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:

•    Manter a compra da produção dos agricultores;

•    Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;

•    Garantir renda para famílias rurais;

•    Preservar empregos no interior;

•    Manter o abastecimento de alimentos.

A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.

Fonte: Agência Brasil
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental

Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

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Foto: Divulgação/Imac

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.

Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria

Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.

Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos

Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.

O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.

Fonte: Assessoria Imac
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte

Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

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Fotos: Lucas Nunes

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”

O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.

Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.

De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.

Melhoramento acelera ganhos produtivos

O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote

Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.

A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.

Modelo de seleção no Rio Grande do Sul

Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.

De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.

Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.

Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.

Manejo e adaptação

Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.

A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.

Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.

Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira

A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.

O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.

Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.

Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.

O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.

A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.

Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.

Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.

Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.

A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.

Á edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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