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Controle eficiente de plantas daninhas pode ajudar no manejo da lagarta-do-cartucho

Em ensaios com milho, pesquisadores descobriram que plantas daninhas podem manter lagarta-do-cartucho no campo durante a entressafra

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Marina Pessoa

Plantas invasoras prejudicam não somente pela competição por recursos naturais com a lavoura, elas também podem ser meio para manter pragas e doenças no campo. Pesquisadores verificaram que a persistência e a alta dispersão de plantas daninhas com resistência a herbicidas na área de cultivo são capazes de favorecer a sobrevivência de pragas e doenças que ameaçam diversas culturas no Brasil. Isso foi demonstrado para a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em lavouras de milho durante uma pesquisa da Embrapa Milho e Sorgo (MG).

Publicada no periódico Florida Entomologist Bio One, sob o título “Survival and Development off farm armyworm (Lepidoptera: Noctuidae) in weeds during the off-season” – “Sobrevivência e desenvolvimento da lagarta-do-cartucho (Lepidoptera: Noctuidae) em ervas daninhas durante a entressafra” – o trabalho procurou investigar, em condições de laboratório e casa de vegetação, a capacidade adaptativa do inseto ao milho. Foram analisadas seis plantas daninhas com histórico de resistência ao glifosato, como buva, capim-amargoso, capim-pé-de-galinha e caruru, todas elas comumente encontradas em agroecossistemas brasileiros. Justamente pela dificuldade de controle, elas podem permanecer por maior tempo no campo. Por isso, os cientistas quiseram saber se essas plantas seriam também hospedeiras da lagarta-do-cartucho.

 A pesquisa demonstrou que a sobrevivência e a biomassa de S. frugiperda foram significativamente maiores em capim-pé-de-galinha, milho e sorgo selvagem, tanto em laboratório como em casa de vegetação. Por outro lado, a boa notícia é que buva, trapoeraba, capim-amargoso e caruru foram as plantas menos adequadas para o desenvolvimento de S. frugiperda. Ou seja, não são plantas hospedeiras adequadas para a praga no campo.

Além da capacidade adaptativa dessa lagarta, os resultados sugerem que sua persistência no campo pode estar diretamente relacionada à ineficiência no controle de plantas daninhas durante a entressafra, reforçando a importância do manejo integrado de pragas e ervas daninhas durante esse período.

“O manejo de plantas daninhas durante a entressafra é prática negligenciada por muitos produtores. Devido à ausência de culturas de interesse agrícola durante alguns meses do ano, áreas de lavouras são deixadas em pousio, sendo dessecadas próximo à data de plantio da nova safra”, explica o pesquisador da Embrapa Alexandre Ferreira da Silva, também da Embrapa Milho e Sorgo.

O cientista alerta que, durante esse período, plantas daninhas podem se desenvolver, completar seu ciclo de vida e aumentar o seu banco de sementes. “Esse fato pode ocasionar prejuízos econômicos aos produtores, pois implica maiores gastos com herbicidas e perda de eficácia desses produtos na dessecação, além de aumentar a incidência de plantas daninhas durante o desenvolvimento da cultura, devido ao aumento do banco de sementes”, frisa o pesquisador.

A lagarta-do-cartucho

A lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) é uma das principais pragas polífagas que tira proveito do sistema de plantio direto e de outros sistemas de cultivo com a presença de plantas hospedeiras o ano todo no campo. Esse inseto é praga não apenas em lavouras de milho, mas também de sorgo, algodão, arroz, soja e outras lavouras de importância econômica.

A pesquisadora Simone Martins Mendes, da Embrapa Milho e Sorgo, explica que nessas culturas ela pode atacar as plantas na fase de germinação, retirando o estande da lavouras; no estádio vegetativo, quando provoca grande desfolha nas lavouras de milho, sorgo e arroz; e nas estruturas reprodutivas, como no caso das espigas do milho e do algodão, causando prejuízos ao agricultor.

Além disso, existem registros em literatura da ocorrência dessa praga se alimentando em mais de 300 espécies de plantas no campo. Assim, esse inseto tem grande facilidade de se estabelecer na área de cultivo”, diz a cientista.

“Nesse contexto, entender como a praga se comporta – se alimentando de plantas daninhas que apresentam resistência à herbicidas – pode ajudar o produtor a manejar melhor a praga, estando atento também ao controle dessas plantas para facilitar seu manejo no campo.” Outro detalhe ressaltado pela pesquisadora é que essa praga tem histórico de seleção de resistência às principais tecnologias disponíveis para seu controle. Estão registradas a seleção de resistência para algumas tecnologias Bt, expressas em milho, e também a algumas moléculas de inseticidas, daí a grande dificuldade de manejo da lagarta-do-cartucho.

Resistência ao glifosato

Segundo Silva, esse cenário se torna ainda mais complicado ao tratarmos de espécies que possuem biótipos resistentes a glifosato, tendo em vista que essa é a principal molécula herbicida utilizada na agricultura.

“Biótipos com resistência a glifosato se encontram amplamente dispersos pelas principais regiões produtoras de grãos do País. Atualmente, no Brasil há 11 espécies que possuem biótipos resistentes à molécula: buva (Conyza canadensisC. bonariensisC. sumatrensis), azevém (Lollium perenne ssp. multiflorum), caruru (Amaranthus palmeri, A. hybridusA retroflexus), capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), capim-branco (Chloris elata) e leiteiro (Euphorbia heterophylla)”, enumera o pesquisador.

“Para o adequado manejo de plantas daninhas na entressafra, o pesquisador recomenda medidas integradas de controle para evitar crescimento e produção de sementes durante o período. “Entre as medidas estão: a possibilidade de uso de herbicidas residuais após a colheita, uso de plantas de cobertura e práticas de controle mecânico”, orienta Silva.

“Nesse cenário em que as plantas daninhas estão se tornando mais comuns durante a entressafra, favorecendo a sobrevivência das pragas, nós realizamos um estudo no qual avaliamos os aspectos biológicos de S. frugiperda em plantas daninhas específicas comuns nos agroecossistemas brasileiros  e inferimos como a presença dessas plantas pode influenciar a sobrevivência dessa praga nos sistemas agrícolas”, complementa a pesquisadora Simone Mendes.

Plantas daninhas como ponte-verde

“A chamada ponte-verde ocorre quando o inseto-praga encontra no campo plantas que são hospedeiras, ou seja, nas quais as pragas podem se alimentar e até se reproduzir. Por causa disso, a manutenção de plantas hospedeiras no campo pode ser uma fonte para que os insetos-praga mantenham a sua população no campo”, informa a pesquisadora Simone Mendes.

“Os achados desse trabalho mostram que por causa do manejo inadequado, as plantas daninhas resistentes ao glifosato tendem a permanecer verdes por mais tempo na área de cultivo, tornando-se potenciais hospedeiras de pragas polífagas. Portanto, conhecer a aptidão e a biologia da lagarta-do-cartucho nessas plantas infestantes nos ajuda a adequar o manejo da planta daninha e do inseto-praga”, comenta a pesquisadora

De acordo com ela, conhecendo previamente quais plantas daninhas estão presentes na área é possível ajustar o monitoramento realizado antes do plantio da lavoura principal.  “Se essas espécies estiverem na área, a praga pode permanecer se alimentando e causar problemas na lavoura recém-implantada, reduzindo o estande e causando injurias que reduzem o potencial produtivo.”

Como as plantas daninhas se comportam e como fazer o manejo

O pesquisador Alexandre Silva comenta que estudos realizados por membros da equipe de herbologia da Embrapa estimam que o custo da resistência de plantas daninhas a herbicidas no sistema de produção da soja seja de, aproximadamente, R$ 5 bilhões ao ano. Acrescentando as possíveis perdas de rendimento da cultura em função da matocompetição, esse valor total pode atingir R$ 9 bilhões anualmente.

“Diante desse contexto, é importante que os produtores realizem o adequado enfretamento do problema, adotando as estratégias de manejo e seguindo as diretrizes do Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD), que consiste na integração dos diferentes métodos de controle, levando em consideração a realidade local”, diz o pesquisador.

Segundo ele, entre os principais métodos de controle destacam-se o manejo preventivo, que são os cuidados na aquisição de sementes, limpeza de máquinas e implementos agrícolas advindos de áreas com histórico de infestação, manutenção de beiradas de estradas, carreadores e manter os terraços livres de plantas daninhas; e o manejo cultural, que implica reduzir o período de pousio, fazer a produção de palha para cobertura do solo, escolher cultivares adaptadas à região, usar o espaçamento e a população de plantas recomendadas e fazer rotação de cultura.

Além desses métodos, o pesquisador também inclui o manejo mecânico, quando são feitas capinas de repasse e roçadas para evitar a propagação das plantas na área; e o controle químico, que consiste na utilização de herbicidas com diferentes mecanismos de ação, em diferentes sistemas de controle, como por exemplo o uso de herbicidas pré e pós-emergentes na mesma área.

“Para evitar que as plantas daninhas possam servir como ponte-verde e não aumentem o seu banco de sementes na área é necessário realizar o adequado monitoramento da praga e promover o controle das infestantes durante o período de entressafra. É importante que a dessecação seja realizada de maneira antecipada, preferencialmente de 15 a 20 dias antes do semeio da cultura, e que seja realizado o monitoramento próximo à data de semeio para verificar se há necessidade de aplicação de inseticida para controle da praga-alvo” , orienta Silva.

Além disso, ele aponta que entre as espécies que apresentam biótipos resistentes a glifosato, o capim pé-de-galinha e o caruru foram as plantas daninhas mais adequadas como hospedeiras para a praga.

“Dessa forma, é importante que o produtor tenha atenção especial para saber se essas plantas estão presentes na sua propriedade. O adequado manejo da comunidade infestante, integrando os diferentes métodos de controle e realizando a adequada rotação de herbicidas com mecanismos efetivos no controle das plantas daninhas-alvo, auxilia o produtor no manejo de biótipos resistentes. Esse biótipo, por sua vez, ajuda a reduzir o alimento e a ponte-verde para a praga, permitindo seu melhor manejo na lavoura”, relata Ferreira.

Os estudos foram realizados pelos pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo (MG) Alexandre Ferreira da Silva, Decio Karam e Simone Martins Mendes; pela doutoranda Tâmara Moraes, do departamento de Entomologia da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (Esalq/USP); e pela bolsista de pós-doutorado Natália Alves Leite, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS).

Fonte: Embrapa Milho e Sorgo
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária

Metionina é muito mais do que proteína no leite

A metionina tem sido um importante foco da pesquisa em vacas leiteiras devido à relevância de seus papéis metabólicos

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Artigo escrito por Luis Cardo, médico veterinário e consultor de Bovinos Leiteiros; e doutora Claudia Parys, gerente de Serviços Técnicos de Ruminantes da Evonik

As vacas não têm exigência de Proteína Bruta (PB) ou de Proteína Não Degradável no Rúmen (PNDR, proteína bypass). O rúmen utiliza o Nitrogênio Não Proteico (NNP) para sintetizar proteína microbiana de alta qualidade, que fornecerá a maior parte da Proteína Metabolizável (PM). Vacas de alta produção têm maior exigência de aminoácidos do que microbiota do rúmen consegue fornecer. Atender essa exigência adicional fornecendo somente mais proteína bruta, aumenta apenas a quantidade de Proteína Degradável e Não Degradável no Rúmen e isso tem alto custo ambiental, econômico e sanitário.

Estudos mostram que é possível obter produção de leite igual ou maior com dietas com menos proteína bruta aplicando uma estratégia nutricional baseada em maximizar a produção de proteína microbiana em combinação com o uso de aminoácidos protegidos da degradação ruminal para atender às exigências dos animais. Essa abordagem propicia menores custos de alimentação e maior receita bruta. Os dois primeiros aminoácidos limitantes para a produção de leite são a metionina e a lisina devido às suas baixas concentrações nas matérias primas e suas altas concentrações no leite. A metionina tem sido um importante foco de pesquisas em vacas leiteiras devido à relevância de seus papéis metabólicos. Em termos de saúde, os benefícios podem ser ainda mais importantes do que o efeito direto na produção de leite ou de proteína do leite.

Metionina: Um aminoácido funcional

Pesquisas demonstraram que a metionina fornecida no pré- e pós-parto influenciou o metabolismo após o parto através da melhora das funções hepáticas, da função dos neutrófilos e da insulina e, ao mesmo tempo, da redução do estresse oxidativo, da inflamação e dos níveis sanguíneos de ácidos graxos não esterificados. Isso provavelmente se deve ao aumento da taurina e da glutationa no fígado, reduzindo o estresse oxidativo e, portanto, as citocinas. Baixos níveis de citocinas diminuem os sinais de saciedade, levando a um maior consumo de ração. A reprodução também é afetada pela suplementação com metionina. Um pesquisador relatou redução das perdas gestacionais após a inseminação artificial de 19,6 para 6,1% em vacas multíparas com a suplementação “on top” de metionina protegida a uma dieta basal com 6,9% de Lisina metabolizável e 1,87% de Metionina metabolizável. As recomendações de metionina na proteína metabolizável publicadas no passado foram atualizadas para concentrações maiores (Tabela 1).

Quando há maior demanda de energia do que de aminoácidos, o fígado desvia os aminoácidos para o fornecimento de energia. Por exemplo, o feto depende de aminoácidos para suprir até 50% de sua glicose e o mesmo acontece com a vaca no periparto. Faz sentido correlacionar as exigências de aminoácidos com a de energia e, de fato, as recomendações mais recentes seguem esse padrão.

  1. Meta de 1,12-1,15 g Met metabolizável/Mcal EM
  2. Manter a relação Lis/Met em 2,7
  3. Calcular as exigências de Lisina (calcular primeiro de Met e depois de Lisina). O primeiro passo na formulação é maximizar a produção de energia e proteína microbianas no rúmen.
  4. Balanço com base no Leite Corrigido pela Energia
  5. Manter o N ruminal a 115% da exigência para suprir as necessidades ruminais
  6. Maximizar a proteína metabolizável microbiana com carboidratos fermentáveis

Diferentes fontes de metionina

As fontes de metionina podem ser divididas em produtos protegidos em matriz lipídica e os protegidos por outros revestimentos. As fontes de matriz lipídica dependem da gordura como veículo da metionina e são mais baratas que os produtos protegidos por outros revestimentos, fornecem uma carga útil de metionina menor e têm liberação e absorção pós-ruminal limitadas. Portanto, a maioria dos nutricionistas e produtores prefere fontes de metionina protegida por outros revestimentos, em vez de produtos de matriz lipídica. Os produtos de metionina verdadeiramente protegidos contam com a proteção de um revestimento que reduz a degradação ruminal (bypass). Os produtos mais conhecidos mundialmente são revestidos ou com etil-celulose ou com uma proteção sensível ao pH. Diferentes produtos contam com diferentes revestimentos e métodos de liberação de metionina. O produto revestido com etil-celulose libera metionina lentamente, enquanto o produto com revestimento sensível ao pH, libera metionina rapidamente no abomaso. A liberação rápida do produto sensível ao pH causa um pico sanguíneo de metionina muito acentuado, mas de curta duração. Devido a suas propriedades de liberação lenta, a metionina revestida com etil-celulose não causa pico e mantém os níveis de metionina no sangue por um período mais longo. Não há correlação entre o pico de metionina sanguínea com a maior produção de proteína do leite.

Em 2010, uma metanálise com 36 estudos avaliou fontes de metionina protegida disponíveis no mercado. (Tabela 2). Vacas alimentadas com a metionina protegida por etil-celulose produziram mais proteína (37 vs. 16g) e mais gordura (24 vs. -2g) no leite do que as suplementadas com a metionina protegida com revestimento sensível ao pH. As vacas alimentadas com a metionina protegida por etil-celulose também apresentaram maior produção de leite (350 g/d), ao contrário das que receberam a outra fonte de metionina (pH sensível) que tiveram redução (-220 g/d). As vacas suplementadas com a metionina protegida por etil-celulose tiveram maior produção de proteína e de gordura do leite, bem como maior produção total de leite. Além disso, com maior produção de leite, ocorre um efeito de diluição. Isso significa que o percentual de proteína do leite não é suficiente para diferenciar os produtos e, provavelmente, a produção total de proteína do leite ou de leite corrigido pela energia são melhores indicadores do desempenho dos produtos.

Conhecendo o seu produto

O uso de metionina protegida da degradação ruminal, juntamente com a maximização da proteína microbiana, é uma estratégia válida para aumentar a produção de leite e a lucratividade da granja. Lembre que a metionina tem outros possíveis papéis metabólicos que podem mascarar o efeito benéfico deste aminoácido e que o fornecimento adequado de energia é a primeira condição para implementar com sucesso o uso de aminoácidos protegidos. Escolher uma fonte confiável de metionina protegida não é fácil. A escolha deve ser fundamentada por dados suficientes e confiáveis da literatura científica que demonstrem seus efeitos, além de uma presença de longa data no mercado, porque a experiência prática é importante. Os níveis sanguíneos de metionina podem ser enganosos e não é aconselhável escolher produtos com base nisso. Um “pico” no nível sanguíneo só fornece informações sobre como a metionina é liberada por um produto e é preferível que o nível sanguíneo de metionina seja mantido em níveis ótimos por mais tempo. As metanálises disponíveis mostram resultados práticos constantes e melhores com produtos revestidos com etil-celulose.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Saúde Animal

Vacinas recomendadas para período de cria de bovinos e protocolos de sanidade reprodutiva

Depois do manejo nutricional o manejo sanitário de um rebanho é de extrema importância e, a vacinação é a primeira ferramenta a ser lembrada

Publicado em

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito Reuel Luiz Goncalves, médico veterinário e gerente Serviços Técnicos da Biogénesis Bagó

Utilizar vacinas na pecuária se tornou rotina, por ser uma medida preventiva contra doenças infecciosas, por reduzir perdas e a necessidade do uso de antibióticos para os tratamentos nos animais de produção, o que diminui os custos e também os resíduos de fármacos em produtos de origem animal. A vacinação visa prevenção, controle e até mesmo a erradicação de doenças, melhoria da saúde pública e aumento dos índices produtivos e reprodutivos dos rebanhos. Depois do manejo nutricional o manejo sanitário de um rebanho é de extrema importância e, a vacinação é a primeira ferramenta a ser lembrada.

Vacinar é o mesmo que imunizar?

Não! O ato da vacinação é uma prática simples, mas que requer alguns cuidados especiais e conhecimentos para imunizar bem os animais e evitar prejuízos aos produtores, danos ao rebanho e para que o processo de imunização tenha maior chance de ser bem sucedido.

Devemos sempre observar vários fatores para que a eficiência da imunização desencadeada pela aplicação da vacina não seja prejudicada. Esses fatores podem estar relacionados ao transporte, conservação (cadeia de frio), manuseio das vacinas e execução da vacinação propriamente dita.

Os principais objetivos da vacinação são:

  • Proteger o rebanho e evitar surtos de doenças infecciosas;
  • Proteger o indivíduo (animal) de doenças infecciosas associadas à mortalidade e evitar sequelas de longo prazo que possam interferir no desempenho ou, até mesmo, interromper o período de vida produtiva/reprodutiva de um animal ou de todo um rebanho;
  • Controlar e, até mesmo, erradicar doenças infecciosas como Aftosa, Brucelose, Raiva, etc.

Planejamento

Uma anamnese detalhada da fazenda deve ser feita antes de se montar um Calendário Sanitário Vacinal. Induzir proteção de rebanho pelo uso da vacinação deve levar em conta o tipo de sistema da propriedade, se é cria, recria, engorda, ou ciclo completo, a manifestação ou não de doenças, relatos de casos de doenças endêmicas na região e relatórios informativos sobre o diagnóstico e a prevalência de doenças contagiosas publicados por órgãos oficiais de vigilância sanitária regionais. Em seguida, deve ser montado um calendário de vacinação, onde estarão definidas as vacinas a serem utilizadas, categorias que receberam e a melhor época para a aplicação de cada uma delas. Este calendário deverá ser definido em conjunto com o médico-veterinário responsável pelo rebanho, o gerente da propriedade e o proprietário, para que todos estejam cientes das necessidades vacinais do rebanho.

As vacinas obrigatórias dos bovinos devem ser incluídas inicialmente no calendário anual de vacinação. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) define um calendário oficial para a vacina de febre aftosa, em que os meses mais adequados para vacinação são definidos segundo o Estado, geralmente nos meses de maio e em novembro. Em algumas regiões endêmicas se faz também com a vacinação contra Febre Aftosa a vacina de Raiva, sendo essa uma orientação estadual.

Outra vacina oficial importante é contra brucelose, não existe uma data definida com calendário oficial de vacinação, entretanto o que fica definido são o sexo e a idade do animal em que a vacina deve ser administrada (vacinar apenas fêmeas entre três e oito meses de idade).

Definidas as datas das vacinas obrigatórias, o produtor em conjunto com o veterinário e o gerente da fazenda deve incluir as vacinas produtivas para proteger os animais contra determinadas doenças, utilizando uma ou mais das dezenas de vacinas disponíveis no mercado.

Para definir o calendário vacinal, pensado na reprodução, devemos identificar quando é a Estação de Monta (EM) da propriedade, na maior parte do país inicia-se no primeiro dia de novembro, terminando ao final de janeiro (90 dias) ou de fevereiro (120 dias).

Estabelecido a EM, fica fácil de determinar a Estação de Nascimento (EN), sendo possível organizar a vacinação das fêmeas em atividade reprodutiva nas mais diversas categorias da propriedade (Nulíparas, Primíparas, Secundíparas, Pluríparas e Vacas solteiras).

Umas das vacinas mais antigas utilizadas em fêmeas de cria é a contra o paratifo (Salmonelose) e para colibacilose (E. coli), vacinas estas feitas no 8º mês de gestação das mesmas. Hoje, estas vacinas foram substituídas pelas contra Diarreias Neonatais, onde além da proteção contra E. coli e Samonella spp pela cepa J5, elas possuem em sua composição além da cepa J5 os Vírus G6 e G10 de Rotavírus.

Outra vacina muito importante e que muitas vezes é negligenciada nas matrizes são as vacinas Clostridiais (Policlostrigen), contra carbúnculo sintomático, gangrena gasosa e enterotoxemias e também contra o botulismo. Por quê? Lembremos sempre que os animais de cria estão sujeitos a desafios diferentes que os de engorda e também precisam produzir um colostro de qualidade para seus produtos, principalmente para protegê-los nos primeiros 60 a 90 dias de vida.

Depois das vacinas massais (Clostridiose, Botulismo e Raiva), devemos dar atenção às vacinas especiais reprodutivas, que são contra Rinotraqueite Infecciosa Bovina (IBR 1 e 5), Diarreia Viral Bovina (BVD 1 e 2), Campylobacteirose (C. fetus subsp. venerealis e C. fetus subsp fetus) e Leptospirose.

As vacinas reprodutivas devem ser feitas preferencialmente antes da EM, no mês de setembro ou outubro anualmente e, reforço semestral para vacina de Leptospirose.

Em propriedades com alto desafio para quadros respiratórios o uso de vacina respiratória conjugada (Vírus e Bactérias) deve ser implementado de preferência antes dos meses mais frios do ano (sendo maio uma boa data).

Atenção!

Vacinas produzidas com organismos vivos (vacinas vivas atenuada) merecem atenção especial, principalmente a contra brucelose, que pode causar doença em humanos (zoonose) ou apresentar reações não conformes. Portanto, o manuseio desses produtos deve ser criterioso e realizado com cautela por um profissional qualificado (médico-veterinário ou vacinador treinado, atuando sob responsabilidade do profissional de Veterinária).

Todos devem saber que a resposta imunológica dos animais (proteção) após a aplicação de uma vacina não é imediata e seus efeitos podem aparecer somente após, pelo menos, 15 dias. Sendo assim, animais vacinados recentemente ainda podem apresentar a doença, pois já poderiam estar infectados antes de serem vacinados ou terem entrado em contato com o patógeno nesta fase entre a vacinação e a imunização do animal. Os animais sadios e bem nutridos têm melhor resposta imunológica às vacinas do que os doentes ou mal alimentados.

Muitas das doenças que acometem rebanhos de cria já estão nas propriedades e, portanto, a utilização dessas vacinas em animais acometidos busca diminuir os sintomas das doenças como morte embrionária precoce, repetição de cio e abortos, portanto a adoção das vacinas reprodutivas busca minimizar os problemas advindos destes patógenos até que o status imunológico esteja consolidado após 2 a 3 vacinações.

Praticamente todas as vacinas (inativadas ou vivas atenuadas), já que nem todas são totalmente vivas atenuadas, na primo-vacinação (primeira vacinação) exigem a aplicação de uma dose de reforço, normalmente três a quatro semanas após a primeira dose. Os reforços de vacinação são para garantir que houve estimulação adequada do sistema imunológico e formação de células de memória. Lembrando que interrompendo-se a vacinação por mais de um ano, devemos recomeçar a vacinação com dose e reforço.

Vale a pena mencionar que animais que não recebem a dose de reforço na primo-imunização, mesmo que posteriormente sejam revacinados no intervalo correto para determinada vacina, podem nunca se tornar protegidos.

Concluindo

Quando realizada adequadamente, a vacinação é a principal ferramenta para manter o status sanitário de um rebanho para as principais doenças reprodutivas e produtivas, alcançando os melhores resultados possíveis, entretanto, a utilização de vacinas como medida única de controle de doenças não é eficaz, pois várias enfermidades infecciosas e parasitárias ainda não dispõem de vacinas para um controle adequado das infecções, tomemos como exemplo a neosporose. Portanto, além das vacinas, um bom manejo aliado a nutrição e a utilização adequada de antimicrobianos e antiparasitários deve sempre minimizar as quedas na imunidade dos animais. Hoje apor meio de vários trabalhos publicados sabemos que a utilização de programas vacinais associados à suplementação mineral e vitamínica produzem um aumento no status imunológico das propriedades de cria.

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Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Saúde Animal

Como controlar e combater a mastite ambiental?

Introdução de um plano para o controle das mastites é muito importante, no qual o médico veterinário tem grande destaque

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em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Guilherme Luiz Gomes da Silva, médico veterinário e analista de marketing/comunicação científica da J.A. Saúde Animal; e Eduardo de Castro Rezende, médico veterinário e coordenador de marketing/comunicação científica da J.A. Saúde Animal

A bovinocultura brasileira tem grande relevância na produção láctea mundial, gerando desenvolvimento econômico e muitos empregos diretos e indiretos. Porém determinadas patologias podem causar altos prejuízos como é o caso da mastite.

A mastite é um processo inflamatório da glândula mamária, que causa queda acentuada na produção e alterações na composição do leite. É a doença mais incidente e prevalente no rebanho leiteiro nacional, ocasionando prejuízos que vão desde a queda na produção leiteira, acréscimos nos custos de serviços e medicamentos veterinários, perdas de tetos, descarte prematuro e até a morte do animal. É considerada uma alteração complexa e multifatorial, que envolve vários patógenos, sendo o ambiente e fatores inerentes ligados ao animal.

Além disso, vale ressaltar que a mastite representa risco à saúde pública, podendo prejudicar o consumidor de leite e derivados. Nesse sentido, a introdução de um plano para o controle das mastites é muito importante, no qual o médico veterinário tem grande destaque, pois ele irá introduzir programas de melhoria da qualidade do leite, protocolos de tratamento para animais que apresentam algum tipo de patologia e métodos de prevenção. Uma pesquisa realizada identificou que, entre 180 produtores que faziam parte de um programa de qualidade do leite, somente 24% destes procuravam um veterinário para o auxílio e planejamento de melhoria da qualidade do leite.

Contagiosa e ambiental

Epidemiologicamente, as mastites podem ser classificas em mastite contagiosa e ambiental. A primeira é ocasionada por microrganismos advindos do próprio animal e, a segunda, por agentes infecciosos provenientes do ambiente. A mastite ambiental caracteriza-se por ser uma infecção de curta duração, manifestando geralmente sinais clínicos mais severos e, em alguns casos, até mesmo causar a morte da vaca. Por incrível que pareça, rebanhos bem manejados e com baixos índices de Contagem de Células Somáticas (CSS) possuem maior incidência desse tipo de mastite, visto que os agentes responsáveis pelas mastites contagiosas subclínicas competem com os da mastite ambiental, conferindo certo tipo de proteção.

Existem algumas medidas que podem e devem ser tomadas para a prevenção dos casos de mastite ambiental, sendo um dos pontos principais o cuidado com a higiene do ambiente onde os animais são mantidos. É preconizado a diminuição do contato direto das extremidades dos tetos aos patógenos ambientais, que estão presentes no solo, fezes e água contaminada. As instalações como free-stall ou compost barn devem ser bem manejadas. O arraçoamento após a ordenha é uma medida fundamental, visto que dessa forma impede-se que as vacas se deitem rapidamente com o esfíncter do teto aberto e, consequentemente, facilitar a entrada de microrganismos pelo canal do teto.

A qualificação técnica da equipe, a educação sanitária e a delegação de responsabilidades são fatores que influenciam diretamente no sucesso do plano de controle dessa enfermidade, sendo necessário um trabalho conjunto, englobando não somente o veterinário, mas todos os envolvidos na ordenha.

A linha de ordenha necessita ser estabelecida de modo que primeiramente sejam ordenhados os animais sadios e, por último, aqueles que apresentam mastite, diminuindo a contaminação dos animais sadios. O manejo de higienização dos tetos com o pré e pós-dipping deve ser rotina na ordenha da propriedade, procedimentos esses que têm como função a prevenção da mastite e a manutenção da qualidade do leite.

Os patógenos que causam as mastites são diversos, dentre eles podemos destacar as bactérias, que são os agentes de maior relevância, atingindo em torno de 80% dos casos. O tratamento deve ser fundamentado no tipo de microrganismo que está provocando a doença, sendo necessário a realização de testes periódicos no rebanho. Por sua vez, deve-se utilizar medicamentos eficazes e os mais indicados para cada caso, que sejam de alta permeabilidade na glândula mamária, associados a terapia antimicrobiana e anti-inflamatória sistêmica, quando necessário.

Uma das classes de antimicrobianos mais utilizadas para o controle das infecções intramamárias em bovinos é a dos Penicilinicos, na qual se inclui a Amoxicilina, um tipo de Penicilina sintética. Por sua vez, os Penicilínicos sozinhos possuem eficácia limitada a determinadas bactérias, devido ao fato de algumas delas produzirem enzimas conhecida como beta-lactamases, que destroem a Penicilina. Entretanto, quando se associa a Amoxicilina com o Clavulanato de Potássio, há a inibição das beta-lactamases, permitindo com que a Amoxicilina consiga combater de forma muito eficaz os agentes patogênicos da mastite resistentes aos Penicilínicos. Outra grande vantagem da Amoxicilina é o seu alto potencial de difusão na glândula mamária da vaca, visto sua característica físico-química de ser um ácido fraco, atributo ideal na terapia intramamária.

Concluindo, a mastite é impactante na bovinocultura leiteira e causa grandes perdas econômicas, tornando-se relevante conhecer suas causas, tratamentos, controles e seus métodos de prevenção. Neste último caso, o treinamento nas propriedades é o procedimento mais indicado para a redução de novos casos.

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Fonte: O Presente Rural
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