Bovinos / Grãos / Máquinas
Controle detalhado da fazenda garante melhores resultados
Anotar entradas e saídas, mortes e nascimentos, além de investimentos e ganho de peso são detalhes importantes e que garantem que o pecuarista ganhe mais lucro na atividade
O objetivo do produtor ao desenvolver a pecuária de corte na fazenda é ter lucro. Amar a atividade ou mesmo continuar o que é um negócio da família é importante, mas o lucro, em especial, é um forte fator que faz com que o produtor continue acreditando. E são diversos os modelos que podem ser seguidos sobre como aumentar os lucros na fazenda. A pergunta que o produtor geralmente faz é: como? Quem respondeu esta questão foi o CEO do BeefPoint e do AgroTalento, Miguel Cavalcanti, que falou sobre “como lucrar na pecuária de corte” durante o InterCort, que aconteceu em abril, em Cuiabá, MT.
Um ponto importante destacado pelo profissional e que deve ser o primeiro de conhecimento do produtor é que a pecuária é um negócio a longo prazo. “Por isso, é importante que o pecuarista pense a longo prazo”, diz. Ele comenta que a pecuária tem passado por uma realidade difícil de muito esforço e pouco resultado, muito trabalho para pouco lucro, mas é possível trabalhar para mudar este cenário, afirma.
Menos é menos, mais é mais
Cavalcanti conta que quem lucra menos, investe menos. “Se o pecuarista lucra menos, fica mais difícil de comprar, contratar e manter pessoal bom trabalhando, gera menos realização, satisfação e reconhecimento por parte dos funcionários, fica mais difícil fazer a sucessão familiar, além de ser mais difícil expandir. Essa é a realidade de quem está com o lucro baixo”, comenta. Ele diz que o lucro pode trazer diversas oportunidades para o pecuarista. “Uma fazenda com alto lucro traz satisfação, realização, reconhecimento. Permite que o pecuarista invista mais e faça crescer seu negócio. Permite que cresça o ativo e ele invista em uma equipe boa e estruturada. Se você tem mais lucro, você pode ter maior qualidade de vida”, destaca.
Ele comenta que o que tem visto é que não é somente a quantidade de esforço que gera resultado ou a quantidade de trabalho que gera lucro, mas sim uma questão estratégica. “Eu vejo muita gente tentando fazer o melhor e não conseguindo. Existe uma série de mitos sobre a pecuária que devem ser quebrados”, afirma. O primeiro deles, segundo Cavalcanti, é que a atividade é uma piada. “Dizem que a pecuária é tão boa de mexer que não precisa dar lucro. Isso serve como uma maneira de se consolar, se enganar. Já ouvi muito essa frase, mas acredito que ela é uma maneira de disfarçar a insatisfação. Eu não acredito nela”, conta.
Outro ponto destacado pelo profissional é sobre as conversas que geralmente rodeiam os pecuaristas. Entre os assuntos, de acordo com ele, está sempre se está chovendo, o preço do boi, sobre o peso ou rendimento e ganho de peso da boiada, ou ainda sobre peso do bezerro, desmama e taxa de prenhez. “Todos estes fatores são importantes e o pecuarista deve medir. Mas, qual foi o lucro do negócio? Qual é a margem? Quando você começa a mudar as perguntas, a conversa muda”, diz. Além do mais, ele acrescenta que uma armadilha que o pecuarista geralmente cai é acreditar que somente aumentando a produção ele terá mais lucro. “Isso não é verdade”, revela.
Cavalcanti destaca que muitos produtores querem aumentar o lucro, mas falam somente em aumentar a produção. “Aí a pergunta é: fazendas com maiores lotações ou produtividade são as que dão mais lucro? Quando vamos olhar os indicadores, nem sempre. Se você olhar as fazendas mais produtivas, algumas são muito lucrativas, já outras têm muito prejuízo”, conta. Ele reitera que o pecuarista deve estar com “o olhar e a língua no lucro”, não somente na produtividade.
Conversar com quem pensa e faz lucro
Um erro muito comum visto por Cavalcanti que é cometido por pecuaristas é que ele busca conselhos de lucratividade com quem não faz, mede ou pensa lucro. “Para mim, isso é você falar inglês com quem não fala inglês. Não tem nada para conversar”, afirma. Para ele, o jeito certo é primeiro o pecuarista decidir que vai agir. “Para agir e começar a gerar resultados, é preciso o pecuarista entender que a fazenda trabalha com duas moedas: a moeda dinheiro e a moeda gado. É preciso fazer, no mínimo, um balanço anual destas duas moedas, o quanto faturou em reais no ano, quanto gastou no ano, quanto rebanho aumentou ou diminuiu”, aconselha. Ele alerta que já viu muitas fazendas faturarem muito em reais, mas na hora de ver o rebanho, diminuiu muito e deu prejuízo. “Assim como já vi casos de fazendas que não tiraram muito, acharam que tinham prejuízo, mas no final da conta, o gado tinha aumentado”, conta.
Ele comenta que no final de tudo, é preciso que o pecuarista transforme ainda as duas moedas – reais e gado – em uma única moeda para fazer o balanço do ano e então dividir pela área da fazenda. “É relativamente fácil, mas é preciso anotar todos os faturamentos, desembolsos, todos os pagamentos e o rebanho do início e do final do ano. É fácil e simples”, informa. Segundo Cavalcanti, essa conta, do balanço de gado e reais, dividido pela área é o lucro do pecuarista por hectare/ano.
O especialista diz ainda que o pecuarista precisa buscar novos amigos, contatos, conversas, trocar experiências e aprendizado. “A pergunta sempre vai ser: como isso muda a rentabilidade do meu negócio? Como isso muda o lucro da minha fazenda? E não mais qual o peso que meu gado vai ganhar. É preciso perguntar para quem sabe qual resultado vai ter, porque você precisa de acompanhamento para fazer isso, além de um novo grupo de pessoas para interagir para aprender”, destaca.
Cavalcanti afirma que somente falando parece ser uma atividade simples, e por isso o pecuarista pode perguntar: o que vai mudar? “Quando o pecuarista tiver os números, os resultados em lucro em reais por hectare na fazenda, tudo muda a partir desse elemento. Isso porque a partir disso o produtor vai estar falando a língua da pecuária, do lucro. Quando tiver uma nova tecnologia, ele vai se perguntar não o quanto aumenta a produção, mas como isso impacta no lucro da fazenda. É isso que interessa”, afirma.
Para ele, ainda é preciso que os pecuaristas deixem de ser produtores, “mas para serem mais que isso. Para deixar de ser produtor você precisa saber seu lucro, medir, falar sobre ele, para você tomar decisões baseadas em como elas vão aumentar o lucro. Isso é simples, eficaz e diferente. Assim, você vai deixar de ser produtor rural e se tornar um lucrador rural”, enfatiza.
Anotando para obter resultados
Um bom exemplo de como gerar lucros e seguindo o conselho de Cavalcanti em anotar todas as entradas e saídas da fazenda é o pecuarista Rafael Sguissardi. A família possui três fazendas no Mato Grosso, onde mantém produção diversificada. Em uma área há somente cria, na outra recria de fêmeas e matrizes, e na terceira – que é a maior – ciclo completo, com confinamento e cria, recria e engorda, além da integração lavoura pecuária. O pecuarista conta que o pai sempre foi muito organizado, anotando em uma lista todos os números da fazenda, desde o nascimento e morte de animais até compra e vendas.
“Aos poucos começamos a implantar uma série de controles na fazenda. O mais importante deles foi a separação do gado em categorias, para melhor controle. Separamos então machos e fêmeas. Outro ponto foi que todo o mês o capataz deve anotar o extrato do gado de cada fazenda. É um forte controle que temos”, conta Sguissardi. Outras anotações que são feitas todos os meses nas fazendas é a movimentação. “Anotamos se morreu algum animal, qual foi, que dia, qual o motivo, além dos nascimentos, separando se foi macho ou fêmea, se houve transferência de animal entre as fazendas, as vendas, para quem vendeu, por quanto, qual era o peso do animal. Temos um banco de dados registrado mensalmente com todas as movimentações das fazendas”, informa.
Outro dado anotado pelo pecuarista é sobre a alimentação dos animais. Entre as anotações estão os lotes, o peso na última pesagem e a evolução do peso com o tempo. Sguissardi explica que dessa forma é possível atualizar ainda a suplementação dos animais. “Com estas planilhas fazemos os fechamentos mensais da evolução da fazenda e o planejamento do fluxo de caixa com essas projeções de ganho de peso”, diz. Dessa forma, o pecuarista sabe quando o animal será abatido e quando haverá dinheiro na propriedade.
Apesar das anotações ajudar bastante, Sguissardi comenta que é difícil anotar todas as movimentações do mês e acertar sempre. “Até hoje não conseguimos fechar 100%”, confidencia. Outro detalhe foi que por conta das anotações foi preciso aumentar a mão de obra nas fazendas.
Mas, mesmo com os pontos difíceis, foram muitos os aprendizados e ganhos. “Com o controle mais apurado da suplementação, houve uma redução na idade de abate dos animais. Isso nos proporcionou um maior número de abates por período. E como também aumentou os abates, foi possível aumentar o rebanho e o número de matrizes”, conta Sguissardi. Ele acrescenta que, além do mais, o controle intenso da suplementação é a prova de que o olho do dono engorda o boi.
O pecuarista conta do resultado da última safra. “Houve um lote de bois que abatemos com seis meses de idade e um peso de 500 quilos. Se dividirmos esse peso pela quantidade de dias de vida do animal, deu aproximadamente um quilo por cabeça/dia, sendo que terminamos ele em confinamento. Ele foi abatido com 18,6@ de carne, dessa forma produzimos um animal com 1,16@ cabeça/mês”, informa. Ele complementa ainda que com a suplementação forte de aumento de 50% na produtividade de @/hectare/ano o lucro na safra 2016/2017 foi de R$ 450 por hectare. “As nossas decisões são baseadas em números, no que estamos projetando. Elas são também fruto de investimentos. A nossa preocupação com a suplementação correta com cada lote é feita de acordo com o planejamento financeiro”, afirma.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


