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Bovinos / Grãos / Máquinas Mercado

Consumo mundial da soja deve ser maior que produção, com diminuição dos estoques finais

Mesmo com essa produção nos Estados Unidos, que não caiu muito, o mercado está em uma situação de balanço bem mais equilibrada e mais apertada

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Divulgação/MAPA

A soja é o principal produto das exportações brasileiras. E não somente exportador, hoje o Brasil é também o maior produtor da oleaginosa do mundo. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), somente na safra 2019/2020 o país obteve um novo recorde com a produção estimada em 124,8 milhões de toneladas de soja e ganho de 4,3% em relação à safra 2018/19. As estimativas mostram ainda que a safra 2020/2021 não será diferente, sendo que está prevista para 133,7 milhões de toneladas.

E com toda essa produção é importante que o produtor entenda como o mercado vem se comportando e quais são as projeções para os próximos meses. Segundo a analista de Inteligência de Mercado da Stonex, Ana Luiza Lodi, se olhar para o mercado da soja, o assunto que tem dominado o mercado internacional está muita relacionado a China e aos Estados Unidos. “A guerra comercial entre os dois países afetou fortemente o quanto a China comprou de soja dos Estados Unidos nos últimos anos”, explica. Porém, este cenário tem mudado após a assinatura da Fase 01 de um acordo em janeiro deste ano. “Apesar da dúvida se a China vai conseguir cumprir esse acordo, o país asiático vem comprando bastante soja dos norte-americanos”, diz.

Mas, apesar da demanda chinesa estar fortalecida, um ponto que merece a atenção neste cenário é o clima, afirma Ana Luiza. “Desde agosto as cotações internacionais da soja em Chicago estão em forte tendência de alta, ultrapassando a casa dos US$ 10 por bushel, além das vendas de exportação aceleradas nos Estados Unidos, com destaque para a China, temos que ver o que aconteceu em agosto com o clima no país. Tivemos um mês de agosto mais seco em importantes regiões produtoras, com destaque para o Estado de Iowa, que é um dos maiores produtores de grãos dos Estados Unidos, tanto de soja quanto de milho, e o clima foi seco. E no caso da soja a gente ainda tinha parte das plantas na fase de enchimento de grão, que é uma fase chave para o resultado final da produção das lavouras da oleaginosa. A estimativa do USDA é na casa do 116 milhões de toneladas, ela é acima do que vinha sendo trazido no começo da divulgação dos números da safra 20/21 e a produtividade, por mais que tenha havido perdas, é uma produtividade ainda bem elevada”, avalia.

A analista comenta que mesmo com essa produção nos Estados Unidos, que não caiu muito, o mercado está em uma situação de balanço bem mais equilibrada e mais apertada. “Conforme comentei, as vendas de exportação de 20/21 dos EUA está mais acelerada que nos últimos anos, já ultrapassando 43 milhões de toneladas. E destaque para a China, por mais que as vendas estejam adiantadas no geral, é a China que é a responsável pela maior parte desse adiantamento. Já foi negociado mais de 23 milhões de toneladas com a China”, diz.

Ela informa ainda que é preciso considerar que de tudo que já foi negociado dos EUA, tem mais de 10 milhões de toneladas onde não houve a indicação do destino. “Não se sabe com quem se negociou esses 10 milhões de toneladas. Dessa forma, o mercado trabalha com a hipótese de que uma parte dessas 10 milhões de toneladas também teria sido negociada com a China. Assim, realmente em comparação com os anos anteriores, nem se fala, não tem nem comparação o quanto as compras chinesas estão mais fortes. Mesmo em comparação com anos anteriores a guerra comercial, iniciada em 2018, as compras chinesas também estão muito fortes”, conta. Diante desse cenário, explica Ana Luiza, o USDA elevou a estimativa de exportação para os EUA na safra 20/21 para quase 60 milhões de toneladas.

Outro fator importante que merece atenção, comenta a analista, é que houve algumas perdas na produção da safra norte-americana porque havia o clima seco e teve uma queda considerável no percentual excedente, que passou da casa dos 74% das lavouras dos Estados Unidos consideradas boas ou excelente no começo de agosto para em outubro estar na casa dos 63%. “É um nível perto da média de cinco anos, muito acima do nível do ano passado, que em 2019 a safra americana realmente teve problemas sérios com clima, principalmente no começo da safra, com atrasos significativos no plantio. Mas foi o mês de agosto que mudou um pouco a chave da safra americana, apesar de ainda ser uma safra com um nível de produção bom”, avalia.

Olhando para o balaço completo 20/21 dos Estados Unidos, Ana Luiza diz que houve ajustes do USDA no relatório de outubro com relação ao de setembro. “Primeiro tivemos estoques iniciais menores, houve um ajuste após a posição trimestral dos estoques ter trazido um resultado um pouco aquém, indicando que o consumo da safra 19/20 foi um pouco maior. A área colhida recuou um pouco também. Assim, esse ajuste negativo que vemos na produção foi decorrente de área. Enquanto isso, a produtividade não mudou, sendo de 3,49 toneladas por hectare de média, igual a mais alta registrada há alguns anos. Então é uma produtividade muito boa, que poderia ser maior ainda caso não tivessem tido um mês de agosto com um clima aquém do ideal”, analisa.

Já quanto as exportações, a analista explica que o USDA elevou a estimativa dos EUA em pouco mais de dois milhões de toneladas. “Tudo isso combinado com a queda de produção e estoque inicial menor, resultou em um balanço bem mais restrito, com 7,9 milhões de toneladas de estoque nos Estados Unidos no final da safra 20/21 e uma relação de estoque/uso na casa dos 6%. Então é uma relação baixa que tende a coincidir com uma volatilidade maior no mercado”, informa. Ana Luiza diz que o mercado passou de um balaço dos Estados Unidos visto nos anos anteriores muito prejudicado e muito folgado, pela guerra comercial, pela falta da China comprar soja dos EUA em volume maiores, para um balaço que já está trazendo alguma preocupação com restrição de oferta.

Não é somente a questão de perda na safra americana que influenciou neste balanço, afirma a analista. “As fortes exportações são um fator centra. As estimativas apontam para uma importação chinesa na casa das 100 milhões de toneladas. O país está se recuperando da PSA, doença que dizimou em cerca de 48% o rebanho suíno chinês. E eles estão em uma recuperação acelerada. A estimativa é que já em 2021 eles possam atingir o número de matrizes a um nível pré-crise e a produção de carnes ode voltar a níveis antes da PSA já entre 2022 e 2023. Isso reforça que a demanda chinesa está acelerada, mostrando que as vendas brasileiras estão adiantadas e agora a dos Estados Unidos também”, afirma.

Dessa forma, comenta Ana Luiza, é possível observar que o mercado mundial passou de uma situação de estimativas que apontavam uma produção maior do que o consumo, mas com ajustes recentes e a perda da safra dos Estados Unidos e o consumo chinês aquecido, essa situação está se invertendo. “Atualmente a USDA estima que o consumo de soja fique acima da produção, contribuindo para a variação negativa nos estoques finais”, diz.

Perspectivas para a América Latina

Já a perspectiva para a safra brasileira é bastante positiva. “Mas o clima não tem ajudado nesse início de safra. Com o fim do vazio sanitário não houve chuvas e o clima estava quente e tudo isso está levando a um ritmo de plantio bem mais lento do que o esperado para essa época do ano”, comenta. A Conab indica uma safra de 132,6 milhões de toneladas para a safra 20/21 e uma área plantada de 38 milhões de hectares.

Já na Argentina, a Bolsa de Buenos Aires não se mostra tão otimista, explica Ana Luiza. “As estimativas estão na casa de 46,5 milhões de toneladas. Mas o USDA acredita em números mais fortes, uma vez que ano passado o país produziu mais que isso. Mesmo assim, eles estão com estimativas de uma produção menor, mesmo com um leve crescimento da área plantada. Isso também em decorrência do clima”, conta.

Dessa forma, explica a analista, mesmo com perspectivas de produção recorde no Brasil, o país enfrenta preços domésticos sustentáveis. “Vários fatores garantiram esse cenário. Se olharmos a evolução do preço doméstico em Paranaguá nos últimos dois anos, a tendência de alta permanece. Exportamos muita soja, estamos com exportação acumulada acima de 80 milhões de toneladas da safra 20/21. A comercialização está muito acelerada. Já comercializamos 53% da safra 20/21. Essa safra está sendo plantada agora, então quando a gente começar a colher no ano que vem a gente pode ter uma comercialização entre 60 e 70%”, explica.

Isto, informa Ana Luiza, vai depender do comportamento e do receio do produtor, se ele está com risco de quebra de safra, por exemplo. “Mas estamos com exportação forte, vendas aceleradas, tudo isso favorecido por um câmbio que continua elevado, com Real desvalorizado e dólar favorecido que deve continuar em patamares elevados. Então, tudo isso tem mantido os preços da soja muito fortalecidos no mercado doméstico, com uma oferta extremamente restrita atualmente e vai ter um estoque de passagem extremamente reduzido no momento onde não somente as exportações estão fortes, mas o consumo doméstico se recuperou do impacto inicial da pandemia do coronavírus, o auxilio emergencial ajudou, o mercado de biodiesel se recuperou mais forte que o esperado. Temos combinação de oferta restrita com demanda fortalecida tanto para exportação quanto pelo mercado doméstico”, diz.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Mercado

Aumento expressivo dos grãos gera descompasso com outras atividades

Saca de milho lidera valores significativos registrados de um ano para cá, com recorde de 259,46%; soja acumula alta de 85,14% e trigo subiu 51,66%

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Arquivo/OP Rural

Análise divulgada há pouco mais de uma semana pelo Sindicato Rural de Toledo, no Oeste do Paraná, destaca, comparativamente, os valores expressivos que as commodities tiveram de um ano para o outro. Considerando as datas de 23 de abril de 2020 e 23 de abril de 2021, o milho registrou o maior aumento, passando de R$ 37 a R$ 96, ou elevação de 259,46%. A saca da soja saltou de R$ 87,50 a R$ 162, ou 85,14% de elevação. Já o trigo avançou de R$ 60 para R$ 91 a saca, perfazendo 51,66% de aumento.

O preço do quilo do suíno pago ao produtor aumentou de R$ 3,61 para R$ 6,72 (86,14%), a arroba da vaca passou de R$ 170 para R$ 285 (67,64%) e a arroba do boi gordo aumentou de R$ 180 para R$ 300 (66,66%). Já o litro do leite pago ao produtor avançou de R$ 1,33 para R$ 1,60, o que significa 20,30% de expansão.

Descompasso

Para o presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, também no Oeste do Estado, Edio Chapla, o aumento das commodities ao longo dos últimos meses gerou discrepância em relação aos outros ramos da agricultura. “Desde o início de 2020 acompanhamos uma grande alta principalmente nas sacas do milho e da soja, o que motivou descompasso considerável nas outras atividades que dependem desses itens que fazem parte da ração para alimentar os animais”, expõe.

O que vem acontecendo desde o ano passado, pontua Chapla, é um aumento de custos ao agricultor em termos de aquisição de produtos e insumos diversos seja na parte agrícola, como adubos, nitrogenados, pois praticamente todos são importados e por isso cotados em dólar. “O alto valor dessa moeda também contribuiu à elevação de custos na aquisição desses produtos, assim como ao que diz respeito aos produtos veterinários utilizados nas atividades pecuárias”, observa.

Segundo ele, isso tudo gera maior desgaste ao produtor de leite, especialmente, porque a venda do leite do início do ano passado para este não teve aumento na mesma proporção do que os custos de produção da soja e do milho, incluindo o quesito forragem. “O produtor é quem mais sofre com essa questão da alta de preços, não tendo seu produto elevado a níveis que garantam receita e um bom resultado. Claro que nos suínos e nas aves também impacta, porque milho e soja representam em torno de 60% a 70% do custo total dos insumos de alimentação para esses animais”, pontua.

Chapla comenta que a indústria não tem como repassar este custo por não conseguir comprar com valor mais elevado, então não tem como fornecer aos produtos custos menores. “Além disso, a região tem parcerias com integradoras, que também têm custo elevado”, destaca.

Reajuste 

O presidente do Sindicato Rural lamenta o cenário atual para a bovinocultura. “A gente vê no mercado o leite praticado muitos anos a esse preço, a exemplo de derivados como o queijo. Muito queijo consta com valor agregado, talvez o consumidor vê como se o produtor ganhasse muito dinheiro. Acreditamos que o atacado esteja ficando com a fatia maior de resultado, portanto há desproporção de preços, mas não é o que a indústria e o produtor estão ganhando. Vamos ter de sentar com o varejo, com os supermercados, para alinhar esta questão e ver quais os custos para equilibrar esta cadeia para todo mundo ter resultado na atividade”, expõe.

Liquidez de mercado

Especialista em agronegócio, João Luiz Raimundo Nogueira afirma que os preços das commodities dos grãos estão nos níveis mais altos da história. “O milho a R$ 98 é algo que não poderíamos imaginar um ano e meio atrás, bem como a soja a R$ 162 a saca. Isso é devido à altíssima liquidez nos mercados interno e externo. Exportou-se muito no ano passado e neste ano o ritmo segue. O consumo interno aumenta, mesmo que a exportação tenha subido, pois tais insumos são usados na produção de carnes, lácteos e outros. Além do mais, países como a China não são autossuficientes na produção de insumos como milho e soja para atender a própria demanda na produção de carnes”, explica.

Nogueira destaca que Brasil e Estados Unidos se tornaram referências de produção para a China, assim como o Norte da África, para quem o Brasil exporta. “Temos no mercado uma liquidez sem precedentes, então não sabemos onde vai parar. O custo para quem produz carne e leite está muito elevado. Nós temos de levar em consideração na cadeia alimentar a produção, transformação e o consumidor que está dentro dessa cadeia alimentar, seja o externo, mas sobretudo o consumidor interno. Temos dificuldades em relação aos insumos básicos para produtos com maior valor agregado, o que gera mais empregos e renda, algo que precisamos muito no Brasil”, evidencia.

O complexo de produção nacional tem muita qualidade, avalia o especialista. Prova disso, aponta ele, é que o frango brasileiro é exportado para mais de 150 países. “Mas estamos com problema no abastecimento interno, que está chegando até o bolso do consumidor, que também faz parte dessa cadeia. Se torna sério porque a renda está baixa devido à pandemia do coronavírus e ao desemprego. Há um mês a Confederação Nacional do Comércio divulgou pesquisa na qual 63,3% das famílias brasileiras estão endividadas, e com dívida o consumo cai. No setor leiteiro, por exemplo, em que não existe exportação, há uma barreira na hora que chega ao consumo. O produtor é pressionado por baixo com consumo elevado e você tem uma demanda restrita pela baixa renda no mercado interno”, analisa.

Disparidade

Ele comenta que os preços pagos pelo suíno e frango aos produtores não acompanham o aumento de valores dos insumos. “Isso mostra que devemos cuidar um pouco mais dos nossos insumos. É preciso haver mecanismos para segurar parte dos insumos para o nosso abastecimento sem custo tão elevado na produção de carnes. Esse peso fica para os produtores de carnes. Os frigoríficos devem melhorar essa questão e o governo federal deve trabalhar melhor os estoques reguladores, assunto no qual historicamente há desempenho muito bom. Porém, de alguns anos para cá foi abandonada essa política de estoque regulador, que em momentos difíceis com escassez o governo abre mão dos estoques através de leilões, e com preço mais acessível ao pequeno produtor é possível reduzir um pouco as dificuldades que o produtor passa em momentos como este”, salienta.

De acordo com o especialista, não há como mensurar quanto tempo vai durar esse cenário, no entanto, tudo sinaliza que 2021 terá alta liquidez desses produtos nos mercados nacional e internacional em virtude da demanda. “Portanto, vamos passar por um ano muito difícil. Dependemos e muito dessa safra de milho que está em curso, todavia o clima seco é um problema e isso vai influenciar muito os preços. A safra de milho é importantíssima para o abastecimento interno. Além da safra norte-americana, que deve ser semeada entre o final de abril e o início de maio”, menciona.

Até a semana passada, informa Nogueira, regiões nos Estados Unidos apresentavam dificuldades de semeadura em virtude do clima muito gelado. “Precisamos acompanhar a nossa safra de milho que ainda tem caminho longo a ser percorrido, e com clima seco que preocupa, além da safra americana”, enaltece.

Essas variáveis que chegam aos agentes de mercado dão suporte aos preços. “Os três fatores são demanda aquecida, estoques baixos e clima que afeta a nossa safra de milho. Falta chuva e o mercado trabalha com essas informações, deixando o preço sustentado. Em função disso também há a expectativa da safra americana. A Argentina também está no radar dos grandes consumidores de milho, soja e trigo. E hoje os produtores de carne estão de olho no trigo para substituir o milho na formulação de rações”, comenta o especialista.

Ele espera, assim como todos os produtores da região, que o clima colabore daqui para frente. “É urgente que nos próximos dez dias ocorram chuvas de forma mais abrangente no Oeste”, frisa.

Fonte: O Presente
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Bovinos / Grãos / Máquinas Mercado Interno

Com oferta limitada, preço do leite reage e sobe 2,3% em abril

Esse valor é recorde para um mês de abril e supera em 28,4% o registrado no mesmo período de 2020

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Depois de acumular queda de 10,7% no primeiro trimestre do ano em termos reais (dados deflacionados pelo IPCA de março/21), o preço do leite captado em março e pago aos produtores em abril subiu 2,3% na “Média Brasil” líquida, chegando a R$ 1,9837/litro. Esse valor é recorde para um mês de abril e supera em 28,4% o registrado no mesmo período de 2020.

Segundo pesquisa do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, a inversão na tendência do preço se deve a um cenário de oferta limitada de leite no campo. O Índice de Captação Leiteira (ICAP-L) caiu 3,7% de fevereiro para março e já acumula queda de 8,8% desde o início deste ano.

Tipicamente, a partir de março, verifica-se redução no volume de chuvas e, consequentemente, menor disponibilidade de pastagens – cenário que prejudica a alimentação do rebanho e a produção de leite no Sudeste e Centro-Oeste. Assim, o avanço da entressafra da produção leiteira é, sazonalmente, um fator de desequilíbrio entre oferta e demanda e, portanto, de elevação de preços entre março e agosto. Contudo, neste ano, essa situação tem sido agravada por conta da valorização considerável e contínua dos grãos, principais componentes dos custos de produção da pecuária leiteira. Pesquisas do Cepea mostram perda substancial na margem do produtor nos últimos meses, o que tem freado investimentos na atividade, prejudicado o manejo alimentar dos animais e estimulado o abate de vacas.

Com a oferta de leite limitada, a competição das indústrias pela compra de matéria-prima se acirrou em março, levando, por conseguinte, à retomada dos preços pagos ao produtor em abril. As negociações do leite spot se elevaram nas duas quinzenas de março, e a média mensal superou em 10,4% a de fevereiro/21.

Nesse contexto, as indústrias tentaram repassar as altas nos preços dos lácteos negociados. A pesquisa do Cepea realizada com apoio financeiro da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) mostrou que os preços médios mensais do leite UHT e do leite em pó negociados junto ao atacado de São Paulo subiram 7,5% e 7,6%, respectivamente, de fevereiro para março. No caso do queijo muçarela, o movimento de valorização se intensificou a partir da segunda quinzena de março, de modo que, na média mensal, a tendência de alta não foi observada, e o preço do lácteo caiu 5% na mesma comparação (dados deflacionados pelo IPCA de março/21).

O setor lácteo atravessa um momento delicado: de um lado, os custos de produção elevam o preço do leite no campo e as indústrias precisam manter preços atrativos aos seus fornecedores; de outro, a grande pressão dos canais de distribuição dificulta o repasse da valorização da matéria-prima ao consumidor, que, por sua vez, está com menor poder de compra, diante do atual contexto econômico.

Apesar de haver, portanto, uma tendência de retomada dos preços do leite no campo, esse movimento de valorização deverá acontecer de forma comedida, sendo possivelmente freado pela demanda fragilizada.

Fonte: Cepea
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Bovinos / Grãos / Máquinas Sanidade Vegetal

Brasil desenvolve primeira soja com tecnologias para manejo de percevejo e ferrugem

Cultivar reduz o uso de químicos, diminuindo custos e impactos ambientais, além de despertar interesse do mercado orgânico

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Divulgação/Embrapa

Pesquisadores brasileiros desenvolveram a primeira cultivar de soja do País com as tecnologias Block e Shield embarcadas, ou seja, possui resistência à ferrugem asiática da leguminosa – a mais severa doença dessa cultura – e tolerância ao percevejo, considerado uma das principais pragas do setor. A nova soja BRS 539 já está disponível para a safra 2020/2021.

Desenvolvida em parceria entre a Embrapa e a Fundação Meridional, a BRS 539 é uma soja convencional que agrega a tecnologia Shield, linha de cultivares de soja que apresentam genes de resistência à ferrugem-asiática, oferecendo uma proteção extra para o produtor. A tecnologia não dispensa o uso de fungicidas, mas proporciona maior segurança no manejo da ferrugem da soja. “A cultivar Shield é uma ferramenta genética importante no contexto do manejo integrado. Essa tecnologia proporciona maior eficiência e segurança ao manejo químico da doença”, explica o pesquisador da Embrapa Soja Carlos Lásaro Pereira de Melo.

Outro diferencial é que a BRS 539 é do portfólio da tecnologia Block, presente apenas nas cultivares Embrapa. “As cultivares BRS com essa genética ampliam a proteção da lavoura ao ataque dos percevejos que sugam as vagens e os grãos de soja, provocando perdas de qualidade e produtividade. Apesar de não dispensarem o uso de inseticidas, as cultivares Block permitem melhor convivência com os insetos no campo”, explica Melo.

Características

Além de aliar as tecnologias Shield e Block, a cultivar apresenta alto potencial produtivo e manutenção de estabilidade de produção. Em testes experimentais realizados por três safras, em diferentes ambientes de produção das macrorregiões sojícolas (1 e 2), a BRS 539 mostrou altas produtividades. “Inclusive apresentou, em alguns desses ambientes, potencial produtivo acima de 90 sacas/ha (ou 5.400 kg/ha), superando as cultivares mais produtivas do mercado com as quais foi comparada”, relata Melo. Na safra 2019/2020, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a média de produtividade da soja brasileira foi de 3.379 kg/ha.

O pesquisador Rafael Petek reforça ainda que essa cultivar é convencional (não transgênica) e pertence ao grupo de maturidade 6.1. “É uma cultivar precoce, que permite semeadura antecipada, viabilizando plantio do milho safrinha na melhor época, nas regiões de indicação da cultivar na macrorregião sojícola 2 (Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul) e viabiliza a sucessão/rotação com culturas de inverno na macrorregião 1 (Paraná, Santa Catarina e São Paulo)”, detalha Petek ressaltando que a cultivar, além da ferrugem, também é resistente a outras doenças da soja como: cancro da haste, mancha “olho-de-rã”, podridão parda da haste, podridão radicular de Phytophthora e moderadamente resistente ao oídio e ao nematoide-das-galhas (Meloidogyne javanica).

Interessante à produção orgânica

A BRS 539 pode atrair o interesse dos produtores de soja em sistema orgânico, porque além de ser não transgênica, as características desse lançamento facilitam o manejo fitossanitário de pragas e doenças, portanto, podem reduzir o uso de químicos. “Dessa forma, entendemos que a BRS 539 pode viabilizar o cultivo do grão orgânico e ainda agregar mais rentabilidade ao produtor de soja orgânica”, destaca Melo.

Por ser uma cultivar convencional, a BRS 539 pode ser comercializada por trades brasileiras e internacionais para diferentes nichos de mercado que demandam soja não transgênica. A Integrada Cooperativa Agroindustrial, presente há 25 anos em 50 municípios do Paraná e de São Paulo, conta com cerca de 11 mil cooperados e é um dos exemplos que mantém um programa de bonificação para a soja convencional. Em 2020, a Cooperativa gerou 1,3 milhão de sacas de soja convencional, o que representa entre 5% e 6% do total de recebimento e pagou R$ 6,00 a mais por saca recebida. “Esse é um programa que existe há mais de 20 anos na cooperativa, de extrema importância para a Integrada porque cria fidelização e gera valor ao cooperado”, explica o gerente comercial da Integrada, Alcir Antônio Chiari.

Parceria

De acordo com Ralf Udo Dengler, gerente-executivo da Fundação Meridional, esse é um dos lançamentos que traz inovações tecnológicas. “Tanta inovação só é possível devido à expertise da equipe técnica e à variabilidade genética do Banco Ativo de Germoplasma, localizado na sede da Embrapa Soja, em Londrina”, ressalta Dengler. “Há 21 anos, temos muito orgulho de sermos parceiros fortes e atuantes nesse trabalho, que oferece aos produtores um portfólio completo de cultivares em todas as plataformas (convencional, RR e Intacta), com elevado rendimento (conceito TOP 5000), sanidade, estabilidade e adaptação às mais diferentes condições de solo e clima”, declara o executivo.  A Fundação Meridional atua em sete estados brasileiros (SC, PR, SP, MS, MG, GO e MT), por intermédio de 38 produtores de sementes.

Desempenho a campo

Produtores que usaram as sementes da BRS 539 em testes de avaliação comprovaram a alta performance dessa cultivar. A Sinovatec Produtos Agrícolas, de Medianeira (PR), por exemplo, avaliou 11 cultivares e a BRS 539 foi a campeã desse ensaio, indicando a relevância das tecnologias Shield e Block presentes na cultivar. Além de apresentar o rendimento mais elevado, de 78 sacas/ha, não houve necessidade de aplicação de fungicida e nem de inseticida, o que mostra o elevado potencial de sanidade da nova cultivar. Além de produzir mais, também impacta no custo de produção, porque reduz os gastos com produtos químicos.

A nova cultivar também apresentou seu excelente desempenho na propriedade do produtor Fabio Von Gaevernitz Tanja, de Cambira (PR), nesta safra 2020/21. Tanja semeou a BRS 539 em um hectare da propriedade para avaliar seu desempenho e o resultado foi surpreendente, com rendimento de 85 sacas/ha.

Fonte: Embrapa Soja
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CONBRASUL/ASGAV

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