Bovinos / Grãos / Máquinas
Conhecimento e tecnologia transformaram professora primária na Rainha da Soja
Referência em produtividade, Cecília Falavigna é exemplo quando o assunto é utilização de alta tecnologia na propriedade
Alta produtividade, sucesso e determinação. Estas são três palavras-chave quando a conversa é com a produtora Cecília Falavigna, de Floraí, PR, a Rainha da Soja. A reportagem de O Presente Rural conversou com a produtora, que não leva o título não à toa: Cecília é bicampeã de produtividade de soja no concurso organizado anualmente pela Cocamar, cooperativa da qual faz parte, e bicampeã no concurso de produtividade promovido pela Syngenta na região Sul do Brasil.
Cecília entrou no mundo do agronegócio como tantas outras mulheres: há 20 anos, após ficar viúva, se viu com duas propriedades rurais, herdadas do marido, para cuidar. Mesmo com três filhos pequenos em casa, a então professora de escola fundamental imergiu neste mundo até então totalmente desconhecido. “Logo no início eu não sabia o que era um alqueire de terra, não sabia o que significava arrendamento”, lembra. Na época, a produtora conta que foram muitos os conselhos que recebeu deixar que outros plantassem em suas terras, mas não cedeu. “Eu disse precisamente que não (arrendaria). Como faria algo com as minhas propriedades que eu nem sabia o que significava?”, conta.
Para conseguir tocar os negócios que até então eram conduzidos somente pelo marido, Cecília buscou apoio onde mais sentiu confiança: uma cooperativa. “Lá, fui recebida por dois funcionários que me explicaram exatamente o que era uma cooperativa, quais os conceitos e deveres, e passaram a me auxiliar a tomar conta das propriedades”, recorda. Depois disso, Cecília diz que passou a participar das palestras, capacitações e dias de campo feitos pela cooperativa. “A partir dali eu sabia que estava sendo bem acolhida e poderia trabalhar”, recorda.
Pouco tempo depois, a produtora passou a modernizar o parque de máquinas da propriedade, além de investir pesado no uso das tecnologias para aumentar a produtividade da fazenda. “Os funcionários que estavam na fazenda já sabiam como o trabalho funcionava, então somente o que eu fiz foi levar as novidades que haviam no mercado para eles”, diz. De acordo com Cecília, no início os funcionários não estavam habituados a trabalhar com estas inovações. “Estavam todos em uma zona de conforto, e no início foi complicado para saírem dessa zona de conforto. Mas agora eles estão muito mais receptivos e companheiros para mudar. Até porque, há incentivo, já que se eu tenho uma boa produção, eles também ganham mais, pois trabalho com porcentagem”, explica.
Cooperativa
Como não entendia muito sobre a forma de administrar a propriedade, foi em uma cooperativa que Cecília teve auxílio. Ela comenta que este foi e ainda é um diferencial fundamental para as atividades que ela realiza. “A cooperativa investe muito no produtor, ela procura te dar todo o respaldo necessário, em tudo aquilo que há necessidade”, comenta. Além do mais, a entidade ainda capacita os associados em forma cursos, palestras e dias de campo, afirma a produtora. “Eu não me vejo produzindo sem a cooperativa, porque eu compro todo o material que eu preciso lá e também quando colho entrego tudo lá. Na hora da venda pode ser um pouco mais complicado, porque você quer sempre um preço bom, mas os técnicos também te auxiliam com isso”, destaca.
Rainha da Soja
E as altas produtividades que Cecília tem na propriedade, de acordo com ela, são resultado das tecnologias que constantemente são aplicadas. “Logo no início, quando eu peguei a fazenda para cuidar, não sabia qual era a média de produção”, recorda. Porém, com o passar do tempo a produtora foi acompanhando e viu a média disparar de 105 para quase 200 sacas de soja por alqueire. “A cada ano que passava nós aumentávamos a produção da soja. Claro que houve épocas em que diminuía um pouco por conta do clima, mas sempre foi uma produção crescente”, afirma.
E os bons números eram resultados dos cuidados que a produtora tinha na propriedade. “Tudo o que aparecia de bom em relação a soja nós estávamos aplicando. Claro que com toda a mudança muitos funcionários ficavam desconfortáveis. Mas é preciso mudar, adotar novas tecnologias e se atualizar sempre. E como eu sempre fui muito curiosa, o que era novidade eu levava para a propriedade”, conta.
Cecília lembra que entrar no concurso da Cocamar para concorrer entre as maiores produtividades foi por experiência. “Ficamos quatro anos fazendo experimentos, e a cada ano que passava colhíamos um pouco mais. Então houve um ano em que eu fiz a proposta de que queria colher 200 sacas por alqueire. No primeiro ano chegamos a 195 sacas, no outro ano um pouco mais, e eu me perguntei o que estava faltando para chegarmos ao número que eu desejava”, conta. Ela informa que a cada ano foram melhorando a produtividade, utilizando para isso tecnologias, sementes geneticamente melhores e adubos especializados.
A produtora revela que para participar do concurso, assim como todos os outros participantes, reservou quatro alqueires de sua propriedade. “No primeiro ano em que ganhei eu colhi 105 sacas de soja por alqueire. Já no segundo ano foram 225 sacas”, informa. Cecília conta que neste ano ela não foi a vencedora do prêmio, brincando com as “adversárias”. “Deixei para outra pessoa ganhar, porque não pode ser sempre eu. Não posso ser egoísta”, brinca. Porém, destaca que mesmo não ganhando o concurso neste ano, o título de Rainha da Soja ainda é seu. “O ganhador deste ano colheu 223 sacas, eu quando ganhei foram 225. Então, o meu ainda é maior”, orgulha-se.
Os bons resultados não veem por sorte, afirma Cecília. “Não é somente comprar uma semente boa e colocar na terra. É preciso ver como este solo está, fazer análise, ver qual a necessidade ali”, diz. Hoje, a produtora planta 230 alqueires de terra, porém ressalta que para o concurso são somente quatro alqueires destinados. “Mas, do que experimento neste pedaço, posso ver o que dá certo e dar continuidade em toda a propriedade”, diz.
Mulheres do Campo
Cecília afirma que após receber as premiações, alguns agricultores começaram a ficar curiosos sobre a forma com que ela lida com a lavoura. “Muitos produtores vieram até a propriedade ver o que eu estava fazendo. Ainda existem alguns que não acreditam que uma mulher possa fazer isso. Mas eu afirmo que nós somos capazes igual a eles, é somente querer”, assinala.
Cecília comenta que passou a fazer parte dos concursos não para combater os homens, mas sim para que pudesse afirmar que utilizar tecnologias na propriedade realmente dá retorno. “E eu estou tendo esse retorno. E ele não é somente para mim, mas também para o meu país, porque somos nós que alimentamos ele e o restante do mundo. É preciso buscar tecnologia e acreditar naquilo que estamos fazendo, que isso traz resultado”, comenta. A produtora ainda acrescenta que ela possui este título por conta da alta produção que possui. “Eu não precisava desse título, não quero ser rainha, quero produção, resultados na minha fazenda”, afirma. Para ela, este título veio também pelo trabalho realizado pelos funcionários na propriedade. “Ninguém faz nada sozinha. Ali eu tenho os funcionários que cuidam da terra, colhem, fazem análise. É uma atividade que envolve diversas pessoas para dar certo”, diz. “Este título não é somente meu, mas sim de toda a equipe de trabalho”, afirma.
Senhora dos Pomares
Se engana quem pensa que Cecília investe somente nos grãos. No início, logo que começou as atividades na fazenda, a propriedade contava também com um espaço reservado para gado de corte. “Eu gostava e ainda gosto bastante do gado, é uma paixão que eu não sei explicar. Até cheguei a participar de leilões para adquirir o melhor animal”, diz. Porém, com o tempo deixou de trabalhar com esta atividade. “Eram 185 alqueires de terra. Chegaram a me aconselhar para plantar eucalipto ali, mas era uma terra tão fértil que eu recusei”, lembra.
Após algumas conversas com a cooperativa, foi esta que a ajudou na decisão do que fazer com aquele espaço de terra. “Há dez anos plantei laranja, que é uma cultura que dá um bom retorno. Não há um dia que me arrependa de ter plantado. Tenho até vontade de plantar mais”, cita. Cecília recorda que na época a cooperativa estava incentivando os produtores a plantar a fruta. “Eu passei quatro anos pesquisando. Fui conhecer pomares em outros produtores, fiz cursos, estudei o mercado, para onde iria esta laranja, além de saber sobre custos e rentabilidade da produção”, conta. Decidiu que onde antes estava o gado agora plantaria os pés de laranja. “Fui atrás do agrônomo da cooperativa especialista em laranja e então plantei 14 mil pés de quatro variedades”, diz.
Devido a boa matéria orgânica que já existia naquele pedaço de terra, a produção de laranjas foi um sucesso, fazendo com que a produção se mantivesse boa até hoje. Tempos depois a Cocamar iniciou um concurso para produção da fruta. E isso fez com que Rainha da Soja recebesse outro título, se tornando também a Senhora dos Pomares. “A minha produção sempre foi alta e por conta disso recebi diversos prêmios”, conta feliz.
Sucessão Familiar
E não somente com produção se preocupa Cecília. Há quatro anos ela vem delegando funções para o filho, para que no futuro ele tome conta da propriedade. “Estou passando para ele como as coisas funcionam e como devem ser feitas”, comenta. Para ela, é importante que o filho já saiba como a fazenda é administrada “porque é só fazendo que se aprende, só estando lá é que você vê como deve ser feito. Porque somente falar não adianta, é preciso estar junto” afirma.
De acordo com Cecília, a sucessão está sendo feita aos poucos, mas o filho já sabe os principais pontos para dar continuar às atividades da família. “Quando eu não estiver mais ele vai saber como dar continuidade. Porque quando eu peguei a propriedade não tinha conhecimento sobre nada”, conta. Mas, mesmo com esta dificuldade, a produtora conta que foi atrás de informação, ficou íntima da atividade rural e está no agro até hoje. “E vejo que, mesmo que meu filho é formado em Direito, ele já tomou gosto também pela atividade. E isso é sempre bom”, diz.
Com a utilização de altas tecnologias na propriedade e também a alta produção que Cecília sempre tem, para ela, este tipo de coisa é um incentivo para o filho continuar na propriedade. “Ele vê que é algo que dá certo, que existe um retorno. E quando os jovens percebem isso, é um incentivo para que fiquem na propriedade”, argumenta. A produtora ainda acrescenta que como a propriedade já conta com um moderno parque de máquinas e também um terreno pronto para trabalhar, basta o filho continuar fazendo o trabalho que já é desenvolvido.
Mulheres no Agro
E as diferenças sentidas por Cecília no decorrer dos anos quanto à presença da mulher no agronegócio são grandes. “Agora está bem mais forte. Há 20 anos não víamos esse movimento, a mulher não era valorizada de forma alguma. Mas hoje viemos lutando e a participação da mulher no agro é maior, e eu vejo que isto está repercutindo muito bem”, comenta. Para ela, atualmente a sociedade em geral está vendo que a mulher é tão capaz para realizar qualquer atividade quanto qualquer outro cidadão. “Não que eu seja autossuficiente para aquilo que eu estou fazendo, mas vejo que nós somos capazes de fazer tão bem tudo aquilo que qualquer outro faz”, afirma. “Eu estou fazendo melhor do que muitos homens, e sei que outras também podem fazer”, garante.
Mais informações você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de novembro/dezembro de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


