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Conflito no Irã traz riscos macroeconômicos e possíveis oportunidades comerciais ao Brasil
Especialistas apontam impacto no petróleo, no frete marítimo e no comércio global, mas veem espaço para avanço das exportações brasileiras.

A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã deve produzir efeitos relevantes sobre a economia brasileira, combinando riscos macroeconômicos e possíveis oportunidades comerciais. A avaliação é de dois especialistas que analisam o cenário sob as perspectivas tributária e de comércio internacional.
Para o advogado tributarista, especialista em Governança e Compliance, Luís Garcia, o Brasil é estruturalmente vulnerável às consequências do conflito. A principal preocupação está no mercado de energia, especialmente diante de eventuais tensões no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento global de petróleo. “O aumento do valor do barril gera pressão inflacionária imediata no Brasil, encarece combustíveis, eleva o frete e impacta os alimentos. Isso pode interromper a trajetória de queda dos juros e até pressionar por novas altas”, avalia.

Advogado tributarista, especialista em Governança e Compliance, Luís Garcia: “”O Brasil depende do transporte marítimo e é sensível à valorização do dólar, o que encarece importações e amplia a volatilidade” – Foto: Arquivo pessoal
Segundo ele, embora possa haver ganho pontual para a Petrobras com a valorização do petróleo no mercado externo, o efeito líquido para a economia tende a ser negativo. A alta do diesel e de outros derivados pressiona cadeias produtivas, reduz o ritmo da atividade econômica e pode afetar a arrecadação em um momento de necessidade de ajuste fiscal.
No comércio exterior, Garcia destaca três vetores de encarecimento: aumento do frete marítimo, elevação dos prêmios de seguro em razão do risco geopolítico e maior rigor no compliance bancário internacional com o avanço de sanções. “O Brasil depende do transporte marítimo e é sensível à valorização do dólar, o que encarece importações e amplia a volatilidade”, explica.
Sob a ótica do comércio internacional, Ricardo Inglez de Souza, mestre em Direito, especialista em Comércio Internacional e Direito Econômico, vê um cenário de riscos, mas também de reposicionamento estratégico. Ele aponta que, em momentos de instabilidade, países tendem a diversificar fornecedores e priorizar parceiros considerados estáveis. “O Brasil pode ocupar espaços deixados por fornecedores afetados direta ou indiretamente pelo conflito, especialmente em petróleo, minerais e alimentos”, ressalta.
Como exportador relevante de ferro, níquel, cobre, carne e soja, o país pode ampliar sua presença em mercados que busquem alternativas mais seguras. Souza enfatiza, contudo, que o ganho potencial não elimina os desafios. “A alta do petróleo encarece combustíveis no mercado interno e impacta transporte rodoviário, setor aéreo e cadeias logísticas. No agronegócio, fertilizantes e insumos importados de regiões afetadas também podem registrar aumento de preço”, pontua.

Mestre em Direito, especialista em Comércio Internacional e Direito Econômico, Ricardo Inglez de Souza: “A forma como o Brasil se posicionar institucionalmente e estruturar suas cadeias produtivas será determinante para transformar instabilidade global em ganho estratégico” – Foto: Arquivo pessoal
No plano financeiro, ele chama atenção para a política monetária dos Estados Unidos. Caso os juros permaneçam elevados ou sofram nova pressão, o fluxo de capitais para economias emergentes pode diminuir, pressionando o câmbio brasileiro.
No entanto, os especialistas frisam que o conflito expõe fragilidades estruturais da economia nacional, como dependência energética, exposição cambial e custos logísticos, mas também coloca o Brasil diante de uma encruzilhada estratégica. “Não estamos no centro do conflito, mas estamos no centro das consequências econômicas dele”, salienta Garcia. “A forma como o Brasil se posicionar institucionalmente e estruturar suas cadeias produtivas será determinante para transformar instabilidade global em ganho estratégico”, acrescenta Souza.

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Operação apreende 28 toneladas de defensivos agrícolas irregulares em Minas Gerais
Fiscalização em Patos de Minas também encontrou sementes e fertilizantes com indícios de irregularidades em galpão clandestino.

Nos dias 09 e 10 de março, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio do Programa de Vigilância em Defesa Agropecuária para Fronteiras Internacionais (Vigifronteiras), deflagrou a Operação “Dólos”, correspondente à Ronda Agro CXXIV. A ação foi realizada no município de Patos de Minas (MG) e teve como objetivo combater a falsificação e o comércio irregular de defensivos agrícolas.
Durante a operação, foram apreendidas aproximadamente 28 toneladas de defensivos agrícolas com indícios de irregularidades em um galpão utilizado para armazenamento clandestino, sem registro nos órgãos competentes. Parte dos produtos estava acondicionada em galões sem qualquer tipo de rotulagem, o que indica possível falsificação ou irregularidade na comercialização.
No mesmo local, os fiscais também encontraram outros insumos agrícolas com indícios de irregularidades, entre eles sementes, totalizando 10,5 toneladas, e fertilizantes, que somaram 20,5 toneladas.
A operação foi realizada de forma integrada entre o Mapa, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A ação contou ainda com o apoio da Polícia Civil de Patos de Minas (MG), da Seção de Inovação Tecnológica da Superintendência de Inteligência Integrada da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SIT/SII/SSP-GO) e do Centro Integrado de Inteligência, Segurança Pública e Proteção Ambiental (CIISPA), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
De acordo com Marcela Ferreira Rocha, coordenadora de Fiscalização de Agrotóxicos do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), a apreensão de agrotóxicos falsificados na operação demonstra a importância da fiscalização para proteger a saúde da população, o meio ambiente e a produção agrícola.
Além das penalidades legais, o uso de produtos falsificados ou irregulares pode causar danos irreversíveis às lavouras, contaminar o solo e os recursos hídricos e comprometer a credibilidade da produção agrícola mineira.
No local, foram adotadas medidas administrativas, como a interdição e autuação do estabelecimento, além do início dos procedimentos relacionados à apuração criminal. O prejuízo estimado aos infratores, considerando o valor dos produtos apreendidos, ultrapassa R$ 3,2 milhões.
“Os resultados das operações de coerção a ilícitos agropecuários reforçam a importância da cooperação entre os diferentes órgãos de fiscalização e forças policiais, fortalecendo o combate ao comércio ilegal e ampliando a capacidade do Estado de coibir práticas criminosas”, ressalta a diretora do Departamento de Serviços Técnicos da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa, Graciane Castro.
As operações conduzidas pelo Vigifronteiras são estratégicas para retirar de circulação insumos agrícolas irregulares, que não apresentam garantia de qualidade e podem representar riscos aos produtores rurais, à sanidade vegetal, ao meio ambiente e à saúde pública. As ações também reforçam o compromisso do Mapa com a prevenção e repressão às práticas ilegais no comércio de insumos agropecuários.
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Brasil e Angola discutem cooperação para impulsionar produção agrícola
Reuniões em Brasília tratam de investimentos, transferência de tecnologia e desenvolvimento de projetos produtivos no país africano.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) recebeu, na última terça-feira (10), em Brasília, uma delegação do governo de Angola para discutir o Programa de Investimento Produtivo Agropecuário Brasil-Angola. O encontro marcou o início de uma série de reuniões técnicas realizadas entre os dias 10 e 12 de março, voltadas à construção de um modelo de cooperação bilateral para o desenvolvimento do setor agrícola angolano.
A reunião foi conduzida pelo secretário-adjunto de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi. A proposta do programa é estimular investimentos privados, promover a transferência de tecnologia e ampliar o compartilhamento de conhecimento técnico do Brasil, com foco no fortalecimento da produção agrícola em Angola e no avanço da cooperação técnica, comercial e institucional entre os dois países.
Durante o encontro, Billi apresentou a experiência brasileira no desenvolvimento da agropecuária nas últimas décadas. Segundo ele, avanços científicos na correção de solos, adaptação de cultivares e melhoramento genético animal, aliados a políticas públicas como o Plano Safra e o zoneamento agrícola de risco climático, contribuíram para elevar a produtividade do setor no país.
O assessor especial do Mapa, Carlos Ernesto Augustin, destacou que a cooperação agrícola entre Brasil e Angola pode ser favorecida pelas semelhanças climáticas e agroecológicas entre os dois países, além da proximidade cultural e linguística. De acordo com ele, mais de 20 produtores rurais brasileiros já demonstraram interesse em investir no território angolano.
Representando o governo de Angola, o secretário de Estado para a Cooperação Internacional e Comunidades Angolanas, Domingos Custódio Vieira Lopes, afirmou que a parceria com o Brasil pode contribuir para a modernização da agricultura no país africano. Segundo ele, a cooperação abre oportunidades para transferência de tecnologia, capacitação profissional, desenvolvimento de cadeias produtivas e ampliação da produção agrícola.
Pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), o secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura, Laudemar Gonçalves de Aguiar Neto, ressaltou que o programa também pode ampliar o fluxo de investimentos, bens, serviços e tecnologia entre os dois países. Ele destacou ainda que as semelhanças entre o Cerrado brasileiro e a savana angolana favorecem a adaptação de tecnologias agrícolas desenvolvidas no Brasil.
Durante o encontro, as delegações analisaram os principais pontos da proposta brasileira para o programa. A iniciativa prevê a disponibilização de áreas agricultáveis, a criação de linhas de crédito, o estabelecimento de marcos regulatórios para garantir segurança jurídica aos investimentos e a transferência de tecnologias voltadas à produção agrícola sustentável.
Entre as condições discutidas está a disponibilização inicial de 20 mil hectares para a produção de grãos. A proposta também inclui garantias para operações de financiamento, participação de instituições financeiras locais, autorização para o uso de sementes com biotecnologia e mecanismos que permitam a exportação de parte da produção.
O modelo prevê ainda a participação de produtores brasileiros no desenvolvimento agrícola das comunidades locais, com oferta de assistência técnica, parcerias com escolas técnicas para capacitação profissional e implantação de agrovilas com infraestrutura básica. Parte da produção deverá ser destinada ao abastecimento do mercado interno angolano.
As delegações dos dois países devem continuar as discussões técnicas nos próximos dias para avançar na definição do marco institucional e operacional do Programa de Investimento Produtivo Agropecuário Brasil-Angola.
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Capacitação e gestão impulsionam permanência de jovens no meio rural
Projetos de formação mostram que planejamento sucessório e profissionalização podem garantir continuidade da agricultura familiar.

No Brasil, apenas 30% das propriedades rurais familiares chegam à segunda geração e menos de 5% à terceira, de acordo com o IBGE. Embora mais de 80% das propriedades rurais sejam administradas por famílias, a transição entre gerações é frágil e muitas vezes interrompida por falta de planejamento sucessório, migração urbana e limitações de acesso a crédito e tecnologia.
Além disso, dados do Censo Agropecuário indicam o envelhecimento progressivo da população rural, com crescimento no número de produtores acima dos 55 anos, enquanto a presença de jovens ainda é limitada.
Pesquisa realizada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que grande parte dos jovens rurais demonstra interesse em permanecer no campo, desde que tenha acesso a capacitação, renda e perspectivas de desenvolvimento profissional. O estudo reforça que a sucessão rural está diretamente ligada à qualificação e à gestão eficiente das propriedades.

Rafael Elias Muller: “No início, eu ainda não sabia muito bem o que queria e reconhecia pouco as potencialidades do meio rural. Por meio dos estudos, percebi a riqueza da nossa propriedade rural e as possibilidades de empreender”
Diante desse cenário desafiador, algumas cadeias produtivas têm buscado estruturar mecanismos de estímulo à permanência dos jovens no campo, investindo em qualificação, planejamento sucessório e profissionalização da gestão. Iniciativas articuladas entre produtores, empresas e instituições de formação vêm demonstrando que, quando há apoio técnico e perspectivas econômicas claras, a sucessão rural deixa de ser um problema estrutural e passa a ser um processo organizado.
Na Região Sul do País, a cadeia produtiva do tabaco tem apresentado exemplos consistentes dessa transição geracional, com jovens que lideram transformações produtivas e a diversificação, profissionalizam a gestão das propriedades e incorporam tecnologias e práticas sustentáveis que ampliam a competitividade dos empreendimentos familiares.
É nesse contexto que o Instituto Crescer Legal atua na formação de jovens do meio rural, promovendo o desenvolvimento de habilidades profissionais, gestão empreendedora e desenvolvimento de competências que fortalecem a sucessão como processo planejado. “Ao estimular que os jovens rurais fortaleçam a sua identidade, valorizem os conhecimentos da sua família e se reconhecem enquanto agentes de transformação em suas comunidades, o Instituto proporciona que eles vislumbrem no meio rural a possibilidade de construírem os seus projetos de vida”, explica a gerente Nádia Fengler Solf. “O nosso Programa de Aprendizagem Profissional Rural proporciona uma abertura de novos horizontes, de possibilidades para o futuro dos jovens. E ao fomentar o trabalho colaborativo, a pesquisa e a inovação permite que eles estejam preparados para fazer boas escolhas e reconheçam a importância de continuar buscando conhecimento técnico e acadêmico para desenvolver as suas atividades de forma sustentável no campo”, acrescenta.
Um exemplo desse impacto é de Rafael Elias Muller, de 20 anos. Filho de produtores de tabaco, ele ingressou aos 16 anos no curso de Gestão Rural e Empreendedorismo do ICL como Jovem Aprendiz Rural em Paraíso do Sul (RS).
“No início, eu ainda não sabia muito bem o que queria e reconhecia pouco as potencialidades do meio rural. Por meio dos estudos, percebi a riqueza da nossa propriedade rural e as possibilidades de empreender, o que despertou em mim o interesse em ser o futuro sucessor dos negócios da família”, conta Rafael.

Josemir Gabriel Pinz Blank: “Tudo o que aprendi ficará para sempre como uma base sólida que vou levar para a vida e que continuará trazendo benefícios para toda minha família”
Hoje, o jovem produtor rural atua na produção de tabaco, milho, hortaliças e outras culturas ao lado da família e planeja consolidar seu projeto de vida no campo. Além da decisão de permanecer na atividade rural, Rafael destaca ganhos comportamentais e de gestão proporcionados pela formação, como melhoria na comunicação, convivência em grupo e entendimento da importância da gestão eficiente, diversificação de plantio e adoção de tecnologias.
Outro exemplo é de Josemir Gabriel Pinz Blank, egresso da turma de 2023 do Programa de Aprendizagem Profissional Rural em São Lourenço do Sul (RS). A participação no curso ampliou horizontes e fortaleceu a autoestima do jovem, ao mesmo tempo em que valorizou o trabalho desenvolvido na propriedade de sua família.
Josemir desenvolveu um projeto voltado à ampliação do pequeno orquidário existente na propriedade. O trabalho final foi premiado em um programa de financiamento e o jovem conseguiu recursos para expandir a produção. A expansão está programada para o primeiro trimestre de 2026. “Tudo o que aprendi ficará para sempre como uma base sólida que vou levar para a vida e que continuará trazendo benefícios para toda minha família”, afirma o jovem.
Avaliação de impacto realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) aponta que o Programa de Aprendizagem Profissional Rural do Instituto Crescer Legal contribui para o aumento da intenção de permanência dos jovens no meio rural, fortalece competências empreendedoras e gera impactos positivos também na gestão das propriedades familiares.
O Programa de Aprendizagem Profissional Rural já certificou mais de 1.200 jovens em Gestão Rural e Empreendedorismo desde a sua implantação. “Focamos na qualificação de adolescentes do meio rural por meio de atividades práticas e teóricas no contraturno escolar. A formação integra educação contextualizada, gestão e empreendedorismo, e fortalece as competências necessárias para que os jovens enxerguem sua permanência no campo como uma trajetória profissional viável e gratificante”, explica Nádia Solf.
Ao investir no desenvolvimento de jovens aprendizes rurais, o Instituto Crescer Legal contribui para transformar um desafio histórico do campo brasileiro em oportunidade de renovação e fortalecimento da agricultura familiar, mostrando que a sucessão rural pode deixar de ser um entrave e se tornar um diferencial competitivo para o campo brasileiro.



