Bovinos / Grãos / Máquinas Editorial
Confinamento muda a lógica da pecuária brasileira
Crescimento da terminação intensiva redefine ritmo de produção e amplia eficiência no setor bovino.

Durante décadas, a pecuária brasileira foi organizada em torno de um sistema extensivo baseado no pasto e em ciclos longos de produção. Esse modelo continua dominante, mas já não explica sozinho o funcionamento da cadeia da carne bovina no país. Nos últimos anos, o confinamento deixou de ser apenas uma solução para períodos de seca ou escassez de forragem. A terminação intensiva passou a ocupar papel estrutural dentro de muitas operações pecuárias, principalmente como ferramenta para acelerar o giro do rebanho e padronizar carcaças.
Os números confirmam essa mudança. Em 2025, o Brasil alcançou 9,25 milhões de bovinos confinados, crescimento de 16% em relação ao ano anterior, segundo o Censo de Confinamento apresentado pela dsm-firmenich. Mais do que um salto pontual, o dado reforça uma trajetória de expansão contínua ao longo da década.

Editorial escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural
O avanço do confinamento está diretamente ligado à intensificação produtiva da pecuária. Animais mais precoces, dietas mais eficientes e integração com a produção de grãos reduziram o tempo necessário para levar o bovino ao peso de abate.
O confinamento está deixando de ser apenas uma etapa final da produção e passa a funcionar como ferramenta de gestão. Ele permite ajustar o ritmo da oferta de animais, liberar áreas de pastagem e reduzir a exposição do sistema produtivo às variações climáticas.
Outra transformação relevante é o surgimento de estruturas especializadas que recebem animais de diferentes produtores. Os chamados boitéis transformam o confinamento em prestação de serviço e ampliam rapidamente a capacidade de terminação do setor sem exigir que cada pecuarista invista em estruturas próprias.
Esse movimento indica uma pecuária cada vez mais organizada em torno de eficiência produtiva e gestão econômica. O pasto continua sendo a base do sistema, mas o confinamento passa a definir o ritmo final da produção.
A tendência sugere que a pecuária brasileira caminha para um modelo híbrido: produção a pasto durante a maior parte do ciclo e terminação cada vez mais concentrada em sistemas intensivos.
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Bovinos / Grãos / Máquinas
Centro de Excelência em Leite avança para fase de construção no Paraná
Edital de licitação prevê a implantação do complexo em Castro, com capacidade para formar 500 profissionais por ano.

O Sistema Faep, em parceria com o Sistema CNA, publicou o edital para a construção do Centro de Excelência em Leite, futuramente localizado em Castro, na região dos Campos Gerais, no Paraná. A licitação acontece na modalidade concorrência, do tipo menor preço global. As empresas interessadas devem entregar os documentos de habilitação e propostas de preço na sede do Sistema Faep, em Curitiba, às 9 horas do dia 15 de julho.

Ágide Eduardo Meneguette, presidente interino do Sistema Faep:“Esta é mais uma etapa importante no processo de construção do Centro de Excelência em Leite, que vai transformar ainda mais a cadeia do leite no Paraná e no Brasil”
“Esta é mais uma etapa importante no processo de construção do Centro de Excelência em Leite, que vai transformar ainda mais a cadeia do leite no Paraná e no Brasil. Afinal, vamos formar profissionais de todos os cantos do país”, destaca o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “Construir o Centro de Excelência em Leite significa modernizar ainda mais a atividade, produzindo conhecimento e formando profissionais especializados”, complementa.
A empresa contratada deverá fornecer material, mão de obra e todos os equipamentos necessários à realização dos serviços, conforme previstos no edital. O prazo de execução da obra é de três meses corridos. Caso deseje, o licitante pode realizar uma vistoria técnica para verificar as condições do local. A visita deve ser agendada por telefone (confira informações de contato no edital).
A estrutura terá 4,3 mil m² de área construída em um terreno de quatro hectares, anexo ao Parque Tecnológico da Agroleite, em Castro. O projeto prevê oito blocos, que abrigarão salas de aula, laboratórios, biblioteca, refeitório, salas administrativas, entre outros espaços. O complexo seguirá a identidade visual dos prédios da Agroleite, que incorporam elementos da arquitetura holandesa, fortalecendo o vínculo com a comunidade local.
O complexo educacional ofertará cursos de especialização em Bovinocultura de Leite e técnico em Agropecuária, ambos reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC). A expectativa é formar 500 profissionais anualmente.
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Tecnologia orienta acasalamentos e fortalece melhoramento do Gir Leiteiro
Software calcula o grau de consanguinidade dos futuros animais, filtra doenças hereditárias e auxilia produtores na escolha dos reprodutores.

A busca pelo ganho genético na pecuária leiteira ganhou um aliado tecnológico que une a precisão dos dados biológicos à sustentabilidade dos rebanhos. Trata-se de um novo sistema (software) de simulação de acasalamentos que amplia a eficiência da seleção genética e controla a endogamia (consanguinidade) na raça Gir Leiteiro. A inovação foi desenvolvida em parceria entre a Embrapa Gado de Leite (MG) e a Associação Brasileira de Criadores de Gado Gir Leiteiro (ABCGIL).

Foto: Humberto Nicoline
Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite João Cláudio Panetto, a ferramenta atua como um consultor digital para o produtor, cruzando informações de valores genéticos estimados e de parentescos genômicos para indicar os acasalamentos mais produtivos e geneticamente seguros.
A endogamia é um subproduto natural da seleção intensa, afirma o também pesquisador da Embrapa Gado de Leite Marcos Barbosa da Silva. Ele explica que ao utilizar repetidamente os touros líderes de sumários (catálogos técnicos que reúnem os resultados de avaliações genéticas de bovinos) para acelerar a produção de leite, a base genética da raça tende a estreitar. “O grande risco é a chamada depressão endogâmica, que provoca o efeito inverso do desejado”, afirma. Entre esses efeitos estão a perda de fertilidade, redução na persistência da lactação, menor longevidade das vacas e o aparecimento de anomalias genéticas.
O novo software mitiga esse risco na origem. Ao simular o acasalamento de uma matriz com um touro do sumário, ou mesmo de um touro que ainda vai ter seus resultados publicados nos próximos anos, o sistema calcula instantaneamente o coeficiente de consanguinidade do futuro produto. Caso o índice ultrapasse os limites biológicos recomendados, o programa emite um alerta, permitindo ao produtor escolher alternativas de reprodutores que mantenham o ganho genético sem comprometer a saúde do plantel.
Além do pedigree
A inteligência analítica, segundo Panetto, estruturada pelo Laboratório de Bioinformática permite que a ferramenta entregue soluções que vão além do controle de parentesco. Entre eles destacam-se:
* Otimização pelo novo IPGL – O sistema calibra as sugestões com base no Índice de Produção do Gir Leiteiro (IPGL) reformulado, equilibrando volume de leite, sólidos (gordura e proteína) e precocidade sexual.

Foto: Rubens Neiva
Filtro de doenças hereditárias – Todos os touros são testados e livres de mutações recessivas para enfermidades fatais ou debilitantes, como DUMPS (Deficiência da Uridina Monofosfato Sintase), CVM (Doença do Complexo de Má Formação Vertebral)e BLAD (Deficiência de Adesão Leucocitária Bovina).
* Segmentação para qualidade do leite – Permite filtrar reprodutores com base na genotipagem para as variantes de beta-caseína (produção de Leite A2) e kappa-caseína, esta última diretamente ligada ao maior rendimento na fabricação de queijos.
* Predição para Fertilização In Vitro (FIV) – O software incorpora estimativas genéticas voltadas para a eficiência reprodutiva das doadoras (produção de óvulos), atendendo a uma demanda central dos criadores que utilizam biotecnologias de reprodução assistida.
Pecuária de Precisão
O papel do Laboratório de Bioinformática e Genômica Animal reforça a transição da pesquisa agropecuária tradicional para a era da bioeconomia digital. Ao centralizar as análises no LBGA, a Embrapa assegura que os modelos preditivos acompanhem a evolução demográfica da raça em tempo real.
Para os criadores associados à ABCGIL, a tecnologia representa a democratização do melhoramento genético de precisão. O acesso rápido a relatórios de simulação mitiga o erro na fazenda, reduz custos com descartes involuntários e consolida a competitividade do Gir Leiteiro no cenário nacional e internacional.
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Certificação sustenta expansão do mercado brasileiro de leite A2
Instituto de Zootecnia atende algumas das principais empresas do setor e assegura a autenticidade dos produtos antes de chegarem ao consumidor.

O Instituto de Zootecnia (IZ-APTA), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é referência nacional na certificação de leite A2. O instituto atende algumas das principais marcas brasileiras do segmento, entre elas Letti, Xandô e Fazenda Bela Vista, empresas que estão entre as principais do mercado nacional. A instituição garante que o leite A2 que chega às gôndolas do mercado tenha sido submetido a análises laboratoriais que comprovam suas características.
O instituto garante segurança ao consumidor, agrega credibilidade aos produtos e contribui para o fortalecimento e a expansão desse nicho no país. “A maior parte dos produtos comercializados com essa certificação no país é validada pelo trabalho desenvolvido aqui. Por meio do trabalho do IZ, realizamos análises que comprovam que o leite é efetivamente do tipo A2, para algumas das principais empresas do setor”, comenta o pesquisador Aníbal Vercesi Filho, diretor técnico da Divisão de Genética e Biotecnologia do instituto que é referência em estudos na área.
Benefícios da ingestão e importância da certificação

Foto: Divulgação
O leite A2 tem despertado interesse de consumidores por não conter a proteína beta-caseína A1, diferente do leite convencional, que normalmente apresenta uma combinação desta e outras proteínas. Estudos comprovam que pessoas com sensibilidade à proteína A1 apresentam melhor digestibilidade e menos desconfortos gastrintestinais ao consumir leite A2, preservando as características nutricionais do produto.
Com o consumo do leite A2 ganhando relevância em virtude de sua maior digestibilidade para pessoas sensíveis a proteínas presentes no leite mais comum, a certificação dos produtos realizada pelo IZ torna-se parte essencial do processo, ao garantir que o consumidor esteja consumindo de fato o que procura. “A indústria envia periodicamente amostras dos produtos para análise. No caso do leite, por exemplo, é enviada uma amostra identificada com lote, data de fabricação e todas as informações necessárias para rastreabilidade”, explica Vercesi.
Uma vez que o tipo de leite produzido depende do perfil genético da vaca, o pesquisador conta que o IZ oferece também a certificação dos animais produtores de leite A2. “É possível, por exemplo, analisar o material genético de um animal para verificar se ele possui características associadas à produção de leite A2”, salienta.
Leite A2 fomentando políticas públicas

Foto: Fredox Carvalho
A atuação com o tema começou aos poucos no IZ, mas ganhou corpo e hoje vem atingindo grandes feitos, tendo conquistado a confiança do setor privado e inspirado também políticas públicas. “Um caso muito interessante é o de Novo Horizonte, que implantou um programa de distribuição de leite A2 para creches, hospitais e outras instituições públicas”, comenta o pesquisador.
Atendendo crianças, pacientes em tratamento e pessoas em situação de maior vulnerabilidade, a política pública estruturada pelo município conta com acompanhamento técnico e monitoramento dos resultados. “Atualmente são distribuídos cerca de 10 mil litros de leite A2”, contabiliza Vercesi, acrescentando que cidades vizinhas já começam a se inspirar pelo programa.
Laticínios de búfalas
Além de todo trabalho com o leite A2, outro número chama atenção no IZ. O instituto participa de 100% das certificações de produtos bubalinos no Brasil. “Isso inclui principalmente produtos lácteos, mas também temos tecnologia para certificar carne de búfalo quando necessário”, detalha o especialista.

De acordo com ele, se um produto é comercializado como sendo de búfalo, o Instituto consegue comprovar cientificamente essa informação, garantindo que não haja fraudes, como misturas de matérias-primas de outra origem, por exemplo. O Instituto participa ainda da certificação de novos produtos para entrarem no mercado, como o lançamento recente de leite em pó de búfala.
Também no caso das búfalas, a genética pode ser usada para identificar animais com aspectos produtivos desejados, trazendo mais ganhos ao produtor. “Existe um exame genético que identifica animais com potencial para produzir leite com características mais adequadas para a fabricação de queijos, o que pode refletir em um rendimento até 10% maior”, menciona Vercesi.
Para o pesquisador, sem todo o trabalho de validação realizado pelo IZ o mercado dependeria exclusivamente de certificações privadas, dificultando o acesso ao mercado por parte dos produtores. O Instituto surge como uma alternativa pública, técnica e reconhecida pelo setor. “Nosso papel é gerar conhecimento, desenvolver tecnologia e oferecer ferramentas de certificação que dão segurança ao consumidor e agregam valor aos produtos”, expõe Vercesi.
Instituto de Zootecnia
O Instituto de Zootecnia (IZ) é vinculado à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo responsável por coordenar a pesquisa científica agropecuária paulista.
Com atuação voltada ao desenvolvimento de tecnologias para a produção animal, o instituto realiza pesquisas em áreas como genética e melhoramento animal, biotecnologia, nutrição, manejo de pastagens, qualidade do leite, reprodução e sustentabilidade, contribuindo para o aumento da produtividade, da competitividade e da inovação na pecuária brasileira.



