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“Complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira”, defende pesquisador da Embrapa

Avanços tecnológicos e apagão na mão de obra devem marcar a pecuária de corte nos próximos 20 anos

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Área utilizada para pasto passou de 191,3 milhões de hectares em 1990 para 165,2 milhões de hectares em 2020, redução de 13,6% - Foto: Shutterstock

Desempenhar uma atividade de produção agropecuária de forma sustentável é um desafio enorme para produtores rurais, especialmente enquanto ainda são sentidos os efeitos da pandemia e da guerra na economia mundial. No setor da pecuária de corte não é diferente. Os desafios para produzir de forma sustentável, considerando o aspecto social, econômico e ambiental, são inúmeros.

Pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do CiCarne, Guilherme Malafaia: “A sustentabilidade vem permeando a história da pecuária de corte brasileira, diferentemente daquilo que alguns tentam nos pintar de uma realidade que não somos” – Foto: Arquivo pessoal

O assunto foi debatido durante o 13ª Prosa de Pecuária, live realizada pelo Instituto Desenvolve Pecuária. A palestra “Sustentabilidade e os desafios futuros para a cadeia produtiva da carne bovina” foi apresentada pelo pesquisador e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina da Embrapa Gado de Corte, Guilherme Malafaia. Para ele, a complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira.

Segundo o pesquisador, nas últimas quatro décadas a cadeia produtiva de carne bovina passou por uma modernização revolucionária, sustentada por avanços tecnológicos dos sistemas de produção e em sua organização. “Com claro reflexo na produtividade, na qualidade da carne e, consequentemente, no aumento da competitividade”, destaca.

De acordo com ele, a sustentabilidade sempre esteve presente na pecuária de corte brasileira ao longo dos quarenta anos de sua trajetória. Entretanto, nos últimos anos o uso de tecnologia passou a ter um papel extremamente relevante para o setor reduzir as áreas de pastagem e mesmo assim aumentar a produtividade. “O emprego e a modernização tecnológica nos permitiu termos ganhos de produtividade com menor utilização de terras. Isso mostra a sustentabilidade ambiental que a pecuária de corte vem trilhando em seu caminho ao longo dos anos”, afirma Malafaia.

Sustentabilidade social

De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em 2020 o setor gerou 4,5 milhões de empregos diretos nos setores de produção, industrialização e distribuição. As ocupações representam R$ 65 bilhões em salários.

Para Malafaia, esses números mostram o carácter de sustentabilidade social da cadeia produtiva de carne bovina. “Através da geração de emprego e renda para as famílias brasileiras”, completa.

Sustentabilidade econômica

O PIB da pecuária de corte cresceu 20,8% em 2020 em comparação ao ano anterior, totalizando R$ 747,05 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Apex Brasil. O número representa quase 10% de todo o PIB do país. “Mostrando que a pecuária de corte desenvolve sustentabilidade econômica”, afirma o pesquisador da Embrapa.

Futuro

De acordo com o pesquisador da Embrapa, a atual realidade do setor em função do aumento dos custos de produção, da escassez de mão-de-obra e das crescentes restrições socioambientais, induz o setor a novos desafios. “A pensar novos processos, métodos, sistemas, produtos e serviços que contribuam para a promoção da eficiência e competitividade da pecuária de corte brasileira”, destaca. Malafaia acredita que mesmo com um cenário negativo em alguns aspectos, o futuro da pecuária é favorável.

O pesquisador menciona o estudo realizado pela Embrapa Gado de Corte, em conjunto com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A pesquisa traz dez megatendências para o setor para 2040. “Essas megatendências são um conjunto de vetores de transformação que são fortemente interligados e que têm o poder de transformar toda uma realidade”, menciona.

Megatendências para 2040

As dez megatendências citadas no estudo estão relacionadas a avanços no campo da ciência e tecnologia para atingir rentabilidade com respeito ao bem-estar dos animais e de acordo às exigências do mercado consumidor.

Biológicos à frente no manejo de baixos resíduos

Os avanços biotecnológicos voltados à sanidade, necessidade de redução dos resíduos na carne e a dificuldade em se controlar de forma mais efetiva certas doenças tendem, segundo Malafaia, a diminuir a utilização de fármacos alopáticos e aumentar da produção de medicamentos biológicos. “A tendência é termos insumos cada vez mais ausentáveis e de base biológica”, explica.

Biotecnologia transformando a pecuária e a carne

A sanidade animal e o melhoramento genético serão fortemente impactados pelas biotecnologias. Conforme Malafaia, será possível prevenir e controlar doenças e parasitoses com melhores soluções de manejo. “A edição gênica possibilitará grandes avanços em termos de rusticidade, qualidade e desempenho dos animais”, menciona.

Menos pasto, mais carne

Segundo o estudo, os avanços tecnológicos e a integração lavoura e floreta mudarão o patamar tecnológico da pecuária de corte. Serão 36 milhões ou mais de hectares em ILPF paralelamente e uma forte redução nas áreas de pastagem e um crescimento no número total de cabeças, com sistemas muito mais produtivos. “Vamos continuar fazendo mais com menos. Utilizar menos área e produzir mais carne, gerando cada vez mais o efeito pouca terra”, ressalta.

Lucro apenas com bem-estar animal

Outra tendência relacionada no estudo é a produção com respeito ao bem-estar animal ao longo de toda a cadeia. Será a regra e nenhum elo poderá ficar de fora. “Em um mundo pós pandêmico, a preocupação com a sanidade animal será cada vez mais forte”, emenda Malafaia. Das propriedades, transporte e frigoríficos serão exigidos certificados de produção com bem-estar animal.

Pecuária consolidada com grandes players

A pesquisa menciona também as exigências produtivas em termos de quantidade, qualidade do produto final e os meios de produção provenientes de um consumidor diversificado e exigente. “As exigências de bioseguridade e escala farão com que a pecuária se consolide com grandes players, o conceito de mega fazendas será predominante para poder dar respostas aos desafios”, relata. Ainda, conforme o estudo, isso limitará a atuação do pecuarista extrativista.

Frigorífico: Mais natural e com mais exigências de qualidade

Para atender um consumidor que exigirá produtos mais naturais, com menor teor de aditivos, o estudo indica que haverá necessidade de aumentar as exigências na aquisição de matéria prima proveniente dos pecuaristas, com marcante demanda para o avanço na qualidade da carne. “As exigências quanto ao manejo sustentável, produtos biológicos e a implementação rigorosa do processo de bem-estar animal serão cada vez mais rigorosas”, menciona Malafaia.

Carne com denominação de origem

O estudo de CiCarne prevê também o fortalecimento da carne bovina como produto mais sofisticado, a exemplo de como ocorre com vinhos e queijos. A cadeia produtiva trabalhará fortemente em termos de diferenciação de cortes e processos produtivos em busca de geração de valor a seus produtos. “Teremos grandes oportunidades com agregação de valor em produtos através de certificações com denominação de origem”.

Brasil, mega exportador de carne e genética

Conforme o trabalho, o país se destacará na exportação de genética, de animais vivos para abate, de cortes de carne e de subprodutos, atingindo tanto mercados emergentes quanto os sofisticados. De acordo como Malafaia, o estudo prevê que os avanços oriundos da introdução de biotecnologias e o amplo esforço de toda a cadeia em termos de produção sustentável, bem-estar animal e qualidade de carne criarão a base para o crescimento. “O Brasil tem um arsenal genético de zebuínos e taurinos altamente superior e que pode ser amplamente exportado para outros países”, afirma Malafaia.

Digital transformando toda a cadeia produtiva

A penúltima tendência citada no estudo prevê que a maior transformação será no processo de distribuição, seja de insumos, gado ou da carne. Segundo o estudo, a propensão é que parte dos intermediários sejam excluídos do sistema, e a relevância da qualidade e sustentabilidade crescerão via interação digital com o consumidor final. “Principalmente através de embalagens inteligentes que contarão toda a história do produto, desde a cria, até a chegada do produto na mesa do consumidor”, menciona.

Apagão de mão-de-obra

A última tendência apontada pelo estudo do CiCarne é algo que já está acontecendo no campo, segundo Malafaia. Segundo ele, atualmente, 87% da população é urbana e a tendência deve se acentuar cada vez mais. Mas segundo Malafaia, o maior desafio do setor não será quantitativo, e sim qualitativo. “Os enormes avanços tecnológicos previstos para os próximos 20 anos demandarão uma mão-de-obra cada vez mais capacitada”, completa Malafaia.

Cinco maiores problemas da humanidade nos próximos 50 anos

O estudo sintetiza os múltiplos desafios do futuro em energia; água; alimento; ambiente e pobreza.

Segundo Malafaia, todas as cadeias de produção precisarão estar altamente antenadas nestes cinco elementos para ter condições de consegui se manter. “Todos os mecanismos de produção terão que estar pautados nesses elementos”, afirma o pesquisador da Embrapa.

A terceira onda

Dentro do conceito relacionado aos cinco elementos que representarão os principais desafios das cadeias de produção para o futuro, ergue-se a terceira onda da pecuária da corte no Brasil, vista por Malafaia como uma atividade de ciclo mais curto, integrada com outras cadeias de produção, com processo de decisão mais minucioso, com equilíbrio de emissões e com menor pegada ambiental e hídrica. “A consequência disso tudo será um produto padronizado para atender mercados altamente exigentes para captarmos valor através disso”, sustenta Malafaia.

Desenvolvimento com sustentabilidade

O crescimento sustentável da pecuária de corte no Brasil prevê uma grande transformação em toda a cadeia produtiva com sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Conforme Malafaia, a complexidade marcará o futuro da agropecuária brasileira. “Teremos que aprender a gerenciar vários elementos dentro de uma mesma área, e isso se torna complexo”, ressalta.

Segundo o pesquisador, a partir disso, será possível a busca por maior eficiência e agregação de valor aos nossos produtos. Isso será possível com tecnologia e programas de incentivo para se chegar a produtos que sejam mensuráveis, reportáveis e verificáveis, e com isso, conseguir certificações e capturar valor. “A complexidade na cadeia da pecuária de corte será cada vez mais intensa e vai exigir um preparo maior dos pecuaristas”, evidencia.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
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Aproveitamento de quase 100% do boi revela outro lado sustentável da pecuária

Esterco e até conteúdo digestivo são usados pela indústria frigorífica, mas ainda há espaço para melhorar.

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Foto: Shutterstock

A produção de carne bovina vai muito além da carne propriamente dita. Co-produtos como, miúdos não comestíveis, sangue, tendões, orelhas, entre outras partes do animal que outrora eram descartadas, hoje servem de insumos para diversos segmentos da indústria, agregam valor ao produto, representam uma renda extra na produção e tornam a atividade mais sustentável.

O assunto foi debatido durante a segunda edição do Acricorte, um dos maiores encontros de pecuária de Mato Grosso, realizado no Cenarium Rural, em Cuiabá (MT), pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat).

Sérgio Pflanzer, médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos: “Praticamente todas as partes do boi são aproveitadas pela indústria, nada é desperdiçado” – Foto: Arquivo pessoal

Na palestra “Do boi não se perde nem o berro. Para onde vão os co-produtos?”, o médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos, Sérgio Pflanzer, salienta que a necessidade de se aproveitar todas as partes do boi é algo comum na história, porém, ao longo dos anos a indústria ampliou a gama de co-produtos feitos a partir de restos de animais de produção abatidos. “Em qualquer tipo de produção industrial de alimentos é preciso otimizar o uso da melhor maneira possível, e com isso agregar valor”, salienta.

No Brasil, o aproveitamento do que sobra do boi varia conforme o tamanho da indústria. De acordo com Pflanzer, algumas grandes empresas aproveitam próximo a 100% dos animais, desde o esterco e o conteúdo digestivo, usados para produção de compostagem, fertilizantes, e biometano, até tendões, couro, miúdos, vísceras e ossos. “Nada ou quase nada é desperdiçado, em muitos casos o aproveitamento é praticamente total”, destaca.

Outros frigoríficos de menor porte não destinam as sobras das carcaças com a mesma eficiência. Conforme Sérgio Pflanzer, muitas vezes, nesses casos, os frigoríficos são clandestinos e não conseguem direcionar esses materiais e fazem o descarte de maneira inadequada. “Nos abates fiscalizados se consegue comercializar todos os produtos da carcaça”, comenta.

Destino

O mercado Pet food absorve boa parte dos sub-produtos, especialmente os miúdos de baixo valor agregado, chifres e cascos são usados na produção farinha utilizada na fabricação de ração e outros produtos do segmento pet. A indústria farmacêutica e a de cosméticos utilizam miúdos, sangue, tendões, orelha, entre outras partes do animal como insumos para sua produção.

Segundo Pflanzer, é preciso ficar atento para as oportunidades que existem em relação aos co-produtos que podem ser comercializados, além da carne. “Algumas glândulas dos animais são usadas pela indústria farmacêutica para produção de hormônios utilizados na medicina humana”, menciona.

O couro e o conteúdo digestivo são os principais co-produtos em volume. Ossos e a gordura são usados na produção de ração, glicerina e sabão. Entretanto, de acordo com Pflanzer, recentemente a produção de biodiesel passou a utilizar uma fatia considerável desses co-produtos. “A produção de biodiesel está tomando conta. Percebeu-se que transformar a gordura animal em combustível tem uma agregação”, salienta.

Conforme Pflanzer, é difícil atrelar a utilização de co-produtos com o produtor, isso sempre fica a cargo da indústria. “O produtor não recebe diretamente por eles, recebe em partes, pelo peso e cotação do valor da carcaça”, menciona.

Embora o produtor não seja diretamente beneficiado pela venda dos co-produtos, Pflanzer salienta que é importante a colaboração com o aproveitamento ideal dos sub-produtos. Em relação ao couro, Pfzanzer destaca a necessidade do produtor evitar marcar a fogo e o excesso de parasitas para o produto não perder valor. “Nada impede que no futuro haja alguma negociação para que o frigorífico consiga talvez repassar ao produtor que preserva a qualidade do couro”, vislumbra.

Sustentabilidade

Assim como em outras atividades de produção, na bovinocultura a sustentabilidade não se resume somente ao meio ambiente. A tarefa não é simples, afinal, é preciso desenvolver a atividade de maneira realmente sustentável, associada a aspectos tecnológicos, ao crescimento econômico e com o mínimo impacto ambiental e social. “Às vezes aquilo que é não é sustentável do ponto de vista ambiental é sustentado do ponto de vista social e econômico ou vice-versa”, pontua Pflanzer.

De acordo com ele, a produção bovina sofre questionamentos em relação à sustentabilidade, especialmente ambiental, principalmente em razão, do sistema de produção extensivo utilizar vastas áreas de terra, o que de acordo com ele acaba de certa maneira prejudicando a imagem da bovinocultura, que é vista por algumas pessoas como algo prejudicial ao meio ambiente. “Em boa parte dessas áreas não se consegue produzir outro tipo de alimento. Além disso, atualmente temos uma redução e resgate de áreas de pastagens, e isso vai tornando a pecuária cada vez mais sustentável”, afirma.

Foto: Kelem Silene Guimarães/Embrapa

Outra questão por vezes atribuída à produção pecuária é a emissão de metano, entretanto, segundo Pflanzer, existem estudos científicos que indicam que esse não é o principal causador do efeito estufa. “Há trabalhos que apontam que o aquecimento climático não é causado pelo metano animal e sim pelos combustíveis fósseis”, relata.

Exportações e mercado interno

De acordo com dados da Comex Stat, em 2021 foram exportadas 1.560.220 toneladas de carne, o que rendeu uma receita de US$ 7.966,48 bilhões ao país. Os principais compradores da carne bovina brasileira são os Estados Unidos, a China e o Egito.

As exportações de carne ocupam a 6ª colocação no ranking dos principais produtos exportados, o que faz do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, apesar da fatia enviada para outros países representar pouco mais de 25% da produção brasileira. “O restante da carne produzida no Brasil fica no país, algo que é muito importante em ralação ao abastecimento”, pontua Pflanzer.

A diminuição do poder de compra do brasileiro nos últimos anos, aliada ao aumento do preço da carne bovina, torna cada vez mais difícil o consumo da proteína por grande parte da população. “A carne no Brasil sempre foi barata em comparação ao mercado internacional, o que acontece agora é que ela está se equiparando ao preço praticado no mercado internacional”, afirma.

O desempenho da atividade também reflete em geração de divisas ao país e em oportunidades para milhares de pessoas Brasil afora que direta ou indiretamente, dependem da pecuária para se manter.

De acordo com Pflanzer, a pecuária brasileira gera emprego e renda para pessoas e empresas do segmento. “Considero que temos ainda que melhorar, mas a pecuária brasileira é sustentável em alguns quesitos”, afirma.

Qualidade

Segundo ele, existem muita desinformação em relação à sustentabilidade na produção de proteína animal e a respeito da importância nutricional da carne, especialmente a bovina.

Conforme o médico-veterinário, a carne foi colocada como vilã devido a gordura saturada, mas isso aos poucos vem sendo desmistificado. “Acredito que logo chegaremos a um momento de equalização das informações, e a carne vai voltar a ser vista com algo essencial para a vida humana”, completa. Ele cita como exemplo o ovo e a gordura suína, antes ditas ruins, “hoje são indicadas por médicos em substituição ao óleo de soja”, exemplifica.

Para Pflanzer, a sustentabilidade plena na pecuária brasileira é algo atingível e o setor está no caminho certo para estar em perfeita harmonia com o meio ambiente. “Nosso papel como formador dentro da universidade é justamente explicar, com base na ciência, porque a produção de carne é importante, seja por questões nutricionais, econômicas, sociais ou ambientais”, diz.

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Fonte: O Presente Rural
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Endometrite em bovinos: causas, diagnóstico e tratamento

Inflamação uterina que pode se manifestar de forma aguda ou crônica, causando diversos prejuízos nos rebanhos bovinos. Conheça detalhes sobre fatores predisponentes, formas de diagnóstico e tratamento.

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Foto: Shutterstock

As enfermidades que acometem o sistema reprodutor dos bovinos de leite geralmente são responsáveis por grandes perdas econômicas. Fatores como queda na produção leiteira e nas taxas de prenhez, aumento considerável nos intervalos entre partos e no descarte dos animais representam alguns impactos negativos na atividade. Nessa perspectiva, uma das doenças mais prevalentes no rebanho, atingindo 10 a 20% dos animais, é a endometrite.

Endometrite aguda, também chamada de metrite, consiste em uma inflamação, de curso agudo, que envolve toda a parede do útero, comprometendo principalmente o endométrio. Sua ocorrência é muito comum na primeira semana pós-parto e geralmente está associada a distocia, retenção de placenta e abortamento. Os principais sinais clínicos são característicos de uma inflamação, além de ocorrer descarga uterina fétida de coloração vermelha-acastanhada e febre (>39,5ºC). Casos mais graves podem causar a queda da produção de leite, inapetência, desidratação e toxemia.

Já a endometrite crônica é uma consequência da endometrite aguda e surge de maneira silenciosa, o que exige atenção ainda maior. Os sinais clínicos frequentemente ocorrem depois da regressão uterina, um mês após o parto, sendo os mais comuns: presença de muco turvo, bem diferente do muco límpido característico do cio e posteriormente repetição de cio. Alguns fatores predisponentes podem ser associados à endometrite crônica como por exemplo: problemas no parto, como retenção de placenta, distocia, natimortalidade, angulação vulvar inadequada e primiparidade.

Após o parto ocorre uma contaminação uterina por bactérias ambientais, o que propicia a ocorrência da endometrite aguda. Geralmente essa contaminação é eliminada no processo de involução uterina, porém falhas podem ocorrer nesse processo de eliminação, o que faz com que essa infecção persista por semanas ou meses, o que caracteriza a endometrite crônica. As principais falhas reprodutivas relacionadas à endometrite crônica são: repetição de cio, queda na taxa de prenhez do rebanho, aumento do intervalo entre partos e descarte prematuro de fêmeas.

Como é feito o diagnóstico da endometrite crônica?

O diagnóstico pode ser feito através do exame vaginal, que deve ser focado na detecção da secreção anormal purulenta ou mucopurulenta na vagina e na cérvix. Dentre os principais métodos podemos citar o de referência (vaginoscopia, usando o espéculo vaginal) ou a coleta e análise de muco pelo uso de um equipamento chamado Metricheck, uma sonda de aço inoxidável com uma taça de borracha semiesférica na extremidade.

O escore utilizado para avaliação através desse dispositivo consiste em: grau 0 (muco claro ou translúcido, característico de cio); grau 1 (muco contendo flocos esbranquiçados); grau 2 (exsudato contendo menos que 50% de material mucopurulento) e grau 3 (exsudato contendo 50% ou mais de material purulento).

Outra possibilidade está no uso da ultrassonografia, no intuito de checar a presença de conteúdo no lúmen uterino. É importante mencionar que quanto maior a quantidade de muco presente maior é o grau da contaminação bacteriana. Algumas análises laboratoriais podem ser feitas através da coleta de conteúdo uterino ou por biópsias endometriais, especialmente em momentos pelos quais a avaliação clínica não é suficiente para detecção de alterações.

Protocolos de Tratamentos

Como a endometrite aguda é uma doença com características sistêmicas (febre, dor, inapetência) o tratamento recomendado consiste na aplicação de medicamentos para combater a infecção e controlar o desconforto do animal, incluindo antimicrobianos em associação com anti-inflamatório não esteroidal com efeito analgésico e antitérmico. A fluidoterapia de suporte também é recomendada.

Já o tratamento da endometrite crônica visa a redução da carga bacteriana, o aumento das defesas uterinas e dos mecanismos de reparo, para desta maneira controlar as alterações inflamatórias que prejudicam a fertilidade. Em suma, o protocolo consiste na remoção de conteúdo purulento, através de uma curetagem química, administração de antimicrobianos e a indução do estro.

A irrigação do útero é muito baixa nesta fase, por isso o tratamento sistêmico não é indicado, mas sim o tratamento local. A literatura menciona a Oxitetraciclina como o antimicrobiano de eleição para uso intrauterino em casos de endometrite crônica. Possui excelente eficácia contra os microrganismos patogênicos deste tipo de endometrite e por ser pouco absorvida na corrente sanguínea, sua ação limitada ao lúmen uterino, torna-se potencializada e prolongada. Assim, o medicamento promove a descamação do endométrio contaminado.

As referências deste texto podem ser solicitadas à autora. Contato: juliana.melo@jasaudeanimal.com.br.

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Fonte: Por Juliana Ferreira Melo, jornalista e médica-veterinária na JA Saúde Animal.
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Importância da saúde hepática em vacas leiteiras

Quando o fígado é cuidado, os animais tendem a responder com um feedback positivo em produção de leite, em desempenho produtivo e reprodutivo, melhora de sistema imune e, em consequência, diminuição nos índices de CCS do rebanho.

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Foto: Divulgação/NutriQuest Brasil

O fígado é um órgão muito importante no organismo animal, responsável por várias funções essenciais, como o metabolismo de moléculas de glicose, lipídeos, proteínas, cetogênese (produção de corpos cetônicos pelo fígado), além de ser responsável pela produção da bile, um produto emulsificante importante para a digestão das gorduras. Ele está localizado no centro do corpo, onde recebe e repassa nutrientes para todo o organismo, é um órgão de ligação entre o sistema digestivo e o sangue.

Nesta simples introdução sobre o fígado, já é possível entender o quanto ele é importante em todos os processos. Os produtos da digestão são repassados para o fígado e distribuídos. Um exemplo é a glicose, que é armazenada no fígado na forma de glicogênio sendo liberado de acordo com a necessidade de energia pelo organismo.

Uma das funções também importante do fígado é o metabolismo intermediário, sendo ele responsável por receber e direcionar as gorduras conforme a necessidade do organismo. Os lipídeos que chegam ao fígado podem seguir algumas rotas, serem metabolizados, oxidados, distribuídos e armazenados.

Nas vacas em período de transição, o fígado se torna ainda mais importante, pois neste momento necessitam de muita energia. Vale lembrar que no ciclo de produção, quando ela está nos últimos 21 dias de gestação, já não tem a capacidade fisiológica para consumir o mesmo volume de matéria seca (MS) consumido anteriormente, e as exigências nutricionais aumentam muito. É nesta fase que ocorre o crescimento fetal final, e em que a vaca precisa de mais energia para o parto, para colostragem e para o início da lactação, sendo a glândula mamaria responsável por receber uma grande quantidade de nutrientes, acelerando os processos metabólicos do fígado.

Um dos problemas que podem ser encontrados devido à alta demanda de nutrientes é a esteatose hepática (gordura no fígado), uma das alterações mais frequentes em vacas leiteiras que tenham um desempenho acelerado, característico também em animais no pós-parto.

No início da lactação ocorre a lipólise dos lipídeos, fornecendo para a vaca um suprimento adequado de energia para o parto. Quando a lipólise é intensa e se prolonga, a vaca pode apresentar doenças metabólicas muito comuns como a cetose, por exemplo, que ocorre devido ao aumento de ácidos graxos não esterificados, podendo eles serem oxidados a corpos cetônicos, dióxido de carbono ou esterificados em triacilgliceróis. No caso da cetose é quando ocorre a oxidação incompleta dos AGNE e o fígado gorduroso é proveniente do excesso de esterificação de triglicerídeos.

Para o bom funcionamento do fígado existe uma molécula chamada fosfatidilcolina, um fosfolipídio predominante (>50%) na maioria das membranas dos mamíferos que é responsável por proteger e recuperar as células do fígado. Entre as suas diversas funções, o transporte de gordura de uma célula para a outra é a principal delas. Esta molécula é responsável por reduzir a entrada de gordura no fígado e atua no transporte da lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL) do fígado.

A fosfatidilcolina é uma molécula que pode ser fornecida de forma exógena na dieta de vacas em transição e lactação. A falta de fosfatidilcolina na dieta pode resultar na infiltração de gordura no fígado. A presença desta molécula aumenta a utilização e transporte dos ácidos graxos e colesterol, também é importante no processo de secreção de VLDL pelo fígado. Outra função essencial é o auxilio na absorção de gordura pelo intestino, pois ela se caracteriza como uma molécula emulsificante devido as suas extremidades (polar e apolar), com isso ela aumenta a solubilidade das micelas a nível intestinal.

Quando cuidamos do fígado das nossas vacas, seja esse cuidado via manejo alimentar adequando em todas as fases de transição e lactação, seja ele através do fornecimento de aditivos alimentares que ajudam a auxiliar o fígado nesses processos, os animais tendem a responder com um feedback positivo em produção de leite, em desempenho produtivo e reprodutivo, melhora de sistema imune e, em consequência, diminuição nos índices de CCS do rebanho.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: Por Juliana Reolon Pereira, doutora em Nutrição Animal e coordenadora técnica de Ruminantes na NutriQuest Brasil.
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