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Como conciliar produção de leite e sustentabilidade?

Pesquisador sênior e docente na Universidade de Kiel na Alemanha, especializado em sistemas agroecológicos ligados à produção de leite a pasto, Ralf Loges, vai palestrar no primeiro dia do SBSBL, em Chapecó (SC).

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Foto: Shutterstock

A eficiência na gestão de pastagens e os impactos diretos dessa prática na produção de leite estarão em evidência no dia 14 de outubro, primeiro dia do 14º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL). O doutor Ralf Loges, pesquisador sênior e docente da Universidade de Kiel, na Alemanha, ministrará a palestra “Como conciliar produção de leite e sustentabilidade?”, às 14 horas, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).

Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet) e pela EPAGRI, o simpósio ocorrerá em 14, 15 e 16 de outubro e contará com uma programação científica abrangente, além da realização paralela da 9ª Brasil Sul Milk Fair, do 4º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte e do 2º Simpósio Catarinense de Pecuária de Leite à Base de Pasto.

Sustentabilidade e eficiência produtiva

Agricultor de formação e PhD em Ciências Agrícolas, Ralf Loges é reconhecido por sua atuação em sistemas agroecológicos voltados à produção de leite a pasto.

Durante sua explanação no SBSBL, o pesquisador trará experiências consolidadas sobre o manejo de pastagens e mostrará como esses conhecimentos podem ser adaptados às diversas realidades.

Entre os pontos de destaque, estarão: a importância da diversificação de espécies forrageiras para melhorar a oferta de nutrientes ao longo do ano, o papel das leguminosas na melhoria da qualidade do solo e na redução da dependência de fertilizantes nitrogenados, estratégias para equilibrar produtividade, bem-estar animal e sustentabilidade ambiental.

Segundo o presidente da comissão científica, Claiton André Zotti, a palestra de Loges representa uma grande oportunidade para aproximar ciência e prática no campo, trazendo experiências aos técnicos e produtores interessados em intensificar sistemas de produção de leite com melhor uso do pasto.

“A presença do doutor Ralf Loges na programação reforça o caráter central do SBSBL, que busca ampliar o debate sobre inovação e sustentabilidade no setor leiteiro. Sua palestra promete oferecer aos participantes ferramentas práticas de gestão do pastejo que podem impactar positivamente tanto a rentabilidade das fazendas quanto a conservação ambiental, alinhando o Brasil às tendências de produção”, salienta o presidente do Nucleovet, Tiago Mores.

Referência internacional em sistema agroecológicos

Agricultor de formação e PhD em Ciências Agrícolas, Ralf Loges é reconhecido por sua atuação em sistemas agroecológicos voltados à produção de leite a pasto. Na Universidade de Kiel, coordena ensaios de campo em agricultura orgânica, com ênfase na integração lavoura-pecuária, no cultivo de leguminosas forrageiras e no manejo eficiente do nitrogênio.

Sua linha de pesquisa também aborda o sequestro de carbono no solo, a renovação de pastagens e os impactos ambientais do pastejo diversificado, temas centrais nas discussões globais sobre sustentabilidade da produção de leite. Além de atuar em orientação acadêmica, Loges é autor de diversas publicações científicas recentes, que reforçam sua contribuição no avanço de práticas sustentáveis para o setor.

Como participar?

Para assistir à explanação de Loges e aos demais pesquisadores é necessária inscrição no Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite. Até o dia 2 de outubro (2º lote) os investimentos são de R$ 530,00 para profissionais e de R$ 400,00 para estudantes. Com esse ingresso o participante tem acesso total ao evento – 14º SBSBL, 9ª Brasil Sul Milk Fair, 4º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte e 2º Simpósio Catarinense de Pecuária de Leite à Base de Pasto.

Há também a possibilidade de participar somente do 4º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte e da 9ª Milk Fair. Os valores para essa modalidade são de R$ 170,00 até o dia 2 de outubro data que marca o fim do segundo lote.

Para participar somente da 9ª Brasil Sul Milk Fair e conferir novas tecnologias e soluções expostas por empresas do setor, as inscrições podem ser feitas pelo valor de R$ 50,00, ao adquirir no 2º lote.

Na compra de pacotes a partir de dez inscrições para o SBSBL serão concedidos códigos-convites bonificados. Profissionais de agroindústrias, órgãos públicos e grupos de universidades têm condições diferenciadas.

As inscrições podem ser realizadas no site, clicando aqui. Associados do Nucleovet devem fazer a inscrição por meio da secretaria da entidade. Contato (49) 9 9806-9548 ou pelo e-mail financeiro@nucleovet.com.br.

Programação geral

14º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite

9º Brasil Sul Milk Fair

4º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte

2º Simpósio Catarinense de Pecuária de Leite à Base de Pasto

Terça-feira (14)

8h20 – Abertura da Programação Científica 4º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte

8h30 – Premissas para programa reprodutivo eficiente de novilhas e vacas

Palestrantes: Dr. Gilson Pessoa

9h20 – O Potencial do Beef on Dairy para fazendas brasileiras

Palestrante: Dr. Brad Gilchrist

10h10 – Milk break

10h50 – O que funciona na suplementação de bovinos de corte a pasto?

Palestrante: Dr. Edenio Detmann

11h40 – Mesa-redonda

12h10 – Encerramento

13h45 – Abertura da Programação Científica 14º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite

Painel bem-estar animal

14 horas – Como conciliar produção de leite e sustentabilidade?

Palestrante: Dr. Ralf Loges

15 horas – Pontos críticos e práticos de bem-estar animal na atividade leiteira

Palestrante: Dra. Rosângela Poletto

16 horas – Milk Break

16h30 – Do clima ao conforto: como a ambiência impacta vacas e produtividade

Palestrante: Prof. Dr. Frederico Márcio Corrêa Vieira

17h30 – Mesa-redonda

18 horas – Abertura Oficial

18h30 – Palestra de Abertura do SBSBL

19h40 – Coquetel de Abertura na Milk Fair

Quarta-feira (15)

Painel rebanho saudável e produtivo

8 horas – Gestão eficiente da diarreia neonatal

Palestrante: Dra. Viviane Gomes

9 horas – Prevenção das doenças reprodutivas: nosso calendário sanitário está adequado aos desafios do campo?

Palestrante: Dr. Álvaro Menin

10 horas – Milk Break

10h40 – Da mistura à boca da vaca: qualidade da TMR sem desperdício

Palestrante: Dr. João Ricardo Pereira

11h40 – Mesa-redonda

12h10 – Almoço

Painel eficiência no campo

14 horas – Como ser eficiente na atividade leiteira?

Palestrante: Dr. Wagner Beskow

15 horas – Mercado de Lácteos

Palestrante: Dr. Glauco Carvalho

16h10 – Milk Break

16h40 – Maximizando o aproveitamento da proteína: da dieta à produção

Palestrante: Dra. Marina Danés

18 horas – Happy Hour na Milk Fair

Quinta-feira (16)

Painel aditivos

8 horas – Além do efeito ruminal: o papel dos tamponantes e alcalinizantes

Palestrante: Dr. Marcos Neves

9 horas – Ionóforos e sua contribuição na dieta de vacas em lactação

Palestrante: Euler Rabelo

10h10 – Milk Break

10h40 – Uso de eubióticos

Palestrante: a confirmar

11h40 – Mesa-redonda

12h10 – Encerramento e sorteio de brindes

Fonte: Assessoria SBSBL

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Com foco na integração da pecuária sul-americana, Fórum Internacional da Feicorte chega ao Paraguai em março

Edição adota formato estratégico com foco em expandir negócios para a cadeia produtiva da carne.

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Fórum Internacional Feicorte Paraguai 2026 será realizado no dia 24 de março - Foto: Feicorte

A Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte), uma das principais plataformas da cadeia produtiva da carne na América Latina, anunciou oficialmente os detalhes da sua expansão internacional. Pela primeira vez, a marca desembarca no Paraguai para realizar o Fórum Internacional Feicorte Paraguai 2026, confirmado para o dia 24 de março, no Hotel Sheraton, em Assunção. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas clicando aqui.

Com a missão de promover o intercâmbio técnico entre as pecuárias brasileira e paraguaia e sob o tema “Pecuária paraguaia: um mundo de oportunidades”, a edição internacional adota um formato de fórum estratégico. O objetivo é reunir produtores, técnicos e decisores do agronegócio para debater os gargalos da produção moderna, incluindo produzir mais carne em menos tempo e espaço.

Segundo a CEO da Verum (organizadora do evento), Carla Tuccilio, a escolha do país vizinho reflete o atual momento de expansão de todos os setores da economia local. “Entendemos que este é o momento para gerar um espaço de troca real entre as experiências do Brasil e do Paraguai”, destaca.

Pecuária moderna com foco no produto final

A programação técnica do fórum será pautada pela intensificação e serão debatidos pilares como genética, nutrição, sanidade e industrialização. Para o diretor da Verum, Ailton Barbosa, a proposta é mudar a mentalidade de “produção de animais” para “produção de carne”. “Essa mudança de olhar é fundamental para entender para onde vai a pecuária moderna e como se preparar para as demandas dos mercados internacionais”, afirma.

A realização do fórum no Paraguai abre o calendário da marca em 2026, como um aquecimento para a edição principal no Brasil. E a Feicorte brasileira já tem data marcada, de 23 a 26 de junho, em Presidente Prudente (SP), mantendo a tradição de continuar como o ponto de encontro da cadeia produtiva da carne.

Fonte: Assessoria Feicorte
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Controle parasitário eficiente impacta diretamente a rentabilidade da pecuária

Estratégias modernas e uso racional de antiparasitários contribuem para bem-estar animal e melhor desempenho produtivo.

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A resistência parasitária em bovinos vem se posicionando como um dos principais desafios sanitários da pecuária brasileira. Desde a década de 1990, a capacidade de adaptação de parasitas como vermes, carrapatos, bernes e moscas tem reduzido a eficácia de tratamentos convencionais e comprometido a produtividade dos rebanhos. “Os parasitas se adaptam rapidamente ao uso repetido e incorreto de antiparasitários. É um fenômeno biológico que coloca em risco o desempenho animal e gera prejuízos econômicos expressivos”, explica o médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral.

Esses organismos consomem nutrientes essenciais e comprometem funções vitais do metabolismo dos ruminantes, resultando em perda de peso, queda no consumo alimentar, anemia, diarreia e até morte em casos severos. “Um programa de controle bem estruturado é essencial para que o animal expresse todo o seu potencial produtivo, tanto em sistemas de corte quanto de leite”, reforça Cabral.

Clima tropical favorece ciclo dos parasitas

Foto: Fabiano Bastos

No Brasil, a maior parte do rebanho é criada em sistemas extensivos, o que mantém os animais em contato direto com pastagens, ambiente ideal para o desenvolvimento e disseminação de parasitas. O clima quente e úmido favorece a evolução das larvas infectantes que completam o ciclo dentro do hospedeiro. “O gado ingere as larvas presentes nas forragens e, nesse momento, os parasitas conseguem completar o ciclo reprodutivo. Por isso, é preciso adotar estratégias integradas e contínuas de controle, não apenas pontuais”, orienta Cabral.

Associações farmacológicas

Avanços recentes da farmacologia veterinária têm mostrado resultados promissores no enfrentamento da resistência parasitária. Um dos destaques é a associação entre eprinomectina e doramectina, moléculas que se complementam no combate a endo e ectoparasitas. “A eprinomectina, de segunda geração das avermectinas, possui rápida biodisponibilidade e excelente ação sobre vermes gastrintestinais. Já a doramectina, da primeira geração, tem liberação mais lenta e prolongada, com alta eficácia contra carrapatos e moscas”, explica Cabral.

De acordo com o médico-veterinário, a combinação dessas substâncias proporciona dois picos plasmáticos após a aplicação, o que amplia o espectro e a duração da proteção. “Essa diferença no tempo de ação ajuda a retardar o desenvolvimento de novas resistências e garante um controle mais completo e duradouro”, destaca.

Planejamento sanitário é essencial

Médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral: “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas” – Foto: Divulgação/Vaxxinova Brasil

Além do uso de produtos modernos, a eficácia do controle depende de um calendário sanitário bem estruturado. O planejamento deve considerar o manejo das pastagens, a época do ano e a categoria animal, sempre com acompanhamento técnico. “O sucesso do controle parasitário não está apenas no produto, mas na estratégia. É fundamental respeitar as doses, os intervalos de aplicação e as condições de armazenamento recomendadas em bula”, menciona Cabral.

Para ele, o uso racional e estratégico da associação entre eprinomectina e doramectina representa uma ferramenta moderna e eficiente para a pecuária brasileira. “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas”, enfatiza.

A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Volatilidade expõe limites do curto prazo no mercado do leite

Alta oscilação de preços e assimetrias de informação reforçam a importância de dados confiáveis para decisões de produtores e indústrias.

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O sistema agroindustrial (SAG) do leite vive um momento de transformação. A evolução do ambiente institucional (incluindo definições de padrões de qualidade em Instruções Normativas), o aumento da intensificação, da escala, da produtividade e da qualidade da base produtiva, e o contínuo processo de concentração nos segmentos produtivo e industrial têm alterado a estrutura do SAG, os padrões de concorrência e as estratégias dos agentes para lidar com as crescentes incertezas do mercado.

Em minha tese de doutorado, abordo a influência das incertezas na comercialização do leite cru e observo que elas estão relacionadas, sobretudo, às dificuldades dos agentes em avaliar (a) seu desempenho frente a concorrentes e fornecedores e (b) as flutuações de oferta e demanda, o que, por sua vez, se traduz em elevada volatilidade dos preços do leite cru. Esse contexto cria barreiras ao estabelecimento de relações de longo prazo entre produtores, cooperativas e indústrias, reduz o alinhamento entre agentes e eleva os custos de transação.

Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.

Diante disso, o setor tende a se organizar segundo uma lógica predominantemente de curto prazo, como forma de adaptação a mudanças imprevisíveis. Adota-se, assim, flexibilidade elevada nas relações comerciais e nos fatores de produção — o que, por um lado, permite resposta rápida a choques, mas, por outro, limita a coordenação entre segmentos, os ganhos de eficiência e a inovação no longo prazo. Em outras palavras, o setor lácteo brasileiro demonstra resiliência imediata, mas baixa capacidade de transformação estrutural, o que restringe sua evolução diante de incertezas prolongadas e mudanças de mercado.

Para reverter esse quadro, é necessário focar na mitigação da incerteza. E isso ocorre quando fatores geradores de incerteza passam a ser monitorados e mensurados, convertendo-se em informação. É o acesso dos agentes do SAG a informações de mercado que transforma a incerteza em risco — e o risco, ao contrário da incerteza, pode ser gerenciado.

Nesse sentido, a problemática setorial pode ser sintetizada pela elevada volatilidade das cotações, pela ausência de mecanismos eficientes de proteção e de gestão de riscos na comercialização e, portanto, pela necessidade de informações estratégicas e confiáveis que reduzam a incerteza na tomada de decisão, especialmente no que se refere à comercialização do leite cru e dos derivados lácteos. Em ambientes de alta volatilidade, referências comuns reduzem custos de negociação, organizam expectativas e ampliam a previsibilidade operacional.

A produção e a difusão de informação econômica confiável são, portanto, condição necessária para fortalecer a resiliência do SAG e viabilizar mecanismos mais sofisticados de governança e gestão de risco, como instrumentos de hedge e contratos futuros, por exemplo. No entanto, a eficácia desses mecanismos depende de um ecossistema institucional sólido: geração contínua de dados, transparência metodológica, educação de mercado e confiança entre os agentes.

É nesse ponto que se ancora a missão do Cepea — Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [1]: elaborar séries históricas e indicadores de preços, contribuindo, assim, para reduzir assimetrias de informação, apoiar a tomada de decisão e favorecer a coordenação dos agentes do SAG no curto e no longo prazo.

Um indicador de preços tem como objetivo refletir o preço médio das transações observadas, capturando o comportamento competitivo dos preços — isto é, o preço efetivamente praticado no mercado. Por definição, sintetiza transações já realizadas (negócios efetivados), e não projeções ou referências futuras. Por isso, trata-se de instrumento estratégico em um contexto de incerteza: não apenas reporta cotações, mas amplia a capacidade de decisão e de planejamento dos agentes. Essas informações permitem mensurar desempenho, inferir condições de oferta e demanda e avaliar os impactos de diferentes estratégias de produção e comercialização. Ao se munirem de informação, os agentes compreendem melhor o cenário corrente e se preparam para cenários futuros, reforçando a resiliência no curto prazo e a capacidade de adaptação no longo prazo.

O Cepea conduz pesquisas em 32 cadeias agropecuárias e, no caso do leite, a estrutura de monitoramento abrange indicadores do preço do leite cru pago ao produtor; do leite cru negociado no mercado spot entre laticínios; e de preços de derivados lácteos negociados entre indústrias e canais de distribuição. Esse monitoramento do SAG do leite só é possível porque uma rede de produtores, cooperativas e laticínios compartilha dados com o Centro, de forma voluntária, para a geração das estatísticas. Também é viabilizado pelo apoio institucional e financeiro da OCB e da Viva Lácteos na elaboração de informativos, o que contribui para custear as atividades da equipe.

O indicador do preço do leite ao produtor tem grande impacto no setor, na medida em que a precificação do leite cru, principal matéria-prima dos laticínios, é cercada de incertezas. O preço do leite cru permanece elemento-chave da estratégia das firmas, sejam fazendas ou laticínios: reflete decisões de custo, capacidade produtiva e eficiência operacional, estratégias de diferenciação e segmentação e, também, a própria estrutura de governança.

O indicador do Cepea é calculado mensalmente com metodologia robusta, validada e pública, disponível no site da instituição. Trata-se de uma média ponderada pelo volume, construída a partir de uma rede de colaboradores (produtores, cooperativas e laticínios) que compartilha informações de forma contínua. Para se ter uma dimensão, mensalmente são coletadas mais de 65 mil informações de negócios efetivados, obtidas de forma voluntária junto a mais de 120 agentes do mercado. Esses agentes contribuem com a pesquisa porque recebem, como retorno, informações em prazo diferenciado e porque reconhecem a importância do indicador para o desenvolvimento do setor.

Além da metodologia, a robustez do indicador pode ser apreciada pela abrangência da amostra em termos de volume industrializado monitorado (em comparação com dados do IBGE). Atualmente, o Cepea monitora cerca de 65% do leite industrializado em Minas Gerais — ou seja, a cada 5 litros, aproximadamente 3 estão na amostra. No Rio Grande do Sul, a cobertura é de cerca de 80% — a cada 5 litros, 4 estão na amostra. Em Goiás, a cada 2 litros, 1 está na amostra. Na Bahia, a cada 3 litros, 1 está na amostra. No Paraná e em Santa Catarina, a cada 4 litros, 1 está na amostra. Em São Paulo, a cada 6 litros, 1 está na amostra do Cepea.

Uma forma objetiva de avaliar a representatividade do indicador do preço do leite pago ao produtor em relação ao mercado é observar o grau de correlação [2] entre o preço da matéria-prima (leite ao produtor e leite spot) e indicadores de produtos derivados. Observam-se coeficientes de correlação elevados, sugerindo forte co-movimento entre preços no campo e preços negociados entre indústrias e canais de distribuição. Em outras palavras, correlações altas com derivados e com o leite spot reforçam a aderência do indicador à realidade do mercado, ainda que diferenças de produto e canal impliquem intensidades de co-movimento distintas. Em conjunto, esses elementos ajudam a explicar por que o indicador do preço do leite ao produtor se consolidou como referência nacional e por que indicadores de lácteos (como UHT, leite em pó e muçarela) são acompanhados diária e semanalmente pelos agentes de mercado.

Foto: Arnaldo Alves

Esses aspectos reforçam, também, que a manutenção e o aprimoramento dessas pesquisas são estratégicos para a competitividade do setor lácteo brasileiro, sobretudo no que se refere à evolução das estruturas de governança envolvidas na transação do leite cru entre produtores, cooperativas e laticínios.

A maior parte das negociações ainda ocorre por meio de contratos informais, apoiados sobretudo em mecanismos de confiança e lealdade. Nesses arranjos, o volume a ser entregue tende a ser conhecido (ainda que com flexibilidade), enquanto o preço é ajustado ex post, após avaliação posterior de quantidade e qualidade. Nos últimos anos, porém, observa-se aumento considerável de contratos formais nas negociações com produtores. Esses contratos costumam explicitar mais definições ex ante e, com frequência, adotam preços indexados a indicadores, sobretudo ao indicador do preço do leite ao produtor do Cepea.

Cabe, no entanto, uma distinção importante: o indicador de preços do Cepea é uma referência; não é um mecanismo de formação de preços, nem um instrumento de coordenação comercial entre agentes. Ele reflete os preços praticados no ambiente competitivo de mercado. Seu uso como indexador em contratos é uma decisão dos agentes do setor, normalmente motivada pela necessidade de reduzir incerteza e aumentar previsibilidade, ainda que com alguma defasagem em relação ao momento do mercado (uma vez que a precificação do leite do mês corrente pode se apoiar na cotação de um ou dois meses anteriores).

Foto: Divulgação/OP Rural

Em minha tese de doutorado, entrevistei 33 indústrias de laticínios, que captam quase 24% do leite brasileiro. Entre elas, quase 88% concordam que as informações do Cepea são importantes para avaliar desempenho (comparação de preços recebidos/pagos com a média de mercado), e 72,8% consideram que se tratam de informações relevantes como referência de precificação — seja no balizamento de rodadas de negociação (ancoragem de expectativas e justificativas de repasse), seja na indexação em contratos (fórmulas de reajuste que vinculam o preço ao indicador, com prêmios e descontos por qualidade, volume, logística e serviços).

Ao funcionar como “linguagem comum”, os indicadores de preços do Cepea contribuem para tornar divergências mais objetivas: em vez de discussões baseadas apenas em percepções, os agentes passam a negociar diferenças e ajustes (prêmios, bônus, bonificações e penalizações) em torno de uma referência observável. Passam, também, a avaliar seus negócios em relação à concorrência de modo mais objetivo e podem ajustar expectativas ao acompanhar os mercados de derivados, que são mais dinâmicos do que o de leite cru.

Os indicadores do preço do leite ao produtor e dos derivados lácteos do Cepea são relevantes porque respondem a um problema central do SAG do leite: a incerteza derivada de assimetrias de informação em um mercado volátil. Ao sintetizar transações efetivadas com metodologia pública e ampla rede amostral, essas informações se tornam uma referência objetiva do momento do mercado, sobretudo para avaliação de desempenho. E, mesmo que o indicador não tenha sido desenhado, em sua origem, para indexar transações, ele vem sendo apropriado pelo setor para negociação e indexação de contratos, na ausência de outros mecanismos capazes de gerenciar o risco de comercialização.

Mas há um ponto adicional, talvez mais estrutural: ao longo do tempo, os indicadores do Cepea não apenas retrataram o mercado; ajudaram a moldar seu desenvolvimento, ao oferecer uma base comum de informação que reduz resistências e viabiliza mudanças graduais na governança. Em setores em que o “melhor caminho” só se revela à medida que é trilhado, inovar exige coragem para alterar rotinas e acordos. Porém, mudar sob elevada incerteza é custoso e, muitas vezes, bloqueia a ação coletiva. Ao transformar parte da incerteza em risco mensurável, os indicadores funcionam como bússola: orientam decisões, calibram expectativas e sustentam discussões sobre a evolução de mecanismos de garantia e de gestão de risco na comercialização — exigência que se intensifica com a transformação da base produtiva e dos padrões de concorrência.

Foto: Fernando Dias

Retomo, nesse contexto, o exemplo dos contratos formais: a prática ganhou tração por haver uma referência legítima e compartilhada capaz de diminuir assimetrias, reduzir contestação e tornar as divergências negociáveis. Nesse sentido, o Cepea tem operado como um espaço de convergência e de articulação, no qual agentes heterogêneos (muitas vezes com interesses distintos) aceitam cooperar, compartilhar dados e sustentar um bem informacional coletivo em nome de um objetivo maior: o desenvolvimento do setor.

A consolidação desses indicadores cria uma linguagem comum entre os agentes, fortalece capacidades de gestão, acelera o amadurecimento institucional e assenta o terreno para formas mais coordenadas de comercialização. Tudo isso conduzido com transparência metodológica, por uma instituição neutra e de reconhecida credibilidade, que coloca a ciência e o desenvolvimento do setor como base de sua atuação. Em última instância, a existência e o uso desses indicadores sinalizam que, apesar da fragmentação, o SAG do leite tem amadurecido e buscado construir bases para evoluir.

Muito já foi feito, mas ainda há amplo espaço para avançar na superação dos gargalos que afligem o SAG do leite. Mudar a perspectiva do curto prazo para o longo prazo e elevar eficiência e qualidade exigirá recursos e capital humano, para ampliar o nível de gestão e profissionalização, além de continuidade no financiamento da geração de informações. Vale lembrar que, em países que hoje concorrem conosco no mercado internacional (como Argentina e Uruguai), as instituições que geram informação econômica contam com apoio direto do poder público, seja financeiro, seja na integração de bases de dados. Apesar disso, o Brasil não parte do zero no enfrentamento desse desafio, pois temos organizações sérias como o Cepea que contribuem tecnicamente com a geração de informação, a educação de mercado e a construção de novos instrumentos, oferecendo dados, análises e metodologias de referência.

Fonte: Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.
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