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Como classificar e mensurar o crédito rural alinhado à jornada de sustentabilidade?
Estratégia brasileira para mitigação de emissões de gases do efeito estufa (GEE) passa diretamente pelo setor agropecuário.

A estratégia brasileira para mitigação de emissões de gases do efeito estufa (GEE) passa diretamente pelo setor agropecuário. Essa relação se materializa nos compromissos firmados pelas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) e nas próprias políticas e planos apresentados pelo governo nas últimas décadas, como o Plano ABC+. Fica clara a necessidade de transformação desse setor no sentido de uma produção sustentável, garantindo produtividade, baixa emissão de GEE e resiliência climática.
Essa transformação do setor agropecuário passa por intervenções produtivas e investimentos que reorientem os fatores de produção e que promovam a adoção de tecnologias e boas práticas agropecuárias. Nesse sentido, a política agrícola vem incorporando elementos de sustentabilidade, especialmente via crédito rural e seus programas e subprogramas destinados à transição produtiva e resiliência climática. É o caso do RenovAgro (antigo Programa ABC) e subprogramas do Pronaf, como o Bioeconomia, Agroecologia, Floresta e Semiárido.
Todavia, entende-se que o financiamento de sistemas produtivos sustentáveis vai além dos subprogramas rotulados. É possível, por exemplo, financiar uma recuperação de solos em diversos programas do crédito rural, ou até mesmo com recursos sem vínculo a um programa específico. Outro exemplo é o financiamento de custeio em áreas de grãos que adotam o sistema de plantio direto. Ou seja, existe toda uma massa de recursos não associados a programas e subprogramas rotulados, mas que possuem um amplo potencial de redução de externalidades ambientais negativas, alinhados à jornada de sustentabilidade da agropecuária.
A quantificação do total de recursos oriundos da política pública com potencial de mitigar impactos ambientais negativos no setor agropecuário é uma tarefa complexa, que esbarra na ausência de um sistema taxonômico homogêneo (ainda em debate) até na própria estrutura de dados do crédito rural, que possui limitações de informações para este objetivo.
De todo modo, é fundamental a construção de estratégias para a devida contabilização dos recursos destinados à empreendimentos em transição produtiva, a fim de garantir maior transparência, melhorar a capacidade de comunicação positiva sobre as iniciativas de política pública destinadas à sustentabilidade do setor e melhorar o processo de alocação de recursos, bem como refletir sobre mudanças nos instrumentos de política agrícola. Entendendo que existem diversos custos de transação que limitam o acesso a esses recursos, conhecer o volume de operações e sua incidência é fundamental para ajustes na estratégia brasileira para atacar as mudanças do clima.
É exatamente nesse contexto e, tentando oferecer um caminho para a devida quantificação dos recursos da política de crédito rural alinhados à jornada de sustentabilidade, que desenvolvemos uma metodologia exclusiva, capaz de oferecer, a partir de alguns pressupostos e utilizando como bases conceituais (taxonomia) políticas públicas consagradas como o Plano ABC+ e a PGPM-Bio, diferentes cenários para o cálculo desse montante de recursos.

Foto: Divulgação/C.Vale
A metodologia se baseia na estrutura dos microdados do crédito rural (Sicor), oferecendo 5 níveis para a observação dos recursos associados à jornada de sustentabilidade. No primeiro, mais conservador, consideram-se somente aqueles recursos vinculados à subprogramas rotulados (com finalidade de sustentabilidade bem definida). No último nível, mais holístico, outras características dos contratos vão sendo incorporadas, como os produtos (itens) financiados e outras variáveis que atestam sobre as estratégias de manejo. Na safra 2023/2024, os recursos alinhados à jornada de sustentabilidade da agropecuária variaram de R$ 8,9 bilhões (cerca de 8,4% do volume de recursos de investimento) até R $70,8 bilhões (cerca de 21,3% do volume de recursos para custeio e investimento).
Além de dar destaque às limitações e vantagens da aplicação da metodologia, o trabalho também oferece diferentes recortes desses recursos, como: por programa, atividade, finalidade, fonte de recursos e região. Todo esse esforço também conta com um painel de dados interativo, onde o usuário pode explorar de forma customizada, diversas dimensões contidas na base de dados do crédito rural.
Entender a dinâmica dos recursos associados à jornada de sustentabilidade traz um olhar para o futuro da política agrícola e seus instrumentos de incentivo, assim como requer avanços na coleta de dados, mensuração e transparência. Alocar de forma adequada os recursos da política pública, minimizando os custos de acesso pelos produtores e os custos de transação para as instituições financeiras, é fundamental. Essa metodologia contribui nesse sentido, além de dar visibilidade à jornada de sustentabilidade dos tomadores de crédito rural. Ademais, esse esforço representa um avanço no que diz respeito ao debate da taxonomia, uma vez que a metodologia desenvolvida pode ser adaptada a todo e qualquer sistema taxonômico, dado que faz uma aplicação direcionada à própria estrutura de dados do Sicor. Trata-se, portanto, de mais um passo no caminho da transição, auxiliando no aprimoramento do financiamento climático e na mitigação de riscos ambientais para toda a sociedade.

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China muda regras, impõe cota à carne bovina e ameaça fluxo comercial do Brasil
Tarifa extra de 55% sobre volumes excedentes pode provocar forte ajuste na produção e nos investimentos da cadeia pecuária.

A China decidiu estabelecer uma cota anual de importação de carne bovina para seus fornecedores internacionais, incluindo o Brasil, como parte de uma política de proteção aos produtores locais. Pelo modelo anunciado, volumes que ultrapassarem o limite definido estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, medida que deverá vigorar por um período inicial de três anos. Trata-se de uma mudança relevante nas regras do comércio internacional de carnes, com impactos diretos sobre os principais exportadores.
Dentro desse novo desenho, o que mais preocupa o setor brasileiro é a forma como a China pretende contabilizar essa cota. As autoridades chinesas deixaram claro que o volume será apurado com base nas entradas efetivas no país a partir de 1º de janeiro de 2026, independentemente de contratos firmados anteriormente, cargas em trânsito ou produtos já embarcados.

Artigo escrito por Paulo Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo).
Se essa interpretação se confirmar sem qualquer revisão, o Brasil terá de descontar da cota aproximadamente 350 mil toneladas que hoje já estão comprometidas, seja em cargas paradas em portos chineses aguardando desembaraço, em navios em trânsito ou em estoques formados nos portos brasileiros. Na prática, isso reduz de forma significativa o espaço disponível para novas produções ao longo de 2026.
Feitas as contas, restariam cerca de 750 mil toneladas disponíveis para produção destinada ao mercado chinês durante todo o ano. Dividido pelos 12 meses, esse volume se traduz em aproximadamente 62,5 mil toneladas mensais, um patamar totalmente desconectado da realidade atual do setor.
Para efeito de comparação, o Brasil vinha exportando, nos últimos meses, volumes superiores a 160 mil toneladas mensais para a China. A discrepância entre esses números evidencia, por si só, a urgência de uma ação diplomática coordenada, baseada em diálogo direto entre governos, para buscar um entendimento que leve em consideração os fluxos comerciais já estabelecidos.
O impacto dessa restrição é difícil de dimensionar com precisão, mas certamente será profundo. Considerando uma projeção anual próxima de 1,7 milhão de toneladas, a redução potencial, que inicialmente se estimava em torno de 35%, torna-se extraordinariamente preocupante quando aplicadas as novas regras de contabilização.
A pecuária brasileira avançou de forma consistente nos últimos anos, com investimentos expressivos em genética, manejo, processos produtivos e ganhos de eficiência. A indústria, por sua vez, modernizou plantas, ampliou capacidade e se estruturou para atender uma demanda crescente e estável. Uma mudança abrupta dessa magnitude obriga toda a cadeia a revisar expectativas, projeções e investimentos, tanto no curto quanto no médio prazo.
Não há culpados evidentes nem soluções simples. O único caminho possível é o diálogo institucional com as autoridades chinesas, em busca de um entendimento equilibrado, construído de governo para governo.
É preciso reconhecer que o governo brasileiro tem feito sua parte na ampliação e diversificação de mercados, com um trabalho consistente conduzido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e pelo ministro Carlos Fávaro. Ainda assim, é fundamental ter clareza: os novos mercados não possuem, ao menos por ora, o mesmo potencial de absorção do mercado chinês e, além disso, já contam com fornecedores consolidados, o que demanda tempo e estratégia para sua efetiva ocupação.
Enquanto isso, a eventual redução de volumes incide sobre o setor com rapidez extrema, como uma guilhotina afiada. Não se trata do fim da atividade, mas de mais um momento em que será necessário acomodar-se, adaptar-se e reinventar-se.
Os volumes excedentes são grandes demais para uma absorção imediata. O desafio está posto e a solução não virá de uma lâmpada mágica esquecida em alguma caverna, mas de negociação, realismo e construção conjunta.
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Eleições de 2026 exigem atenção especial ao papel do Legislativo
Em um cenário de incertezas e transformações sociais, o texto destaca a importância das eleições proporcionais e da escolha de parlamentares preparados para representar a sociedade, fiscalizar o Executivo e impulsionar mudanças estruturais no país.

A sociedade em geral e o sistema cooperativista em particular devem prestar atenção às eleições de 2026. Embora a imprensa e os cidadãos, por motivos óbvios, visualizam prioritariamente as eleições majoritárias – presidente, governador e senador – as eleições proporcionais são essenciais. A missão de exercer a representação popular nas Casas Legislativas é particularmente importante para a vida democrática brasileira e de Santa Catarina.
Ainda vivemos uma era de incertezas, com problemas crônicos de um país em crescimento com fortes contrastes regionais, lutando para reduzir desigualdades, criar uma infraestrutura de crescimento econômico de Norte a Sul e de Leste a Oeste, assistir aos fragilizados, amparar a velhice e pavimentar um futuro para as gerações que estão chegando.
Somos ora protagonistas, ora coadjuvantes de um cenário globalizado, onde as decisões, os fluxos e os influxos de qualquer parte do planeta impactam de imediato nossa realidade interna, fazendo com que decisões tomadas em Tóquio ou Washington afetem diretamente empresários, produtores ou consumidores do Brasil.
Essa realidade que nos envolve inexoravelmente e a cada dia com maior celeridade emoldura com tons de dramaticidade o papel do administrador público e do legislador. Todas as demandas sociais decorrentes do pulsar desse processo globalizante deságuam nas barras do Poder Público, exigindo ações e reações ágeis e acertadas. Não há mais espaço para titubeios.
O parlamentar, na esfera federal ou estadual, deve fazer a leitura permanente dos processos sociais em curso para que a ação parlamentar seja a grande impulsionadora das mudanças e transformações reclamadas pela sociedade. Análise da história recente da República revela que a sociedade brasileira vem reconhecendo gradativa importância e indisfarçável essencialidade ao legislador.
Ali, onde todas as ebulições e toda a efervescência desse nervoso século explodem, envoltas pelas cores do pluralismo político-partidário, é crucial defender os superiores interesses de nossa gente, fiscalizando o Poder Executivo, propondo leis, projetos e programas fulcrados em intervenções sociais capazes de levar um pouco de justiça e apoio a segmentos da multifacetada sociedade brasileira.
Diligente e aplicado, o parlamentar deve tentar compreender toda a complexidade do nosso mundo por meio da sincera disposição para o diálogo, para o estudo e para a pesquisa. Por isso, é recomendável humildade para buscar, ouvir e aceitar – sempre que a prudência indicar – uma compreensão mais profunda que permita refocalizar uma visão sobre a sociedade. Por isso, é preciso não se deixar fascinar demasiadamente por gráficos, por relatos burocratizantes, por informações pasteurizadas. É recomendável deixar os gabinetes para uma convivência irmanal com as comunidades que representa para nunca perder a sensibilidade para interpretação dos eventos sociais que eclodem cotidianamente.
A reforma do Estado para pô-lo totalmente a serviço do cidadão ainda exige muito esforço legislativo. Daí a necessidade de elegermos mandatários e parlamentares estaduais e federais que cumpram com coragem e abnegação o sagrado dever que a sociedade delegou para construir um Estado democrático de direito, fundado na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e no pluralismo político.
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Impacto das tarifas dos EUA redefine tilapicultura brasileira e acelera transformações para os próximos anos
Setor enfrenta queda na participação nas importações norte-americanas, mantém preços internos estáveis e investe em biosseguridade, inovação e diversificação de mercados para sustentar crescimento.

2025 trouxe uma combinação inédita de desafios para a piscicultura brasileira: mudanças bruscas no comércio internacional, dinâmica interna de preços que surpreendeu o mercado, avanços sanitários impulsionados por necessidades e urgência de diversificar destinos da nossa produção.
Foi um ano intenso, que exigiu adaptação rápida, reposicionamento estratégico e visão mais ampla sobre o papel do Brasil nesse setor em expansão. A produção de tilápia, especificamente, entrou em 2025 com altas expectativas e o encerra com aprendizados que devem moldar o ritmo de crescimento no futuro próximo.

Foto: Shutterstock
Entre esses desafios, a virada mais expressiva veio, evidentemente, das tarifas impostas pelos Estados Unidos. O salto de cerca de 10% para 50% nas taxas de importação alterou a rota natural de expansão brasileira no país que tem demanda elevada, produção interna insuficiente e alto poder de compra. O impacto foi imediato: a participação do Brasil caiu de aproximadamente 5% para perto de 3% no total das importações norte-americanas. Essa reação reforçou a necessidade de rever a estratégia, colocando a diversificação novamente no centro da agenda da cadeia produtiva.
Para além dos EUA, o setor precisou revisitar seu mapa de oportunidades globais. A análise dos mercados evidenciou que cada destino oferece limites e possibilidades distintas – e que, nenhum deles, isoladamente, substitui o potencial norte-americano. A China, por exemplo, apesar de ser um dos maiores consumidores mundiais de pescado, é autossuficiente e mantém barreiras práticas para importadores. Já o Canadá, mesmo com elevado poder aquisitivo, apresenta hábitos de consumo mais restritos. Diante desse quadro, a União Europeia surge como alternativa mais promissora, enquanto a prospecção de novos mercados se torna essencial para sustentar o ritmo de crescimento da produção brasileira.
No mercado interno, os efeitos também foram diferentes do esperado. Em vez de queda, os preços seguiram em alta, mesmo diante de um fluxo menor de exportações. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), a tilápia fechou novembro a R$ 9,29 o quilo, acima dos R$ 8,02/kg registrados logo após o anúncio das tarifas e dos R$ 7,75/kg do fim de 2024. Isso mostra que a oferta não é grande o suficiente para provocar desvalorização significativa, reforçando que o Brasil está apenas começando sua trajetória como produtor e exportador relevante.
Ao mesmo tempo, 2025 estimulou avanços importantes na área sanitária: práticas de biosseguridade mais robustas, fortalecimento dos protocolos de imunidade, uso crescente de vacinas e de nutracêuticos e investimentos em manejo preventivo. A maturidade sanitária deixou de ser tendência e passou a ser pilar estratégico para sustentação de produtividade e competitividade.
Nesse cenário, as empresas brasileiras têm se reorganizado para enfrentar um ambiente mais complexo e exigente. A Fider, maior produtora e processadora de tilápia do Estado de São Paulo e uma das maiores do Brasil, é um exemplo desse movimento, reforçando inovação, rigor sanitário e busca por novos mercados como caminhos para atravessar o período e se posicionar bem para as oportunidades que virão. Fechamos o ano mais consciente dos riscos, mais atentos às mudanças globais e, sobretudo, mais preparados para construir um futuro mais sólido e diverso para a piscicultura nacional.



