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Com R$ 275 milhões em negócios gerados, ApexBrasil encerra edição de 2023 do Exporta Mais Brasil
Por meio do programa, de agosto a dezembro deste ano, a Agência promoveu mais de três mil reuniões de negócios entre 143 compradores internacionais e 487 empresas brasileiras de 13 diferentes setores produtivos .

Lançado em agosto de 2023, o Exporta Mais Brasil, programa da Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (ApexBrasil) que tem como objetivo impulsionar as exportações brasileiras de diferentes setores da economia e de todas as regiões do país, conclui o ano com 13 rodadas realizadas em 13 estados, promovendo 13 diferentes setores da economia.
São eles: móveis (PB), rochas ornamentais (ES), cafés robustas amazônicos (RO), pescados (PR), artesanato (CE), cervejas especiais (RJ), cosméticos (GO), mel (SP), cafés arábicas (MG), calçados (RS), produtos amazônicos compatíveis com a floresta (AC), frutas (PE) e audiovisual (DF). Para cada rodada, a ApexBrasil convidou compradores internacionais que vieram ao país para ver de perto a produção local e fazer negócios diretamente com as empresas nacionais. Os resultados são: R$ 275 milhões em negócios gerados a partir de 3.496 reuniões de negócios. Para a realização do programa, o valor investido pela Agência foi de R$ 5 milhões. Ou seja, cada R$ 1 investido gerou R$ 55 em negócios.
“Concluímos o primeiro ciclo do Exporta Mais Brasil, que criamos neste ano para promover o encontro perfeito: do importador interessado em comprar com a empresa brasileira pronta para vender. Além disso, abrimos espaço para que esses compradores vissem a nossa produção de perto, visitassem as fábricas, as fazendas, isso com diferentes setores da nossa economia e com empresas de todas as regiões do país”, explica o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana. “E ainda dedicamos atenção especial às empresas das regiões Norte e Nordeste, bem como àquelas lideradas por mulheres, pois é prioridade da ApexBrasil dar mais oportunidades para essas produtoras que geralmente tem menos acesso ao comércio exterior, apesar do grande potencial, como podemos ver com os resultados”, complementou.
Das empresas que participaram das rodadas, mais de 40% têm mulheres em cargos de liderança. Foi o caso da tocantinense Eliene Bispo, que faz trabalhos com capim dourado há 23 anos e preside a Associação Dianapolina de Artesãos, na cidade de Dianópolis, sudeste do estado. Apesar de já ter vendido pontualmente para o exterior, sobretudo via indicações de terceiros, foi no Exporta Mais Brasil que ela participou de sua primeira rodada internacional de negócios. O “match” foi imediato: a artesã fechou acordo com compradoras da China e da Áustria, restando agora apenas os trâmites burocráticos para o fechamento do pedido e o embarque dos materiais.
A participação de Eliene foi na 5ª rodada do programa, dedicada ao artesanato, que ocorreu em Fortaleza – CE, no âmbito da Feira Nacional de Artesanato e Cultura (Fenacce). Na ocasião, 58 artesãs, artesãos, cooperativas, casas de cultura e associações de artesanato de 18 estados brasileiros participaram de rodadas de negócios com 10 compradores internacionais, vindos de Holanda, Reino Unido, Irlanda, Áustria, Estados Unidos, China, Japão e Jordânia. Os resultados foram promissores: 323 reuniões realizadas e R$ 1,7 milhões em negócios gerados imediatamente e em vendas futuras, além de incontáveis oportunidades de networking.
Outras duas rodadas do programa também foram no Nordeste. A primeira de todas, onde a iniciativa começou, em agosto, ocorreu em João Pessoa -PB, e foi dedicada ao setor de móveis. Foi lá que a moveleira YIBIRÁ Biodesign da Amazônia, do Amapá, conquistou sua primeira venda para o exterior. Na ocasião, importadores da Alemanha, que vieram a convite da ApexBrasil, adquiriram um dos principais produtos da empresa: a mesa cascata, de madeira maciça sustentável e com certificação.
“A gente já estava prospectando uma oportunidade dessa magnitude há muito tempo e agora a ApexBrasil conseguiu viabilizar essa parceria. Vai ter produto da Ybyrá na Alemanha, sim!”, celebrou o CEO da empresa, Yuri Bezerra, na ocasião. A empresa, que fomenta a bioeconomia da região amazônica através da reutilização de troncos de árvores que caem de forma natural, foi uma das 22 empresas participantes da 1ª rodada do programa. Ao longo de três dias, as moveleiras, advindas de diversos outros estados, fizeram 97 reuniões de negócio com seis compradores estrangeiros, de cinco diferentes países, que resultaram em R$ 5 milhões em negócios. A rodada contou com o apoio da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), parceira da ApexBrasil no projeto setorial Brazilian Furniture.
Outro estado nordestino que recebeu o Exporta Mais Brasil foi Pernambuco. Na região do Vale do São Francisco, em Petrolina, o setor da fruticultura brasileira confirmou o seu sucesso. Em apenas dois dias de reuniões entre 12 produtoras nacionais de frutas e seis compradores internacionais de seis diferentes países, foram quase R$ 15 milhões em negócios gerados. Além das reuniões, os estrangeiros visitaram fazendas produtoras e conheceram de perto o potencial produtivo local.
A região Norte foi palco de duas das 13 rodadas do programa: uma em Cacoal – RO, dedicada à promoção dos cafés robustas amazônicos, que movimentou mais de R$ 4 milhões em negócios a partir do encontro entre 24 produtores, sendo 12 indígenas e 12 mulheres, com 20 compradores de 11 países diferentes; e outra em Rio Branco – AC, focada nos produtos amazônicos compatíveis com a floresta, como açaí, cacau & chocolate, castanha do Brasil, peixes, carnes bovina, suína e de frango, que movimentou R$ 50 milhões. Durante essa rodada, a Agência lançou também o programa Exporta Mais Amazônia, que tem como objetivo facilitar e promover as exportações de empresas brasileiras que atuam naquela região.
Para Jorge Viana, a inauguração do Exporta Mais Amazônia vai ao encontro de um dos principais objetivos da Agência, que é descentralizar as exportações brasileiras, estimulando a região Norte, que hoje corresponde a apenas 8,5% do total exportado pelo país. “Esse programa busca aproximar o empresariado amazônico dos mercados internacionais, organizando o setor produtivo em torno de desafios comuns e trazendo os compradores do mundo todo para conhecer o potencial dos produtos da floresta, que apresentam alto valor agregado”, explicou o presidente da ApexBrasil.
Outras regiões do Brasil
Além de Norte e Nordeste, estados das demais regiões do país também tiveram rodadas do programa. No Sul, o setor de calçados movimentou R$ 25,6 milhões em negócios a partir de reuniões promovidas pela ApexBrasil, em Porto Alegre – RS, durante a Brazilian Footwear Show (BFSHOW), feira internacional de calçados organizada pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), parceira da Agência no projeto setorial Brazilian Footwear. Esta, que foi a 10ª rodada do programa, promoveu reuniões de negócios entre 38 compradores internacionais e 79 empresas representantes de mais de 130 marcas nacionais de calçados.
No Paraná, em Foz do Iguaçu, o setor de pesca e aquicultura movimentou R$ 80 milhões. Na ocasião, a 4ª rodada do programa promoveu 36 reuniões de negócio entre 14 empresas brasileiras do setor de pescados, de nove diferentes estados, e seis compradores internacionais da China, Estados Unidos, Uruguai e Emirados Árabes Unidos.
“O ‘Exporta Mais Brasil Pescados’ marcou um capítulo histórico nas exportações de frutos do mar brasileiros, impulsionando o potencial do setor e abrindo novos horizontes. Por meio de parcerias estratégicas com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e o International Fish Congress (IFC), elevamos os pescados brasileiros a um novo patamar, ampliando as fronteiras de nossos produtos e marcas e apresentando volumes expressivos de negócios”, destacou, logo após o evento, o gerente de Agronegócio da ApexBrasil, Laudemir Muller.
No Sudeste, quatro estados receberam o Exporta Mais Brasil. No Espírito Santo, em Vitória e em Cachoeiro do Itapemerim, o setor de rochas ornamentais foi o foco da 2ª rodada do programa, que gerou cerca de R$ 15 milhões em negócios. A rodada contou com o apoio do Centro Brasileiro dos Exportadores de Rochas Ornamentais (Centrorochas), parceira da ApexBrasil no It’s Natural – Brazilian Natural Stone.
Já São Paulo acolheu duas rodadas; a 8ª, dedicada ao setor de mel, que movimentou mais de R$ 12 milhões; e a 9ª, que focou em promover os cafés arábicas e gerou mais de R$ 36 milhões em negócios. Minas Gerais também foi palco desta rodada, que foi inaugurada no âmbito da Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte. Na ocasião, os compradores internacionais participaram de uma grande sessão de degustação para conhecer a diversidade de regiões e perfis sensoriais dos cafés produzidos no Brasil. Além disso, os compradores visitaram fazendas e cooperativas de produtores em Araxá, no Cerrado Mineiro, e em Oliveira, no Campo das Vertentes. Em São Paulo, o tour foi em propriedades de São José do Rio Pardo, no Vale da Grama, e em Franca, na Alta Mogiana.
Na 9ª rodada, destacaram-se ainda os cuppings servidos com cafés de produtoras e cooperativas que trabalham especificamente com mulheres. A presença feminina entre os participantes foi um dos highlights dessa etapa do Exporta Mais Brasil: dos 129 produtores de cafés presentes, 40 eram mulheres. A rodada como um todo recebeu, entre os dias 8 e 15 novembro, 24 importadores de 19 países para fazer negócios com 129 produtores de cafés arábicas.
Em outubro, no Rio de Janeiro, as cervejas especiais nacionais encantaram os compradores que vieram de Malta, Argentina, Rússia e Dinamarca para verem de perto a produção local e fazer negócios. “Foi ótimo ter visitado as cervejarias locais. As cervejas têm muita personalidade e eu me surpreendi com a qualidade. É muito legal ver que as cervejarias aqui estão começando a trabalhar com ingredientes locais”, destacou um dos compradores, o dinamarquês Henrik Boes, que em seu país tem uma importadora e distribuidora de bebidas e veio a convite da ApexBrasil para participar da 4ª rodada do programa, dedicada ao setor cervejeiro. Além de cervejarias cariocas, participaram empresas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Ao todo, foram 11 produtores nacionais que movimentaram cerca de R$ 1,5 milhão em negócios.
Goiás e o Distrito Federal foram os estados do Centro-Oeste que, neste primeiro ciclo do Exporta Mais Brasil, receberam rodadas do programa. Em Goiânia (GO), o setor de cosméticos foi o destaque e movimentou quase R$ 9 milhões. Ao longo dos três dias de agenda, nove compradores internacionais fizeram 120 reuniões de negócios com as 31 empresas brasileiras. “Hoje já exportamos para cinco países, e estar em uma rodada de negócios que nos conecta com compradores de uma maneira muito direta e objetiva é o que a gente precisa para conseguir potencializar nossas exportações”, afirmou Danniel Pinheiro, CEO da Biozer da Amazônia, que saiu de Manaus para negociar com os importadores na capital goiana.
Já no DF foi onde o programa realizou a última rodada do ano. No âmbito do 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a 13ª rodada do Exporta Mais Brasil focou em promover o setor audiovisual e fez acontecer 86 reuniões de negócio entre oito compradores de seis países e 22 produtoras brasileiras de cinema, de oito estados. “O setor da economia criativa, incluindo o cinema, é um dos nossos pontos fortes, seja do ponto de vista da capacidade criativa, seja em relação ao profissionalismo e à geração de empregos”, disse Jorge Viana. “É um segmento que emprega milhões de brasileiros e ajuda a movimentar a economia do país. Foram quatro anos bem difíceis para esse setor, mas com a volta do presidente Lula, que valoriza a nossa cultura e reconhece o seu potencial, estamos unidos novamente para fortalecer nosso cinema e nossas produções audiovisuais”, reforçou o presidente da ApexBrasil.
O encontro fomentou diversas oportunidades para o segmento. Os produtores brasileiros de conteúdo audiovisual puderam apresentar seus projetos para os compradores e exploraram novas oportunidades de negócios que, entre imediatos e perspectivas para os próximos 12 meses, somaram cerca de R$ 9.750 milhões. “É muito prazeroso terminar essa edição do Exporta Mais Brasil aqui na nossa casa, na nossa ApexBrasil, recebendo não apenas as produtoras brasileiras, mas principalmente os compradores estrangeiros, para que possam conhecer a nossa terra. Brasília é palco de uma cena criativa muito rica”, afirmou a diretora de Negócios da ApexBrasil, Ana Paula Repezza, durante a abertura da rodada, que ocorreu na sede da ApexBrasil, em Brasília.
Assim como Jorge Viana, Ana Repezza se fez presente em diversas rodadas do Exporta Mais Brasil. Segundo ela, empresas que exportam empregam mais gente e pagam melhores salários e, por isso, ao impulsionar as exportações de diferentes setores de todas as regiões do país, o Exporta Mais Brasil promove um impacto muito positivo na economia nacional. “São impactos positivos não apenas para as empresas exportadoras, como para toda economia da região em que estão inseridas”, complementa Repezza.
O novo ciclo do Exporta Mais Brasil, em 2024, se fará presente em todos os demais estados que ainda não participaram. Assim como ocorreu em 2023, cada rodada será voltada para um setor produtivo diferente da economia brasileira.

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



