Peixes
Com crescimento de 10% ao ano na última década, piscicultura brasileira enfrenta gargalos para se manter em expansão
Entre os principais entraves ao desenvolvimento dos peixes nativos no país estão a falta de industrialização, de genética aprimorada, de nutrição adequada e de políticas eficazes de sanidade.

Mesmo diante de desafios, a piscicultura brasileira vem se expandindo a uma taxa de 10% ao ano na última década, tendo atingido no último ano 887.029 toneladas de peixes de cultivo produzidas, crescimento de 3,1% em relação a 2022. Superando adversidades como clima, questões sanitárias e gargalos logísticos, a atividade posiciona o Brasil entre os maiores produtores mundiais de peixes de cultivo, especialmente de tilápia, espécie que é o carro-chefe da produção nacional. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, destaca o crescimento robusto do setor, os gargalos e as perspectivas para os próximos meses de 2024.
Criada em outubro de 2014, a Peixe BR completa uma década de atuação este ano, período em que desempenhou um papel importante para o desenvolvimento da piscicultura nacional. “Nos últimos 10 anos, os peixes de cultivo foram a proteína animal que mais cresceu percentualmente no Brasil”, exalta Medeiros, atribuindo esse sucesso às ações estratégicas realizadas pela Associação junto aos seus associados, que resultaram em um aumento expressivo na produção e na melhoria dos processos de abate nas agroindústrias.
Um dos exemplos mais expressivos desse crescimento é da região Oeste do Paraná, considerada o maior polo de piscicultura do país. “As principais tecnologias e a maior produtividade se concentram nessa região, servindo de exemplo para outras regiões, como dos Grandes Lagos, em São Paulo, Triângulo Mineiro, Alto Paraíba e Morada Nova de Minas, no estado de Minas Gerais, além de Paulo Afonso, na Bahia”, expôs Medeiros, enfatizando que o Mato Grosso se destaca atualmente como o estado com maior número de investimentos na atividade, impulsionado pelas experiências bem-sucedidas no Oeste paranaense.
Principal espécie produzida no país, a tilápia representa mais de 65% da produção total, atingindo um crescimento de 10,2% ao ano na última década. “Um fator importante para o crescimento da tilapicultura é o fato de que a tilápia é o único pescado que é commodity no mundo, produzido em mais de 100 países e comercializado em mais de 140. Isso favorece o desenvolvimento da atividade, permitindo trocas de informações e acesso a tecnologias avançadas”, frisou o presidente da Peixes BR, evidenciando o interesse crescente de empresas de saúde animal, genética e nutrição no setor, impulsionado pela natureza globalizada da produção de tilápia. “Os grandes players do agronegócio, tanto nacional como internacional, estão entrando no mercado da piscicultura, o que traz novas oportunidades, mas também muitos desafios”, frisa.
Resiliência do setor
Apesar dos bons resultados, Medeiros ressalta que a atividade tem muito a melhorar, especialmente em termos de gestão e adaptação às condições climáticas, como as variações de temperatura que impactam a alimentação e o peso dos peixes. Porém, salienta que a cadeia produtiva é resiliente e está atenta às mudanças que afetam o setor e ao comportamento do mercado consumidor.
O presidente da Peixe BR também reforça que a estação mais fria do ano influencia diretamente na criação de tilápias. Ele explica que tradicionalmente, por volta de abril, as tilápias reduzem a alimentação devido à queda na temperatura da água, resultando em uma menor oferta de filé de tilápia no mercado. No entanto, Medeiros diz que 2024 foi atípico. “Em julho, o Paraná experimentou um frio mais prolongado, enquanto no início do inverno os períodos de frio foram curtos e menos intensos. Isso permitiu que as tilápias crescessem mais, atingindo um peso maior, o que resultou em um aumento na oferta de filé no mercado, já que os consumidores compram o produto por peso. Em 2023, a média de abate no Paraná era de 700 gramas, enquanto que em 2024 está em 950 gramas, ou seja, o produtor aumentou em um ano quase 30% a oferta de filé com a mesma quantidade de peixe”, menciona.
Embora o preço da tilápia esteja abaixo do praticado no mesmo período do ano passado, os produtores tiveram uma redução no custo da ração, o que influência diretamente na rentabilidade do negócio. “Neste cenário, a gestão eficiente se torna fundamental. Enquanto alguns produtores enfrentam prejuízos, outros conseguem equilibrar as contas e há ainda aqueles que estão lucrando”, afirma Medeiros, acrescentando que historicamente o inverno é um período de baixa liquidez ao produtor, porque o consumidor acaba substituindo a tilápia por outras proteínas. “Esperamos uma retomada nos preços até o final de setembro”, afirma, otimista, o presidente da Peixe BR.
Presença do Brasil no mercado internacional
O Brasil tem se destacado cada vez mais no mercado internacional de pescado, especialmente na exportação de tilápia. Quarto maior produtor mundial da espécie, o país atualmente exporta para mais de 40 nações, com destaque para os Estados Unidos (EUA) e o Canadá, os maiores consumidores de filé de tilápia do mundo. “O mercado norte-americano tem sido o foco principal das exportações brasileiras, com mais de 50% do volume exportado sendo de filés frescos, que são melhor remunerados nos EUA. Em contrapartida, os filés congelados enfrentam forte concorrência com os produtos chineses, que, embora de qualidade inferior ao pescado brasileiro, dominam parte do mercado devido a questões logísticas e de preço”, detalha Medeiros.
Contudo, um dos principais desafios enfrentados pelo Brasil para aumentar sua competitividade no mercado global é a logística. O transporte do filé de tilápia, que deve chegar aos EUA em até 48 horas após o peixe sair da água, é realizado via voos comerciais de passageiros, o que impõe limitações. Além disso, o processo de liberação dos certificados de exportação pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) pode levar até quatro dias, um prazo que, embora razoável para outros produtos do agronegócio, é insuficiente para a exportação de filé de tilápia fresco. “Temos trabalhado junto ao Ministério para otimizar esses prazos e, assim, permitir que o Brasil aumente sua participação no mercado internacional de tilápia”, adianta.

Perspectivas de crescimento
Para que o Brasil se consolide como um dos maiores exportadores de pescado do mundo, Medeiros diz que é essencial continuar aumentando a produção. Em 2023, as exportações cresceram 48% em relação ao ano anterior, contudo, segundo ele, o crescimento poderia ter sido ainda maior. “A indústria optou por priorizar o mercado interno, que ainda está em expansão e apresenta grande potencial de consumo”, salienta.
O cenário cambial atual, com o dólar acima de US$ 5,60, tem sido favorável para as exportações, tornando o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional. Mesmo assim, a indústria continua a atender prioritariamente o mercado interno, o que indica que, com o aumento da produção, o Brasil pode explorar ainda mais o mercado externo sem comprometer o abastecimento doméstico.
De acordo com Medeiros, o Brasil está bem posicionado para expandir suas exportações de pescado, mas enfrenta desafios logísticos que precisam ser superados para que o país aproveite todo o seu potencial no mercado global. “Com um produto de alta qualidade e um mercado interno em crescimento, o país tem todas as condições de aumentar sua competitividade e alcançar posições ainda mais altas no ranking mundial de exportadores de pescado”, avalia o presidente da Peixe BR.
A tilápia responde atualmente por 65% da produção de peixes de cultivo no Brasil, consolidando-se como a espécie líder do setor. Com esse protagonismo, surgem questionamentos sobre as perspectivas de crescimento nos próximos anos e os riscos de uma possível dependência excessiva dessa espécie. “O mundo escolheu consumir a tilápia, não é uma decisão exclusiva dos consumidores brasileiros, mas uma tendência global”, aponta o presidente da Peixe BR, enfatizando: “Assim como o suíno branco, o frango de corte, a soja e o milho se tornaram commodities de relevância mundial, a tilápia se destaca por sua produção competitiva e acessível a todas as faixas etárias e classes sociais. Ou seja, não é uma escolha do produtor brasileiro, é uma escolha do mundo”.
Consumo Interno
Apesar dos avanços, o consumo per capita de pescado no Brasil permanece abaixo do ideal, com média de aproximadamente 9 kg/habitante/ano, quando a nível mundial a média pode chegar a 20 kg/habitante/ano. “A Peixe BR tem realizado várias ações em parceria com as empresas associadas para impulsionar o consumo interno, no entanto, reconhecemos que ainda há espaço para maior adesão dos brasileiros ao peixe em suas dietas. Temos trabalhado ativamente para implementar diversas estratégias de incentivo ao consumo, o que tem feito com essa seja a proteína animal que mais cresceu em termos percentuais entre os consumidores brasileiros na última década”, enfatiza.
Gargalos na produção de peixes nativos
Enquanto a tilápia segue em expansão, os peixes nativos do Brasil enfrentam um cenário de desafios. O presidente da Peixe BR aponta que, nos últimos sete anos, a produção de espécies nativas sofreu uma retração de mais de 13%. Entre os principais entraves ao desenvolvimento dos peixes nativos no país estão a falta de industrialização, de genética aprimorada, de nutrição adequada e de políticas eficazes de sanidade.
Segundo uma projeção recente do Instituto Escolhas, o crescimento esperado para os peixes nativos nos próximos 10 anos é de apenas 4,6%. “Esse crescimento é acumulado em uma década, não anual. Diferente da tilápia, os peixes nativos carecem de investimentos em todas as áreas, desde genética até a indústria de abate”, evidencia Medeiros.
Um exemplo que ilustra essa disparidade é um contraste entre a cidade mineira Morada Nova de Minas, que produz 35 mil toneladas de peixes e possui sete frigoríficos com serviço de inspeção, enquanto Rondônia, estado líder na produção de peixes nativos, possui apenas três frigoríficos, evidenciando o gargalo na industrialização. “Sem a indústria de processamento, não há como expandir a produção de peixes nativos, pois o consumidor final raramente compra um peixe fresco inteiro para processar em casa. O processamento industrial é essencial para que o pescado chegue de forma prática e acessível ao prato dos brasileiros”, observa Medeiros.
Conforme o presidente da Peixe BR, a reestruturação da cadeia produtiva dos peixes nativos vai exigir pelo menos uma década de investimentos estratégicos, especialmente no desenvolvimento de indústrias de processamento. “Atualmente, sem essa estrutura, os peixes nativos estão se tornando um produto de nicho, o que não é necessariamente ruim, mas precisa ser valorizado com preços mais altos para garantir rentabilidade. Caso contrário, a perda de margem tornará inviável a continuidade dessa produção”, ressalta.
A situação já impacta diretamente estados como Mato Grosso e Rondônia, onde muitas estruturas produtivas estão desativadas. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, mais de 30% dos viveiros que antes cultivavam peixes nativos foram desativados por falta de rentabilidade e perspectivas de melhoria. “A produção existe, mas sem uma indústria adequada para absorver e processar esse pescado, a atividade se torna insustentável”, acrescenta.
Receita do setor
Em 2024, a produção de peixes de cultivo movimentou cerca de R$ 9 bilhões no Brasil, refletindo a força crescente do setor. As perspectivas para os próximos anos são promissoras, com projeções de expansão significativa. “A única certeza que temos é que em 2024 o crescimento será muito superior ao de 2023”, destaca Medeiros, reforçando que a receita com a tilápia deverá se manter em dois dígitos este ano.
No contexto geral da cadeia de peixes de cultivo, o setor deve alcançar um dos maiores aumentos de produção já registrados no país, especialmente se os próximos quatro meses se mantiverem estáveis. “Se tudo correr conforme o esperado, 2024 será o ano com o maior crescimento na produção de peixes de cultivo no Brasil”, projeta Medeiros.
Esse cenário, contudo, favorece mais o consumidor do que o produtor, especialmente em um momento em que o Brasil caminha para uma supersafra de commodities. “O aumento da oferta tende a pressionar os preços para baixo, beneficiando os consumidores com produtos mais acessíveis, enquanto os produtores enfrentam margens de lucro reduzidas. Esse efeito varia de mercado para mercado, mas a tendência geral é de que o consumidor seja o principal beneficiado pela queda dos preços”, explica Medeiros.
Sanidade e mercado ditam rumos da piscicultura
O futuro da piscicultura no Brasil, especialmente no setor de tilapicultura, depende de uma série de fatores que vão além da capacidade produtiva dos criadores. “O sucesso da tilápia brasileira, por exemplo, está diretamente ligado a dinâmica do mercado de insumos, especialmente milho e soja, que são os principais componentes da alimentação dos peixes”, declara.
Além dos fatores econômicos, a sanidade tem se mostrado um dos maiores desafios tanto para a criação de tilápias quanto de peixes nativos. Segundo o presidente da Peixe BR, o mercado já é, por si só, um desafio permanente, com suas flutuações e demandas, mas a questão sanitária permanece como a maior preocupação para os piscicultores. “Todos os dias surgem novos desafios a serem superados. Precisamos aprender a conviver com isso e, ao mesmo tempo, investir em novas tecnologias e vacinas para garantir a saúde e a sustentabilidade do setor”, ressalta, contando que um dos maiores riscos enfrentados atualmente é a entrada do vírus TiLV, que pode causar grandes prejuízos à produção. “Estamos trabalhando incansavelmente para evitar a disseminação desse vírus, mas os riscos sanitários são sempre grandes”, expõe Medeiros.
Expectativas para encerrar 2024
Em contínua expansão, a expectativa da Peixe BR é que o Brasil consolide ainda mais sua posição como um dos principais produtores de tilápia no mundo. Medeiros diz que as perspectivas são promissoras, mas dependem de diversos fatores, desde o clima até mudanças regulatórias e de mercado. “Esperamos uma regularidade pluviométrica nos próximos meses de 2024, com maior concentração de chuvas entre setembro e outubro nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, essenciais para a reposição de represas e lagos para garantir boas condições para a produção, especialmente de peixes nativos, uma vez que a água é o principal insumo da piscicultura, e, sem ela, não há como sustentar o crescimento que projetamos”, enfatiza.
Medeiros destaca que o país conta com três principais tipos de produtores: independentes, empresas verticalizadas e as integradoras. Segundo o presidente da Peixe BR, o sistema de integração, que envolve parcerias entre pequenos produtores e grandes empresas ou cooperativas agropecuárias, está se tornando uma das formas mais seguras de operação, especialmente em um cenário de volatilidade de preços. Por outro lado, grandes grupos econômicos apostam na verticalização, controlando todas as etapas da cadeia produtiva. “A tendência é uma redução gradual do número de produtores independentes, que estão perdendo competitividade em comparação com

Presidente da Associação Brasileira da Piscicultura, Francisco Medeiros: “Um fator importante para o crescimento da tilapicultura é o fato de que a tilápia é o único pescado que é commodity no mundo” – Foto: Divulgação/Peixe BR
sistemas integrados e verticalizados. No médio e longo prazo, esse movimento deve continuar, com cada vez menos independentes no mercado”, prevê Medeiros.
Além disso, a gestão eficiente da propriedade se tornou tão ou mais importante do que a produção em si. “Protocolos de gestão são fundamentais para aprimorar processos e garantir a competitividade no setor”, reforça Medeiros, enfatizando que o futuro da piscicultura brasileira depende não só de inovações tecnológicas, mas também de uma gestão que acompanhe o crescimento do mercado, assegurando a sustentabilidade e a lucratividade dos negócios.
Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de Aquicultura acesse a versão digital, clique aqui. Boa leitura!

Peixes
Banco genético fortalece futuro da tilapicultura no Brasil
Estudo com populações de tilápia-do-nilo de Santa Catarina ao Ceará cria reserva genética estratégica, identifica diferenças entre linhagens e abre caminho para maior produtividade, resiliência e sustentabilidade na principal cadeia da piscicultura nacional.

O Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde criou um amplo banco de germoplasma de tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) analisando nove populações da espécie, amostradas dos estados de Santa Catarina até o Ceará. A tilapicultura responde por 65% da produção nacional de peixes cultivados.
O estudo revelou que, apesar das características morfológicas semelhantes, há diferenciação genética, formando quatro agrupamentos, além de sinais significativos de endogamia, cruzamentos entre parentes próximos que podem reduzir a diversidade e comprometer o desempenho produtivo ao longo dos anos.
Os cientistas reuniram mais de 2.600 exemplares na unidade do Instituto de Pesca em São José do Rio Preto, formando uma reserva genética que funciona como “poupança” para o futuro da tilapicultura.
A caracterização desses animais envolveu tanto medições corporais e de rendimento de filé – incluindo técnicas inovadoras de ultrassonografia, quanto análises moleculares com marcadores de DNA.
Os resultados indicam que linhagens ligadas ao programa internacional Genetically Improved Farmed Tilapia (GIFT) apresentam maior rendimento de filé, enquanto outras, como a chitralada, tendem a apresentar menor crescimento. Conhecimento como esse permitirá selecionar peixes mais adaptados às condições brasileiras, com maior resiliência climática e melhor aproveitamento econômico.
O Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde é apoiado pela FAPESP no âmbito do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) e tem sede no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesca, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e das universidades de Mogi das Cruzes (UMC) e Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Peixes
Brasil mira 1 milhão de toneladas de peixe cultivado enquanto regulações desafiam setor
Embora ainda não haja dados consolidados para 2025, a piscicultura brasileira chega ao fim do ano com a percepção clara de expansão, mesmo sob um ambiente regulatório considerado adverso pelo setor.

Embora ainda não haja dados consolidados para 2025, a piscicultura brasileira chega ao fim do ano com a percepção clara de expansão, mesmo sob um ambiente regulatório considerado adverso pelo setor. O presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, afirma que a atividade cresceu frente a 2024, impulsionada sobretudo pela tilapicultura, ao mesmo tempo em que enfrentou entraves provocados por decisões governamentais que alteraram o ritmo natural do mercado.
A expectativa é que a produção nacional ultrapasse as 968.745 toneladas registradas em 2024 e possa, pela primeira vez, romper a marca de 1 milhão de toneladas. Esse avanço é impulsionado especialmente pela tilápia, cuja produção cresceu 14,36% no ano anterior, respondendo por mais de 68% dos peixes cultivados no país.

Ao longo do último ano, os preços pagos ao produtor de tilápia registraram uma recuperação consistente nas principais regiões produtoras do país. Nos Grandes Lagos, o valor saiu de R$ 7,04 por quilo em janeiro para R$ 9,14 em dezembro. Em Morada Nova de Minas, a elevação foi de R$ 7,55 para R$ 9,23 no mesmo intervalo. No Norte do Paraná, a valorização também foi expressiva, passando de R$ 8,84 para R$ 10,07. No Oeste do Paraná, houve avanço mais moderado, de R$ 7,75 para R$ 8,81. Já no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, o preço subiu de R$ 7,50 para R$ 9,41. “Começamos 2025 com preços baixos pagos ao produtor, agora estamos praticamente na nona semana de recuperação dos preços da tilápia”, celebra Medeiros, enfatizando que apesar das flutuações típicas do mercado houve uma recuperação gradual nos valores pagos aos produtores, o que deve contribuir para o desempenho positivo do setor em 2025.
Na contramão
Apesar do bom desempenho, o desenvolvimento da piscicultura ocorreu em um ambiente político classificado como hostil por Medeiros. O primeiro grande obstáculo foi a liberação da importação de tilápia do Vietnã, um ato que, segundo o dirigente, se trata de uma interferência política. “As condições de produção no Vietnã são completamente diferentes das do Brasil. Lá, é permitido colocar água dentro do peixe, algo proibido por aqui”, diz categoricamente o presidente da Peixe BR, frisando que esse procedimento cria uma desvantagem competitiva para os produtores brasileiros, que cumprem rigorosas exigências ambientais e de produção.
Outro ponto crítico foi o impacto do tarifaço de 50% adotado pelos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras de tilápia, medida que atingiu especialmente Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, principais produtores da espécie. “Houve queda no volume embarcado, mas a indústria reagiu de forma rápida, realocando produtos e buscando novos destinos, o que evitou desequilíbrios no mercado doméstico”, pontua, ressaltando os efeitos da tarifa já foram totalmente absorvidos pela cadeia e não representam mais risco.

Presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros: “Com produto competitivo e abertura comercial, as perspectivas são positivas para 2026” – Foto: Divulgação/Peixe BR
Contudo, a maior ameaça surgiu em outubro, quando o Ministério do Meio Ambiente anunciou a inclusão da tilápia na lista preliminar de espécies exóticas invasoras. Medeiros avalia que, se essa classificação fosse oficializada, o impacto sobre o setor seria devastador. “Ao integrar a lista, a tilápia passaria a figurar em um documento compartilhado com 188 países, comprometendo a participação de empresas certificadas internacionalmente, já que espécies classificadas como invasoras não podem ser fomentadas, produzidas ou adquiridas por companhias que seguem protocolos globais de sustentabilidade. A medida colocaria em risco um mercado que hoje movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano”, salienta.
Além disso, segundo o dirigente, Vietnã e China também enquadram a tilápia como exótica sob parâmetros similares, mas não avançaram na formalização da classificação, evitando restrições internas que afetariam seus produtores. Para ele, o avanço unilateral do Brasil geraria desvantagem competitiva num setor no qual o país já figura como o quarto maior produtor do mundo e projeta alcançar a segunda posição até 2030. A mobilização técnica e política resultou na suspensão temporária do processo de elaboração da Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras Presentes no Brasil pelo governo federal, no início de dezembro. A decisão busca ampliar o diálogo com setores econômicos que utilizam espécies exóticas, como agricultura, pecuária, pesca e indústria, de modo a reunir contribuições consistentes antes da definição de medidas de prevenção e controle.
Entraves internos
A complexidade regulatória interna segue como outro entrave. A piscicultura é, segundo Medeiros, a atividade mais regulada do país, demandando até 13 registros para operação, um nível de exigência que ele afirma não existir em nenhum outro mercado no mundo. “Hoje o maior risco à competitividade do setor não é a burocracia, mas a interferência política”, aponta.

Como exemplo, cita a decisão do governo de permitir a importação de tilápia do Vietnã após um acordo comercial envolvendo a JBS, que ampliou as vendas de carne bovina ao país asiático em troca da entrada do pescado vietnamita no Brasil. “São 32 contêineres de filé que chegaram ao mercado interno, volume equivalente a cerca de 4% da produção mensal nacional. Cada contêiner representa 160 toneladas de filé que deixam de ser vendidas pelo produtor brasileiro e a redução de aproximadamente 70 mil tilápias na produção interna”, salienta.
O presidente da Peixe BR demonstra confiança no futuro da tilapicultura brasileira e acredita que os entraves serão superados. Ele destaca que o Brasil possui vantagens competitivas claras, especialmente frente a concorrentes asiáticos. “O Vietnã não tem condição de competir com o Brasil, seja nos custos ou na produtividade. Para se ter uma ideia, o Oeste do Paraná tem produtividade 2,5% superior à do Vietnã e da China”, reforça.
Medeiros aposta que o alinhamento político e institucional será determinante para manter o ritmo de expansão do setor. “Acreditamos que nossos congressistas e governadores irão resolver essa questão e que, em 2026, continuaremos nessa curva de crescimento. Eu acredito na resolução desses problemas e na continuidade da produtividade e da produção da tilapicultura nacional”, disse, confiante.
Medeiros reforça que o setor não se opõe às importações, desde que ocorram com isonomia e segurança sanitária. Ele lembra que, na primeira tentativa de entrada da tilápia vietnamita, a Peixe BR entregou uma nota técnica alertando para doenças presentes no Vietnã e ausentes no Brasil, levando o Ministério da Agricultura a barrar a operação. Agora, afirma, esses riscos persistem, mas foram relativizados, configurando mais uma interferência política em um segmento já pressionado por excesso de normas.
Consumo per capita
No mercado consumidor, a tilápia tem sido protagonista na dinâmica de crescimento. O consumo per capita de pescado no Brasil permanece ao redor de 10 kg por ano, somando produtos da aquicultura, pesca e importações. A tilapicultura, que cresce a uma média anual de 10,3% na última década, sustentou o aumento do consumo interno, especialmente em um cenário de perda de força da pesca extrativa. Dados recentes do Ministério da Pesca mostram que a aquicultura já produz o dobro do volume proveniente da pesca, reforçando a mudança estrutural da oferta. Medeiros projeta que o consumo siga no patamar atual em 2025 e que, na próxima década, o país possa alcançar entre 12 e 13 kg per capita. “A preocupação, porém, é evitar que esse crescimento ocorra apoiado em maiores importações, o que, não faz sentido nenhum para um país com forte capacidade produtiva”, analisa Medeiros.
Custos de produção
O cenário de custos em 2025 foi marcado por estabilidade nos insumos mais relevantes e pressão em itens operacionais. A ração, maior componente do orçamento do produtor, manteve preços estáveis graças ao bom desempenho das safras de grãos. Por outro lado, energia elétrica, transporte, combustíveis, fretes e encargos trabalhistas registraram altas, comprimindo a rentabilidade principalmente no primeiro semestre, quando os preços pagos ao produtor estavam mais baixos. A recuperação observada no segundo semestre aliviou parte da pressão.
Futuro da atividade
Medeiros diz que vê oportunidades otimistas para o setor desde que haja estabilidade regulatória e políticas alinhadas à competitividade. “É preciso que o governo federal busque soluções que favoreçam a atividade sem prejudicar os pequenos produtores, que representam 98% da produção nacional e dependem de previsibilidade para manter investimentos”, aponta.

Segundo o executivo, a grandes perspectivas de crescimento para a tilápia nos próximos anos, com a previsão de aumentar sua participação na produção total de peixe de cultivo para 80% até 2030. “Com forte investimento em tecnologia, genética e nutrição, acredito que o Brasil poderá liderar a produção global de tilápia em um curto espaço de tempo. Hoje os principais players são China, Indonésia e Egito”, anseia Medeiros.
De acordo com o presidente da Peixe BR, a tilapicultura brasileira, classificada por ele como a mais tecnológica, sustentável e produtiva do mundo, deve aprofundar ganhos de eficiência e buscar novas frentes no comércio exterior. “Os Estados Unidos ainda absorvem metade das exportações brasileiras, mas há expansão potencial no Canadá e em outros mercados. Com produto competitivo e abertura comercial, as perspectivas são positivas para 2026”, enfatiza, destacando que espera que o alinhamento institucional elimine ruídos políticos, permitindo ao país consolidar sua posição entre os maiores produtores globais de tilápia.
A edição de 2025 figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
Peixes
Preços da tilápia iniciam 2026 com estabilidade nos principais polos produtores
Levantamento do Cepea aponta variações pontuais nas cotações, refletindo equilíbrio entre oferta e demanda no começo do ano.

Os preços da tilápia apresentaram comportamento predominantemente estável na semana encerrada em 02 de janeiro, segundo dados do Cepea. Em importantes polos produtores do País, as variações foram pontuais, indicando equilíbrio entre oferta e demanda no início do ano.
Na região dos Grandes Lagos, a cotação permaneceu em R$ 9,27 por quilo, sem variação em relação à semana anterior. Estabilidade semelhante foi observada no Norte do Paraná, onde o preço médio ficou em R$ 10,11/kg. Já em Morada Nova de Minas, houve leve alta de 0,31%, com o valor alcançando R$ 9,44/kg.
No Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, a tilápia foi comercializada a R$ 9,57/kg, registrando a maior elevação semanal entre as regiões acompanhadas, com avanço de 0,39%. Em sentido oposto, o Oeste do Paraná apresentou pequena retração de 0,19%, com o preço médio recuando para R$ 8,76/kg.
De acordo com o Cepea, as oscilações discretas refletem um mercado ajustado, típico do período, sem movimentos bruscos de oferta ou pressão significativa da demanda sobre as cotações.



