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Com balanço de gases do efeito estufa negativo, Fazenda Roncador vira referência em sustentabilidade

De uma realidade de baixa produção de alimento entre 2007/2008, pouco mais nove toneladas, e uma emissão de 17 mil toneladas de CO2 eq, com a adoção do sistema ILP essa curva logo se inverteu e saltou para um crescimento vertiginoso na produção de alimentos (carne e grãos).

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Fotos: Divulgação/Fazenda Roncador

Sabendo da importância de cuidar do meio ambiente, a Fazenda Roncador se tornou referência em sustentabilidade na pecuária em território nacional, demonstrando que é possível produzir sem deixar de cuidar da terra. Em quatro décadas, a propriedade localizada no município de Querência se projetou entre as maiores propriedades rurais produtivas do Mato Grosso, diversificando as atividades ao desenvolver um sistema que integra pecuária regenerativa e agricultura de alta tecnologia.

CEO do Grupo Roncador, Pelerson Penido Dalla Vecchia: “Quando chega o período da seca se não tiver uma estratégia de suplementação alimentar, de confinamento, de sêmen ou diminuição do gado o produtor vai degradando a fazenda”

“Nós precisamos perceber ou relembrar que precisamos cuidar da casa que a gente vive. A nossa primeira percepção deve ser que a terra é um organismo vivo, do qual nós fizemos parte. E nós entendemos a fazenda como um organismo agrícola vivo e as ações neste ambiente vão ter um impacto positivo ou negativo, somos nós que vamos definir isso a curto, médio e longo prazo”, destacou o CEO do Grupo Roncador, Pelerson Penido Dalla Vecchia, durante o Fórum Metano na Pecuária – o caminho para a neutralidade climática, promovido no mês de maio pela JBS, em parceria com a Silva Team, em São Paulo, SP.

A busca pelo equilíbrio do sistema a fim de garantir o crescimento sustentável de toda a cadeia é constante na Fazenda Roncador. Segundo Dalla Vecchia, as atividades são desenvolvidas focando em três pilares: sustentabilidade econômica, ambiental e social.

Como gestor da terra, Dalla Vecchia enfatiza que os agropecuaristas têm uma responsabilidade muito grande em relação à preservação das florestas, reservas ambientais e áreas verdes no entorno ou dentro de suas propriedades. Na Fazenda Roncador, 45% da área total é composta por vegetação nativa, que propicia maior equilíbrio da fauna, da flora e da produção de carne e de grãos, e 22,5 mil hectares (ha) são destinados ao pasto permanente.

A distribuição das culturas acompanha o ciclo da natureza, com características distintas em épocas chuvosas e de seca. Entre os meses de fevereiro a outubro é feito o plantio de soja na palha de capim em 29,3 mil hectares (ha) e de milho em 358 ha. A pecuária ocupa em torno de 20 mil ha para uma lotação de 70 mil cabeças de gado nelore criados à pasto.

E no período da seca – de março a setembro -, onde há restrição de alimento porque o capim para de crescer – causa de um dos principais motivos de degradação do solo e que provoca um desajuste entre a taxa de crescimento do capim e de lotação do gado – a área plantada de pasto na Fazenda Roncador abrange 46,6 mil ha e de milho safrinha 5,5 mil ha. “A cobertura constante do solo mimetiza a riqueza que se vê na floresta e o gado no meio da seca. E o que antes era um problema, hoje se transformou em solução e é a época que mais tem fartura de alimento, com 30 mil hectares de soja com pasto disponível para o gado”, ressalta Dalla Vecchia.

Da degradação ao reequilíbrio do sistema

Com animais da Roncador criados em ciclo completo – cria, recria e engorda -, durante o período da seca o gado recebe suplementação alimentar e fica por um curto período em confinamento. “Quando chega neste momento, se não tiver uma estratégia de suplementação alimentar, de confinamento, de sêmen ou diminuição do gado o produtor vai degradando a fazenda, e essa era a nossa situação por volta dos anos 2000. Iniciamos com a pecuária em 1978 e foi implementado o sistema de ciclo completo para produção de carne. A ideia era que se recuperasse 10% da fazenda por ano, então utilizaria a área até ela acabar e após dez anos estava nova, essa era a filosofia na época, porém não era sustentável”, afirma o CEO do Grupo Roncador, ampliando: “No início dos anos 2000 cerca de 80% da fazenda estava degradada, então iniciamos várias ações para reequilibrar o sistema: tiramos animais improdutivos, fizemos um ajuste na taxa de lotação, entramos com IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) para diminuir a idade de abate, suplementação à pasto, entre outras ações, e em paralelo iniciamos com a agricultura, aplicando o conceito plantar, colher e cuidar”, expõe.

Suplementação alimentar

Contudo, no período de transição entre os ciclos das águas e da seca, em que os animais são deslocados para outra área para que aquela que estavam possa novamente ser cultivada, o local para onde são destinados ainda não há pasto crescido. A fim de sanar este problema, dentre as estratégias adotadas na Roncador está o uso do feno na alimentação dos animais. Em 2021, foram produzidos 80 mil rolos de feno, com cerca de 200 quilos cada, suficiente para alimentar a fazenda inteira por um mês. “Quando se pensa em bem-estar animal a primeira coisa é estar bem alimentado, então a nossa responsabilidade de planejamento e de gestão é essencial”, ressalta.

Com foco no bem-estar animal, Dalla Vecchia conta que a equipe que atua na Roncador participa de treinamentos constantes de manejo racional e linguagem corporal, currais racionais e corredores, considerados por ele como pré-requisito para trabalhar com a operação de ciclo completo da pecuária.

“O vaqueiro que queremos é aquele que pega o bezerro no colo, que na maternidade desce do cavalo e vai a pé pegar o bezerro no chão para cuidar do umbigo, do operador de máquina que vai trabalhar com IPI, que põe a luva e para entrar na máquina tira a botina. Formamos influenciadores para que a conscientização se torne parte de toda a cadeia, para que seja um ciclo virtuoso de aprendizados e relacionamentos. E o reflexo destes treinamentos na vida destes profissionais é muito positivo, porque o que aprendem levam para a vida toda. O sujeito que aprende a cuidar bem de um bezerro, aprende a cuidar bem do filho, da família, da casa”, enaltece.

Ciclos ininterruptos

Os ciclos ininterruptos das culturas, especialmente do capim, contribuem para a reciclagem de nutrientes do solo, além de oferecer inúmeros benefícios para o ecossistema, como a fixação biológica de nitrogênio por meio da leguminosa.

Em uma área que havia sido plantada soja e hoje é cultivado Brachiaria ruziziensis, as raízes chegaram a 2,8 metros, quando pelas regras para o balanço do carbono no solo são exigidos 30 centímetros. “Nós estamos falando de 2,8 metros de raízes. São essas raízes que fazem a reciclagem dos nutrientes, criam micro galerias que aumentam a permeabilidade do sistema, descompactam o solo e oferecem uma série de benefícios além do acúmulo de carbono”, menciona o CEO do Grupo Roncador, acrescentando: “Depois do gado pastejar, as áreas são dessecadas e essa palha garante conforto térmico e manutenção da umidade do solo, oferecendo maior resiliência às culturas. Sempre temos três camadas de palha em cima do solo, que antes era duro, trincado, seco, e hoje está cheio de minhoca”, evidencia.

Condicionadores de solo

A passagem do gado em áreas de agricultura contribui para o aumento da microvida do solo, junto com a utilização de condicionadores de solo provenientes do substrato da floresta local. “Por muito tempo a passagem do gado na agricultura foi vista como negativa pelos agricultores e hoje já se percebe o quanto é agregadora, porque faz o capim ter mais ciclos, reciclando mais nitrogênio, com mais nutrientes, estimulando o aprofundamento da raiz do capim, e ainda adiciona microvida no sistema através da urina e das fezes”, pontua.

A utilização de defensivos biológicos, remineralizadores, condicionadores de solo e monitoramento constante das lavouras com o objetivo de utilização mínima dos defensivos químicos, do equilíbrio entre adubação formulada e mineral, além do plantio de milho e capim com a passagem do gado nas áreas produtivas, segundo o CEO do Grupo Roncador, tem se mostrado melhor financeiramente, gerando um ambiente saudável e viável. “Usamos condicionadores de solo porque precisamos destas colônias de microrganismos para disponibilizar os nutrientes que têm no pó de rocha para a planta”, enfatiza.

Segundo Dalla Vecchia, a busca é constante para deixar na área produtiva a mesma vida que tem dentro da floresta. “A floresta é a nossa guia. Pegamos o substrato da floresta, multiplicamos e aplicamos nas áreas produtivas e depois fazemos a medição dessas áreas para chegar o mais próximo da natureza, aliado à produção de bastante alimento. Com esse sistema garantimos a sustentabilidade de toda cadeia e aumentamos a produtividade em 66 vezes por hectare, garantindo a sustentabilidade econômica da atividade”, destaca.

Aumento da produção de alimento x fixação de CO2 eq

Com a mudança no sistema produtivo, os resultados foram aumentando a cada ano, mas a sombra do metano pairava sobre a Fazenda Roncador, faltava medir o carbono. Sem conhecimento, Dalla Vecchia foi em busca de como fazer essa medição e quantificar o resultado. Firmou parceria com empresas especializadas. “Realizamos análise de solo em dez sistemas produtivos diferentes: área degradada, floresta e cada um dos sistemas produtivos que tínhamos na linha do tempo desde a conversão para eleger o melhor sistema produtivo, buscando melhor resultado econômico e para o planeta. E a melhor solução encontrada foi a integração lavoura-pecuária (ILP) e hoje operamos quase em sua totalidade neste sistema”, disse, orgulhoso.

O sistema de integração lavoura-pecuária permite utilizar uma mesma área para plantar soja e depois capim para pastejo, dependendo da época do ano. “A adoção de tecnologia cada vez mais avançada, e sua constante atualização, nos permitem um monitoramento em tempo real de todas as máquinas, operações, clima e condições do solo. Isto tudo integrado com pesquisas e sistema de gerenciamento centralizado que atribui custos e gera relatórios para a melhor gestão do negócio”, destaca Dalla Vecchia.

De acordo com o CEO do Grupo Roncador, a intensificação da produção proporcionou, em algumas áreas da fazenda, a produção de três safras ao ano, uma de soja, uma de milho e outra de carne.

De uma realidade de baixa produção de alimento entre 2007/2008, pouco mais nove toneladas, e uma emissão de 17 mil toneladas de CO2 eq, com a adoção do sistema ILP essa curva logo se inverteu e saltou para um crescimento vertiginoso na produção de alimentos (carne e grãos) para 158,6 mil toneladas em 2019/2020 e uma fixação negativa de 231,6 mil toneladas de CO2 eq, o que equivale à neutralização de mais de 133 mil carros rodando em um ano. “E dessa forma nos aproximamos do nosso propósito, que é produzir os alimentos que queremos consumir, agir com os outros como gostaríamos que agissem conosco e deixar o planeta melhor do que recebemos”, sustenta.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
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Aditivos tamponantes viram alternativa para aumentar desempenho de bovinos

Substâncias que possuem o objetivo de modificar o metabolismo ruminal também favorecem a produtividade dos animais.

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Foto: Divulgação/Quimtia

Cada vez mais o aprimoramento tecnológico tem possibilitado uma maior rentabilidade aos produtores rurais e tem favorecido o alcance de melhores índices produtivos. De acordo com o supervisor técnico Rafael Toigo, da Quimtia Brasil, uma importante ferramenta que contribui para essa melhoria é o uso de aditivos tamponantes, que são substâncias que possuem o objetivo de modificar o metabolismo ruminal e beneficiar o desempenho dos animais.

Segundo ele, a utilização de aditivos tamponantes proporciona benefícios como o aumento na concentração de gordura do leite, na produção de sólidos totais e na produção de leite em si, além da melhora na digestibilidade da matéria seca e do controle do pH ruminal, diminuindo desordens metabólicas. “São mais utilizados na bovinocultura leiteira e em ambientes de confinamento onde a utilização de concentrados é maior”, comenta o especialista.

Toigo ressalta, ainda, que estes compostos, quando adicionados na nutrição de ruminantes, neutralizam outras substâncias como, por exemplo, o ácido lático, produzido na fermentação ruminal, em dietas com alta concentração de amido.

“Os tamponantes podem ser adicionados à dieta via ração, incorporados no vagão misturador ou adicionados diretamente sobre o trato dos animais. A maneira mais adequada seria o produtor controlar a adição dos tamponantes por fora da ração, assim é possível aumentar ou diminuir as dosagens do aditivo sem ter que aumentar o fornecimento da ração”, explica o especialista.

Ainda de acordo com ele, caso a acidez não seja prevenida, o desempenho animal estará comprometido por conta da diminuição da microbiota ruminal, redução da síntese de proteína microbiana e da digestão da fibra, além da indução de enfermidades ligadas à diminuição excessiva do pH ruminal.

“Antes de realizar modificações no manejo nutricional de ruminantes é necessário a compreensão de aspectos relacionados a sua digestão. Toda a estratégia nutricional deve proporcionar uma melhora no aproveitamento dos nutrientes para evitar perdas e gerar um ambiente ruminal adequado, principalmente em situações onde o animal é desafiado”, sustenta.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: Por Rafael Toigo, supervisor técnico da Quimtia Brasil
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Aproveitamento de quase 100% do boi revela outro lado sustentável da pecuária

Esterco e até conteúdo digestivo são usados pela indústria frigorífica, mas ainda há espaço para melhorar.

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Foto: Shutterstock

A produção de carne bovina vai muito além da carne propriamente dita. Co-produtos como, miúdos não comestíveis, sangue, tendões, orelhas, entre outras partes do animal que outrora eram descartadas, hoje servem de insumos para diversos segmentos da indústria, agregam valor ao produto, representam uma renda extra na produção e tornam a atividade mais sustentável.

O assunto foi debatido durante a segunda edição do Acricorte, um dos maiores encontros de pecuária de Mato Grosso, realizado no Cenarium Rural, em Cuiabá (MT), pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat).

Sérgio Pflanzer, médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos: “Praticamente todas as partes do boi são aproveitadas pela indústria, nada é desperdiçado” – Foto: Arquivo pessoal

Na palestra “Do boi não se perde nem o berro. Para onde vão os co-produtos?”, o médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos, Sérgio Pflanzer, salienta que a necessidade de se aproveitar todas as partes do boi é algo comum na história, porém, ao longo dos anos a indústria ampliou a gama de co-produtos feitos a partir de restos de animais de produção abatidos. “Em qualquer tipo de produção industrial de alimentos é preciso otimizar o uso da melhor maneira possível, e com isso agregar valor”, salienta.

No Brasil, o aproveitamento do que sobra do boi varia conforme o tamanho da indústria. De acordo com Pflanzer, algumas grandes empresas aproveitam próximo a 100% dos animais, desde o esterco e o conteúdo digestivo, usados para produção de compostagem, fertilizantes, e biometano, até tendões, couro, miúdos, vísceras e ossos. “Nada ou quase nada é desperdiçado, em muitos casos o aproveitamento é praticamente total”, destaca.

Outros frigoríficos de menor porte não destinam as sobras das carcaças com a mesma eficiência. Conforme Sérgio Pflanzer, muitas vezes, nesses casos, os frigoríficos são clandestinos e não conseguem direcionar esses materiais e fazem o descarte de maneira inadequada. “Nos abates fiscalizados se consegue comercializar todos os produtos da carcaça”, comenta.

Destino

O mercado Pet food absorve boa parte dos sub-produtos, especialmente os miúdos de baixo valor agregado, chifres e cascos são usados na produção farinha utilizada na fabricação de ração e outros produtos do segmento pet. A indústria farmacêutica e a de cosméticos utilizam miúdos, sangue, tendões, orelha, entre outras partes do animal como insumos para sua produção.

Segundo Pflanzer, é preciso ficar atento para as oportunidades que existem em relação aos co-produtos que podem ser comercializados, além da carne. “Algumas glândulas dos animais são usadas pela indústria farmacêutica para produção de hormônios utilizados na medicina humana”, menciona.

O couro e o conteúdo digestivo são os principais co-produtos em volume. Ossos e a gordura são usados na produção de ração, glicerina e sabão. Entretanto, de acordo com Pflanzer, recentemente a produção de biodiesel passou a utilizar uma fatia considerável desses co-produtos. “A produção de biodiesel está tomando conta. Percebeu-se que transformar a gordura animal em combustível tem uma agregação”, salienta.

Conforme Pflanzer, é difícil atrelar a utilização de co-produtos com o produtor, isso sempre fica a cargo da indústria. “O produtor não recebe diretamente por eles, recebe em partes, pelo peso e cotação do valor da carcaça”, menciona.

Embora o produtor não seja diretamente beneficiado pela venda dos co-produtos, Pflanzer salienta que é importante a colaboração com o aproveitamento ideal dos sub-produtos. Em relação ao couro, Pfzanzer destaca a necessidade do produtor evitar marcar a fogo e o excesso de parasitas para o produto não perder valor. “Nada impede que no futuro haja alguma negociação para que o frigorífico consiga talvez repassar ao produtor que preserva a qualidade do couro”, vislumbra.

Sustentabilidade

Assim como em outras atividades de produção, na bovinocultura a sustentabilidade não se resume somente ao meio ambiente. A tarefa não é simples, afinal, é preciso desenvolver a atividade de maneira realmente sustentável, associada a aspectos tecnológicos, ao crescimento econômico e com o mínimo impacto ambiental e social. “Às vezes aquilo que é não é sustentável do ponto de vista ambiental é sustentado do ponto de vista social e econômico ou vice-versa”, pontua Pflanzer.

De acordo com ele, a produção bovina sofre questionamentos em relação à sustentabilidade, especialmente ambiental, principalmente em razão, do sistema de produção extensivo utilizar vastas áreas de terra, o que de acordo com ele acaba de certa maneira prejudicando a imagem da bovinocultura, que é vista por algumas pessoas como algo prejudicial ao meio ambiente. “Em boa parte dessas áreas não se consegue produzir outro tipo de alimento. Além disso, atualmente temos uma redução e resgate de áreas de pastagens, e isso vai tornando a pecuária cada vez mais sustentável”, afirma.

Foto: Kelem Silene Guimarães/Embrapa

Outra questão por vezes atribuída à produção pecuária é a emissão de metano, entretanto, segundo Pflanzer, existem estudos científicos que indicam que esse não é o principal causador do efeito estufa. “Há trabalhos que apontam que o aquecimento climático não é causado pelo metano animal e sim pelos combustíveis fósseis”, relata.

Exportações e mercado interno

De acordo com dados da Comex Stat, em 2021 foram exportadas 1.560.220 toneladas de carne, o que rendeu uma receita de US$ 7.966,48 bilhões ao país. Os principais compradores da carne bovina brasileira são os Estados Unidos, a China e o Egito.

As exportações de carne ocupam a 6ª colocação no ranking dos principais produtos exportados, o que faz do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, apesar da fatia enviada para outros países representar pouco mais de 25% da produção brasileira. “O restante da carne produzida no Brasil fica no país, algo que é muito importante em ralação ao abastecimento”, pontua Pflanzer.

A diminuição do poder de compra do brasileiro nos últimos anos, aliada ao aumento do preço da carne bovina, torna cada vez mais difícil o consumo da proteína por grande parte da população. “A carne no Brasil sempre foi barata em comparação ao mercado internacional, o que acontece agora é que ela está se equiparando ao preço praticado no mercado internacional”, afirma.

O desempenho da atividade também reflete em geração de divisas ao país e em oportunidades para milhares de pessoas Brasil afora que direta ou indiretamente, dependem da pecuária para se manter.

De acordo com Pflanzer, a pecuária brasileira gera emprego e renda para pessoas e empresas do segmento. “Considero que temos ainda que melhorar, mas a pecuária brasileira é sustentável em alguns quesitos”, afirma.

Qualidade

Segundo ele, existem muita desinformação em relação à sustentabilidade na produção de proteína animal e a respeito da importância nutricional da carne, especialmente a bovina.

Conforme o médico-veterinário, a carne foi colocada como vilã devido a gordura saturada, mas isso aos poucos vem sendo desmistificado. “Acredito que logo chegaremos a um momento de equalização das informações, e a carne vai voltar a ser vista com algo essencial para a vida humana”, completa. Ele cita como exemplo o ovo e a gordura suína, antes ditas ruins, “hoje são indicadas por médicos em substituição ao óleo de soja”, exemplifica.

Para Pflanzer, a sustentabilidade plena na pecuária brasileira é algo atingível e o setor está no caminho certo para estar em perfeita harmonia com o meio ambiente. “Nosso papel como formador dentro da universidade é justamente explicar, com base na ciência, porque a produção de carne é importante, seja por questões nutricionais, econômicas, sociais ou ambientais”, diz.

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Fonte: O Presente Rural
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Endometrite em bovinos: causas, diagnóstico e tratamento

Inflamação uterina que pode se manifestar de forma aguda ou crônica, causando diversos prejuízos nos rebanhos bovinos. Conheça detalhes sobre fatores predisponentes, formas de diagnóstico e tratamento.

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Foto: Shutterstock

As enfermidades que acometem o sistema reprodutor dos bovinos de leite geralmente são responsáveis por grandes perdas econômicas. Fatores como queda na produção leiteira e nas taxas de prenhez, aumento considerável nos intervalos entre partos e no descarte dos animais representam alguns impactos negativos na atividade. Nessa perspectiva, uma das doenças mais prevalentes no rebanho, atingindo 10 a 20% dos animais, é a endometrite.

Endometrite aguda, também chamada de metrite, consiste em uma inflamação, de curso agudo, que envolve toda a parede do útero, comprometendo principalmente o endométrio. Sua ocorrência é muito comum na primeira semana pós-parto e geralmente está associada a distocia, retenção de placenta e abortamento. Os principais sinais clínicos são característicos de uma inflamação, além de ocorrer descarga uterina fétida de coloração vermelha-acastanhada e febre (>39,5ºC). Casos mais graves podem causar a queda da produção de leite, inapetência, desidratação e toxemia.

Já a endometrite crônica é uma consequência da endometrite aguda e surge de maneira silenciosa, o que exige atenção ainda maior. Os sinais clínicos frequentemente ocorrem depois da regressão uterina, um mês após o parto, sendo os mais comuns: presença de muco turvo, bem diferente do muco límpido característico do cio e posteriormente repetição de cio. Alguns fatores predisponentes podem ser associados à endometrite crônica como por exemplo: problemas no parto, como retenção de placenta, distocia, natimortalidade, angulação vulvar inadequada e primiparidade.

Após o parto ocorre uma contaminação uterina por bactérias ambientais, o que propicia a ocorrência da endometrite aguda. Geralmente essa contaminação é eliminada no processo de involução uterina, porém falhas podem ocorrer nesse processo de eliminação, o que faz com que essa infecção persista por semanas ou meses, o que caracteriza a endometrite crônica. As principais falhas reprodutivas relacionadas à endometrite crônica são: repetição de cio, queda na taxa de prenhez do rebanho, aumento do intervalo entre partos e descarte prematuro de fêmeas.

Como é feito o diagnóstico da endometrite crônica?

O diagnóstico pode ser feito através do exame vaginal, que deve ser focado na detecção da secreção anormal purulenta ou mucopurulenta na vagina e na cérvix. Dentre os principais métodos podemos citar o de referência (vaginoscopia, usando o espéculo vaginal) ou a coleta e análise de muco pelo uso de um equipamento chamado Metricheck, uma sonda de aço inoxidável com uma taça de borracha semiesférica na extremidade.

O escore utilizado para avaliação através desse dispositivo consiste em: grau 0 (muco claro ou translúcido, característico de cio); grau 1 (muco contendo flocos esbranquiçados); grau 2 (exsudato contendo menos que 50% de material mucopurulento) e grau 3 (exsudato contendo 50% ou mais de material purulento).

Outra possibilidade está no uso da ultrassonografia, no intuito de checar a presença de conteúdo no lúmen uterino. É importante mencionar que quanto maior a quantidade de muco presente maior é o grau da contaminação bacteriana. Algumas análises laboratoriais podem ser feitas através da coleta de conteúdo uterino ou por biópsias endometriais, especialmente em momentos pelos quais a avaliação clínica não é suficiente para detecção de alterações.

Protocolos de Tratamentos

Como a endometrite aguda é uma doença com características sistêmicas (febre, dor, inapetência) o tratamento recomendado consiste na aplicação de medicamentos para combater a infecção e controlar o desconforto do animal, incluindo antimicrobianos em associação com anti-inflamatório não esteroidal com efeito analgésico e antitérmico. A fluidoterapia de suporte também é recomendada.

Já o tratamento da endometrite crônica visa a redução da carga bacteriana, o aumento das defesas uterinas e dos mecanismos de reparo, para desta maneira controlar as alterações inflamatórias que prejudicam a fertilidade. Em suma, o protocolo consiste na remoção de conteúdo purulento, através de uma curetagem química, administração de antimicrobianos e a indução do estro.

A irrigação do útero é muito baixa nesta fase, por isso o tratamento sistêmico não é indicado, mas sim o tratamento local. A literatura menciona a Oxitetraciclina como o antimicrobiano de eleição para uso intrauterino em casos de endometrite crônica. Possui excelente eficácia contra os microrganismos patogênicos deste tipo de endometrite e por ser pouco absorvida na corrente sanguínea, sua ação limitada ao lúmen uterino, torna-se potencializada e prolongada. Assim, o medicamento promove a descamação do endométrio contaminado.

As referências deste texto podem ser solicitadas à autora. Contato: juliana.melo@jasaudeanimal.com.br.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: Por Juliana Ferreira Melo, jornalista e médica-veterinária na JA Saúde Animal.
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