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Cientistas apresentam práticas para reduzir a contaminação do trigo por micotoxinas
Orientações reunidas pela pesquisa buscam o controle da contaminação do trigo por micotoxinas do campo à indústria.

Pesquisadores reuniram orientações para conter a disseminação de micotoxinas no trigo, compostos tóxicos responsáveis por cerca de 25% da contaminação mundial de alimentos em todo o mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Resultados das últimas décadas de pesquisa foram organizado por especialistas da Embrapa Trigo (RS) na publicação “Micotoxinas no trigo: estratégias de manejo para minimizar a contaminação”. São apresentadas boas práticas e estratégias de manejo para serem usadas desde o campo até a indústria.

As micotoxinas são compostos tóxicos produzidos por fungos, que podem afetar a saúde de seres humanos e animais. A intoxicação acontece de forma direta, quando o produto é utilizado na alimentação, ou indireta, quando subprodutos e derivados contaminados são utilizados na alimentação de animais que transferem as toxinas para o leite, carne e ovos. A forma direta é a mais frequente via de intoxicação e ocorre pelo consumo de cereais, sementes oleaginosas e produtos derivados que foram contaminados nas fases de produção e de armazenamento. Resistentes à industrialização, as micotoxinas continuam presentes nos alimentos mesmo após cozimento ou processamento, sem alterar a aparência ou o sabor.
No trigo, três micotoxinas são as mais importantes: deoxinivalenol (DON) e zearalenona (ZEA) – relacionadas à incidência de fungos do complexo Fusarium graminearum – e ocratoxina A (OTA) – produzida pelos fungos Penicillium verrucosum e Aspergillus ochraceus durante a armazenagem.
Boas práticas para reduzir a contaminação no campo
A contaminação mais frequente no trigo é por DON devido às epidemias constantes de giberela nas lavouras de cereais de inverno no Sul do Brasil. Causada pelo fungo Gibberella zeae, essa é a pior doença do trigo na região, que concentra 90% da produção nacional. Além de infectar a planta, o fungo também pode produzir micotoxinas. Quando a epidemia é severa, leva à má-formação e alterações na coloração dos grãos, que ficam esbranquiçados a rosados.

As boas práticas agrícolas visam ao controle de doenças na lavoura, especialmente a giberela. A pesquisa indica diversas estratégias, como controle genético, manejo cultural e químico.
“A primeira orientação é escolher uma cultivar que apresente algum nível de resistência. Mesmo que não seja totalmente imune ao fungo, a melhor tolerância vai ajudar no controle”, destaca o pesquisador da Embrapa José Maurício Fernandes. A segunda orientação do cientista é fazer o escalonamento da semeadura, com cultivares de ciclos diferentes, evitando que toda a lavoura de trigo tenha espigamento na mesma época, o que aumenta o risco de infecção por giberela em todas as espigas. A terceira estratégia é o controle químico: “Os fungicidas podem controlar entre 50 e 80% da doença, mas precisam ser aplicados de forma preventiva. Para isso é importante observar as previsões climáticas ou fazer uso de modelos que simulam o risco de epidemias”, explica Fernandes.
Para definir as melhores alternativas de controle químico, um grupo de pesquisa, composto por diversas empresas e instituições, publicou o resultado de experimentos com uso de fungicidas para giberela no site.
Estratégias na pós-colheita
Grãos giberelados podem apresentar menor tamanho e deformações. Ajustes na colhedora, como peneiras e regulagem na plataforma, podem separar grãos com sintomas de giberela. O transporte em caminhões limpos e em trajetos curtos também ajuda no controle de fungos e pragas.
Na pós-colheita de trigo, métodos físicos são usados para limpar, separar e classificar os grãos com base em uniformidade, peso, tamanho e forma. Na chegada ao beneficiamento, são utilizados equipamentos de pré-limpeza, como ar, peneiras e mesa de gravidade para descarte de impurezas e grãos deformados. Novas tecnologias, como o selecionador óptico, também podem ajudar na identificação e retirada de grãos infectados por fungos. “Na limpeza e seleção o nível de DON pode ser reduzido entre 7% e 90%, dependendo do percentual de descarte de grãos leves e chochos, com sintomas de giberela”, comenta a também pesquisadora da Embrapa Trigo Casiane Tibola.
Quando a contaminação por micotoxinas está presente em grãos assintomáticos, pode ser utilizado o polimento superficial, capaz de reduzir os níveis de DON em 30%, sem afetar a qualidade da farinha integral. A estratégia é utilizada principalmente na indústria para a produção de alimentos integrais.
O trigo apresenta cerca de 75% de carboidratos em sua composição, sendo um substrato preferencial de fungos, o que o torna altamente suscetível ao acúmulo de micotoxinas durante a armazenagem. Cuidados na secagem dos grãos e limpeza das instalações podem evitar a proliferação de insetos que, além de causar danos aos grãos, podem ser vetores de fungos produtores de micotoxinas. Grãos giberelados também precisam ser separados para um tratamento diferenciado. As espécies dos gêneros Aspergillus e Penicillium são os fungos de maior relevância durante a etapa de armazenamento por produzirem metabólitos secundários, as micotoxinas aflatoxina (AFLA) e ocratoxina A (OTA).
Além de inseticidas para fazer o expurgo de insetos nos grãos, também pode ser utilizado o gás ozônio, que não deixa resíduos e atua na degradação de várias micotoxinas, com potencial de reduzir os níveis de contaminação entre 30 e 80%.
Controle de micotoxinas no processamento
Análises com alimentos contaminados mostraram que DON resiste aos processos industriais utilizados na fabricação de biscoitos, barra de cereais e pães. Em laboratório, a micotoxina só foi eliminada em temperaturas superiores a 210º C, o que prejudica grande parte dos atributos de qualidade dos alimentos.
Contudo, a transformação do trigo em alimentos pode apresentar variações no nível de contaminação conforme a micotoxina e a forma de processamento.
A moagem pode reduzir os níveis de DON entre 30% e 50% na farinha branca quando os grãos resultam de infecções leves. Entretanto, nos casos de contaminação superior a 3000 ppb (parte por bilhão), a redução de DON atinge somente 11%. Um exemplo prático para entender o universo dessa medida é considerar que um bilhão de grãos de trigo corresponde a aproximadamente 35 toneladas. Logo, 1 ppb é o equivalente a um grão contaminado distribuído em uma carga de 35 toneladas de trigo.
Na panificação, houve 50% de redução de DON na elaboração de pães de trigo branco e integral, em comparação às análises realizadas na farinha de partida. Porém, houve um aumento, não significativo estatisticamente, nos níveis de ZEA.
Trabalhos que analisaram o efeito do cozimento em espaguetes e noodles (macarrão estilo japonês) frescos reportaram que 42% a 70% de DON foi liberado na água.
Na alimentação animal, a redução na contaminação pode contar com o uso de absorventes e produtos que neutralizam as micotoxinas na ração. Estratégias de segmentação dos grãos, conforme a tolerância dos animais em cada fase de crescimento, também pode ser implementadas.
Cenários e limites de contaminação
O manejo desses contaminantes é uma preocupação crescente, com limites máximos de tolerância cada vez mais restritivos estabelecidos por legislação, com base em dados de monitoramento e efeitos adversos à saúde.
A Biomin, empresa que atua no ramo de saúde e nutrição animal, divulgou números atualizados na Pesquisa Mundial de Micotoxinas: Impacto 2021. Foram realizadas 21.709 amostras de ração animal e matérias-primas em 79 países. “A contaminação dos alimentos por micotoxinas é um problema em todo o mundo, independentemente do grão, cereal de verão ou de inverno, do hemisfério ou do sistema de cultivo” avalia o gerente de produtos para micotoxinas na América Latina da Biomin, Tiago Birro, destacando o objetivo da pesquisa: “Buscamos saber quais são as micotoxinas mais prevalentes e de quanto é a contaminação”.
Conforme a pesquisa, 68% das 5 mil amostras da América Latina estavam contaminadas, principalmente no milho que registrou 85% de presença de fumonisinas (FUM), causando grandes impactos na indústria de proteína animal que usa o cereal para compor, em média, 60% das rações. Nos demais cereais, como trigo, aveia, arroz, centeio e cevada, altas concentrações (acima de 2000 ppb) de deoxinivalenol (DON) foram detectadas em 94% das amostras.
No Brasil, foram analisadas 4 mil amostras em milho, soja e trigo (grãos e farelo), na recepção dos grãos e no misturador da ração, principalmente nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste. O nível de DON no farelo de trigo chegou a 96% e na soja o índice atingiu 48%. No milho, a positividade para FUM foi de 83%. “Identificamos 15 micotoxinas nos grãos cultivados na América Latina, com alguns casos de substâncias emergentes, que ainda estão sendo estudadas”, conta Tiago. Atualmente, existem aproximadamente 500 micotoxinas conhecidas no mundo e estima-se que outras 1.000 ainda não foram descobertas.
Altas doses de DON em seres humanos podem causar dores abdominais, tontura, dores de cabeça, náusea, vômitos e outros efeitos. Casos de intoxicação aguda são raros, mas surtos já foram reportados na Índia, Japão e China. Nos animais, DON é conhecida como “vomitoxina”, devido à frequência de vômitos em suínos após a ingestão de ração contaminada.
A pesquisadora Patrícia Andrade, do Instituto Federal de Brasília (IFB), avaliou a incidência de micotoxinas em cereais e produtos à base de arroz, milho, sorgo e trigo. No trigo, foi verificada a prevalência de DON, sendo possível categorizar os alimentos.

Andrade, 2020.
Atualmente, na maior parte dos países, o valor para consumo de farinha branca contendo DON é de 1.000 ppb como é o caso dos Estados Unidos, Canadá e a maioria dos países da União Europeia, bem como os países que adotam o CODEX Alimentarius – Programa Conjunto de Padrões Alimentares da FAO do qual fazem parte 188 países, inclusive o Brasil.
Micotoxinas ainda desafiam a ciência
De acordo com o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Carlos Augusto Mallmann, a correta avaliação dos níveis de contaminação dos grãos por micotoxinas ainda é um desafio. “A distribuição das micotoxinas em um lote de alimento é heterogênea e, por isso, a amostragem para análise em cereais é mais complexa que uma amostragem para análise de proteína, por exemplo. Essa característica dificulta a obtenção de uma amostra representativa, determinando equívocos na interpretação dos resultados e no diagnóstico”, explica o professor, lembrando que o problema é agravado pelo fato de as micotoxinas se concentrarem em níveis baixos (parte por bilhão – ppb).
De modo geral, segundo Mallmann, não há uma correlação consistente entre os níveis de grãos danificados por giberela e a concentração de micotoxinas. Assim, torna-se difícil realizar a segregação prévia de lotes de grãos, gerando grande demanda de análises pelos métodos de detecção direta.
Os métodos disponíveis para análises de micotoxinas variam de qualitativos, que consistem em determinar a presença/ausência de determinada micotoxina, aos métodos analíticos altamente precisos, capazes de quantificar níveis extremamente baixos de diferentes micotoxinas. Os métodos mais empregados para quantificação de micotoxinas são: cromatográficos, Elisa (Enzyme linked immunosorbent assay) e NIR (Near Infrared spectroscopy).
Para avaliar o nível de contaminação dos alimentos, pesquisadores da Embrapa Trigo avaliaram 1.000 amostras comerciais de trigo brasileiro produzido no período de 2009 a 2017. Os resultados mostraram que 36% das amostras apresentaram níveis de DON acima do atual limite permitido, que é 1000 ppb em trigo moído.
O método utilizado nessa avaliação foi a espectroscopia no infravermelho próximo – NIR – um equipamento de alta precisão que analisa alimentos por meio de radiação eletromagnética. “Os métodos baseados em espectroscopia têm recebido atenção, especialmente devido a preparação mínima da amostra, rapidez, otimização de mão de obra e baixo custo. O tempo de análise demanda dois minutos e o custo limita-se à manutenção periódica do equipamento”, complementa a pesquisadora da Embrapa Trigo Casiane Tibola.
Mudanças Climáticas e os impactos nas micotoxinas
Um estudo americano sobre o aumento da temperatura global e a interferência no acúmulo de micotoxinas no trigo mostrou que a elevação da temperatura é um fator potencial para a pressão de giberela, bem como para o acúmulo de micotoxinas em grãos de trigo. No tratamento onde a temperatura do solo elevou em 3 a 5 °C, houve aumento de 131% nos grãos giberelados e 84% na ocorrência de micotoxinas.

Outro risco alertado pelo estudo é o possível efeito das mudanças climáticas sobre a variabilidade genética de espécies de Fusarium. “Entre as micotoxinas produzidas pelas espécies membros do complexo Fusarium graminearum, DON é a micotoxina mais frequente e em maior concentração no trigo em todo o mundo. No entanto, outras micotoxinas têm sido encontradas em trigo comercial, como nivalenol e zearelenona”, explica o pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV), MG, Emerson Del Ponte.
Segundo Del Ponte, o mundo enfrenta o risco de contaminação do trigo por multimicotoxinas. “A expansão da triticultura, as mudanças climáticas e a dinâmica da cadeia produtiva demandam um conhecimento aprofundado dos mecanismos envolvidos na produção de micotoxinas em trigo no Brasil”, conclui o pesquisador.
No futuro próximo, com a ausência de genótipos de trigo resistentes, projeta-se que o problema das micotoxinas tenha ainda mais importância devido a fatores como mudanças climáticas, disseminação e alterações na população de fungos toxigênicos e resistência dos fungos aos fungicidas.

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Exportações de carne bovina de Mato Grosso crescem mais de 50%
Resultado foi impulsionado pela demanda internacional e valorização da tonelada embarcada.

Mato Grosso voltou a se destacar no cenário internacional da carne bovina ao registrar um desempenho recorde no primeiro trimestre de 2026. O estado exportou 251,83 mil toneladas em equivalente carcaça (TEC), volume que representa 26,72% de toda a carne bovina embarcada pelo Brasil no período — o maior já registrado para um primeiro trimestre na série histórica.
O resultado expressivo também aparece na comparação anual. Em relação ao mesmo período de 2025, o crescimento foi de 53,39% no volume exportado. Já a receita atingiu US$ 1,11 bilhão, alta de 74,71%, impulsionada tanto pelo aumento da demanda internacional quanto pela valorização da tonelada embarcada, que alcançou média de US$ 4,54 mil.

A China manteve-se como principal destino da carne mato-grossense no trimestre, concentrando 50,82% dos embarques, o equivalente a 127,97 mil TEC. O país asiático segue como motor da demanda global, sustentando volumes elevados de importação. No entanto, outros mercados começam a ganhar relevância. Os Estados Unidos aparecem na segunda posição, com 9,14% das compras (23,03 mil TEC), e chamam atenção pelo ritmo de crescimento: em apenas três meses, já adquiriram 57,38% de todo o volume exportado para o país ao longo de 2025.
Na avaliação do diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade, o resultado reflete um conjunto de fatores que vêm fortalecendo a pecuária. “Mato Grosso tem avançado na abertura de mercados e na valorização da sua carne. Esse crescimento mostra não só a força da produção, mas também a confiança dos compradores internacionais na qualidade e na regularidade do produto”.
“Além de volume, estamos ganhando valor. Isso passa por uma combinação de eficiência produtiva, melhoria genética, manejo e, cada vez mais, pela adoção de práticas sustentáveis, que são exigências dos mercados mais exigentes”, enfatiza o diretor de Projetos do Imac.
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Brasil abre mercado para exportação de miúdos bovinos ao Vietnã
Negociação amplia oportunidades para a cadeia da carne e reforça presença em um dos principais destinos do agro brasileiro.

O governo brasileiro concluiu negociações com o Vietnã que permitirão a exportação de miúdos bovinos (coração, fígado e rins) para aquele mercado.
A abertura fortalece o comércio com o quarto principal destino das exportações do agronegócio brasileiro e amplia as oportunidades para a cadeia bovina nacional, ao favorecer o aproveitamento integral do animal.
O Vietnã importou mais de US$ 3,5 bilhões em produtos agropecuários brasileiros em 2025, com destaque para milho, complexo soja, fibras e produtos têxteis.
Com esse anúncio, o agronegócio brasileiro alcança 592 aberturas de mercado desde o início da atual gestão.
Esse resultado decorre da atuação coordenada do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE).
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Produzir mais, pressionar menos: o que mudou na pecuária brasileira em duas décadas
Ganhos de produtividade superiores a 70% por hectare reposicionaram a eficiência como eixo central da atividade.

O tamanho do rebanho de gado no Brasil segue impressionante. O que mudou foi a lógica: produzir carne deixou de ser apenas uma equação de escala e passou a depender cada vez mais de produtividade por área, desempenho e eficiência técnica. Durante décadas, a pecuária brasileira foi interpretada principalmente pela ótica territorial. Mais área significava mais animais. Mais animais significavam mais produção. Era uma leitura coerente com o contexto histórico de expansão agrícola e disponibilidade de terras, em que crescimento frequentemente se confundia com ocupação geográfica. Essa matemática já não explica sozinha o desempenho da atividade.
Os dados consolidados no Beef Report 2025, publicado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) em junho de 2025, indicam uma mudança objetiva na base produtiva da pecuária de corte. O Brasil ampliou a produção de carne bovina mesmo em um cenário de redução da área de pastagem, revelando uma transformação estrutural na forma como o setor cresce.

De acordo com o documento, o rebanho brasileiro atingiu em 2024 a marca estimada de 193,93 milhões de cabeças, acumulando crescimento de 11% em relação a 2004. No mesmo intervalo de 20 anos, porém, a área destinada às pastagens recuou aproximadamente 11%, totalizando 160,54 milhões de hectares.
O contraste entre esses movimentos traduz uma das mudanças mais relevantes da pecuária moderna: o crescimento deixa de depender exclusivamente da expansão territorial e passa a ser sustentado por ganhos de produtividade e produção intensiva.
Ainda conforme o Beef Report 2025, a produtividade média nacional saltou de 2,8 arrobas por hectare/ano, em 2004, para quase 5 arrobas por hectare/ano em 2024, avanço superior a 70% em duas décadas. A escala permanece relevante, mas deixou de ser suficiente.
O retrato produtivo

Ainda de acordo com o Beef Report 2025, o Brasil registrou em 2024 o maior volume de produção de carne bovina de sua série histórica. Foram 11,81 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC), resultado sustentado pelo abate estimado de 45,94 milhões de cabeças. Mais do que um dado volumétrico, o número reforça uma mudança conceitual importante: o desempenho da cadeia passa a depender não apenas da quantidade de animais, mas do rendimento biológico e da eficiência produtiva.
Nesse contexto, o relatório aponta que o peso médio de carcaça atingiu 257,13 kg, com destaque para os machos, que registraram média de 295,16 kg. O avanço dialoga diretamente com fatores técnicos, como genética, nutrição estratégica, manejo de pastagens, suplementação e sistemas de terminação intensiva. Outro indicador relevante é o desfrute real, estimado em 22,13%, refletindo maior giro produtivo dentro do sistema.
Abate recorde e leitura metodológica
Os números de abate, contudo, exigem uma leitura estatística cuidadosa. Enquanto o Beef Report 2025 apresenta estimativas consolidadas para 2024, os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados pelo Cepea e divulgados em 20 de fevereiro de 2026, apontam que o Brasil registrou em 2025 o abate recorde de 42,5 milhões de cabeças.

A diferença entre os volumes não representa inconsistência, mas distinção metodológica. Relatórios setoriais trabalham com estimativas e modelagens de mercado, enquanto o IBGE registra o abate efetivamente apurado na série estatística oficial.
Ainda de acordo com pesquisadores do Cepea, o recorde de 2025 esteve associado ao avanço do ciclo pecuário, aos investimentos realizados no campo desde 2020 e ao elevado descarte de fêmeas. Esse último fator, em especial, ajuda a compreender a dinâmica recente da oferta.
O ciclo pecuário e o peso do descarte de fêmeas
A pecuária bovina opera sob ciclos biológicos relativamente longos, em que decisões reprodutivas impactam a oferta futura de animais. O aumento do abate de fêmeas observado nos últimos anos, conforme apontam análises do Cepea, tem relação direta com a fase do ciclo pecuário. Em momentos de maior descarte, há ampliação da oferta no curto prazo, mas também efeitos estruturais sobre a recomposição do rebanho.
Ainda segundo pesquisadores, esse movimento reflete ajustes econômicos dentro das fazendas. Custos crescentes, pressão sobre margens, necessidade de giro financeiro e estratégias de manejo influenciam decisões de retenção ou descarte. O resultado é uma dinâmica de mercado em que oferta e preço passam a interagir de forma mais sensível.
Distribuição do gado: escala e concentração regional

Sob a ótica geográfica, a distribuição do rebanho brasileiro mantém padrões históricos, mas revela contrastes importantes. Conforme o Beef Report, o Centro-Oeste segue como principal polo pecuário do país, concentrando aproximadamente 62 milhões de cabeças, o equivalente a 32% do rebanho nacional.
A liderança regional está associada não apenas à escala, mas à presença de sistemas produtivos estruturados, que combinam recria, terminação, confinamento, integração lavoura-pecuária e uso intensivo de tecnologia.
A região Norte, por sua vez, apresenta o crescimento mais expressivo nas últimas duas décadas. Segundo o documento, o rebanho nortista expandiu cerca de 60% em 20 anos, alcançando 50,43 milhões de cabeças em 2024. Esse avanço ajuda a explicar a crescente relevância de estados como Pará e Rondônia no cenário pecuário nacional.
Ao detalhar por estados, o mapa confirma a concentração do rebanho em regiões tradicionalmente vocacionadas à pecuária extensiva e semi-intensiva. Mas o dado territorial, isoladamente, já não traduz competitividade.
Mato Grosso lidera com 28,43 milhões de cabeças
Minas Gerais soma 19,42 milhões
Pará registra 19,07 milhões
Goiás contabiliza 17,93 milhões
Mato Grosso do Sul apresenta 15,92 milhões
O vetor central: produtividade e eficiência técnica

Foto: Divulgação
Embora a distribuição espacial continue sendo referência estratégica, os dados indicam que o eixo central da competitividade desloca-se progressivamente para produtividade. Ainda de acordo com o Beef Report, a taxa média de ocupação das pastagens atingiu 1,21 cabeça por hectare, enquanto a lotação média foi estimada em 0,93 UA/ha. Esses indicadores sugerem intensificação gradual dos sistemas.
O ponto crítico, porém, é conceitual. A nova lógica da pecuária não se resume a manter mais animais por área, mas a extrair mais produção por unidade de recurso – seja terra, dieta, genética ou tempo de ciclo. Essa mudança altera decisões produtivas, investimentos e estratégias de manejo.
Produção sem expansão territorial: eficiência da terra
O avanço da produtividade dentro de uma base territorial relativamente menor representa uma das mudanças mais relevantes do setor. De acordo com o Beef Report, entre 2004 e 2024 a produção de carne bovina cresceu mais de 25%, enquanto a área de pastagem recuou.
Esse movimento indica que a pecuária brasileira vem operando sob lógica de eficiência territorial, em que crescimento passa a ser sustentado por intensificação técnica, e não por abertura de novas áreas. O dado é central para o debate contemporâneo sobre sustentabilidade, uso da terra e pressão ambiental.
Confinamento: intensificação como vetor produtivo
Um dos reflexos mais evidentes dessa transição aparece na terminação intensiva. Conforme o Beef Report, o Brasil confinou em 2024 cerca de 8,8 milhões de cabeças, volume recorde que representou aproximadamente 19% do total abatido (gráfico 1). O avanço reforça o papel da nutrição estratégica, da previsibilidade produtiva e do controle de indicadores técnicos.
Mais do que acelerar ciclos, o confinamento permite maior padronização, controle de desempenho e eficiência alimentar, variáveis decisivas em um ambiente de margens pressionadas e custos voláteis.

Mercado e exportação: o Brasil no tabuleiro global
Ainda segundo o relatório, aproximadamente 32% da produção foi destinada à exportação em 2024, enquanto 68% permaneceram no mercado interno. A China manteve posição dominante, respondendo por 52,29% das exportações in natura, seguida por Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e Chile.
O desempenho exportador ajuda a explicar a capacidade de absorção da oferta ampliada, atenuando pressões baixistas sobre preços. Além disso, reforça exigências crescentes relacionadas à padronização, rastreabilidade e eficiência produtiva.
Peso econômico da cadeia bovina
Conforme o Beef Report 2025, o sistema agroindustrial da carne bovina movimentou em 2024 cerca de R$ 987,36 bilhões, o equivalente a 8,4% do PIB brasileiro. O dado reforça um aspecto frequentemente subestimado: a pecuária não é apenas produção primária, mas um sistema econômico complexo, que envolve insumos, serviços, logística, indústria e varejo.
Mudança estrutural na lógica produtiva
A leitura integrada dos dados aponta para uma conclusão clara. A pecuária brasileira não abandonou a escala. Ela redefiniu sua base de crescimento. O tamanho do rebanho segue relevante. A distribuição territorial mantém importância estratégica. Mas o eixo central da competitividade desloca-se progressivamente para produtividade, eficiência técnica e desempenho biológico. Produzir mais, hoje, significa necessariamente produzir melhor. E é essa lógica que passa a orientar decisões dentro das fazendas brasileiras.
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