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Cepea lança selo para fortalecer transparência e confiança no setor lácteo
“Selo de Colaboração Transparente” premia laticínios e cooperativas comprometidos com qualidade, rastreabilidade e governança dos dados de preço do leite.

Coordenação, na cadeia produtiva, significa a forma como informações e estímulos circulam entre produtores, cooperativas, indústrias e outros agentes. Quanto melhor essa circulação, mais fácil fica alinhar decisões e ações, reduzindo conflitos e fortalecendo objetivos comuns para todo o sistema agroindustrial. Quando a coordenação é forte, a informação flui com clareza, permitindo que os agentes ajustem suas estratégias de maneira convergente. Mas, quando existem barreiras ou falhas nessa transmissão, a coordenação se enfraquece e cada agente tende a agir de forma isolada, aumentando os riscos de descompasso e perda de eficiência no seu negócio e no setor, como um todo. Em resumo, coordenação é a capacidade de alinhar decisões entre agentes que operam de forma autônoma, mas interdependente em uma cadeia produtiva. Ao elevar a intensidade da coordenação, o fluxo de informação, produtos e recursos é favorecido e os riscos são minimizados.
No contexto atual do setor lácteo, a informação de preço deixa de ser só uma cifra ou um mero termômetro do mercado e se torna uma infraestrutura de coordenação. Veja bem: a informação do preço auxilia os agentes de um SAG a mensurar seu desempenho, a oferta, a demanda e os impactos de diferentes estratégias que podem adotar para gerir seus negócios. Ao se munirem dessa informação, os agentes da cadeia do leite podem não apenas compreender melhor o cenário atual, mas se preparar para cenários futuros. É essa constante adaptação, no curto e longo prazos, que possibilita a resiliência dos negócios, mesmo diante das adversidades do mercado. E é daí que vem o desenvolvimento econômico.

O Cepea sustenta, há décadas, um esforço sistemático de coleta e validação de dados para o cálculo do Indicador do preço do leite ao produtor. Vale lembrar: o propósito do Indicador é refletir o preço médio do leite cru efetivamente negociado entre produtores e indústrias/cooperativas, capturando o ambiente competitivo, ou seja, o mercado, independentemente da forma de governança utilizada nessa negociação. Ao abastecer o setor com essa informação, o Cepea contribui para reduzir a assimetria de informação e, assim, intensificar a coordenação entre agentes – o que é uma premissa para o aumento de competitividade e desenvolvimento do setor.
A pesquisa de preço ao produtor do Cepea existe desde 1986. Por 32 anos, o trabalho foi executado sem parceria direta do setor com o Indicador. A partir de 2018, o projeto recebeu apoio financeiro e institucional de OCB e Viva Lácteos e, de 2018 a 2024, concentrou-se em três frentes: evolução metodológica, ampliação da amostra e aprimoramento da divulgação.
Para sustentar a qualidade e a utilidade dos Indicadores, é necessária evolução contínua: ampliar a amostra, assegurar veracidade e confiabilidade dos dados, padronizar formatos e garantir trilhas de auditoria. Em 2025, o objetivo do projeto é a automação da coleta (via API) e a rastreabilidade das informações, assegurando periodicidade, padronização e governança dos dados – bases para ganhar velocidade e qualidade sem abrir mão de confidencialidade.
Nesse contexto, surge “Selo de Colaboração Transparente”, que funciona como um mecanismo de enforcement positivo: incentiva comportamentos desejáveis dos participantes da pesquisa; previne desvios e reconhece publicamente as empresas que sustentam a qualidade informacional do Indicador. A implementação ocorrerá a partir de avaliação anual de critérios como: frequência na participação e respeito aos prazos, adesão à API para coleta de dados, qualidade e rastreabilidade das informações, manutenção da confidencialidade, comprovação de negócios quando solicitada e colaboração institucional. O selo terá três gradações – ouro, prata e bronze – que sinalizam o nível de comprometimento de cada empresa com o processo. A primeira concessão ocorrerá ainda em dezembro de 2025, avaliando o desempenho dos agentes colaboradores no mesmo ano.
Os benefícios do selo são múltiplos. Para o Indicador em si, o selo significa assegurar a rastreabilidade e garantir fluxo contínuo de informações auditáveis, elevando sua qualidade. Para as empresas participantes, o selo agrega visibilidade, reputação e reconhecimento público da confiança do Cepea em relação à governança dos dados. Para o setor como um todo, ele contribui para a construção da coordenação entre os agentes do setor. Mais do que um símbolo, o selo traduz a importância da transparência, da rastreabilidade e da confiança mútua entre pesquisadores e agentes de mercado.
Ao garantir regularidade, qualidade e integridade dos dados compartilhados, os colaboradores fortalecem não apenas a credibilidade do Cepea, mas também a própria governança do setor, possibilitando análises mais precisas, decisões mais seguras e maior valorização da cadeia produtiva como um todo.
Um Indicador de preços é uma construção social: um ativo coletivo do setor. O Cepea tem a responsabilidade e a competência técnica de projetar metodologia, coletar, validar e publicar resultados; os colaboradores (laticínios e cooperativas) precisam participar eticamente, enviando informações corretas, completas e rastreáveis; e os parceiros financiadores devem sustentar financeiramente a execução, a inovação e o atendimento às demandas do setor.
Quando essa corresponsabilidade se materializa, o Indicador cumpre seu papel: refletir o preço médio efetivo negociado no mercado, captando o ambiente competitivo. O Selo Cepea nasce exatamente para organizar incentivos, reconhecer bons comportamentos e blindar a qualidade informacional de um ativo que pertence, em última instância, a todo o setor.

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Da porteira ao porto: por que a infraestrutura logística pode elevar o agro brasileiro
Gargalos em estradas, armazenagem e modais de transporte elevam custos, reduzem competitividade e mostram que produtividade no campo não se sustenta sem planejamento logístico fora da porteira.

O Brasil é, indiscutivelmente, uma potência agrícola. Produzimos em escala global, lideramos exportações de diversas commodities e seguimos batendo recordes de safra. Ainda assim, existe um ponto crítico que insiste em limitar o real potencial do nosso agro: a infraestrutura logística.
Ao longo dos anos, aprendemos a produzir mais, melhor e de forma cada vez mais tecnológica dentro da porteira. O desafio começa quando essa produção precisa sair do campo e chegar ao mercado, seja ele interno ou internacional. Estradas precárias, gargalos na armazenagem, dependência excessiva do transporte rodoviário e concentração das operações em poucos portos ainda elevam custos, aumentam riscos e reduzem a competitividade do produtor brasileiro.
Na prática, isso significa que parte do esforço feito no campo se perde no caminho. Cada atraso no escoamento, cada perda por falta de armazenagem adequada ou cada custo logístico adicional impacta diretamente a margem do produtor e a previsibilidade do negócio. Não se trata apenas de eficiência operacional, mas de estratégia.
É um equívoco enxergar a logística como uma etapa final da cadeia. Ela precisa ser pensada desde o planejamento da safra. Decisões sobre onde plantar, quanto produzir, quando colher e para onde vender estão diretamente conectadas à capacidade logística disponível. Quando essa equação não fecha, o risco aumenta e o resultado financeiro sofre.
Nos últimos anos, temos visto avanços importantes, como investimentos em ferrovias, ampliação de terminais portuários e maior participação da iniciativa privada. No entanto, o ritmo dessas melhorias ainda não acompanha o crescimento da produção. Enquanto outros países produtores contam com sistemas logísticos mais integrados e eficientes, o Brasil segue enfrentando entraves estruturais que poderiam ser evitados com planejamento de longo prazo e políticas consistentes.
A infraestrutura logística não é um tema banal. Ela impacta diretamente o produtor rural, as cooperativas, as tradings e toda a cadeia do agro. Melhorar estradas, diversificar modais, ampliar a capacidade de armazenagem e investir em tecnologia logística significa reduzir perdas, ganhar competitividade e acessar mercados mais exigentes.
Se quisermos que o agro brasileiro continue crescendo de forma sustentável e rentável, precisamos olhar com a mesma atenção para o que acontece fora da porteira quanto olhamos para dentro dela. Do campo ao porto, cada etapa precisa funcionar de forma integrada. Só assim conseguiremos transformar produtividade em valor e liderança agrícola em vantagem competitiva real no cenário global.
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Brasil entre Washington e Teerã avalia riscos comerciais em meio à pressão geopolítica
Dados da balança comercial indicam baixa dependência do Irã, mas possível retaliação dos Estados Unidos coloca exportações estratégicas no centro do debate para 2026.

Em um cenário global marcado por tensões crescentes e reconfigurações de poder, o Brasil enfrenta encruzilhadas estratégicas. Com as recentes ameaças do governo Trump de impor supertarifas a países que mantenham relações comerciais com o Irã, o governo e o setor produtivo brasileiro ligaram o sinal de alerta. No entanto, uma análise atenta dos dados sugere que a dependência brasileira em relação ao país persa é menor do que a retórica geopolítica pode fazer parecer.

Professor do Curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Leo Braga: “Fluxo comercial entre as duas nações gira em torno de US$ 3 bilhões anuais, o que representa apenas 0,5% de toda a balança comercial do Brasil” – Foto: Divulgação/Mackenzie Rio
Apesar da importância do Irã no cenário do Oriente Médio, sua economia, a 33ª do mundo, com um PIB de 500 bilhões de dólares, é pequena se comparada à brasileira, que soma 2,2 trilhões de dólares. O fluxo comercial entre as duas nações gira em torno de US$ 3 bilhões anuais, o que representa apenas 0,5% de toda a balança comercial do Brasil.
A pauta de importações vinda do Teerã foca em itens como fertilizantes e frutas secas. Contudo, em ambos os casos, o Irã está longe de ser um fornecedor insubstituível. No setor de fertilizantes e adubos, ocupa apenas a 22ª posição no ranking de fornecedores; no de frutas secas, é o 16º, ficando atrás de vizinhos como Chile e Argentina.
O grande risco para o Brasil não reside na perda do mercado iraniano, mas na retaliação americana. Atualmente, produtos vitais como carne e café desfrutam de tarifa zero na entrada nos Estados Unidos, enquanto minérios brasileiros já sofrem com taxas que chegam a 40%. Com a manutenção de tarifas médias entre 10% e 15% para diversos outros itens, o custo de oportunidade de manter o ímpeto comercial com o Irã pode se tornar alto demais.
Estratégia
Embora o Brasil mantenha laços históricos e solidariedade ao povo iraniano, a análise econômica mais pragmática para 2026 aponta para uma redução gradativa dessa parceria em prol da preservação do acesso ao mercado estadunidense. “Não somos reféns de uma situação econômica com o Irã”, resume a análise. Apesar disso, por ora, o exercício de cautela parece ser o caminho mais seguro para a diplomacia comercial brasileira.
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Quando o frete define a margem do agro
Com fiscalização on-line da tabela mínima, logística passa a ser fator decisivo de renda para produtores do Centro-Oeste.

A divulgação dos novos valores mínimos da Tabela de Fretes Rodoviários, em outubro de 2025, veio com uma novidade: a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) está cruzando os dados do Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e) com os valores da Tabela, e as empresas que descumprirem os preços mínimos, poderão ser multadas eletronicamente, on-line.
A Tabela de Fretes Rodoviários foi instituída em 2018, para acalmar os ânimos do setor, e garantir que os transportadores sejam justamente remunerados por seus serviços. Faz todo o sentido, claro. Quem não quer ser justamente remunerado pelos serviços prestados?

Artigo escrito por Ricardo Arioli, engenheiro agrônomo, produtor rural e membro do CESB.
No entanto, poucas empresas vem cumprindo a Tabela, e o mercado dos fretes rodoviários continuou a ser precificado pela velha fórmula da oferta e da procura.
Agora, complicou. Um tabelamento de fretes é um ponto fora da curva, principalmente no agro. Praticamente todos os insumos usados nas lavouras são precificados pela oferta e pela demanda, assim como a produção.
Na questão do frete, não tem jeito. Não temos armazenagem suficiente no Brasil, e os produtos da colheita precisam ser transportados rapidamente.
Tomando Mato Grosso como exemplo, o impacto do aumento dos fretes cai direto na renda dos produtores.
Mato Grosso lidera a produção nacional de grãos, com 51,3 milhões de toneladas de soja (30% do total brasileiro) e 55,1 milhões de toneladas de milho (40%) na safra 2024/25. As produtividades foram recordes de 60,5 sacas/ha para soja e 116,6 sacas/ha para milho.
O problema é que o consumo local da safra que produzimos é pequeno. Então, Mato Grosso precisa mandar boa parte da safra embora, para outros estados ou para exportação. No acumulado de 2025, o estado embarcou 31 milhões de toneladas de soja, respondendo por 30% de toda a soja exportada pelo país, e 28 milhões de toneladas de Milho, representando 50% das exportações nacionais do cereal.
Estamos a 2.300 km do porto de Paranaguá, a 2.000 km de Santos, no sul, e a 1.380 km de Miritituba, no norte (base Sorriso), e essa dependência de exportação ressalta como qualquer alteração na estrutura de custos logísticos impacta diretamente a receita bruta dos produtores e a receita do estado.
Produtores do Sul recebem valores superiores pela sua soja. Em Sorriso, uma saca de soja vale em torno de R$ 104,00/saca (60 kg), enquanto em Paranaguá esse valor chega a R$ 142,00/saca. Essa diferença de R$ 38,00/saca, ou 37%, tem o frete como principal motivo.
O custo do frete atua nas duas pontas, quando impacta os produtores: aumenta o custo dos insumos, o que acaba aumentando os custos de produção, e diminui o valor recebido pela produção.

Foto: Roberto Dziura Jr
Assim, o frete não é apenas um custo, mas um dos principais determinantes da rentabilidade dos produtores, principalmente os do Centro Oeste.
Como diminuir esse impacto do custo dos fretes, então? Primeiro, produzir bem. A maior produtividade não tem efeito no valor do frete do escoamento da produção. Mas tem efeito significativo na queda dos custos de produção, mesmo com fretes mais caros.
Segundo, agregar valor à produção. Um exemplo de agregação de valor vem do etanol de milho. Há poucos anos, era preciso mandar 2 caminhões de milho para o mercado: 1 deles era para pagar o frete do outro.
Hoje em dia, por conta da demanda das indústrias locais que produzem etanol a partir do milho, o preço pago aos produtores em Mato Grosso já é 90% do preço pago aos produtores do Sul.
Terceiro, investimentos em Ferrovias e Hidrovias, outros modais de transporte. Certamente a concorrência entre modais de transporte, como acontece nos Estados Unidos e na Europa, serviria para reduzir custos com fretes, melhorar a renda dos produtores e diminuir o preço dos alimentos para os consumidores.
Mas, num país travado como o Brasil, onde toda a expansão da infraestrutura acaba nas gavetas do judiciário, a competição entre modais não tem prazo para acontecer.
Dessas 3 possibilidades, o aumento da produtividade é a que está ao alcance imediato dos produtores. As outras duas: agregação de valor no próprio estado e maiores investimentos em logística, estão em outras esferas de decisão, fora da porteira.
Mas, como aumentar a produtividade? Não é perigoso investir mais na lavoura, justamente quando as margens estão apertadas? O Desafio Nacional de Máxima Produtividade do CESB (o Comitê Estratégico Soja Brasil), mostra que não. Analisando os dados dos Campeões do Desafio, o Cepea mostra que quanto maior a produtividade, mesmo com maior investimento, é maior o retorno por Real investido na lavoura. Os dados dos Campeões do Desafio, recolhidos e analisados pelo CESB, mostram que investir em produtividade é seguro e pode fazer toda a diferença em anos de margens apertadas.
Pense nisso.



