Bovinos / Grãos / Máquinas Primeiro no mundo
Carne livre de desmatamento ganha selo próprio no Brasil
Novo sistema de certificação permite identificar cortes que respeitam florestas, direitos humanos e legalidade, facilitando o acesso a mercados internacionais e promovendo a pecuária sustentável.

Faltando menos de duas semanas para o início da COP 30, em Belém (PA), o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) lança o sistema de certificação Beef on Track (BoT), o primeiro no mundo a certificar uma carne livre de desmatamento.
Em harmonia com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, que se alicerça na meta de reduzir o desmatamento e as emissões provenientes da agropecuária, o BoT responde também a uma necessidade do setor. “Hoje parte da produção pecuária nacional já está isenta de desmatamento e atende a requisitos de conformidade legal e social, mas não há um instrumento que dê visibilidade a isso. O BoT vem preencher essa lacuna. Com a certificação, a carne livre de desmatamento será identificada por um selo que permitirá seu rápido reconhecimento pelo mercado – sejam varejistas, importadores ou consumidores finais”, afirma Marina Piatto, diretora executiva do Imaflora.
O selo tende a se tornar um facilitador também para os frigoríficos que exportam para mercados que buscam produtos livres de desmatamento, a exemplo da União Europeia (com a Lei Antidesmatamento, que entrará em vigor no início de 2026), do Reino Unido (que editou a Environment Act 2021 para eliminar desmatamentos de sua cadeia de fornecimento) e da própria China, que tem acordos com o Brasil para um comércio bilateral livre de desmatamento e é o principal destino das exportações brasileiras de carne.
Não por acaso o BoT já conta com adesão das empresas que compõem a Tianjin Meat Association, da China. Pela parceria estabelecida, a Tianjin se dispõe a comprar pelo menos 50 mil toneladas de carne identificadas com o selo BoT até junho de 2026, o equivalente a 2,5 mil contêineres de 20 toneladas. Também internamente importantes instituições manifestaram apoio formal à iniciativa, tais como Tropical Forest Alliance, Proforest, Amigos da Terra, World Resources Institute (WRI), World Wide Fund for Nature (WWF) e National Wildlife Federation (NWF).
Foco no desmatamento
Com quatro níveis de certificação, o BoT irá analisar informações da cadeia da pecuária de corte, certificando-se da inexistência de desmatamento ilegal e de produção de gado em áreas sob embargo ou em terras indígenas, unidades de conservação e territórios quilombolas. Também será exigida a não figuração em listagens de trabalho análogo à escravidão. Para os níveis mais elevados, será preciso comprovar desmatamento zero.
Os produtos certificados receberão um selo aplicado diretamente nos cortes de carne, o que permitirá ao consumidor final, em qualquer parte do mundo, fazer sua escolha na gôndola do supermercado. Há previsão de campanhas para promover o entendimento do selo e seu impacto positivo na conservação de florestas e no respeito aos direitos humanos. Internacionalmente, haverá campanhas e roads shows para os mercados chinês e europeu: “Muitos mercados internacionais precisam de produtos sem desmatamento para cumprirem seus compromissos climáticos. Mostrar de modo transparente e acessível que a carne brasileira é livre de desmatamento será uma vantagem competitiva”, explica Marina.
Para facilitar a percepção do consumidor e guiar sua escolha, a leitura do selo é bastante intuitiva: quanto mais alta a barra verde, mais floresta está sendo monitorada. A ambição é que os frigoríficos transitem gradualmente para os níveis mais elevados da certificação, indo de bronze a platinum, conforme os requisitos de cada categoria.
- BoT Bronze – todos os fornecedores diretos estão livres de desmatamento ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;
- BoT Prata – todos os fornecedores diretos estão livres de desmatamento legal ou ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;
- BoT Ouro – todos os fornecedores diretos e indiretos estão livres de desmatamento ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;
- BoT Platinum – todos os fornecedores diretos e indiretos estão livres de desmatamento legal ou ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas.
Trilha verde

Marina Piato, diretora executiva do Imaflora: “São protocolos consolidados junto ao setor. O Boi na Linha, por exemplo, tem mais de 15 anos”
A certificação criada pelo Imaflora tem como instrumento um sistema de monitoramento, relato e verificação (MRV) baseado em protocolos já existentes e pactuados com o setor, como o Boi na Linha, utilizado pelo Ministério Público Federal para monitorar os frigoríficos signatários do Termo de Ajustamento de Conduta da Carne na Amazônia Legal, e o Protocolo do Cerrado, de adesão voluntária.
Para fornecedores com ciclos completos e sistemas privados de rastreabilidade desde a origem, o BoT tem como referência também as regras do Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos (GTFI), além do Deforestation Free Commitment (DFC) mínimo criteria para aqueles que adotam o desmatamento zero como critério central. “São protocolos consolidados junto ao setor. O Boi na Linha, por exemplo, tem mais de 15 anos. Essa compatibilização é muito positiva, por diminuir o custo da certificação, que tem como principal componente gastos relacionados aos sistemas de gestão para o monitoramento da cadeia de fornecimento”, explica Marina, acrescentando que, no estágio atual, um frigorífico com 95% de conformidade com o Boi na Linha ou com o Protocolo do Cerrado é automaticamente elegível ao BoT, bastando solicitar ao Imaflora aprovação para o uso do selo.
Ela esclarece ainda que, no próximo ano, serão desenvolvidos protocolos equivalentes para outros biomas brasileiros, como Mata Atlântica, Pampas e Caatinga, assim como as regras para transição de nível no BoT.
Fazendas não são auditadas diretamente, pois o BoT destina-se à cadeia de compra dos produtos provenientes da pecuária de corte, como frigoríficos, curtumes, varejo e importadores. Também bancos e instituições financeiras e do mercado de capitais podem utilizar a certificação para conferir maior segurança de conformidade legal e social a operações de crédito ou emissões de títulos baseados nesse ativo.
Cada planta de abate será auditada individualmente e pode acontecer de um mesmo grupo frigorífico, por exemplo, ter plantas com diferentes níveis de conformidade socioambiental, o que implicaria BoT de níveis diferentes para cada uma delas. A fim de assegurar a integridade do sistema, o selo será aplicado nas peças e não por lotes, adotando um sistema de balanço de massas. Significa, por exemplo que, se for comercializado um lote de dez cabeças com certificação BoT Bronze e cinco cabeças com certificação BoT Prata, o comprador receberá, na prática, vinte picanhas BoT Bronze, dez BoT Prata e assim com os demais cortes.
As auditorias serão anuais e uma característica do BoT é o compromisso por parte dos certificados de evoluir dentro da régua de requisitos, apresentando progressos contínuos. A implementação começará em 2026, tendo como ponto de partida o engajamento da Tianjin Meat Association.
Próximos passos
De acordo com Marina, o avanço dos programas de rastreabilidade dos governos federal e estaduais deve contribuir para dar escala a essa certificação e espera-se que no futuro ela seja homologada pela plataforma AgroBrasil +Sustentável, uma vez que os critérios do Boi na Linha e do Protocolo do Cerrado vêm sendo incorporados pelo sistema que o SERPRO está elaborando como base de dados da plataforma federal.
Parcerias com instituições empresariais, particularmente frigoríficos, também devem ser estabelecidas, contribuindo para diminuir os custos da operação do sistema. “O BoT chega para dar visibilidade às boas práticas da pecuária e criar oportunidade para o engajamento de novas empresas. O sistema comporta diferentes realidades de produção e traz o compromisso de evoluir na escala de conformidade até o desmatamento zero, o que o torna, simultaneamente, inclusivo na implementação e ambicioso nos objetivos”, ressalta Marina.

Bovinos / Grãos / Máquinas
Associação de moléculas potencializa controle de parasitas resistentes em bovinos
Combinação de eprinomectina e doramectina amplia o espectro de ação e ajuda a retardar o avanço da resistência parasitária nos rebanhos.

A resistência parasitária em bovinos vem se posicionando como um dos principais desafios sanitários da pecuária brasileira. Desde a década de 1990, a capacidade de adaptação de parasitas como vermes, carrapatos, bernes e moscas tem reduzido a eficácia de tratamentos convencionais e comprometido a produtividade dos rebanhos. “Os parasitas se adaptam rapidamente ao uso repetido e incorreto de antiparasitários. É um fenômeno biológico que coloca em risco o desempenho animal e gera prejuízos econômicos expressivos”, explica o médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral.
Esses organismos consomem nutrientes essenciais e comprometem funções vitais do metabolismo dos ruminantes, resultando em perda de peso, queda no consumo alimentar, anemia, diarreia e até morte em casos severos. “Um programa de controle bem estruturado é essencial para que o animal expresse todo o seu potencial produtivo, tanto em sistemas de corte quanto de leite”, reforça Cabral.
Clima tropical favorece ciclo dos parasitas

Foto: Fabiano Bastos
No Brasil, a maior parte do rebanho é criada em sistemas extensivos, o que mantém os animais em contato direto com pastagens, ambiente ideal para o desenvolvimento e disseminação de parasitas. O clima quente e úmido favorece a evolução das larvas infectantes que completam o ciclo dentro do hospedeiro. “O gado ingere as larvas presentes nas forragens e, nesse momento, os parasitas conseguem completar o ciclo reprodutivo. Por isso, é preciso adotar estratégias integradas e contínuas de controle, não apenas pontuais”, orienta Cabral.
Associações farmacológicas
Avanços recentes da farmacologia veterinária têm mostrado resultados promissores no enfrentamento da resistência parasitária. Um dos destaques é a associação entre eprinomectina e doramectina, moléculas que se complementam no combate a endo e ectoparasitas. “A eprinomectina, de segunda geração das avermectinas, possui rápida biodisponibilidade e excelente ação sobre vermes gastrintestinais. Já a doramectina, da primeira geração, tem liberação mais lenta e prolongada, com alta eficácia contra carrapatos e moscas”, explica Cabral.
De acordo com o médico-veterinário, a combinação dessas substâncias proporciona dois picos plasmáticos após a aplicação, o que amplia o espectro e a duração da proteção. “Essa diferença no tempo de ação ajuda a retardar o desenvolvimento de novas resistências e garante um controle mais completo e duradouro”, destaca.
Planejamento sanitário é essencial

Médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral: “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas” – Foto: Divulgação/Vaxxinova Brasil
Além do uso de produtos modernos, a eficácia do controle depende de um calendário sanitário bem estruturado. O planejamento deve considerar o manejo das pastagens, a época do ano e a categoria animal, sempre com acompanhamento técnico. “O sucesso do controle parasitário não está apenas no produto, mas na estratégia. É fundamental respeitar as doses, os intervalos de aplicação e as condições de armazenamento recomendadas em bula”, menciona Cabral.
Para ele, o uso racional e estratégico da associação entre eprinomectina e doramectina representa uma ferramenta moderna e eficiente para a pecuária brasileira. “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas”, enfatiza.
A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Volatilidade expõe limites do curto prazo no mercado do leite
Alta oscilação de preços e assimetrias de informação reforçam a importância de dados confiáveis para decisões de produtores e indústrias.

O sistema agroindustrial (SAG) do leite vive um momento de transformação. A evolução do ambiente institucional (incluindo definições de padrões de qualidade em Instruções Normativas), o aumento da intensificação, da escala, da produtividade e da qualidade da base produtiva, e o contínuo processo de concentração nos segmentos produtivo e industrial têm alterado a estrutura do SAG, os padrões de concorrência e as estratégias dos agentes para lidar com as crescentes incertezas do mercado.
Em minha tese de doutorado, abordo a influência das incertezas na comercialização do leite cru e observo que elas estão relacionadas, sobretudo, às dificuldades dos agentes em avaliar (a) seu desempenho frente a concorrentes e fornecedores e (b) as flutuações de oferta e demanda, o que, por sua vez, se traduz em elevada volatilidade dos preços do leite cru. Esse contexto cria barreiras ao estabelecimento de relações de longo prazo entre produtores, cooperativas e indústrias, reduz o alinhamento entre agentes e eleva os custos de transação.

Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.
Diante disso, o setor tende a se organizar segundo uma lógica predominantemente de curto prazo, como forma de adaptação a mudanças imprevisíveis. Adota-se, assim, flexibilidade elevada nas relações comerciais e nos fatores de produção — o que, por um lado, permite resposta rápida a choques, mas, por outro, limita a coordenação entre segmentos, os ganhos de eficiência e a inovação no longo prazo. Em outras palavras, o setor lácteo brasileiro demonstra resiliência imediata, mas baixa capacidade de transformação estrutural, o que restringe sua evolução diante de incertezas prolongadas e mudanças de mercado.
Para reverter esse quadro, é necessário focar na mitigação da incerteza. E isso ocorre quando fatores geradores de incerteza passam a ser monitorados e mensurados, convertendo-se em informação. É o acesso dos agentes do SAG a informações de mercado que transforma a incerteza em risco — e o risco, ao contrário da incerteza, pode ser gerenciado.
Nesse sentido, a problemática setorial pode ser sintetizada pela elevada volatilidade das cotações, pela ausência de mecanismos eficientes de proteção e de gestão de riscos na comercialização e, portanto, pela necessidade de informações estratégicas e confiáveis que reduzam a incerteza na tomada de decisão, especialmente no que se refere à comercialização do leite cru e dos derivados lácteos. Em ambientes de alta volatilidade, referências comuns reduzem custos de negociação, organizam expectativas e ampliam a previsibilidade operacional.
A produção e a difusão de informação econômica confiável são, portanto, condição necessária para fortalecer a resiliência do SAG e viabilizar mecanismos mais sofisticados de governança e gestão de risco, como instrumentos de hedge e contratos futuros, por exemplo. No entanto, a eficácia desses mecanismos depende de um ecossistema institucional sólido: geração contínua de dados, transparência metodológica, educação de mercado e confiança entre os agentes.
É nesse ponto que se ancora a missão do Cepea — Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [1]: elaborar séries históricas e indicadores de preços, contribuindo, assim, para reduzir assimetrias de informação, apoiar a tomada de decisão e favorecer a coordenação dos agentes do SAG no curto e no longo prazo.
Um indicador de preços tem como objetivo refletir o preço médio das transações observadas, capturando o comportamento competitivo dos preços — isto é, o preço efetivamente praticado no mercado. Por definição, sintetiza transações já realizadas (negócios efetivados), e não projeções ou referências futuras. Por isso, trata-se de instrumento estratégico em um contexto de incerteza: não apenas reporta cotações, mas amplia a capacidade de decisão e de planejamento dos agentes. Essas informações permitem mensurar desempenho, inferir condições de oferta e demanda e avaliar os impactos de diferentes estratégias de produção e comercialização. Ao se munirem de informação, os agentes compreendem melhor o cenário corrente e se preparam para cenários futuros, reforçando a resiliência no curto prazo e a capacidade de adaptação no longo prazo.
O Cepea conduz pesquisas em 32 cadeias agropecuárias e, no caso do leite, a estrutura de monitoramento abrange indicadores do preço do leite cru pago ao produtor; do leite cru negociado no mercado spot entre laticínios; e de preços de derivados lácteos negociados entre indústrias e canais de distribuição. Esse monitoramento do SAG do leite só é possível porque uma rede de produtores, cooperativas e laticínios compartilha dados com o Centro, de forma voluntária, para a geração das estatísticas. Também é viabilizado pelo apoio institucional e financeiro da OCB e da Viva Lácteos na elaboração de informativos, o que contribui para custear as atividades da equipe.
O indicador do preço do leite ao produtor tem grande impacto no setor, na medida em que a precificação do leite cru, principal matéria-prima dos laticínios, é cercada de incertezas. O preço do leite cru permanece elemento-chave da estratégia das firmas, sejam fazendas ou laticínios: reflete decisões de custo, capacidade produtiva e eficiência operacional, estratégias de diferenciação e segmentação e, também, a própria estrutura de governança.
O indicador do Cepea é calculado mensalmente com metodologia robusta, validada e pública, disponível no site da instituição. Trata-se de uma média ponderada pelo volume, construída a partir de uma rede de colaboradores (produtores, cooperativas e laticínios) que compartilha informações de forma contínua. Para se ter uma dimensão, mensalmente são coletadas mais de 65 mil informações de negócios efetivados, obtidas de forma voluntária junto a mais de 120 agentes do mercado. Esses agentes contribuem com a pesquisa porque recebem, como retorno, informações em prazo diferenciado e porque reconhecem a importância do indicador para o desenvolvimento do setor.
Além da metodologia, a robustez do indicador pode ser apreciada pela abrangência da amostra em termos de volume industrializado monitorado (em comparação com dados do IBGE). Atualmente, o Cepea monitora cerca de 65% do leite industrializado em Minas Gerais — ou seja, a cada 5 litros, aproximadamente 3 estão na amostra. No Rio Grande do Sul, a cobertura é de cerca de 80% — a cada 5 litros, 4 estão na amostra. Em Goiás, a cada 2 litros, 1 está na amostra. Na Bahia, a cada 3 litros, 1 está na amostra. No Paraná e em Santa Catarina, a cada 4 litros, 1 está na amostra. Em São Paulo, a cada 6 litros, 1 está na amostra do Cepea.
Uma forma objetiva de avaliar a representatividade do indicador do preço do leite pago ao produtor em relação ao mercado é observar o grau de correlação [2] entre o preço da matéria-prima (leite ao produtor e leite spot) e indicadores de produtos derivados. Observam-se coeficientes de correlação elevados, sugerindo forte co-movimento entre preços no campo e preços negociados entre indústrias e canais de distribuição. Em outras palavras, correlações altas com derivados e com o leite spot reforçam a aderência do indicador à realidade do mercado, ainda que diferenças de produto e canal impliquem intensidades de co-movimento distintas. Em conjunto, esses elementos ajudam a explicar por que o indicador do preço do leite ao produtor se consolidou como referência nacional e por que indicadores de lácteos (como UHT, leite em pó e muçarela) são acompanhados diária e semanalmente pelos agentes de mercado.

Foto: Arnaldo Alves
Esses aspectos reforçam, também, que a manutenção e o aprimoramento dessas pesquisas são estratégicos para a competitividade do setor lácteo brasileiro, sobretudo no que se refere à evolução das estruturas de governança envolvidas na transação do leite cru entre produtores, cooperativas e laticínios.
A maior parte das negociações ainda ocorre por meio de contratos informais, apoiados sobretudo em mecanismos de confiança e lealdade. Nesses arranjos, o volume a ser entregue tende a ser conhecido (ainda que com flexibilidade), enquanto o preço é ajustado ex post, após avaliação posterior de quantidade e qualidade. Nos últimos anos, porém, observa-se aumento considerável de contratos formais nas negociações com produtores. Esses contratos costumam explicitar mais definições ex ante e, com frequência, adotam preços indexados a indicadores, sobretudo ao indicador do preço do leite ao produtor do Cepea.
Cabe, no entanto, uma distinção importante: o indicador de preços do Cepea é uma referência; não é um mecanismo de formação de preços, nem um instrumento de coordenação comercial entre agentes. Ele reflete os preços praticados no ambiente competitivo de mercado. Seu uso como indexador em contratos é uma decisão dos agentes do setor, normalmente motivada pela necessidade de reduzir incerteza e aumentar previsibilidade, ainda que com alguma defasagem em relação ao momento do mercado (uma vez que a precificação do leite do mês corrente pode se apoiar na cotação de um ou dois meses anteriores).

Foto: Divulgação/OP Rural
Em minha tese de doutorado, entrevistei 33 indústrias de laticínios, que captam quase 24% do leite brasileiro. Entre elas, quase 88% concordam que as informações do Cepea são importantes para avaliar desempenho (comparação de preços recebidos/pagos com a média de mercado), e 72,8% consideram que se tratam de informações relevantes como referência de precificação — seja no balizamento de rodadas de negociação (ancoragem de expectativas e justificativas de repasse), seja na indexação em contratos (fórmulas de reajuste que vinculam o preço ao indicador, com prêmios e descontos por qualidade, volume, logística e serviços).
Ao funcionar como “linguagem comum”, os indicadores de preços do Cepea contribuem para tornar divergências mais objetivas: em vez de discussões baseadas apenas em percepções, os agentes passam a negociar diferenças e ajustes (prêmios, bônus, bonificações e penalizações) em torno de uma referência observável. Passam, também, a avaliar seus negócios em relação à concorrência de modo mais objetivo e podem ajustar expectativas ao acompanhar os mercados de derivados, que são mais dinâmicos do que o de leite cru.
Os indicadores do preço do leite ao produtor e dos derivados lácteos do Cepea são relevantes porque respondem a um problema central do SAG do leite: a incerteza derivada de assimetrias de informação em um mercado volátil. Ao sintetizar transações efetivadas com metodologia pública e ampla rede amostral, essas informações se tornam uma referência objetiva do momento do mercado, sobretudo para avaliação de desempenho. E, mesmo que o indicador não tenha sido desenhado, em sua origem, para indexar transações, ele vem sendo apropriado pelo setor para negociação e indexação de contratos, na ausência de outros mecanismos capazes de gerenciar o risco de comercialização.
Mas há um ponto adicional, talvez mais estrutural: ao longo do tempo, os indicadores do Cepea não apenas retrataram o mercado; ajudaram a moldar seu desenvolvimento, ao oferecer uma base comum de informação que reduz resistências e viabiliza mudanças graduais na governança. Em setores em que o “melhor caminho” só se revela à medida que é trilhado, inovar exige coragem para alterar rotinas e acordos. Porém, mudar sob elevada incerteza é custoso e, muitas vezes, bloqueia a ação coletiva. Ao transformar parte da incerteza em risco mensurável, os indicadores funcionam como bússola: orientam decisões, calibram expectativas e sustentam discussões sobre a evolução de mecanismos de garantia e de gestão de risco na comercialização — exigência que se intensifica com a transformação da base produtiva e dos padrões de concorrência.

Foto: Fernando Dias
Retomo, nesse contexto, o exemplo dos contratos formais: a prática ganhou tração por haver uma referência legítima e compartilhada capaz de diminuir assimetrias, reduzir contestação e tornar as divergências negociáveis. Nesse sentido, o Cepea tem operado como um espaço de convergência e de articulação, no qual agentes heterogêneos (muitas vezes com interesses distintos) aceitam cooperar, compartilhar dados e sustentar um bem informacional coletivo em nome de um objetivo maior: o desenvolvimento do setor.
A consolidação desses indicadores cria uma linguagem comum entre os agentes, fortalece capacidades de gestão, acelera o amadurecimento institucional e assenta o terreno para formas mais coordenadas de comercialização. Tudo isso conduzido com transparência metodológica, por uma instituição neutra e de reconhecida credibilidade, que coloca a ciência e o desenvolvimento do setor como base de sua atuação. Em última instância, a existência e o uso desses indicadores sinalizam que, apesar da fragmentação, o SAG do leite tem amadurecido e buscado construir bases para evoluir.
Muito já foi feito, mas ainda há amplo espaço para avançar na superação dos gargalos que afligem o SAG do leite. Mudar a perspectiva do curto prazo para o longo prazo e elevar eficiência e qualidade exigirá recursos e capital humano, para ampliar o nível de gestão e profissionalização, além de continuidade no financiamento da geração de informações. Vale lembrar que, em países que hoje concorrem conosco no mercado internacional (como Argentina e Uruguai), as instituições que geram informação econômica contam com apoio direto do poder público, seja financeiro, seja na integração de bases de dados. Apesar disso, o Brasil não parte do zero no enfrentamento desse desafio, pois temos organizações sérias como o Cepea que contribuem tecnicamente com a geração de informação, a educação de mercado e a construção de novos instrumentos, oferecendo dados, análises e metodologias de referência.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Associação Brasileira de Angus define agenda estratégica de eventos para 2026
Exposições nacionais em Vacaria, Esteio e Pelotas ampliam a visibilidade das raças Angus e Ultrablack e preparam criadores para compromissos internacionais.

A Associação Brasileira de Angus terá um calendário repleto de importantes atividades em 2026. Ao todo, serão mais de 10 eventos, organizados ou com apoio e participação da entidade. Entre eles, três exposições nacionais, estratégicas para atingir objetivos técnicos, comerciais e institucionais, fomentando e dando mais visibilidade à raça.
Entre os destaques do calendário, no primeiro semestre, está a Exposição Nacional de Buçal Angus e Ultrablack, que será realizada entre os dias 15 e 19 de abril, em Vacaria, no nordeste do Rio Grande do Sul. Já no segundo semestre, durante a Expointer, que ocorre de 29 de agosto a 6 de setembro, em Esteio, haverá a Exposição Nacional de Terneiros, com o objetivo de fomentar e divulgar a criação de animais jovens. E de 5 a 12 de outubro, ocorrerá, ainda, a Exposição Nacional de Curral, em Pelotas, na zona sul do Estado.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Cairoli, explica que a decisão de realizar as nacionais em locais diferentes é estratégica para a entidade. Vacaria, por exemplo, sedia um núcleo relativamente novo e que tem uma proximidade importante com Santa Catarina. Pelotas, por sua vez, terá este ano a 100ª edição da sua Expofeira, além de estar em uma região com um bom número de animais de curral. As nacionais, segundo ele, também servem como preparação para o Secretariado Mundial da Raça Angus, que começa em maio de 2027.
“Estamos valorizando cada vez mais as exposições, porque entendemos que elas são uma das formas de divulgar as raças Angus e Ultrablack. As nacionais têm um papel estratégico no nosso calendário porque são promovidas diretamente pela Associação e têm como principal objetivo congregar o maior número possível de criadores, de diferentes estados e regiões, além de reunir um volume expressivo de animais”, destaca Cairoli.
Além das exposições nacionais, o ano terá outros eventos importantes, como a Expoutono, em Uruguaiana (RS), a Fenagen, em Pelotas, a Expovac, em Vacaria, entre outros.
Confira o calendário da Angus em 2026
- Expocampos 2026 – 26 a 29 de março, em Campos Novos (SC)
- Exposição Nacional de Buçal Angus e Ultrablack – 15 a 19 de abril, em Vacaria (RS)
- Exposição de Maringá – 7 a 17 de maio, em Maringá (PR)
- 24ª Expoutono de Uruguaiana – 18 a 24 de maio, em Uruguaiana (RS)
- Fenagen – 1º a 4 de julho, em Pelotas (RS)
- 49ª Expointer e Exposição Nacional de Terneiros – 29 de agosto a 6 de setembro, em Esteio (RS)
- 114ª Expofeira de Bagé – 25 e 26 de setembro, em Bagé (RS)
- Exposição Nacional Curral Angus e Ultrablack – 5 a 12 de outubro, em Pelotas (RS)
- Expolages – 7 a 12 de outubro, em Lages (SC)
- 93ª Expofeira de Dom Pedrito – 10 a 18 de outubro, em Dom Pedrito (RS)
- 95ª Expofeira Santa Vitória do Palmar – 13 a 18 de outubro, Santa Vitória do Palmar (RS)
- Expovac – 14 a 18 de outubro, Vacaria (RS)



