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Câmara Setorial Milho e Sorgo debate armazenagem e qualidade de grãos
Deficiência estrutural de armazenagem afeta diretamente a qualidade dos grãos, pela falta de espaço adequado para acondicionar os grãos, mas também indiretamente pela deficiência nas operações básicas de pós-colheita.

Os “Impactos da deficiência de armazenagem e de práticas de campo na qualidade de grãos brasileiros” foi um dos assuntos conversados na 50ª Reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Milho e Sorgo, promovida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, em novembro. O convidado foi o pesquisador Marco Aurélio Guerra Pimentel, da Embrapa.

Fotos: Klé Gabriel
A deficiência estrutural de armazenagem afeta diretamente a qualidade dos grãos, pela falta de espaço adequado para acondicionar os grãos, mas também indiretamente pela deficiência nas operações básicas de pós-colheita. O milho, o sorgo e os demais cereais produzidos em segunda safra sofrem mais com esse cenário, pois, nos maiores estados produtores, esssas culturas são colhidas num momento em que muitas unidades ainda mantêm soja armazenada, que foi colhida na safra de verão.
Segundo Pimentel, na última safra de grãos, o País registrou um volume aproximado de 115 milhões de toneladas deficitárias em armazenagem. “A produção cresce em média de 12 a 13 milhões de toneladas por ano, enquanto o crescimento da capacidade de armazenagem cresce em média de 4 a 5 milhões de toneladas ao ano”, pontuou.
“Nas últimas semanas, o IBGE divulgou que houve um crescimento de 5,4% na capacidade de armazenamento no Brasil, no primeiro semestre deste ano, em comparação aos seis meses anteriores. Apesar desse crescimento médio ao longo dos últimos anos, a produção de grãos vem batendo recordes consecutivos. Dessa forma, mesmo considerando a rotatividade dos estoques, as estruturas de pós-colheita não acompanham os crescimentos de produção. Em algumas regiões, essa deficiência é mais acentuada, por exemplo, no Matopiba, que apresenta 21 milhões de toneladas deficitárias, e no Mato Grosso, que tem 52,6 milhões de toneladas deficitárias”, comentou o pesquisador.

Foto: Marilayde Costa
Somente nessas duas regiões juntas, há quase 60% do déficit do Brasil. E são, justamente, regiões de maior produção de milho, principalmente na segunda safra. Outros estados que apresentam produção agrícola relevante e também déficit são Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e Minas Gerais.
“De forma geral, os dados apontam que grande parte da rede de armazenagem está na iniciativa privada. Na região Sul, destacam-se as cooperativas, que são bastante atuantes e fornecem o serviço de armazenagem aos produtores. O percentual de armazenagem nas fazendas fica em torno de 15% no Brasil. Em contato com produtores nas principais regiões produtoras, fica evidente que ampliar o percentual de armazenamento nas fazendas ajudará a resolver o problema no País, especialmente nos picos de safra e na comercialização dos produtos”, relatou Pimentel.
Recentemente, uma pesquisa da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostrou que, dos produtores avaliados, 61% relataram que não possuíam qualquer tipo de estrutura na fazenda. Esse dado é bastante significativo, e corrobora com levantamentos de outras instituições, como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
“Dentro desse cenário de deficiência na armazenagem, aprofundamos os estudos e temos identificado que o problema não se reflete apenas na falta de espaço para armazenagem dos grãos, mas também no estrangulamento nas operações de colheita em pico de safra, quando caminhões ficam alguns dias nas filas para descarregar em uma unidade armazenadora, e nas demais operações de pré-processamento dos grãos, como recepção, classificação, limpeza, secagem e proteção de grãos”, menciona, Pimentel.
Ele acrescenta que “a ampliação da armazenagem na fazenda poderia amenizar esse problema. As limitações nessas operações devido à falta de estruturas que realizam esses processos fragilizam a qualidade dos grãos. Um exemplo é a operação de limpeza, que utiliza máquinas de ar e peneira”.
“Quando pensamos na cadeia de proteína animal, os grãos defeituosos, como os mofados, fermentados, carunchados, entre outros, podem causar impactos significativos nos custos de produção de ração. A separação, também pelo processo de limpeza, ou por máquinas densimétricas, além da secagem adequada, pode reduzir muitos estes impactos negativos e custos adicionas na produção de ração”, menciona.
Os impeditivos à ampliação das unidades em fazenda, citados por Pimentel, têm sido a limitação e dificuldade de acesso a crédito pelos produtores e o custo ainda elevado das unidades armazenadoras. “Estão sendo desenvolvidas tecnologias construtivas que têm potencial para ser mais econômicas em relação às opções atualmente disponíveis no mercado”.
“Aumentar as unidades de armazenamento nas fazendas no Brasil será um ganho muito grande em todos os aspectos, para desafogar as unidades nas épocas de pico de colheita, para manter a qualidade dos produtos que podem ser estocados em volumes menores, e para vender a produção em períodos de preço melhor para o produtor. Para os pecuaristas e produtores independentes, a armazenagem na fazenda pode auxiliar a comprar grãos em épocas de maior oferta e menor preço, e ajustar o estoque para as épocas de maior demanda.
“Apesar dos desafios ainda presentes, já observamos ações concretas e grande preocupação com o tema, na busca de somar esforços nas ações de pesquisa e desenvolvimento e transferência de tecnologias, o que tem sido feito em conjunto com a Associação Brasileira de Pós-Colheita (ABRAPÓS), com as universidades, empresas parceiras e com outras Unidades da Embrapa, por meio de eventos técnico-científicos e parcerias institucionais”, relata Marco Aurélio Pimentel.

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Armazenamento correto garante qualidade e previne perdas de produtos pecuários
Boas práticas são essenciais para a produtividade da fazenda e envolvem higiene, controle de temperatura e organização física do espaço.

Na pecuária, o bom desempenho do rebanho está ligado a fatores como alimentação, controle de doenças e parasitas, cuidado com o bem-estar animal e monitoramento constante do gado. Além desses critérios, as boas práticas no armazenamento de produtos destinados aos animais também devem ser consideradas essenciais, uma vez que previnem perdas e garantem a produtividade da fazenda.
As boas práticas visam garantir a qualidade, segurança e valor dos produtos, prevenindo contaminações e perdas. Os procedimentos envolvem higiene, controle de temperatura e organização física do espaço, e variam conforme o tipo de produto (ração, suplementos, medicamentos). “Esses princípios mantêm a boa qualidade desses itens, evitando, além das perdas ligadas ao seu valor financeiro, chance de contaminar outros artigos ou provocar doenças no rebanho”, explica o zootecnista Bruno Marson.
Antes de armazenar os produtos, é importante observar qual tipo de espaço ele deve ser guardado. Rações e suplementos precisam ser armazenados em locais secos e arejados, preferencialmente em suas embalagens originais ou em recipientes herméticos, sobre paletes e afastados das paredes para evitar umidade e acesso de pragas. “No caso de medicamentos e vacinas veterinárias é preciso seguir rigorosamente as instruções do fabricante quanto à temperatura, uma vez que muitos desses produtos requerem refrigeração e condições de armazenamento em local seguro e separado de outros produtos químicos”, destaca Marson.
No caso de defensivos agrícolas e químicos, o armazenamento deve ser feito em local isolado, com ventilação adequada, piso impermeável e sinalização de perigo. A legislação brasileira dispõe sobre o sistema de armazenagem dos produtos agropecuários, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fornece cartilhas de boas práticas para serviços de alimentação que são relevantes para produtos de origem animal.
Princípios fundamentais
Marson enfatiza que a higiene rigorosa é essencial, por isso é necessário manter as instalações, equipamentos e utensílios sempre limpos e sanitizados, e que a higiene pessoal dos colaboradores também é crucial. Os locais de armazenamento devem ser limpos, organizados, bem ventilados e protegidos da luz solar direta, umidade, insetos, roedores e outros animais.
No caso da temperatura, seu controle é vital, especialmente para insumos como vacinas e medicamentos. Câmaras frias e refrigeradores devem ser usados conforme as especificações do fabricante. “As embalagens devem proteger o produto da umidade e de contaminações externas. No caso de rações e grãos a granel, deve-se prevenir o ataque de pragas através de iscas, evitar acesso livre ao material e bloquear possíveis abrigos”, orienta.
Outra dica de Marson é organizar os produtos de forma a permitir a fácil inspeção e limpeza e implementar a rotação de estoque (primeiro a entrar, primeiro a sair – PEPS) para garantir que os produtos mais antigos sejam usados antes de vencerem. Além disso, implementar um plano eficaz para a gestão de resíduos e controle de pragas para evitar a infestação das instalações. “Seguindo essas orientações, os produtos ficarão bem armazenados, garantindo assim a produtividade do rebanho e a rentabilidade da fazenda”, menciona Marson.
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Sobretaxas dos Estados Unidos derrubam exportações brasileiras em vários setores
Estudo mostra que apenas seis dos 21 segmentos conseguiram compensar, em outros mercados, a queda nas vendas ao mercado americano.

As sobretaxas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros tiveram impacto amplo e negativo sobre as exportações do país. Um estudo da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) mostra que apenas seis dos 21 setores exportadores conseguiram compensar, em outros mercados, as perdas registradas nas vendas ao mercado americano.
Entre agosto e novembro de 2025, todos os setores analisados venderam menos para os Estados Unidos na comparação com o mesmo período de 2024. A queda somada alcançou US$ 1,5 bilhão. Em praticamente todos os segmentos, a retração das exportações para os EUA foi mais intensa do que a variação das vendas globais, o que evidencia o peso do mercado americano para a pauta exportadora brasileira.

Foto: Vosmar Rosa/MPOR
A tentativa de redirecionar exportações para outros países não foi suficiente para a maioria dos setores. Em 15 dos 21 segmentos avaliados, o crescimento das vendas ao restante do mundo não conseguiu compensar as perdas nos Estados Unidos. Juntas, essas áreas acumularam redução de US$ 1,2 bilhão.
Os impactos mais expressivos foram registrados nos setores de alimentos, como mel e pescados, além de plástico e borracha, madeira, metais e material de transporte. Apenas seis setores conseguiram equilibrar as perdas com vendas em outros mercados: produtos vegetais; gorduras e óleos; químicos; pedras preciosas; máquinas e aparelhos elétricos; e máquinas e instrumentos mecânicos.
Mesmo nesses casos, a compensação foi limitada. O estudo aponta que, muitas vezes, os produtos exportados para outros destinos não são os mesmos que tradicionalmente têm os Estados Unidos como principal mercado. Isso indica que a substituição do mercado americano ocorre de forma incompleta, tanto em valor quanto em perfil de produtos.
No setor de máquinas e aparelhos elétricos, por exemplo, as exportações para os Estados Unidos recuaram US$ 104,5 milhões no período analisado. Já as vendas para outros mercados cresceram US$ 650 milhões. Apesar do saldo positivo, itens específicos de maior valor agregado, como transformadores e geradores, também tiveram desempenho fraco fora dos EUA. As exportações de transformadores caíram tanto para o mercado americano quanto para o restante do mundo, enquanto os geradores registraram queda acentuada nos EUA e avanço modesto nos demais destinos.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná
O levantamento reforça que o mercado dos Estados Unidos segue difícil de substituir. Além do volume, o país importa produtos mais diversificados e com maior valor agregado, o que limita a capacidade de redirecionamento das exportações brasileiras no curto prazo.
Para a Amcham, os dados mostram que a diversificação de mercados ajuda, mas não resolve. A entidade avalia que, para grande parte da indústria brasileira, as perdas provocadas pelas sobretaxas não podem ser plenamente revertidas sem avanços nas negociações comerciais com os Estados Unidos.
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Preços dos grãos terminam 2025 sob pressão e incerteza no mercado
Soja, milho e trigo enfrentaram um ano de ajustes ao longo da cadeia global.

O mercado global de commodities encerrou 2025 marcado por preços pressionados, oferta elevada em várias cadeias e forte influência de fatores externos. Para 2026, o cenário segue condicionado a decisões políticas, tensões comerciais, clima e ajustes entre oferta e demanda, aponta a análise da Hedgepoint Global Markets.
No plano internacional, as políticas tarifárias dos Estados Unidos continuam no radar, com potencial para alterar fluxos comerciais, especialmente na relação com a China. A disputa entre as duas potências segue como um dos principais focos de atenção dos mercados. Em países emergentes, eleições também devem influenciar o ambiente econômico. No Brasil, o processo eleitoral previsto para outubro tende a aumentar a volatilidade ao longo do ano.
Na política monetária, a expectativa é de um período de maior equilíbrio. Após cortes de juros em 2025, bancos centrais como o Federal Reserve e o Banco Central Europeu se aproximam de uma fase de estabilização. No Brasil, há espaço para redução da taxa Selic ao longo de 2026, desde que as expectativas de inflação permaneçam controladas, com projeção de encerrar o ano em torno de 12%.
Esse pano de fundo macroeconômico e geopolítico se soma aos desafios específicos de cada mercado agrícola, especialmente ligados ao clima, à produção e ao consumo.
Complexo soja
O mercado de soja viveu em 2025 um cenário de forças opostas. A safra recorde da América do Sul contrastou com a redução de área nos Estados Unidos. A guerra comercial reduziu a demanda pela soja americana, ao mesmo tempo em que o crescimento do esmagamento e a perspectiva de maior uso de biocombustíveis ajudaram a sustentar o mercado. Uma trégua nas tensões entre EUA e China deu algum fôlego aos preços no fim do ano.
Em 2026, quatro pontos concentram as atenções. O primeiro é o volume de compras da China de soja norte-americana, após o compromisso de aquisição de pelo menos 25 milhões de toneladas. O segundo envolve o biodiesel nos Estados Unidos, cujas definições adiadas em 2025 devem impactar óleos vegetais e farelo no próximo ano. O terceiro fator é o clima na América do Sul, com incertezas sobre o potencial produtivo de Brasil e Argentina. Por fim, a decisão sobre a área de plantio nos EUA para a safra 26/27 dependerá do comportamento dos preços, com possibilidade de migração de área do milho para a soja.
Milho e trigo
No milho, 2025 foi marcado por produção recorde nos Estados Unidos, resultado da combinação entre aumento de área e condições climáticas favoráveis. As exportações surpreenderam positivamente, sustentadas pela competitividade dos preços. No trigo, grandes produtores também ampliaram a oferta, levando a produção global a níveis elevados.
Para 2026, o clima na América do Sul será determinante. Brasil e Argentina podem elevar a produção se as condições forem favoráveis, embora o fenômeno La Niña traga riscos, especialmente para a safra argentina. No Brasil, atrasos no plantio da soja podem comprometer o calendário do milho safrinha, elevando a exposição a riscos climáticos. Ainda assim, há tendência de aumento de área, impulsionada pela demanda crescente por etanol de milho, com novas plantas previstas para entrar em operação.
Nos Estados Unidos, a definição da área entre milho e soja dependerá da relação de preços no primeiro trimestre de 2026. Apesar da possibilidade de redução de área do milho, a demanda aquecida pode limitar cortes mais significativos. No trigo, as atenções se voltam ao clima no desenvolvimento da safra de inverno do Hemisfério Norte, em um contexto de transição do La Niña para condições neutras ao longo do primeiro semestre.



