Conectado com

Notícias

Cadeia produtiva aponta desafios para mercado da soja brasileira

Especialistas destacam impacto das mudanças climáticas, altos custos e necessidade de agregar valor para manter a competitividade da oleaginosa.

Publicado em

em

Foto: Gilson Abreu

A cultura da soja foi a que mais cresceu no Brasil nas últimas cinco décadas, tanto que de 1975 até 2025, a produção saltou de 9,89 milhões de toneladas; safra 1974/1975 para aproximadamente 169 milhões de toneladas (Conab), na safra 2024/25.  “Podemos afirmar que o incremento contínuo da produtividade da soja e a consequente ampliação da sua produção foi resultado da adoção de um conjunto de tecnologias adotadas pelo produtor brasileiro”, destaca o chefe-geral da Embrapa Soja Alexandre Nepomuceno que mapeou a sojicultora brasileira nos últimos 50 anos, na abertura do 7º Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja, realizado na terça (19) e segue com programação nesta quarta-feira (20) em Londrina (PR).

Foto: Shutterstock

O crescimento da cultura, na visão de Nepomuceno, é fruto direto da tropicalização da soja, ou seja, dos investimento alcançados no melhoramento genética para adaptar a oleaginosa às condições do Brasil, mas também tecnologias e recomendações que permitiram corrigir os solos e manejar pragas, doenças e plantas daninhas. “Foram muitos os desafios que o produtor brasileiro conseguiu superar com as recomendações técnicas respaldadas em ciência, utilização de maquinários adequados e melhorias de infraestrutura”, enumera.

Se a trajetória tem sido promissora, quais os desafios atuais e de longo prazo? Para Nepomuceno um dos pontos a ser incrementado é a agregação de valor à produção de soja. A soja representa hoje 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio e gera, em média, 2,5 milhões de empregos. “Com a agregação e valor conseguiríamos aumentar em quatro vezes o PIB, assim como a geração de empregos”, calcula Nepomuceno.

De acordo com ele, a agregação de valor ocorre atualmente por meio da produção de carnes, via alimentação animal, mas é preciso colocar a oleaginosa na pauta da transição entre a química fóssil para a química verde. “Podemos usar, por exemplo, o óleo de soja para produzir plástico, borracha, asfalto e tantos outros produtos, com investimentos em ciência e tecnologia como já vêm fazendo os Estados Unidos”, exemplifica Nepomuceno. “As revoluções tecnológicas que vivemos tem o potencial de impactar positivamente o agronegócio, seja por meio da agricultura digital, inteligência artificial da edição gênica, RNA interferente, e de muitas outras inovações”, avalia.

Desafios da evolução da sojicultura

Durante o Seminário, também foi realizado um painel para debater a evolução da sojicultura brasileira por regiões de produção. O pesquisador Décio Gazzoni, da Embrapa Soja, realizou um mapeamento da produtividade e analisou as oscilações regionais.

Hoje cerca de 20 estados brasileiros produzem soja em diferentes condições, com uso de cultivares diferentes e de diferentes sistemas produtivos. Além disso, Gazzoni explica que o regime de chuvas é diferenciado, assim como a adoção de tecnologias e a atuação da assistência técnica.

Foto: Daiane Mendonça

Para Gazzoni, a produtividade no Brasil – de 1970 a 2000 – cresceu com pouca oscilação, porém, devido principalmente às mudanças climáticas atualmente a produtividade está com maior volatilidade, mesmo em regiões tradicionais de produção de soja como o Centro-Oeste. “Isso porque tínhamos uma previsibilidade muito maior do regime de chuvas há 15 ou 20 anos do que temos hoje, portanto, os riscos são maiores”, avalia. “A região Sul e o sul de Mato Grosso Sul têm sofrido com déficit hídrico, ondas de alta temperatura, o que tem afetado muito a produtividade desta região”, destaca.

Na visão do pesquisador, a solução passa pelo investimento tecnológico, em políticas públicas e em ação conjunta e integrada da cadeia produtiva. “Nada se resolverá rapidamente: são necessários investimentos continuados de longo prazo, principalmente em manejo de solo e no melhoramento genético”, reflete.  “E temos outros desafios, alguns circunstanciais, conjunturais, outros estruturais como a questão logística”, avalia Gazzoni.

Visão dos produtores

Fabrício Rosa, diretor da Aprosoja Brasil, apresentou os cenários que impactaram a produção e a produtividade da soja, nas últimas safras. Rosa também apontou as mudanças climáticas – seca durante três safras, e as inundações do Rio Grande do Sul, em 2024 – como fator determinante nas quebras de safra no Brasil. “Apesar disso, o abastecimento interno não foi afetado e nem o nosso compromisso de exportação. Isso porque o Brasil tem proporções continentais e se há quebra de um lado, conseguimos compensar de outro o que se reflete em safras robustas”, explica.

Além das questões climáticas, Rosa colocou como desafios para os produtores, os aspectos mercadológicos mundiais e conjunturais como a pandemia de Covid e mesmo as guerras em diferentes regiões mundiais.  “Esse cenário levou a atrasos na comercialização de algumas safras. Neste sentido, entendemos que os produtores precisam melhorar a gestão da propriedade, especialmente financeira, o controle de fluxo de caixa e de investimentos, principalmente”, aponta Rosa.

Foto: Luiz Henrique Magnante

Outro desafio levantado por Rosa foi o aumento no custo de produção de soja, em função da pandemia, assim como o crescimento dos custos com defensivos agrícolas. “Em proporção, normalmente o custo com defensivos era 20% do custo de produção e agora está próximo de 40%”, relata. “O custo da semente, por exemplo, que ficava em torno de 5% chegou a superar os 10% no custo de produção”, calcula.

Rosa diz ainda que a Aprosoja tem trabalhado para aprimorar a legislação brasileira, seja aprovando leis para o uso de agrotóxicos ou para produção de bioinsumos. “Usar biológicos é uma alternativa para o produtor que, em alguns casos, consegue reduzir em até 50% o custo com os químicos”, destaca. “Também estamos discutindo a modernização da lei de cultivares, assim como buscando apoiar financeiramente os produtores, especialmente do Rio Grande do Sul, por intermédio de ferramentas de renegociação de dívidas”, explica Rosa.

Agregação de valor nas cooperativas 

Outro ponto em debate foi o papel das cooperativas na produção de soja, tema conduzido por Robson Mafioletti, superintendente do Sistema Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná)Segundo ele, em torno de 50% da safra brasileira é conduzida pelas cooperativas que possuem mais de 9 mil profissionais atuando junto aos produtores – cerca 240 mil sojicultores. “Nosso papel é levar as melhores tecnologias para os nossos cooperados, por isso, as cooperativas têm estações de pesquisa para validar as soluções mais adequadas para o cooperado”, explica Mafioletti. “Hoje existem muitas cultivares e tecnologias disponíveis e a cooperativa tem o papel fundamental de direcionar a tomada de decisão”, avalia.

Foto: José Fernando Ogura

Além disso, nos últimos 20 anos, Mafioletti ressalta que houve investimento das cooperativas para industrializar o processo produtivo, agregando valor à produção de farelo e de óleo de soja para fomentar a cadeia produtiva de carnes. “Do total de soja produzido pelas cooperativas, 25% é direcionado para agroindústria. Essa agroindustrialização é muito relevante, porque gera uma estabilidade de renda, ao longo do ano”, reflete Mafioletti.

O 7º Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja é promovido pela Embrapa Soja em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), Associação dos Produtores de Soja do Paraná (Aprosoja PR), a Associação das Supervisoras e Controladoras do Brasil (ASCB), Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e o Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações).

Fonte: Assessoria Embrapa Soja

Notícias

Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Publicado em

em

Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Notícias

Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal

Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

Publicado em

em

Foto: Divulgação

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de  R$ 6,38 milhões.

Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão.  O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.

Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.

Desafios para o segundo semestre

Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.

O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil  do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.

Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
Continue Lendo

Notícias

Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo

Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Publicado em

em

Foto: Paulo Kurtz

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.

O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.

Potencial de uso da plataforma

O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.

Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.

Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.

Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.

Avanços para o melhoramento genético

As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:

“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje

“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.

Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.

No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.

Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.

Fonte: Assessoria Embrapa Trigo
Continue Lendo
Editora O Presente 35 anos

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.