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Cadeia do leite passou por mudanças ao longo da história, mas vem mais por aí
Pesquisador expõe que a diferença entre a produção colonial de subsistência e a produção atual de leite, em termos de técnicas de manejo, alimentação e cuidados com o rebanho, está na importância econômica do produto, sendo que a primeira era voltada para a produção caseira de queijo, manteiga e consumo direto da família produtora.

Os imigrantes que chegaram ao Sul do Brasil para colonizar a região, vindos de países europeus, enfrentaram tempos difíceis, marcados por guerras, doenças e escassez de alimentos. Nos seus países de origem, eles não eram proprietários de terras, mas trabalhavam no campo e enfrentavam restrições, inclusive, para o consumo de carne e pão de qualidade. Quando surgiu a oportunidade de virem para o Sul do Brasil, com poucas opções em mãos, trouxeram consigo a vontade de trabalhar e produzir, acreditando no potencial de seu esforço.
No entanto, ao chegarem em terras tupiniquins se deparam com uma extensa cobertura de Mata Atlântica, o que exigiu a derrubada da vegetação para abrir espaço para pastagens e cultivos. Foi um período de trabalho árduo, com a necessidade de limpar as áreas e desenvolver propriedades rurais a partir do zero.
A colonização do Sul do país teve início em meados de 1824 com os alemães, seguidos por outras etnias como italianos, portugueses, espanhóis, poloneses, russos, ucranianos, holandeses e tiroleses. Todas essas etnias estiveram envolvidas na produção de leite nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Inicialmente, a produção leiteira tinha um caráter de subsistência, voltada para o consumo das famílias. No entanto, alguns produtores logo perceberam que havia oportunidades para comercializar o leite e seus derivados. Logo depois surgiram as primeiras cooperativas, em 1902, entre as quais de laticínios no Rio Grande do Sul.
O pesquisador, consultor e sócio-diretor da Transpondo Pesquisa, Treinamento e Consultoria Agropecuária, Wagner Beskow, conta que no início o leite ocupava uma posição menos relevante em termos de importância econômica entre as principais atividades do campo. “Mas ao longo do tempo sua importância aumentou, passando a figurar entre a segunda ou terceira fonte de renda nas propriedades. Somente nas últimas décadas é que o leite se tornou a principal ou única fonte de renda em muitas propriedades brasileiras”, expõe Beskow.
Em suma, o pesquisador expõe que a diferença entre a produção colonial de subsistência e a produção atual de leite, em termos de técnicas de manejo, alimentação e cuidados com o rebanho, está na importância econômica do produto, sendo que a primeira era voltada para a produção caseira de queijo, manteiga e consumo direto da família produtora. “As técnicas de manejo eram mais simples e voltadas para atender às necessidades básicas da família. No entanto, com o surgimento de mercados consumidores houve uma mudança significativa na produção de leite. A partir da demanda por leite cru e, posteriormente, do leite pasteurizado na década de 70, a produção se tornou mais profissionalizada e comercial”, menciona o pesquisador.
Atualmente a produção de leite adquiriu uma importância econômica significativa dentro das propriedades. Existem produtores especializados que direcionam toda a sua atividade para a produção de leite, obtendo sua renda principal a partir da venda do produto e de animais do rebanho leiteiro. O manejo, as técnicas de alimentação e os cuidados com a saúde dos animais passaram por grandes transformações, visando maximizar a produtividade e a qualidade do leite. “A transição da produção colonial de subsistência para a produção comercial de leite envolveu conhecimento técnico, foco na comercialização e busca por eficiência produtiva, resultando em um setor leiteiro mais especializado e economicamente relevante”, ressalta o profissional.
Beskow conta que na produção colonial para subsistência as vacas tinham produtividade baixa e mínima exigência em termos de nutrição animal. À medida que a genética foi evoluindo e o Brasil começou a importar sêmen de touros melhoradores, houve um progresso gradual na qualidade genética do rebanho, o que demandou um cuidado maior com a alimentação, passando a cadeia a fazer uso de suplementação, concentrados e rações. “O principal avanço no setor foi a melhoria genética, que continua sendo superior ao que o homem consegue aportar de nutrição para o gado leiteiro, mas, embora tenha acompanhado com algum atraso as exigências da genética, a nutrição evoluiu consideravelmente em termos de práticas e alternativas disponíveis para atender a essas demandas. Contudo, segue sendo um dos principais desafios do setor, porque uma vez que as vacas são mal alimentadas não apenas produzem pouco, mas também têm dificuldades na reprodução”, analisa.
Além disso, surgiram diversas tecnologias e alternativas na produção de alimentos, tanto em pastagens perenes quanto anuais, bem como na produção de volumoso conservado, com destaque especial para a silagem de milho. “O uso de concentrados na alimentação se tornou obrigatório, mesmo que inicialmente fosse opcional para vacas que produziam até oito litros de leite. Atualmente, é impossível trabalhar com uma vaca que produza mais de 12 litros sem o uso de concentrados”, salienta o consultor.
Melhoramento genético
A genética expressa o potencial do que é possível aquele animal produzir combinado com o ambiente, que são as condições oferecidas para o animal se desenvolver. Nos últimos anos, o pesquisador diz que houve um aumento significativo desse potencial genético devido ao trabalho realizado com touros selecionados e à compra de sêmen pela cadeia produtiva.
Ele destaca que um marco importante nesse processo foi o surgimento das centrais de inseminação artificial, que possibilitaram a produção comercial de sêmen a preços acessíveis aos produtores. Conforme Beskow, o surgimento das centrais de inseminação, a disponibilidade de touros melhorados geneticamente, a venda de sêmen e o uso da inseminação artificial foram as grandes transformações que ocorreram no setor desde o início da colonização até os dias atuais.
Manejo e bem-estar animal

Pesquisador, consultor e sócio-diretor da Transpondo Pesquisa, Treinamento e Consultoria Agropecuária, Wagner Beskow – Foto: Divulgação
Beskow destaca a importância do manejo e do bem-estar animal, ressaltando que o gado leiteiro se tornou mais exigente ao longo do tempo. Anteriormente, as vacas eram mais rústicas, capazes de suportar condições desafiadoras, mas à medida que o rebanho leiteiro foi melhorado geneticamente, os produtores precisaram se preocupar mais com a alimentação e com as condições oferecidas aos animais.
No Brasil, a maioria dos produtores trabalha com sistemas baseados em pastagens, nos quais os animais ficam livres no pasto durante todo o ano. Neste modelo de produção, são distribuídos bebedouros pela propriedade e oferecido áreas de sombra para que as vacas reduzam sua temperatura corporal e desfrutem de conforto.
Por outro lado, existem também os sistemas de confinamento, que surgiram a partir dos anos 90 com o free stall e, nos últimos 15 anos, com o compost barn. “Essas técnicas de confinamento visam proporcionar conforto aos animais e requerem até mesmo o uso de ventiladores e aspersores de água para aumentar a umidade e reduzir a temperatura. Além disso, é importante oferecer camas limpas e confortáveis”, reitera Beskow.
Tecnologias adotadas no setor
As mudanças tecnológicas que ocorreram foram fundamentais para impulsionar o desenvolvimento da produção de leite brasileira, melhorar a eficiência, a qualidade e o bem-estar animal. Entre as principais, Beskow destaca a ordenha mecânica, que substituiu a ordenha manual, a qual ele considera um processo penoso, demorado e ineficiente.
Por sua vez, a introdução das ordenhadeiras do tipo balde ao pé acelerou significativamente o trabalho do pecuarista leiteiro, reduzindo o esforço das pessoas envolvidas no processo de coleta do leite, o que permitiu aos produtores ter um rebanho maior. Em seguida, surgiu o resfriador, que possibilitou o armazenamento refrigerado do leite. Anteriormente, os tarros de leite eram colocados à beira da estrada sem refrigeração adequada. “Depois com o resfriador de imersão foi uma revolução porque os tarros eram colocados em um tanque de água gelada, mantendo o leite refrigerado. Com isso, os caminhões passaram a entrar nas propriedades para coletar esses tarros, uma vez que o volume aumentou consideravelmente. E posteriormente, foi introduzido o resfriador a granel, no qual o leite é armazenado em um grande resfriador, eliminando a necessidade de tarros individuais”, enumera.
Mais recentemente surgiram os extratores automáticos, que permitem que a ordenha seja realizada por uma única pessoa. Esse equipamento detecta o fim do fluxo de leite e interrompe o vácuo, removendo as teteiras das vacas. “Esse equipamento se tornou fundamental nos dias atuais para os produtores aumentarem a produção de leite com menos mão de obra”, afirma o pesquisador, citando ainda que entre as tecnologias mais recentes estão os colares e chips digitais colocados nas vacas para monitorar seu comportamento, podendo detectar problemas de saúde e cios, por exemplo.
Em termos de redução de custos e praticidade, Beskow fala que as cercas elétricas são uma alternativa importante para segurar os animais na área delimitada, apresentando entre seus benefícios a construção fácil e rápida, facilidade no manejo e a versatilidade, sendo ideal para sistemas de integração.
E atualmente tem também os robôs que realizam a ordenha de forma autônoma. “No sistema de ordenha voluntária, as vacas escolhem quando se dirigir ao robô para serem ordenhadas. No entanto, esse sistema ainda é caro no Brasil devido à importação do equipamento, o que aumenta significativamente seu preço. A expectativa é que com a popularização esses sistemas se tornem mais acessíveis, pois o aumento das vendas possibilita a redução do valor unitário, tornando-os viáveis para outros produtores adotarem”, diz, esperançoso.
Qualidade do leite
A avaliação da qualidade do leite na pecuária moderna é realizada com base em critérios específicos, que evoluíram ao longo do tempo. Entre os principais utilizados para avaliar estão a contagem bacteriana (CBT), a contagem de células somáticas (CCS) e o teor de sólidos, como gordura e proteínas. “A contagem bacteriana é um indicador importante da higiene durante o processo de ordenha, armazenamento, transporte e industrialização do leite. Quanto menor a contagem bacteriana, melhor a qualidade do leite. A contagem de células somáticas é outro parâmetro relevante, pois reflete a saúde da glândula mamária da vaca. Uma CCS baixa indica uma glândula mamária saudável. Além disso, o teor de sólidos, em particular a porcentagem de gordura e proteínas no leite, também é um aspecto crucial da qualidade. Esses componentes afetam o rendimento do leite e suas propriedades sensoriais e nutricionais”, explica Bescow.
O pesquisador reforça que é fundamental que o leite seja ordenhado com higiene e não sofra nenhuma adulteração. “Os produtores são capacitados para garantir a excelência nesse processo, evitando a presença de resíduos ou aditivos indesejados. Caso ocorra algum desvio ou problema, o sistema de controle consegue detectá-lo e informar ao produtor para que o problema seja corrigido”, salienta e complementa: “No Brasil, o sistema de controle de qualidade do leite tem funcionado bem e vem sendo aprimorado a cada ano, garantindo produtos lácteos seguros e de alta qualidade para os consumidores”.
Tendências e demandas dos consumidores
Quando se trata das tendências e demandas dos consumidores, Beskow destaca que é preciso entender duas questões: a primeira é o que o consumidor realmente quer, conhece e procura; e a segunda o que dizem que ele quer, conhece e procura. “Todos os consumidores buscam qualidade e preço, porém o conhecimento sobre o que é um produto lácteo de qualidade ainda é superficial. É nesse momento que o produtor precisa de auxílio para mostrar como é o processo de produção do leite até chegar ao consumidor”, enfatiza.
De outro lado, o baixo poder aquisitivo de grande parcela da população é outro desafio que a cadeia precisa superar. Beskow também lembra que a partir da demanda de pessoas com intolerância à lactose ou que possuem alergia à proteína do leite a indústria passou a oferecer produtos como o leite tipo A2A2, obtido a partir de animais selecionados e capazes de produzir apenas a beta-caseína A2. “Por se acreditar que a gordura do leite pudesse ter efeitos negativos no organismo, a indústria passou a produzir o produto desnatado, processo pelo qual são removidas todas as gorduras encontradas nele. No entanto, hoje sabemos que a gordura do leite é saudável, tanto do ponto de vista nutricional quanto em relação ao ganho de peso, o que difere da percepção anterior”, sintetiza.
Em termos de perspectivas futuras, o pesquisador ressalta que os produtores enfrentam um grande desafio em relação à mão-de-obra, que está cada vez mais escassa e difícil de encontrar, especialmente com qualificação e disposição para permanecer na propriedade. Por esse motivo, busca-se automatizar o máximo possível, desde que o produtor tenha condições para investir nessa automação.
A questão do retorno financeiro da atividade está levando muitos produtores a sair da pecuária leiteira em razão da dificuldade de obter uma renda líquida que permita investimentos adequados para crescer na atividade. “Está ocorrendo uma saída acelerada de produtores de leite em todo o Brasil, especialmente na região Sul, local em que os produtores estão deixando a atividade de fornecimento de leite para a indústria devido à dificuldade de acompanhar o crescimento do setor em termos de volume mínimo viável para a coleta industrial e qualidade aceitável, além da viabilidade econômica”, diz demonstrando preocupação.
Por sua vez, Beskow vislumbra que a mesma situação deve começar a acontecer na indústria que, em razão do baixo volume de leite produzido, terá dificuldades em equilibrar as contas. “O mesmo que acontece com os produtores de leite eu prevejo que vai acontecer com as indústrias daqui para frente”, opina o consultor.
O Brasil não consegue exportar leite de forma significativa, pois o nosso o produto nacional é caro, o que o torna não competitivo no mercado internacional. Portanto, Beskow frisa que é essencial que o consumo interno seja estimulado, o que esbarra na renda dos consumidores, que segue deprimida no país. “Se houver uma recuperação na renda, com aumento no poder de compra do salário mínimo, aumento do emprego e ganhos reais de renda, o setor terá um crescimento promissor, do contrário vamos enfrentar um desafio significativo e até mesmo uma estagnação”, avalia.
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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite
Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).


Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.
Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.
Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:
• Compram a produção de pequenos agricultores;
• Processam alimentos, como leite e derivados;
• Garantem renda para famílias no campo.
Quem pode acessar o crédito
• A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.
• Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.
• Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.
Como funciona o financiamento
A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:
• Prazo total: até 6 anos para pagamento;
• Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;
• Juros: 8% ao ano;
• Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;
• Limite por cooperado: até R$ 90 mil.
Até quando vale
A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.
O que muda na prática
Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:
• Manter a compra da produção dos agricultores;
• Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;
• Garantir renda para famílias rurais;
• Preservar empregos no interior;
• Manter o abastecimento de alimentos.
A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental
Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.
Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria
Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.
Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos
Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.
O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte
Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”
O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.
Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.
De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.
Melhoramento acelera ganhos produtivos
O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote
Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.
A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.
Modelo de seleção no Rio Grande do Sul
Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.
De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.
Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.
Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.
Manejo e adaptação
Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural
Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.
A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.
Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.
Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira
A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.
O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.
Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.
Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.
O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.
A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.
Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.
Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.
Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.
A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.
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