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C.Vale: um pilar na produção de grãos e proteína animal no Brasil
As perspectivas da cooperativa para os próximos anos são promissoras, com foco especial em inovação e expansão, além da busca continua por novos associados em diferentes regiões, como ocorreu com a expansão para Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraguai.

Para se produzir proteína animal, é preciso produzir grãos. E muito! A C.Vale, uma das maiores cooperativas agroindustriais do Brasil, é referência no recebimento dessa matéria-prima essencial que torna o Brasil referência mundial na produção de carne, ovos e leite. Com nada menos que 27 mil produtores associados espalhados pelos estados do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e no Paraguai, a cooperativa se destaca pelo grande volume de produção de soja, milho, trigo e mandioca, além de leite, frango, peixes e suínos.
Em 2023, a cooperativa recebeu 50 milhões de sacas de soja, o que representa 1,9% da produção nacional, e 46 milhões de sacas de milho, perfazendo 2% da produção nacional. Ao todo, no ano passado a cooperativa recebeu o equivalente a 102 milhões de sacas, considerando trigo e mandioca.

Presidente da C.Vale, Alfredo Lang: “A industrialização nos possibilitou gerar mais renda, empregos e melhorar a rentabilidade da cooperativa”
Os grãos produzidos são armazenados em locais com temperatura e aeração controladas. A C.Vale dispõe de 142 unidades de recebimento que juntas possuem capacidade para armazenar 2.938.322 toneladas de produtos. Em 2023, a C.Vale aumentou em 13,21% a capacidade de armazenagem. Em uma década, a cooperativa ampliou sua capacidade de armazenagem em 85,08%.
Mas até figurar entre as gigantes do setor foi um longo caminho, que teve início em 1963. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da C.Vale, Alfredo Lang, relembra dos principais desafios enfrentados pelos agricultores que impulsionaram a mudança e a criação da cooperativa. As estradas, predominantemente de terra na época, representavam um obstáculo significativo para o transporte da produção agrícola aos armazéns, especialmente em períodos chuvosos. “Com o tempo, a renda e os tributos gerados pelo campo permitiram investimentos na melhoria dessas estradas. A erosão do solo também era um grande problema, que foi enfrentado com a implementação de microbacias e a adoção do plantio direto. Além disso, havia dificuldades no acesso a crédito e os frequentes problemas climáticos. Dependentes dos grãos, a renda dos agricultores caía drasticamente quando a safra era prejudicada” recorda Lang.
Determinados a driblar a ausência de crédito, a assistência técnica e a falta de infraestrutura adequada para armazenar e escoar a safra, o que dificultava a sustentabilidade da produção, 24 agricultores uniram forças e fundaram a Cooperativa Agrícola Mista de Palotina Ltda (Campal). Em 1969, a empresa começou a operar em Palotina, PR, com o recebimento de trigo. Um ano depois iniciou a construção do primeiro armazém da cooperativa, que ficou pronto no início de 1971.
O rápido crescimento da produção levou a Campal a iniciar a fase de estruturação física, começando pela construção de unidades para o recebimento de cereais em Palotina. Esse desenvolvimento acelerou a expansão da cooperativa para outros municípios do Oeste paranaense, levando os associados a modificar a razão social em 1974 para Cooperativa Agrícola Mista Vale do Piquiri Ltda (Coopervale). Em 1981, a empresa expandiu suas operações para o Mato Grosso e, em 1984, para Santa Catarina.
Nova era da cooperativa
No início da década de 90, a Coopervale desenvolveu um plano de modernização para tornar a empresa mais competitiva e agregar valor aos produtos primários, marcando o início de uma nova era para a cooperativa. Esta fase começou em outubro de 1997 com a inauguração do complexo avícola, permitindo aos cooperados produzir frango em grande escala. “A industrialização nos possibilitou gerar mais renda, empregos e melhorar a rentabilidade da cooperativa”, ressalta o presidente Alfredo Lang.
A industrialização foi ampliada em 2002 com o início das operações de uma amidonaria em Assis Chateaubriand, PR. Em 21 de novembro de 2003, a cooperativa passou a se chamar C.Vale – Cooperativa Agroindustrial, refletindo sua expansão e diversificação.
Em janeiro de 2004, a C.Vale iniciou a duplicação do abatedouro de frangos e a construção da indústria de termoprocessados de aves, obras que foram inauguradas em 2005. Com essas melhorias, a capacidade de produção aumentou de 150 mil para 600 mil aves/dia.
Outro marco histórico ocorreu em 2009, quando a C.Vale firmou um acordo com a Coopermibra, cooperativa com sede em Campo Mourão, PR, passando a atuar no Centro-Oeste paranaense administrando 19 unidades de recebimento de grãos da Coopermibra. Seis anos depois, em 2015, a C.Vale estabeleceu uma parceria com a Marasca, assumindo as operações de 26 unidades da cerealista gaúcha, expandindo suas atividades para o Rio Grande do Sul.
O processo de agroindustrialização avançou ainda mais em 2017 com a inauguração de um abatedouro de peixes, capaz de processar 150 mil tilápias por dia. Esse empreendimento marcou o início de um novo sistema de integração, gerando mais renda e empregos.
Em 2020, a cooperativa colocou em operação um segundo frigorífico de frangos. Localizada em Umuarama, PR, essa indústria foi implementada através de uma parceria com a Pluma Agroavícola e tem capacidade para abater 200 mil aves por dia. Nesse mesmo ano, a C.Vale incorporou a Agropar, cooperativa com sede em Assis Chateaubriand, PR, expandindo ainda mais suas operações.
Em 2021, a C.Vale incorporou a Cooatol Cooperativa Agroindustrial, de Toledo, PR, assumindo 19 unidades de negócio em nove municípios do Paraná e um em Santa Catarina. “Para otimizar a produção e o recebimento de grãos como soja e milho expandimos nossa rede de unidades de recebimento de grãos para melhor atender os produtores. Além disso, investimos em modernização, instalando tombadores para facilitar a descarga, introduzindo sementes adaptadas às peculiaridades de cada região e fortalecendo nossa assistência técnica, agora altamente especializada” detalha Lang, enfatizando: “A cooperação com grandes empresas nacionais e estrangeiras permitiu a transferência de tecnologias de ponta para os nossos agricultores, resultando em grandes avanços na produção e na qualidade do agronegócio”.
Em 2022, a C.Vale inaugurou a décima loja de sua rede de supermercados em Rio Brilhante, MS, expandindo uma rede que já conta com outras nove unidades no Paraná e no Mato Grosso.
Em parceria com a Pluma Agroavícola, a C.Vale colocou em operação um incubatório em Iporã, no Noroeste do Paraná, com capacidade de produção de 13,5 milhões de pintinhos por mês e um abatedouro de frangos com capacidade inicial de 200 mil aves/dia.
Em fevereiro de 2023, a C.Vale inaugurou a nova Unidade Produtora de Leitões Desmamados (UPD). Com 31.250 m² de área construída na região de Vila Floresta, interior de Palotina, a instalação aloja cinco mil matrizes, produzindo anualmente 160 mil leitões. Na fazenda Coodetec, uma nova Central de Recria para 22 mil leitões também foi construída.
Ainda em 2023, a cooperativa inaugurou uma esmagadora de soja com capacidade para processar 60 mil sacas por dia, concretizando um sonho dos primeiros associados após 60 anos de sua fundação. O empreendimento, que recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos entre 2021 e 2023, é a terceira maior esmagadora do Brasil em plantas industriais de uma única linha de produção e a primeira em nível tecnológico.
Logística de recebimento e armazenamento de grãos
A cooperativa tem investido em sua infraestrutura logística, contando com uma frota própria robusta e empregando tecnologias avançadas para o beneficiamento e conservação de grãos. Além de ampliar suas estruturas de armazenagem existentes, a C.Vale deu um grande passo com a inauguração da esmagadora de soja, projetada para receber até quatro milhões de sacas. “Este avanço fortalece a capacidade de processamento da cooperativa e também reduz a necessidade de construção de armazéns em unidades menores, otimizando recursos e melhorando nossa eficiência operacional” salienta Lang.
Integração com a produção de proteína animal
A utilização dos grãos na produção de rações representa um passo estratégico para a C.Vale. Segundo Lang, esta integração agrega valor aos grãos, transformando soja e milho em alimentos para a criação de carnes e leite, ao mesmo tempo em que permite à cooperativa comercializar produtos de maior valor agregado, proporcionando margens mais atrativas. “Essa abordagem além de otimizar a utilização dos recursos disponíveis, também fortalece a sustentabilidade econômica dos produtores associados, criando um ciclo virtuoso de benefícios para todos os envolvidos” reforça o presidente.
No entanto, os desafios na produção de proteína animal utilizando grãos como base para a alimentação são diversos, afirma Lang. Entre os principais, ele cita o desequilíbrio na oferta de grãos, que eleva de forma acentuada os custos de produção e impacta negativamente a rentabilidade do segmento de carnes. “A dependência do mercado externo e a volatilidade cambial também são questões críticas, pois nem sempre as variações cambiais conseguem compensar os custos elevados dos grãos” aponta o executivo.
Além disso, Lang reforça que há a necessidade de estimular o consumo no mercado interno, o que implica em melhorar o poder de compra dos consumidores nacionais. “Aumentos salariais, por exemplo, podem impulsionar o consumo de alimentos, incluindo carnes” relata.
Outro ponto de melhoria é a logística, especialmente no Oeste do Paraná, principal região produtora de proteína animal, que enfrenta desafios devido à distância dos portos, o que encarece significativamente os custos de transporte. “Estes são alguns dos principais desafios enfrentados, que demandam estratégias integradas e soluções inovadoras para garantir a sustentabilidade e a competitividade da produção de proteína animal pela cooperativa” salienta Lang.
Tecnologia e inovação
Para aprimorar a eficiência e a qualidade na produção de proteína animal, uma das inovações de maior impacto implementadas pela C.Vale, segundo Lang, foi a climatização dos aviários, tecnologia pioneira introduzida pela cooperativa no Brasil e agora amplamente adotada. “Esta inovação resultou em melhores índices de conversão alimentar, redução da mortalidade e aumento do bem-estar animal” ressalta.
Com a evolução da informatização, os equipamentos nos aviários foram modernizados, permitindo agora o monitoramento das condições ambientais através de dispositivos móveis como celulares e computadores. “Isso facilita o acesso do produtor a todas as informações necessárias de forma rápida e eficiente” evidencia.
Sustentabilidade e responsabilidade social
Entre as práticas sustentáveis adotadas pela C.Vale está a rastreabilidade dos grãos até o produto final disponível ao consumidor. “Isso permite que tanto consumidores quanto empresas que compram carne da C.Vale saibam exatamente quem produziu a soja ou o milho, quais produtos foram utilizados no manejo, as variedades ou híbridos plantados, e os medicamentos fornecidos aos frangos. Trata-se de um raio-x completo da cadeia produtiva” enfatiza Lang.
Além disso, a cooperativa investe no consumo de energia renovável, no uso racional da água e no reaproveitamento ou reciclagem de materiais, iniciativas que refletem o compromisso da C.Vale com a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental.
O presidente da C.Vale afirma que as práticas adotadas pela cooperativa promovem um melhor aproveitamento dos recursos naturais. “Essas iniciativas têm um efeito multiplicador, influenciando positivamente funcionários, associados e fornecedores a seguir os mesmos princípios sustentáveis” destaca, lembrando que para reforçar esse compromisso, a C.Vale criou uma assessoria de ESG dedicada exclusivamente a tratar dessas questões, assegurando que a sustentabilidade seja uma prioridade em todas as operações da cooperativa.
Desenvolvimento de funcionários e associados
A C.Vale tem um compromisso sólido com o desenvolvimento de seus associados, especialmente no que se refere à capacitação e ao acesso a novas tecnologias. A cooperativa investe de forma intensiva nessa área, oferecendo cursos e treinamentos que beneficiaram mais de 21 mil pessoas somente em 2023. “Todas as novas tecnologias são rigorosamente testadas antes de serem disponibilizadas para os associados utilizarem na produção comercial” pontua Lang, acrescentando: “Nossos funcionários participam constantemente de cursos e treinamentos para se manterem atualizados com as mudanças. Tudo o que eles aprendem e comprovam como avanço é repassado aos nossos associados. Isso é fundamental para nos manter competitivos, especialmente em um segmento tão concorrido como o de carnes”.
Essa estratégia de contínua atualização e transferência de conhecimento assegura que os associados da C.Vale estejam sempre na vanguarda das práticas agrícolas, garantindo maior eficiência e qualidade na produção.
Desafios atuais e futuros
O presidente da C.Vale destaca que entre os vários desafios enfrentados no setor de grãos e de produção de proteína animal um dos principais gargalos é a logística cara, seja pela distância dos portos ou por pedágios. Além disso, Lang menciona que problemas climáticos têm se tornado cada vez mais frequentes nos últimos anos, com estiagens severas que reduziram a produção de soja e milho, forçando a cooperativa a trazer grãos de regiões mais distantes. “Precisamos de mais recursos para subsídio ao seguro agrícola para que os produtores não percam capacidade de investimento no cultivo de grãos em face das adversidades climáticas”, reforça, enfatizando: “Outro ponto em que o país precisa avançar é na melhoria da renda para aumentarmos o consumo no mercado interno”.
Perspectivas
As perspectivas da C.Vale para os próximos anos são promissoras, com foco especial em inovação e expansão. A cooperativa continua a buscar novos associados em diferentes regiões, como ocorreu com a expansão para Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraguai.
Primando pela sustentabilidade em suas operações, Lang ressalta que um dos principais focos da cooperativa vai continuar sendo o manejo sustentável do solo. “Entendemos que é possível melhorar a produtividade tratando melhor o solo com estratégias simples e eficientes como aumentar sua fertilidade e a matéria orgânica, proteger contra chuvas excessivas e aumentar a capacidade de retenção de umidade e tudo isso sem a necessidade de desmatamento”.
Com a implementação de boas práticas, Lang acredita ser possível alcançar produtividades de até 100 sacas de soja por hectare, desde que as atividades sejam bem conduzidas e o clima coopere. “Isso nos dá condições de aumentar a produtividade e a produção sem necessidade de desmatamento de novas áreas. Com o benefício extra de melhorar a renda e a viabilidade do produtor” frisa.
O acesso é gratuito e a edição Especial de Cooperativismo pode ser lida na íntegra on-line clicando aqui. Boa leitura!

Notícias
Produtores do Paraná poderão ampliar subvenção ao seguro rural com boas práticas de manejo do solo
Projeto-piloto do governo federal oferece descontos maiores no prêmio do seguro para áreas enquadradas em níveis superiores de manejo agrícola.

Os produtores rurais paranaenses podem obter subvenção federal maior, com base em critérios de manejo e conservação do solo nas culturas da soja e milho safrinha. Para isso, as áreas agrícolas a serem seguradas devem ser enquadradas em Níveis de Manejo (NM) estipulados pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático Níveis de Manejo (ZarcNM). O projeto-piloto conta com recursos específicos para execução (R$ 1 milhão para cada cultura) e beneficia produtores rurais com percentual maior de desconto nos valores do seguro pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

Foto: Divulgação
A ferramenta considera critérios de qualidade do manejo de solo como redutor do risco climático de áreas agrícolas com maior capacidade de infiltração e retenção de água. O NM1 é a condição de risco base e o NM4, a melhor condição de cultivo que garante benefício maior.
“Em tempos de queda nas contratações de seguro rural, toda proposta que venha melhorar a subvenção ao prêmio é bem-vinda”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “Nossos técnicos estão à disposição para auxiliar os produtores rurais neste processo”, complementa.
Lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com metodologia da Embrapa, o ZarcNM teve o projeto-piloto iniciado na safra 2025/26, somente no Paraná, quando 28 áreas de produção foram classificadas em níveis de subvenção diferenciada. Na temporada 2026/27, o projeto iniciará a fase II, com possibilidade de participação dos produtores de soja do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, e milho safrinha no Paraná e Mato Grosso do Sul.
Como acessar
O primeiro passo para ter acesso à subvenção diferenciada é buscar a análise de solo em um laboratório credenciado no Estado. A metodologia das análises não difere das normalmente utilizadas, mas os laboratórios participantes conseguem registrar os dados da área diretamente no sistema (SiNM) da Embrapa.
“Antes mesmo de contratar o seguro, o produtor deve realizar a coleta da amostra de solo, seguindo as orientações do item 7, da Instrução Normativa 2/2025, do Mapa, e encaminhá-la a um laboratório credenciado, solicitando a análise Níveis de Manejo”, orienta Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep.
Na sequência, o produtor deve procurar um operador de contrato para providenciar a análise de sensoriamento remoto e incluir as informações no sistema da Embrapa. Então, a plataforma calcula o nível de manejo do talhão e as informações são repassadas pelo operador ao governo federal para que seja definida a subvenção conforme os seis indicadores avaliados para a definição do nível de manejo: tempo sem revolvimento do solo; cobertura do solo com palhada; saturação por bases (V%); teor de cálcio; saturação por alumínio; e histórico de diversidade de cultivos. Três são verificados pela análise de solo e os demais por ferramentas de sensoriamento remoto utilizadas pelos operadores especializados. Para os níveis 2, 3 ou 4, segundo a Embrapa, “áreas com declividade superior a 3% devem, obrigatoriamente, adotar semeadura em nível ou contorno em pelo menos 75% da gleba”.
“Para subvenção maior, ou seja, além do padrão definido pelo PSR, os níveis devem ser de 2 em diante”, comenta Ana Paula. Na cultura de milho segunda safra, para Nível de Manejo (NM) 1, a subvenção será de 40%; NM2, 45%; e para NMs 3 e 4, 50%. Já para a cultura de soja, os cálculos são 20% para NM1; 30%, NM2; 35%, NM3; e 40%, NM4.
A lista de operadores credenciados está disponível no site embrapa.br/rede-zarc-embrapa/niveis-de-manejo
Notícias
Tarifas dos EUA deve impactar 21% das exportações brasileiras
Governo avalia ampliar parcerias comerciais enquanto negocia para evitar a aplicação das tarifas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira (3), que o Brasil vai continuar buscando outros parceiros de negócios para minimizar os impactos da política comercial adotada pelos Estados Unidos. Lula coordenou reunião ministerial, no Palácio do Planalto, que ocorre em meio ao anúncio de novas taxações estadunidenses a produtos brasileiros.
“Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar. Não vamos ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro. O Brasil é dono do seu nariz. Isso aqui é um país democrático e soberano”, disse o presidente aos ministros de Estado.
“Nós resolvemos não adotar mais a política do vira-lata diante das grandes potências. Nós não somos melhores do que ninguém, mas não somos piores. Vamos respeitar todo mundo, mas queremos respeito”, acrescentou.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sugeriu, entre outras ações, a taxação de 25% sobre parte das importações brasileiras ao país. O relatório do USTR é resultado de uma investigação iniciada há um ano no governo de Donald Trump contra supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio com os EUA.
Entre outros temas, para justificar a medida, a instituição acusa o Pix de prejudicar “injustamente” empresas estadunidenses que prestam serviços de pagamento eletrônico, como operadoras de cartões de crédito, como MasterCard e Visa, e o Whatsapp Pay.
Lula afirmou que, agora, vai participar da reunião do G7 em junho na França, o que não estava nos planos. O evento reúne os líderes da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. O Brasil vai como convidado do anfitrião, o presidente francês, Emmanuel Macron.
“Eu nem ia no G7, agora eu vou. É preciso alguém tentar colocar ordem na casa e parar essa coisa de desmonte do multilateralismo, da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo, é reconstruindo a ONU”, disse Lula, reafirmando sua defesa de fortalecimento das Nações Unidas e da reforma do seu Conselho de Segurança.
Negociação

Foto: Divulgação/Porto de Santos
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a decisão tarifária dos Estados Unidos ameaça diretamente 21% do total das exportações brasileiras rumo ao mercado norte-americano.
O governo brasileiro e empresas prejudicadas poderão se manifestar sobre o relatório final da USTR até o dia 15 de julho, quando os EUA poderão passar a adotar “medidas corretivas” contra o Brasil.

Para Lula, a atitude dos estadunidenses é insensata já que havia uma negociação em curso entre os dois países. Ele lembrou que, em maio, acordou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um prazo de 30 dias para que se chegasse a um acordo sobre a questão comercial.
Os dois se reuniram na Casa Branca e, na ocasião, o presidente brasileiro entregou documentos que comprovavam a relação comercial favorável dos EUA com o Brasil. Segundo ele, nos últimos 15 anos, o superávit comercial dos Estados Unidos foi US$ 415 bilhões.“Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa ontem com a decisão deles”, disse Lula hoje.
Notícias
EUA propõem tarifas a 60 países, incluindo o Brasil
Escritório de Comércio norte-americano sugere sobretaxas de até 12,5% sobre importações e abre consulta pública antes da decisão final.

O governo dos Estados Unidos deu mais um passo na ampliação de sua política comercial protecionista ao propor novas tarifas sobre produtos importados de 60 países, entre eles o Brasil. A iniciativa foi anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e prevê uma sobretaxa de até 12,5% para produtos brasileiros que entram no mercado norte-americano.

Foto: Divulgação
A proposta está vinculada a investigações conduzidas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974, instrumento legal que permite ao governo norte-americano apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses comerciais do país e, eventualmente, adotar medidas de retaliação.
Segundo o USTR, a nova rodada de tarifas está relacionada à avaliação das políticas adotadas pelos países investigados para prevenir e combater o comércio de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Na avaliação do órgão, falhas nesses mecanismos podem criar distorções competitivas e restringir o comércio norte-americano.
Brasil entre os países com maior alíquota proposta
Enquanto parte dos países investigados foi enquadrada em uma alíquota adicional de 10%, o Brasil aparece no grupo sujeito à tarifa de 12,5%.
A proposta brasileira está inserida em um conjunto de medidas que alcança outros 44 países analisados pelo governo

Foto: Divulgação
dos Estados Unidos. Já Canadá, União Europeia, México, Indonésia, Paquistão, Argentina, Bangladesh, Camboja, Guatemala, Malásia, Taiwan, Equador e El Salvador integram o grupo que poderá ser submetido à tarifa adicional de 10%.
Caso seja implementada, a medida poderá aumentar os custos de acesso ao mercado norte-americano para diversos produtos exportados pelo Brasil, reduzindo a competitividade frente a concorrentes internacionais.
Instrumento de pressão comercial
A Seção 301 é considerada uma das principais ferramentas de política comercial dos Estados Unidos. O mecanismo ganhou destaque nos últimos anos durante disputas comerciais com diferentes parceiros internacionais e permite ao governo norte-americano impor restrições tarifárias mesmo sem a intermediação de organismos multilaterais.
A atual iniciativa também ocorre em um contexto de retomada de medidas emergenciais defendidas pelo governo Donald Trump. Parte dessas tarifas havia sido anulada anteriormente por decisão da Suprema Corte norte-americana, levando a administração federal a buscar novos caminhos regulatórios para restabelecê-las.
Consulta pública antes da decisão final
As tarifas ainda não estão em vigor. O USTR abriu período de consulta pública para receber contribuições de empresas, entidades e governos potencialmente afetados pelas medidas.
As manifestações poderão ser apresentadas até 06 de julho. No dia seguinte, 07 de julho, está prevista uma audiência pública para discussão das propostas.
Somente após a análise das contribuições o governo norte-americano decidirá se as tarifas serão implementadas e em quais condições, etapa que será acompanhada com atenção por exportadores e setores produtivos dos países envolvidos.



