Colunistas
Burocracia e restrições pela União Europeia ameaçam produção de alimentos e segurança alimentar
Análise é do diretor executivo da CropLife Portugal, João Cardoso, sobre desafios e oportunidades do agronegócio global e a legislação europeia.

A rigidez para aprovação e renovação de substâncias químicas para a proteção agrícola na União Europeia coloca em risco a produção de alimentos e a segurança alimentar no continente. A análise foi feita pelo diretor executivo da CropLife Portugal, João Cardoso, sobre desafios e oportunidades do agronegócio global, legislação europeia e exportação dos países da América do Sul, inclusive o Brasil. Segundo Cardoso, desde 2019 não é aprovada pela União Europeia nenhuma nova substância ativa de base química.
O executivo comentou que, desde 2015, metade de todas as substâncias químicas que entraram em processo de revisão na Europa foi retirada do mercado ou teve seu uso restrito, tirando do agricultor ferramentas necessárias para garantir a produtividade. Mesmo depois de aprovados na Europa, os ativos químicos para a agricultura passam obrigatoriamente por uma revisão a cada dez anos, explicou.
Castro citou que, mesmo com todas as restrições, a maior parte das substâncias disponíveis para a proteção das lavouras na Europa ainda são químicas. “Das 439 substâncias ativas que temos hoje no mercado europeu, 347 são substâncias de base química, 67 biológicas e 25 são substâncias de base bioquímica”, explicou. De modo geral, ele apontou que vale também para o setor agrícola a máxima da medicina de que a diferença entre o remédio que cura e o veneno que mata é a dose.
Segundo Cardoso, a diversidade dos 67 produtos biológicos disponíveis é limitada, uma vez que muitos deles são variantes da mesma bactéria. “Temos uma grande predominância de substâncias ativas de base química em uso. Ainda há pouca variabilidade de substâncias biológicas”, afirmou.
Nesse cenário, avaliando perspectivas futuras, Cardoso citou que os melhores caminhos são o desenvolvimento de novas substâncias biológicas e a manutenção no mercado das substâncias químicas já aprovadas. “Estamos aqui num paradigma em que há uma saída muito grande de substâncias ativas de base química e não há reposição com novas substâncias. Os agricultores começam a ter bastante dificuldade em gerir resistências, novas pragas e doenças, porque não há uma reposição um por um de cada ativo retirado do mercado”, evidenciou.
Segurança alimentar
O regulamento em vigor na Europa (107-2009) para avaliação regulatória das substâncias ativas engloba a toxicologia, a exposição do operador e a exposição do ambiente. Segundo Castro, esse processo tem ultrapassado a análise de risco, elevando-a ao perigo. “Hoje os critérios de avaliação na Europa são baseados no perigo e não nos riscos. Temos que trabalhar a segurança alimentar e a tecnologia de aplicação do produto. A avaliação de risco na Europa não casa com a realidade. É um grande desafio”, afirmou.

O executivo defendeu que a adoção de novas tecnologias reduzem notavelmente os riscos dos produtos químicos. Ele acrescentou que, nesse aspecto, a União Europeia está bastante defasada. “Estudos mostram que, no Brasil, 55% dos agricultores inquiridos já incluíram uma ou mais tecnologias digitais na sua operação, nos Estados Unidos temos 60%, a maior porcentagem. Os estudos mostram que na Europa ainda estamos nos 25%”, expôs.
Segundo ele, a União Europeia precisa se espelhar no Brasil para proteger melhor seus cultivos. “As práticas que poderemos trazer do Brasil incluem a experiência do manejo do solo, que está a ser bastante estudada pela parte da agricultura de conservação ou agricultura regenerativa, como hoje chamamos, e que pode ser uma excelente prática agronômica no presente e para o futuro da agricultura europeia”, salientou Cardoso, citando culturas mais extensivas, como cereais e milho. Nessas culturas, acrescentou, o Brasil é uma das grandes ou a maior potência mundial.
O executivo citou ainda a utilização de drones pelos agricultores brasileiros. “Nós, Europa, somos altamente desenvolvidos em nível econômico, somos o continente com mais exportações agroalimentares, mas ao nível da produção agrícola estamos claramente a ficar para trás”, ressaltou Cardoso, citando as novas técnicas genômicas: “O Reino Unido fez em 2023 o seu enquadramento regulamentar para as novas técnicas genômicas. Portanto, até mesmo os nossos vizinhos britânicos nos estão a passar à frente. Há que olhar com seriedade para esse enquadramento, até porque o contexto político internacional, infelizmente, não é o melhor e a segurança alimentar deve ser assegurada, é um assunto muito sério”, destacou.
Perdas econômicas

A retirada de ferramentas para a proteção das lavouras resulta em perdas econômicas, avaliou Cardoso, diante de desafios como alterações climáticas, novas e velhas pragas e doenças. “Com a ausência de ferramentas, arriscamos a ficar cada vez mais para trás, e o nosso mercado tem que ser forte”, alegou.
Por sua vez, o gerente de Marketing da Ascenza Portugal, Davi Silva, destacou que a competitividade econômica de uma União Europeia inclui soberania alimentar. “Para quem tanto se preocupa com a disponibilidade de alimentos, é preciso ter alimentos realmente de qualidade e a preços que sejam acessíveis às famílias. No fim da linha, é isso que está em causa, não só a qualidade, mas também a acessibilidade a bens alimentares seguros e de qualidade, isso é fundamental”, avaliou.
Custo do desenvolvimento
O desenvolvimento e aprovação de uma nova substância ativa para a agricultura percorre um longo caminho. Segundo um estudo recente, desenvolver um novo produto demora 12 anos e custa US$ 301 milhões. E esse é um processo cada vez mais caro. Nesse percurso são realizados 150 estudos de segurança em média nas diversas fases de aprovação do produto. “É um dossiê muito pesado e complexo”, afirmou Cardoso.
A primeira fase é a avaliação da substância ativa, feita pela Autoridade Europeia da Segurança Alimentar, a EFSA, que analisa todos os riscos, desde o operador que vai utilizá-la até o consumidor, através dos limites máximos de resíduos (LMR), que são amplamente estudados e depois têm um coeficiente de segurança de no mínimo 100 vezes para aquilo que é cientificamente comprovado.
País a país
Após a primeira fase de avaliação da substância ativa, ela passa para a avaliação do produto formado, analisado por grupos de países da europa e, finalmente, o produto precisa ser avaliado e autorizado pelas autoridades nacionais de cada país.
Os produtos não têm livre circulação na União Europeia, têm que ser registrados em cada país. Há vários níveis de aprovação desde o estágio inicial da substância ativa, passando pelo legislativo da Comissão Europeia, em seguida pelos estados membros da UE e depois por cada país antes de estar disponível para o agricultor.
Os investimentos para aprovação do produto formulado, país a país, estão crescendo exponencialmente. “Temos que manter e conservar os produtos que já estão registrados”, alegou.
Conforme Cardoso, dois terços dos produtos disponíveis na Europa entram em revisão nos próximos dois anos. “A Comissão Europeia tem que olhar para os dados de forma séria e realista. Dar para a indústria de alimentos a mesma atenção que dá para a indústria tecnológica”, pontuou.
Em 10 anos, quando a autorização precisa ser renovada, as guias de aprovação vão sendo atualizadas com novos critérios. “A equação de risco cada vez mais vai para o perigo do que para a exposição”, disse Cardoso.

Diretor executivo da CropLife Portugal, João Cardoso: “Temos uma grande predominância de substâncias ativas de base química em uso. Ainda há pouca variabilidade de substâncias biológicas” – Foto: Divulgação/Ascenza
A fabricante decide, a partir dos novos guias, se vale a pena renovar a autorização do produto. O custo da renovação gira em torno de US$ 15 milhões, conforme Cardoso. “E é de se esperar que esse valor aumente também”, pondera Cardoso, enfatizando que há casos em que são solicitados estudos adicionais do produto para a renovação, o que torna o processo ainda mais oneroso.
Substâncias que saem do mercado porque não são aprovadas podem causar um grande problema fitossanitário porque a cultura fica descoberta de proteção. Cardoso citou como exemplo o arroz, em que há dificuldades para obter herbicidas com substâncias ativas disponíveis. “Por isso precisamos manter o máximo possível as substâncias na Europa. Não podemos nos dar ao luxo de não ter essa substância para proteger o cultivo. Se os critérios de aprovação fossem mais realistas, teríamos mais possibilidades de colocar novas moléculas no mercado”, mencionou, lembrando que, em alguns casos, os produtos enfrentam tantas restrições na Europa que, embora sejam seguros para a agricultura e para o consumidor, os investimentos são altos e não compensa para o fabricante mantê-los no mercado.
Sustentabilidade
Os desafios de sustentabilidade são grandes, reflexos do contexto contemporâneo, comentou Cardoso. “A Comissão Europeia está a tomar posse para um novo mandato, no qual a ciência e a tecnologia são dos grandes reptos e nós, enquanto Ciência para a Proteção das Plantas, temos grandes responsabilidade em inovação e desenvolvimento para a produção dos alimentos”, disse.

Colunistas
Lista de exceções reduz efeitos da nova tarifa dos Estados Unidos sobre o agro brasileiro
Medida mantém a competitividade de importantes produtos exportados pelo Brasil no mercado norte-americano.

Após semanas de expectativa, o governo dos Estados Unidos confirmou, no dia 15 de julho, a aplicação de uma tarifa adicional mínima de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. Para os setores de frutas, legumes e verduras (FLV) e café, contudo, o impacto imediato tende a ser relativamente limitado. Isso porque grande parte dos principais produtos exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano permaneceu na lista de exceções divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), preservando a competitividade de importantes cadeias do agronegócio brasileiro.
Entre os produtos isentos estão laranja, limão, manga, mamão, abacaxi, banana, abacate, goiaba, kiwi, coco e diferentes tipos de castanhas, além do suco de laranja, do café verde, do café torrado e do café solúvel sem aromatização, bem como diversos produtos processados à base de frutas. A decisão reduz significativamente os impactos diretos da medida sobre as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.
Suco de laranja: principal beneficiado

Artigo escrito por Margarete Boteon, professora da Esalq/USP e coordenadora da área hortifrúti do Cepea.
O principal destaque positivo é o suco de laranja, cuja participação na pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos permanece estratégica. Na safra 2025/26, os Estados Unidos responderam por cerca de 45% de todo o volume exportado pelo Brasil, participação semelhante à da União Europeia, consolidando-se como um dos principais destinos do produto.
Na mesma temporada, as exportações brasileiras de suco não concentrado (NFC) para os Estados Unidos cresceram cerca de 15%. Considerando-se o conjunto formado pelo suco concentrado congelado (FCOJ) e pelos demais sucos de laranja, os embarques destinados ao mercado norte-americano avançaram 18,3% em relação à safra anterior, impulsionados sobretudo pelo aumento das compras de FCOJ. A manutenção desses produtos na lista de exceções preserva a competitividade brasileira em um mercado responsável por aproximadamente 45% das exportações nacionais de suco de laranja. Embora o suco brasileiro já esteja historicamente sujeito à tarifa de importação nos Estados Unidos, a não aplicação da sobretaxa adicional de 25% evita uma perda ainda maior de competitividade frente aos concorrentes. A decisão também beneficia outros derivados da citricultura, como a polpa cítrica e os óleos essenciais, que, segundo a CitrusBR, em sua maioria também foram incluídos entre os produtos isentos da tarifa adicional.
Café: inclusão do solúvel reduz risco ao setor

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A decisão também foi favorável ao setor cafeeiro. Em relação à proposta inicial apresentada pelo USTR, a versão final ampliou a lista de exceções, incluindo não apenas o café verde, mas também o torrado e o solúvel sem aromatização. Com isso, praticamente toda a pauta exportadora brasileira de café destinada aos Estados Unidos permaneceu fora da tarifa adicional de 25%.
A preservação dessas categorias é particularmente importante porque os Estados Unidos seguem entre os principais compradores do café brasileiro. Segundo o Cecafé, o Brasil exportou 38,46 milhões de sacas de 60 kg na temporada 2025/26, volume 15,7% inferior ao ciclo anterior em razão da menor oferta nacional. Ainda assim, a receita cambial atingiu US$ 14,6 bilhões, a segundo maior da série histórica, sustentada pelos elevados preços internacionais.
Embora o café brasileiro continue sujeito às oscilações da política comercial norte-americana, a inclusão do café torrado e, principalmente, do café solúvel entre os produtos isentos elimina um dos principais riscos apontados pelo setor durante a consulta pública conduzida pelo USTR. A decisão preserva a competitividade das exportações brasileiras e reduz potenciais impactos sobre a indústria norte-americana, altamente dependente do abastecimento externo.
Uva: principal preocupação

Fotos: Cláudio Neves
No segmento de frutas frescas, a principal preocupação concentra-se na uva. Os códigos da posição HTSUS 0806, referentes a uvas frescas e secas, não aparecem na relação oficial de exceções consultada. Caso essa condição seja mantida na versão definitiva da medida, a uva brasileira ficará sujeita à tarifa adicional de 25%.
Ainda assim, o impacto econômico tende a ser mais restrito do que em outros segmentos. As exportações brasileiras de uva para os Estados Unidos já vinham perdendo competitividade desde a imposição da tarifação anterior, reduzindo significativamente a participação desse destino nas vendas externas da fruta. Embora o mercado norte-americano representasse uma importante janela comercial, a Europa continua sendo o principal destino da uva brasileira. No entanto, a limitação dos embarques para os Estados Unidos pode impedir uma expansão dos embarques.
Cenário geral

De forma geral, a decisão do governo norte-americano preservou os principais produtos da pauta exportadora brasileira de frutas, suco de laranja e café. A permanência desses itens na lista de exceções reduz os impactos imediatos da medida sobre o agronegócio e evita perdas de competitividade em mercados considerados estratégicos para o Brasil.
Por outro lado, setores que permaneceram fora da lista, como o da uva, seguem acompanhando a regulamentação definitiva da medida e seus possíveis desdobramentos sobre o comércio bilateral.
Ressalva: Esta análise foi elaborada com base no Anexo oficial publicado pelo USTR em 4 de junho de 2026, que apresentou a proposta da medida e a relação detalhada dos códigos HTSUS inicialmente isentos, complementada pelas informações divulgadas após a decisão anunciada em 15 de julho de 2026. A confirmação definitiva para cada produto depende da publicação do Anexo consolidado correspondente à versão final da norma. Até o momento, não foi identificada evidência oficial de que a posição HTSUS 0806 (uvas frescas e secas) tenha sido incluída entre as exceções.
Colunistas
Como o Brasil perdeu influência comercial
Sobretaxa imposta pelos Estados Unidos evidencia que comércio, segurança e política passaram a caminhar juntos.

O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.
Diferentemente do tarifaço de 2025, derrubado por seu vício político, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas”, misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Artigo escrito por Márcio Coimbra, mestre em Ação Política, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia.
Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade, tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.
Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.
A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.
Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e, onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Brasil
Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções, esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e à articulação direta, não a notas de repúdio.
A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Nova cota da China pode transformar o ciclo da pecuária brasileira
Mudança nas regras de importação deve influenciar o ritmo das exportações, a oferta de animais para abate e o comportamento da arroba.

A introdução de limites às importações chinesas de carne bovina representa uma mudança estrutural para a pecuária brasileira. Mais do que uma restrição comercial, a medida altera o funcionamento do mercado, interfere na formação do preço do boi gordo e pode modificar a intensidade e a duração das fases do ciclo pecuário nacional.
A partir de 2026, a China passou a adotar cotas específicas para seus principais fornecedores de carne bovina. Para o Brasil, o volume estabelecido foi de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas em 2026, com elevação gradual para 1,128 milhão em 2027 e 1,151 milhão de toneladas em 2028. As importações que ultrapassarem esses limites ficam sujeitas a uma tarifa adicional de 55%, reduzindo significativamente a competitividade do produto que exceder a cota.

Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea.
O impacto é relevante porque a China se consolidou como o principal destino da carne bovina brasileira. Em 2025, aproximadamente 48% das exportações brasileiras do produto foram destinadas ao mercado chinês. No mesmo ano, os embarques brasileiros de carne bovina fresca para aquele país alcançaram cerca de 1,648 milhão de toneladas, bem acima da atual cota.
A diferença entre o volume historicamente exportado e a nova limitação comercial cria um desafio que vai além dos frigoríficos exportadores. Seus efeitos tendem a percorrer toda a cadeia, atingindo a indústria, o mercado de reposição, os sistemas de recria e engorda e, finalmente, as decisões de retenção ou descarte de matrizes.
Durante muitos anos, a formação do preço do boi gordo brasileiro esteve associada principalmente à oferta doméstica de animais terminados no primeiro e segundo semestres – caracterizando a safra e entressafra de bovinos –, ao consumo interno, ao nível dos estoques da indústria e às diferentes fases do ciclo pecuário.
Esses fatores continuam importantes. Entretanto, o crescimento de animais terminados no confinamento, mas, principalmente, o avanço das exportações e a crescente participação chinesa introduziram um componente adicional: a demanda externa passou a exercer influência direta sobre o valor da matéria-prima no Brasil.

A China tornou-se, em muitos momentos, a compradora marginal da carne bovina brasileira. Em outras palavras, passou a absorver volumes adicionais de produção e a influenciar o preço necessário para equilibrar oferta e demanda no mercado interno.
Quando as compras chinesas estão aquecidas, frigoríficos habilitados para exportar aumentam sua necessidade de matéria-prima. A maior competição por animais aptos ao mercado chinês fortalece as escalas de abate e pode elevar o preço do chamado “boi China”, com reflexos sobre outras categorias de bovinos.
Sazonalidade do preço do boi gordo
Historicamente, o comportamento dos preços do boi gordo no Brasil apresentava uma sazonalidade relativamente bem definida. No primeiro semestre, especialmente entre fevereiro e maio, predominava uma menor oferta de animais terminados, reflexo da entressafra das pastagens. Nesse período, a disputa da indústria por matéria-prima costumava sustentar preços mais elevados da arroba.

Foto: Ana Maio
Com a chegada do período seco, entre junho e setembro, aumentava a disponibilidade de animais provenientes da terminação em pasto e, mais recentemente, do confinamento de primeiro giro. A maior oferta reduzia o poder de negociação dos pecuaristas, pressionando os preços. No último trimestre do ano, a intensificação do confinamento, associada ao aumento do consumo doméstico em função das festas de fim de ano, contribuía para um novo ajuste no mercado, embora esse movimento variasse conforme a intensidade da oferta.
Esse padrão sazonal era determinado sobretudo por fatores produtivos, como a disponibilidade de pastagens, as condições climáticas, o calendário de confinamento e a própria dinâmica do ciclo pecuário.
Entretanto, a implantação da cota chinesa em 2026 até 2028 tende a modificar esse comportamento. Além da sazonalidade biológica da oferta de animais, o mercado passa a incorporar uma sazonalidade comercial relacionada ao ritmo de utilização da cota anual de exportação.
Nos primeiros meses de vigência da cota, a indústria exportadora tende a intensificar os embarques para aproveitar o acesso ao mercado chinês sem incidência da tarifa adicional. Esse movimento aumenta a competição entre frigoríficos por animais aptos à exportação, podendo antecipar valorizações da arroba que anteriormente ocorreriam apenas em momentos de menor oferta.
À medida que a utilização da cota se aproxima do limite anual, entretanto, a demanda dos frigoríficos exportadores tende a perder intensidade. Caso a tarifa adicional inviabilize economicamente novos embarques para a China, parte da carne destinada ao mercado externo poderá ser redirecionada ao mercado doméstico ou a mercados alternativos, reduzindo a capacidade de pagamento da indústria pelo boi gordo.

Foto: Divulgação
Como consequência, a tradicional curva sazonal da arroba pode sofrer alterações importantes. O mercado deixa de responder exclusivamente à disponibilidade física de animais e passa a incorporar expectativas relacionadas ao comércio internacional. Em determinados anos, mesmo diante de uma oferta relativamente ajustada, a proximidade do esgotamento da cota poderá limitar novas altas de preços. Em outros, caso o ritmo de exportação seja inferior ao esperado ou a cota seja ampliada, esse efeito poderá ser atenuado.
Em outras palavras, a sazonalidade do boi gordo deixa de ser explicada apenas pela biologia do rebanho e pelo calendário de produção. A partir da implantação da cota chinesa, a evolução dos preços passa a refletir também o comportamento da demanda internacional, transformando o calendário das exportações em um novo fator determinante da formação da arroba no Brasil.
Os efeitos sobre o ciclo pecuário
O ciclo pecuário tradicional é determinado pelo tempo necessário para ajustar a oferta de bovinos. Quando os preços do boi gordo e do bezerro estão elevados, os produtores tendem a reter mais fêmeas para reprodução. Essa decisão reduz inicialmente a oferta de animais para abate, mas amplia a produção de bezerros nos anos seguintes.
Com a entrada das novas gerações no sistema produtivo, aumenta a oferta de animais para recria, engorda e abate. A maior disponibilidade pressiona os preços, reduz a rentabilidade e estimula o descarte de matrizes. O aumento do abate de fêmeas, por sua vez, diminui novamente a capacidade futura de produção, preparando a fase seguinte de valorização.

A cota chinesa pode interferir nesse mecanismo ao produzir choques adicionais de demanda. Caso os embarques diminuam de forma expressiva após o preenchimento da cota, a indústria poderá enfrentar maior disponibilidade de carne e de animais no mercado doméstico. Isso tende a enfraquecer as escalas de compra e aumentar o poder de negociação dos frigoríficos.
A queda ou a desaceleração dos preços do boi gordo afeta rapidamente o mercado de reposição. O pecuarista de recria e engorda passa a pagar menos pelo bezerro ou pelo boi magro, pois sua receita esperada com a venda do animal terminado diminui.
Na atividade de cria, porém, o ajuste ocorre mais lentamente. Uma redução persistente no preço do bezerro pode estimular o aumento do descarte de vacas e novilhas. No curto prazo, o maior abate de fêmeas amplia a produção de carne e reforça a pressão baixista. No médio prazo, entretanto, reduz a quantidade de matrizes e limita a oferta futura de bezerros.
Dessa forma, a cota pode aprofundar a fase de baixa do ciclo pecuário, especialmente quando coincidir com um período de elevada oferta de animais e aumento do abate de fêmeas.
Por outro lado, seus efeitos não são necessariamente permanentes. Se o Brasil conseguir ampliar as vendas para outros mercados, aumentar o valor médio da carne exportada ou negociar a expansão da cota chinesa, parte da pressão poderá ser absorvida.
Da formação doméstica à paridade de exportação
A formação do preço do boi gordo tornou-se mais complexa. O mercado deixou de responder apenas ao equilíbrio entre oferta de animais e consumo doméstico e passou a incorporar uma espécie de paridade de exportação.
De forma simplificada, a capacidade de pagamento da indústria exportadora depende do valor obtido com a venda da carne no exterior, convertido pela taxa de câmbio, descontados os custos de processamento, logística, tributos e margens operacionais.

Nesse contexto, uma valorização do dólar geralmente aumenta a receita em Reais das exportações e pode ampliar a capacidade de pagamento dos frigoríficos. Da mesma forma, preços internacionais mais elevados tendem a favorecer a arroba.
Entretanto, a cota introduz uma restrição adicional. Mesmo com câmbio favorável e preços externos atrativos, o frigorífico pode não conseguir ampliar indefinidamente as exportações para a China. Depois do preenchimento do limite, a tarifa adicional reduz a paridade de exportação e, consequentemente, a capacidade de pagamento pela matéria-prima.
A fórmula econômica passa a depender não apenas do preço internacional e do câmbio, mas também da disponibilidade de espaço dentro da cota.
Enquanto houver cota disponível, a China pode continuar sustentando a demanda e o preço do boi gordo. Quando o limite estiver próximo de ser atingido, o valor econômico da exportação adicional diminui e o mercado interno volta a ganhar maior importância na determinação dos preços.
A cota chinesa não encerra a relevância da China para a pecuária brasileira. O país asiático continuará sendo um comprador central da carne bovina nacional. Entretanto, a existência de um limite anual altera a dinâmica comercial e cria uma nova variável para a formação do preço do boi gordo.

Foto: Thais Rodrigues de Sousa
O mercado passa a conviver com uma demanda exportadora potencialmente mais concentrada no início do ano, risco de desaceleração após o preenchimento da cota e maior necessidade de redirecionamento da produção.
No ciclo pecuário, a restrição pode intensificar períodos de baixa, estimular o descarte de matrizes e acelerar ajustes na oferta futura de bezerros. Na formação de preços, a disponibilidade da cota passa a atuar ao lado da oferta de animais, do consumo doméstico, do câmbio e dos preços internacionais.
A principal transformação está na perda de linearidade do mercado. Um câmbio favorável ou um preço internacional elevado já não garantem, isoladamente, maior capacidade de pagamento pela arroba. Será necessário considerar também quanto da cota ainda está disponível e qual mercado poderá absorver a carne adicional.
Nesse novo ambiente, informação, diversificação comercial e gestão de risco deixam de ser apenas vantagens competitivas. Tornam-se elementos fundamentais para proteger margens e orientar decisões em todos os elos da pecuária brasileira.



